segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Geraldo, a Hidra e o Poste


Hidra de Lerna

Não sei nem por onde começar... não vou sequer tentar analisar o resultado das urnas porque negar o fato de que Bolso surge como a maior liderança política brasileira dos últimos anos seria burrice. Sua votação foi excepcional e é estarrecedora sua influência na vitória de candidatos ao senado, à câmara e às assembléias pelo Brasil inteiro. Seus filhos no Rio e em SP, Janaína e outros não estão apenas eleitos, mas alguns estão eleitos com as maiores votações da história. É um fenômeno. Arrisco apenas alguns comentários pontuais:

1 - Esta eleição está marcada por erros de estratégia, teimosia e o elemento "poste". Há poucos meses ninguém duvidava que Geraldo seria eleito, não só pelo acordo com o centrão, mas pela rejeição a Bolsonaro e a candidatura surrealista de Lula. Começa o erro brutal: em um momento em que a vida das pessoas se encontra dentro do tablet e do smartphone, Geraldo e sua campanha relegaram a internet a segundo plano, confiaram cegamente no horário eleitoral e, o que é pior, fizeram um programa nos moldes tradicionais, num estilo que se tornou obsoleto desde o impeachment. Para coroar esse festival de equívocos, Geraldo ainda pegou Bolso para Cristo, fustigando uma liderança e uma militância que se mostram tão impermeáveis à verdade e ao bom senso quando a do PT. Com isso, irritou o voto conservador que ainda decidia entre ele e Bolso como alternativas ao lulopetismo e acabou provocando o efeito contrário; entre uma candidatura moderada que abriu concessões políticas indesejáveis mas toleráveis, dentro de um contexto maior, esse indeciso preferiu uma candidatura que não faz concessões a nada e a ninguém, para o bem ou para o mal.

Paradoxalmente, Geraldo se mostrou apático e repetitivo nos debates. Se mostrou como é, de fato, porque conforme já ressaltei anteriormente, ele não é uma pessoa reativa ou sangüínea; é um político sereno e metódico e jamais protagonizaria um barraco com quem quer que fosse. Com o atentado a Bolso e a definição do poste como cabeça de chapa do PT, Geraldo teria que assumir uma atitude mais agressiva, se não em termos de temperamento, pelo menos em termos de seu posicionamento no combate à corrupção. Ou desapareceria em meio a tantos fatos novos. O conservador indeciso não sabe o que é "centrão" e não acompanha política regional, então não fazia nem questão que Geraldo jogasse Aécio e Richa na fogueira, ou que aparecesse carregando metralhadoras, mas certamente queria ouvi-lo jurar apoio incondicional à Lava-Jato e condenar com veemência a participação de um preso condenado, dando as cartas nesta eleição. Foi o que fez Álvaro Dias. Só que o conservador indeciso não conhece Álvaro Dias; ele estava entre Geraldo, pela experiência, e, lá longe, Amoêdo, por ser novo na política. Quando o primeiro se cercou do centrão, além de se mostrar insípido e cheio de rodeios e ademanes na hora de exaltar Moro e a Lava-Jato, e o segundo se mostrou muito inteligente mas, no fim das contas, um Bolso-light com 425 milhões no banco, a direita indecisa parou de procurar alternativas e resolveu votar no próprio Bolso.

Geraldo também não conseguiu ganhar a esquerda indecisa, e ao contrário do que se imagina, parte dela pendia em sua direção. Seja pelo fato de que nem todo esquerdista acha que Lula não sabia de nada, seja porque o poste é medíocre e foi um péssimo prefeito, seja porque Ciro é propenso a explosões e tem a seu lado figuras horrorosas como Kátia Abreu e Carlos Luppi, seja porque Marina não convence ou porque Boulos é o mais deplorável exemplo de petista no armário, havia uma esquerda equilibrada e pragmática que não descartava a possibilidade de votar em Geraldo, que sempre se manteve ao largo de radicalizações. Isso terminou quando veio o acordo com o centrão, e foi ratificado nos debates, quando, em caso concreto, Ciro se mostrou mais ágil e mais convincente. Eu esperava ansioso a troca de idéias dos dois por serem ambos os melhores e mais experientes, entre todos, mas o resultado decepcionou. Ciro despejava números e planos, muito loquaz, muito empolgado e empolgando quem ouvia; Geraldo repetia o mesmo discurso. Há um plano de governo, Geraldo estudou-o e limitava-se a repeti-lo. Seu discurso é encadernado. Só que o eleitor de hoje é raso e imediatista. Não quer saber de explicações longas e quadradas. Quer frases de efeito. Quer algo impactante. Haja vista os keynotes da Apple, em que os executivos que criam os programas e as inovações são os mesmos que se apresentam para uma platéia de acionistas e desenvolvedores e tem que explicar essas novidades - não importa o quão complexas - num tom divertido e atraente. O mesmo se aplica à política. Ciro deu um baile nos debates. Geraldo sumiu.

Vale dizer que Ciro só não está no segundo turno porque até pouco tempo ainda tentava seduzir os lulopetistas. Em entrevista a um programa de TV maranhense, em julho, afirmou, sobre Lula, que ele "só tem chance de sair da cadeia se a gente assumir o poder e organizar a carga. Botar juiz para voltar para a caixinha dele, botar o Ministério Público para voltar para a caixinha dele e restaurar a autoridade do poder político". Indecisos de centro e de direita o riscaram sumariamente de suas listas naquele momento. Dias depois, estomagado, declarou, referindo-se ao poste e à rainha louca: "Eles querem criar uma comoção no país para quando o Lula for declarado inelegível, eles apontam um novo poste. A pergunta é: o Brasil aguenta outro poste? Ou parte da grave situação que estamos vivendo devemos à escolha de um poste pelo Lula?" Perdeu ali os votos de petistas arrependidos em cima do muro.

Lula e Ciro
No fim, a direita indecisa votou em Bolso e a esquerda indecisa votou útil em Ciro. Marina e Boulos foram "cristianizados" em favor de Ciro; Geraldo e Álvaro foram "cristianizados" em favor de Bolso; o poste teve uma votação baixa, se compararmos com números do PT em outras eleições presidenciais, mas suficiente para levá-lo raspando ao segundo turno; Amoêdo e Daciolo surpreenderam, embora com votações inexpressivas e só Meirelles teve integrais os minguados votos que porventura amealhou com sua campanha rica e inútil. Um resultado dramático. Porque Marina e Boulos são genéricos do PT, assim como Álvaro e Amoêdo são variações de Geraldo. E enquanto lulopetistas seguiam caninamente a orientação do chefe e votavam em um poste, Geraldo foi abandonado pelo partido e pelos eleitores. Cristianizou-se uma das maiores figuras políticas de São Paulo nos últimos quinze anos. Lula, por exemplo, jamais conseguiu vencer uma única eleição no primeiro turno nas CINCO vezes em que disputou a presidência. Geraldo venceu as duas últimas eleições para governador com folga, no primeiro turno. E hoje, Bolso teve quase DEZ vezes mais votos do que ele. Uma derrota amarga e, creio eu, injusta.

2 - Este é um momento de reflexão para todos, mas sobretudo para os lulopetistas. A exemplo de seu chefe e guru espiritual, eles não sabem de nada, não conhecem nenhum escândalo de corrupção e não se conformam com o impeachment. Pior do que isso: debitam todos os problemas do Brasil a FHC e aos dois anos de Temer, absolvem o PT de toda e qualquer acusação e costumam perguntar o que foi que mudou, politicamente, desde o impeachment. Eu respondo o que foi que mudou: a paciência do povo acabou. ISSO mudou. Enquanto o PSDB batia carteiras e fazia conchavos pela governabilidade, o povo agüentava quieto porque a moeda foi estabilizada, a inflação foi controlada e a vida do brasileiro melhorou (embora tanto o PT quanto Bolso - antípodas siameses - tenham votado contra o Plano Real).

Quando Lula entrou e começou seus programas assistencialistas, o povo achou engraçado e embarcou na festa. Durante o mensalão fizeram vista grossa e reelegeram Lula. O Brasil estava no piloto automático da estabilidade de FHC, e o povo estava contente. Só que quando chegou a conta, o governo já estava inteiramente aparelhado, quarenta ministérios, dezenas de estatais para abrigar apaniguados, lavagem de dinheiro disfarçada de "obras em países irmãos", centenas de milhares de cargos comissionados inúteis, ganhando fortunas; o governo começou a pedalar, iniciou o desmantelamento da Petrobrás e os valores da corrupção começaram a orçar pelos bilhões. Da estabilidade de FHC o país mergulhou em um abismo de inflação, PIB negativo e 14 milhões de desempregados. O povo não achou mais graça. A festa acabou, Moro surgiu e a rainha louca foi defenestrada, com toda a razão. Mas não sem antes receber um perdão sórdido e malévolo de Livrandowski no Congresso, mantendo seus direitos políticos.

Antigamente, quando um político era pego com a boca na botija, ele ficava quieto e desaparecia do radar político para cumprir sua pena e ser esquecido pelo povo. Ou pelo menos ter sua culpa esquecida pelo povo. Depois tentava voltar, com ou sem sucesso. O PT aproveitou a burrice de sua militância e a costumeira complacência do STF para testar uma nova modalidade de canalhice: cometer o crime, ser pego, inicialmente prometer investigação e mais à frente simplesmente negar tudo, dizer que não sabia de nada, jogar a culpa no governo anterior ou na justiça, declarar-se "preso político" e se candidatar o quanto antes, para conseguir o foro privilegiado. É quando a justiça de Sérgio Moro começa a não ser suficiente para uma imensa parte do povo. É aquela parte do povo que vê a corrupção acontecer impunemente. Que vê petistas e psolistas protegendo Cesare Battisti. Que vê petistas e psolistas criticando ditaduras mas incensando Fidel, Chavez e agora, Maduro. Que vê petistas defendendo os direitos dos bandidos mas nunca dos policiais. Que vê Lula afagar Maluf, Sarney e Renan. Que vê o MST invadindo fazendas e destruindo colheitas. Que os vê invadindo prédios e cobrando aluguel. Que não tem o que comer mas vê artistas milionários fazendo campanha contra o impeachment. Que vê Gilmar Mendes colocar Abdelmassih em liberdade. Que vê a rainha louca nomear o ex-advogado de José Dirceu para uma cadeira no STF. Que vê gente suja e ladra dando as cartas no senado.

