sábado, 13 de fevereiro de 2016

Minestrone Cultural IV

LÍNGUA

Jornal de 1873: "Hamleto é um presente feito ao mundo literário à semelhança de uma BOCETA de Pandora"...

Embora "Pandora", do grego Πανδώρα, signifique "a que tudo dá" (!), o articulista em má hora resolveu substituir a proverbial "caixa" de Pandora pela "boceta", que antigamente designava uma inocente bolsa de couro.

Como diria o Jânio, "que língua, a nossa"... (20/01/2015)

CHAPLIN

Chaplin e Claire Bloom
"THIS is the greatest toy ever created... here lies the secret of all happiness".

O ano em que completei 17 anos, 1989, coincidiu com o centenário de Chaplin. Comprei a belíssima "centennial collection" em VHS e devorei seus filmes. Devorei, decorei, decantei, estudei, memorizei, processei, analisei, fixei e arquivei.

Impossível dizer o quanto minha vida se tornou mais rica pelo contato com esse gênio ainda na adolescência. Foi um mergulho tão benéfico e profundo que por vezes me impede de voltar à superfície e ao raso do cinema atual.

Como gostaria que os jovens de hoje tivessem a sorte de esbarrar em Chaplin como eu esbarrei. (13/02/2015)

Minhas dezenas de fitas de video de Chaplin

Roger Rees (1944/2015)

Roger como Malcolm (esq.) e como Fred, sobrinho de Ebenezer Scrooge

Roger, que admirei tanto como Malcolm (à esq) no Macbeth de Ian Makellen, e especialmente como Fred (à dir), o sobrinho de Ebenezer Scrooge no Christmas Carol protagonizado por George C. Scott, morreu, aos 71 anos.

Jovem. E era um ótimo ator.
Que pena.
Descanse em paz. (11/07/2015)

GEORGE & RAUL

Raul Julia e George C. Scott
Assisti "Mussolini: The Untold Story" quando passou no SBT, há exatos 30 anos. Graças à Internet, e mais especificamente ao Daily Motion (porque foi lá e não no Youtube ou no torrent que encontrei a minissérie de 5 horas) estou podendo rever pela primeira vez este belo trabalho com base nas memórias de Vitório, o filho mais velho do ditador italiano. A direção é do velho William A. Graham (1926/2013), tão medíocre em seus trabalhos cinematográficos quanto brilhante naquilo que dirigiu diretamente para a TV. É de sua batuta outra recordação marcante de minha infância, a minissérie "The Guiana Tragedy", sobre Jim Jones.

Sobre "Mussolini", lembrava-me que além do sempre perfeito George C. Scott (de quem fui fã desde criança e razão pela qual assisti a minissérie, quando passou no Brasil), perfeito como o Duce, o elenco era ótimo e contava com Gabriel Byrne, Robert Downey Jr (com apenas 20 anos) e uma Virginia Madsen jovem e de beleza absolutamente estonteante.

O que eu esquecera completamente, porém, é da filha de Mussolini, Elizabeth Mastrantonio, e de seu marido, o conde Galeazzo Ciano, interpretado por ninguém menos do que o tão querido e saudoso Raul Julia!...

Confesso: não pude conter as lágrimas quando vi George e Raul juntos na tela. Que presença, que carisma, que talento. (19/07/2015)

CLAUDIO DESDERI



"A un dottor... della... mia sorte... questa escusa signoria"...

Aprendi a gostar de ópera (como 99% das pessoas) com o Barbeiro de Sevilha, de Rossini. Primeiro com o Pica-Pau, depois com esta montagem magnífica de 1981, que a Globo costumava reprisar aos domingos, depois da última programação do dia, já em plena madrugada.

Claudio Desderi é de longe o melhor Bartolo que já vi. Maria Ewing é atriz tão espetacular, com um timing de comédia tão brilhante, que mesmo não achando que sua voz combinava com a de Rosina, considero-a imbatível no papel.

Um tesouro. (21/07/2015)

JOSE FELICIANO

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Poucos cantores/músicos/compositores tiveram um papel tão poderoso, definitivo e benfazejo na formação de minha cultura musical, quanto esse maravilhoso, genial porto-riquenho chamado Jose Feliciano.

Seu "Escenas de Amor", de 1982, exerceu uma influência tão profunda em minha vida que está em meu top five de todos os tempos e de lá não sairá. Não há uma única música ruim, e poderia trazer qualquer uma. Hoje, entretanto, trago "Sampa pa ti", inspiradíssima parceria de Feliciano com Carlos Santana. Nesse video, Feliciano canta com playback e Santana não está presente, mas o dueto de violão e guitarra no fim da música é daquelas belezas que não serão jamais igualadas.

