domingo, 12 de novembro de 2017

Waack



Throwing in my two cents.

1 - Vazou na Internet um video da cobertura das eleições norte-americanas do ano passado, em que, fora do ar, William Waack se irrita com uma buzina próxima ao local da transmissão e diz "é preto, né? É coisa de preto. Com certeza", para um sujeito qualquer ao seu lado. O video provocou o afastamento imediato de Waack do Jornal da Globo e a justa revolta não só de movimentos negros mas de qualquer pessoa contrária ao racismo.

2 - Concomitante à revolta daqueles que condenam a declaração de Waack, surgiu, inesperado e surrealista, um cordão de indignados promovendo a DEFESA do âncora do Jornal da Globo. Segundo esse grupo, bastante vocal e nada discreto, formando por colegas, amigos e brancos de direita, Waack: a) foi pego "sem saber", "em um momento privado"; b) quem vazou o video o fez por oportunismo, porque esperou um ano; c) é uma vingança política da Globo contra seu próprio funcionário, porque Waack é um homem politicamente lúcido e não teve pejo de se pronunciar contra a desgraça promovida nacionalmente pelo PT nos últimos 14 anos; d) errar é humano. Quem nunca errou que atire a primeira pedra; e) não se deve promover o "linchamento" internético de uma pessoa.

3 - Vamos desmontar calmamente e sem gritaria os argumentos dessa inusitada defesa de Waack. Até porque eles são de um raquitismo absoluto.

a) "ele ter sido gravado fora do ar" — Sei. Incrível como a direita é capaz de usar as mesmas desculpas da esquerda que tanto condena. É precisamente essa a lógica esposada por reservas morais como Lula e Dilma no episódio das gravações do "Bessias" e do "tchau, querida". Foram gravados sem saber. Uma conversa íntima e pessoal, que não deveria ter ido a público. O crime, então, deve ser perdoado in limine. Ou seja, amanhã qualquer pessoa que estiver cometendo um crime poderá alegar que não pretendia que aquilo fosse a público, desde o político que delinqüe até o pedófilo que está em frente a seu computador, o empresário que está em um puteiro de luxo, o sujeito que faz bullying internético e assim por diante.

Não cola. Em primeiro lugar não havia nada de íntimo no ambiente em que o comentário foi feito. E mesmo que houvesse, as circunstâncias em que o comentário foi proferido não incidem no teor racista da declaração. É ridículo. É anacrônico. É a mesma defesa cretina que poderia ser utilizada para justificar o assédio sexual. “Estávamos entre quatro paredes”. O local não influi. O que importa é o que foi dito. Não é menos racista porque foi murmurado. Pelo contrário. É célebre o vídeo de João Figueiredo que apareceu, depois de sua morte, em que ele descreve, em uma festa, o abraço que recebeu de uma negra, e que mesmo depois de tomar banho, “ainda tinha o cheirinho de crioulo”. É menos racista porque ele estava em uma festa ou porque estava de pileque? No mesmo video ele fala mal de Roberto Marinho. É menos racista porque sabemos que essa cena só foi ao ar por retaliação da Globo? Bullshit.

b) “o vídeo foi vazado por oportunismo”  Dane-se. Não sei quem vazou. Não me importei em saber. Não quero saber. Não sei se foram pagos pelo PT, pelos Panteras Negras ou pela Congregação Mariana. Não sei as razões pelas quais o fizeram. O racismo é o mesmo. Novamente nos vemos diante de uma lógica completamente torta, criada para amoldar o mal-feito. Por esse raciocínio não aceitaremos mais delações premiadas porque são oportunistas. São mesmo. Não interessa. Como se diz em Direito, “não elide o crime”. Se amanhã descobrirmos que os sujeitos que vazaram o video eram canalhas e bandidos, que a justiça faça picadinho deles. Enquanto o vídeo for verdadeiro, não perdoará o racismo de Waack.

c) “é uma vingança política”  É um dos argumentos mais idiotas que já ouvi. A direita e a esquerda radicais vão ver conspiração até no Castelo Rá Tim Bum. O Waack está na Globo há séculos e nunca teve esse poder todo; a emissora pode ter todos os defeitos do mundo mas nunca contratou ou demitiu por ideologia, e se tudo isso não fosse suficiente, ficaria o absurdo de queimar um sujeito publicamente quando a situação já está clara e cristalina, as cartas já estão na mesa, o PT já foi pro vinagre, o Temer já está no vinagre e não haveria nada que o âncora do jornal da madrugada pudesse fazer ou desfazer para mudar isso. Querer politizar um crime de racismo é o mesmo que politizar ou ideologizar o movimento LGBT. Um dia o povo vai perceber que determinados movimentos tem a ver apenas com o ser humano, e não com ideologia e política.

