quinta-feira, 18 de julho de 2019

Minestrone Cultural XVI


ALBERT FINNEY (1936/2019)

Finney era provavelmente o último que restava dessa segunda geração de grandes atores britânicos do século XX, nascida entre os anos 20 e 30, que incluía Richard Burton, Alan Bates, Peter O'toole, Richard Harris, e assim por diante (Hopkins e Derek Jacobi vieram um pouco depois), e que sucedeu Olivier, Gielgud e Richardson. Um de seus primeiros grandes sucessos no teatro foi justamente Coriolano, em 58, inicialmente como stand in de Olivier e depois como seu substituto. Em 60 ele fez sua estréia no cinema no papel de Mick, filho do Archie Rice de Olivier, em The Entertainer. Impressionou pela voz, pela presença, pelo carisma, pelos assustadores olhos azuis e em geral, pelo imenso talento.

Toda essa geração explodiu no cinema por essa época; Burton com Cleópatra, O'toole com Lawrence, Finney com Tom Jones, Bates com Zorba e Harris com Sporting Life, mas Finney acabou sendo o mais bissexto de todos eles. Alternava teatro e cinema com tranqüilidade e nunca se permitiu virar escravo de qualquer um deles. Seu melhor papel no cinema, por sinal, só viria em 1983, com The Dresser, de Peter Yates, baseado na peça de Ronald Harwood (não confundir com o pálido remake de 2017, com Anthony Hopkins). Sua performance nesse filme pode ser catalogada como uma das melhores da história do cinema. Tudo é perfeito em Finney, no papel de Sir, o velho ator. Poucas vezes vi tanta intensidade, um vozeirão tão poderoso e uma emoção tão verdadeira. Humor, drama e tragédia. As poucas cenas de seu Lear, no filme, são melhores do que qualquer Lear que já vi até hoje com exceção justamente do de Olivier, que por extraordinária coincidência estava fazendo seu próprio Lear para a televisão, nesse mesmo ano.

O Sir de Finney, interpretando Lear
A diferença é que Olivier estava com 76 anos. Finney interpretou Sir com 47 (sem falar que em um dos obituários li que Finney foi um Lear prematuríssimo no teatro, em 1963, portanto aos 27 anos). Esta é uma da mais interessantes características do ator: seja pelo excesso de álcool, de cigarro ou do que quer que seja, desde muito cedo ele trouxe no rosto sinais precoces de envelhecimento e sua voz foi ficando cada vez mais aveludada. Para ele era fácil, portanto, interpretar velhos utilizando apenas as marcas da idade em seu rosto e em sua voz, mesmo quando ele ainda era efetivamente jovem.

Tom Courtenay fez brilhantemente o papel do camareiro em The Dresser, reprisando o personagem que criou no West End. Eis o que disse sobre Finney, na época: "A peça é sobre a interação de dois homens, e sem querer denegrir os atores com quem contracenei nas montagens teatrais (Freddie Jones e Paul Rogers) o fato de que Albert é o que é - um verdadeiro gigante teatral - faz com que o filme seja melhor, como um todo. Eu sei disso".

Finney e Courteney
Courtney e Finney concorrerm ao Oscar de Melhor Ator, o que é raro. Perderam para Robert Duvall num filme qualquer em que ele faz o papel de um cantor de música country. Em se tratando das cagadas do Oscar, não chega a chocar. Como não impressiona que toda essa geração foi criminosamente esnobada: O'toole, oito indicações, zero Oscar; Burton, sete indicações, zero Oscar; Finney, cinco indicações, zero Oscar; Harris, duas indicações, zero Oscar; Bates, uma indicação, zero Oscar. Sua última indicação veio com a coadjuvância em Erin Brokovich, em 2000, início de seu derradeiro caso de amor com Hollywood, e que lhe rendeu bons papéis, como Ed Bloom em Big Fish (2003) e Charles em Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto (2007), o ótimo e subestimado canto do cisne de Sidney Lumet.

Finney se foi aos 82 anos, após uma batalha com o câncer. No rim, para choque de todos nós, seus admiradores há tantos anos, que imaginávamos que sua desgraça seria o fígado ou o pulmão.

