terça-feira, 2 de novembro de 2010

Cancioneiro de Gianfrancesco Guarnieri - Parte 3

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Zana (Toquinho/Jorge Ben/Guarnieri)

Esta estranha composição parece que já havia sido começada por Toquinho e Jorge Ben, quando Guarnieri apareceu e deu apenas um toque final, dando, paradoxalmente, o pontapé inicial em sua parceria com Toquinho. A música foi parar no segundo LP de Toco, Toquinho, de 1970.

Letra:

Você já foi em fevereiro
Ver uma Escola desfilar?
Você já teve boas notícias
A um amigo pra contar?
Você já teve um grande amor
Em noite calma pra passar?

Zana, ô, Zana. Zana, ô, Zana.
Temos vinte e poucos anos,
Pouco tempo pra pensar.
Zana, ô, Zana. Zana, ô, Zana.
Temos vinte e poucos anos,
Tanto tempo pra salvar.

Ai quem me dera um fevereiro
Com vontade de cantar.
Ai quem me dera a um amigo
Boas notícias ter pra dar.
Ai quem me dera o meu amor
Com noite calma pra passar.

Zana, ô, Zana.
Temos vinte e poucos anos,
Pouco tempo pra pensar.
Zana, ô, Zana.
Temos vinte e poucos anos,
Tanto tempo pra salvar.


Mesa de Bar (Toquinho/Guarnieri)

Em 1974, Vinícius, Toquinho e o Quarteto em Cy fizeram um show no Tuca em homenagem a três Pablos mortos em 73: Picasso, Neruda e Casals. O LP duplo parece ter sido lançado apenas no mercado latino, com o nome de Vinicius de Moraes en Sao Paulo con Quarteto em Cy y Toquinho. Em 2001 entrou em alguma caixa de 20 ou 30 cds de Vinícius aqui no Brasil, e não recebeu o valor devido. O que importa mesmo é que em um dos momentos em que Vinícius deixou o palco, Toquinho e o Quarteto em Cy tocaram a música Mesa de Bar, da peça Botequim. Está bonitinho, mas Mesa de Bar está longe de ser minha favorita no Botequim, e minha impressão é a de que Toquinho poderia ter escolhida outra.

Letra:

Mais uma noite foi passada,
Se despede a madrugada,
Surge o sol, não tem calor.
Essa gente tão cansada
Esperando quase nada,
Implorando por favor.

Um canto seu, sua morada.
Ter talvez a namorada,
Um pouquinho de amor.

É na mesa de um bar
Que se bebe ilusão,
Que se sofre demais,
Que se pede perdão.
É na mesa de um bar
Que se engana a razão,
Que a saudade
Maltrata o coração.


Canção do Medo (Toquinho/Guarnieri)

Logo depois de estrelar Botequim, em 1973, que Guarnieri escreveu especificamente para ela, a grande cantora Marlene entrou em turnê com um espetáculo chamado Te pego pela palavra, dirigido por Hermínio Bello de Carvalho. Foi um sucesso absoluto de crítica e público durante os anos de 74 e 75 e veio consolidar a certeza de que Marlene, então com 50 anos, estava melhor do que nunca. Graças a Deus existe uma gravação desse show e a primeira faixa é um pout pourri onde a cantora incluiu a Canção do Medo, da peça de Guarnieri com música de Toquinho.

Confesso que o meu prazer em ouvir esse pout pourri só se assemelha ao prazer de ouvir os pout pourris de Elis e Jair no Fino da Bossa. Eis as músicas cantadas em conjunto:

Lata d'água
(Jota Jr./Luiz Antônio)
Zé Marmita
(Brasinha/Luiz Antônio)
Pra quem quiser cantar
(Haroldo Barbosa)
Se é pecado sambar
(Manoel Sant'Ana)
Canção do medo
(Toquinho/Guarna)
Primeira bateria
(Taiguara)
Broco do Dodô Crioulo
(Yvonne Rebello/Nilton Paz)

O que é que se pode dizer de uma força maravilhosa da natureza como Marlene? Tenho pena das cantoras que tentam reeditar sucessos que esta rainha da MPB consagrou. Ela é como Elis, como Cauby; tem selo de qualidade. O que ela cantou, ninguém mais pode cantar. Portanto deleitem-se com este pout-pourri e rejubilem-se pelo fato do Brasil ter produzido uma artista como Marlene.