É o momento em que aquela opção nunca nem sequer cogitada, por ser radical demais, começa a fazer sentido. É o momento em que surge Bolso.

O que foi que mudou? A rainha louca foi derrotada em sua acintosa disputa por uma cadeira no senado. Os lulopetistas consideravam sua vitória favas contadas. Se iludiram da mesma forma que se iludiram com os movimentos do "não vai ter golpe" e do "elenão". Como em grupo e nas redes sociais são muito barulhentos, temos a impressão de que são muitos. Não são. O poste, por exemplo, teve 29% de votos nesta eleição. Menos do que os 33% de Aécio em 2014. A rainha louca teve 46% no primeiro turno de 2010 e 41% no primeiro turno de 2014. E hoje recebeu um catártico "não" da brava população mineira.

Rainha Louca e Crazy
O mesmo ocorreu Brasil afora com gente desclassificada e oportunista como Lindbergh, Graziotin, Requião, Pimentel, Jucá, o clã Sarney e tantos outros. Aécio e Crazy Hoffman nem tentaram o senado por se saberem derrotados. Satisfizeram-se com uma cadeira, escondida entre as 513 da Câmara Federal. De cambulhada liquidou-se até a candidatura de Suplicy, considerado a flor do pântano petista. O impeachment abriu essa porteira. E quando o povo viu essa tentativa psicótica de Lula se manter na mídia e de devolver o poder ao PT, não importando a que custo ou a que quantidade de vergonha alheia, Bolso ganhou corpo e tentáculos. Mitologia grega pura. Para enfrentar o mal causado pelos corruptos Zeus mandou Sérgio Moro. Quando os corruptos decidiram enfrentá-lo e continuaram com seus mal-feitos, Zeus se irritou com essa insolência e desta vez resolveu mandar um monstro: Bolso. E assim como a Hidra de Lerna, a cada cabeça cortada, nascem duas. A cada paulada, ele fica maior. Com ele vem uma militância muito pior do que a do PT. Muito mais barulhenta, menos lida, mais radical e mais obstinada. Uma militância que foi temperada e escaldada pela incapacidade dos lulopetistas admitirem um erro. Uma militância que - ao contrário do PSDB - não quer mais diálogo com Lula e PT.

E, ao que parece, entre os corruptos que vão presos mas o STF põe em liberdade, e a Hidra, desta vez Hércules ficará ao lado da Hidra. Porque o PT é tão dissimulado, tão mentiroso e sua corrupção foi tão cínica e deslavada, que o povo perdeu a noção do certo e do errado e já não sabe mais se prefere os corruptos ou a Hidra. Se prefere a camarilha que elogia e sustenta ditaduras de esquerda e há anos usa da política para roubar, beneficiar os seus e impedir a justiça de puni-los, ou o radical despreparado, destemperado, homofóbico, que elogia um torturador, mas, até onde se sabe, é honesto.

Sim, lulopetista. A culpa do surgimento e do crescimento desmesurado de Bolso é única e exclusivamente SUA.

Por enquanto é só.

____________________________________________

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Accedente voto



Esta eleição está sendo um triste aprendizado para todos nós. Os amigos e amigas petistas fecharem com o poste não me surpreende; esse poste se elegeu lambendo Maluf e hoje está lambendo Renan, e não se ouve sobre isso um pio de revolta dos petistas. Se amanhã Lula mandar sua militância votar no Bolsonaro o movimento muda para "ele sim" da noite para o dia. Lulopetistas são vacas de presépio e serão para sempre. E sobre os bolsominions prefiro nem me pronunciar. São lulopetistas sem sensibilidade artística e sem diploma universitário. Igualmente sectários. Igualmente incapazes de digerir a opinião alheia. Gêmeos xifópagos.

O que mais chamou minha atenção recentemente foi ter saído inteiramente pela culatra o movimento do "ele não". Enquanto ocorria foi uma belezura; todo mundo usando esse avatar no Facebook e no Instagram, artistas participando, até a Madonna apareceu pra dar pitaco, e reservou-se um dia para que o movimento se mostrasse nas ruas. Na hora das pesquisas pós-movimento, verificou-se que a votação de Bolso cresceu na mesma medida em que aumentou a rejeição ao poste. Bolso saiu absolutamente ileso da grita internética.

O que se depreende disso é que os organizadores desse movimento parecem ter esquecido que rede social é rede social, e o Brasil não resiste a uma micareta. Vejamos: as manifestações pró-impeachment de Dilma foram antológicas porque o objetivo era um só: retirar o PT do poder a pontapés. Não havia líderes e ninguém estava pedindo votos. Não havia bandeiras vermelhas ou metralhadoras. Era um balaio de gatos que se juntou de verde e amarelo para exigir que a camarilha petista fosse varrida da presidência. Só. Já o "ele não" caiu na vala comum do oportunismo. É um movimento que se mostrou formado por 90% de lulopetistas e 10% de gente bem-intencionada que não quer ver Bolso na presidência. O resto é micareta. Gente que não está nem aí para a eleição mas viu uma festa acontecendo e caiu pra dentro. Os indecisos certamente perceberam a chicana e descarregaram seus votos em Bolso. Perceberam duas coisas:

1) o "ele não" poderia tranqüilamente ser chamado de "poste sim", palhaçada comum nas estratégias lulopetistas quando confrontados com a possibilidade da derrota. Vide "não vai ter golpe" e idiotices desses mesmo jaez. Se no lugar de Bolso estivesse qualquer um dos outros candidatos, o movimento ia ser igual. Se fosse o Ciro seria "machista não", se fosse o Geraldo, "chuchu não", se fosse a Marina, "crente não", e assim por diante. O lulopetista encontraria alguma coisa para encher a boca e tentar a desmoralização do adversário. Dane-se a corrupção do PT, danem-se os machistas dentro do PT, dane-se tudo. Existe uma chance de voltar pro bem-bom? Meu pirão primeiro.

2) Um movimento "contra" algo ou alguém tem uma legitimidade no mínimo questionável dentro do primeiro turno de um processo eleitoral. Se o PT abomina Bolso de tal forma não seria o caso de fazer propaganda A FAVOR do seu próprio candidato, que está bem nas pesquisas, ao invés de CONTRA o outro? É claro que sim, só que o teto para se elogiar o poste é baixíssimo, considerando que ele chegou sem quaisquer predicados aos cargos que exerceu, e neles teve uma performance abaixo do medíocre. Sem falar que sua candidatura, como testa de ferro de um presidiário, é vexaminosa e ofensiva para os brasileiros de bem, e os indecisos não estão alheios a isso.

Quem quer a derrota do bolsopetismo deve votar de forma consciente e clara. Meu voto neste primeiro turno é A FAVOR de Geraldo Alckmin - 45, Márcio França - 40 e Mara Gabrilli - 457.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Hora da Definição


Votei pela primeira vez na eleição presidencial de 1989. De lá para cá votei inúmeras vezes. Levo esse direito/dever a sério e procurei sempre votar no melhor, mesmo quando as opções não eram aquelas que eu desejaria. Posso afirmar que em quase trinta anos, esta é a eleição mais infeliz e mais desastrosa de que já participei. Nunca vi uma polarização como a que estamos vendo agora: uma extrema direita hidrófoba e ignorante contra uma extrema esquerda debochada e imunda. De um lado um defensor da tortura, do outro o garoto-propaganda do maior escândalo de corrupção da nossa história. O povo conseguiu se unir em torno dos dois piores candidatos. Um é exemplo de intolerância, o outro é laranja de um presidiário. Um tem Ustra como ídolo. O outro já pediu benção a Maluf e hoje pede a Renan. Um ficou trinta anos no Congresso e aprovou dois projetos. O outro é considerado um ex-ministro trapalhão e incompetente e o pior prefeito que São Paulo já teve. Ambos são símbolo de despreparo. E símbolo da intensa imaturidade do eleitor. Não teria tempo para enumerar argumentos contra cada um desses dois lados porque como se sabe, os extremos se tocam e na verdade o meu repúdio aos dois é equivalente. E não conseguiria viver com a minha consciência votando em qualquer um deles neste primeiro turno. Se o povo não acordar, o segundo infelizmente se configura como a batalha entre o diabo e o demônio, mas neste momento falemos do primeiro turno.

1 - Presidência

Ao contrário do que se imagina, à parte dos dois já mencionados as opções são simples. Temos quatro candidatos de centro e centro direita - Geraldo, Álvaro Dias, Meirelles e Amoêdo - e três candidatos (supostamente) de esquerda - Ciro, Marina e Boulos. Não esquecendo nunca que são políticos e vão mudar de opinião com facilidade, ao sabor da conveniência.

A ideologia, a rigor, é muito divertida, mas só durante a campanha. Quando a pessoa já está eleita, ou faz um governo que equilibra a agenda neoliberal com uma política social bem planejada e mantém a economia do país nos trilhos, ou repete a catástrofe do governo Dilma. Os governos do PT (e de alguns países da América Latina) são exemplos eloqüentes de que o socialismo é aquela utopia que só funciona quando outro país paga a conta, como foi o caso de Cuba nos tempos áureos da URSS. Fidel era aquela criança irresponsável com acesso ao cartão de crédito dos pais. Lula e Dilma tentaram a mesma coisa, se meteram a ricos, aparelharam o Estado, criaram dezenas de ministérios e estatais para aboletar seus apaniguados e corruptos, bancaram obras em vários países, inclusive na Venezuela - maior produtora de petróleo da América Latina e hoje em situação miserável e calamitosa por conta de vagabundos com os mesmos delírios de poder do PT - e pedalaram até a ruína de sua reputação e da nossa.