Um ator absolutamente maravilhoso e inigualável. (8/2/2019)

THE GATHERING STORM (2002)

Há tempos acalento a ambição de escrever um pequeno artigo com uma análise comparativa de várias interpretações diferentes de Winston Churchill, no cinema. Até então eu já assistira quatro Churchills, de Brian Cox a Gary Oldman, passando por Brendan Gleeson e John Lithgow, mas me faltava um dos mais importantes, senão o mais importante de todos: o de Albert Finney. E esta semana, ainda tocado por sua morte, assisti The Gathering Storm, feito para TV pela HBO em 2002. O tema do filme é a relação inesperada e profundamente benéfica entre Winston, então um membro apagado e decadente do parlamento britânico, e Ralph Wigram, funcionário do ministério de relações exteriores; na medida em que a guerra se aproximava, o primeiro ministro Stanley Baldwin procurava esconder informações sobre a expansão bélica dos alemães, com o fito de evitar que a Grã-Bretanha participasse de qualquer conflito armado. Ciente disso, um oficial do governo e amigo de Winston, Desmond Morton, coopta Wigram para que ele copie documentos secretos da chancelaria e os entregue a Winston, para que ele possa alertar a população e o próprio governo sobre a necessidade do reino se preparar para uma guerra iminente e inevitável.

O Winston de Finney
É uma belíssima produção e reúne um verdadeiro dream team cinematográfico, embora o destino fosse a exibição televisiva. Na produção executiva estão ninguém menos do que Ridley e Tony Scott; a direção é do competente Richard Loncraine - que tinha o Ricardo III de Ian Makellen no currículo - e o roteiro ficou por conta de Larry Ramin e Hugh Whitemore. O elenco é um espetáculo: além de Finney temos Vanessa Redgrave no papel de Clementine, sua esposa. A reunião dos dois é altamente simbólica, pois segundo me consta, um dos primeiros espetáculos dos quais Vanessa participou profissionalmente foi o Coriolano de Olivier, dirigido por Peter Hall, no papel de Valéria, esposa do general romano. Com a saída de Olivier quem o substituiu foi justamente Finney, também em início de carreira. Os dois já haviam se encontrado novamente em outras ocasiões, como em Murder on the Orient Express, de 1974, mas é um deleite vê-los juntos em sua maturidade. Passados quarenta e quatro anos de Coriolano, os dois são o casal Churchill. No papel de Randolph, um dos filhos de Winston, está o jovem Tom Hiddleston, aos 21 anos, em seu terceiro filme. As coadjuvâncias são todas notáveis: Desmond é Jim Broadbent, Stanley é Derek Jacobi, Celia Imrie é a secretária Violet e Tom Wilkinson interpreta o diplomata Robert Vansittart. O próprio Ralph Wigram é interpretado pelo ator Linus Roache, que faz bem seu trabalho, mas dado o peso do elenco, um ator de mais renome poderia ter sido chamado. Sua esposa é a linda Lena Headey.

Redgrave e Finney
É a melhor performance de Finney nos últimos quinze anos de sua carreira. E meu artigo certamente não precisa mais ser escrito; dá pena comparar Finney com qualquer outro ator que tenha interpretado Winston. Além de perfeito em sua composição, ele está assustadoramente idêntico ao político britânico. Beberrão como seu personagem, Finney estava inchado na medida certa, sem ser gordo e sem parecer excessivamente decrépito, considerando que Winston (assim como Ulysses Guimarães) SEMPRE teve cara de velho. Estão lá todos os seus achaques; o charuto logo de manhã, o café na cama, a leitura dos jornais, as cartas ditadas direto de sua banheira e o temperamento insuportável que nem Clemmie conseguia agüentar. Mas ao invés de tudo isso ser demonstrado por excelentes atores que não tem a mais ínfima semelhança com Winston (caso de Brendan Gleeson), se desdobram em quatro para imitar o sotaque britânico (Lithgow) ou estão escondidos sob uma tonelada de maquiagem (Oldman), Finney não precisava fazer quase nada. A vida que levou o transformou em Churchill.

Com a maior justiça, Finney levou o Globo de Ouro, o Primetime Emmy e o Bafta de Melhor Ator. Foi a última vez que recebeu os três.