Letra:

Medo, tenho medo, muito medo
Se o desejo é forte de ver
Minha vida se modificar.

Tenho medo, muito medo
Se a saudade é grande
Da noite sagrada em que eu quis amar.

Vem a vontade de crescer.
Vem a coragem de gritar.
Aí, eu fecho os olhos,
Tranco a porta, calo a boca
Pra me guardar.

Medo, tenho medo, muito medo
Quando vem a vida e obriga
A gente a se decidir.

Tenho medo, muito medo
De enfrentar a morte e a má sorte
E eu tenho medo de existir.

Vem a vontade de viver.
Vem a coragem de sorrir.
Aí, eu fecho os olhos, tranco o riso,
Calo a boca pra prosseguir.


Quanto Vale uma Criança (Toquinho/Guarnieri)

Figura importante do Arena na segunda metade da década de 60, Rolando Boldrin mais tarde passou a dedicar-se muito mais a seu lado de músico, cantor e contador de causos. Também inspirado pela parceria de Guarna e Toco, foi mais feliz em sua escolha e em seu arranjo, e incluiu Quanto vale uma criança, do espetáculo Botequim, em seu LP O Cantadô, de 1974.

Letra:

Quanto vale uma criança sem brinquedos pra brincar
Encostada ao pé da porta sem nem forças pra chorar.
Quanto vale um sorriso do menino adormecido
Na infinita madrugada em seu sonho colorido.

Façam seu jogo, senhores. Mãos no bolso, boa ação.
Façam seu jogo, senhores. Alivia o coração.
Façam seu lance, senhores. Toda alma quer perdão.
Façam sue lance, senhores, no mercado da aflição.

Quanto vale a cor do ódio nesses olhos de criança,
Que não sabem ver ternura e que da paz não têm lembrança.
Quanto vale uma lágrima triste, vil, em descaminho
Num rostinho de menino que tem medo de carinho.

Façam seu jogo, senhores. Mãos no bolso, boa ação.
Façam seu jogo, senhores. Alivia o coração.
Façam seu lance, senhores. Toda alma quer perdão.
Façam sue lance, senhores, no mercado da aflição.

Quanto vale um homem morto no melhor do seu destino,
Pelo medo assassinado, esse resto de menino.
Quanto vale esse meu canto que já nasce estrangulado
Pelo nó da indiferença, canto tão desesperado.

Façam seu jogo, senhores. Mãos no bolso, boa ação.
Façam seu jogo, senhores. Alivia o coração.
Façam seu lance, senhores. Toda alma quer perdão.
Façam sue lance, senhores, no mercado da aflição.


Um Grito Parado no Ar (Toquinho/Guarnieri)

Segundo me consta, a única versão integral desta magnífica composição de Toquinho e Guarnieri – a melhor música de aberta resistência à ditadura de 64, em termos de qualidade musical e conteúdo, em minha modesta opinião – é esta aqui, gravada pela irmã de Chico, Ana de Hollanda, para seu disco homônimo de estréia, em 1980. O esquecimento em que se encontra esta música é uma das maiores injustiças já cometidas contra uma obra de MPB, pois Um Grito Parado no Ar merecia ter o mesmo – senão maior – status de Apesar de você, O Bêbado e a Equilibrista e outros clássicos da resistência.

A interpretação de Ana deixa muito, mas MUITO a desejar. Eu sinceramente não acompanho a carreira de nenhuma das três irmãs de Chico, então não sei se Ana deu uma melhorada ao longo dos anos. Mas neste primeiro momento, vamos dizer apenas que ela estava profundamente despreparada para lapidar um diamante da dimensão de Um Grito Parado no Ar.

Agora, atrevimento mesmo foi o do cantor brega Peninha, que em 1977 lançou uma música de amor cafonérrima exatamente com o mesmo nome da obra-prima de Toquinho e Guarna.

