quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Solidão, a Comédia - Grandes Espetáculos II



Preparando-se para a festa de Dubrugas
Meus caros,
pra começar, não exagero quando digo que Solidão, a Comédia, com Diogo Vilela, foi o melhor monólogo que assisti em minha vida. Melhor inclusive do que Quadrante, o monólogo de Paulo Autran; estes são basicamente os dois únicos monólogos de que eu realmente gostei. Mas também não era pra menos; além do texto de Vicente Pereira - comentado no programa da peça por Caio Fernando Abreu - e da direção de Marcus Alvisi - comentada no mesmo programa por Rubens Corrêa - Solidão, a Comédia tinha cenários de Gringo Cardia e figurinos de Conrado Segreto. Uma constelação de grandes valores artísticos, muitos dos quais se foram ainda no primeiro lustro da década de 90. Assisti Solidão, a Comédia pela primeira vez em maio de 1991, no Teatro Ruth Escobar, aqui em São Paulo.

Esperando Aline
A peça consiste de 5 episódios sobre a solidão. Há comédia em alguns deles, mas o espetáculo é de fato um drama forte, pungente, belíssimamente escrito. O primeiro chama-se "A sétima arte", e se passa num cinema, onde um rapaz romântico e apaixonado espera por sua namorada Aline, que não aparece nunca. O personagem de Diogo era um híbrido de personagens do cinema mudo como Chaplin, Keaton e Lloyd. Que encantavam e emocionavam com o patético de sua existência e sua quase eterna condição solitária.

No segundo e no quarto sketch - "Coração Santo" e "Paris em Chamas" - Diogo interpretava mulheres: a prostituta Solange e a perua Geneviève. O alívio cômico da peça, mas sempre no limiar do trágico e do patético. O terceiro episódio chama-se "A fogueira das vaidades" e mostra um casal preparando-se para uma festa, na casa do amigo Dubrugas. A ação se desenrola enquanto Diogo espera que sua mulher saia do banho. É um dos meus favoritos. À medida em que sua mulher vai cada vez mais demorando-se no banho, o desespero de Diogo cresce e a tensão se torna insuportável. O medo de que sua mulher o tenha deixado sozinho para ir à festa de Dubrugas, ou mesmo de que o tenha deixado é sentido por todos. O alívio impregnava o teatro quando, no fim do sketch, a porta do banheiro finalmente se abria e Diogo olhava para o público com cara de vitória.

"Te Invejo!"...
O último sketch é violentamente dramático. Figuerôa, um velho, vai visitar seu amigo Mário Lúcio, moribundo num leito de hospital. Conversa com ele, desfia lembranças, desfia a decrepitude de ambos. Figuerôa diz, ao citar cada uma das qualidade de Mário, ou qualquer detalhe que lembrasse no momento: "Te invejo". Uma composição lindíssima de personagem. Exato na intensidade, graças ao talento de Diogo. O público nem reparava o absurdo dele interpretar um velho de 80 anos; reparava somente sua dramaticidade. No meio da conversa, Figuerôa se dá conta que Mário morreu, enquanto ele falava. A expressão de Diogo se misturou à trilha sonora, provocando um dos momentos mais comoventes que já tive a emoção de ver. No fim a música arrefece e some. Diogo diz uma última coisa ao amigo morto: "Te invejo!"

Com Diogo, em 1994
Pensando que aquele era o fim do espetáculo, o público aplaudia frenético, maravilhado com aquele show do mais absoluto talento que acabava de presenciar. Em 2 minutos Diogo voltava. Não como um personagem, mas como o próprio Diogo. E também não estava lá para agradecer, mas para coroar uma noite que por si só já era inesquecível. Contou uma pequena história de como seu avô bebia sopa. E mostrava gestualmente a maneira que ele levava a colher ao prato, e depois à boca, e o ruidoso estalar de lábios, para melhor saboreá-la. Disse que a vida deveria ser vivida daquela forma, como seu avô bebia sopa, saboreando ao máximo todos os pequenos momentos. A música mais uma vez aumentou e Diogo repetiu o gesto em todos os cantos do palco. Mais uma chuva de aplausos, o teatro inteiro em pé, e aquela comunhão inigualável de ator e público.

Com a saudosa Célia Helena,
também em 94
Não vi uma pessoa sequer que não estivesse completamente emocionada, ao sair da sala. Todos, enxugando as lágrimas, secando os olhos, e comentando a beleza do espetáculo.

Em seguida, Solidão, a Comédia viajou pelo Brasil, numa carreira vitoriosíssima de 3 anos. E eu sempre carreguei a tristeza de não tê-lo visto novamente. Quando a oportunidade surgiu, já em 94, não perdi. Fui assistir a peça no encerramento de sua temporada nacional, no João Caetano. Me emocionei da mesma forma, de novo, assim como todo o teatro. Na saída, lembro-me da saudosa Célia Helena. De olhos marejados, pude ouvi-la comentar: "Que homem de teatro...!"

Solidão, a Comédia é um marco do teatro brasileiro. Uma obra-prima. É um privilégio tê-lo assistido duas vezes.

Um comentário:

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