Feliciano está completando 70 anos, hoje. Parabéns, mestre querido!

(Para você, meu amado e saudoso irmão Vicente Adorno) (08/09/2015)

MARIA DELLA COSTA

Com Maria, em 1992
Acabo de assistir o PERSONA EM FOCO em homenagem à Maria Della Costa. Foi tocante por diversas razões, Maria era um desses titãs definitivos de nosso teatro, abriu portas, derrubou paredes, destruiu preconceitos e esteve sempre aberta à inovação e ao moderno.

Mas o que realmente me emocionou foi ver a tristeza ainda recente e latente da grande atriz (seu depoimento, no programa, é de 1980, por aí) por ter sido obrigada a vender, anos antes, o teatro que fundou a duras penas com o marido Sandro Polônio. E por razões que são a eterna negação da arte, ou seja, dinheiro, negócios, interesses e etc. Essa decepção com o aspecto mercantil da arte é recorrente em nossos artistas, sobretudo os mais empreendedores; não me sai da memória, por exemplo, o espetáculo de ressentimento e tristeza que foi o depoimento de Paschoal Carlos Magno - fundador do Teatro Duse, no Rio - à Funarte, na década de 70, basicamente pelos mesmos motivo de Maria.

Tive o prazer de conhecê-la em 1992, quando ela encenava no Ruth Escobar o que viria a ser o seu último espetáculo, "Típico Romântico''. Peça ruinzinha, ruinzinha, que Maria aparentemente montou apenas como um agrado ao autor, Otávio Frias de Oliveira, jornalista e empresário responsável pelo financiamento inicial do Teatro Maria Della Costa.


Era ainda uma mulher linda, atraente, de beleza magnética. E ao contrário do "typecasting" que dizia sofrer nas novelas, que insistiam em mostrá-la sempre como uma mulher rica e grã-fina, ela era simples, descontraída e divertida.

Uma verdadeira diva, no melhor, mais amplo e menos fútil sentido do termo. (13/10/2015)

OLIVIER E OS 600 ANOS
DA BATALHA DE AZINCOURT

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No início da década de 90, logo depois de assistir dois "Macbeth" e um "Sonho de uma noite de verão" no teatro, fui atrás de todos os filmes feitos a partir das obras de Shakespeare que pude encontrar. Assisti tudo. De pioneiros como Max Reinhardt, George Cukor e Paul Czinner a contumazes como Orson Welles, Zeffirelli e Kurosawa, passando pelos bissextos como Peter Brook e Peter Greenway, até os acidentais Joseph Mankiewicz e Roman Polanski. Gostei de muito do que vi, sou admirador de todos, mas meu preferido era e continua sendo Laurence Olivier.

Já tenho artigos comentando o Hamlet, o Richard III, o Lear e o Othello de Olivier. Nunca escrevi sobre o primeiro filme shakespeareano dirigido por ele, que é Henry V, de 1944. O que não deixa de ser uma ironia, porque conquanto admita que Othello é não apenas seu melhor trabalho, como possivelmente a melhor performance de um ator em todos os tempos, faço questão de declarar que seu Henrique foi a força-motriz de minhas ambições teatrais da época. Tudo impressiona nesse filme. O elenco impecável, a estupenda reconstrução do Globe para as seqüências iniciais, os cenários, as locações, os figurinos, tudo é perfeito. Da interpretação de Olivier - os monólogos, a impostação, a postura, a presença - nem preciso falar. Em breve escreverei algo em profundidade.

Na verdade hoje venho apenas anunciar o aniversário de 600 anos da "Batalha de Azincourt" (ou "Agincourt", dependendo de quem o pronuncia), ocorrida em 25 de outubro de 1415, na qual os ingleses, liderados por Henry V, retomaram uma parte do reino que há décadas vinha sendo disputada por França e Inglaterra. O episódio foi retratado por Shakespeare e é sobre essa batalha - e o fato dela ocorrer no dia de São Crispim - o mais memorável dos monólogos de Olivier no papel de Henrique.

Assistam.
É uma aula magna de teatro.
Como quase tudo que foi feito por Olivier. (25/10/2015)

FAGUNDES NO PERSONA EM FOCO

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Ótima entrevista. Fagundes comemora em 2015 os 50 anos de uma das carreiras mais ricas e polivalentes do meio artístico. Respondeu absolutamente tudo que lhe foi perguntado pelos jornalistas e pelo público durante a gravação do "Persona em Foco", programa que passa toda terça, às 23h30, na Cultura. Falou de teatro, cinema e televisão com o conhecimento de quem trabalhou com os maiores nomes dos três veículos.

