sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

2x Augusto Boal


Boal fala de Guarnieri

Meus caros, na cobertura que a imprensa deu ao falecimento de Gianfrancesco Guarnieri, senti uma falta imensa do depoimento de Augusto Boal, seu grande companheiro de trabalho e de lutas, e com quem Guarna compôs Arena Conta Zumbi e Arena Conta Tiradentes, duas das obras mais fundamentais de nosso teatro moderno.

Os dois se conheceram em 1956. Boal voltava dos Estados Unidos, onde tivera aulas de teatro com John Gassner (1902/1967) na Escola de Arte Dramática da Universidade de Columbia, e no Actor's Studio. Por intermédio de Sábato Magaldi foi para o Arena, onde José Renato procurava alguém novo para dividir com ele as funções de diretor do grupo.


Guarnieri, na famosa
foto de Ratos e Homens

O primeiro trabalho que reuniu os dois foi Ratos e Homens, de John Steinbeck, tradução de Brutus Pedreira, estreado em setembro de 56. O papel de George rendeu a Guarnieri o prêmio APCA de ator revelação daquele ano. E os dois não pararam mais até 1970, quando Boal dirigiu Guarnieri em A Resistível Ascensão de Arturo Ui, de Brecht. É importante, inclusive, deixar devidamente consignado que Boal estava inicialmente cotado para dirigir Eles não usam Black-Tie, da qual chegou até a participar da escolha de elenco. Só não dirigiu pq o Arena andava por uma de suas crises bravas financeiras, e Boal foi obrigado a aceitar o salário que lhe ofereciam no Teatro Moderno, de Danilo Bastos (marido de Dercy Gonçalves na época), para dirigir Society em Baby-Doll de Henrique Pongetti, com Odette Lara. Assim, segundo o próprio Boal, "ensaiei Baby-Doll pensando no Black-Tie" que acabou brilhantemente dirigido por José Renato.


Boal e Guarnieri, tal como aparecem no programa da peça Ratos e Homens (1956)

Seria inútil querer escrever rapidamente sobre a parceria desses dois grandes mestres, talvez a maior do teatro brasileiro. Ela merece um tópico único que escreverei em breve. Neste, trago a vocês a mensagem que Boal generosamente escreveu, a meu pedido, sobre seu amigo e parceiro, em 1° de agosto de 2006, dez dias após o falecimento de Guarnieri.
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Caro Bernardo,

o fato, que você assinala, de que a imprensa nada publicou sobre o meu companheirismo com o Guarnieri talvez se justifique pelo fato de que, no dia em que eu soube da sua morte e em todo aquele fim de semana, não respondi a nenhum telefonema, não saí de casa, e não quis conversa com ninguém. A dor me impôs o silêncio.

Dizem que, imediatamente antes da morte, a pessoa vê toda a sua vida voltar à memória - ou, pelo menos, os momentos mais importantes e emocionantes da sua vida. Foi o Guarnieri que morreu, mas fui eu que vi todos os momentos da nossa vida artística e da nossa grande amizade muito fraterna voltarem com intensidade à minha memória desgovernada.

Guarnieri foi o ator principal do primeiro espetáculo que eu dirigi como profissional no Teatro de Arena, RATOS E HOMENS, e foi também o ARTURO UI da peça do Bertolt Brecht, no último espetáculo que dirigi em São Paulo. Essa coincidência diz alguma coisa mais, além de parecer coincidência.

Os dois, no programa de Arena Conta Tiradentes (1967)

Guarnieri e eu escrevemos duas peças, dois musicais, que tiveram uma enorme influência no teatro brasileiro; quando digo teatro, digo atores, diretores e escritores, e digo público. ARENA CONTA ZUMBI não inaugurou apenas um estilo de se fazer teatro e música, foi além: foi uma madura e responsável declaração de identidade, grito de rebeldia contra o autoritarismo sangrento que assolava o país naquela época, e afirmação de liberdade de autores, elenco e platéias. Mostramos a nossa cara, e, nela, o nosso ódio a ditadura cívico-militar que roubou, ao povo, o poder.

ARENA CONTA TIRADENTES, o segundo musical que escrevemos juntos, foi uma auto-crítica que nós fizemos, onde mostramos os erros políticos que havíamos feito em nossas vidas, mas ao mesmo tempo, mostramos com maior intensidade o que faríamos, e fizemos.

Somando as vezes em que trabalhamos juntos, ele como ator, eu como diretor, ambos como co-autores, posso somar mais de dez ou doze anos; somando as vezes em que me alimentei com a sua experiência na arte e na vida - e ele com a minha, creio - posso dizer que a minha vida profissional inteira.

