sexta-feira, 8 de maio de 2020

Vergonha Alheia


Com Regina em 1992, em seu camarim
do inesquecível  "A Vida é Sonho"
Triste. Admiro Regina desde que sou criança. Considero-a uma atriz magnífica. A defendi no famigerado episódio em que ela dizia ter "medo" do PT e os lulopetistas a pegaram para Cristo. Sempre achei Regina uma opinante simplória e bem-intencionada, em questões políticas. Uma pessoa boa, mas sem qualquer conhecimento de nossa situação ou de nossa história, e que aparecia de tempos em tempos para dizer uma abobrinha qualquer que era absorvida pelo carinho que nutrimos por sua carreira pregressa.

Encontrei-a pessoalmente pela última vez no Black-Tie de Dan Rosseto no MUBE em 2011 e a enchi de abraços. Não necessariamente concordei com algumas de suas posições políticas ou ideológicas ao longo desta última década, mas não via nenhum inconveniente nela escolher quem bem quisesse, pelo voto. Jamais a hostilizaria, como sempre faz o PT com aqueles que não rezam pela cartilha do presidiário.

Quando ela aceitou o convite de Bolso, fiquei apreensivo. Governo desmoralizado, desastroso, um verdadeiro rio de piranha. Mas Moro estava lá, o que, a meu ver, ainda emprestava a esse governo de merda uma última centelha de respeitabilidade. E desejei sorte à Regina, não sabendo o que esperar.

E o resultado foi o pior possível. Lembro-me de Fernandona recusando o convite de Sarney para o ministério da Cultura, explicando em carta polidíssima que aquela não era sua praia. Como seria bom que Regina tivesse feito o mesmo. Que tivesse explicado que é atriz há quase 60 anos e que não tem a mais ínfima vocação para a política. Que fez teatro e TV e não espraiou seus conhecimentos pelas centenas de outras manifestações culturais do nosso povo. Que não sabe gerir uma secretaria, não tem noção de como lidar com subordinados e colegas que vão depender de suas atitudes. Que - acostumada com as palmas merecidas de seu público - não sabe lidar com a crítica, com a insatisfação e com os protestos daqueles que são atingidos por sua incompetência. Que não tem estofo intelectual ou emocional para ocupar uma secretaria com peso de ministério.

Durante a pior crise de saúde que já atravessamos, em que a área coberta por sua secretaria é uma das mais castigadas, além de perdermos luminares de nossa cultura diariamente, Regina sumiu. Não deu um pio. Ninguém podia encontrá-la. Esperávamos que estivesse em meio a um bom freio de arrumação que a fizesse compreender o erro palmar que cometeu aceitando o convite de Bolso, e que reapareceria para pedir desculpas e se demitir. Ao invés disso ela reapareceu como se nada tivesse acontecido, não se desculpou, não se demitiu, não fez um único comentário produtivo e ainda protagonizou um dos mais bizarros espetáculos de vergonha alheia que já tivemos o azar de ver pela internet.

Vê-la esbravejando como uma madame ultrajada, uma legítima aprendiz de Damares, depois do video de Maitê Proença (que, cá entre nós, não representa nada para nossa cultura, foi a canastrona de sempre lendo sua notinha e entrou nessa como Pilatos no Credo), gesticulando como uma doida, cantando o hino da copa de 70, tão medularmente ligado ao governo Médici, minimizando torturas e assassinatos durante a ditadura, não tendo nenhuma empatia pelo ser humano e ignorando a liturgia do cargo que ocupa, falando sem qualquer compostura ou educação por cima dos apresentadores, foi o fim de sua carreira. Regina ultrapassou os limites do ridículo e alcançou o nível subterrâneo desse presidente de fancaria que temos hoje. Igualou-se a ele.

Não tenho mais nada a dizer. As atitudes de Regina, e suas imagens falam por si só.


Vi com otimismo a entrada de Moro no governo. E vi um homem honrado se demitindo, depois de um ano de trabalho honesto.

Vi com otimismo a entrada de Regina no governo. E vejo com engulhos sua permanência inútil, ociosa e deletéria.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Minestrone Cultural XVII



RUTH, A DESDÊMONA NEGRA

A Desdêmona negra de Ruth e o Othello de Abdias do Nascimento.

"Era uma época muito intensa, com várias montagens na cidade. E o TEN seguia esse ritmo. Com apenas um ano de existência participamos do Festival Shakespeare, organizado por Paschoal Carlos Magno. Dulcina de Moraes cedeu o teatro. Cada grupo encenou um número de sua montagem. Foi um espetáculo belíssimo. Todo mundo participou: Madalena Nicol, Maria Della Costa, Procópio Ferreira, a própria Dulcina, entre outros. Cacilda Becker fez Desdêmona, ao lado do Abdias do Nascimento, na montagem de Othelo. Depois eu e Abdias repetimos a cena de estrangulamento, para o festival. Fui a primeira Desdêmona negra. Acho que a primeira Desdêmona negra do mundo!"

Obrigado por tudo, amada Ruth.
(Foto de 1946) (29/07/2019)

INCLUSÃO RELIGIOSA


Ninguém sabia mais de inclusão religiosa do que os marketeiros dos anos 40: um simpático BAPHOMET era símbolo de uma das cervejas da Antarctica. (15/09/2019)

JORGE FERNANDO

Com Jorge no Procópio Ferreira, em 1991. Cláudia Raia estava em cartaz com
"Não Fuja da Raia", dirigido por Jorge.

"Guerra dos Sexos": Paulo, Fernanda, Tarcísio,
Maitê Proença e Mônica Figueiredo
O que sempre admirei em Jorge - assim como todos - foi sua energia. Não tinha nem trinta anos e já dirigia novelas de Janete Clair e Manoel Carlos. Em 1983 dirigiu Guerra dos Sexos, de Sílvio de Abreu, encarando com naturalidade o desafio de dirigir o primeiro encontro artístico de dois tótens como Paulo e Fernanda (e de quebra, Tarcísio e Glória). Sucesso sem precedentes. Em 86 veio Cambalacho, também de Sílvio, desta vez com Guarnieri e Fernanda. Mais sucesso. Entre 87 e 89 acredito que ele alcançou seu auge, dirigindo duas das melhores novelas brasileiras de todos os tempos, ambas do mestre Cassiano Gabus Mendes: Brega & Chique e Que Rei sou eu?

"Cambalacho": Fernanda e Guarnieri
Depois disso não havia muito o que dizer: Jorge encerrava a década de 80 com trinta e cinco anos e o status inegável de melhor diretor de novelas da televisão brasileira. Ele participou de algumas peças como ator e fazia um espetáculo solo chamado Boom, mas confesso que senti falta de vê-lo em algo sério, sendo dirigido por alguém tão competente quanto ele. Sabemos que Jorge tinha aquela persona artística fulgurante, barulhenta e divertida, e por isso mesmo teria sido interessante vê-lo quebrar isso ao meio e interpretar algo diferente. Acredito que talento para isso não lhe faltava.

"Que Rei sou Eu?": Constelação
Vê-lo em Boom ou em entrevistas era gostoso, não havia como não se contagiar por sua eterna empolgação, por aquela figura tão teatral, sempre ligada em 220. De vez em quando, entretanto, me causava uma certa agonia. Jorge era gordo, não parava, dava cambalhotas, ficava vermelhíssimo e aquilo ocasionalmente me fazia pensar em sua saúde. Trabalhava sem parar. Era uma panela de pressão. Mas nunca pensei que algo lhe aconteceria. Nos últimos quinze anos ele se acalmou, seguiu dirigindo mas deixou de lado os antics, as macaquices e as excentricidades da década de 90.

Soube acidentalmente, pelo Instagram, da pancreatite e do AVC. Me chocou profundamente ver sua foto depois do derrame. Esquálido, mas com o sorriso firme e forte, no rosto. Nos comentários, o desespero de uma fã: "Por favor cuide-se! Precisamos de você!"

Uma força da natureza. Não consigo imaginá-lo "descansando" em paz. Onde estiver, espero que seja o mesmo de sempre, fulgurante, barulhento e divertido, em paz. (28/10/2019)

MARIE FREDRIKSSON


Dia funesto. Marie Fredriksson subiu aos céus, aos 61 anos, depois de longa batalha contra o câncer. O show do Roxette no estacionamento do Anhembi, em 1992, é das lembranças mais doces, mais cálidas e que mais fazem transbordar meu coração de saudade daquela época. Uma noite amena, gostosa, ao ar livre, e todos nós cantando com eles cada um daqueles sucessos que tornaram Marie e seu amigo Per Gessle famosos, prestigiados e amados no mundo inteiro.