O filme é bom por esses motivos mas quando termina há uma sensação de que é o momento em que deveria estar começando. Parece um teaser da maravilha que ainda estava por vir. Nestes tempos de séries sobre a realeza britânica, dói na alma que a HBO não tenha feito isso já naquela época. Algo como Memórias de Bridshead. Uma microssérie. A vida de Churchill é material para vários filmes e ninguém o teria interpretado de maneira tão definitiva quanto Finney.

Recomendo. Com saudade e admiração por Finney, e de coração partido, pelo que poderia ter sido e não foi. (11/2/2019)

BOECHAT


Num mundo de bucéfalos de direita e esquerda, norte, sul, leste e oeste, de cretinos tão ignorantes e tão falastrões, a morte de um homem brilhante como Boechat é tragédia ainda maior e mais amarga.

É aquela injustiça fundamental: por que, com tantos imbecis nocivos e inúteis por aí, tem que morrer justamente uma das poucas pessoas conhecidas pela inteligência e pela lucidez?

Lamento imensamente. (11/2/2019)

CREED II (2018)

Muito ruim...

Não sou apenas fã de todos os filmes de Rocky; eu estava nos Estados Unidos quando Rocky IV entrou em cartaz, assisti no cinema, chorei com a morte de Apollo, me apaixonei por Brigitte Nielsen, trombei com Dolph Lundgren em um elevador em NY, curti toda a mística EUA x URSS que o filme trazia, e, por fim, aplaudi o primeiro Creed como uma reciclagem interessante dos personagens e da trama, depois de dois Rockys insípidos.

Creed II matou a franquia. O ressurgimento de Ivan Drago era carta preciosa na manga dos produtores e poderia ter rendido um filme tão melhor. Tal como foi feito, raso, sem graça e sem assunto, Creed II é o pior filme da série. Esperava-se a volta de Carl Weathers em flashbacks de som ou imagem, assim como ocorreu com Burgess Meredith em Rocky V (no que considero a melhor, mais linda e mais emocionante cena daquele filme) e ao invés disso temos apenas seu filho: um mala, sem um pingo do talento ou do carisma do pai, campeão mundial sem méritos e sem predicados, chatinho e mimizento.

Stallone e Dolph Lundgren
Rocky IV foi sensacional porque sabíamos que tanto Apollo quanto Rocky eram pigmeus perto do gigantesco russo; trabalhou-se então o contraste entre o treinamento frio e high tech de Drago em contraponto ao treinamento tosco mas pessoal e afetivo de Rocky. Drago podia ter a força mas Stallone vinha com resistência e coração. O filme é tão bom e essa dicotomia foi construída com tanto cuidado que quase acreditamos que Stallone pudesse de fato vencer alguém três vezes maior do que ele.

Em Creed II temos uma situação duplamente contrária; Drago entrou em desgraça com seu país quando foi derrotado por Rocky então perdeu o prestígio, a mulher, a carreira e o dinheiro. Seu filho não tem qualquer privilégio e é treinado nos mesmos moldes rústicos de Stallone, em Rocky IV. Só que Adonis Creed também não recebe o treinamento caro e mecânico de Ivan Drago; ele está lesionado, treina sem vontade, com uma eterna expressão de dor de barriga e não há, como em todos os filmes de Rocky, aquela catarse musical do treino, em que o personagem faz as pazes consigo mesmo e com seus problemas. Nada é crível, nada emociona. Até o câncer de Rocky sumiu como por encanto.

Uma pena. (13/2/2019)

OKKO'S INN (2018)

Sem qualquer expectativa assisti
若おかみは小学生! (cuja tradução literal é "A jovem estalajadeira é uma estudante de primário!", mas no inglês virou o simples Okko's Inn). É a história de uma menina que perde os pais em um acidente automobilístico e vai morar na pousada de sua avó materna. O plano é que ela eventualmente assuma a direção do local quando a avó não puder mais trabalhar, mas desde o primeiro momento ela se dá conta de que o local é habitado por fantasmas. Longe de assustá-la, porém, eles ajudam a menina a lidar com a perda e a nova situação. O tema é tratado com delicadeza, sem mergulhar na tragédia de Okko. Há o sentimentalismo fundamental das animações japonesas mas tudo permeado com bom humor e uma leveza apropriada ao público mais infantil.

