quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Bibliografia Comentada de Procópio Ferreira


Procópio não foi apenas um grande ator, mas um homem de cultura vasta e universal. Cultivava os livros, era um "colecionador e comprador compulsivo" (nas palavras de mestre Décio, que bem o conheceu), sua biblioteca tinha a fama de ser uma das mais ricas do Brasil, transbordando volumes raríssimos e antigos, e moço, ainda, se dedicou a ensaios e pesquisas.

Em 1925 veio seu primeiro livro. Um volume despretensioso e divertido chamado A arte de fazer graça. Nele (e aqui valho-me do comentário de Décio de Almeida Prado, já que ainda não consegui localizar esse livro), Procópio deixa consignada a impressão que tinha, à época, das duas maneiras que existiam de se representar comédia em teatro: aquela em que o ator interpreta um texto cômico por si só e aquela em que o ator transforma o texto em uma criação de sua própria comicidade. Considerando que o livro foi escrito no alvorecer do século 20, sem que nenhuma das grandes transformações do teatro mundial tivesse ainda ocorrido, o texto é datado. Não obstante, é leitura curiosa e divertida. A segunda parte do livro traz uma faceta de Procópio que ele aperfeiçoaria com os tempos: a de inventor de máximas sobre o teatro e a vida em geral.

"Um para 40 milhões", estudo da personalidade
 de Procópio por seu amigo íntimo,
Gastão Pereira da Silva

Seu segundo livro não foi escrito por ele, mas sobre ele. É de 1933 (período em que se vivia a tristeza pela morte de Fróes e a ascensão de Procópio ao posto absoluto de primeiro ator cômico brasileiro) e chama-se Um para 40 milhões, de autoria do escritor e psicanalista Gastão Pereira da Silva (1897/1987). O livro é interessantíssimo e conta a vida de Procópio até aquele momento por um prisma psicanalítico. Gastão era uma personalidade das mais plurais e curiosas, autor de dezenas de livros sobre psicanálise e biógrafo de figuras totalmente díspares como Procópio, Prudente de Moraes e mais tarde o Brigadeiro Eduardo Gomes. Isso sem falar que foi tradutor e pen-pal de ninguém menos do que o próprio Sigmund Freud. Soma-se a isso o fato de ser amigo íntimo do ator, cujas emoções - bem como as de seu público - ele vai desfiando ao longo de uma carreira que até aquele momento contava 16 anos.

Referência em pesquisa do teatro brasileiro
no século XIX: a devotada biografia do ator
Francisco Vasquez

O terceiro livro traz ao lume o historiador do teatro brasileiro no embrião que se desenvolvia dentro de Procópio. Procurando aquilo que poderíamos chamar de sua "genealogia cômica", ele se debruça sobre a vida de Francisco Corrêa Vasques (1839/1892), o maior ator cômico do século 19. A dedicatória remete ao livro anterior: "Meu querido Gastão Pereira da Silva: Você, que é todo inteligência e bondade, recolha, em seu coração, a memória deste outro homem também inteligente e bom - o nosso grande Vasques. Procópio".

Não o tendo visto ao vivo e não contando mais com o próprio para ajudá-lo, Procópio foi atrás de sua família e de toda a documentação possível para resgatar a história do ator, famosíssimo em sua época.

A obra O Ator Vasques, de 1939, é caótica em sua estrutura. Mistura a biografia de Vasques, contada por Procópio, com as peças do próprio Vasques, incluídas no livro, o que torna sua leitura um pouco difícil. É, entretanto, uma pesquisa bem feita, de fôlego, em que se conta não apenas a vida do velho ator mas a época em que viveu e o ofício do ator nessa mesma época. As informações são precisas e Procópio se esmera na análise psicológica dos personagens em questão. Com efeito, é graças a essa pesquisa que hoje podemos estudar com algum detalhamento a vida de Vasques. A bibliografia é preciosa, contando com nada menos do que 4 biografias de João Caetano e provavelmente a obra completa de Múcio da Paixão. Estão todos fora de catálogo - inclusive a própria biografia de Vasques, que teve uma última edição pela Funarte, há uns 20 anos - mas são matéria indispensável para qualquer pesquisador de teatro.

Décio de Almeida Prado afirmaria mais tarde que Procópio foi na direção equivocada em muitas de suas análises sobre Vasques e na comparação que valorizava sempre o Teatro Cômico, em detrimento ao Dramático. Debitava tais análises "ao historiador de teatro que Procópio não era e nem tinha obrigação de ser". O comentário foi feito quando Procópio já não vivia, e teria sido interessante conhecer a resposta do ator, e a conseqüente troca de idéias desses dois mestres, cada um em sua área. Pessoalmente, acredito que Décio, embora excessivamente severo em seu julgamento, está mais próximo à verdade. Faço, porém, uma ressalva: Procópio era, sim, um historiador do teatro e possuía sobre o assunto um conhecimento que talvez nenhum outro ator possuísse. Quiçá não o fosse nos moldes tradicionais, acadêmicos, e o fato de ser ele mesmo um ator cômico pode ter contaminado muitos dos conceitos que devem ser vistos e analisados por uma ótica imparcial, distante.