Só lamento que das mais de duas horas e meia de bate-papo, apenas 59 minutos foram ao ar. E por quê? Porque à meia-noite e meia a Cultura transmitiu a repetição aleatória de uma entrevista qualquer do finado Abu.

Sinceramente, não conseguirei jamais compreenderei o processo pelo qual se mutila um produto original de altíssima qualidade, para dar espaço a uma reprise. (25/11/2015)

DOIS HAMLETS

David Tennant e Benedict Cumberbatch

As grandes companhias teatrais da Inglaterra estão investindo na universalização de seus espetáculos. Esta semana assisti dois Hamlets feitos exclusivamente para o teatro, mas cujas montagens desbordaram para o cinema ou para a televisão, embora de formas diferentes.

O primeiro é da Royal Shakespeare Company e traz David Tennant no papel do príncipe, com direção de Gregory Doran. Foi ao ar pela BBC em 2010. O sistema da RSC vem sendo utilizado há tempos e consiste em adaptar o cenário do espetáculo (neste caso, de 2008) para um estúdio e filmar a peça de vários ângulos. O ator interage com a câmera mas mantém-se a ilusão da comunicação ao vivo com o público.

Benedict Cumberbatch
O segundo é do National Theatre e vem cheio de pompa e circunstância. Há dois ou três anos o NT resolveu ressuscitar uma iniciativa inaugurada por Richard Burton em 1964, de filmar uma performance ao vivo e transmiti-la via satélite para cinemas do mundo inteiro. O projeto tem sido um grande sucesso e a montagem mais recente (agosto deste ano) trouxe Benedict Cumberbatch interpretando Hamlet, direção de Lindsey Turner, com a presença valorosa do irlandês Ciarán Hinds como Cláudio.

Sobre as performances em si, até onde sei nenhum dos dois protagonistas é o que se poderia chamar de "shakespeareano". Tennant é bom mas não me surpreende. Escreverei mais em breve. No momento limito-me a dizer que o monólogo do To be or not to be foi encurtado, o que equivale a encurtar o "Pai Nosso". Sem comentários. Só Deus sabe o que passou pela cabeça desse diretor.

O velho Patrick Stewart reprisa o Cláudio que já interpretara de maneira algo precoce em 81, para o Hamlet de Derek Jacobi. Tem-se aquela frustrante sensação, porém, de que, para tal papel, era jovem demais antes e velho demais agora. É competente, está em forma, mas senti que faltou-lhe um certo vigor para a canalhice do rei usurpador. Talvez seja orientação do diretor. Aliás, a idéia dele também interpretar o fantasma é interessante mas me pareceu desperdiçada. Penny Downie foi uma boa rainha e Mariah Gale me agradou como Ofélia. O restante do elenco não deixou recordação.

Quanto a Cumberbatch, me fez lembrar Wagner Moura: um bom ator que está sendo supervalorizado e foi jogado cedo demais sobre Hamlet. Não obstante, o ator tem uma bela voz, um bom desempenho e esforça-se para alcançar a tragicidade do príncipe. Ciarán Hinds está perfeitamente asqueroso como Cláudio. Por vezes sua voz me traz Al Pacino à memória, o que é sempre bom. Sian Brooke é talentosa e tem cara de perturbada, mas gesticula demais. Karl Johnson é um ótimo fantasma. Já Anastasia Hille infelizmente some, como rainha.

Mais, em breve. (01/12/2015)

MARÍLIA PÊRA

Com Marília, em 2002
Marília Pêra, assim como Bibi, não poderia ter outro destino a não ser se tornar uma grande atriz. Quando nasceu, tanto os Marzullo (lado materno) quanto os Pêra (lado paterno) já eram nomes célebres no cenário teatral brasileiro. Ela começou criança nos "Artistas Unidos" de Henriette Morineau; teve seu batismo de fogo com Bibi e Paulo em 1962, no corpo de baile de "Minha Querida Dama" (My Fair Lady) e seguiu com suas próprias pernas, construindo uma carreira estupenda, eclética, que misturou comédias, tragédias e musicais.