Impressionado com a beleza da animação, descubro que o responsável pelo roteiro (baseado nos livros de Hiroko Reijô) é Reiko Yoshida, roteirista de animações de grande sucesso como O Reino dos Gatos (2002) e A Voz do Silêncio (2016), além de séries como a divertidíssima Girls und Panzer (2012). Mas a surpresa, mesmo, veio com a descoberta de que o diretor, Kitarô Kôsaka, embora esteja apenas em seu quarto filme como diretor, é um dos melhores e mais famosos animadores japoneses. Participou, como key animator, de produções do quilate de Akira (1988) e de todos os maiores sucessos do Ghibli, desde Nausicaa, passando por Mononoke Hime, Cemitério dos Vagalumes, A Viagem de Chihiro, até o último longa de Miyasaki, Vidas ao Vento.

Mais um herdeiro do Ghibli e de toda a melhor época da animação japonesa.
Recomendo.

A VILÃ (Ak-Nyeo, 2017)


Mais uma vez a Coréia do Sul dá show em matéria de cinema. Mistura de La Femme Nikita com Kill Bill, escoimando-se os defeitos de ambos. O elenco é ótimo, com destaque para Ok-bin Kim e, sobretudo, Seo-hyeong Kim.

Recomendo, e agora verei Confession of Murder, do mesmo diretor, Byung-gil Jung. (6/4/2019)

A FACE IN THE CROWD (1957)

Descobri esta jóia dirigida por Elia Kazan inteiramente por acidente. O roteiro - brilhante e profético - é do craquíssimo Bud Schulberg e mostra como, já nos anos 50, a mídia conseguia fazer e desfazer celebridades televisivas.

O elenco é bárbaro: Patricia Neal encanta e se sustenta perfeitamente pelo talento e pelo charme. Walter Mathau, Tony Franciosa e Lee Remick (linda e jovem) também estão ótimos, mas são todos aperitivo para a impecável performance de Andy Griffith.

Eu, que o conhecia vagamente pelos episódios esparsos de Matlock que assisti nos Estados Unidos, no início da década de 80, fiquei de queixo absolutamente caído por seu trabalho. Uma maravilha. Griffith era um talento maiúsculo que infelizmente acabou não descoberto e engolido pela televisão. Pior do que isso: por alguma razão (provavelmente o macartismo), A Face in the Crowd parece ter sido esquecido nas premiações de 1957 e 1958. Griffith, Neal, Schulberg e Kazan mereciam muito uma indicação. E Griffith, sobretudo, merecia o prêmio muito mais do que Alec Guiness pela Ponte do Rio Kwai.

Recomendo. É atualíssimo. (26/4/2019)

TEATRO

Não carece de legenda. (14/02/2019)



UMA NAÇÃO SEM NOÇÃO, de Ricardo Rangel


Com o máximo prazer compareço ao lançamento de “UMA NAÇÃO SEM NOÇÃO”, livro do querido Ricardo Rangel, pensador brilhante, de cultura frondosa e dono do melhor e mais atilado comentário político da atualidade.

Recomendo a todos. (16/2/2019)


Surpresa inusitada e maravilhosa: ser citado por Jô Soares no segundo volume de suas memórias.


Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia
Vol I: "Um Moço Bem Velhinho"
Bernardo Schmidt
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350 pgs ilustradas
R$ 30,00 (Frete incluso para todo o Brasil)

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NEO-LIBERALISMO

É uma decepção atrás da outra... (3/4/2019)


STANLEY DONEN (1924/2019)

Stanley Donen
Não poderia deixar passar em branco a morte de Stanley Donen, que completaria 95 anos em abril. Tive a sorte de assistir Cantando na Chuva - dirigido por ele em 1952 - quando ainda era criança e essa obra-prima da comédia musical me abriu a cabeça e o paladar artístico para o universo dos musicais. Nesse filme conheci o trabalho do maravilhoso Gene Kelly e, sobretudo, conheci Donald O'Connor, que pouco depois fui ver com Marilyn, em There's no business like show business, outro pilar de minha formação nos musicais.

Cantando na Chuva sobreviveu a todo e qualquer teste de qualidade na minha vida. Mais do que isso, ele não parou de me entreter e de me ensinar coisas novas. Apenas há alguns anos descobri que a trilha sonora do filme é uma homenagem aos compositores Nacio Brown e Arthur Freed, e que todas as músicas do filme (com exceção de “Make'em laugh”, creio) fizeram parte de musicais da Metro no fim do anos 20, momento em que surgiu o cinema falado, e durante toda a década de 30. E sabendo disso fui atrás desses filmes, o que tem me proporcionado prazer contínuo e me permitido conhecer jóias inteiramente esquecidas do cinema norte-americano produzido no período que precedeu a segunda guerra.