Tudo o que eu tinha a dizer sobre os candidatos, já o fiz nos textos que escrevi sobre dois dos debates realizados. Acrescento apenas que lamento por essa multiplicação de candidatos e a necessidade de criar partidos para acomodar novas candidaturas. É um expediente que não dá certo. Já liquidou duas candidaturas de Marina - e vai liquidar agora a terceira - e está relegando ao desconhecimento candidaturas que mereceriam uma análise mais profunda, como as de Álvaro Dias e João Amoêdo, duas pessoas corretas e competentes. E Ciro - com seu histórico de adesismo e seu namoro mal-sucedido com o PT - ficaria no máximo para um plano B, nesta eleição. Parece que nem a isso vai chegar.

Prefeito, 1977
Meu voto para presidente, neste primeiro turno, vai para Geraldo Alckmin - 45. Ele está na política há quarenta anos. Foi prefeito de sua cidade, Pindamonhangaba, deputado constituinte, vice-governador e governador de São Paulo por vários mandatos. Não tem um indiciamento. Não tem uma condenação. Não adianta que se queira pespegar sobre ele a pecha de corrupto. Geraldo foi citado em uma delação da Odebrecht como sendo o "santo", de que falam relatórios de propinas na construção de uma rodovia. Foi aventado também Caixa 2 através de seu cunhado nas eleições de 2010 e 2014. As acusações estão sendo investigadas. No caso da primeira, a propina seria pela duplicação da rodovia Mogi-Dutra, que não foi sequer realizada pela Odebrecht, que perdeu a licitação para a Queiroz Galvão. No caso da segunda, vale fazer uma pequena análise: Geraldo venceu ambas as eleições no primeiro turno. Na primeira venceu com 50,63% dos votos válidos. Em 2014 venceu com 57,31% dos votos válidos e de 645 municípios, Geraldo perdeu apenas em UM: Hortolândia. Venceu em todos os outros 644. Será que com esse tipo de prestígio em São Paulo ele precisaria de Caixa 2? Não falo de prepostos, porque sabemos que o candidato a um cargo majoritário nem sempre estará ciente de cada centavo que entrou e isso é terreno fértil para que prepostos façam seu pé de meia. Falo de Geraldo. Será que realmente sujaria seu nome e sua carreira por Caixa 2 em duas eleições nas quais ele não precisaria nem ter saído de casa para vencer?

Com a candidata a vice, Ana Amélia
O finado petista Luis Gushiken foi citado por Henrique Pizzolato no escândalo do mensalão. Um exame atento da acusação foi suficiente para inocentar Gushiken e verificar que se tratava de uma acusação feita de má-fé por Pizzolato. Por outro lado, temos tucanos sendo indiciados e presos em Minas e Paraná. Os petistas sabem disso e aplaudiram a absolvição de Gushiken, assim como hoje festejam indiciamentos e prisões de tucanos como Aécio, Azeredo e Richa. Mas como o PT é pródigo em demonizar todo mundo - ao mesmo tempo em que transforma em mérito a corrupção petista - querem porque querem que Geraldo seja da mesma laia de tucanos e petistas que estão sendo indiciados e presos. Eu não aceito isso. Critique-se Geraldo por incompetência, por lerdeza, por inércia, por ter parido Dória, pelo que for. Mas eu não condenarei uma pessoa sobre quem pesam duas ou três delações que não citam seu nome, não citam encontros, não indicam uma conta bancária, uma gravação, nada.

Se Geraldo tem culpa no cartório, que seja investigado, condenado e preso.

Se não, prove-se a culpa antes de condenar. O que resta, tirando a fumaça das acusações, é um governador com uma folha impecável de serviços prestados a São Paulo. Possui defeitos, certamente, como todos. Mas tem experiência, competência e serenidade para governar, escolheu uma mulher absolutamente excepcional para ser sua vice e eu não hesito nem por um minuto em dar a essa dupla o meu voto para presidente e vice.

2 - Governo

Dória
Vou direto ao assunto: Não votarei em João Dória sob nenhuma hipótese. Votei nele para prefeito, fui dos milhões que caíram em sua conversa de "gestor", "não sou político", blábláblá, e uma vez eleito ele não fez outra coisa senão "politicar". E da pior maneira. Em São Paulo notabilizou-se única e exclusivamente por marketing, jogadas publicitárias, midiáticas, muita propaganda, visitas-surpresa ensaiadas, inúmeras viagens internacionais onde mais valiam os videos publicados em redes sociais do que os acordos comerciais, existentes ou não, e pouquíssimas realizações concretas. Um castelo de areia. Lindíssimo na hora em que se faz, mas destruído com a primeira marola. Quando me perguntam sobre o que ele fez como prefeito lembro-me da surrealista "reforma dos banheiros do Ibirapuera", ou a "operação limpeza" em lugares como a Faria Lima. Perfumaria e vitrine. Nada concreto. Foi picado pela mosca azul e tornou-se pedra no sapato de Alckmin durante o período da convenção presidencial, e não conseguindo seu intento, resolveu jogar no lixo a confiança que lhe foi depositada pelos eleitores - além de um documento registrado em cartório onde jurou não sair da prefeitura antes do fim do mandato - embolou o meio de campo da convenção tucana e acabou conseguindo a candidatura. Não terá meu voto. Errei em votar nele, reconheço e não repetirei o erro.

Esta é a terceira vez que Paulo Skaff tenta chegar ao governo de São Paulo. Em 2010 se candidatou pelo PSB, o que, como já consignei anteriormente, é uma ironia, já que, presidente da FIESP desde 2004, Skaf é tudo menos socialista. Perdeu. Em 2011 aproveitou que o PMDB estava em alta, com a eleição de Dilma e Temer e, a convite do vice-presidente, foi para esse partido. Em 2014 tentou o governo pela segunda vez. Perdeu. Agora volta como candidato de Temer, na chapa de Meirelles. Não há nada a dizer. É empresário e nunca exerceu um único cargo público. Só voto em Skaf no segundo turno, se o adversário for Dória.

Meu voto para governador, neste primeiro turno, vai para Márcio França - 40. A biografia política de França é admirável e, em muitos aspectos, semelhante à de Geraldo. São políticos que levam a sério a coerência e o respeito às idéias e não a pessoas. França está filiado ao PSB há trinta anos. Nunca mudou de partido. Foi vereador de sua cidade - São Vicente - por duas legislaturas, depois foi prefeito de lá duas vezes, sendo que sua reeleição foi um recorde no Brasil inteiro, já que ele recebeu inacreditáveis 91% dos votos válidos. Depois se elegeu deputado federal duas vezes e quando iniciaria o segundo mandato foi para a Secretaria de Turismo de São Paulo, a convite de Alckmin. Com o rompimento de Geraldo e Afif Domingos, França foi candidato a vice do tucano em 2014 e uma vez eleito, assumiu a Secretaria Estadual de Desenvolvimento. É portanto, um político experiente e um campeão de votos. É também homem discreto e não pesa sobre ele uma única acusação de corrupção. E como a eleição é sempre um teste que reúne o combo caráter/ experiência/ competência, Márcio França me parece imbatível. É meu candidato.

3 - Congresso

Meus candidatos ao senado são Mara Gabrilli - 457 e Ricardo Tripoli - 450. A primeira dispensa comentários; creio que o sinônimo de Mara é "inclusão social". Mas é também sinônimo de coragem, equilíbrio, resiliência. A eleição de uma mulher tetraplégica, psicóloga e publicitária para o senado é avanço que só podemos almejar e aplaudir. Gostaria de ver as mulheres se mobilizarem a favor de Mara como estão mobilizadas contra este ou aquele.

Na eleição passada não votei em Suplicy e nesta também não votarei. Repito exatamente o que disse em 2014: "Eduardo Suplicy é um excelente figura. Gosto dele, conheço-o pessoalmente, é pessoa acessível e gentil. Mas há limite para tudo, e o fato de Suplicy teimar em permanecer no PT, mesmo sendo públicas, notórias e escancaradas as provas de que se trata de um partido corrupto, de cima a baixo e de baixo para cima, não mostra mais lealdade, e sim, cumplicidade, conivência. Como dizia Ulysses Guimarães, não basta não roubar; é preciso também NÃO DEIXAR ROUBAR. E ficando no PT, Suplicy pode até não corromper, mas está fazendo vista grossa para a corrupção de seus colegas. É uma pena". Meu segundo voto para o senado, portanto, vai para Ricardo Tripoli. É um político experiente, deputado estadual e federal por várias legislaturas e tem propostas na área ambiental e de proteção aos animais que o recomendam.

Meu candidato a Deputado Federal é Roberto Freire - 2323. É outro que dispensa comentários. Experiente, brilhante, tem uma vida limpa e uma carreira política pautada pela honestidade, pela generosidade e pela sensatez.

Para deputado estadual eu votaria em Janaína Paschoal se ela não tivesse se aproximado de Bolsonaro e se sua candidatura não fosse pelo partido dele. Ainda não tenho candidato.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Novo Encontro da Casa de Orates



Ontem o SBT e o UOL realizaram novo debate dos candidatos à presidência. Desta vez Bolsonaro não pôde estar presente por ainda estar se recuperando, depois do ataque que sofreu no Rio Grande do Sul. Em compensação, seu antípoda siamês, Fernando Haddad, compareceu para que a mediocridade absoluta não ficasse sem um grande representante. O debate foi longo e amorfo e isso se deve à regra engessada de que cada um só pode escolher um adversário para responder dentro de uma lista sorteada. Dessa forma, os primeiros escolhem sempre os candidatos mais significativos e ficamos sem um embate necessário entre Geraldo e Haddad. Vamos a alguns comentários, em ordem inversa à minha última resenha:

DACIOLO - Passado um mês e meio desde o primeiro debate é possível oferecer retrato um pouco mais apurado sobre essa estranhíssima figura. Por baixo de seu comportamento folclórico e de toda a intolerável blablação religiosa, é interessante constatar que existe uma cabeça que um dia foi pensante. Daciolo pode não ser uma pessoa equilibrada, mas não é um boçal como Bolsonaro, que não passa da essência mais pestilenta da extrema-direita. Se retirarmos de Daciolo algumas toneladas de maluquice, de preconceitos e de bolor evangélico encontraremos um sujeito que, curiosamente, tem idéias. Não tem a mais ínfima noção de como realizá-las, e nem perderei meu tempo analisando se as idéias são boas, mas tem. Ele possui um compasso moral. Está desnorteado, indo para vinte direções ao mesmo tempo, mas está lá. É a própria representação daquele crente cujo intelecto foi devastado pelo fanatismo religioso. Enfim, glória a Deus. Ou melhor, Deus nos proteja.

