segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Bibi Ferreira, 70 anos de carreira de nossa maior atriz


Bibi como Mirandolina, na peça "La Locandiera"
de Carlo Goldoni, que Gastão Pereira da Silva
traduziu como "O Inimigo das Mulheres". Foi nesse
espetáculo, em 28 de fevereiro de 1941, que
Bibi fez sua estréia como atriz
Meus caros,
neste dia 28 de fevereiro de 2011, em que comemoramos os 70 magníficos anos de carreira de Bibi, trago a vocês duas entrevistas dela, uma à Folha da Manhã, de 1945, quando ela contava com apenas quatro anos de carreira, e outra à Folha da Noite, já em 1949, depois de largo sucesso de público e sua estréia no cinema.

São entrevistas notáveis, cheias de informações relevantes e de detalhes que nos mostram a importância dessa atriz na história de nosso teatro e na cultura de nosso país. Em 1945 Bibi fala de seu repertório, do sucesso de comédias sentimentais como A Carreira da Zuzu (L’Ecole des Cocottes), de Paul Armont e Marcel Gerbidon, e a ambição de montar a trilogia Mourning becomes Electra, de seu então ídolo Eugene O’Neill. No campo da curiosidade, Bibi dá voltas para explicar por que não se concretizara a estréia do espetáculo Angelus, de sua autoria, na temporada anterior. Alega falta de tempo, e etc., mas pessoalmente há dois anos, me disse ela que postergou a estréia “porque a peça era muito ruim”. Talvez, mas a crítica foi simpática ao esforço dramatúrgico de Bibi. Outra curiosidade é o fato de que a temporada 45/46 marcou a estréia de Henriette Morineau nos palcos brasileiros, através da Companhia de Bibi, acumulando as funções de diretora artística e de atriz. Juntas, entre outras peças, elas montaram Miguette et sa mère, de Gaston Caillavet, texto que em 1950 foi levado à telona tendo como protagonista Louis Jouvet, com quem Morineau trabalhou na França.

Procópio ficou tão orgulhoso das críticas unanimemente positivas à Bibi, que
mandou imprimir um livrinho com os comentários e artigos de jornal
Também interessante é o comentário de Bibi sobre a ausência de novos autores nacionais e a necessidade de se estabelecer um concurso remunerado para incentivá-los. De uma forma ou de outra, poucos anos depois, ganhando um concurso no programa televisivo de Cacilda Becker, surgiram ao mesmo tempo dois dos maiores dramaturgos brasileiros de todos os tempos: Gianfrancesco Guarnieri e Oduvaldo Vianna Filho, filho de Oduvaldo Vianna, que tantas vezes trabalhou com Procópio e Bibi.

Vale registrar que esta entrevista de 1945 foi concedida ao jornalista Ismar Pereira, que trabalhava sob o pseudônimo de "Ivo Peçanha". Para Ismar deve ter sido grato entrevistar Bibi e constatar-lhe o sucesso profissional porque ele estudou com Procópio na juventude e manteve com o ator uma amizade que durou a vida inteira de ambos. Procópio, por sinal, foi talvez o único amigo de Ismar que não o abandonou depois da terrível campanha empreendida pelo Estado Novo contra o jornalista, que se recusava a incensar Getúlio pelos jornais, diariamente.
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“Julgo o teatro nacional numa fase de crescente evolução”, declara a atriz Bibi Ferreira

Folha da Manhã – 30/11/1945
Entrevista a Ivo Peçanha (Ismar Pereira)

Dentre as figuras do teatro nacional, destaca-se Bibi Ferreira no primeiro plano. Filha do ator Procópio Ferreira, nada fica a dever ao apreciado intérprete de Deus lhe Pague. Bibi Ferreira encontra-se nesta Capital, tendo estreado na comédia A Carreira da Zuzu, de Armont e Gerbidon. Sobre diversos assuntos atinentes à sua pessoa e à arte que consagrou Shakespeare e Sarah Bernhardt, ouvimos ontem a intérprete de Pedacinho de Gente.