Marie e o parceiro de Roxette, Per Gessle
Olhando para trás e ouvindo - como faço até hoje - os cds da dupla, penso que o Roxette tinha um segredo muito simples: era entretenimento puro. No melhor sentido. Músicas excepcionais, boas vibes, grande talento e pura alegria. Difícil ver algo tão saudável no meio musical. Baladas como "Listen to your heart", "It must have been love" e "Spending my time" não eram particularmente originais, revolucionárias ou engajadas. E não precisavam ser nada disso. Porque eram BOAS. Boas demais. Agradavam todo o tipo de público. Assim como a leveza de "Joyride", o refrão magnético de "She's got the look", e bobagens adoráveis como "How do you do".

Será coincidência que o Roxette de vez em quando me faz lembrar do ABBA, seu primo mais rico e mais velho, também sueco? Talvez porque são a quintessência do entretenimento; algo que é tão bom e tão prazeroso, que toca tão fundo o coração de quem ouve, que não há nada que possamos associar a eles a não ser felicidade.

Lamento. A música perde. O mundo perde. (10/12/2019)



RAMBO - LAST BLOOD (2019)

Os dois primeiros Rambos são marcas fundamentais de minha adolescência e considero que ambos são ótimos filmes de ação. O segundo invade uma área mais apelativa e patrioteira, do soldado que vai vencer sozinho a guerra que os americanos perderam, mas contou com um elemento de romance que deu inesperadamente certo, na inclusão da doce e trágica Co Bao (a inigualavelmente linda Julia Nickson), e o sucesso financeiro foi astronômico. O terceiro envolveu a dominação soviética no Afeganistão e lançou mão de artifício muito típico do cinema americano na década de 80, de colocar os russos como o mal encarnado. Stallone, aliás, era useiro e vezeiro da prática, que aplicava com precisão cirúrgica para comover seus compatriotas. Neste caso, o público considerou o filme um Rambo II requentado, o sucesso foi raso e a franquia chegou ao fim.

Vinte anos depois, em uma onda de reviver aos sessenta anos os personagens que fez quando tinha trinta, Stallone ressuscitou a franquia e dirigiu o quarto Rambo. A história se passa na conflagrada e devastada Burma (a antiga Birmânia, hoje Myanmar), e o velho soldado vai resgatar missionários que tentavam levar remédios e religião ao sofrido povo da região. A violência tem outro tom; o roteiro de Stallone pode ser ingênuo e maniqueísta como sempre, mas as mortes agora são mais pesadas e sangrentas. Não é um filme ruim. Apenas não precisava existir. Tudo o que soldado representava e tinha a dizer já ficara sobejamente claro nos dois primeiros filmes. O que se viu ali foi unicamente um agrado aos fãs da série.

Este ano Stallone dirigiu o quinto Rambo. Ele está com 73 anos. Sim, ele está bombado e mandou ver nas plásticas e no cabelo, mas, curiosamente, não é esse o calcanhar de Aquiles do filme; (spoilers - quem ainda não viu e não quer saber o que acontece deve parar de ler aqui) o que, a meu ver, faz naufragar o mais novo episódio da vida lascada de John Rambo é que esta é uma trama eminentemente urbana. O primeiro filme não é nas selvas de um país asiático mas a maior parte da ação se passa em uma floresta. Ele só chega à cidade no fim do filme. Agora, Rambo tem que resgatar uma sobrinha (ou coisa que o valha) de um cartel mexicano que rapta e prostitui meninas, além de torná-las viciadas em drogas. É terrível; em seu primeiro confronto com os bandidos, ele não precisa nem ser pego, porque caminha espontaneamente em direção a eles e leva uma tunda de criar bicho. Ou seja, o soldado de pavio curto, forte, mestre em concatenar planos de última hora e em tirar leite de pedra, não faz nada, apanha e durante sua recuperação ele dá aos bandidos tempo de sobra para liquidar sua sobrinha. Em outras palavras, Rambo era incomparável no meio de matas inexpugnáveis, fugia das mais sofisticadas emboscadas, vencia os mais violentos combates com armas capazes de pulverizar uma cidade, mas não consegue fazer o trabalho de um simples policial.

Entramos no segundo problema: a sobrinha morre em decorrência dos abusos que sofre. É uma ducha de água fria que quase me fez parar de ver o filme ali mesmo. Não sei o que passou pela cabeça de Stallone para derrapar tão feio na evolução da história. Talvez o excesso de personagens idênticos que tem feito nos últimos anos (Barney Ross em Os Mercenários, Ray Breslin em Rota de Fuga ou James Bonomo em Alvo Duplo) ou o cabelo estranhamente curto e bem penteado tenham confundido Stallone sobre o cerne do personagem; Rambo não é apenas a vingança dos oprimidos ou o braço forte da lei; ele é uma prevalência quase mítica, divina, do bem sobre o mal. É o homem que vence guerras sozinho. A catarse só pode ocorrer se o bem prevalecer intacto, como no caso dele próprio, no primeiro filme, dos prisioneiros americanos no Vietnã, no segundo (onde se lamenta imensamente, mas pelo menos entende-se e permite-se a morte colateral e dramática de Co), seu comandante no terceiro e a principal das missionárias no quarto.

Com a morte da sobrinha o filme perde o eixo e vira uma história manjada de vingança. Ele mata um dos sequestradores no México e atrai todos eles para o sítio onde vive. Transforma o lugar em uma usina de armadilhas - outro artifício já utilizado em inúmeros filmes, incluindo Esqueceram de Mim - e mata todos eles de forma metódica e sádica. No fim ninguém fica feliz. Os bandidos morrem mas Rambo perde a sobrinha que lhe trazia alegria e uma razão para seguir vivo. Não existe aquela sensação tênue de esperança que há no fim de todos os outros. Este é uma desgraceira do início ao fim.

Julia Nickson: maravilhosa e estupidamente esquecida

Para concluir, nos créditos há uma montagem de cenas dos cinco "Rambo", sinalizando que a série chegou mais uma vez ao fim (considerando que no quinto "Rocky" também havia montagem semelhante, e depois disso ainda houve um "Rocky" e dois "Creed", não há rios de credibilidade). Cometeu-se um último crime: deixaram Co Bao de fora. A maravilhosa personagem, cujas últimas palavras foram justamente "Do not forget me", acabou esquecida pelo idiota que juntou as cenas. (25/12/2019)

EMMA (1996, 2009, 2020)


A Emma de Gwyneth
Minha impressão sempre foi de que assim que se iniciou a produção de Emma com Gwyneth Paltrow - roteiro e direção de Douglas McGrath a partir do livro de Jane Austen - a A&E e uma pilha de produtoras inglesas imediatamente se mobilizaram para produzir seu próprio Emma televisivo, pegando carona no filme de McGrath. Não estavam errados; Gwyneth atingira em cheio o coração do público com seu papel trágico em Seven e as portas do protagonismo hollywoodiano estavam escancaradas para ela. A atriz lutou pelo papel de Emma e a fim de consegui-lo chegou até a trabalhar em uma comédia idiota, The Pallbearer (veículo exclusivo para David Shwimmer, na época famosíssimo com o seriado Friends), que o estúdio lhe impôs como condição para protagonizar Emma.

De uma forma ou de outra, McGrath - geralmente roteirista, ocasionalmente ator e de vez em nunca diretor - fez um belo filme. Gwyneth estava no auge de sua beleza e de sua juventude (24 anos), e o elenco incluía valores ascendentes como Jeremy Northam, Alan Cumming e Toni Collette, roçando ombros com estrelas consumadas como Greta Scacchi. É uma comédia romântica leve e agradável, e acabou indicada a dois Oscar (Música Original e Figurino; levou o primeiro).

