quinta-feira, 1 de junho de 2017

Vanya Querida


Com Vanya e Guarnieri, fevereiro de 2006

Vanya Sant'Anna se foi. Devo MUITO a ela. Muito. Devo-lhe milhões de gentilezas, de atenções, de carinhos, de incentivos, de uma porção de coisas que não caberiam aqui. Devo-lhe presentes. Devo-lhe o áudio de onde vem a mensagem de Guarnieri que está no banner lateral do blog. E devo-lhe esse abençoado encontro com Guarnica.

No fim de 2005 abro um tópico na comunidade que dediquei a ele, no Orkut, e incito as pessoas a mandarem mensagens de carinho a Guarnieri. O resultado foi lindo, muito melhor do que eu esperava. Dezenas de pessoas escreveram mensagens cheias de emoção e sentimento. Vanya me escreveu no dia 1º de janeiro de 2006:

Querido Bernardo, ficamos extremamente emocionados com esta linda homenagem que você organizou. O Guarnieri ficou muito alegre especialmente por ser assim, vindo de muitas pessoas que o querem bem. Todo artista duvida um pouco de seu próprio valor. Quase todos pelo menos. Creio que pelo menos os melhores... Espero ter o prazer de uma visita sua aqui em nossa casa no alto da Serra da Cantareira. (...) É um convite verdadeiro. Mas não tome como intimação... rsrsrs. Um grande ano em sua  generosa e benfazeja vida. Montão de beijos, Vanya. 

Respondi trêmulo de alegria, comparando o seu "não tome como intimação" ao papa convidar um católico fanático para um encontro, mas só se ele quisesse e não fosse incomodar... O encontro da foto ocorreu um mês depois, no dia 5 de fevereiro de 2006. Quando voltei, escrevo-lhe longo e-mail que dizia, entre outras coisas, "vá lá o clichezaço, mas simplesmente não tenho palavas para te agradecer o que você me proporcionou hoje. Obrigado é muito pouco. A gentileza do primeiro ao último momento, ver o sorriso franco e aberto do amado Guarna, o almoço delicioso, a prosa edificante, os magníficos presentes... foi muito bom. (...) É como disse Chaplin quando recebeu o oscar: Words are so futile, so feable... Não tenho como agradecer. Obrigadíssimo por tudo!"

Ela me respondeu, com a simpatia e o bom humor de sempre:

Uma das coisas de que me orgulho é de sempre acertar, apenas pelo faro, o caráter das pessoas. Ainda que seja, como foi o caso, à distância. Para o bem e para o mal, claro! Deu pra sacar como você é boa gente de cara, meu! Foi muito agradável sua vinda ontem. Pena que o tempo foi curto pra que eu te mostrasse algumas coisas que gostaria aqui no escritório do Cecco de onde te escrevo. Mas estou certa de que logo você voltará, teremos mais tempo e sossego. O Guarnieri ficou bastante contente com a visita. 

Uma semana depois, passada a emoção do encontro, mando-lhe algumas impressões sobre o estado da memória de Guarnieri, que embora combalida pela enfermidade, mantinha-se bastante segura e me impressionou positivamente. Comentei que perguntara a ele sobre coisas propositalmente difíceis como a Missa AgráriaA Morte do Soldado e outros aspectos longínquos e desconhecidos de sua carreira, e ele falava sobre cada um dos assuntos com inesperada clareza. Ela respondeu:

Querido Bernardo, é bem como você captou: o Guarnieri sempre foi seletivo em suas lembranças. Desde que o conheci ele diz a seguinte frase: "o que não me é útil não me passa à consciência"... Não conheço esta sabedoria, mas acho  um privilégio poder praticá-la. Agora ele se vê mais ainda merecedor desse processo seletivo. Fico irada apenas quando deixa de tomar remédio, ou coisa assim. Mas não me importo que ele viaje por rotas das quais não tenho a menor pista. É um direito dele. Beijos, Vanya.

Iniciamos uma conversa praticamente diária por e-mail. Eu, extasiado com o prazer de trocar com eles, ela, feliz, creio eu, de poder ajudar num processo devotado e abnegado de eternização da obra de seu marido e companheiro há quarenta anos. Mandava-lhe dúvidas sobre a carreira de Guarnieri quase todos os dias. Ela respondia no mesmo dia ou no dia seguinte, com boa-vontade e solicitude.