Assisti Marília na TV desde criança. Minisséries como "Quem ama não mata" e novelas como "Brega e Chique" são demonstrativo inequívoco da versatilidade de Marília. A "Senhora Dona Juliana", de "O Primo Basílio", é obra de gênio. Perdi "Estrela Dalva" e "Elas por Ela" mas a partir da década de 90 fui vê-la várias vezes no teatro. Era talento consumado, superior. Forjado no contato com o circo, com o cassino, com o mambembe, com o olimpo teatral da primeira metade do século.

No trato pessoal era doce, simples, agradável.

Teria muito para escrever. Marília não é material para um post do Face. Talvez um artigo, qualquer dia, com grande admiração e recordações múltiplas.

É golpe covarde, lastimável, a morte levar Marília tão cedo.

Um talento maiúsculo e uma a mulher inesquecível. (05/12/2015)

TITUS ANDRONICUS (Globe Theatre, 2014)

Tive meu primeiro contato verdadeiro com Shakespeare no início da década de 90, com os Macbeth simultâneos de Fagundes e Luis Melo. Pouco depois li o Titus Andronicus, a mais sangrenta das tragédias do bardo, com cenas de estupro, assassinatos, canibalismo e outros mimos. Pela violência gratuita e ofensiva, a peça acabou tacitamente banida dos teatros do século XVIII até 1955, quando Olivier interpretou Tito com direção de Peter Brook. O resultado - além de um grande sucesso comercial e crítico - fez com que todos compreendessem o porquê da peça estar banida há três séculos: pessoas saíam, horrorizadas, desmaiando e com enjôos, do teatro.

Tive o privilégio de assistir, em 1994, a encenação de Tito pelo "Teatrul National Craiova", com direção de Silviu Purcărete, como parte do Festival Internacional de Artes Cênicas organizado por Ruth Escobar. Fiquei absolutamente maravilhado. Poucas vezes vi trabalho tão extraordinário de direção, tanto cênica quanto de atores. Em 1999 Julie Taymor levou a tragédia dos Andronicae às telonas, com Anthony Hopkins no papel-título, capitaneando grande elenco. "Titus" é um filme interessante mas não me agradou completamente. A diretora produziu versão estilizada, de bom gosto, e essa qualidade é também seu defeito; enquanto os romenos do Craiova transformavam em arte cada uma das brutalidades do texto, Taymor procurou suavizá-las e não há como; Titus é um banho de sangue, uma peça horrenda, sádica e estilizando suas tragédias pouco resta em termos dramatúrgicos. Não por coincidência, sua autoria é questionada e o consenso geral é de que a peça não é de Shakespeare. No máximo um rascunho chegou a suas mãos e ele deu-lhe um toque final.

O extraordinário Titus romeno que tive o prazer de assistir em 1994

A jovem Lucy Bailey dirigiu sua primeira versão de Tito em 2006, no Globe Theatre, e no ano passado houve uma reprise da montagem com novo elenco. Se em 2006 ela chocou o público, em 2014 o efeito foi bem mais contundente. Já na entrada do Globe os espectadores foram brindados com o aviso nada sutil de que o espetáculo era “grotesquely violent and daringly experimental”. As reações não se fizeram esperar: as pré-estréias nem tinham terminado e o Globe colecionava desmaios e pessoas com enjôos sendo atendidas pela equipe médica do teatro (que é uma réplica bem aproximada do extinto Globe onde Shakespeare encenou originalmente suas peças). O espetáculo, como vários outros das sucessivas temporadas do Globe, foi lançado em DVD. Acabo de assisti-lo, e achei excelente.

Bailey não é uma esteta como Taymor ou um diretor arrojado e polivalente como Purcărete - que teve a singularidade de misturar com perfeição a tragédia e o circo em seu espetáculo - mas tira leite de pedra e seu Titus é talvez o mais próximo daquilo que Shakespeare (ou quem quer que seja) escreveu.

William Houston (Titus) e Flora Spencer (Lavinia)
(spoilers) Os discursos dos personagens políticos são feitos em plataformas em meio à platéia, toda em pé, o que de cara transforma o público em participante da trama. O cenário é enxuto e bem urdido, e são ótimas as intervenções musicais. A morte dos filhos de Tamora foi mais catártica do que sangrenta. O suplício de Lavínia não é mostrado no ato, e sim em suas conseqüências, o que em pouco minora o choque de vê-la mutilada. Já a morte da enfermeira que traz o filho adulterino de Tamora e Aarão foi particularmente brutal. No texto do bardo, há somente a rubrica "he kills the nurse". A fala seguinte de Aarão, depois de matar a enfermeira, é "Weke, weke! so cries a pig prepared to the spit", um deboche sobre os gritos da enfermeira. Bailey foi mais além e aproveitou o "pig prepared to the spit" fazendo com que sua morte fosse um empalamento!