POR QUE “ANGELUS” NÃO FOI APRESENTADA NA ÚLTIMA TEMPORADA DE BIBI FERREIRA EM SÃO PAULO

No teatro da Rua Boa Vista fomos encontrar Bibi, terminando o ensaio da peça Angelus, escrita por Bibi para ser apresentada ao público paulistano quando da sua última temporada em São Paulo, mas que, apesar de muita propaganda que se fez, foi retirada do programa à última hora, o que surpreendeu a todos. Indagamos qual o motivo que obstara a apresentação de sua peça. Com sua proverbial amabilidade, Bibi Ferreira respondeu-nos o seguinte:

BIBI – De fato. Muita gente ficou surpresa por eu não ter levado à cena a peça Angelus. Isso foi motivado simplesmente por falta de tempo. Cheguei mesmo a ensaiá-la, mas, como as outras peças tomaram todo o tempo de minha temporada, à última hora tive que desistir de apresentar Angelus. Todavia, agora ela será a segunda peça que apresentarei ao público paulista, o que se dará dentro de alguns dias.

Bibi e Suzana Negri em
"Pedacinho de Gente"

Perguntada sobre o entrecho de sua peça, responde-nos:

BIBI – Ela versará sobre a hora do Angelus, a hora sublime da natureza que é também na vida de uma mulher a sua hora de prece. Versará a respeito de conflitos entre mãe e filha apaixonadas pelo mesmo homem e entre a velhice e a juventude. É uma peça sentimental e tenho a certeza de que será bem recebida pelo público e pela crítica bandeirantes.

FICARÁ ATÉ MARÇO NESTA CAPITAL

Respondendo a várias perguntas, disse-nos Bibi Ferreira:

BIBI – Pretendo permanecer em São Paulo até meados de março. Depois espero percorrer o Brasil, levando aos nossos patrícios momentos de alegria e de prazer aliados a bons espetáculos teatrais. Meu repertório para esta temporada é composto das seguintes peças: A Carreira da Zuzu, de Armont e Gerbidon, atualmente em cartaz; Angelus, de minha autoria; Mische, de Etienne Rey; Presa por amor, de Claude Socorri; Fanny et ses gens (ainda em tradução), de Jerome K. Jerome e A Professorinha (La Maestrina), de Dario Nicodemi. São peças ainda não representadas pela minha Companhia nesta Capital, sendo umas de fundo cômico e outras sentimentais.

Bibi em "A Carreira da Zuzu"

BIBI – Os artistas que me acompanham são quase todos conhecidos das platéias paulistanas, como Alma Castro, Branca Mauá, Ribeiro Martins, Alberto Perez, Nuripé Bittencourt. Dos novos, destacam-se Sadi Cabral (novo em minha Companhia, mas sobejamente conhecido dos apreciadores de teatro), Danilo Ramirez e Delfim Gomes. A sonografia e as máquinas estão a cargo de Ivan Neves e Alcides Vergonelli, sendo “regisseur” geral [o que na época seria o “encenador”, ou o diretor de contra-regra] Nuripé Bittencourt. É diretora artística geral Henriette Morineau, ex-integrante da Comédia Francesa e da Companhia de Louis Jouvet, e que fará sua estréia como atriz em minha Companhia na peça Angelus. Trabalhará também em Presa por amor.

GRANDE INTERESSE PÚBLICO PELO TEATRO NESTES ÚLTIMOS ANOS

Qual a pela mais apreciada pelo público em sua última temporada, indagamos, e Bibi Ferreira respondeu:

BIBI – Poderia dizer-lhe que todas foram bem recebidas, mas isso pareceria propaganda. Acho que as que mais agradaram, obtendo invulgar êxito, foram A Primeira da Classe, de Insausti e Malfati, e Pedacinho de Gente (Scampolo), de Dario Nicodemi. Aliás, a predileção do público por essas peças demonstra que ele não tem gosto especial por este ou aquele gênero de teatro e, sim, pelo bom teatro, pelas peças de valor, honestas.

Sobre os melhores autores nacionais e estrangeiros e os artistas brasileiros da sua preferência, adiantou-nos:

BIBI – Responderei somente em relação aos autores estrangeiros. Para mim, o maior deles é o norte-americano Eugene O’Neill. Acho-o inigualável, destacando de suas peças a trilogia Electra. Como artista, o meu sonho dourado é representar essa magnífica obra teatral, o que espero ainda fazer. Quanto aos nacionais, se a eles não me refiro, é porque não desejo magoar ninguém. Gosto muito de diversos autores e artistas, mas salientando uns e esquecendo outros, feriria suscetibilidades.