Escrevo-lhe certo dia com uma dúvida específica sobre o prefácio de Guarnieri para o livro da peça Castro Alves pede passagem: "Vanya querida, espero que vocês todos estejam bem. Queria te perguntar por que no prefácio do Castro Alves pede passagem o amado Guarna agradece ao Vinícius, 'que me ensinou a pedir'. O que quer dizer isso, Vanya? Mande um beijo a todos por aí, de quem já estou saudoso. Beijos". A resposta dela vem dois dias depois:

Querido Bernardo, respondendo à sua pergunta: naquele trecho o Guarnieri está se referindo ao fato dele ter se utilizado bastante da obra do Jorge Amado (ABC de Castro Alves) para escrever a peça. Aí ele termina pedindo a benção ao Jorge Amado à moda do Vinícius no "Samba da Benção". Ou seja ele pede a benção afirmando que aprendeu a fazer isto com o Vinicius. Firulas de poetas. Ambos, Vinicius e Guarnieri, estavam muito próximos na época por causa da triangulação que faziam com Toquinho, parceiro de ambos, de modo intenso, naquele momento. A música que abria o espetáculo era do Vinicius (letra e música).

No fim ela pede meu endereço para enviar a cópia de Arena Conta Zumbi que já me havia prometido tempos antes. Eu ficava arrepiado cada vez que ouvia trechos do Zumbi pelos fones da exposição dos 50 anos do Arena no Tomie Othake. Ouvir o disco inteiro foi uma dos maiores prazeres que já senti em minha vida. Difícil descrever prazer tão perfeito. Escrevo à Vanya mensagem longa de agradecimento, da qual destaco trechos:

Vanya querida, não sei mais o que fazer com você. Primeiro você me deu o melhor presente desta década permitindo que eu visitasse vocês. E agora recebo pelo correio essa maravilha que é o "Arena conta Zumbi" em cd! Não sei o que fazer. (...) O cd é fantástico, como eu já previa. Mas por fim entendi o porquê do Chico ter dito que foi tão influenciado pelo "Zumbi" e pelo "Opinião". Não consigo evitar de ver ecos claríssimos do "Zumbi" na música de "Morte e Vida Severina", composta por Chico em 65. Pode até ter sido sincronicidade entre ele e o Edu, mas que são gêmeas em alguns pontos, isso são. (...) Enfim, como dizia o Jobim [sobre o arranjo de Mário Adnet para a Maracangalha de Caymmi, que Jobim usou em seu último cd], você alegrou meu coração com esse presente. Obrigadíssimo mesmo!

Vanya disserta, em sua resposta de 4 de março:

Sobre suas observações: na verdade, Chico e Edu são de uma mesma geração musical. Ambos remetem ao mestre Tom Jobim que por sua vez incorporou, além dos impressionistas como Debussy p.ex., muito do maior de todos que foi Villalobos, o qual por sua vez registrou todos os sons do país, de leste a oeste, de norte a sul. Prá não ser injusta, também um pouco do Gnatelli e do Guerra Peixe. Resumo: todos bebem da alma musical brasileira. O espetáculo do Zumbi fez um ENORME sucesso. O Morte e Vida pode ser considerado filho do Zumbi. Mas que filho!!!

Alguns nomes de músicas foram alterados nas gravações "comerciais". "Upa Negrinho" foi rebatizado pela Elis quando o apresentou ao grande público em seu programa com Jair Rodrigues "O Fino da Bossa".  Havia outras músicas que não foram gravadas por conveniência da gravadora. Mas a intenção do disco era o registro do espetáculo, mais que o lançamento das músicas no mercado.

Tenho certeza que não dá prá distinguir minha voz. Como sou daqueles cantores de chuveiro, absolutamente incapaz de bem entoar uma música, me escondia dentre as vozes dos outros prá não atrapalhar. Acho que na maioria das vezes se sobressai a voz da Marília. Mas outras vezes é a voz da Dina. Cheguei a fazer um pouco de aula de música durante os ensaios para atrapalhar menos os colegas. Eu não tinha nem a personalidade, nem a coragem do Lima Duarte prá mandar ver, mesmo desafinando atrozmente.

Em abril pergunto-lhe de um livro lançado em 1978, "Feira Brasileira de Opinião  A Feira censurada", com peças de Guarnieri (Janelas Abertas), Dias Gomes, Jorge Andrade, Lauro César Muniz, Maria Adelaide Amaral, Carlos Queiroz Teles, João das Neves, Márcio de Souza e Leilah Assunção, e se foi montada ou, de fato, censurada. Ela esclarece:

Querido Bernardo, tudo bem? não esta "Feira..." não era mesmo prá ser montada. Foi uma idéia da Ruth Escobar durante a campanha da anistia nos anos de 78 e 79 da qual fomos ativistas tempo integral. Eu participava do comando nacional e o Guarnieri ajudava em tudo o que fosse da área dele. A Ruth também foi da liderança do movimento e o livro foi editado para venda durante o Iº Congresso de Anistia que aconteceu aqui em São Paulo. O Guarnieri classifica esta pequena peça de "comercial da Anistia". Outro dia recebemos um pedido de autorização prá montagem por um grupo não me lembro mais de onde. Coisas de militância política sem nenhum compromisso com a estética. Beijos e um bom fim de semana.