Donald, Stanley e Gene
Fred Astaire era um gênio e provavelmente influenciou a carreira tanto de Kelly quanto de Donald; sem embargo, estes dois são meu sapateadores favoritos de todos os tempos. Eu poderia ter escolhido qualquer número do filme, pois são igualmente perfeitos, ma escolhi o hilário “Fit as a feedle”, que faz parte do início, quando Don Lockwood (Gene) narra o paupérrimo início de carreira dele e de seu colega Cosmo Brown (Donald). É um número rápido e divertido. Mas é importante ressaltar que literalmente dezenas de artistas e grupos de teatro já tentaram refazer essa cena ao vivo, ao longo dos anos, e o resultado NUNCA chega nem perto do original. Há momentos em que até hoje nos perguntamos como eles conseguiam fazer isso. E acima de tudo, como conseguiam fazê-lo sem afetar o menor esforço. É atestado da intensa superioridade de Gene, Donald e o os heróis do cinema musical produzido naquela época.

Minha vida é melhor por ter assistido um filme tão encantador, tão delicioso, tão benfazejo e de qualidade artística tão extraordinária como Cantando na Chuva. E por essa razão meu melhor “Obrigado” vai neste momento para Stanley Donen. (23/2/2019)


ANO NATSU HE

A lindíssima “Ano Natsu He“ (traduzida para o inglês como “One Summer's Day“) que embala a seqüência inicial de “Sen to Chihiro no kamikakushi“ (A Viagem de Chihiro), tocada no piano pelo seu próprio compositor, Joe Hisaishi, acompanhado pela Filarmônica de Londres. (11/3/2019)



LEAVING NEVERLAND (2019)

Acabo de assistir as quatro horas do documentário de Dan Reed sobre Michael Jackson. Trata-se do depoimento de dois rapazes - James Safechuck e Wade Robson - que afirmam ter sido molestados sexualmente por Michael durante anos. Tendo sido fã de Michael desde que me conheço por gente, assistido seu show no Morumbi em 1993 e celebrado sua absolvição em 2005, confesso que foi brutal.

Wade Robson não me convenceu. Tem con man escrito na testa. Há inúmeros "poréns" naquilo que diz, naquilo que ele e sua família fizeram para estar próximos de Michael e, sobretudo, no fato de ter testemunhado a favor dele em 1993 e 2003. Além disso, manteve amizade com o artista até sua morte e há pouco ainda tentava, da maneira mais humilhante, se envolver com todo e qualquer evento em homenagem a Michael, que pudesse lhe render dinheiro ou prestígio. À parte de ter conhecido o artista e até certo ponto privado com ele, nada do que diz se sustenta. Um bom advogado destrói toda sua argumentação em segundos. E o que restar em pé estará coberto de reasonable doubt.

Michael e James Safechuck
Já o depoimento de James Safechuck me arrepiou até os pelos da nuca. Lembro-me do comercial da Pepsi, lembro-me de tudo isso... É terrível conhecer esse lado de Jackson, e ter que admitir, mesmo sentindo tanta admiração por seu talento, que ele era, de fato, um pedófilo. Sempre advoguei a idéia de que Jackson era mental e emocionalmente uma criança entre outras crianças, e que qualquer contato que ele pudesse ter com essa meninada que freqüentava Neverland - seu estranhíssimo rancho/zoológico na Califórnia - não transcenderia aquilo que acontece quando uma criança vai dormir na casa de um amigo. E pelo jeito eu estava errado. Por baixo de sua vulnerabilidade, sua bondade, sua gentileza, sua brandura e seu jeito manso e feminino - características todas reais - havia um predador sexual como qualquer outro. Que abusava, que manipulava, que mentia e fazia mentir, que dispunha de meninos e os trocava a seu talante sem pensar uma única vez na devastação emocional que estava causando em cada um deles, como o pior dos pedófilos.