CIRO - Articulado e inteligente, mas sempre à beira do abismo. Sua resposta à Débora Bergamasco sobre preferir governar "sem o PT" vem tarde demais e tem sabor de ressentimento porque é público e notório que Ciro desejava se tornar o grande herdeiro do espólio lulopetista. Quando diz que "nesse momento o PT representa uma coisa muito grave para o país (...) e transformou-se numa estrutura de poder odienta que acabou criando o Bolsonaro, essa aberração", Ciro tem toda a razão, só que esse tipo de declaração era esperada no início da campanha, e não agora. Também não ajudou nada ele tecer elogios a uma figura funesta de nossa pior política, como Roberto Requião, e ainda ter que levar de Haddad um direto no queixo, quando este revelou ter sido convidado para vice de sua chapa. Ciro foi sempre assim: um passo para frente, cinco para trás. É uma pena, porque da forma que se configura o quadro político, Ciro seria aquele remédio amaríssimo contra a desgraçada polarização Bolso-petista. Mas sua definição anti-PT demorou demais.

MEIRELLES - Nada. Teve uma única oportunidade de limpar sua barra quando perguntado sobre os investimentos bilionários do Brasil em países como Cuba (Porto de Mariel) e Venezuela (Usina Siderúrgica Nacional, entre outros) e nem isso conseguiu. Está há meses batendo na tecla de que criou dez milhões de empregos, o que simplesmente não é verdade. Meirelles foi presidente do Banco Central de 2003 a 2010, e foi ministro de 2016 a 2018. Ele é o banqueiro que tinha a chave do cofre nos governos de Lula e Temer. E deu no que deu. Fim.

BOULOS - Nada. Continua em seu fétido e indigno papel de linha assessória do PT. Deve estar esperando ansiosamente o primeiro turno acabar de uma vez para poder se aboletar confortavelmente no palanque do fantoche. Como sempre, é um misto de asco e vergonha alheia vê-lo dizer coisas como "o dinheiro existe mas é mal-empregado", pouco depois de serem aventadas por Álvaro Dias as obras criminosas e super-faturadas do PT no exterior. E sobretudo considerando que esse dinheiro vem quase que integralmente do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), via BNDES. Ou seja, o trabalhador não tem acesso a benefícios mínimos quando deixa um emprego por livre e espontânea vontade, mas esse dinheiro pode ser usado no exterior para financiar ditaduras como Cuba e Venezuela. Boulos sabe disso, mas não está nem aí porque só pensa em seus próprios interesses e nos dividendos políticas desta eleição. Seus eleitores, pelo jeito, não.

MARINA - Foi muito bem. Talvez sua melhor participação em debates. Foi catártico vê-la pulverizar um perfeito idiota como Haddad - que teve a desfaçatez habitual de querer culpar os outros pelo fato de Temer ter sido vice de Dilma não uma, mas DUAS vezes, e por seis anos - dizendo-lhe na cara aquilo que todo brasileiro de bem deseja dizer: "Foram vocês, sim, do PT, que se juntaram com ele para poder afundar o Brasil. É muito engraçado, Haddad, você vir falar do Temer e do impeachment, quando você foi pedir a benção para o Renan Calheiros, que também apoiou o impeachment. São dois pesos e duas medidas. (...) Nós vamos, sim, respeitar os trabalhadores, porque temos compromisso com eles, não é no discurso, é na prática. O PT faz o discurso dos trabalhadores e se junta com o Temer para fazer e levar o Brasil para o buraco". Parabéns, Marina. Mas, a exemplo de Ciro, isso vem tarde demais.

ÁLVARO DIAS - Brilhante e, infelizmente, anódino. Desde o primeiro debate tenho a distinta sensação de que Álvaro possui precisamente o discurso que os eleitores de Geraldo queriam ouvir. Ele incensa a Lava-Jato, dá a exata dimensão do nojo que o brasileiro tem de políticos demagogos e corruptos como Lula, fala no perigo da volta da "organização criminosa" em que se transformou o PT, e além de tudo tem tarimba e equilíbrio para governar. Seu conceito sobre as preferências eleitorais de hoje, do brasileiro estar embarcando na desastrosa polarização da "extrema-esquerda contra extrema-direita" em detrimento à experiência administrativa foram lapidares, como também foi perfeita sua frase de que "há um rastro de sangue no itinerário percorrido por aqueles que governaram o Brasil nos últimos anos", aludindo ao silêncio cúmplice do PT sobre o assassinato de Celso Daniel e de sete testemunhas do crime. Álvaro é um homem de bem. Esta eleição, entretanto, não é um lugar para homens de bem.

GERALDO - Nada. Segue com o mesmo discurso centrado em suas realizações como governador e nas reformas necessárias para o país. Só que esta não é uma eleição de programas de governo ou de competência. É uma eleição irracional, de Internet, de extremos, de boçais e fantoches, e Geraldo teria que crispar sua retórica e aumentá-la em centenas de decibéis. Só que isso não é Geraldo. Assim como sucede a Álvaro Dias, esta eleição não é para Geraldo. Repito o que disse antes: "Geraldo é o que é. Não adianta querer mudá-lo. Ou convence o eleitorado com sua conversa quadrada e algo embolorada, ou não". E pelo jeito não convenceu. A perda é nossa.

HADDAD - Um fantoche, invertebrado e ridículo. Foi ministro da Educação de 2005 a 2012, passando portanto, pelos governos de Lula e Dilma. É lembrado como o ministro que desmoralizou o ENEM e criou um sistema nefasto pelo qual um sem número de analfabetos tem, hoje, diploma universitário. Não conseguirão jamais passar numa provinha de português para uma entrevista de emprego, mas são universitários. Com isso inventou-se a patranha de que mais pessoas tiveram acesso à educação durante o governo do PT, quando foi exatamente o contrário. Nunca se criaram tantas faculdades ruins, e de onde saiu gente tão despreparada. Jogado por Lula (e pela burrice dos paulistanos) na prefeitura de São Paulo, é lembrado única e exclusivamente pela pintura esquizofrênica de ciclofaixas nos locais mais desencontrados. Tentou se reeleger e obteve vexaminosos 16% nas urnas. No nordeste é chamado de "Andrade", o que mostra bem o discernimento e a cultura política de seus eleitores. Hoje não passa disso: o fantoche de Lula. Era "o poste". Agora é o fantoche. Um candidato de fancaria. Um sujeito que atende de forma canina aos comandos de um ex-presidente que está preso por corrupção. Uma vergonha para o Brasil.

domingo, 12 de agosto de 2018

Primeiro Jogral dos Tresloucados



Com um elenco tão eclético de malucos e alguns retardatários parlapatões e idiotas, ninguém esperava discussões produtivas ou demonstrações de inteligência ou eloqüência. Logo, este primeiro debate não surpreendeu. Foi apenas chato. Chato e looongo, muito longo. Vamos a um pequeno comentário sobre a participação de cada um.

BOLSONARO - Primário, infantil e inculto. Eu não esperava nada de bom vindo de Bolsonaro, mas seu despreparo é muito maior do que eu imaginava. Ele foi deputado por muitos anos e - com exceção de problemas que concernem aos militares - só o que absorveu da experiência foi uma visão periférica, inteiramente rasa dos problemas nacionais. Por conta disso, não é capaz de discorrer nem sobre temas corriqueiros e muito menos de concatenar soluções. Também não ajuda o fato de ser um orador tenebroso e ter uma verbalização péssima. Não tem qualquer carisma. Realmente me foge a razão de possuir tantos eleitores, e de fidelidade tão canina. Seu discurso se limita a questiúnculas ideológicas, tolerância zero para a criminalidade e liberdade para o porte de armas. No debate, teve a sorte, entretanto, de contar com a presença de um dos mais vazios satélites do PT - Boulos - que apanhou cada vez que o atacou.

GERALDO - De longe o mais preparado. É inteligente, conhece a matéria e sabe do que fala. Perguntado sobre a deplorável aliança com o centrão, falou de forma concisa e até convincente sobre a necessidade de compor com outros partidos, em nome da governabilidade (onde aliás sobrou um sopapo muito bem dado em Marina Silva). Mas, estando em meio àqueles que não terão tempo em TV porque não quiseram (ou não conseguiram) fazer alianças, o mal-estar é tangível. Não adianta citar Ana Amélia, porque em nome dessa aliança Geraldo está associado a tudo que há de pior na política. E como não é uma pessoa reativa ou sangüínea, virou um saco de pancadas. Recebeu invertidas de todo mundo, como se nesse elenco houvesse uma única pessoa que não esteja vinculada direta ou indiretamente às figuras mais podres de nossa política. Geraldo é o que é. Não adianta querer mudá-lo. Ou convence o eleitorado com sua conversa quadrada e algo embolorada, ou não.

ÁLVARO DIAS - É uma espécie de Geraldo sem o centrão e com botox. Foi eleito governador do Paraná em 1986, no hype do Plano Cruzado; tentou voltar ao governo duas vezes e perdeu. Ficou no senado por vários mandatos. Tem as melhores intenções do mundo e até onde se sabe é um homem honesto, mas nunca empolgou seu partido. Saiu do PSDB não por discordâncias programáticas mas porque sabia que não encontraria espaço para sua candidatura. É um tucano light. Mas não acredito que tenha chance. Por incrível que pareça, está com 73 anos. Melhor seria que ficasse no PSDB e concorresse como vice. Ou aguardasse por um ministério no governo eventual de um tucano.