Quanto ao elenco, William Houston é um bom Titus mas eu preferiria que ele não carregasse tanto no humor de sua desgraça. O riso em determinados momentos da peça é uma válvula de escape diante de tantas barbaridades, mas Houston ultrapassa de leve esse limite. A Tamora de Indira Varma é perfeita, suplicante e humilde no início, vagabunda, cínica e carniceira dali em diante. Matthew Needham é um Saturninus asqueroso, infantil e psicopata, como pede o papel. Grita mais do que deveria, mas não chega a comprometer. Samuel Edward-Cook e Brian Martin formam um par eficiente de irmãos assassinos, na pele de Chiron e Demetrius. A Lavínia de Flora Spencer-Longhurst é ótima, como também agrada o Aarão de Obi Abili, embora o mouro da peça romena tenha sido superior em tudo e seja inesquecível. Destaque especial ao Marcus do brilhante Ian Gelder.

Recomendo.
Mas só para quem tem estômago forte. (20/12/2015)

"CHATÔ", de Guilherme Fontes

"Parturient montes, nascetur mus"
Phaedrus

Assisti "Chatô", lançado no fim do ano passado depois de 20 anos e sabe-se lá quantos milhões de reais.

Nem sei por onde começar... (spoilers)

1 - O livro de Fernando Morais sobre Chatô - o melhor de todos que escreveu, muito superior à "Olga" - é uma pesquisa riquíssima, a vida de Chatô é apinhada de fatos extraordinários e poderia ter se transformado em um longa-metragem monumental, de três horas, nas mãos de um grande diretor estrangeiro (podemos sonhar com o que teria acontecido se este livro caísse nas mãos de Spielberg), ou em uma minissérie de uns quatro ou cinco capítulos, nos moldes de "John Adams" e daquilo que vem há anos sendo impecavelmente produzido pela HBO.

Com Guilherme Fontes em sua malfadada estréia como diretor, "Chatô" não virou nem uma coisa nem outra. Utilizou-se o manjadíssimo recurso de começar o filme com ele agonizando, em meio a um delírio que o coloca como réu em um programa de TV em que os jurados e as testemunhas são algumas pessoas com quem ele conviveu, e a partir disso episódios de sua vida vão sendo costurados aleatoriamente (influência torta e mal-absorvida que vai de "Castro Alves pede passagem", de Guarnieri a "All That Jazz", de Bob Fosse, entre outros). Até aí não haveria maiores problemas, só que ao invés de um filme equilibrado, de narrativa linear, que não precisaria mostrar toda sua vida mas, fixando-se em alguns momentos, transmitiria a essência de sua personalidade, optou-se, como sempre, pelo viés mais fácil: a alegoria.

O Getúlio de Paulo Betti: performance amadora
2 - Aliás, só mesmo a alegoria para explicar a escolha tão pavorosamente equivocada de grande parte do elenco. Em entrevistas, quando inicialmente se cogitou a filmagem de seu livro, Fernando Morais disse que gostaria que o papel fosse para Marco Nanini. Ótima escolha, Nanini tem o talento e o physique du rôle para encarnar Chatô (com exceção da altura, que teria que ser disfarçada). Fontes optou por Marco Ricca, que é um bom ator, mas além de muito jovem, não há esforço da mente que nos faça pensar em Chatô quando olhamos para ele. Sobretudo com aquela dentadura e aquela franja inexplicável. Não chega a ser ruim, mas é um personagem completamente diferente. Não é Chatô.

Mais absurda ainda foi a escolha de Paulo Betti para interpretar Getúlio. Talvez fosse perdoável numa festa à fantasia ou numa peça de teatro infantil, onde se pode abusar de perucas e barrigas falsas, mas num filme que se propõe sério, o resultado é apenas ridículo. Tudo é falso em Betti. Sua performance é amadora. A voz, o sotaque gaúcho, suas falas, o charuto, a altura (Getúlio era um anão gordo), tudo é fake. O mesmo se pode dizer do sotaque espanhol de Leandra Leal.

Andréa Beltrão: competente,
em meio à barafunda
3 - O roteiro de João Emanuel Carneiro (que atualmente vem se firmando como um de nossos melhores
teledramaturgos) é bobo e
superficial. O filme pode ser sobre Chatô, mas o roteiro é tão ruim quanto o de "Olga". É uma síntese do cinema brasileiro: diálogos idiotas, clichês e sensacionalismo. A compulsão sexual de Chatô, os adultérios, as bandalheiras estão todas lá. Seu trabalho jornalístico, a criação e multiplicação dos "Associados", nem sombra. Seus maus bofes, sua truculência e seu mau-caráter tem exemplos sobejos. A cultura frondosa, o patrocínio inigualável das artes e as conexões por todo o mundo recebem pincelada insignificante.