A Emma de Beckinsale
A produção televisiva, por sua vez, esteve longe de ser ruim; o diretor Diarmuid Lawrence (1947–2019) tinha considerável experiência dirigindo séries e novelas e chamou o competente roteirista Andrew Davis para adaptar o livro de Jane. O papel-título foi para Kate Beckinsale, ainda um diamante bruto aos 23 anos, mas começando a despontar no firmamento cinematográfico. A exemplo do filme de McGrath, o elenco desta produção traz grandes valores em início de carreira, como Mark Strong, Samantha Morton e Olivia Williams. Com um orçamento bem menor, sem a beleza estética ou o timing de comédia da produção hollywoodiana, é um filme perfeitamente passável e, em sua simplicidade, encaçapou dois Primetime Emmys (Direção de Arte e Figurinos). A versão de Gwyneth alcançou os cinemas em outubro de 1996, e o filme de TV foi transmitido no mês seguinte. Depois de duas adaptações encavaladas no mesmo ano, Emma ficou no vinagre até 2009, quando a BBC decidiu transformar o livro em uma minissérie de quatro capítulos (coisa que a própria BBC já havia feito em 1972, sem grande repercussão) com Romola Garay no papel-título. 

A Emma de Romola
E em fevereiro de 2020 estreou uma nova versão cinematográfica com Anya Taylor-Joy no papel-título, dirigida por um sujeito chamado Autumn de Wilde e com roteiro da igualmente desconhecida Eleanor Catton.

Tenho uma opinião semelhante em relação a estas duas últimas produções: são muito boas, em termos gerais estão no mesmo nível de excelência dos filmes produzidos em 1996, mas, acima de tudo, não havia nenhuma necessidade de produzi-las. Romola Garay e Anya Taylor-Joy são ótimas. São lindas, talentosas e carismáticas mas não trazem rigorosamente nada de novo ao que já vimos anteriormente. As versões de Gwyneth e Kate ainda estão frescas em nossa memória, são filmes bem-feitos, modernos, não são datados e não estão ultrapassados, e a simples verdade é que quem quer conhecer "Emma" poderia recorrer aos dois filmes que já existem (O mesmo, aliás, se aplica de maneira berrante ao pretensioso e soporífero remake de Little Women estreado no ano passado, dirigido e roteirizado por Greta Gerwig).

Sobre esta nova versão, ressalto que a escolha do elenco tem mais acertos do que erros. A Harriet de Mia Goth é excelente. Se não for a melhor, nada fica a dever às atrizes que já interpretaram esse papel. Também maravilhosa é Amber Anderson no papel de Jane Fairfax. Josh O'Connor é perfeitamente asqueroso como Elton, e assim por diante. Bill Nighy está ligeiramente deslocado no papel do pai de Emma, mas não compromete. A maior de todas as minhas objeções é à escolha do inexpressivo e medíocre Johnny Flynn para o papel seminal de Knightley. O amigo/pretendente de Emma foi feito brilhantemente por atores como Jeremy Northam e Mark Strong e a performance de Flynn é fraca. Sem falar que quando põe a cartola vira o próprio Visconde Sabugosa do saudoso André Valli.

No mais, Anya Taylor-Joy precisaria livrar-se um pouco da expressão de eterna desconfiança e medo que caracteriza a maior parte de seus trabalhos, e assumir a personalidade exuberante e descontraída de Emma. Ela poderia sorrir, de vez em quando. Seu rosto élfico, não obstante, é hipnótico e é muito difícil tirar os olhos dela.

Recomendo, mas sempre lembrando que estas duas últimas produções não precisavam existir. (22/03/2019)

SERGIO (2020)

Greg Barker é diretor de documentários, dirigiu um documentário sobre Vieira de Mello há uns dez anos e agora veio este filme sobre os meses que antecedem a morte do diplomata brasileiro.

Me veio à mente o filme Neerja (2016), em que Sonam Kapoor interpreta a aeromoça Neerja Bhanot, que morreu para salvar 359 pessoas em um vôo seqüestrado por terroristas, em 1986: amo Sonam Kapoor mas o filme não precisava existir. Já sabemos o início, o meio e o fim. Não são tantas as pessoas de vida pública que precisam virar filme; no mais das vezes, um bom documentário é mais do que suficiente.

É certamente o caso de Vieira de Mello. Entretanto, existe aqui um pequeno plot twist: nos funerais do diplomata, quem recebeu os pêsames foi sua esposa de direito, Annie Vieira De Mello. Só que hoje é público e notório que Annie e Vieira estavam em um processo ácido e não-amigável de divórcio fazia tempo, e quem de fato vivia maritalmente com o diplomata há quatro anos (ocupando um cargo, aliás, no mesmo escritório das Nações Unidas em Bagdá), era a jovem argentina Carolina Larriera. Ela passou os anos seguintes sem se manifestar, embora tivesse todo o apoio da mãe do diplomata. Recentemente a justiça brasileira lhe deu ganho de causa, reconhecendo a união civil de ambos, sendo ela, portanto, a verdadeira viúva de Vieira.

Vieira e Moura

É a única coisa que impede o filme de Greg Barker de naufragar na redundância. E paradoxalmente, aquilo que o torna ainda mais chato e soporífero, porque conquanto seja uma belíssima figura de nossa diplomacia e um homem distinto e justo, a vida sentimental de Vieira não tem (ou não deveria ter) qualquer relevância para o público. Não há nenhuma necessidade de invadir um terreno inteiramente pessoal, dentro de uma história de guerra e geopolítica. E a cada cinco minutos do filme somos obrigados a presenciar alguma ceninha brega de romance entre os dois.

Wagner Moura não tem nada a ver com Vieira e sua interpretação é careteira e over. Sendo ele e Rodrigo Santoro os únicos atores brasileiros chamados para qualquer coisa em Hollywood, neste caso sou parcial a Rodrigo, que com a maquiagem certeira, ficaria bem parecido com Sérgio. Ana de Armas está ok.

Enfim, um documentário estaria de bom tamanho.

Típico filme feito em meio a quinhentos outros, pela Netflix. (19/04/2020)

KIRAWARE MATSUKO NO ISSHÔ (2006)

Matsuko está sempre procurando o amor de seu pai, mas sente que ele dedica toda sua atenção a Kumi, a filha doente. Como resultado, ela passará o resto de sua vida procurando amor nos lugares errados. Na escola em que trabalha, é demitida por tentar proteger um aluno que roubou dinheiro. Ela deixa sua família e foge da cidade. Nos próximos trinta anos, Matsuko não fará nada além de escolher o que é pior para ela. Empregos humilhantes, relações abusivas e incontáveis ​​homens que a espancam e ela os perdoa.

A história toda é um melodrama que quer nos forçar a sentir pena de Matsuko, mas eu não consegui. Ela é burra demais. Uma coisa é ter problemas de rejeição paterna e outra, bem diferente é cometer o mesmo erro idiota duzentas vezes, mesmo quando o destino oferece a ela uma segunda chance atrás da outra durante décadas. Matsuko se afasta das boas amigas, foge esquizofrenicamente de sua irmã doce e amorosa e basicamente rejeita todos que podem fazer algum bem a ela. Esse tipo de historinha brega pode até funcionar bem em novelas mexicanas. No filme, é uma falha incontornável.

Kiraware Matsuko no isshô é excelente em termos de direção, elenco e produção. A narrativa é muito bem trabalhada. Mas falha miseravelmente na própria história, que é superficial e apelativa. Bom exemplo disso é a cena final, tão bonitinha e colorida quanto piegas e vazia, na qual Matsuko encontra sua irmã no céu e faz o que poderia ter feito uma dúzia de vezes enquanto ambas estavam vivas. (19/04/2020)

1900 (1976)

(A quarentena me levou a revisitar filmes que assisti há muitos anos e começam a sumir de minha memória, e outros - como este - que eu não assistira até agora, por uma razão ou por outra. Submeti esta crítica a um famoso site cinematográfico mas ela foi rejeitada. Certamente por duas razões: 1) Eu não fui exatamente diplomático em meu comentário, embora a versão que eu mandei a eles não contivesse palavrões. Aqui o texto vai sem cortes; 2) Eu estou falando a verdade nua e crua sobre o filme, e nada que já não seja sabido por qualquer cinéfilo.)

I wonder ... two hours into one of the stupidest, most pretentious and pointless pieces of garbage I've ever come across, did I actually see De Niro and Depardieu in full frontal nudity having their limp dicks wanked by some unfortunate actress?? It can't be...

If the question "What the fuck did I just watch??" was ever in order, it is desperately in order right now.

"1900" is like "Caligula" but much worse. MUCH worse. Bertolucci - who had about as much talent (and political savvy) as Tinto Brass but somehow managed to con Hollywood into thinking he was a bold art-house filmmaker through such filth as "Last Tango" and the likes of it - put together a movie where a pig gets slaughtered, a young girl tries to masturbate Burt Lancaster, kids show their penises to each other, horse manure is spread on Donald Sutherland's face and so on. No wonder De Niro doesn't even mention this. The movie that is supposed to be about the rise of fascism is actually a snuff film.