MARINA - Terrível. Medíocre, amorfa e chatíssima. Marina conseguiu piorar desde a última eleição. Me chocou a superficialidade de suas colocações. Sua resposta sobre o SUS foi digna de Manuela D'avila. Sua sugestão de um "plebiscito" sobre o aborto foi pífia. Também deu cambalhotas para fugir de uma pergunta sobre o déficit fiscal, em que demonstrou desconhecer completamente os meandros da política econômica. Mostrou-se despreparada, pura e simplesmente. Se a pergunta não era sobre meio ambiente ela enrolava, com platitudes e lugares comuns. Não por coincidência, a única vez em que se notou sua presença foi no diálogo com Ciro sobre o projeto de transposição do rio São Francisco. É uma piada que encha o saco de Geraldo sobre alianças ou partidos, tendo passado o tempo que passou no PT, e de lá não saindo por causa de corrupção, e sim porque não era a escolha de Lula para sua sucessão. Vai perder novamente. Mas desta vez sinto que ela merece. Sua chapa está tristemente ao contrário; Eduardo Jorge é que deveria ter sido o candidato.

BOULOS - Um demagogo menor, ridículo e tagarela. Um perfeito pateta. Cheio de empolgação, trejeitos e meneios de cabeça, Boulos parecia o comentarista de um programa de fofocas. Ele traz seu discursozinho tão decorado que quando fala parece que está lendo. Imundo até a alma com os desmandos e os crimes do MTST, e envolvido até o pescoço com a camarilha petista, teve o atrevimento de atacar Meirelles, o oportunismo sórdido de inserir Marielle Franco sempre que possível em seus comentários, e enfim, a crueldade de assaltar nossa paciência vomitando sua cartilha de comunista dos anos 60. Seu único posicionamento mais lúcido foi sobre o aborto, e seu momento mais memorável foi o verdadeiro bug mental de que foi acometido em sua última fala. ARGH.

MEIRELLES - Um plutocrata de 72 anos, homem de gabinete, sem graça, sem carisma, sem nada. Não tem a mais ínfima noção do que é o povo ou a pobreza. A direita não o tem em alta conta por ter sido ministro de Lula e a esquerda lhe vota ódio encarniçado por ser ministro de Temer. Será fragorosamente derrotado. Por que decidiu ser candidato, só Freud explica.

CIRO - Assim como Bolsonaro, que deve ter passado a última semana escrevendo dez mil vezes por dia em uma lousa, "Não devo falar merda em rede nacional", Ciro foi certamente advertido por sua equipe sobre ataques histéricos ou agressões verbais a quem quer que seja. Estava calmo e afável. Na incômoda posição de não poder atacar ninguém, pelo fato de que esteve em todos os partidos e foi ministro ou prosélito de todo mundo, limitou-se a fustigar Geraldo com a reforma trabalhista. Sua participação foi boa. Diria até que foi um dos menos piores. Mostrou-se preparado para o cargo, qualidade que nunca lhe foi negada. Se tem o equilíbrio emocional necessário para a função, são outros 500. E moralmente, considerando sua versatilidade ideológica ou programática, e que se arrastou vergonhosamente pelo centrão e por Lula, vem à lembrança o que ACM disse dele, certa vez.

Cabo não-sei-o-quê - Me fogem as palavras, o que infelizmente não aconteceu com ele. Se Deus VISUALIZOU esse debate, deve ter dito: "Menos, meu filho. Bem menos".

domingo, 29 de julho de 2018

Minestrone Cultural XIII


DISNEY DEIXA A ABRIL

Primeiro número de "O Pato Donald", em julho de 1950

A Editora Abril encerra a venda de revistas em quadrinhos dos personagens Disney no Brasil.

A que ponto de incompetência é preciso chegar para cancelar os gibis da Disney, considerando que a editora foi fundada há 68 anos com a publicação do número 1 do Pato Donald?? Que a Abril perdesse Maurício de Souza para a Globo na década de 80 entende-se perfeitamente bem; foi uma questão de milhões de dólares, beleza, chega um ponto em que não dá mais para competir.

Civita na década de 60, com as provas do gibi
Mas qual é a desculpa, agora? Que os personagens da Disney não sobrevivem em um mundo "marvelizado"? Que não há como deixar a Margarida e a Minnie adolescentes e gostosas, como fez Maurício com as personagens da Turma da Mônica?

O que faltou foi que a editora se dedicasse minimamente a essas publicações. Só isso. A marvelização e a sensualização dos quadrinhos é uma tendência como qualquer outra, e se por um lado torna-se popular de tempos em tempos, por outro cria um nicho de pais e adultos que vão fielmente atrás dessas publicações mais antigas e mais saudáveis. É o que mantém vivos produtos como o Chaves, o Barney, os Muppets, os Teletubies, e assim por diante. Foi sempre assim. Para um pai que compra para o filho o gibi do Batman - sombrio e revoltado - haverá dois comprando o gibi do Tio Patinhas, em busca de algo menos triste e depressivo. É costume que se cria muito cedo.

Lamento horrivelmente e espero que outra editora recolha essa herança estupenda que a Abril está jogando no lixo. Victor Civita deve estar se revirando de tristeza em sua sepultura. (10/06/2018)

Aqui a mensagem que ele escreveu quando morreu Walt Disney: "O mundo será mais feliz enquanto essa mensagem estiver presente. E sabemos que isso acontecerá, porque em cada coisa, em cada personagem, viverá o mundo encantado de Walt Disney".


CONTRATIEMPO (2016)


Espetacular.

Mais um thriller de primeiríssima categoria dirigido por Oriol Paulo, que já nos dera o excelente "El Cuerpo" em 2012. Trama intrincada, inteligente, envolvente, palindrômica, que é tudo menos previsível. É a Espanha mostrando que ainda é possível fazer um suspense de qualidade.

Obrigado por mais essa indicação, meu mano Leandro. (07/06/2018)

Идиот ("O Idiota", 1958)

Direção e roteiro de Ivan Pyryev baseado no livro de Dostoyevskiy. Não tenho muito a comentar, a não ser para dizer que se trata não só da melhor adaptação de Dostoyevskiy que já assisti, mas de uma das melhores adaptações literárias em geral. O roteiro é ótimo, a direção é excepcional e o elenco é de raríssima qualidade. Yuriy Yakovlev está muito bem como o príncipe idiota, Nikita Podgorny é um Ganya perfeitamente fraco e desprezível, e Leonid Parkhomenko é um Rogozhin irretocável; um bully por natureza.

Mas não há nada que se compare a Yuliya Borisova no papel de Nastasia Philippovna. Com o passar dos anos tenho me tornado cada vez mais chato e exigente com relação ao trabalho de atores e atrizes, e afirmo sem qualquer receio que essa é facilmente uma das melhores performances que já assisti. Um trabalho absolutamente magistral. Não consegui desgrudar meus olhos de Yuliya de sua entrada à sua saída. Me dá calafrios imaginar uma montagem hollywoodiana deste livro, assim como incluir Yuliya em uma competição como o Oscar, porque atrizes de seu quilate estão completamente fora dessa bitola. Seria uma covardia.

Yuliya Borisova: superior


Идиот é um exemplo de filme da soviética Mosfilm: sobra talento, faltam recursos. O "two-strip" technicolor - tudo vermelho e verde - que Hollywood já abandonara há uns vinte anos, ainda é usado aqui. Não deixa de ser interessante e dá uma tonalidade meio gótica, de filme colorizado a mão. Seja como for, a simples presença de Yuliya Borisova (hoje com 92 anos) vale mil vezes a experiência.

Recomendo. (11/06/2018)

SNOWY THE MOUSE MAN

"Snowy the Mouse Man", de Don McCullin (1973)

No início da década de 90, quando fiz minha primeira visita ao teatro da Aliança Francesa, na General Jardim, fiquei profundamente impactado com uma imagem: entre os vários cartazes de montagens teatrais do mundo inteiro que adornavam o saguão, havia um, em particular, de uma montagem francesa do Lear, de Shakespeare, que trazia a foto de um velho cercado de camundongos, sendo que um deles estava entrando conspicuamente em sua boca. Sempre que ia ao Aliança eu admirava a foto do cartaz. Imaginava que maravilha de ator era aquele velho de olhos esbugalhados, e quão realista e assustadora devia ser a cena da loucura de Lear nos campos de Dover.

A propaganda que vi no Teatro
Aliança Francesa
O tempo passou e nunca esqueci a imagem. Só recentemente encontrei a mesma foto e desvendei o mistério todo. A foto foi usada pelo Théâtre National de Strasbourg, companhia de Estrasburgo, na França, para a temporada de 1985/86, cujo grande destaque era uma montagem do Rei Lear com direção de Matthias Langhoff e Serge Merlin no papel título. Só que foi com profunda decepção que verifiquei não ser Merlin o velho da foto.