Há por um lado os papéis exagerados e sem qualquer graça de Ricardo Blat, Marcos Oliveira e Gabriel Braga Nunes, e por outro o desperdício olímpico de Letícia Sabatella, Walmor Chagas e José Lewgoy, vítimas do não aprofundamento do roteiro. Nessa bagunça de personagens mal-elaborados e mal-desenvolvidos quem acaba se sobressaindo é Andréa Beltrão, no papel da fictícia Vivi, que por sinal não envelhece e não apresenta uma única ruga, mesmo aparecendo continuamente de 1929 a 1968.

4 - O filme tem uma produção ok, relativamente bem-cuidada, mas descobrir para onde foram todos os milhões empregados em "Chatô", ou por que um filme tão medíocre demoraria tantos anos para ser finalizado, é mistério para os séculos. Nada impressiona. Nada é excepcional. Não há cenários suntuosos, locações milionárias, milhares de figurantes, efeitos especiais, simplesmente nada que justifique a derrama de dinheiro e o tempo gasto.

"Chatô" é isso. Melhor seria que continuasse sendo lenda. (25/02/2016)

SORTIDO DO OSCAR 2016


Minha opinião até o momento. Haverá um ou outro semi-spoiler, então atenção:

1 – “The Danish Girl” – Repito o que disse recentemente:  De longe, o melhor, este ano. É uma vergonha que não esteja concorrendo na categoria de melhor filme. Eddie Redmayne está maravilhoso, perfeito e merece ganhar o oscar que ganhou sem merecer, no ano passado, por “The Theory of Everything”. Alicia Vikander nem precisava ser a atriz brilhante, talentosíssima que é, sendo tão linda. Sua performance é exemplar. Foi indicada para o oscar de melhor atriz coadjuvante, o que é ridículo porque ela é a atriz principal e Amber Heard é a coadjuvante, mas não importa. Merece a estatueta que for.

3 - “O Regresso” – Achei legal, muito bem feito, muito realista e o Di Caprio luta com um urso logo no começo e sofre as conseqüências dessa luta pelo resto do filme. Sei que ele está cotadíssimo e deve ganhar, mas o que vi foi ele estrebuchando durante duas horas. Sinto-me exausto só de imaginar o que é ter que estrebuchar durante toda uma filmagem. Esforço físico nota dez. Interpretação, nota seis, talvez sete, que é o máximo que ele sempre alcançou. Poderia possivelmente ter ganho pelo “Aviador”, anos atrás. Depois disso, qualquer coisa é lucro. Enfim, considerando que um sensaborão como o Daniel Day Lewis já ganhou três vezes, não faz diferença.

4 – “A Grande Aposta” – Parei de assistir na metade. Não consegui terminar. Em toda minha vida, isso deve ter acontecido duas ou três vezes. Uma chatice intolerável. O roteiro é granítico e mal desenvolvido. Trata-se do processo que levou à hecatombe do mercado financeiro norte-americano em 2008, mas o roteirista não fez o menor esforço para tornar a coisa palatável ao leigo. O filme é um aranzel de números, fórmulas e termos complexos de finanças que não fazem qualquer sentido a quem não está familiarizado com o assunto. Não merece ganhar nada.

5 – “Spotlight – Segredos Revelados” – Repito o que já disse:  O diretor Tom McCarthy não possui o gênio de Alan Pakula - diretor do clássico "All the President's Men", obra seminal sobre jornalismo investigativo - ou o talento para o suspense de David Fincher - diretor do magnífico "Zodiac" - e Michael Mann - diretor do também magnífico "The Insider". Não compromete mas também não emociona. É amorfo. Acho absurdo Mark Ruffalo e Rachel McAdams serem indicados. Ele é bom ator, ela é bonitinha, mas nenhum dos dois mereceria ser indicado por esse filme.

6 – “Joy” – Nem a trinca JLaw/Bradley Cooper/DeNiro, tão afinada e brilhante sempre, consegue fazer deste filme algo mais do que ele é: um filminho bobo água com açúcar.

7 – “Carol” – Lesbian-chic. Chatíssimo e transbordando clichês. Não mereceria sequer ter entrado na lista de indicados.

8 – “Mad Max” – Ótimo filme de ação, mas acho um absoluto exagero indicá-lo para melhor filme.

