domingo, 22 de novembro de 2009

Encontro com Laerte


Desde criança assisti Laerte Morrone na TV. Não tenho lembranças de seu Garibaldo, que despareceu quando eu tinha apenas 3 anos, mas suas participações em novelas da Globo na década de 80 eu guardo com muito carinho. Ironicamente, o hoje celebérrimo Vitório, Conde de Parma, seu personagem em "A Gata Comeu", não me marcou. A própria novela, a bem da verdade, não chegou a me empolgar. Na faixa das 7, eu gostava mesmo era das novelas de Cassiano Gabus Mendes e Sílvio de Abreu, e foi de Sílvio a primeira novela em que a participação de Laerte realmente me chamou a atenção: "Sassaricando", de 1987.

Laerte interpretava o apalermado Aprígio, irmão de Aparício Varela, interpretado por Paulo Autran. Os dois eram casados com duas irmãs, Lucrécia e Teodora. A Teodora de Jandira Martini, mulher de Paulo, morre nos primeiros capítulos. A dupla de Laerte com a Lucrécia de Maria Alice Vergueiro, entretanto, brilhou a novela inteira. "Sassaricando" foi uma novela irregular, com um enredo mal-amarrado, situações rocambolescas, soluções mirabolantes e um determinado núcleo com atores extremamente medíocres (defeito recorrente nas novelas de Sílvio de Abreu, aliás). Mas na soma de seus elementos, os positivos sobrepujaram os negativos e o elenco mais experiente da novela tapou os buracos do roteiro. Com efeito, era simplesmente impossível ver num mesmo cenário atores como Paulo Autran, Tônia Carrero, Laerte Morrone, Maria Alice Vergueiro, Eva Wilma, Carlos Zara, Irene Ravache, Célia Biar, Ileana Kwasinski, Lolita Rodrigues e tantos outros, e não apreciar.

Em 1989 veio a magnífica "Que Rei sou Eu?", de Cassiano Gabus Mendes. Essa novela provavelmente encerra o grande ciclo das novelas brasileiras iniciado com "Beto Rockfeller", também de Cassiano, embora começada por Bráulio Pedroso. Pela última vez vimos uma grande história, roteiro brilhante, diálogos inteligentes, a direção precisa de Jorge Fernando, e um elenco absolutamente primoroso: Jorge Dória, Tereza Raquel, Laerte Morrone, Giulia Gam, Osvaldo Loureiro, Antônio Abujamra, Carlos Augusto Strazzer, Zilka Salaberry, Stênio Garcia, Ítala Nandi, Edney Giovenazzi, Natália do Vale, John Herbert, Vera Holtz, Daniel Filho e tantos outros. Desta vez Laerte interpretou o acanalhado conselheiro Gerard Laugier, acossado pelos problemas políticos, suas armações no reino de Avilan e uma impotência intermitente que atrapalhava sua vida conjugal com a fogosa esposa Lucy, interpretada por Ísis de Oliveira. Era de dar gosto ver as reuniões do conselho. Um conselho de mestres do teatro. Dória, Loureiro e Morrone davam aulas de interpretação todos os dias. Dória trazia a comédia francesa e seu escracho no sangue; Laerte trazia a intensidade das óperas italianas em cada batida de seu coração e Loureiro misturava a tragicidade de quem interpretou dois Creontes, com a complexidade e o talento de quem cantou a "Ópera dos 3 Vinténs" de Brecht e Kurt Weill. Um espetáculo. Talento sólido, depurado, testado e consagrado, que nada tem a ver com a porcaria que vemos nas novelas de hoje. Humor finíssimo, daqueles que só a cabeça privilegiada de Cassiano poderia conceber, e só a competência de três titãs como esses poderia executar. E isso sem falar de Tereza Raquel, que é assunto para um livro.

Depois dessa novela, um sucesso gigantesco, o que é que a Globo faz para recompensar Laerte? Chama-o para uma coadjuvância insignificante na inteiramente esquecida "Gente Fina", em 1990. Foi a última vez que trabalhou na Globo. Talvez sentindo o frio de uma possível geladeira e empolgado com o desafio, Laerte aceitou o convite de Walter Avancini e foi de mala e cuia para o SBT, aceitando um papel na horrenda e malfadada "Brasileiros e Brasileiras".