FALTA DE VALORES NOVOS NO TEATRO NACIONAL

Bibi e Morineau em
"Miguette et sa mère"

Em relação à evolução do nosso teatro e do índice cultural de nosso povo, disse-nos:

BIBI – Considero o teatro brasileiro em fase de crescente evolução. Para isso é bastante notar o interesse do público, dos próprios artistas e das empresas teatrais. Aliás, o próprio Governo Federal tem incentivado bastante o nosso teatro. Sem as subvenções concedidas por ele não poderiam ter sido montadas grandes peças, que acarretam despesas consideráveis. Também a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais tem incentivado muito o teatro brasileiro, protegendo os autores e concedendo-lhes um padrão de vida de acordo com a profissão. Atualmente o autor que tem peça aceita por uma empresa, consegue lucros compensadores, o que não se dava há anos atrás. Mas uma coisa que me tem deixado intrigada é a falta de autores novos. Basta ver os cartazes das Companhias teatrais de São Paulo e do Rio: as peças são quase todas de autores conhecidos e em sua maioria já exibida ao público.

Como insistíssemos para que apresentasse uma sugestão para solucionar essa falta de autores, Bibi Ferreira assim se expressou:

BIBI – Acredito que um concurso que tivesse uma doação, talvez revelasse valores novos. Todavia, nenhum empresário se aventuraria a patrociná-lo, porque não aparecendo boa peça, e sendo obrigado a apresentá-la, não lograria sucesso de bilheteria...

Indagada sobre os seus planos futuros, respondeu-nos:

BIBI – Estudar muito, para poder cada vez apresentar melhor teatro, e, como já disse, percorrer o nosso grande Brasil,  finalizou Bibi Ferreira.

1948 - Três anos depois de trabalhar com Bibi, Morineau formou sua própria companhia e uma das peças que encenou, ainda inédita no Brasil, foi A Streetcar Named Desire, de Tennessee Williams
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Em 1949, Bibi acabava de filmar End of the River com Sabu, estivera a trabalho e estudo na Europa e acabava de voltar ao Brasil, onde o sucesso lhe sorria amplamente com a temporada da peça Senhora. Bibi revela, entre outras coisas, ter assistido na Inglaterra a uma montagem de Crime e Castigo protagonizada por ninguém menos do que John Gielgud (convencionalmente considerado o melhor Hamlet do século XX) e o mestre Jean Louis Barrault na França, interpretando o príncipe dinamarquês, montagem essa que teve influência inclusive no filme de Olivier, lançado em 1948. No mais, ela já demonstrava a inteligência superior de sempre, expendendo os mais brilhantes conceitos sobre a criação teatral e cinematográfica, pormenorizando suas razões para preferir o cinema francês e italiano, ao inglês (uma delas seria “provavelmente por questões de afinidades espirituais”). Aproveita também para antecipar – ao público ávido por revê-la na telona – que voltaria talvez aquele ano ao cinema, o que de fato se concretizou, no filme Almas Adversas, de Leo Merten, onde ela trabalhou ao lado do então famosíssimo ator Fregolente.
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A BATALHA DO TEATRO

MUITO ATRASADO O NOSSO CINEMA EM RELAÇÃO AO TEATRO BRASILEIRO

Folha da Noite – 11/5/1949

Bibi Ferreira fala à Folha da Noite sobre sua temporada em São Paulo – O que viu na França e na Inglaterra – A importância da experiência adquirida – Teatro e cinema na opinião da atriz – Bibi e o cinema

Poucas atrizes, como Bibi Ferreira, podem gabar-se de haver, em tão curto espaço de tempo, firmado reputação artística e granjeado tanta simpatia popular. Senhora de inteligência viva e de cultura humanística realmente sólida, Bibi Ferreira possui todas as qualidades indispensáveis às grandes atrizes: plasticidade mímica, sensibilidade, intuição teatral e gosto pela profissão. Do pai, o grande Procópio Ferreira, herdou Bibi aquela segurança com que se move no palco, segurança de quem sente até no sangue a profissão que abraçou.

Como empresária, Bibi também possui qualidades de positivo valor, principalmente aquela capacidade de fazer-se cercar de bons elementos e de atores corretos e homogêneos, como no caso de seu atual conjunto, que tanto êxito está obtendo em Senhora, a adaptação de Hélio Ribeiro da Silva da famosa novela de José de Alencar, em exibição no Teatro Santana.