A foto chama-se "Snowy the Mouse Man", e foi tirada em Cambridge, em 1973, pelo fotógrafo inglês Don McCullin. Quando um postal com essa foto começou a vender aos milhares na Austrália, em 1987, McCullin deu uma entrevista ao The Sydney Morning Herald. Disse que encontrou o sujeito no meio da estrada ao lado de um barril de sorvete: This extraordinary character, who collects for charity, is well-known in Cambridge as Snowy ... He wanted to be photographed ... he looked at me with cheeky blue eyes, opened his mouth and put the live mouse in. He leaned his head back and laughed. The mouse was licking the roof of his mouth and his tongue, putting its head in and out, and at the same time another was all over his beard. (17/06/2018)

GOTTI (1996 e 2018)

Dois filmes sobre o chefão novaiorquino John Gotti. Acabo de assistir a versão lançada este ano, com Travolta no papel-título, mas não pude deixar de lembrar constantemente da versão de 1996, com Armand Assante, que me impressionou muito, na época: o roteiro de Steve Shagan, baseado em um livro de Jerry Capeci e Gene Mustain sobre Gotti (ainda vivo e na cadeia, mas não devastado pelo câncer), é enxuto, bem escrito e se concentrava na relação de Gotti com seus capangas Sammy Gravano (William Forsythe), Frank DeCicco (Robert Miranda), Robert DiBe (Frank Vincent) e a Cosa Nostra. O elenco era brilhantíssimo e o velho chefão Neil Dellacroce foi interpretado por ninguém menos do que Anthony Quinn. Armand Assante está fantástico! É simplesmente a melhor performance de sua carreira. Concorreu ao Globo de Ouro e ao SAG, e levou o Emmy. Um trabalho riquíssimo, completo, uma jóia de criação, porque Assante não tem rigorosamente nada a ver com Gotti fisicamente, mas criou um Gotti que transcende o real. É um personagem à parte, com vida própria. Robert Harmon dirigiu e seu trabalho foi impecável. É um filme notável sob todos os aspectos, e nada fica a dever aos épicos de Scorsese sobre a máfia.

Já a versão de Travolta peca fundamentalmente nesses dois quesitos principais: direção e roteiro. A primeira foi para Kevin Connolly, um rapaz inexperiente que trabalhou como ator a vida inteira. Seu trabalho é inexpressivo e não memorável. O roteiro não vem de nenhum livro e foi escrito pelo bissexto Lem Dobbs, que não tem quaisquer créditos mais significativos em seu currículo, e por Leo Rossi, competentíssimo como ator mas virtualmente desconhecido como roteirista. O texto não é ruim, mas também não é bom. Pincela, apenas, a vida criminosa de Gotti e desenvolve um pouco mais sua relação com o filho John Jr. Imagina-se, portanto, que o filho do mafioso tenha colaborado com o roteiro e justamente por isso esperava-se algo muito melhor e inédito. E o que se vê é quadrado e sem novidades. O papel da mulher de Gotti (Kelly Preston, esposa de Travolta na vida real) ganha um pouco mais de relevo mas sem maior profundidade. Travolta também não superou a expectativa que se tinha do que seria seu trabalho; é bom, mas assim como o Robert Shapiro que interpretou na minissérie sobre OJ, seu trabalho aqui está mais na área da curiosidade do que no da excelência interpretativa.

John Gotti
A trilha sonora é desencontrada e irritante e não há imagens marcantes da Nova York dos anos 80 e 90. A cidade certamente não é um fator, no filme. A bem da verdade a versão de Travolta não glamouriza a máfia como geralmente é feito em Hollywood. É digno de nota porque Gotti se notabilizou pelo vestuário caro e sofisticado, o que se encaixa no paradigma criado por Coppola e Scorsese, de mafiosos sempre bem vestidos, com os ternos reluzentes e recém-saídos do alfaiate. O filme de Assante mostra isso na medida certa, mas talvez o diretor tenha tomado uma certa liberdade poética, emprestado ao grupo uma aura de elegância que nem todos possuíam ou mereciam. O filme de Travolta é mais seco e mais real nesse aspecto. O elenco em geral é bom. Os destaques são para Pruitt Taylor Vince no papel de Angelo Ruggiero. Vincent Pastore já fizera muito bem o papel de Angelo mas Pruitt lhe deu coloração mais dramática; e o velho e bom Stacy Keach, no papel de Neil. Leo Rossi (um dos roteiristas, como se viu) está muito bem mas o sempre ótimo Chris Mulkey é subaproveitado.

Recomendo o filme com Assante, de 1996, para quem quer conhecer a história de Gotti, e o atual, pela curiosidade de ver Travolta no papel do mafioso. (29/06/2018)

NETFLIX

Os filmes de ficção científica produzidos (ou distribuídos) pela Netflix são tão rasos que deveriam deixar de ser filmes e se tornar episódios da série "Black Mirror", de uma vez. Conquanto seja impossível não admirar a quantidade de produções concomitantes, entre séries e filmes, e o extraordinário apuro técnico delas, a qualidade artística e criativa foi posta em segundo plano. Só neste primeiro semestre - até onde eu sei - a Netflix já lançou quatro filmes do gênero: "Annihilation", "The Titan", "Tau" e "The Cloverfield Paradox". Todos muito bem feitos. Produção, nota dez. Criatividade e desenvolvimento (com exceção o último), nota dois.

"Annihilation" é sobre uma bióloga cujo marido desaparece e ela então aceita fazer parte de uma expedição por um território misterioso e cheio de perigos, a fim de descobrir o que aconteceu com ele. O filme é calcado no magnífico "Stalker", de Tarkovsky. Só que com os valores artísticos invertidos: o filme russo tem uma produção relativamente tosca mas a história é tão boa que nem reparamos. Já o filme com Natalie Portman é um primor de computação gráfica e efeitos especiais, que acaba suprindo a inanição do resto. Se me perguntarem o que achei, tenho apenas uma resposta: Assista "Stalker". Não há por que perder tempo vendo um genérico hi-tech.

"The Titan" é sobre uma experiência que consiste em "anfibizar" seres humanos para que eles possam viver em uma das luas de Saturno. A premissa de viver em outro planeta porque a Terra já deu o que tinha que dar teve seu ápice no maravilhoso "Interstellar" e está hoje um pouco gasta. Quanto a humanos virarem anfíbios, a idéia é interessante mas aqui o tema é tão mal-desenvolvido e o roteiro é tão idiota que no meio do filme já se tem uma sensação concreta de "wtf". Aquilo que em "Avatar" é feito de forma sensível e empolgante - um ser humano que se transforma em uma espécie alternativa, diferente e evoluída - aqui me trouxe à lembrança "O Homem Cobra", um dos filmes mais trash dos anos 70. Sam Worthington basicamente vira um sapo-humano e a história termina sem pé nem cabeça.

"Tau" é o nome dado por um cientista a seu computador, assim como Tony Stark tem o Jarvis e em "2001" havia o Hal 9000. Mesmíssima coisa.

Em "Tau", o cientista sequestra pessoas e faz experiências neurológicas para enriquecer um algoritmo de inteligência artificial com que alimenta o seu computador, e com o qual espera fazer uma descoberta sensacional que lhe valerá um contrato de um bilhão de dólares. Mas, assim como acontece no épico de Kubrick (e "Ex Machina", e "A.I." e dez outros filmes do mesmo tema), a inteligência artificial acaba ficando muito curiosa e desenvolvendo interesses que não devia. Daí para se rebelar contra o criador é um pulo.

Todos funcionariam melhor como episódios de quarenta ou cinquenta minutos. Tal como foram feitos, são balões. Voam muito bem por vinte minutos e esvaziam, seja por não terem maior conteúdo, ou pela pressa com que a Netflix precisa colocar esses produtos no mercado. Com todo essa produção, elencos milionários e distribuição mundial, são cinema de segunda categoria.

"The Cloverfield Paradox" é um pouco diferente. Foi o primeiro a ser lançado, este ano, e é também o melhor deles. Mas existe toda uma pré-história; este é o terceiro filme de uma franquia que começou em 2008 com o filme "Cloverfield", escrito por Drew Goddard, dirigido por Matt Reeves e produzido sob os auspícios de J.J. Abrams. Pertence ao gênero "documentário de terror" - em que depois de alguma tragédia é encontrada uma câmera com material filmado pelas vítimas - inaugurado com "A Bruxa de Blair" em 1999 e ressuscitado em 2007 com "Atividade Paranormal". "Cloverfield" conta a história de um rapaz que ganha uma festa de despedida antes de ir trabalhar no Japão e durante essa festa Nova York é atacada por um monstro no estilo de Godzilla. Ao invés de tentar se proteger, como o resto da população, o rapaz resolve resgatar a menina por quem está apaixonado, e que está presa nos escombros de seu próprio apartamento. Um grupo de amigos vai com ele e eles registram a desgraceira causada pelo monstro.

O filme é muito bom e fez um grande sucesso mas provavelmente com medo de "Cloverfield" se tornar uma franquia idiota que tisnasse o brilho do primeiro filme (a exemplo do que aconteceu com "Atividade Paranormal"), J.J. Abrams esperou oito anos para voltar ao tema. E quando voltou, como produtor, não se tratava de uma continuação, mas de um filme completamente diferente, tendo um ataque de monstros como distante pano de fundo. Desta vez a direção e roteiro são de um bando de outras pessoas e Drew Goddard e Matt Reeves constam como produtores executivos.

Mary Elizabeth Winstead e John Goodman
É um thriller psicológico sobre Michelle (Mary Elizabeth Winstead), que se separa do marido e sofre um acidente no meio da estrada. Quando acorda verifica que foi raptada e está em uma espécie de abrigo nuclear. O sujeito que a raptou (John Goodman) lhe diz que é para seu bem pois a região sofreu um ataque ainda desconhecido e o ar se encontra contaminado. Aos poucos ela vai descobrindo que as razões do sujeito estão longe de ser humanitárias. É outro filme perfeitamente assistível, sobretudo pelo trabalho de John Goodman e da sempre subestimada Mary Elizabeth Winstead. E assim como o primeiro, foi muito bem na bilheteria.

Chegamos, por fim, a "The Cloverfield Paradox". A mesma fórmula do segundo filme é utilizada, ou seja: Abrams na produção, Goddard e Reeves na produção executiva e um grupo diferente na direção e no roteiro. E mais uma vez, não se repetem estilos; se o primeiro foi um documentário de terror e o segundo foi um suspense psicológico, este praticamente deixa os monstros de lado e mergulha na ficção científica. "The Cloverfield Paradox" fala sobre a tentativa de fazer funcionar uma gigantesca estação espacial cuja tecnologia permitirá a descoberta de novas fontes de energia, já que as da Terra andam no talo. E - é claro - de suas conseqüências funestas.

