quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

"A Semente", de Guarnieri


Logo após o sucesso retumbante e avassalador de Eles não usam Black-Tie, no Teatro de Arena, em 58, Guarnieri foi contatado por Sandro Polloni, sobrinho de Itália Fausta e dono de uma prestigiosa companhia teatral com sua mulher, a belíssima atriz Maria Della Costa. Sandro queria que o dramaturgo escrevesse uma peça para Maria, a ser encenada pela companhia do casal. Guarnieri, com apenas 24 anos, estava maravilhado com o sucesso atingido por sua peça de estréia, mas também não sopitava uma certa claustrofobia, decorrente do espaço mínimo oferecido pelo teatrinho da Teodoro Bayma. Assim, foi com prazer que ele aceitou a encomenda de Sandro, e escreveu Gimba, ambientada numa favela carioca. O projeto lhe dava a oportunidade não só de escrever para o palco italiano, com grandes cenários, mas de colocar 30, 40 atores em cena.

Flávio Rangel e Guarnieri, a bordo do navio que os levou à turnê européia de Gimba

Nas palavras do próprio Guarnieri, em depoimento à Funarte, em 76: "Eu já queria mostrar a favela do Rio, mesmo, aquela favelona que eu tinha visto, um negócio mais aberto, mais amplo. (...) Que o espetáculo tivesse espaço em torno dele. Que tivesse massas, e que eu hoje ainda acho que é o grande espetáculo. O grande espetáculo popular é as massas, mesmo. Esse, sim. E o Gimba foi essa necessidade. E quando eu vi o espetáculo montado, realmente senti que era grandão, que era bom, mesmo".

Gimba estreou em 17 de abril de 1959, no Teatro Maria Della Costa. Na direção, um mestre tão precoce quanto Guarna, e um amigo para toda vida: Flávio Rangel. Mas de Gimba falaremos em outra ocasião. O que nos importa aqui é situar a obra do autor no tempo, para que todos entendam como surgiu sua terceira peça, uma obra-prima chamada A Semente.

A nova - e genial - geração de dramaturgos: Jorge Andrade, Guarnieri e Dias Gomes

Depois de apresentar Gimba no Brasil, Guarnieri, Sandro Polloni e Flávio Rangel (recém-nomeado diretor artístico do TBC) levaram o espetáculo para a Europa. Entre tapas, beijos, um elenco gigantesco e cenários maiores ainda, além de toda a intempestividade de três espíritos anárquicos e indomáveis, a peça fez uma excursão vitoriosa e inesquecível por diversos países. A volta ao Brasil, em maio de 60, foi agridoce. O sucesso de Gimba era comentado a torto e a direito, o teatro brasileiro passava por um de seus momentos mais criativos, com o surgimento do Arena, de dramaturgos como Guarnieri e Jorge Andrade, diretores como Flávio e Boal, e no entanto a situação financeira das companhias ia de mal a pior. Franco Zampari anunciava para quem quisesse ouvir que o TBC, com um sucesso atrás do outro, não conseguia arcar com suas despesas, e estava prestes a fechar as portas. Para se ter uma idéia da situação, nesse mesmo ano de 60, Flávio Rangel dirigiu no TBC a primeira montagem da obra-prima de Dias Gomes, O Pagador de Promessas. A peça foi imediatamente aclamada, sucesso de crítica e público, um marco do teatro brasileiro equivalente à Black-Tie, e mesmo assim o máximo que conseguiam era pagar o espetáculo, não sobrando qualquer dinheiro.

Paralelamente, ia amadurecendo na cabeça de Guarnieri a idéia de sua terceira peça. Em entrevistas, ele dizia apenas que seria uma peça sobre operários, encerrando o ciclo iniciado com Black-Tie. Mas a coisa era bem mais profunda. Ninguém sequer imaginava que o que estava em preparo era o primeiro texto do teatro brasileiro a tratar escancaradamente da relação entre a cúpula do Partido Comunista e seus militantes, durante uma greve operária. Mais do que isso: a amizade surgida entre diretor e autor, em Gimba, fez com que Flávio Rangel convidasse Guarnieri a montar a peça não no engajadíssimo Teatro de Arena, mas no burguesíssimo TBC. José Rubens Siqueira, biógrafo de Flávio Rangel, definiu perfeitamente a situação: "Abordar a questão social brasileira com O Pagador de Promessas significou uma abertura considerável, mas falar de comunismo no templo do teatro burguês era de uma ousadia sem precedentes".