Continuo considerando Michael um artista inigualável e seguirei ouvindo e amando suas músicas. Mas hoje tenho a triste certeza de que ele não era apenas uma pessoa imensamente perturbada; ele era um pedófilo. Se for provado que James mentiu, eu darei a mão à palmatória com prazer. Mas duvido que isso aconteça.

Poderia falar mais, mas o melhor é assistir.

É doloroso.
Tem que ser visto. (14/3/2019)

O PACIENTE - O CASO TACREDO NEVES (2018)

Brutal. Baseado no livro homônimo do pesquisador médico e escritor Luis Mir, conta a história dos últimos dias de Tancredo, a partir de sua internação. O então presidente eleito começou a apresentar dores fortes no abdômen três dias antes da posse e, diante do alarmismo fatalista criado pelo médico Francisco Pinheiro da Rocha, ele acabou sendo internado para uma operação de emergência. É inacreditável a sucessão de erros primários, ridículos e absurdos desencadeada pela precipitação desse médico. Em primeiro lugar Tancredo foi levado para o Hospital de Base de Brasília, uma espelunca sem infra-estrutura e completamente despreparado para atendimentos cirúrgicos de maior gravidade. Em seguida Pinheiro pensou que Tancredo estava com apendicite; aberto, na mesa de operações, constatou-se que seu apêndice não tinha absolutamente nada de errado. Culpou-se então o divertículo de meckel, uma espécie de pequeno apêndice do intestino que pode aparecer em certas pessoas mas que geralmente não dá qualquer problema. Retirou-se o divertículo.

Tancredo Neves
A operação foi assistida por políticos e gente que não tinha nada a ver com o pato, aumentando horrivelmente a possibilidade de infecção. A sutura foi porca. E como se isso não bastasse, descobriu-se depois que o divertículo - como costuma acontecer - não representava qualquer ameaça e o problema era um pequeno tumor, e ainda por cima benigno. Só que a internação às pressas, a operação mal-feita, o pós-operatório medieval, a hemorragia, a obstrução intestinal, a transferência tardia para São Paulo e as duas operações seguintes a que o velho Tancredo, com 75 anos, foi perversamente submetido, arruinaram sua saúde já combalida e ele acabou morrendo de falência múltipla de órgãos. Ou seja, um problema que poderia ter sido contornado facilmente com o tratamento adequado, virou uma tragédia dos mais horrorosos equívocos nas mãos de um bando inescrupuloso de médicos imbecis e incompetentes.

A foto terrível de Tancedo e a junta médica
Por conta de tudo isso - e acima de tudo pela performance exemplar do maravilhoso Othon Bastos, no papel de Tancredo - o filme é doloroso e difícil de assistir. O que temos é um homem idoso tendo sua vida aniquilada pela estupidez humana num espaço de 40 dias.

Em termos artísticos, não importa o quanto eu já esteja acostumado com a falta de qualidade do cinema brasileiro, eu continuo me decepcionando. A imagem é de novela, e não de filme; a direção de arte é nenhuma. Tudo é fake, tudo é cenário, tudo tem cara de estúdio. O roteiro não chega a ser ruim, mas a direção de atores é inexistente e prevalece uma canastrice fundamental. Othon, Esther Góes (Risoleta), Mário Hermeto (Tancredo Filho), Luciana Braga (Inês Neves), Otávio Müller (Dr. Renault) e Emiliano Queiroz (Dr. Batista Rezende) estão bem. Já Paulo Betti (Dr. Pinotti), Leonardo Franco (Gilberto Assis) e Leonardo Medeiros (Pinheiro Rocha) estão exagerados e caricatos.

Vale pelo triste registro histórico. Não há conspiração nenhuma de quem quer que seja, na morte de Tancredo. Houve, sim, a irresponsabilidade criminosa de um grupo desprezível de trapalhões. (22/4/2019)

A DOG'S LIFE


Chaplin, Keaton, Lloyd a Laurel & Hardy com seus amigos (25/4/2019)

ANTUNES


Por uma abençoada confluência de astros, minha entrada na faculdade coincidiu com um período de fastígio de Antunes no SESC da Vila Nova, ao lado do Mackenzie. Eu, com 21 anos, era uma esponja de cultura teatral e, munido de minha carteira de meia-entrada da UNE, transformei o teatro do SESC (e basicamente todos os teatros de São Paulo) em minha segunda casa. Assisti Macbeth três vezes. Vereda da Salvação mais outras tantas. Depois levava os amigos. Minha mãe viu Macbeth comigo no Municipal e Vereda lá no SESC (apaixonou-se perdidamente por Luis Melo). Qualquer coisa que acontecesse por ali, eu ia.