9 – “Perdido em Marte” – Mesma coisa. Um filme legal mas a anos-luz de merecer tanto essa indicação quanto a de melhor ator para Matt Damon. Virou bagunça. “Interstellar”, de 2014, é  infinitamente melhor e não concorreu em nenhuma das principais categorias.

10 – “Steve Jobs” – Chega. Depois de “Pirates of Silicon Valley” e “Jobs”, não há mais quem tenha saco para outro filme sobre o fundador da Apple. Nem o roteiro de Aaron Sorkin salva este filme. E me perdoem as fãs, mas Michael Fassbender como Jobs é o mesmo que colocar o Rodrigo Santoro para interpretar o Pelé. Não dá. Chato, muito chato.

11 – “Bridge of Spies” – Curioso; enquanto Scorsese está perdendo as estribeiras e ficando trash com a velhice, Spielberg está ficando “soft”. Esperava tanto de “Bridge of Spies”, e o que vi foi uma historinha light de espiões bonzinhos que tem um final feliz. Parecia um filme de Ron Howard. Senti saudade do Spielberg de “Império do Sol”, “Lista de Schindler” e “Private Ryan”.

12 – “Trumbo” – Aqui se dá o efeito contrário: a vida de Dalton Trumbo é perfeita para um filme e acredito que Spielberg teria feito algo muito mais profundo e inesquecível com ela. Jay Roach não tem cacife para isso. Mas fez um trabalho ok. Bryan Cranston está excelente.

13 – “Room” – Triste, muito triste. Só o que posso dizer. Além de que o elenco é nota dez. Brie Larson e o menino, Jacob Trembley, são ótimos.

Outros:

1 – “The Hateful Eight” – Uma merda. Os filmes de Tarantino cada vez mais parecem cópias pioradas daquilo que ele já fez. Desperdiçou gigantes como Kurt Russel e Michael Madsen. Eu torceria, por motivos sentimentais, pela vitória de Jennifer Jason Leigh como atriz coadjuvante, mas meu coração pertence a Alicia Vikander.

2 – “Sicario” – Gostei bastante. A julgar pela baixíssima qualidade da concorrência, merecia colocação melhor do que, por exemplo, “A Grande Aposta” ou “Perdido em Marte”. Concorre a prêmios menores. Espero que ganhe algum.

3 – “Ex-Machina” – Fico feliz que concorra ao prêmio de melhor roteiro original. Merece.

4 – “Creed” – Será minha alegria ver o Stallone vencer o Oscar novamente , depois de 40 anos.

5 – “Amy” – Muito bom. E por isso mesmo, muito triste. Dói na alma ver, de maneira tão metódica e documentada, a destruição implacável de uma menina tão linda e tão talentosa. Concorre para melhor documentário. Espero poder ver o outro, sobre Nina Simone. (01/02/2016)

ANÁLISE SERÔDIA DO OSCAR


Não assisti o Oscar no domingo e além dos vencedores, só o que soube no dia seguinte foi da participação ridícula de Glória Pires na Globo. Assisti a cerimônia agora e aqui vão dois ou três comentários rápidos:

1 - Li muito sobre a participação do apresentador Chris Rock, de quem sou profundo admirador:

a) A academia foi inteligentíssima em chamá-lo. E não por ele ser negro, e sim por ser um negro que não tem qualquer pudor de fazer piadas com os próprios negros. Com isso, as reclamações pela supremacia branca entre os indicados foram divertidas sem pesar negativamente para nenhum dos dois lados. Ficou claro aquilo que todo mundo já sabe: os negros não têm as mesmas oportunidades que os brancos em Hollywood. Ninguém tem qualquer dúvida disso e Rock fez uma analogia muito pertinente entre Leo e Jamie Fox, no sentido do primeiro fazer um filme excepcional por ano, e o segundo receber uma boa chance de vez em nunca.