Gugu Mbatha-Raw
Não pude deixar de me perguntar, assim que morreu o primeiro dos integrantes da equipe (uma morte a la John Hurt em "Alien", aliás): por que é que sempre tem que dar merda quando esse povo vai para o espaço? Por que as descobertas não podem ser bonitinhas, de planetas legais, paradisíacos onde tudo dá certo? Enfim, o procedimento dá errado e o overload de energia liberada causa uma rachadura dimensional; o chamado "entrelaçamento quântico", em que duas realidades separadas mas semelhantes se encontram. A estação e sua equipe somem dos radares e vão parar em uma dimensão paralela. De quebra ainda encontram uma pessoa dessa realidade alternativa na estação. Alguns comentários sobre esse filme dão a entender que esse seria o link para os filmes anteriores: é a utilização dessa tecnologia que teria tirado o universo dos eixos e trazido variados Godzillas para nossa dimensão, assim como para outras.

Gugu Mbatha-Raw: ótima
Em termos dos filmes de ficção científica da Netflix, este aqui está bem acima da média. Efeitos especiais, como sempre, nota dez. O elenco é muito bom e especialmente valorizado pela presença da linda e ótima Gugu Mbatha-Raw, da desperdiçada chinesa Ziyi Zhang e do competente (e onipresente) Daniel Brühl. Quanto à história e o roteiro, são as grandes fraquezas da Netflix; neste caso a história é até boa e bem desenvolvida, mas nos deixa sempre com aquela sensação de que nas mãos de Spielberg ou de Christopher Nolan - e não de um time designado pela Netflix para realizar um, entre dezenas de outros filmes - poderíamos ter algo verdadeiramente memorável.

Mas recomendo por Gugu Mbatha-Raw e Daniel Brühl. (01/07/2018 e adendo do texto sobre "The Cloverfield Paradox" em 25/09/2018)

DANCING LADY (1933)


Quando a Warner lançou com grande sucesso os musicais "42nd Street" em março de 1933, "Gold Diggers of 1933" em maio e "Footlight Parade" em dezembro do mesmo ano - todos sobre as dificuldades e agruras enfrentadas por um diretor e sua companhia na produção de um espetáculo da Broadway - sendo os três estrelados por Ruby Keeler com coreografias de Busby Berkeley, os demais estúdios foram obrigados a rever suas próprias técnicas de produzir musicais. A MGM, sobretudo, que pensava ter os melhores compositores, artistas e o know-how de pioneira no gênero, foi pega de surpresa. E assim, às pressas, surgiu "Dancing Lady", com direção de Robert Z. Leonard. O pano de fundo, a exemplo dos outros filmes, é a montagem de um musical da Broadway.

Joan e Clark em "Dancing Lady"
O diferencial é o elenco. Enquanto a Warner usava estrelas de seu segundo time - como Ruby Keller, Joan Blondell e a jovem Ginger Rogers, apenas ocasionalmente usando astros como James Cagney - a MGM usou de cara sua artilharia de elite: Janie Barlow (Joan Crawford) é uma dançarina de vaudeville que consegue uma chance na Broadway com o diretor Patch Gallagher (Clark Gable), graças a Tod Newton (Franchot Tone, com quem Crawford se casaria em 1935), um milionário que se apaixona por ela. Provavelmente com medo de que Crawford, Gable e Tone não conseguissem vender sozinhos um musical e perdessem no quesito comédia - que Joan Blondell, Guy Kibbee, Frank McHugh e Hugh Herbert tiravam de letra na Warner - a MGM contratou ninguém menos do que Os Três Patetas, em início de carreira, para coadjuvar um dos números de Crawford. Como se não bastasse, Fred Astaire fez sua estréia cinematográfica nesse filme (o que faz de Joan Crawford sua primeira parceira de dança), e o número final é cantado por Nelson Eddy, outro artista que brilharia intensamente na década de 30.


Foto promocional de Fred e Joan
para "Dancing Lady"
Com tudo isso, "Dancing Lady" é um filme apenas regular. Crawford era uma boa atriz, muito bonita e carismática, mas seu talento de dançarina é limitado e números musicais burocráticos e longos não são sua praia. Sua parceria com Fred Astaire é risível perto do que ele faria com dançarinas de verdade, como Ginger Rogers ou Rita Hayworth. A verdade é que a MGM embarcou numa canoa furada, porque os musicais de Busby Berkeley são algo que impressiona durante cinco minutos e perde a graça. Ruby Keeler não tinha um pingo de talento. Era canastrona, não cantava e não dançava nada, só entrou no cinema porque era casada com Al Jolson, e dos três filmes mencionados no início, "42nd Street" se salva por Ginger Rogers e os outros dois só existem graças à beleza e o talento de Joan Blondell. Com efeito, não havia qualquer mérito em imitar a Warner em um estilo que a Warner aperfeiçoou e fazia melhor. É como a Globo tentando superar a Manchete em erotismo ou o SBT em baixaria. Era necessário superá-los em qualidade. E a MGM só conseguiu fazer isso em 1935, com "The Broadway Melody of 1936". Abandonou-se a escalação equivocada de atrizes dramáticas (ou sem qualquer talento, como Keller, no caso da Warner) para protagonistas de comédias musicais românticas, e entregou-se a incumbência a Eleanor Powell, que engoliu todas elas e cuspiu o caroço.

Não obstante, "Dancing Lady" é um musical agradável. Crawford e Gable tinham uma bela química juntos, Tone também é ótimo e o filme se assiste com prazer. (10/07/2018)

OUR BIG LOVE SCENE
com Bing Crosby (1933)


"Going Hollywood" é a história despretensiosa de uma professora de um colégio de freiras (Marion Davies) que decide abandonar essa carreira para seguir o cantor por quem é apaixonada (Bing Crosby) até Hollywood. A complicação vem pelo fato de que eles sequer se conhecem, ela é uma "groupie" e está mais para "stalker" do que para fã. No meio do caminho revela talentos que desconhecia e consegue um emprego como atriz, o que lhe facilita acesso ao ídolo.

Marion Davies em foto promocional
de "Going Hollywood"
É sabido que Marion foi amante do magnata da imprensa norte-americana, William Randolph Hearst, por praticamente toda sua vida. Também não é segredo que a Cosmopolitan Productions, que produziu o filme com a Metro, era bancada por Hearst. O que acabou em segundo plano, abafado pelas fofocas, pelas intrigas e pelo retrato deplorável e injusto com que Orson Welles depinta a atriz em seu clássico "Citizen Kane", é que Davies tinha talento. Talvez não fosse tão talentosa quanto Hepburn, não cantasse tão bem quanto Jeanette MacDonald e não dançasse tão bem quanto Eleanor Powell, mas estava bem acima da média; era dramática, quando necessário, sabia demonstrar emoção sem afetações ou exageros, e era uma exímia comediante, até na opinião de seus detratores. Dizem os contemporâneos - e há prova disso em alguns de seus filmes - que ela era a melhor imitadora de suas colegas de cinema, como Garbo e outras. Em "Going Hollywood" há um exemplo eloqüente disso, já que a cena em que Marion imita Fifi D'Orsay cantando, com sua voz e seus trejeitos exagerados, é possivelmente seu ponto alto em todo o filme.

Marion e Bing na cena final
Tudo isso acabou esquecido e a carreira da atriz feneceu. Hoje ela certamente teria um sitcom de sucesso e faria filmes ocasionalmente, como tantas atrizes em Hollywood. Em última análise, não resta dúvida de que o patrocínio forçado de Hearst mais atrapalhou do que ajudou. De uma forma ou de outra, "Going Hollywood" é produto de grande qualidade. Em primeiro lugar não se trata de um musical, propriamente, gênero que Marion - assim como Joan Blondell, outra maravilhosa comediante sem talento para o canto ou a dança - não poderia estrelar sozinha, pois seria necessário uma parceira para o cantor ou dançarino protagonista. O filme é uma comédia romântica musical, onde brilham o talento cômico de Marion e a esplêndida voz de Bing Crosby.

A história é de Frances Marion, que vinha de receber dois Oscars por roteiros originais, em 30 e em 32. O roteiro é do não menos célebre Donald Ogden Stewart, mais tarde oscarizado por seu roteiro de "The Philadelphia Story", com Kate Hepburn e Cary Grant. A direção ficou nas mãos do talentoso e tarimbado Raoul Walsh; o protagonista, Bing Crosby, estava em início de carreira e prestes a tornar-se o maior cantor norte-americano. Foi escolhido a dedo por Marion (para desgosto de Hearst, que não gostava do cantor e teve que aceitá-lo por instância não apenas da amante mas dos compositores da trilha sonora), emprestado pela Paramount, que vinha desperdiçando-o em comédias menores. "Going Hollywood" catapultou a carreira de Bing e ele passou a fazer parte do primeiro time de astros da Paramount.

Partitura de "Our Big Love Scene"
A cereja do bolo, entretanto, é a magnífica trilha sonora de Nacio Herb Brown (com letras de Arthur Freed). O compositor tinha o toque de Midas e foram raríssimos os filmes com suas canções que não se tornaram grandes sucessos. Este não é exceção. Aliás, este figura no topo, com uma das mais lindas canções compostas por Brown; é "Our Big Love Scene". É curioso questionar a razão pela qual essa magnífica canção ficou de fora de "Singin in the Rain", sentida homenagem de Gene Kelly a Brown e Freed. Talvez porque a versão de "Going Hollywood" seja definitiva. Aqui vai a cena final do filme, a canção e o número musical em destaque. Cantada por Bing, com a belíssima cenografia que mostra a orquestra conduzida por Lennie Hayton em um espaço estilizado e futurista, é o que de melhor se produziu em Hollywood naquele ano, e uma das cenas mais lindas desse gênero ainda tão pouco explorado, da comédia musical romântica. (23/07/2018)



WESTWORLD (1973/2016)

Publiquei recentemente um pequeno comentário sobre três filmes escritos por Michael Crichton, dois deles dirigidos pelo próprio. Deixei de fora "Westworld", escrito e dirigido por ele, justamente pela oportunidade de mais tarde comentar o filme de 1973 e a série que começou a ser produzida em 2016.