d) “quem nunca errou que atire a primeira pedra”  Embora indevido, este argumento merece uma reflexão. Não sou nenhuma vestal de moralidade inatacável e sei muito bem que os tempos mudaram. Quando eu era criança essa era uma expressão comum. “Isso é coisa de preto”, “só podia ser preto” e inúmeras outras que o povo da minha geração lembra e não vem a pelo declinar. Eu, por exemplo, era beiçudo e muitas vezes disseram que eu tinha “boca de preto”. Jamais me ofendeu. Sempre achei graça. Dizer que algo ridículo e tosco era “uma baianada” ou “coisa de baiano” era corriqueiro. Dizia-se com tanta naturalidade que ninguém sequer pensava nos baianos. Era uma expressão que transcendia seu significado semântico. Era possível dizer para um homossexual coisas como “pára com essa viadagem” exatamente da mesma forma como isso seria dito a um hetero, sem que a referência tivesse qualquer coisa a ver com a sexualidade da pessoa. Eram expressões enraizadas em nossa língua, para o bem ou para o mal.

Só que as coisas mudaram muito. Está longe, num passado remoto, o tempo em que eu podia classificar meu melhor amigo de adolescência, que é mulato, de “mulato”. O que ontem era a definição de uma pessoa gerada por um branco e uma negra ou uma branca e um negro tem hoje vinte definições pejorativas antes dessa. Um dos comediantes mais brilhantes, progressistas e dedicados à causa negra e a demais minorias, nos Estados Unidos, Bill Mahr, entrevistava recentemente um senador de Nebraska, e em meio à conversa, descontraída e divertida, o senador o convidou para “trabalhar nos campos” do Estado. Mahr replicou, no mesmo tom de galhofa: “Senator, please, I’m a house nigger”, em referência aos escravos que trabalhavam dentro das casas, ao invés de trabalhar em plantações. Desagradou o público em geral e a comunidade negra em particular. Naquele momento ninguém parou para pensar que o termo nigger só se transformou em ofensa capital de algumas décadas para cá e que em um dos maiores clássicos da literatura norte-americana, Adventures of Huckleberry Finn há um personagem referido ocasionalmente como “Nigger Jim”. O que ficou foi a palavra sendo usada hoje.

Na semana seguinte Mahr se desculpou e levou vários negros para falar sobre o quanto expressões e brincadeiras que em outras épocas poderiam ser inofensivas, são, hoje, degradantes e prejudiciais à causa dos negros. O episódio foi superado. Por quê? Porque temos a diferença evidente entre uma brincadeira infeliz feita por um comediante que é, ao mesmo tempo, um humanista e um notório defensor da causa negra, e o comentário sub-reptício e racista de um apresentador que não sabia que estava sendo filmado.

e) o “linchamento” internético  Esse é um argumento curioso. Vi pessoas da melhor qualidade intelectual reconhecendo que o comentário é racista mas que os ataques na Internet são errados. Não sei bem como interpretar isso; então ele é culpado mas ser fritado pela Internet é punição severa demais? Ele é culpado mas deveria receber um tapa na mão e a Internet deveria permanecer calada? Como isso funciona em relação à política? Lula e Dilma combinaram a blindagem de Lula pelo telefone via Bessias, mas a Internet não pode fritar nenhum deles? Harvey Weinstein e Kevin Spacey assediaram homens e mulheres durante anos, mas vamos ficar quietos porque o “linchamento” internético é errado?

Não. “Linchamento” internético é o que sofreu a mulher do Temer, que virou piada e foi agredida durante dias por algo que não disse. O “linchamento” é errado quando a pessoa não cometeu o crime. Se cometeu, como evitar isso, considerando a força das redes sociais? Como evitar isso num país onde impera a impunidade? Como evitar isso, sendo um jornalista da maior emissora do país? Não há como evitar. Nos tempos de hoje, é questão de tempo até que todos nós tenhamos nossos quinze minutos de fama internética, e nossos quinze minutos de desgraça internética.

Enfim, sei que Waack — a quem continuo admirando como jornalista — não está queimando cruzes no quintal. Sei que não lava a mão cada vez que cumprimenta um negro e não está pedindo a volta da escravidão. E sei quanto é difícil termos que condenar o comportamento de alguém que até o momento estava acima de qualquer suspeita. Não estou dizendo que ele deve ser execrado eternamente. Pode pedir desculpas, se retratar e vida que segue. O que não posso concordar é com movimentos de desagravo, de solidariedade e não mais o quê, como se ele tivesse sido vítima de alguma coisa além de suas próprias declarações. Seu comentário foi racista, sua punição foi justa e defendê-lo é consentir com o que foi dito.

Bernardo 
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