Políticamente, o Brasil vivia o fim do governo JK, pródigo em obras faraônicas e engolfado no otimismo causado pela vitória na copa de 58. O PCB, em um de seus raros períodos de legalidade, encontrava-se como sempre desarvorado e sem perspectiva de chegar ao menos próximo ao poder, já que o candidato do governo à sucessão de JK era o Marechal Lott, militar da velha guarda, e seu opositor era o imprevisível Jânio Quadros, desafeto pessoal de Prestes. No cenário internacional, o Partidão também levara pouco antes um golpe duríssimo, com a exposição, por parte de Krutshev, de todos os desmandos e monstruosidades cometidas durante a ditadura de Stalin na URSS. Uma coisa era certa, entretanto: em outubro de 60, enquanto as urnas davam uma vitória esmagadora a Jânio, Guarnieri jogava todas as suas anotações e impressões num liqüidificador, e em três dias A Semente era dada à luz.

Flávio Rangel e o TBC enfrentavam problemas financeiros e ideológicos. Os financeiros foram equalizados quando o então governador Carvalho Pinto cedeu - depois de violentíssima briga no meio teatral - uma subvenção de 8 milhões de cruzeiros à Companhia, com os quais dívidas foram pagas e o pontapé inicial se deu na produção de A Semente, no início de 61. Mas eram os problemas ideológicos que dariam dor de cabeça ao grupo até horas antes de abrir o pano. Naquela época, toda e qualquer peça profissional tinha que ser submetida à censura. O TBC não era exceção, e um texto de A Semente foi mandado para a divisão de diversões públicas da secretaria de Segurança de São Paulo. Dias se passaram e nada. A estréia do espetáculo foi marcada para 28 de abril de 1961.

O atraso no veredito da comissão fez com que Flávio fosse à Brasília tratar diretamente com Jânio a liberação da peça. Jânio, quase 20 anos mais velho que Guarna, admirava o jovem dramaturgo e ator, fôra espectador atento e entusiástico de Black-Tie, quando governador de São Paulo, dera-lhe pessoalmente o prêmio de melhor dramaturgo de 1958, e Flávio julgou não ser difícil conseguir o aval do agora presidente. Na capital, foi tratado como um príncipe por Jânio e seu secretário particular, José Aparecido, que era respeitado e estimado pela classe artística. Ficou lá dois dias e voltou tranqüilo para São Paulo, com a promessa de que Carvalho Pinto já falara com seu secretário de segurança pública, Virgílio Lopes da Silva, e a peça seria liberada. Logo, é de se imaginar o choque de Flávio quando soube que o Diário Oficial do Estado de São Paulo, em sua edição de 26 de abril, trazia o parecer da comissão de censores, proibindo a peça!

O parecer, que vinha da comissão de censura da divisão de diversões públicas e do DOPS, era assinado por um substituto de Virgílio Lopes. O documento é patético e é impossível não rir de seu conteúdo, hoje em dia. Em seu primeiro parágrafo diz que "após serena e desapaixonada apreciação da peça A Semente, de autoria do teatrólogo Gianfrancesco Guarnieri, forçoso é concluir que o seu texto invariavelmente constitui claro e audacioso incitamento à subversão da ordem pública, objetivando solapar em suas bases a estrutura do regime democrático vigente no país". O substituto segue, dando mais razões para a proibição, como o linguajar do "mais rasteiro calão" de algumas cenas, "alusões deprimentes às autoridades públicas e religiosas", e ainda faz um apelo a Guarnieri - a quem elogia como "um espírito culto" e de "vivaz inteligência" - no sentido que ele escreva peças "que proporcionem ao espectador a apreciação das contingências da vida", mas que estas não estejam contaminadas com "a inquietude contagiante e destrutiva com que procurou vestir a alma de seus personagens".

Outra verdadeira pérola de raquitismo mental é o telegrama imediatamente enviado pelo corpo docente do colégio de freiras Sacre-Coeur de Marie - de muitos que foram mandados, no mesmo teor - parabenizando os censores pela decisão: "O Corpo Docente do Colégio Sacre-Coeur Marie congratula-se vossência louvável ato proibindo a peça A Semente perigosa costumes a nossa juventude".