Letra:

Moro no fim de um escuro corredor
Papel jornal fazendo as vezes de vidraça
Quarto mirim que só tem cheiro de bolor,
Eu vivo assim, em cada esquina uma ameaça.

Não peço nada, eu não quero me envolver,
Na rua nua em cada cara uma desgraça.
Há tanta gente procurando esquecer
Que a vida é à-toa, a morte chega e tudo passa.

Quem souber de alguma coisa
Venha logo me avisar
Sei que há um céu sobre esta chuva
E um grito parado no ar...

A vida enfim é um escuro corredor,
Leio jornal e muitas vezes acho graça.
E quanto a mim, estou vivendo de favor,
Não sou ruim embora viva de trapaça

Não peço nada, eu não quero me envolver.
Até a lua tem as nuvens por mordaça,
Assassinada mesmo antes de nascer,
A esperança sobe aos céus como fumaça.

Quem souber de alguma coisa
Venha logo me avisar
Sei que há um céu sobre esta chuva
E um grito parado no ar...


Clareira Aberta (Chico Mário/Guarna)

Outra obra-prima que se encontra no mais injusto olvido. Francisco Mário era o irmão caçula de Betinho e Henfil. Engenheiro, economista e jornalista, Chico enveredou-se pelo caminho da música no fim dos anos 70 e em 79 veio seu primeiro – e elogiadíssimo – LP, Terra. Foi provavelmente a luta contra o poder e o monopólio das grandes gravadoras, além do incentivo ferrenho à produção fonográfica independente, que o aproximaram de Guarnieri.

Seu segundo LP, Revolta dos Palhaços, de 1980, foi lançado dentro de um esquema alternativo de pré-vendas (era vendido antes mesmo de estar pronto e o dinheiro era usado na produção). Nesse LP, Chico trabalhou com alguns dos maiores letristas brasileiros, entre eles Aldir Blanc e Fernando Brant. A última faixa do LP ficou reservada para a belíssima parceria com Guarna, Clareira Aberta.

Diferente da divertida Tô voltando, de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, e demais músicas sobre a anistia e o fim da ditadura, Clareira Aberta tem um clima mais de ressaca do que de otimismo. Música e letra tem um casamento perfeito na descrição da ruína emocional em que se encontrava o povo. O próprio início, “na clareira aberta que o circo deixou, só nos resta agora sobras do que ficou” não chega a ser nem metafórico, quando caracteriza como “clareira aberta” a chaga enorme e sangrenta nas liberdades individuais, e de “circo” a passagem longa e desastrosa dos militares pelo poder. O lindo e certeiro arranjo e a interpretação ao mesmo tempo singela e poderosa de Chico atingem picos dramáticos arrepiantes na menção de "feras humanas, mortes gloriosas, gritos de raiva e muito amor" e tudo o que Guarnieri escreveu com dolorosa inspiração. Em minha opinião, Clareira Aberta é uma obra-prima.

O LP, entretanto, é conceitual e eu nunca o escutei inteiro, então eu posso ter interpretado a letra da maneira errada. Estou aberto às eventuais correções.

Assim como seus dois irmãos, Chico era hemofílico e foi atingido pela mesma tragédia que vitimou Henfil e depois Betinho: contraiu o vírus da AIDS numa transfusão e morreu em 1988, com apenas 40 anos.

Letra:

Na clareira aberta que o circo deixou
só nos resta agora sobras do que ficou
Foi um dia de festa, todo mundo irmão
Foi um dia de festa, quanta ilusão!

Entre papéis picados,
risos rasgados, cascas de amor
sustos em rostos pálidos
bocas famintas, almas sedentas
gritos em ânsia e de pavor
Ai de mim, ai de mim, ai de nós
que o circo se foi.

Já vai longe o circo, meninas e leões,
seus palhaços sérios, dramas e canções.
Sobrou uma seresta em nossos corações.
Gosto breve, uma gesta, perdidos violões.

Sei que cresci na crença,
na doida esperança do circo voltar
vi com olhos de pânico
feras humanas, mortes gloriosas,
gritos de raiva e muito amor
Eu sei sim, eu sei sim, eu sem nós
A ilusão se foi.