Lembro que pouco depois pedi a ela para me mandar a letra de Um Grito Parado no Ar, desconhecida de toda a nova geração e completamente inédita na Internet. Ela mandou e acrescentou um causo:

Querido Bernardo, desculpe ter demorado prá te mandar a letra mas demorei um pouco prá achar. De fato, não consta nem da 1ª edição da peça, nem mesmo estava no original do texto. Lembro que foi uma canção composta pelos dois, Toquinho e Guarnieri, ainda no embalo do Botequim. Diria que foi quase uma "sobra" do Botequim. Tanto que o nome da peça saiu do verso da canção. Lembro que na época, meio brincando, fizemos uma consulta ao I Ching sobre qual seria o título da peça e o Hexagrama se chamava  "Céu sobre Lama". Aí vimos que tinha tudo a ver.

Ela termina com uma notícia que me deixou triste e apreensivo, mesmo que já estivéssemos todos de certa forma preparados para o que vinha pela frente: "Bernardo, essas suas iniciativas me enchem de alegria o coração muito pesado com uma relativa piora do quadro geral do Guarnieri. Estou bem aperreada por aqui, mas como ando dizendo pros muito amigos, infelizmente não dá prá pular esta etapa da vida. Muito obrigada por tudo e releve alguma demora minha em responder os emails. Beijos afetuosos".

No dia seguinte respondo: "Vanya, estou muito comovido com o teu e-mail. Sofro com toda a classe teatral o problema de saúde do Amado Guarna. Meu coração está aí com vocês. Torço em todos os minutos pela recuperação dele e para que você continue com essa força extraordinária que teve sempre. O Guarna certamente é um privilegiado de ter você do lado dele. Contem comigo sempre e recebam o abraço afetuoso do amigo", ao que ela logo me escreve: "Querido amigo, obrigada pela solidariedade, sobretudo por manter minha moral em nível razoável nesse tempo muito difícil que atravessamos. Muitos beijos e um ótimo fds".

Pensando justamente em alegrá-los, em presenteá-los, em dar-lhes algum alento naquele momento de provação, em tentar retribuir, ainda que palidamente, um pouco do muito que eu vinha recebendo deles, decidi coligir, para a comunidade, aquilo que batizei  inspirado por Heron Coelho  de Cancioneiro de Guarnieri (reunião de gravações de todas as músicas cujas letras eram dele). Vanya foi a primeira a incentivar: "Achei ótima a idéia do cancioneiro. Como tudo que você faz, acrescenta valor histórico a um gesto de grande generosidade". Dias depois de publicar a primeira parte, em abril de 2006, encontro no site do IMS uma versão rara da música Gimba (Jorge Kaszas/Guarnieri) cantada por Marlene e mando para Vanya. Ela respondeu no dia 14 de abril, maravilhada:

Nossa Bernardo! Que garimpeiro você é, cara! Isto é jóia rara mesmo... Quando eu era adolescente, meus pais assistiram a montagem, adoraram e me deram o programa da peça. Tinha a letra da canção e minha mãe, que canta muito bem, aprendeu no espetáculo  e me ensinou, assim, mais ou menos, claro! Passados uns 2 anos achei a primeira gravação, me lembro que foi numa loja da 7 de abril. Esta gravação da Marlene soube da existência por você. Querido amigo, belo trabalho de pesquisa. Isto tem que virar uma coisa mais ampla que a comunidade, não acha? Pros amigos de orkut prá quem repliquei sua mensagem, retornaram com entusiasmo. Que bom! Que ótimo você existir... O Guarnieri está ouvindo agora mesmo, encantado! Beijos de montão, Vanya.

Recolho essas lembranças ao acaso, entre muitas outras porque tive uma longa, carinhosa e produtiva troca de e-mails com Vanya que se estendeu de dezembro de 2005 até meados de 2007. Muita amizade, afinidade, confiança, solidariedade, gentileza... humanidade, enfim. E justamente durante o período que marcou a despedida do Amado Guarna"Querido Bernardo", "Vanya querida", "querido Bernardo", "Vanya querida"... Um dia, quem sabe, escreverei sobre isso. 

Hoje digo apenas uma coisa: que pena que não pude conviver com ela tanto quanto desejaria! Ela era teimosa... teimosíssima. Mas antes, e principalmente, ela era uma pessoa absolutamente maravilhosa.

Foi um privilégio conhecê-la.
Um grande beijo, Vanya querida!

Vanya Sant'Anna no papel de Mariana em "Tartufo" (Teatro de Arena, 1964), com direção de Augusto Boal. Foi o primeiro trabalho dela no Arena, onde conheceu Guarnieri,
que no mesmo espetáculo interpretava o papel-título

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