Não vou repisar aqui o que significou para a minha vida ter assistido o clássico de Shakespeare encenado por Antunes e interpretado por Melo. Já o fiz muitas vezes. Mas em uma das ocasiões em que fui comprar ingressos para essa ou outra peça (Gilgamesh, creio, em 95), à tarde, antes de ir para o Mackenzie, encontrei Antunes sentado no sofá que havia no saguão, acompanhado de Portella, Geraldinho e outros atores do que se poderia chamar seu elenco fixo. Sentei-me por perto e escutei um pouco da conversa, que era descontraída.

Melo interpretando Macbeth em Trono de Sangue

Eu levava comigo um gravadorzinho de fita-cassete com que pretendia gravar um trabalho de faculdade, saindo de lá, e quando eles se levantaram para entrar, eu abordei Antunes. Com a humildade de um vassalo perante o suserano - o diretor tinha a fama de ser uma pessoa difícil - pedi-lhe uma pequena entrevista para o diretório acadêmico da faculdade. Uma mentira que apliquei ao longo dos anos com bastante sucesso, já que eu nunca pertenci ao diretório, e mesmo que pertencesse, uma conversa com Antunes estava meio distante do universo de Propaganda e Marketing. Para minha surpresa, ele aceitou e se sentou no mesmo lugar onde já estava. Não tinha nada de difícil. Era uma pessoa fácil e gentil, desde que o interlocutor falasse sua língua. Sentei-me a seu lado, completamente aturdido, porque não pensei que ele aceitaria, e comecei a disparar perguntas sobre tudo aquilo que pudesse pensar no momento.

Foi uma conversa genérica. Sem maior repertório para poder encarar um totem como Antunes, conduzi o papo pelo momento atual do teatro brasileiro, os autores e diretores de sua predileção, sua relação com Shakespeare e etc. Desnecessário comentar a paixão causticante com que expendia seus conceitos, um mais brilhante do que o outro, sobre o palco. Era um gênio do teatro falando. Conversamos por uns quarenta minutos, mais ou menos, e ele explicou que teria que voltar para o ensaio. Agradeci e abracei-o com o coração transbordando de alegria e entusiasmo. Prestes a entrar no teatro ele se virou para mim: "Você não me disse teu nome". "Bernardo". Ele brincou: "Bernardo? Ahhh... quem vem lá? Bernardo?" Mergulhado em Shakespeare graças aos filmes de Olivier, Welles e Brannagh, e no Brasil, graças a pessoas como ele, Luis Melo e Antonio Fagundes, reconheço a primeira cena de Hamlet e respondo, de um salto: "Responde tu primeiro! Viva o rei!" Ele sorriu e entrou. Saí do SESC ébrio de satisfação, trêmulo, como uma garrafa de nitroglicerina que foi agitada.

Mais do que por sua gigantesca contribuição às artes cênicas, mais do que por ser, junto a Flávio Rangel, o maior diretor de teatro que o Brasil já teve, é assim que vou lembrar de Antunes. Como alguém que deu uma entrevista a um jovem sem sequer saber seu nome. Que não se importou com o fato de eu estar amplamente despreparado para entrevistar alguém como ele. E que ao invés de me mandar à merda, que é algo que ele poderia tranqüilamente ter feito, estando no meio de um ensaio, me viu pelo que eu era: um jovem curioso, pronto para ser ensinado, cheio de vontade de aprender mais sobre aquilo do qual ele foi um de nosso maiores mestres.

Obrigado por TUDO, Antunes!