Na clareira aberta que o circo deixou
estamos nós agora colhendo o que restou.
Serão dias de festa, o circo não voltou
Somos nós, agora, artistas e leões.


Vejam só (Márcio Proença/Guarnieri)

A composição de Márcio e Guarnieri é inédita e entrará no próximo cd de Marília Medalha. A letra, a meu ver de pouca inspiração, é uma espécie de lado B de Feio, não é bonito; enquanto a primeira canta com um viés esperançoso as misérias do morro, esta é a confirmação de que a "outra história" que pedia o morro acabou não vindo. Guarna faz citações à própria Feio, não é bonito, ao Chão de Estrelas de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa e Zelão, do antigo parceiro Sérgio Ricardo. Foi gentilmente cedida por Vanya Sant'Anna.

Letra:

Vejam só
já se foi a madrugada
nuvem rosa esgarçada
vem trazendo um novo dia.

Lá no morro sem tristeza nem lamento
sai de um porre o sofrimento
de uma voz que dá "Bom dia"
Pois é, pois é
Bom dia

Vejam só
amanhece na favela
João que abre a janela
com pavor do novo dia

Lá no morro nem o sol tem mais beleza
cada gesto é de defesa
alvorece a agonia
Pois é, pois é
Agonia

Vejam só
a manhã é de inventário
quem foi vivo ou foi otário
quem foi mais sem coração

Lá no morro esquecidas sepulturas
guardam poetas e juras
luar, cabrocha e o violão
Pois é, pois é
O violão

Vejam só
já no chão não há mais estrelas
nem um samba pra mantê-las
machucando o coração

Lá no morro o que é feio não é bonito
o que resta é o amor aflito
este choro de Zelão
Pois é, pois é
O Zelão

Todo morro entendeu
quando Zelão chorou
ninguém riu nem brincou
e era carnaval
Pois é, pois é
O Zelão
Pois é, pois é
É um, é dois, é três
cem é mil, a batucar


Bônus Tracks

Sempre há espaço para alguns agrados que não pertencem, exclusivamente, ao Cancioneiro de Guarnieri. Neste caso, aqui vão três pequenos presentes.

Zambi (Edu Lobo/Vinicius de Moraes)

Incluo esta composição de Edu e Vinicius – mais tarde lançada no LP de estréia de Edu, A Música de Edu Lobo por Edu Lobo, em 1965 – não apenas por considerá-la uma pérola de simplicidade, mas porque ela foi o ponto de partida para a criação de um dos mais maravilhosos espetáculos musicais de todos os tempos: Arena Conta Zumbi. "Nós ficamos ali, os dois sem graça, sem saber o que fazer", contou Edu. "Comecei a tocar violão, a tocar algumas das minhas canções. Tinha uma música que eu tinha feito com o Vinicius, chamada Zambi. E o Guarnieri: Zambi, humm, Zumbi, tal, Quilombo dos Palmares, quem sabe é por aí." Guarnieri também lembrou a célebre noite com Edu, em entrevista a Fernando Peixoto em 1978: "Edu veio, achando que existia um texto pronto para ele musicar, mas a gente não tinha nada. A não ser a inquietação. (...) E Edu começou a cantar umas músicas novas para a gente. Cantou uma sobre Zumbi. A gente passou uma noite loucura pela cidade e às 8 horas da manhã estava na praça da República comprando o livro do João Felício dos Santos, Ganga Zumba. Resolvemos contar a história da rebelião negra. Arena conta”. (Teatro em Movimento - São Paulo, Hucitec, 1986)

Letra:

É Zambi no açoite, ei, ei é Zambi
É Zambi, tui, tui, tui, tui, é Zambi
É Zambi na noite, ei, ei, é Zambi
É Zambi, tui, tui, tui, tui, é Zambi

Chega de sofrer
Eh! Zambi gritou
Sangue a correr
É a mesma cor
É o mesmo adeus
E a mesma dor

É Zambi se armando, ei, ei é Zambi
É Zambi, tui, tui, tui, tui, é Zambi
É Zambi lutando, ei, ei, é Zambi
É Zambi, tui, tui, tui, tui, é Zumbi