Guarnieri e Flávio foram até Virgílio e pediram a ele que tornasse sem efeito o parecer do substituto, com base no aval de Jânio. Virgílio, pisando em ovos, argumentou que não poderia simplesmente desautorizar uma ordem de seu substituto. Mas ofereceu uma solução: a peça seria apresentada para uma comissão de intelectuais formada por membros da imprensa, das artes, da edilidade, da igreja, do rabinato, etc. - procedimento idêntico, aliás, a que foi submetida a peça Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, no ano anterior - e a decisão dessa comissão seria pesada junto ao parecer da censura. Na madrugada de 26 para 27 de abril, o espetáculo foi encenado no TBC, para uma comissão que contava 7 pessoas. Terminada a apresentação, a comissão se reuniu naquela madrugada mesmo, e às 4 da manhã decidiu, por 5 votos a 2, pela liberação da peça. Mas, tal qual uma votação que envolve o Senado e a Câmara, a liberação dos intelectuais - que já continha alguns cortes mínimos que Guarna fizera de bom grado para apressar o processo - teve que ser, por sua vez, analisado pela censura. Para essa análise, foram nomeados três censores. E era sempre nesses "censores biônicos" que morava o perigo. No livro de Sérgio Roveri, Guarnieri discorre sobre a cretinice desses censores:

"Nós corríamos um risco absurdo, porque eles não exigiam que as cenas fossem refeitas ou reescritas. Eles exigiam que elas fossem cortadas do espetáculo, cenas inteiras. Os cortes eram feitos de acordo com os critérios do censor, o que era um grande absurdo. O censor... meu Deus, qual era a legitimidade deste censor? (...) Os anais da censura trazem cada imbecilidade, cada coisa horrorosa. Na Semente, por exemplo, eles exigiram que fossem cortadas algumas cenas que eles consideravam ofensivas. E sabe qual era uma das mais ofensivas para eles? Uma seqüência em que um personagem coloca a cabeça na barriga de uma mulher grávida para ouvir o nenê chutando. [Guarna alude a uma cena do casal de personagens João e Alice, feitos por ele mesmo e Nilda Maria] (...) O que há de ofensivo nisso? Pois eles cortaram."

Na tarde do dia 27, o martelo foi batido: Virgílio Lopes da Silva - de quem Guarnieri lembraria como um homem que foi "corajoso e nos ofereceu cobertura e solidariedade" - liberava a peça, mas apenas para a temporada do TBC, e mais lugar nenhum do Brasil. E a estréia veio, finalmente, no dia seguinte. A Semente era tão grandioso quanto Gimba, na medida do que Guarna desejava, em termos de amplidão cênica e humana, e daquilo que Flávio fazia melhor, ou seja, um espetáculo cinematográfico ao vivo, sobre um palco. Desde o começo dos ensaios, o cenógrafo Cyro Del Nero trabalhou A Semente como sendo "uma idéia ao ar livre". Não alcanço exatamente o significado da idéia de Cyro, mas o certo é que seu trabalho foi nada menos do que extraordinário. Ele vinha de haver trabalhado na Europa como assistente de cenografia de Wieland Wagner, um dos maiores cenógrafos de ópera de todos os tempos. Em depoimento a José Rubens Siqueira, Cyro conta como concebeu o cenário de A Semente: "Então eu cheguei com tudo isso aqui no Brasil. Me dão A Semente. Movimento operário, reivindicações... Operístico, operístico! Botei um cubo no meio, dentro do qual se passavam dois pisos, desciam coisas que cortavam o palco em fatias, sabe?" No programa da peça, Cyro já havia descrito seu trabalho de maneira bastante poética: "Talvez tenhamos conseguido o arcaísmo de se conservar o mistério apenas entre atores e cenário; cenário veste ator, sem confidências com o público, fatias e planos não consideram o espectador uma quarta parede, mas lhe dão uma visão de pássaro mental".

Em artigo publicado no Estadão, um dia antes da estréia, em meio às gestões para liberação do texto, Flávio foi bem menos lírico e deu detalhes impressionantes:

"A Semente é tecnicamente dificílima: 22 seqüências espalhadas por 10 cenários, que vão e voltam. Além de outras tranqüilidades tais como uma passeata, um vôo, uma pancadaria, um amor profundo, um velório, uma praça (com igreja), uma moça grávida e outra que quer ficar, um depósito de lixo, operários trabalhando com máquinas, uma pequena canção, um côro, muita gente em cena [40 pessoas] e o fascinante personagem de Agileu, síntese da massa. Aí eu preferi fazer um filme: não foi possível".

Flávio realizaria poucos anos depois, com a produção de Gimba, o sonho de levar um de seus grandes espetáculos para o cinema. Mas a experiência foi malfadada e de sucesso limitadíssimo. O talento pujante de Flávio, bem como suas veleidades cinematográficas, tinham um lugar certo, que era o palco de um teatro.