I don't even know what to say ... what the hell is this?? How does a five-hour shit show like this gets an approval by any studio? True masterpieces have been butchered by studio executives for having more than two hours but this hot mess gets to run over five?? The lead actors are pathetically miscast: De Niro is as dull and out of place as he can be while Depardieu - one of my favorite actors, btw - barely speaks and acts like a monkey the whole time; everyone is dubbed, direction is nill, Morricone's score sucks, one of the screenwriters is - surprise! - Bertolucci's brother, the so-called political message is shallow or flat-out wrong!...

This is the biggest sham in movie history. Thank God I didn't pay to see it and stopped after two and a half painful hours. To summarize it, in the words of the immortal Don Rickles: "18 hours of crap!"

RICKLES E OUTROS, LEGENDADOS

DON RICKLES E LARRY KING (1985)



Esta foi a primeira de muitas entrevistas dadas por Rickles no programa de Larry King. E certamente a mais engraçada. Os dois se conheciam há quase 30 anos e Larry - eternamente inclinado, com sua cara de sapo, seus óculos gigantes e seu suéter esquisito - não poderia deixar de ser um alvo perfeito para a metralhadora verbal de Rickles.

O que vemos nesta entrevista não é apenas o talento habitualmente superior de Rikles para o improviso e para os melhores sarros de todos os tempos, mas um Larry King vencido, gargalhando às casquinadas de seu próprio roast.

Humor da melhor qualidade, como evidentemente não se vê mais. (02/03/2020)

RICKLES ROASTS REAGAN (1973)



O programa de Dean Martin tinha um "roast" semanal que se tornou célebre, trazendo as maiores estrelas de Hollywood, da música, da política, do esporte e de qualquer área cujos membros estivessem dispostos a rir de si mesmos em rede nacional. Era um deleite.

Em setembro de 1973, a vítima foi ninguém menos do que o governador da Califórnia e ex-ator Ronald Reagan, que mais tarde seria presidente por dois mandatos. Don Rickles não pega leve, não dá tréguas, e protagoniza mais um de tantos momentos memoráveis em sua carreira. (31/03/2020)

RICKLES ROASTS BOB HOPE (1974)



Don Rickles participa do "roast" de Bob Hope em outubro de 1974, com apresentação de Dean Martin e presença dos convidados James Stewart, Jack Benny, Omar Bradley, Phyllis Diller, Milton Berle, Neil Armstrong, Billy Graham e Ronald Reagan, entre outros. O comeback de Dean é antológico, assim como a reação de Rickles às vaias que recebe quando faz uma piada com Sugar Ray Robinson. Imperdível.

WOODY ALLEN ROASTS DIANE KEATON (2017)



Diane Keaton foi homenageada na 45º prêmio do AFI e quem apareceu no fim da cerimônia para entregar-lhe o prêmio foi seu ex-marido Woody Allen. Ele faz um discurso brilhante, como sempre, e diverte o público rememorando histórias de sua colaboração artística e romântica com Diane.

No fim de seu discurso há um easter egg que arrepiou os cabelos dos mais sensíveis. Vejamos se vocês encontram. (20/04/2020)

SIDNEY POITIER RECEBER OSCAR HONORÁRIO (2002)



O ator Sidney Poitier recebe um Oscar honoráro na cerimônia da Academia, em 2002, das mãos de Denzel Washington e do produtor Walter Mirisch.

BILL MAHER E OS "WET MARKETS"


Sou admirador confesso e incondicional de Bill Maher há muitos anos e é com prazer que o vejo se superando a cada semana, em seu programa da HBO, na ingente tarefa de trazer uma palavra de humor, inteligência e sobriedade ao público televisivo norte-americano.

Transmitindo seu programa semanal diretamente de sua casa desde o início da pandemia, ele é obrigado a trabalhar sem o público, cujas reações são sempre tão importantes para artistas que, a exemplo dele, iniciaram suas carreiras como stand-up comedians. As gargalhadas podem até fazer falta, mas o conteúdo de seus monólogos continua absolutamente perfeito e imbatível.

Seus comentários sobre o Corona Vírus em todas as suas ramificações são irretocáveis. No dia 24 ele falou sobre a relação perversa, criminosa e doentia que temos com os animais. Ele já falara sobre os chamados "wet markets" chineses - uma mistura dantesca de mercado de peixe e açougue, onde animais são vendidos vivos ou mortos para serem consumidos. Já há consenso de que o Corona provavelmente surgiu pelo consumo do maravilhoso (e prestes a ser extinto) Pangolim, e essas sucursais do inferno, onde animais são torturados todos os dias com plena sanção da lei, estão longe de serem fechados.

A questão levantada por Maher é que as atrocidades cometidas nesses "wet markets" não estão nem um pouco distantes daquilo que se faz normalmente em granjas, fazendas de gado bovino, suíno ou qualquer outro e, em geral, na indústria pecuária, onde os animais são brutalizados e submetidos aos piores e mais desumanos maus tratos que possam ser imaginados.

Ele também fala de uma porcaria da Netflix chamada "Tiger King", sobre um imbecil qualquer que tem um tigre, ou coisa que o valha (graças a Deus nunca perdi meu tempo com esse lixo), e faz colocações certeiras sobre o quanto acabamos sendo coniventes com tudo isso. Mais do que tudo, mostra algo que já deveríamos ter percebido: a miséria a que submetemos os animais está finalmente voltando para nós.

Assistam.
Compartilhem. (25/04/2020)



DANIEL AZULAY


Não sabia que você estava com leucemia, Daniel... porque teus videos e tuas aparições desde que te reencontrei na internet, faz uns três anos, foram repassadas da felicidade retumbante, colorida e coberta de algodão doce que eu já conhecia desde a minha infância. Infância que você tornou melhor, mais criativa, mais lúdica.

Você só me deu bons exemplos, lições valiosas de bom senso, de civilidade, de comportamento, além do incomparável enriquecimento artístico. Comecei a desenhar por causa do teu programa. Teu talento inspirou a todos nós. O teu bom humor, a tua paciência e a maneira divertida com que você se comunicava com as crianças instilaram calma e gentileza ao nosso temperamento. Melhoraram nossa relação com a escola, com nossos colegas e nossos afazeres.

Você foi nosso amigo. O teu sorriso era o sol brilhando sobre todos nós. Você foi a manhã ensolarada e radiosa das nossas vidas.

Não sabia que você lutava contra um câncer... mas pra falar a verdade, eu não sei de nada. Não sei por que os melhores tem que ir antes. Por que um anjo como você tem que sucumbir ao câncer e ao corona. Por que você não foi aclamado, respeitado e festejado como o artista admirável que mudou vidas para melhor, influenciou beneficamente milhões de crianças e transformou o mundo em um lugar menos amargo e mais construtivo.

Eu não sei de nada.
O que sei é que beijo as tuas mãos e te agradeço de joelhos pelo que você fez por mim.

Muito, muito obrigado. Eternamente.

Deus te receberá de braços abertos. (28/03/2020)

MORAES MOREIRA

O encontro com esse meu ídolo maravilhoso, a quem adoro e admiro há quase
quatro décadas (Casa das Rosas, 09/12/2016)

Assisti Moraes pela primeira e única vez em dezembro de 2016. Ele faria um show e uma tarde de autógrafos para seu livro Poeta Não Tem Idade, na Casa das Rosas. Terminado o show, fui um dos primeiros a levar meu livro para receber seu autógrafo. Ele estava um pouco aperreado com a confusão que se criou entre o fim do show e o lançamento do livro, mas não dei a menor atenção a isso. Me aproximei e disse aquilo que há muitos anos desejava dizer a ele: "Moraes, antes de qualquer coisa quero te agradecer de coração, porque a tua obra melhorou a minha vida". Pego de surpresa, percebi nitidamente como seu semblante se suavizou e ele me disse, cheio de bonomia: "Ôôô, meu querido... muito obrigado... que alegria saber disso". Beijei-lhe a mão e despejei-lhe mais mil elogios, ressaltando a importância de Lá vem o Brasil descendo a ladeira e Bazar Brasileiro em minha cultura musical. Acima de tudo, quis que ele soubesse como sua música me fez bem. E esse segundo de eternidade, com Moraes, não esquecerei nunca.