Chega de viver
Na escravidão
É o mesmo céu
O mesmo chão
O mesmo amor
Mesma paixão

Ganga-Zumba ei, ei, vai fugir
Vai lutar tui, tui, tui, tui, com Zumbi
E Zumbi gritou ei, ei, meu irmão
Mesmo céu, tui, tui, tui, tui, mesmo chão

Vem filho meu, meu capitão
Ganga-Zumba liberdade, liberdade
Ganga-Zumba vem meu irmão

É Zambi lutando
É lutador
Faca cortando
Talho sem dor
É o mesmo sangue
E a mesma cor

É Zambi morrendo, ei, ei é Zumbi
É Zumbi, tui, tui, tui, tui, é Zumbi
Ganga-Zumba, ei, ei, vem aí
Ganga Zumba, tui, tui, tui é Zumbi


Bola na Rede (Rolando Boldrin)

Amigo de Guarna desde a época do Arena, do qual participou como ator, Rolando Boldrin (1936) valorizou mais o seu lado musical na década de 70. Encontrei a canção Bola na rede em um Box de quatro cds de Boldrin lançado em 2008 com o nome de Histórias cantadas e faladas de Rolando Boldrin, mas acredito (não é certeza) que a música vem de seu segundo LP, editado em 1976, com o nome de Êta mundo. A canção traz participações de Guarnieri e de Eva Wilma (1933), do que se depreende que Boldrin procurou também, de certa forma, capitalizar no sucesso que a dupla de atores fizera pouco antes, na novela Mulheres de Areia. A participação de Guarna resume-se a recitar a primeira estrofe da canção no início, antes de Boldrin cantá-la. Eva acompanha Boldrin nos vocais. É claro que nem mesmo na merda do site oficial de Boldrin existe a letra dessa música, então tentei tirá-la de ouvido da própria gravação, que não é exatamente um primor técnico:

Letra:

Um sol amarelo que custa a nascer
Um sono agitado, não há o que comer
Um velho acordado pensando que é bom morrer
Um prato vazio, um gato a miar
Criança acordando, não sabe chorar
Malandro cansado, pensando em morrer de amar

Um samba esquecido, garrafa quebrada
Mais morte (?) na trilha, meu Deus, que me leva a nada
Mais nuvens no céu, mais calor e sede
Mais gritos no morro e bola na rede (2x)

Favela, cansaço, navalha, metralha
Favela, mortalha, esquecida no topo
de um morro sem teto, sem risos, nem sol... nem sol
Favela dos mortos de costas no asfalto
qual coisas tolas vistas do alto
Crianças ocas, balas sem bocas e sem sol

Favela pintada que um som despertou
no grito sem dentes, na hora do gol (2x)

Linda música. Mas vamos todo orar coletivamente para que a querida e talentosíssima Eva nunca mais cante em disco nenhum.


Tabelas (João Bosco/Aldir Blanc)

Maurice Capovilla
Em 1976, o cineasta paulista Maurice Capovilla (1936) decidiu levar às telas o livro Malagueta, Perus e Bacanaço, obra com que o também paulista João Antônio Ferreira Filho (1937/1996) estreou na literatura, em 1963. O livro tem oito contos e uma novela, e Capovilla concentrou-se no conto que dá nome ao livro para desenvolver a narrativa. Escreveu o roteiro com Guarnieri (apesar de João Antônio ser geralmente creditado como autor do roteiro) e mostrou-o a João, que o aprovou. Segundo Jane Christina Pereira e Luciana Cristina Corrêa, doutoras em letras:

O conto que dá título ao livro, "Malagueta, Perus e Bacanaço", descreve as andanças de três malandros jogadores de sinuca pela noite de São Paulo. A ação tem início num bar da Lapa, lugar onde também termina a narrativa. Depois de passarem por Barra Funda, Centro e Pinheiros tentando faturar uma grana, os parceiros voltam à Lapa sem dinheiro. (...) Nesta obra, João Antônio expôs de forma simples e lírica (mas contundente), flagrantes da vida minúscula de personagens suburbanos, registrando especialmente o drama dos jogadores de sinuca, os últimos malandros paulistas, condenados ao desaparecimento pela urbanização feroz da cidade.