Obrigado! (3/5/2019)

RUBENS EWALD FILHO (1945/2019)


Cresci vendo Rubens Ewald no antigo Jornal Hoje falando sobre cinema, mas foi só por volta dos dezessete anos, quando desenvolvi uma obsessão pelo Oscar, suas cerimônias e seus premiados, que realmente pude constatar o quilate do cinéfilo que ele era. Um amigo me deu um número especial de uma publicação qualquer sobre cinema falando tudo sobre o prêmio. O autor: Rubens. Devorei aquela revista e praticamente decorei seu conteúdo. Foi uma espécie de guia para tudo aquilo que eu desejava (e precisava) assistir, em minha nascente cultura cinematográfica. Ele comentava exatamente aquilo que merecia ser comentado, não se alongava demais, era objetivo e honesto; aqui e ali criticava o que julgava que deveria ser criticado, e o fazia com um conhecimento tão profundo, tão depurado, que era impossível não respeitar sua opinião, e, no mais das vezes, concordar com ela.

Leonard Maltin
Nos Estados Unidos descobri seu alterego norte-americano, Leonard Maltin. Mas este sempre foi mais um historiador do que qualquer outra coisa, e na época das premiações de cinema, como Oscar, SAG, Globo de Ouro, etc., afirmo com a máxima convicção que os comentaristas cinematográficos de todas as emissoras - excetuando Gene Siskel e Roger Ebert - não chegavam aos pés de Rubens. Eu via com espanto alguns deles, metidíssimos, consideradíssimos, respeitadíssimos, metendo os pés pelas mãos e errando feio todas as previsões dos vencedores. Rubens estava acima de todos eles. Era imbatível. Assistir o Oscar com a narração de Renato Machado, a tradução de Elizabeth Hartman (a intérprete, não a atriz) e os comentários de Rubens era experiência imperdível. Ele sabia tanto que não raro dava spoillers de filmes que estavam concorrendo e nem sequer haviam chegado ao Brasil ainda. Era seu único defeito.

Em meados da década de 90 eu encasquetei de montar a peça Oleanna, de David Mamet na faculdade. Estava influenciado pela montagem de Fagundes e pelo filme dirigido pelo próprio Mamet, com William H. Macy. A Internet era incipiente, Mamet ainda não era famoso o suficiente para aparecer em revistas e não havia verbetes sobre ele em livro nenhum. Num mato sem cachorro, pego a lista telefônica e ligo para quem? Rubens. Se alguém saberia alguma coisa sobre o filme, o diretor ou seu roteirista, era ele. E ele mesmo atendeu. Demorou um pouco para entender o que eu queria mas quando se deu conta de que eu era apenas um curioso atrás de informações sobre Mamet, riu e conversamos durante quase uma hora. Ele era simples e não tinha um pingo de estrelismo. Mesmo sabendo que era o maior crítico brasileiro e um dos maiores (senão o maior) do mundo, era uma pessoa como qualquer outra, simpática e acessível.

A chegada da TV a cabo no Brasil - nessa mesma época - acabou representando um segundo auge de Rubens. Contratado pela TVA ele ampliou aquilo que já fazia com a Globo e multiplicou por dez sua atividade como comentarista e entrevistador. Passava pelo menos metade do ano viajando o mundo, participando de festivais e entrevistando todos os atores, atrizes, diretores e figuras de maior ou menor importância, no mundo cinematográfico. Conhecido e reverenciado no meio, não havia celebridade que lhe fechasse as portas. Pelo contrário; foram incontáveis as vezes em que artistas demonstraram sua admiração, boquiabertos, com a cultura oceânica de Rubens. Me pergunto sobre o destino desse acervo da TVA (que se não me engano pertencia à editora Abril), porque há entrevistas antológicas feitas por ele, que não podem ser perdidas.


Anos depois repeti a dose; estava escrevendo um texto sobre Guarnieri e liguei para ele a fim de perguntar sobre a versão de Éramos Seis da Tupi, que ele escreveu em parceria com Silvio de Abreu. Mais um par de horas da melhor prosa, e foi bem na época do lançamento da Coleção Aplauso, então falamos de tudo e de todos, no teatro e no cinema. Várias vezes trombei com ele em teatros ou eventos. A última vez foi no Persona em Foco de Othon Bastos. A simplicidade de sempre. Desceu do automóvel, na Cultura, colocando a camisa que usaria durante a gravação. Cumprimentou a mim e a quem estivesse por perto como um velho amigo.

Era um grande mestre. Perdemos todo com sua partida. Ele fará muita falta. A frase foi banalizada pela utilização excessiva, sobretudo com gente que não fará falta nenhuma. No caso dele a frase não podia ser mais tristemente real. Ele fará MUITA falta.
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