Chegando em casa comecei a escrever um texto para o blog, que seria sobre os dois LPs e minha admiração por Moraes. Sem me espraiar em exegeses sobre sua obra ou seu papel de protagonista na MPB dos últimos cinqüênta anos. Preferi algo simples e devotado, na linha do que costumo fazer, ou seja, uma análise fundamentalmente sentimental. Pensava até em aumentá-lo e incluir uma parte sobre Guilherme Arantes, outro de meus primeiros ídolos. Terminei o texto sobre Lá vem o Brasil descendo a ladeira e deixei-o parado, pretendendo retomá-lo em breve. Não o fiz, e no dia 13, para o absoluto espanto de todos nós, Moraes se foi. Ainda não consigo falar o que sinto sobre essa perda, mas publico desde já o que escrevi sobre o LP de 1979, prometendo para daqui a alguns dias o resto, que incluirei aqui mesmo.

_________________________________

Amante da boa música e sobretudo da música brasileira, minha mãe era freqüentadora assídua das duas lojas HiFi que havia no Shopping Iguatemi. Tinha seus artistas favoritos, mas aquele fim de década de 70 andava riquíssimo em termos de talento. Chico, Caetano, Gil, Gal, Elis, Bethania, Alcione, Tim Maia, Jorge Ben, estavam todos particularmente inspirados. Roberto e Erasmo brilhavam como nunca, naquele pós-Jovem Guarda. E o mesmo ocorria com os egressos dos Novos Baianos, cada um por seu lado, Baby, Pepeu e especialmente Moraes Moreira.

Sua carreira fora dos Novos Baianos ia de vento em popa e em 1979 ele lançou Lá vem o Brasil descendo a ladeira. Minha mãe, fã de Moraes desde a época dos Baianos, comprou a fita na HiFi. Eu, com sete anos, já praticamente destruíra as fitas da Ópera do Malandro, de Chico, que ela comprara o ano anterior, e me encantei com Moraes desde o primeiro contato. Amei as onze músicas da fita. Sem exceção. Da primeira à última, todas escreveram páginas do livro de minha curta vida, até aquele momento, como sói ocorrer com as músicas que ouvimos em nossa infância (razão pela qual os pais deveriam se preocupar mais com aquilo que seus filhos escutam, nessa idade).

A canção-título, "Lá vem o Brasil descendo a ladeira" (Moraes/Pepeu), sambão de cadência mansa e gostosa, era impossível parar de cantar. Eu ouvia ali pela primeira vez coisas como "a todos mostrava naquele momento, a força que tem a mulher brasileira" e descobria o que significava "o equilíbrio da lata, não é brincadeira". Só muito mais tarde fui conhecer a explicação de Moraes para essa letra, criada a partir de uma visita de João Gilberto ao sítio dos Novos Baianos.

"Pelas Capitais" (Moraes/Jorge Mautner) é um frevo bem humorado e divertido, perfeito para uma criança aprendendo geografia e reconhecendo na letra cada uma das capitais brasileiras. "Eu sou o Carnaval" (Moraes/Antônio Rizério) me introduziu à baianidade fundamental de Moraes, embora naquela época eu não conseguisse entender quando ele dizia coisas como "eu sou o pierrot e a colombina de Ubarana-Amaralina que alucina a multidão", ou o maravilhoso refrão em dois movimentos, que diz "toda a cidade vai navegar no mar azul badauê, fazer tempero, se namorar na massa, no massapê" e em seguida, "baba de moça no carapuá, ganzá, bongô, agogô, pirá". Era ininteligível como poesia, mas contagiante, delicioso como música e ritmo.

Moraes e Fausto Nilo

"Coração Nativo" (Moraes/Armandinho/Fausto Nilo) e "O Prometeu" (Moraes/Cícero Lima, que suspeito ser o poeta Antônio Cícero, primo da então esposa de Moraes) tinham letras para mim incompreensíveis, rasgos de poesia pessoais demais para serem decifrados por uma criança de sete anos. Era divertido cantar com Moraes versos como "oh! que mar sereno ou vendaval, oh! que céu moreno ou coqueiral, oh! que azul veneno eu vejo em ti, nativo coração de lata"; também me dava prazer entoar o reggae "já esperei meu prometeu, no céu da terra se perdeu, no fogo luz do nosso amor, o céu com a terra se encontrou". O que Moraes e os letristas pretendiam transmitir com tudo isso, só fui descobrir quase quinze anos depois. Mas, novamente, como música, como arranjo, movimento, cavaquinho e sanfona, o reggae da Bahia, aquilo era perfeito. Nada que não se pudesse esperar de um LP cujos arranjos foram feitos por Moraes em parceria com Pepeu Gomes e Armandinho. Três gênios, e nada menos do que isso.

Moraes e Armandinho

Moraes e Pepeu

"Som Moleque" (Moraes/Fausto Nilo) era das minhas preferidas. Adorei tudo, o ritmo, a melodia, a guitarra no estilo de trio elétrico, a mistura do metal com os violinos, a cuíca, o clima de praia no fim de tarde... "Eu acho é pouco, batuca quem não tá moco, maluco quebrando coco, liso, leso muito louco, com o peso no coração, eu não". Uma delícia de samba-rock. O lado 1 terminava com puro prazer. O lado 2 começa com uma verdadeira obra-prima: "Valentão" (Oswaldinho/Moraes), que conta a história de um sanfoneiro que não perdia vaza "pra justificar sua fama de ser valentão", o que acaba em um duelo onde mata e é morto por um viajante. No início da canção ele diz que "era fã de um sanfoneiro, sanfoneiro bom. Que não era o Mário Zan, mas era, com certeza, dentre todos o melhor daquela redondeza", o que me levou a perguntar a minha mãe quem era Mário Zan, de quem me tornei grande admirador. O duelo, mesmo, é o de sanfonas, no meio da canção. Inesquecível. E uma das poucas faixas em que a música aparentemente não é de Moraes. Neste caso, é do grande Oswaldinho do Acordeon, na época um garoto de vinte e quatro anos.

Moraes e Abel Silva
"Chão da Praça" (Moraes/Fausto Nilo) é outra obra-prima. É um frevo lento que eu identificava, em criança, como tendo quatro movimentos; o primeiro em que fala "meu amor, quem ficou nessa dança, meu amor, tem pé na dança. Nossa dor, meu amor, é que balança, nossa dor, o chão da praça". O segundo suavizava a melodia, explicando: "Vê que já detonou som na praça porque já todo pranto rolou, olhos negros cruéis, tentadores, das multidões sem cantor". O terceiro - primeira parte do refrão - se iniciava com o frevo lento: "Eu era menino, menino, um beduíno com ouvido de mercador. Lá no oriente tem gente com olhar de lança na dança do meu amor", culminando com o ápice: "Tem que dançar a dança, que a nossa dor balança o chão da praça". Um banho de música, que me traz recordações de tanta coisa daquela época. E uma das favoritas de Caetano Veloso.


Na seqüência vinha a balada "Feito Muhammad Ali" (Moraes/Abel Silva), que me encantava pela solo de guitarra elétrica e pelo refrão fácil, mas que até hoje não compreendo muito bem, a não ser para dizer que parece falar de uma bailarina e há piadas que devem ser pessoais, como "e a língua bem ferina", que destoa do resto e me faz boiar até hoje. Mas amo a canção, sabia quem era Ali por lembrar vagamente de uma luta sua que assisti no ano anterior (com Leon Spinks) e acho engraçadíssimo porque sempre o ouvi dizer "meu amor querer bailar feito Môrramadalí". "Choro Pequenino" (Moraes) é a celebração da ecleticidade de Moraes; até essa faixa do lado 2 já passáramos pela sanfona e pela guitarra elétrica. Era hora do cavaquinho, que seu filho Davi começou a cultivar, certamente, naquela época. Eu adorava cantar junto essa música porque ela é um desafio de dicção e de respiração: "Pegue bem depressa (pausa)... o cavaquinho e olhe cara com carinho nota por nota, anotar"... um samba-choro perfeito.