Não vou esmiuçar os bastidores de Jogo da Vida (como acabou batizado o filme) desse extraordinário trabalho de Maurice Capoville, ou de seu elenco, encabeçado por Guarnieri (Perus), Lima Duarte (Malagueta) e Maurício do Valle (Bacanaço), e que ainda incluía feras como Myrian Muniz (melhor atriz em Gramado), Antônio Petrin e Jofre Soares, porque pretendo escrever sobre o mesmo em breve. Direi apenas que João Bosco e Aldir Blanc compuseram uma belíssima música-tema para o filme, lançado no LP de João, Tiro de Misericórdia, de 1977. Eis a letra:

Letra:

Batendo pelas tabelas
meu jogo é elas por elas:
não quero nem dou partido.
Numa jogada infeliz
resvala o tempo vivido
quem nem um taco sem giz.

Em cada bola tentada
existe, além da tacada,
a fama do jogador.
Num lance alguém se suicida
e a marca de uma ferida
não sai com o apagador.

A partida está fechada,
a aposta deu em nada
e o que fazer desse cansaço?
Carregar nossa cruz, feito o menino Perus,
cair na sarjeta, que nem Malagueta
ou virar bagaço, igual Bacanaço.


Jerônimo (Eduardo Gudin/Carlos Mello)

Germano Mathias e Eduardo Gudin
Esta é um presente para os noveleiros que se ressentem do fato de que eu só falo dos trabalhos de Guarnieri no teatro e na música, e não dou a mínima para suas novelas. Jerônimo era a música-tema de Jejê, personagem de Guarnieri (onde Sílvio de Abreu aparentemente fez uma brincadeira com as duas iniciais verdadeiras de Guarna, “G.G.”) na novela Cambalacho, de 1986. Foi composta por Eduardo Gudin (1950), mas tem seu real valor na interpretação do mais autêntico representante da malandragem paulistana na MPB: Germano Mathias, nascido no Pari, em 1934. Eis a letra:

Jejê (Guarnieri) e Naná (Fernanda Montenegro) em Cambalacho
Letra:

Jerônimo é um herói anônimo
Cheio de homônimos
Mas não perde o pique
A vida é sempre uma rebordosa
Mas ele é o rei da prosa
Ele é o pai do trambique

Na hora H do cheque mate
inventa um biscate
escapa por um triz
Jerônimo, na maré do asfalto
sempre sai incauto
por isso é feliz

Quem quer vencer na Paulicéia
aposte numa idéia
com engenho e arte
Malandro de segunda linha
Ladrão de galinha
Sempre fica à parte

Pois só descola o de comer
quem é do metier
E nunca dá “chabú”
Jerônimo, nem esquenta a cuca
pois em arapuca
Ele é hors concours
L’argent toujours.


O Velho Poeta (João Bid/Lula Barbosa)

João Bid e Lula Barbosa
Como se viu na introdução deste cancioneiro, a amizade de João Bid e o grupo Catavento com Guarnieri começou em 1996, quando o grupo participou do show "Gianfrancesco Guarnieri & Marília Medalha e Grupo Catavento", com participação especial de Carlos Lyra e Edu Lobo. O Velho Poeta é uma composição de João Bid e Lula Barbosa em homenagem a Guarnieri. Letra bonita, música linda, uma bela e merecidíssima homenagem.

Letra:

O velho poeta é simples
como é simples a palavra
que atinge a alma.

O velho poeta é calmo
como é calma a oriental
ao pentear os cabelos.

O velho poeta é transparente
como transparentes são as flores
ao receberem o sol.

O velho poeta é misterioso
como misteriosa é a mata
ao cair da tarde.

O velho poeta é generoso
como é generoso o sol
que reparte seu calor.

O velho poeta é puro
como é pura a criança
instantes antes do parto.

O velho poeta cresce
a cada verso que soma
até ficar infinito
como o próprio Deus.
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Download da 3ª Parte do Cancioneiro de Gianfrancesco Guarnieri 

Divirtam-se, aprendam, divulguem.
Bernardo
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