Com a explosão sem paralelos de sua carreira nas 3 décadas seguintes, Procópio se afastou dos livros (como escritor, porque como leitor continuou compulsivo). Nos anos 60 veio seu lento declínio. O TBC e seus filhos, Arena e Oficina, solaparam o interesse do público e Procópio se transformou em efígie. Respeitadíssimo não mais como o grande ator que sempre foi, mas como remanescente de um estilo que começava a entrar em total desuso.

Voltou aos livros com força total. Não havia parado de escrever e no hiato que separa a biografia de Vasques de seu livro seguinte, proferiu conferências sobre Como se ria antigamente, Da criação, da emoção e da expressão no teatro, Antônio José, o dramaturgo conhecido como "o Judeu", Joracy Camargo e sua obra e O Teatro Nacional até Leopoldo Fróes. A única dessas conferências que encontrei, acidentalmente, foi Como se ria antigamente, editada na revista Arcadia (n°16, 1940), da Academia de Letras do Largo São Francisco. As outras, até onde sei, permanecem inéditas em livro.

Amigo do editor Folco Masucci, os dois planejaram uma série de livros. Entre eles, a reedição de A arte de fazer graça e os novos Como se faz rir, Pequena História do Teatro Brasileiro, Efemérides do Teatro Nacional e suas memórias, intituladas Procópio apresenta Procópio. O primeiro foi lançado em 1967, aproveitando que em 22 de março se comemoravam os cinqüenta anos de carreira do ator. Como se faz rir - e o que penso quando não tenho em que pensar tem um prefácio cheio de admiração escrito por Menotti Del Picchia e é dividido em vários textos. O primeiro é basicamente A arte de se fazer graça revisto e ampliado com base nos 40 anos de experiência que se separam o primeiro livro do segundo.

Os textos seguintes (sobre assuntos que vão desde o teatro, a vida e o amador até gastronomia) mostram um Procópio maduro, resignado, com uma visão ligeiramente amarga da vida, mas ainda assim, cheio de senso de humor. Seu estado de espírito pode se resumir no trecho em que afirma "não valer a pena viver, mas como valerá um dia a pena viver, devemos esperar para viver, ou viver para esperar". Também se lê perfeitamente o que Procópio sentia pelos humanidade quando diz que o cão é a obra-prima da natureza. Que o cão tem alma, mas "não uma alma como a dos homens, porque se assim fosse ele não seria o ser maravilhoso que é".

Por conta da velhice, de sua agenda sempre lotada de compromissos ou sabe-se lá por qual razão, o projeto com Folco não deu mais frutos enquanto Procópio viveu. Dias depois de sua morte, em junho de 1979, foi lançada a História e Efemérides do Teatro Brasileiro, edição da Casa dos Artistas (da qual Procópio era presidente honorário).


Trata-se de um trabalho incompleto. Procópio devia ter notas e apontamentos parcialmente organizadas e por conta de seu falecimento, o material foi refundido sem qualquer cuidado com o clássico Efemérides do Teatro Carioca, de Bandeira Duarte (1958), então o que se vê é 90% do livro de Duarte com uma porção mínima de atualizações e um punhado de novas datas comemorativas. O que vale, efetivamente, nessa publicação, são os textos de Procópio no início do livro, sobre os primórdios do teatro no Brasil, e o documentário de imprensa - com fotos e depoimentos da classe artística - a respeito de sua morte, no fim.

No início da década de 80, a editora Brasiliense lançou coleções de bolso com os mais variados assuntos. A Primeiros Passos tratava de temas gerais, a QualÉ explicava questões da atualidade e a Encanto Radical esmiuçava o cinema, o teatro e a literatura. Décio de Almeida Prado (1917/2000), o maior crítico teatral brasileiro do século XX, foi convidado a escrever um pequeno ensaio sobre Procópio, e o livro foi lançado em 1984.

É um trabalho magnífico. Sucinto, com o conhecimento de quem acompanhou a carreira de Procópio desde o início da década de 30, Décio divide o ensaio de 100 páginas em 14 pequenos capítulos, onde é contada a história de Procópio de forma objetiva e bem documentada, com belas análises de muitos dos textos que interpretou.