E a fita se encerra com "Assim pintou Moçambique" (Moraes/Antônio Rizério), mais um jato de baianidade de Moraes, com alguns versos que eram grego para mim, como "de Arembepe a Itapagipe, da Ribeira a Jacuípe, tudo é lindeza", outros que já ressoavam no meu incipiente discernimento poético, como "estrela de quinta grandeza, filha de mãe sudanesa, tudo é beleza", misturados a frases tão musicais, tão rítmicas, que parecem ser o som de um instrumento de percussão: "Fazendo um som no atabaque, trazendo axé pro batuque, cantando um samba de black. Assim pintou Moçambique, nesse tique, nesse taque, nesse toque, nesse pique". Magistral.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

"Cats", o filme: uma autópsia



Os comediantes Rebel Wilson e James Corden apareceram no Oscar deste ano vestidos como seus respectivos personagens em Cats (Jennyanydots e Bustopher Jones) e enfatizaram a importância de bons efeitos especiais em um filme, ao som do gargalheiro generalizado da platéia. Foi uma divertida auto-crítica com o que se supõe ser o principal problema de Cats: a idiotice dos efeitos especiais em CGI terem transformado os gatos em humanóides. Uma coisa horrorosa, ridícula, em que o que vemos, basicamente, é um monte de atores com rabo e orelhas de gato, mas estranhamente mantendo seus próprios rostos. Só que esse não é nem de longe o maior problema deste Cats. Há vários outros, e muito piores. Vamos a eles:

T. S. Eliot
1 - A música original de Cats é sublime. Obra-prima. Obra de gênio. Andrew Lloyd Webber eternizou o livro de T. S. Eliot no qual se inspirou. Mas o Old Possum's Books of Practical Cats, de 1939, não passa de um livro de 45 páginas com catorze poesias curtas sobre gatos. É um livro para crianças. Webber adicionou poesias inéditas de Eliot que recebeu de Valerie, a viúva do escritor, de onde vieram os temas de Grizabella e o Heaviside Layer, pescou outras e construiu um monumento poético-musical. Sua adaptação transformou a simpática casinha de Eliot em uma frondosa catedral. Tudo é melhorado. Não perderei tempo incensando um gigante como Webber, ou descrevendo o impacto que uma jóia como Cats teve sobre mim (foi o primeiro musical que assisti em Nova York, aos treze anos). Direi apenas que quando assistimos o espetáculo ao vivo, ou escutamos a trilha sonora, ficamos arrepiados. Cats é uma correnteza que leva quem estiver por perto, sem o menor esforço. Envolve e encanta da primeira à última música. O prólogo, "Jellicle Songs for Jellicle Cats", já deixa o público, recém-chegado, completamente atônito, maravilhado com esse choque inusitado de talento e energia.

Valerie (viúva de Eliot), Webber e - é claro - um gato

A seqüência, com "The Naming of Cats" e "The Invitation to the Jellicle Ball" são para o público respirar e realizar mental e emocionalmente o que está prestes a acontecer. E os gatos começam a se apresentar e a serem apresentados ao público. Uma seqüência perfeita e inigualável de seis números musicais: "The Old Gumbie Cat", "The Rum Tum Tugger", "Grizabella, The Glamour Cat", "Bustopher Jones", "Mungojerrie and Rumpelteazer" e "Old Deuteronomy". Há então "The Awefull Battle of the Pekes and Pollicles / The Marching Song of the Pollicle Dogs", o único número que eu realmente não considerei à altura do espetáculo, quebrando, a meu ver, a continuidade brilhante das apresentações. Mas em seguida as coisas voltam aos trilhos com "The Jellicle Ball", um belo número de música e dança. O ato se encerra com um primeiro gosto de "Memory".

O segundo ato começa dramático, com "The Moments of Happiness" e "Gus: The Theatre Cat". Vem o complexo número de Growltiger e a levíssima "Skimbleshanks: The Railway Cat". A reta final tem três obras-primas, uma atrás da outra: "Macavity: The Mystery Cat", "Mr. Mistoffelees" e "Memory". O fim traz a redenção de Grizabella na magnífica "The Journey to the Heaviside Layer", que transforma o teatro em um rio de lágrimas dos espectadores, e a conclusão de Old Deuteronomy com "The Ad-Dressing of Cats".

É isso. Cats não tem um enredo, propriamente, porque Eliot não pensou em suas poesias como um libreto. É uma introdução permanente dos gatos, que Lloyd Webber e Trevor Nunn (diretor da primeira montagem, em Londres) permearam com o sequestro do líder de todos eles - Deuteronomy - por Macavity, seu resgate pelos poderes mágicos de Mistoffelees, e a escolha de Grizabella para renascer através da viagem ao Heaviside Layer. O que tornou Cats o musical de maior sucesso de todos os tempos foi justamente isso: músicas geniais, artistas fantásticos, de talento superior, e números excepcionais de canto e dança como recheio e cobertura de uma idéia fundamentalmente simples. E se essa foi a receita para o sucesso mundial de Cats no teatro, foi também a razão pela qual o musical nunca foi tentado no cinema; é um espetáculo em que teremos qualquer coisa em torno de trinta pessoas vestidas e maquiadas para parecerem gatos, cantando e dançando sobre o que é ser um Jellicle Cat. A mídia para isso não pode ser outra senão o teatro. Em 1998 David Mallet dirigiu uma versão feita diretamente para TV, mas não passou de uma filmagem do espetáculo sem o público. Não é ruim, mas não provocou nem 1% da catarse de estar no teatro.

Cats pertence ao teatro. Podemos amar as músicas e vibrar com elas no CD mas o espetáculo deve ser visto ao vivo.

2 - O que vimos no cinema foi a negação absoluta de tudo isso. Está TUDO errado. Tom Hooper não deu uma dentro. Se em Les Miserables (que não consegui assistir inteiro, vencido por uma lufada de tédio na primeira entrada de Russel Crowe blaterando uma de suas canções) ele agradou parte do público, aqui o desastre foi total e completo. No teatro nos deixamos levar por Cats desde a abertura; é uma viagem deliciosa da qual saímos renovados, energizados e felizes. No filme a sensação é de mergulhar em uma piscina vazia. Aquela festa num salão enorme em que só apareceram três ou quatro pessoas. Ouvem-se os grilos. Os arranjos musicais são ruins. A orquestração é anêmica e as vozes em coro, que deveriam ser fortes e empolgantes, são insípidas, magras e sem nenhuma graça. Conseqüentemente, "Jellicle Songs for Jellicle Cats" passa em brancas nuvens e, por assim dizer, o filme não dá liga.

É compreensível que montagens cinematográficas de musicais mudem, aqui e ali, os arranjos de determinadas músicas. Sobretudo quando estão datadas ou quando o próprio autor sente que elas não funcionaram como deveriam. O próprio Lloyd Webber descartou a versão original londrina de "Mungojerrie and Rumpelteazer" e compôs uma nova, muito melhor, quando o espetáculo estreou na Broadway, um ano depois da estréia no West End. Mas nada justifica o que foi feito neste filme. Sentimos a substituição de arranjos vigorosos e substanciosos por um pastiche simplificado, sintético, light, como se a montagem fosse amadora.

Tim Hooper
3 - Na parte vocal essa discrepância é ainda pior. Entramos naquele que talvez seja, de fato, o maior problema deste filme: o elenco inexplicável e imperdoavelmente péssimo. Tom Hooper mostrou, com a escalação do já citado Russel Crowe, que não vê, exatamente, a necessidade de utilizar atores/cantores em papéis onde o talento para o canto é indispensável. Segue, por sinal, triste tendência hollywoodiana. Aqui, porém, o fracasso foi tão retumbante que até o público mais maleável e tolerante torceu o focinho. Todos os personagens foram mal-escolhidos. TODOS. Munkustrap é uma espécie de M. C. dos gatos, e é geralmente quem inicia muitas das apresentações, além de explicar a Jellicle Ball e a escolha que Deuteronomy fará para o Heaviside Layer. Precisa não apenas cantar muito bem, mas ser divertido e confiável. A dúvida berra: de onde saiu esse sensaborão ridículo, lamentável e sem nenhum talento chamado Robbie Fairchild? E o que passou pela cabeça de Tom Hooper para chamar alguém tão medíocre para um papel tão importante? Sua voz é fraca e desafinada. Sua cara é de prisão de ventre, ele não tem um pingo de dramaticidade, de humor ou de simpatia. Ele não canta, não dança e não interpreta. Não tem talento. A escolha desse zero ao infinito é erro tão grave que retira, de cara, uma das pernas do filme.