Ao cenário somava-se o belo elenco de A Semente. No papel de Agileu, o grande Leonardo Vilar, que vinha de três performances aclamadíssimas no TBC: Pedreira das Almas, de Jorge Andrade (peça que seria informalmente "a semente" de A Semente), Panorama Visto da Ponte, de Arthur Miller e O Pagador de Promessas, de Dias Gomes. No papel de Rosa, esposa de Agileu, Cleyde Yáconis, que junto com seu então marido Stênio Garcia - o militante Jofre - já haviam participado de O Pagador de Promessas, ambos emprestados da Companhia de Cacilda Becker. Além de ator, Stênio fazia também as vezes de assistente de Flávio Rangel. Cipriano, outro militante companheiro de Agileu e Jofre foi feito pelo jovem Juca de Oliveira, em início de carreira. No papel de Justina, amiga de Rosa, estava Nathália Timberg, que protagonizara O Pagador de Promessas junto a Léo Vilar (no filme de Anselmo Duarte, o papel feito por Nathália no teatro foi para Glória Menezes). Flávio Migliaccio, companheiro de Guarna desde os primórdios, no Arena, também estava no elenco, no papel de um operário.

A peça foi um sucesso de público e de crítica, mas nem por isso a igreja católica interrompeu sua grita contrária à peça. O próprio Cardeal Motta, emitiu aviso proibindo os "fiéis cristãos" de assistir o espetáculo "sacrílego, demolidor da honestidade dos costumes e subversor da ordem democrática". Outro que não teria ficado muito satisfeito com a peça era o próprio Prestes. Mas A Semente não chegou a ser boicotada pelo partidão. O máximo que Prestes fez, depois de assistir a peça, foi cumprimentar Guarna e avisar-lhe que comunista não batia em mulher, referindo-se à cena em que Agileu estapeia Rosa.

A reação mais idiota, contudo, veio da direita extremista, reacionária, que não permitia uma peça sobre o partido comunista, mesmo quando ela expusesse os maiores pecados do partido. Esse movimento chegou a cogitar a montagem de uma paródia à Semente chamado "O Caroço", que não chegou a se efetivar. A história de "O Caroço" é hilária e merecerá um post individual em breve.

A Semente ficou em cartaz com casa lotada até agosto de 61, o que correspondia a uma temporada de grande sucesso, naquela época. O único lugar onde ela foi apresentada, além do TBC, foi no Sindicato dos Ferroviários de São Roque.

Em determinado momento da peça, um dos dirigentes zomba de Agileu, chamando-o de visionário, por julgar que aquele era o momento de desencadear uma greve na fábrica onde trabalhava. Embora Guarna tenha sido sempre o extrato de seus personagens socialistas, naquilo que eles têm de melhor e mais equilibrado, o visionário era ele. Porque os métodos repressivos tanto da direita quanto da esquerda podem ser secularmente os mesmos, mas raramente uma pessoa conseguiu captar e demonstrar com tanta inteligência os desmandos de uma estrutura que valoriza a idéia sobre o indivíduo, em contraponto às injustiças de um sistema que só visa o lucro em detrimento do ser humano. Um desnudamento da esquerda e uma autópsia na direita. E tudo isso numa época em que o Brasil parecia viver a calmaria da democracia, quando na verdade, durante os 5 anos do governo JK, todos os vícios capitalistas possíveis haviam sido cometidos e varridos para debaixo do tapete. E enquanto Brasília era exibida para o mundo como uma maravilha moderna, a classe operária que a construiu não tinha permissão de viver ali, e era varrida para debaixo desse mesmo tapete, ou seja, para os favelões que cercavam a capital e que hoje se transformaram em cidades-satélite. E Guarna podia não concordar em ser considerado "visionário", por sua modéstia, mas com certeza estava atento a seu povo, conforme disse a Sérgio Roveri:

"Isso se deu porque eu era um observador, só isso. Mas não um observador neutro, que diz apenas: eu vou observar e ponto. Não, eu tinha um conhecimento, aquilo era a minha vida. Eu ia fuçar mesmo para ver como eram as coisas, como eram os movimentos estudantis, dos trabalhadores, dos camponeses. (...) Eu escrevia minhas peças a partir de todas essas observações, que não eram observações plásticas, mas de alguém que punha mesmo a mão na massa. (...) Acho que minhas peças seguiam um movimento histórico, elas acompanhavam a realidade da época, e até desembocavam em algum lugar. Só que não vejo nenhum delas como um exercício de futurologia. Eu nunca tive talento para descrever o futuro distante, O que eu conhecia era a visão do homem brasileiro, que era objeto da minha preocupação."

Em entrevista ao próprio Flávio Rangel na Funarte, em 1976, Guarna diria que A Semente é, das peças que escreveu, sua favorita.

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