O crítico estava em uma posição interessante. Cresceu ouvindo os fonogramas onde Procópio recitava poesias e tomou gosto pelo teatro vendo o ator em Deus lhe Pague. Sua geração, porém, é a dos Comediantes de Ziembinsky, do Teatro do Estudante de Paschoal Carlos Magno e mesmo das companhias de Bibi, Morineau e o TBC, ou seja, tudo aquilo que surgiu em meados da década de 40, rompendo com o teatro que Procópio vinha fazendo desde o início de sua carreira. Por essa razão (imagino), o livro segue uma linha de honestidade total e passa ao largo do panegírico. Muito ao contrário, situa Procópio historicamente dentro de um tipo específico de teatro, exaltando-lhe as múltiplas qualidades mas também ressaltando-lhe os grandes defeitos, como a visão demasiadamente concreta e quase mercantil da profissão do ator, o que teria levado sua carreira a um declínio prematuro, que poderia ter sido evitado se ele não fosse tão teimoso e se curvasse diante da inevitável modernização do processo teatral.

A tal Pequena História do Teatro Brasileiro, como se viu, acabou provavelmente agregada às Efemérides do Teatro Nacional e se transformou no volume único História e Efemérides do Teatro Brasileiro. Mas e suas memórias? A história é curiosa.

Procópio dividira suas memórias em duas partes: a primeira até 1936 e a segunda dali em diante. Logo, seus primeiros 19 anos de carreira são contados com precisão e riqueza de detalhes e informações. A segunda parte consiste de um "apanhado de suas lembranças". Acostumado a ser requisitado constantemente pela mídia e provavelmente cansado de recortar jornais, Procópio parou de colecioná-los, então os 30 anos seguintes não obedecem nenhum rigor documental e vão até 1967 (o que mostra que o projeto de fato foi escrito na época de sua associação com Folco Masucci). Aparentemente, a idéia era publicar as memórias junto, ou seguindo o livro das efemérides, mas o manuscrito simplesmente se perdeu, sendo encontrado nada menos do que 20 anos depois, em algum buraco do acervo particular de Procópio, em mãos de sua família.

As Memórias de Procópio, perdidas durante 20 anos, e finalmente editadas pela Rocco, no ano 2000

Com bela edição da Rocco, que acabou mais ou menos coincidindo com os 102 anos de Procópio e 21 de sua morte, Procópio Ferreira apresenta Procópio foi finalmente lançado no ano 2000.

Além da diferença nas fontes (uma documental e outra memorial), é divertido observar como o estilo de Procópio muda com o tempo. Percebe-se claramente que o primeiro momento de suas memórias vêm de uma bem-amarrada compilação de impressões suas que deviam estar em diários, então temos um Procópio moço narrando sua juventude, com direito a comentários sérios, reclamações, a incompreensão, a inveja e tudo aquilo que o afligiu em seu fastígio. A segunda parte vem tranqüila, com bom humor, ironia e contemplação. É leitura agradabilíssima.

A última publicação sobre Procópio mistura pesquisa e iconografia. Trata-se do livro Procópio Ferreira - O Mágico da Expressão, de Jalusa Barcelos, em riquíssima edição trilingüe da Funarte, lançado em 1999, na (quase) comemoração do centenário de Procópio (que afirma em suas memórias ter nascido em 8 de julho de 1898). A pesquisa é boa, conta com depoimentos da família e até da ex-mulher de Procópio, a saudosa Norma Geraldy, mas o valor dessa publicação está no material fotográfico, que é inigualável. Provenientes de diversos acervos, familiares, públicos ou privados, vemos centenas e centenas de imagens raríssimas de Procópio, desde o berço, passando pela mocidade, o sucesso, as mulheres, a ligação com políticos e intelectuais, a maturidade e os últimos anos, a televisão, a perda de sua saúde, a ligação risível com a picaretíssima "Cultura Racional" do "Universo em desencanto", até o derradeiro adeus.
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Ver também:

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6 comentários:

  1. Bernardo,

    Não sei o porquê da sua relutância em criar um blog. Ele é simplesmente SENSACIONAL! Nunca tinha visto um com riqueza nas fotografias e nos textos. Nossos dramaturgos são merecidamente homenageados neste espaço.
    Parabéns pela sua iniciativa e que ela te dê frutos!

    Um abraço,

    Roselene Cândida

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    Respostas
    1. Muito obrigado pela gentileza e pelo comentário carinhoso, Roselene, um abração!

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  2. Precioso, Bernardo! Que vc continue a nos brindar com seus belos textos e ilustrações.
    Grande abraço.Angela

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  3. Muitos parabens. Felicitaçoes de Espanha.

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  4. Meus parabéns, Bernardo! Seu Blog é excelente (rico em material fotográfico e conteúdo). Vou recomendá-lo, com certeza!

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