Depois de sua estada na Inglaterra, onde filmou Rio sem fim [o articulista refere-se a Fim do Rio, End of the River], película na qual aparece ao lado de Sabu, e que tanto êxito alcançou na Grã-Bretanha e entre nós, Bibi fez uma viagem à França, onde teve o ensejo de assistir aos melhores espetáculos teatrais. A expectativa adquirida, tanto na Inglaterra como na França, foi de grande utilidade nas suas funções de diretora e de empresária, e os resultados estão aí para que o público mesmo possa avaliar.

Atriz querida dos paulistas, não só pelo fato de ser filha de quem é, mas também porque soube impor-se à opinião pública por suas qualidades profissionais, Bibi Ferreira assiste à sua completa afirmação artística, com o êxito da atual temporada. Durante uma das sessões de Senhora, entre a mudança de um e outro ato, tivemos oportunidade de palestrar com a “estrela”.

TEMPORADA VITORIOSA

Inicialmente, à nossa pergunta sobre a situação da temporada em São Paulo, responde-nos Bibi:

BIBI - Magnífica. Acreditava, sinceramente, que a peça iria agradar o público paulista. Mas, francamente, não esperava que o êxito fosse tão completo. Sinto-me, em São Paulo, perfeitamente à vontade. A simpatia que o público desta terra me tributa, por certo, auxilia bastante a realização do meu trabalho. Depois de Senhora, pretendo levar à cena o original norte-americano, Diabinho de Saias, de Norman Krasna, ligeira e leve comédia de costumes. A seguir porei em cena Hóspede em Casa, também comédia, mas de gênero diferente. Faço questão de seguir esta diretriz, intercalando em minhas temporadas dramas e comédias para não sobrecarregar o público apenas com um gênero teatral. E parece que estou certa...

Há uma ligeira interrupção, que o repórter aproveita para fazer-lhe uma pergunta sobre o nosso teatro. Bibi prontamente responde:

BIBI - Em relação aos demais teatros acho que o nosso atingiu uma situação invejável. Devo explicar-me: teatro, como se sabe, é tradição de cultura, a cultura é processo de assimilação. Nesse sentido, somos pobres. Contudo, estamos no mesmo ponto em que se encontravam outros países, atualmente mais adiantados que nós, na nossa “idade”. Mas, sobre aqueles países, temos a vantagem de poder aproveitar a sua própria experiência. De qualquer maneira, e com todas as nossas falhas, acho que o teatro brasileiro nada fica a dever aos demais teatros.


NA FRANÇA E NA INGLATERRA

Prosseguindo, diz Bibi Ferreira:

O Raskolnikoff de John Gielgud
BIBI - Tive oportunidade de assistir, na França e na Inglaterra, aos melhores espetáculos de teatro que estavam sendo levados. O que me impressionou, por exemplo, nos ingleses, foi a simplicidade com que os atores se apresentam em cena e a preocupação, posso dizer de ordem secundária, que dão aos cenários. Para o inglês, o que importa é o texto da peça. A propósito, assisti ao grande ator John Gielgud, em Crime e Castigo, novela de Dostoiewsky, em teatralização de Gaston Baty, e posso afiançar-lhe que esse extraordinário intérprete de Shakespeare pouca importância dá ao cenário e aos “decórs”, preferindo ater-se ao conteúdo temático. Também no Old Vic, o espírito predominante é este. Quanto à França, assisti a Jean Louis Barrault em Hamlet, de Shakespeare, em “mis-em-scéne” do próprio ator, absolutamente revolucionária, sem ir de encontro ao texto, e Pantomimas, uma série de velhas pantomimas francesas, levadas à semelhança dos espetáculos da Commedia dell’Arte. Assisti, ainda, na França, a Águia de Duas Cabeças, de Jean Cocteau com Jean Marais e Edwige Feulliere, nos principais papéis. Confesso que foi de grande utilidade para mim assistir a esses espetáculos.