Decepcionado, Laerte vai trabalhar com Alda Marco Antônio na Secretaria do Menor, promovendo espetáculos teatrais. E foi numa pausa desse trabalho junto ao governo de São Paulo que tive a oportunidade de ver Laerte no palco. No segundo semestre de 1993 ele foi dirigido por Elvira Gentil numa peça chamada O Montador., de Décio Gentil e Adir de Lima. O elenco que o coadjuvava parecia ser amador; possivelmente gente que vinha dos projetos de Laerte junto à Secretaria do Menor. O espaço escolhido foi surrealista: a sala no segundo andar do TBC, quando o teatro inteiro ainda se encontrava praticamente em escombros. E assim, em 10 de dezembro de 93, fui assistir a peça. O espetáculo era esquisito, lembro-me de muito pouco, mas uma cena em que Laerte contracenava com um garoto ficou gravada em minha memória. Ele estava sentado e apenas ouvia o garoto falar. Nunca esquecerei a expressão de seu rosto. Quanta emoção ele podia transmitir, quando queria. Senti o mesmo quando vi Jofre Soares no teatro, uma vez: ele e Laerte eram como pontos de luz no meio daquela garotada. A simples presença de Laerte iluminava aquele sótão do TBC.


No fim do espetáculo fui falar com Laerte. A simpatia de seu sorriso de mil dentes era exatamente a mesma em frente e atrás das câmeras, bem como no palco e nos bastidores. Foi encantador, tratou-me com toda a gentileza e quando lhe pedi seu telefone, a fim de poder conversar com ele mais vezes, deu sem qualquer problema. Dias depois liguei para saber o que pretendia fazer depois do Montador. Disse-me que pretendia remontar um espetáculo que já montara em 1957, O Diálogo das Carmelitas, drama sobre a Revolução Francesa que George Bernanos escreveu baseado em um livro de Gertrude Le Forte (La Dernière à l'Échafaud).
 
Dias depois vi Laerte na televisão com seu pai, o famoso Luiz Morrone, escultor dos bustos de vários governadores de São Paulo, com obras espalhadas por todo Estado, e ele repetiu a informação. Pelo que soube, a peça realmente foi montada, num curso que Laerte ministrou aos sábados, em Bauru.
 
Por um tempo não falei mais com ele. Em 95 ele voltou a trabalhar com Avancini em uma coadjuvância medíocre de "Tocaia Grande", mais uma dessas novelas da Manchete fadadas ao fracasso por trazerem o canastrão Victor Wagner inexplicavelmente como protagonista. Em 96 a Globo transmitiu a primeira das sagas ítalo-brasileiras de Benedito Ruy Barbosa, "O Rei do Gado", sobre as famílias de imigrantes italianos Mezenga e Berdinazzi. Os diretores se arrastaram por Paulo Autran para o papel do velho Berdinazzi. Paulo, firme em sua decisão de não fazer mais novelas, declinou o convite. Laerte, perfeito para qualquer um dos personagens, não foi chamado. O papel ficou com Raul Cortez.
 
Em 97 Laerte voltou ao SBT, desta vez com o velho amigo Abujamra, num remake da novela de Jorge Andrade "Os ossos do Barão". Mais uma coadjuvância pouco memorável, mas pelo menos desta vez ele tinha um elenco competente a seu lado. Foi tb o último trabalho do grande escritor Walter George Durst, que morreu no mesmo ano. Em 1997 Laerte ainda teve tempo de trabalhar numa minissérie que fazia parte de um dos ressurgimentos do núcleo de dramaturgia da Record, chamada "O Desafio de Elias", que sinceramente eu nunca nem ouvi falar, embora trouxesse em seu elenco figuras como Othon Bastos e Leonardo Villar. E foi ficando na Record.

Seus dois últimos trabalhos foram as melancólicas novelas da Record "Estrela de Fogo" e "Tiro & Queda", em 98 e 99. Nesse mesmo 99, a Globo punha no ar o segundo dramalhão italiano de Benedito Ruy Barbosa, "Terra Nostra". Mais uma vez Laerte foi deixado de lado. Além disso, a Manchete já deixara de existir e os núcleos de dramaturgia do SBT e da Record foram novamente desmantelados.

Em 2001, depois de dois anos do mais injusto e cruel ostracismo, a Globo resolveu reprisar "A Gata Comeu", no Vale a Pena Ver de Novo. Mais uma vez a novela foi um sucesso. A título de curiosidade, o Video Show passou a mostrar entrevistas com os atores que participaram da novela, 16 anos antes. Laerte deu um pequeno depoimento à emissora onde não trabalhava fazia 11 anos. Estava muito envelhecido. Nesse meio tempo, seu pai morrera e sua enfisema, que o incomodava há tempos, recrudesceu. Mas o depoimento à Globo foi curto e sem qualquer importância.
 
Reveladora, mesmo, é a entrevista que deu ao Jornal da Tarde, em setembro desse ano. Primeiramente falou do prazer de dar vida a Garibaldo: "Garibaldo foi o melhor papel da minha vida, apesar de já ter feito antes, no teatro, vários musicais infantis. Vila Sésamo foi o primeiro programa a tratar as crianças com imenso respeito. Foi um trabalho adorável". Depois falou das novelas que fez na Globo, mas deixou para o fim seu desabafo:
 
- Adoro fazer televisão. Não sei o que aconteceu, mas caí no esquecimento e os convites sumiram. Não sei fazer outra coisa na vida. Sou ator. Posso até não ser o melhor, mas foi o que eu fiz até agora. (...) Não tenho preferências por nenhum autor em especial, mas o único que me convidava para suas novelas era o Cassiano Gabus Mendes e, infelizmente, ele já morreu.