1 - Sobre o filme - O escritor teve a inspiração do parque de diversões com personagens "humanos" na atração "Piratas do Caribe", da Disney, que utilizava robôs muito bem-feitos para a época. Desenvolveu então o conceito pelo qual a pessoa que vai a um parque de diversões não se limita a assistir, apenas, mas a interagir com os personagens. Essa interação inclui desde conversar com os robôs, até sexo e violência. O parque tem três ambientes: Velho Oeste, Idade Média e Roma Antiga. O filme, entretanto, concentra-se no Velho Oeste, onde chegam dois amigos, Richard Benjamin e James Brolin, sendo que James está vindo pela segunda vez.


Conforme consignei no comentário anterior, Crichton tinha o mesmo problema de 90% dos escritores/diretores em Hollywood: escrevia muito bem, dirigia muito mal. "Westworld" é brilhantíssimo como idéia, mas peca horrivelmente como execução cinematográfica. O roteiro, que deveria valorizar e explorar a fundo o excelente elemento de ficção científica contido na idéia, não só se mantém na superfície, como ainda pende, detestavelmente, para a comédia. Crichton não tinha talento para misturar as duas coisas, então veremos o humor norte-americano mais idiota em uma cena, e um assassinato sangrento na cena seguinte. O resultado é que temos 88 minutos rasos e que não prendem a atenção o tempo todo. Basta dizer que a versão original era mais longa e foi editada a pedido de Crichton, que ficou entediado com seu próprio trabalho.

Yul Brynner
A ação se passa em dois ou três dias e a trama é de que um belo dia os robôs dão defeito, não respondem ao comando dos cientistas e começam a atacar os visitantes até que a bateria deles acaba. Ou, no caso de Yul Brynner - o maravilhoso vilão do parque - até ele ser baleado, banhado com ácido e incendiado por Richard Benjamin, em morte espetacular que James Cameron basicamente copiou/homenageou no "Exterminador do Futuro". Fim. Não há maiores explicações, ninguém sabe o que causou os problemas, por que a segurança do parque era tão ruim, não se fala do dono, de nada. É o mais complicado dos paradoxos de Crichton: por sua execução, "Westworld" não passa de um filme B. Só que a idéia é tão boa e a performance de Yul Brynner é tão marcante que, tanto quanto é um filme ruinzinho e esquecível pela ausência de méritos cinematográficos, ele é pedra angular de filmes como "O Exterminador do Futuro", de personagens como Michael Myers em "Halloween", um sem-número de filmes sobre Inteligência Artificial e o reboot do tema feito pelo seu próprio autor, em "Jurassic Park".

2 - A série é BEM diferente. Baseia-se na idéia e mais nada. A história foi largamente aumentada, introduzindo-se o personagem do criador, do seu sócio, fundador do parque, dos cientistas responsáveis pela criação das histórias e da personalidade dos robôs, os executivos da Delos, e assim por diante. Existe e se sobressai, na série, o questionamento moral que sequer é aventado no filme. O conflito "máquinas x humanos x alma" é o mote da série. É um enredo bem amarrado e suscita o interesse pelo que vem na semana seguinte. Não sei se é material para uma série longa, de fôlego. Acredito que não, mas em Hollywood tudo é possível.

Há barriga, como em qualquer série, e ela talvez até comprometesse o produto final, se os produtores não tivessem dado duas cartadas certeiras: a primeira foi colocar Anthony Hopkins como ator convidado. O velho mestre continua charmoso, talentoso e carismático como sempre, embora suas performances nos últimos anos tenham acusado um certo cansaço. E a segunda, e principal, é a ressurreição de Evan Rachel Wood.

Evan Rachel Wood: como sempre, uma visão celestial

A loira, que maravilhou o mundo televisivo há dezenove anos com "Once and Again", considerada a mais linda e talentosa atriz jovem dos Estados Unidos em muitos anos, jogou no lixo pouco depois uma carreira que prometia ser das mais brilhantes e exitosas, mergulhando de cabeça no lado negro da força. Até namorar aquela aberração com corpo de ave aquática e rosto de boneco dos Jogos Mortais, chamada Marilyn Manson ela namorou. Queimada, sumiu do radar hollywoodiano por mais de uma década e reapareceu agora, aos trinta anos, aparentemente curada de sua sandice juvenil, ainda esbanjando talento e beleza como se nada tivesse acontecido.

Evan Rachel é o trunfo de "Westworld". Enquanto ela for protagonista, valerá a pena assistir a série. (26/07/2018)

THE DEVILS (1971)

"The Devils", dirigido por Ken Russel, conta a história de Urbain Grandier, padre francês do século XVII, que é acusado de ter um pacto com o demônio e de aterrorizar sexualmente as freiras de um convento ursulino da região. Embora falsa, a acusação poderia passar por verdadeira pelo fato de que Grandier era um homem bonito, devasso, e a batina não o impediu de ser um dos mais contumazes mulherengos da cidade de Loudun. Mas suas inúmeras conquistas, e até o fato dele ter se casado extra-oficialmente com uma moça séria e virtuosa jamais incomodaram o clero ou o rei. Seu pecado foi político: ele era a figura mais prestigiosa da cidade e sendo um local de grande contingente de huguenotes, o cardeal Richelieu resolveu botá-la abaixo, a fim de aumentar seu próprio poder no sudoeste da França. Grandier se opôs e a milícia que tinha a seu dispor botou os soldados de Richelieu para correr. Foi onde se iniciou seu calvário.

Eu não conhecia esse episódio, que se confunde com tantos outros da mesma época, em diferentes lugares do mundo, em que a igreja católica espalhou o terror da possessão demoníaca para atingir objetivos políticos ou de qualquer outra natureza, menos religiosos ou cristãos. E também não sabia que o grande Aldous Huxley se debruçou sobre o tema no livro "The Devils of Loudun", de 1952. Foi a partir do trabalho de Huxley que surgiu, em 1960, a peça de John Whiting (comissionada por Peter Hall para a RSC), e o roteiro de Ken Russel para o filme de 1971.

Gemma Jones (de costas), Oliver Reed e Ken
Russell em cena de "The Devils"
É uma maravilha de filme e como já foi dito por aí, uma obra-prima de Russel. Mas ela só é conhecida por um punhado de pessoas devido ao teor explosivo, anti-religioso do texto (o que também faz do livro um dos menos populares de Huxley), e das cenas que envolvem tortura, nudez, bacanais e outras coisas que se até hoje são consideradas fortes no cinema, é de se imaginar o que pensaram público, crítica e os censores há quarenta e sete anos. Não é, entretanto, de forma alguma, um trabalho apelativo. É moderno, provocativo e contestador. É, em muitos aspectos, vivo e pulsante como uma montagem teatral de qualidade. Não há limites ou convenções a serem respeitados. Especialmente quando o texto é, em sua essência, sobre o desrespeito a direitos fundamentais e à imposição tirânica, hipócrita e covarde do mais forte sobre o mais fraco. As cenas de nudez e violência são intensas mas se enquadram perfeitamente em um contexto artístico e dramático. Nada é gratuito. A alucinação da Irmã Jeanne, lambendo libidinosamente as feridas do Cristo/Grandier, a tortura de Grandier ou a esbórnia em que se transforma o convento das freiras ursulinas, são todas peças da desagregação e da degradação filosófica e moral em que vive um povo sob os grilhões do fanatismo. É um povo subjugado, que não sabe a quem obedecer porque não aprendeu a pensar por si só. E daí para a anarquia e o caos é um pulo. São cenas marcantes, por vezes dolorosas, mas acima de qualquer mal-estar ou restrição está a excelência artística e criativa de Ken Russel.

Vanessa Redgrave, na alucinação em que vê Cristo crucificado se transformar em Grandier
Cena polêmica de "The Devils"

Oliver Reed
Oliver Reed estava no auge de seu talento e de sua beleza, e ninguém poderia ter feito o papel de Grandier melhor do que ele. A formação teatral e a voz cortante e poderosa emprestam efeito extraordinário a seus monólogos ao povo de Loudun. No mais, ele sequer se afastava muito de seu próprio temperamento, interpretando o galã rude que emana agressivamente sua virilidade sem o mais mínimo esforço. Dessa forma, compreende-se perfeitamente o estado de descompensação sexual em que ficam as freiras, cada vez que ele passa, e Vanessa Redgrave (Irmã Jeanne) é a personificação desse desequilíbrio: corcunda, frustrada, orgulhosa, invejosa, infeliz e com a imaginação e o desejo indo em dez direções ao mesmo tempo. Gemma Jones estava jovem e linda, e também faz muito bem seu papel de Madeleine, a devotada esposa de Grandier. Valem registro as ótimas performances de Michael Gothard, Dudley Sutton, Georgina Hale e Max Adrian (este último no papel do barbeiro-cirurgião Ibert, mas ator da montagem original da peça, no papel do padre Barre, feito aqui por Michael Gothard).

É uma bela e arrojada composição de Russel, que a academia e os demais festivais (com exceção de Veneza) ignoraram olimpicamente. O filme acabou recebendo a indicação "X" dos cinemas (utilizada geralmente em filmes pornográficos), foi varrido para debaixo do tapete, banido em alguns países e só em meados da década passada começou a ser reabilitado. Versões com o mínimo possível de cortes (trechos mais polêmicos acabaram perdidos pela incúria dos estúdios) foram mostradas em universidades e festivais, quase sempre com a presença de Ken Russell. Um pedido de desculpas algo tardio mas ainda oportuno, porque foi recebido por Russell em vida. O cineasta morreu em 2011.

Recomendo muito aos fãs de cinema. Os ratos de sacristia possivelmente vão ficar chocados e devem evitar. (29/07/2018)
___________________________________

Veja mais:


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...