Na mesma medida, quando Rock brincou que na década de 60 os negros estavam mais preocupados com seu linchamento do que com o fulano indicado a melhor diretor de fotografia, ficou claro, sem que o apresentador precisasse dizê-lo explicitamente, que os negros em Hollywood têm que parar de mimimi e criar essas oportunidades. Um exemplo perfeito é Spike Lee, que este ano ironicamente recebeu um Oscar especial por meia dúzia de filmes feitos há mais de duas décadas. Se sua produção desde então não tem qualquer qualidade, não se pode culpar a indústria. Hoje, por sinal, seria muito mais fácil que surgissem novos valores negros no cinema graças a portas abertas por pessoas como Eddie Murphy, Denzel, Spike, John Singleton e outros, do que na época deles, década de 80, em que o racismo era ainda mais denso do que hoje. Enfim, fosse qualquer outro o apresentador negro, as piadas teriam vindo com um ressentimento e um maniqueísmo que causariam desconforto.

b) Quanto à performance de Chris Rock em si, achei-o estranhamente travado. Parecia titubeante, às vezes. E embora tenha havido momentos hilários, as piadas poderiam ter sido melhores. É o que se esperava de um comediante tão brilhante. Sem falar nas meninas vendendo girl scout cookies, que estou até agora tentando compreender. Não obstante, é o melhor apresentador em muitos anos.

A maravilhosa Alicia Vikander
2 - Dizer que "venceram os melhores", como fez o (péssimo) crítico de cinema do UOL é bobagem. Isso simplesmente não existe no Oscar. Primeiro que se trata de um prêmio da indústria, ou seja, é político. No mais, como Alicia Vikander seria a melhor coadjuvante se é a atriz protagonista? Como Inharritú seria o melhor diretor se provou-se por A+B que todo seu trabalho está calcado em Tarkowsky? Como "Bridge of Spies" pode ser indicado a melhor filme e Spielberg não ser indicado a melhor diretor, se a única coisa que presta no filme é sua direção? No fim das contas, é no máximo uma questão de opinião. Podemos dar um pitaco sobre quem mereceu, quem esteve perto de merecer e quem, efetivamente, não mereceu.

3 - Atenho-me aos prêmios principais: não achei extraordinário nenhum dos indicados a melhor filme. Entre eles, eu teria optado por "Brooklin" ou "Bridge of Spies". Venceu "The Big Short", que é um filme que parei de ver no meio. Essa atitude revela mais do que qualquer análise.

Ator - Eu torcia para Eddie Redmayne mas este era o ano de Leo. Acompanho sua carreira desde seu primeiro filme e estou feliz por ele. E a bem da verdade, só eles dois mereciam.

Stallone, uma performance exemplar,
e uma injustiça exemplar
Atriz - Conforme já assinalei, a melhor atriz deste ano foi Alicia Vikander. Mas como a academia resolveu fazer uma gambiarra sabe-se lá por qual razão e Alicia acabou coadjuvante, fiquei feliz por Brie Larson, que fez um bom trabalho em "Room". Com exceção de Cate Blanchett fazendo uma grã-fina chata, sem graça e absolutamente previsível em "Carol", as atrizes indicadas eram muito boas.

Ator Coadjuvante - Foi a pior injustiça da noite. Mark Rylance tem uma performance ok mas nem se compara ao Rocky envelhecido de Stallone, ou à toda mística que envolve essa indicação. Infelizmente o Oscar está cagando para esse aspecto "mérito/mística" da premiação, quando o público pende emocionalmente para um candidato, seja por que ele é velho, seja porque não terá provavelmente outras oportunidades de concorrer. Sempre foi assim, e de uns 30 anos para cá o Oscar cagou para Ann Sothern em 1987, cagou para a velhinha do Titanic, cagou para Lauren Bacall, cagou para Eddie Murphy e domingo cagou para Stallone. Lamentável. Sly merecia muito esse Oscar.

Atriz Coadjuvante - Já comentei. O Oscar torto para Alicia Vikander tirou o prêmio de Jennifer Jason Leigh, que seria bom homenagear pelo conjunto de sua obra.

Direção - Também já falei o que penso de Inharritú, que foi o vencedor. Entre os indicados - nenhum do meu particular agrado - eu ficaria com Lenny Abrahamson, diretor de "Room".

Frank Finlay (esq.) como Iago, e Olivier como Othello, 1965

4 - A foto acima se refere a uma triste omissão no "In Memoriam": Frank Finlay, que morreu no fim de janeiro, aos 90 anos. Morreu quinze dias depois de Alan Rickman, já em 2016, portanto não há desculpa de que foi este ano. Finlay foi o Iago do "Othello" de Laurence Olivier, em 1965, e recebeu uma indicação por esse papel. Foi uma das poucas vezes (senão a única) em que um filme teve ator (Olivier), atriz (Maggie Smith), ator coadjuvante (Finlay) e atriz coadjuvante (Joyce Redman) indicados ao Oscar.

Além disso trabalhou nas "Sandálias do Pescador", na série "Três Mosqueteiros" da década de 70 e uma série de outros filmes memoráveis que deviam ter-lhe rendido uma menção no clipe do Oscar. (03/03/2016)

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