TEATRO E CINEMA

O Hamlet de Jean Louis Barrault e
a Ofélia de Simone Valere

A seguir, a palestra recaí sobre as dificuldades inerentes ao teatro e ao cinema. A esse respeito, diz Bibi:

BIBI - No teatro, as dificuldades para o ator são bem maiores do que no cinema, porque naquele o contato do protagonista com o público é mais direto: no cinema lança-se mão de vários truques para substituir o ator, a voz do ator e até a interpretação do ator, sem qualquer transtorno para os resultados da película; no teatro, esses recursos seriam impossíveis, sem despertar a atenção dos espectadores. No cinema, o ator tem a seu favor a direção, à qual está afeta grande parte da responsabilidade, sem contar, por exemplo, o olho científico que é a “câmera”, e que, ao contrário do que se poderia imaginar, simplifica sobremaneira o trabalho do ator; no teatro, ao contrário, a contribuição do ator é grande e de seu desempenho depende, sem dúvida, grande parte do êxito de um espetáculo.

BIBI E O CINEMA

Depois de nova interrupção, Bibi prossegue falando de cinema:

BIBI - Considero o cinema inglês muito frio, muito sem alma. Há qualquer coisa de glacial no cinema britânico que me deixa perplexa. Não posso negar o seu desenvolvimento técnico e artístico. Contudo, acho melhor, muito melhor, o cinema francês e o cinema italiano. Provavelmente por questões de afinidades espirituais. O cinema francês, por exemplo, com sua segurança e a objetividade de sua interpretação, merece um dos melhores lugares do mundo. Depois pode assinalar-se o cinema italiano, cujo realismo está subvertendo completamente o conceito que se tem de cinema. São cinemas que vão direto ao coração da gente. Daí, possivelmente, o seu grande êxito junto às massas e a sua crescente popularidade.

Bibi e Fregolente no então futuro
"Almas Adversas"

Bibi fala ainda de suas atividades cinematográficas e confirma uma pergunta ao repórter:

BIBI - Realmente estou fazendo um filme, sob a direção do Sr. Leo Merten. A história se passa em Congonhas do Campo e aborda assunto brasileiro. Tenho, na película, duplo papel. A filmagem está sendo feita com certa morosidade, em virtude dos meus afazeres teatrais. A empresa espera, porém, que o filme esteja terminado em três ou quatro meses. Depois dessa película, não sei se continuarei a fazer cinema. Naturalmente, isto dependerá da película que estou filmando.

E concluindo sua entrevista, acrescentou:

BIBI - Em relação ao teatro, o nosso cinema ainda está muito atrasado. Mas confio que, em breve, também o cinema terá lugar de importância dentro de nossas atividades artísticas, e poderá ser colocado sem qualquer desdouro, ao lado de outros cinemas do mundo. A nossa perspectiva é boa. Mas só o futuro poderá pronunciar-se a esse respeito.
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Parabéns, Bibi!
Obrigado por tudo e mais 70 anos de talento!
Bernardo
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VEJA TAMBÉM:
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sábado, 12 de fevereiro de 2011

Tardes com Fernando Jorge

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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Francisco Assumpção Ladeira (1910 - 2011)


Falei com Chico Ladeira pela primeira vez em 1999, logo no início de minha pesquisa sobre Jânio. Lembro-me que embora agradável, nossa conversa não foi inteiramente satisfatória para mim. Eu na época buscava quem me colocasse na trilha certa dos fatos acontecidos entre 1940 e 1960. Chico ajudou, mas sua conversa era tão rica e tão seivosa, que acabou sendo contra-producente para mim, naquele momento.

Saí tonto de seu apartamento, com a quantidade gigantesca de informações que ouvi na conversa de três ou quatro horas. Era como se eu buscasse aquele fascículo de História do Brasil vendido em bancas, com 30 páginas contando o período entre a era Getúlio e o golpe de 64, e me deparasse acidentalmente com os 30 volumes da Enciclopédia Britânica.

Pelos anos seguintes não voltei a Chico. Segui sozinho na pedreira que era esse assunto, e só quando comecei a escrever especificamente sobre Jânio na Câmara Municipal, senti a necessidade de voltar aos vereadores daquela legislatura, que eu já entrevistara anteriormente, mas que agora poderiam me ajudar ainda mais. Em 2008 fui atrás de Décio Grisi. O seguinte foi Chico. Liguei com medo, sabia que Chico já tinha 89 anos quando conversamos pela primeira vez, e, sem qualquer morbidez, a hipótese de que ele já tivesse nos deixado era a mais provável. Aliás, foi o que aconteceu com três vereadores, meus queridos amigos da fase inicial da pesquisa, Nicolau Tuma, Sebastião Gomes Caselli e Anis Aidar. Para minha suprema alegria, Chico estava vivo, bem, e aos 98 anos mostrava exatamente a mesma disposição para prosear. Durante o segundo semestre de 2008 e o primeiro de 2009 nos encontramos várias vezes. Sempre lá pelas três ou quatro da tarde. Terminando invariavelmente lá pelas oito ou nove da noite.