A mágoa de Laerte fez ainda com que ele cogitasse de sair do Brasil, para um lugar onde seu talento fosse apreciado, talvez Portugal: "Lá, o respeito com o artista brasileiro é enorme e com certeza não ficarei desempregado". O plano não se concretizou, provavelmente por conta da saúde de Laerte, que ia ficando precária.

No fim desse ano eu telefonei para ele. Conversei com a empregada da casa, cujo nome me foge, mas creio que era Francisca. Mais do que uma empregada, era um membro da família, pois já trabalhava com os Morrone há pelo menos 30 anos. Disse-me que o estado de Laerte era delicado, por conta de sua última crise de enfisema. Fiquei bastante preocupado, mas preferi esperar mais um tempo. Só fui ligar de novo 1 ano depois, já no início de 2003. O próprio Laerte atendeu. Estava com a voz boa. Não fazia a menor idéia de quem eu era, evidentemente, mas foi doce, como sempre, e me disse que de fato havia estado adoentado, mas que já estava melhor. Falei-lhe, como não podia deixar de ser, da tristeza de não vê-lo na TV. Ele disse que era assim mesmo, que era necessário abrir campos de trabalho fora da Globo. Falamos de Ewerton de Castro, seu velho colega, que, cansado de ser chamado para coadjuvâncias insignificantes, não esperou nem que a Globo o congelasse; ele próprio rescindiu seu contrato e foi dar aula de teatro.

Aproveitando que "Esperança", a terceira - e por sinal desastrosa - novela italiana de Benedito Ruy Barbosa estava terminando, comentei com ele a estupidez da Globo de não chamá-lo. Ele me fez uma revelação interessante: "Para essa última eles me chamaram, faz pouco tempo. Mas agora eu não quero mais. Não tem nenhum cabimento". Fiquei satisfeito por Laerte não ter aceito. Seria sua volta à Globo e sua última aparição televisiva, mas a que preço? Coadjuvando Reinaldo Gianechini? A nota mais leve ficou por conta de sua lembrança da amiga Lélia Abramo, que em entrevistas por aí, não fazia qualquer segredo de sua mágoa por não ter sido chamado para essas novelas italianas. Laerte obtemperou: "Eu amo a Lélia, mas a coisa aí é mais embaixo. Ela teve seus problemas com a Globo, mas o que ela tem de talento ela tem de geniosa, e não é nada fácil trabalhar com ela". Nos despedimos e fiquei de ligar novamente em breve para conversarmos mais.

Meu último telefonema a ele ocorreu depois do Natal do ano passado. A Cultura reprisou um teleteatro da década de 70 em que Laerte trabalhou com Renato Borghi. Aproveitei a oportunidade para ver como ele estava. Mais uma vez, ele mesmo atendeu. Estava tranqüilo, não parecia de forma nenhuma doente e falamos por uns dez minutos. Revelou surpresa ao saber que a Cultura reprisara novamente o teleteatro, e fez considerações elogiosas a seu diretor, Ademar Guerra. Eu quis ser gentil e perguntei-lhe se tinha projetos para breve; disse-me que estava "aposentadinho". Talvez sua saúde já não permitisse mais que ele trabalhasse. Sua enfermidade não transparecia na voz, mas eu o senti um pouco apático. Já não estava tão doce como sempre. Mesmo assim, usei os últimos minutos de nossa conversa para dizer-lhe de minha admiração por seu talento, e do quanto ele foi uma influência extraordinária em minha vida. Ele agradeceu. Um agradecimento distante. Não mais o agradecimento do teatro, quando devolveu meu abraço como o ídolo que abraça o fã, mas um aceno, de longe.

Quatro meses depois ele morreu.

É um misto de desprezo, revolta e resignação o que sinto quando penso no que aconteceu nos últimos anos da carreira de Laerte. Mas também tenho um certo sossego na alma por ter podido dizer a ele o quanto seu talento era superior, e o quanto ele era admirado pelos amantes do bom teatro. (03/06/2005)

2 comentários:

  1. Olá! O Laerte era primo de minha mãe. Sua mãe, Ignes Morrone, era irmã de meu avô, Hugo Cortopassi. Eu amava conversar com ele. Quando faleceu eu morava fora, me despedi em orações. Estava navegando a procura de curiosidades quando encontrei tua generosa publicação. Obrigada. Abraço!

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    1. Que bom que você nos encontrou! Obrigado pelo comentário, um grande abraço!

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