Rebel Wilson como Jennyanydots
Rebel Wilson me deu calafrios. No musical, a canção de Jennyanydots tem uma introdução de Munkustrap e é cantada por três gatas, num estilo divertidíssimo de uma Jazz Band dos anos 20, o que dá ensejo inclusive para a personagem se aventurar pelo sapateado, no fim. Ela é uma gata gorda, que passa o dia sentada e quando se move é para ensinar tricô e crochê aos ratos, e de quebra ainda tenta ajudar as baratas a evitar seu idle and wanton destroyment. No filme, temos a introdução fria e desagradável de Robbie Fairchild, cantando com sua usual expressão de morto-vivo aquilo que deveria ser irônico e bem-humorado, e Rebel entra cantando sozinha, em primeira pessoa, o que era cantado pelas três gatas. Estaca zero: Hooper foi tão incompetente que considerou suficiente o fato de Rebel ser engraçadinha em um ou outro sitcom televisivo. Não pensou nem por um momento que Rebel não canta e não dança. Não deveria estar em musicais. A música se perde. E o número todo é constrangedor, os ratos tem feições humanas, ela come as baratas que Jennyanydots originalmente salva, não há nenhuma dança e tudo tem um tom amadorístico. A sensação é exatamente aquela de ouvir alguém cantando mal em um karaokê. É um dos múltiplos cringeworthy moments do filme.

Terrence Mann: único
Rum Tum Tugger é bonito e vaidoso. Enlouquece as gatas com sua beleza e sua dança. Um dos personagens mais deliciosos de Cats e um dos melhores números musicais. Tom Hooper assassinou-o sem dó nem piedade, chamando, para interpretá-lo (mal) e cantar sua música (pior ainda), um zé-ninguém chamado Jason Derulo. Um desastre. Terrence Mann - como praticamente todos os atores e atrizes do cast original da Broadway - transbordava soul, carisma, talento e jogou nas alturas o nível da interpretação. John Partridge nem sequer se lhe compara, no filme de 1998, embora faça bom trabalho. Derulo, em sua insignificância, é aquele calouro gongado assim que tenta cantar. Se o número de Rebel é lembrado por ultrapassar as raias do grotesco, este aqui, nem isso. O número não existe.

O brilhante Timothy Scott (1955/1988),
primeiro Mistoffelees da Broadway
Nessa mesma linha de absoluta falta de talento é jogado no lixo o querido Mr. Mistoffelees, entregue a outro ilustre nada, chamado Laurie Davidson. É deprimente. Mistoffelees é o melhor dançarino de todos, é o mágico que salva Deuteronomy de Macavity, sua música é uma ode à felicidade, ele é talvez o único gato admirado pelo voluntarioso e metido Rum Tum Tugger, e no filme ele é um nada. A idéia de fazê-lo covarde e sem reais poderes mágicos é, em si, cretina e anacrônica, fugindo diametralmente daquilo que foi escrito por Eliot. Mas poderia ser testada, se o time de roteiristas tivesse se dado ao trabalho de desenvolvê-la corretamente, o que não foi o caso. Como já se esperava, e parece ter sido o grande requisito para estar neste filme, Davidson não canta, não dança e não sabe atuar. Sem falar que até sua maquiagem e seu CGI parecem ser de segunda. Ele lembra um sujeito atrasado para uma festa à fantasia, que se maquiou às pressas com uma caneta BIC e seu figurino foi todo improvisado. Ele é um erro ambulante.

É oportuno que Rebel Wilson tenha aparecido junto a James Corden no Oscar, porque há uma triste semelhança na intensa inadequação de ambos no filme. A exemplo de Rebel, James tem seu público graças à meia dúzia de sitcoms na Inglaterra. Estava, portanto, devidamente credenciado para destruir o obeso Bustopher Jones; a música do personagem é cantada por ele e um grupo de gatas que adora ser cumprimentado por Bustopher em seus passeios a restaurantes de luxo ou teatros de elite. Mais uma vez, eliminaram-se as gatas e entregou-se uma música linda e difícil, escrita para ser cantada por um verdadeiro barítono, a um sujeito incapaz de cantar uma única nota sem desafinar.

James Corden como Bustopher Jones
O único número que achei menos péssimo entre estes foi o de "Skimbleshanks: The Railway Cat". Steven McRae é do Balé Real de Londres e seu sapateado imitando um trem em movimento foi bonito. Ele é um grande bailarino e acabou responsável por alguns bons momentos. Infelizmente a música de Skimbleshanks é uma das menos inspiradas e mais infantis de Cats, e McRae não poderia cantar nem para salvar sua vida, então o alívio durou pouquíssimo.

A cereja podre de tudo isso é que, por razões que a própria razão desconhece (e não faz questão de conhecer), Hooper exumou a versão londrina de "Mungojerrie and Rumpelteazer", descartada há quase 40 anos, e utilizou-a no filme. Rejeitou a ótima versão da Broadway, usada sempre, e que era originalmente cantada por Mistoffelees ou pela própria dupla. E o resultado conseguiu ser pior, porque se nas outras o que vemos é gente ruim cantando músicas boas, aqui há gente ruim cantando uma música que nem o autor considerava boa.

Francesca Hayward como Victoria
4 - Na ausência do público do teatro e não desejando utilizar o artifício de fazer os atores cantarem olhando para a câmera, como se estivessem se apresentando ao público que assiste, Hooper e os roteiristas do filme resolveram aumentar o papel de Victoria e transformá-la em fio condutor da trama. A personagem originalmente não tem falas e canta pouquíssimo mas protagoniza cenas interessantes como bailarina. Provavelmente por essa razão escalaram uma bailarina clássica chamada Francesca Hayward, para o papel. O filme começa com Victoria dentro de um saco, sendo abandonada pelo dono e jogada em meio aos gatos, e a partir daí eles se apresentam para ela. A idéia não é ruim e até funcionaria, se alguém ali não tivesse inventado de Victoria cantar uma música inédita, composta por Taylor Swift (sobre quem falarei mais à frente) e Lloyd Webber. Esqueceram duas coisas: em primeiro lugar, Cats é um repositório de músicas extraordinárias e não precisa de outra, especialmente composta por Taylor Swift, contratada com o fito único e exclusivo de atrair o público teen (tiro que não só saiu, mas explodiu pela culatra). E segundo, pra variar, a seara de Francesca é a dança e não o canto.

Victoria: divertindo-se mais
do que se esperaria
Sua música, "Beautiful Ghosts", é bonitinha mas acaba engolida e esquecida pela interpretação capenga e pouco memorável da bailarina. 
Também pra lá de estranha é a postura permanente de flerte da gata, sempre empolgadíssima e cheia de olhares para qualquer um. Por suas atitudes nem sequer imaginaríamos que ela acabou de ser cruelmente abandonada à própria sorte; ela não parece, nem de longe, scared to call them my friends and be broken again, como diz a canção de Taylor.

Não obstante, a bailarina é muito bonita e se desenvolvessem melhor seu personagem, não a obrigassem a cantar uma música inteira e - claro - se o filme não fosse tão horrivelmente ruim como um todo, ela poderia ter sido para este Cats o que a linda belga Veerle Casteleyn foi para a versão de 1998. Seu papel de Jemima acabou absorvendo interlúdios musicais de personagens menores como Victoria e Tantomile, e Veerle surgia de vez em quando para cantar no máximo uma ou duas frases com sua voz pequena mas doce, afinada e aguda, como o canto de um anjo, e hoje é a única e mais grata lembrança dessa versão.

A Jemima de Veerle Casteleyn, em 1998: um anjo

5 - Passemos agora ao elenco "famoso" do filme, onde o miscasting merecia ser punido com cadeia. Antes, é bom explicar que Tom Hooper elaborou em cima do enredo original; no filme, Macavity seqüestra Deuteronomy porque pretende forçar o líder dos gatos a escolhê-lo para o Heaviside Layer. Uma bobagem sem o menor sentido, já que Macavity é jovem, faz o que quer impunemente e não sente qualquer remorso por suas maldades; pelo contrário, ele sente prazer em ser perverso e portanto não teria qualquer razão para renascer, o que, para todos os efeitos, significa uma nova chance de vida. Seu cúmplice no seqüestro é Growltiger, que esconde Deuteronomy e os outros gatos seqüestrados por Macavity, em seu barco. Feita a explicação, eis quem paga o menor dos micos: Ray Winstone. Por que o menor? Porque 90% de seu papel, o pirata Growltiger, foi cortado. O que sobrou não chega nem a dois minutos de filme. Sorte dele.