Guarnieri deixa saudades e deixa uma presença viva que nunca se apaga.

Um abraço,
Augusto Boal
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Duas peças do Arena e O Teatro como Arte Marcial

Pouco depois, Cecília Thompson - que já intermediara esse meu primeiro contato com Boal - me entregou duas fitas com o áudio original das montagens feitas pelo Arena para A Mandrágora (1962) e O Melhor Juiz, o Rei (1963). As gravações se encontravam em estado bastante razoável, considerando que durante quase 45 anos haviam sido guardadas e manuseadas em condições inadequadas.

O único problema era a herança da conversão inicial, do gravador de rolo para K7, que deixou a rotação lenta. Com a ajuda inestimável dos amigos Miliandre Garcia de Souza e Rodrigo Czaijka, esse defeito foi corrigido e o áudio foi digitalizado. Preparei um projeto gráfico simples para o cd, a partir dos programas de ambas as peças, e mandei para Boal. Em 19 de setembro de 2006, veio sua resposta:

Caro Bernardo,

duas coisas muito sinceras me emocionaram recebendo o seu correio: primeiro, pensar no cuidado que você teve para fazer esses dois CDs, tão importantes do ponto de vista histórico, e tão afetuosos do ponto de vista do carinho que você demonstra pelo Guarnieri, pela Cecília, pelo Arena e por todos nós; segundo, ter esses objetos em minhas mãos. A terceira grande emoção será ouvi-los: mas quero criar as condições emocionais próprias para isso, e não será nos próximos dias...

Muito obrigado,
Augusto Boal

Respondi no mesmo dia:
Seu Augusto,

o senhor está absolutamente certo. Minha admiração corre exatamente por essas duas vias: a do registro histórico, uma vez que considero a parceria, o trabalho e a amizade de vocês dois um grande e verdadeiro milagre de nosso teatro, e certamente o encontro mais notável e frutífero da cultura brasileira na segunda metade do século. E a via afetiva, que é talvez ainda maior e mais forte. Porque todas as colaborações entre vocês, e acima de tudo Arena Conta Zumbi e Arena Conta Tiradentes, há muito transcenderam os palcos e se tornaram exemplos inigualáveis da cultura mais generosa e benfazeja sendo semeada e florescendo no jovem. O pobre, o rico, o negro, o branco, o judeu, o ateu, todos. Democraticamente.

Um grande abraço
Bernardo

Talvez julgando que lidar com todo esse material maravilhoso não fosse suficiente honra para mim, quinze dias depois Boal reforçou seu agradecimento enviando-me uma cópia autografada de um de seus últimos livros, O Teatro como Arte Marcial (Garamond, 2003).

Na época de seu lançamento Boal declarou que esse livro "trata das minhas andanças pelo mundo divulgando e construindo o Teatro do Oprimido. Conto contos, histórias exemplares. É tudo verdade, mas o estilo é mais de ficção em boa parte do livro. Há também alguns ensaios sobre teatro, a arte, o amor e ensaios que fundamentam teoricamente o trabalho prático que estamos realizando em dezenas de presídios do Brasil inteiro".

Desnecessário dizer que é leitura da mais alta qualidade e li de uma sentada só. Mandei meu agradecimento a Boal na forma de um modesto comentário sobre o livro, em 2 de outubro de 2006:

Seu Augusto,

estou escrevendo para agradecer imensamente a generosa oferta do seu livro O Teatro como Arte Marcial, que recebi há alguns dias. Conheço o seu extraordinário talento para escrever, seu Augusto, porque tenho três livros seus ( Milagre no Brasil - que o senhor, aliás, não citou na nota de roda-pé da página 35 -, O Teatro do Oprimido e Hamlet e o filho do padeiro, além dos dois Arena Conta em parceria com Guarnieri, que tenho em edições da Sagarana e da Sbat), portanto foi com grande prazer que me entreguei à leitura deste, também.

Me pareceu que lia roteiros de cinema, seu Augusto, tal foi a maneira que as histórias adquiriram forma e movimento em minha cabeça. Os três primeiros textos poderiam tranqüilamente se transformar em curta-metragens, especialmente a bela história da domestica Maria. Já "O Protagonista Insubmisso", expandido e ainda mais detalhado em suas inúmeras frentes, tem fôlego para se tornar um livro à parte, uma verdadeira história do teatro para todos.