Em nosso reencontro eu já estava mais maduro e mais equipado de recursos intelectuais e culturais para compreender o privilégio de ouvir alguém que aos 98 anos esbanjava saúde e lucidez. Estava de bem com a vida, aguardando serenamente a morte, sem nenhum medo ou apreensão, apenas com a tranqüilidade da consciência limpa e o prazer de compartilhar uma pequena porção de sua frondosa experiência de vida com um rapaz que se lembrou que ele existia, e que tinha coisas lindas para contar. No dia 8 de janeiro de 2011 ele morreu, aos 100 anos. Ainda não quero escrever sobre Chico porque não digeri a perda desse meu amado amigo. Prefiro mostrá-lo, finalmente, a vocês. Sua imagem em movimento será infinitamente mais eloqüente.

No vídeo que vem a seguir, Chico recita uma poesia que compôs em 1931, quando estava no último ano de Direito no Largo São Francisco. Foi uma das poucas vezes, em nossos encontros, que ele efetivamente pediu para que se registrasse o que ele estava contando. Poesias sobre a garoenta São Paulo - seja a dos anos 20 e 30 ou a de antanho - eram numerosas entre os estudantes do Largo. O próprio Jânio escreveu a sua, em 1938, intitulada Evocação:

Jânio


Meu São Paulo, querido. Eu te revejo
pequenino, brumoso, frio, tristonho.
E humilde, São Paulo, e sertanejo,
eras grande no amor! Grande no sonho!

Eu me lembro, São Paulo... Uma janela
se ilumina na bruma, e de repente
abre-se, e à luz incerta de uma vela,
a moça escuta a serenata quente.

Há romances no ar! Baila no espaço
um cheiro de aventura e na taberna,
os boêmios recitam ao compasso,
eternos versos da poesia eterna.

Corre um rumor longínquo. E a bruma fria,
traz vozes de poesias e de oração...
- Um estudante canta a Academia;
outro estudante prega a Abolição!

Passam vultos sombrios e distante,
no silêncio da noite, alguém dedilha
uma canção de amor à linda amante
que se oculta, medrosa, na mantilha.

Meu São Paulo, querido... Eu te revejo,
pequenino, brumoso, frio, tristonho...
E humilde, São Paulo, e sertanejo,
eras grande no amor! Grande no sonho!

Algumas imagens são até semelhantes nas duas poesias, só que ao contrário de Jânio, que rimou decassílabos e batalhou por sua publicação na Arcádia, revista da Academia de Letras do Largo, esta aqui, composta pelo Seu Chico, é feita em prosa intimista e completa, em 2011, 80 anos de ineditismo. Ineditismo esse que termina agora. Obrigado, Seu Chico, amigo gentil e amado!



Noite nevoenta, cheia de abandono. O Viaduto do Chá deserto.
Do alto de um arranha-céu pálido e entediado, o anúncio espia o silêncio da cidade e de quando em quando a vassoura de luz de um farol indiscreto varre a neblina dentro da noite inquieta.
Meus passos na calçada têm ressonância de surdas marteladas distantes.

Rua Barão de Itapetininga. Praça da República.

Fina e impertinente, a garoa vai caindo.
Abriga-me a porta semi-cerrada de um botequim vazio.
Me ponho a olhar para a praça deserta, para as ruas molhadas, para a dança esquisita da garoa em volta dos lampiões.

Um varredor, à meia voz, passa cantando uma canção dolente, cheia de saudade de sua terra distante.
Um boêmio cambaleando assobia sem ritmo a música devassa de uma maxixe velho.
E num banco de pedra sob as árvores, um vulto encolhido, mal-coberto por um sobretudo esburacado e antigo, talvez sonhando coisas bonitas, dorme.

Agora vai passando a garoa.
O sino de São Bento soou duas longas badaladas, que foram pelo ar com o rumor soturno de um bonde retardatário.
Caminho novamente, e levo comigo na retina a visão ampla do aspecto noturno, ao frio de junho, ao sussurro amargurado daquelas velhas árvores da Praça da República, e no coração, alegria de ter sentido as coisas bonitas de uma paisagem triste.
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Ver também:
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