Idris: patético
Macavity é descrito no livro de Eliot como um ginger cat, ou seja, laranja e malhado. Ele se encaixa no perfil do psicopata: respeitável, exímio em matemática, assíduo em jogos de cartas, mas ao mesmo tempo um criminoso frio, calculista e brilhante, "um monstro de depravação" que jamais é incriminado pelo que faz porque a polícia não consegue encontrá-lo na cena do crime de jeito nenhum. Idris Elba é um Macavity marrom, com as lentes de contato mais falsas que o cinema já viu, e poderes mágicos que o permitem aparecer e desaparecer. Ou seja, rigorosamente nada a ver com sua descrição. Se fosse mudo como seu personagem e apavorasse apenas pela descrição terrível que todos fazem dele o dano seria menor, mas ele fala e suas falas são bobas e provocam a mesma vergonha alheia de todas as falas inventadas para o filme (o musical não tem diálogos e tudo é cantado). O mico do ator só não é maior do que a tristeza provocada por aquilo que fizeram com seu número. Macavity não aparece durante a música em que é apresentado; essa atribuição cabe a duas gatas, Bombalurina e Demeter, invariavelmente grandes cantoras, sendo essa uma das melhores músicas da peça. Tom Hooper resolveu chamar Taylor Swift para o papel de Bombalurina, e limou Demeter do número, deixando Taylor sozinha para lapidar um diamante musical como "Macavity: The Mystery Cat".

O resultado é um anti-clímax. Taylor não tem estofo para uma música como essa, derrapa várias vezes e o fim da canção - que no teatro é apoteótico, sensacional, com orquestra e elenco num crescendo espetacular, fazendo vibrar todos os sentidos do público - recebe uma ducha de água gelada quando Idris se mete a cantar o último refrão junto a Taylor. Bizarro e triste ao mesmo tempo.

A Grizabella de Hudson: gemebunda
Grizabella não está no livro de poesias de Eliot porque ele a considerava um personagem adulto e dramático demais para figurar em um livro infantil. Tinha toda a razão; a gata velha foi linda e glamourosa na juventude, mas quando isso acabou ela haunted many a low resort near the grimy road of Tottenham Court, referência claríssima ao fato dela ter, em algum momento, se prostituído. Seu enredo vem de dois poemas, "Grizabella the Glamour Cat" (inédito) e "Rhapsody on a Windy Night". Ela tem entre 50 e 60 anos, e deseja se reaproximar dos Jellicles, embora a evidente rejeição deles faça dela um personagem amargo e ressentido. Jennifer Hudson, como se vê, não poderia estar mais distante da personagem. Manda a justiça que eu observe, todavia, que a idade das Grizabellas tem diminuído com o tempo e as montagens mais recentes fazem concessões, nessa área, que destoam da concepção original. O subtexto da prostituição também parece ter evaporado e ao invés de uma mulher vivida, trazendo no rosto as marcas do sofrimento e das provações, Jennifer faz uma Grizabella fofinha, vulnerável e gemebunda. É chorona, está sempre com cara de coitadinha e assustada, olhando tudo de soslaio. Não gostei nada. Jennifer tem antecessoras do nível de Betty Buckley (considerada a melhor cantora da Broadway em todos os tempos) e sua gritaria pode ter funcionado bem em Dreamgirls, mas não passou nem perto de me convencer em Cats.

Betty Buckley: inexcedível. Quando assisti Cats ela já havia sido substituída por Laurie Beechman, mas sua voz maravilhosa está na trilha original e há uma apresentação compacta de Memory no Emmy de 1983, que premiou Buckley como melhor atriz de um Musical.

Curiosamente, quem foi escalada para a dobradinha Grizabella-Jennyanydots na estréia mundial de Cats em Londres, em 1981, foi ninguém menos do que Judi Dench. Dias antes da estréia ela teve um acidente e deixou o espetáculo, substituída permanentemente por Elaine Page. Não sei como lidar com isso. Judi, sendo uma das melhores atrizes inglesas da segunda metade do século XX, não era estranha aos musicais. Por incrível que pareça, ela foi Sally Bowles antes de Cabaret virar filme. Ouvi gravações originais e ela cantava bem. Tinha uma voz bonitinha, afinada e charmosamente rouca. Seria uma excelente Jenny e certamente uma boa Grizabella, mas - minha opinião - jamais alcançaria a tragicidade musical de Page ou (muito menos) de Buckley.

Em 1998 foi organizada uma homenagem ao produtor Cameron Mackintosh, que produziu inúmeros musicais (inclusive Cats), chamada Hey, Mr. Producer! Judi participou cantando "Send In the Clowns", escrita por Stephen Sondheim para o musical A Little Night Music, de 1973. Na ocasião fiquei um pouco incomodado de ver a dificuldade com que Judi desfiava as notas da soporífera composição. Sua voz para o canto, antes "afinada e charmosamente rouca", era apenas um fiapo, agora. E mesmo assim quis o destino que Dench voltasse a Cats quase quarenta anos depois.

Judi: A Velha Deuteronômia
Só Deus sabe o quanto me dói ter que descer o sarrafo em uma atriz que eu admiro tanto, mas sua participação neste filme é tétrica. Alguém - suponho que seja Hooper - cometeu a inqualificável asnidade de transformar Old Deuteronomy em uma gata, e o papel recaiu sobre Judi. Faltam-me as palavras. O papel de um barítono com registros de tenor, responsável pela divina música de encerramento, entregue a uma (grande) atriz que não consegue mais cantar. Que está naturalmente desafinada, não consegue mais modular, não pode esticar nem por um segundo as notas. Brian Blessed tinha 45 anos quando interpretou o papel na estréia londrina. Ken Page tinha 26 anos, na estréia de NY. Judi está com 86. Além do absurdo surrealista de Deuteronomy virar mulher, aparentemente ninguém lembrou que o papel é como Lear; o personagem é velho mas o ator que o interpreta tem que estar no topo de suas habilidades artísticas. Não vou me estender. É terrível ver Dench retirando a fórceps cada uma das frases de suas músicas. Terrível. É o parto de um rolo de arame farpado. "The Ad-Dressing of Cats" é a mais dolorosa das implosões. Se as lágrimas viessem não seriam de emoção, e sim de raiva e dor.

Ian: Gus
Para que não se diga que tenho apenas críticas ao cast famoso, direi que um ponto menos negativo - e inesperado - foi Ian McKellen no papel de Gus, The Theatre Cat. Chamar um velho ator para fazer o papel de Gus é expediente já utilizado na versão de 1998, com John Mills. É interessante, embora vá inteiramente contra a idéia do personagem, que canta I once played Growltiger... could do it again, dando ensejo para o início de toda a seqüência de Growltiger e Griddlebone, que se passa em sua lembrança. Ou seja, Gus é velho no presente mas na recordação que compartilha com o público ele interpreta um pirata temido e viril, com um número musical de onze minutos com sua amada, a coquete e volúvel Griddlebone. Voltamos ao paradoxo de Lear: a necessidade de um ator jovem e com toda a potência de sua voz, no papel do personagem. Mais do que isso: o número dos dois é uma sátira de árias como as de Puccini (sites sobre o musical referem-se a ele como puccini-esc) e um verdadeiro display do melhor canto lírico que se verá. Com efeito, só dois cantores líricos talentosíssimos poderiam brincar com algo tão difícil.

Firefrorefiddle, the Fiend of the Fell...
Infelizmente, e talvez por essa dificuldade, o número tem sido limado de produções mais recentes, o que retira de Gus grande parte de sua graça e o deixa meio que sobrando entre todos os outros. Ele entra, sua música é um lamento de seis minutos e ele vai embora. Neste filme, entretanto, ao invés de choramingar e sair amparado por Jellylorum (como foi o caso de John Mills), Ian McKellen dá um agudo bonito no fim da última frase de sua canção (Firefrorefiddle, the Fiend of the Fell), ajudado pelos trovões criados por Mistoffelees. O início todo, que deveria ser cantado por Jellylorum, é mais uma vez arruinado pela idiotice dos próprios gatos narrarem suas histórias em primeira pessoa. Mas pelo menos o fim é salvo. E é a melhor cena do filme.
___________________________________________

  • O site Cats Musical Wiki é um belo arquivo de tudo que tenha a ver com o musical de Andrew Lloyd Webber.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...