"A Criação Artística e a Paixão pela Arte", "A Paixão e a Arte" e "O Artista Louco e o Louco Artista" também se sustentam sozinhos e mereceriam virar tese. Frases lapidares, originais, máximas divertidas, um exame psicológico bem-humoradíssimo da criação artística e do amor pela arte. Igualmente brilhante é o paradoxo da globalização, segundo o qual "isola-se o indivíduo para que perca sua individualidade", transformando-o em número.

Debate extremamente válido é o que trata das atuais leis de incentivo, que confrontam a torneira aberta, perdulária e apadrinhada do incentivo estadual com a torneira fechada, burocrática e igualmente apadrinhada do incentivo privado. Perfeito "o adiamento do suicídio do artista sem patrocínio, por falta de patrocínio". Lamento profundamente o malfado da produção da Sambópera em homenagem a Verdi, assim como lamento que Arena Conta Bolívar permaneça inédita no Brasil depois de 35 anos.

Mais um exemplo de livro que merece ser escrito - e pelo senhor, se possível - é o grupo de textos que trata do "diabo televisivo". Os nefastos reality-shows, ("pessoas insossas, sem o menor interesse intelectual, sem que se destaquem artística, política ou socialmente" ), em analogia impecável com animais sendo observados em seu ócio num zoológico, a relação espúria com a propaganda, as telenovelas ("de trama inverossímil e flácida, superficial e anódina") e o desmazêlo com os teatros.
.
Muito me emocionei com a referência ao Arena Conta Tiradentes, que o senhor disse ter escrito "com meu irmão Guarnieri". Emoção de ficar com os olhos marejados, mesmo, por ver que o carinho e a admiração mútua entre vocês permaneceu intacta, mesmo quando a parceria já se encontrava distante no tempo. Faço questão de lhe contar que estou resgatando as músicas originais do espetáculo, que espero um dia ver enfeixadas em um cd, e não perdidas no tempo, sem gravação disponível, como se encontram agora.
Muito obrigado por essa viagem, seu Augusto. Além do teatro, tenha sempre a literatura como sua segunda natureza. Mais do que nunca precisamos do trabalho que o senhor realiza nessas duas áreas.

Abraço do amigo
Bernardo

Ele respondeu agradecendo minhas palavras, "que, sinceramente, muito me estimulam". Convidou-me para uma conferência que faria brevemente no Teatro Ágora, mas quando fui reservar o lugar, o sujeito do Ágora só faltou me bater. Disse que a conferência era fechada e nem imaginava como eu a descobrira.

Acabei não encontrando-me jamais com Boal. Continuamos nos correspondendo ao longo dos anos, mas não fiz com ele a entrevista que desejava fazer, e que seria tão importante para fixar a história do Arena e da parceria dele com Guarnieri. Mais do que tudo, queria poder abraçá-lo e agradecer pessoalmente por tudo que ele fez pelo teatro e pela arte como um todo, no Brasil e no mundo.
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As fotos utilizadas neste post vêm do site do Teatro de Arena.
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Abaixo, trecho do depoimento de Boal no dia 15 de setembro de 2004, no Teatro de Arena, como parte das comemorações dos 50 anos do Teatro de Arena, organizadas por Bel Teixeira:



Veja também:

6 comentários:

  1. Gostei muito do seu blog, tocante esse respeito que você tem por nossos mestres, sem eles não somos nada.
    Convido você a entra no meu blog também
    www.projeto8.wordpress.com
    abraços e parceiros na luta.
    Paulo Carvalho

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  2. Parabéns pelo blog Bernardo, está muito rico e intimista. A nós multiplicadores, curingas e praticantes traz um brilho de esperança nesses 5 anos sem nosso mestre, mas repletos de memórias. Suas correspondências com Boal dão um significado único ao teor político da vida e da obra de nosso grande mestre e sua relação com Guarnieri. Que venham mais e mais belezas como esta, necessárias à memória da resistência social em nosso país. Um grande abraço, William Berger (ator e multiplicador do Teatro do Oprimido com povos indígenas no Brasil, formado sob coordenação artística de Augusto Boal).

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    1. Obrigado, William, pelas palavras gentis.
      Um grande abraço!

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  3. Olá, eu me chamo Karyna e, em primeiro lugar, gostaria de parabenizá-lo pelo blog e pelo lindo depoimento. Em segundo, sou mestranda em literatura pela Universidade Estadual de Maringá e tenho um enorme interesse nessas peças que você disse ter digitalizado. Será que é possível encontrar esse material ainda!? Desde já agradeço, atenciosamente, Karyna

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    1. Karyna, me mudei faz pouco tempo e minhas coisas estão todas meio desorganizadas. Vou tentar encontrar esses CDs e te aviso por aqui, ok? Abraços, Bernardo

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