quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

ALÔ, DOLLY!, com Bibi Ferreira e Paulo Fortes


Meus caros,
o escritor americano Thornton Wilder (1897/1975) se baseou em duas comédias do século 19 (uma austríaca e outra inglesa) para escrever a peça The Merchant of Yonkers, em 1938. Levada ao palco em Nova York, foi um desastre.

Passados 17 anos, o renomado diretor inglês Tyrone Guthrie (1900/1971) expressou o desejo de revisitar o texto fracassado de Thornton. Ao invés de simplesmente adaptar o texto original para impedir novo fracasso, o autor resolveu reescrever a peça, indo beber na fonte original dos textos do século 19: a Aululária de Plauto e o Avarento de Molière. E desse novo trabalho surgiu The Matchmaker (A Casamenteira). O personagem da alcoviteira Dolly Levi é filha legítima da Frosine de Molière, assim como Harpagon seria o alterego de Horace Vandergelder.

Ruth Gordon foi a primeira Dolly, e a peça teve bastante sucesso em sua estréia, em 1955. A peça virou um filme com Shirley Booth e Paul Ford em 1958.


Em 1964, Thornton exorcizaria de uma vez por todas o doloroso fracasso de 1938: The Matchmaker foi transformada em musical, com libreto de Michael Stewart (1924/1987) e música e letras de Jerry Herman (1931). Rebatizada de Hello, Dolly!, a peça tornou-se um sucesso fulminante na Broadway. Mas não sem percalços. Inicialmente, Ethel Merman e Mary Martin foram cooptadas para o papel de Dolly. Ambas recusaram (embora tenham acabado interpretando a personagem em montagens posteriores). Na quarta ou quinta tentativa, o produtor David Merrick chamou a excelente Carol Channing (que por sinal tem exatamente a mesma idade de Bibi). A atriz realizou um trabalho extraordinário e o espetáculo abocanhou nada menos do que DEZ tonys (o oscar do teatro).

Bibi e Ginger Rogers

Foi nesse momento que o espetáculo chamou a atenção dos produtores de Bibi, no Brasil. Não só a atriz vinha imbuída de uma aura de sucesso absoluto com a montagem de My Fair Lady, mas o próprio espetáculo de Herman e Stewart vinha se provando um blockbuster sem precedentes pelo mundo todo.

A produção, desta vez, recaiu apenas sobre Victor Berbara, que já produzira o My Fair Lady de Bibi e Paulo Autran. A tradução do libreto e das músicas ficou a cargo de Haroldo Barbosa, o próprio Berbara e o escritor Max Nunes.

As coreografias originais de Gower Champion, também diretor do espetáculo na Broadway, foram supervisionadas no Brasil por Lowell Purvis. Durante o período de ensaios, Bibi deu um jeito de viajar a Nova York para trocar idéias com a grande Ginger Rogers, que assumiu o papel de Dolly quando Carol Channing saiu da peça.

Bibi e Paulo Fortes

Alô, Dolly! estreou em março de 1966, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. Bibi encarnou Dolly e contracenou com Paulo Fortes - o maior barítono brasileiro do século 20, e com quem Bibi dizia ter aprendido tudo sobre o canto lírico - Augusto César Vanucci (que pouco antes de morrer dirigiu o Bibi in Concert especial para a Globo, em 91), Lisia Demôro (que vinha de fazer My fair Lady com Bibi), Hilton Prado, Marli Tavares e grande elenco, de onde se destacava o mestre Milton Carneiro, responsável pelas maiores gargalhadas e aplausos em cena aberta de toda a peça. É um verdadeiro tour de force. Em My Fair Lady é seguro dizer que havia pouquíssimo espaço para qualquer um brilhar, a não ser Bibi e Paulo Autran, e, num segundo plano, Jayme Costa e Hélio Paiva. Em Dolly!, Hilton Prado, e sobretudo Lísia Demôro brilham intensamente com suas vozes de tenor e soprano.

Mas merece destaque o comentário do jornalista Paulo Salgado sobre Paulo Fortes (1923/1997), pois nos dá a medida exata do patamar de respeito em que todos tinham esse nosso maravilhoso artista: "Não havia, no nosso mundo teatral, outro artista que pudesse viver com tanta correção Horatio Vandergelder a não ser o barítono Paulo Fortes. Só podemos expressar nossa admiração ao belo trabalho do grande intérprete de Falstaff dizendo: Obrigado, Paulo Fortes, continue a dar ao teatro musicado este seu grande talento histriônico e esta belíssima voz! Paulo Fortes, depois de ter conquistado o público de ópera e de televisão, vai tomar de assalto as platéias dos musicais. É bom ver um artista de tanta classe no tradicional Teatro João Caetano". (Revista Querida, abril de 1966)

Não sei ao certo quanto durou a temporada de Dolly! mas ela ultrapassou as 300 apresentações. O sucesso, ou melhor, a longevidade de My Fair Lady não foi repetida, talvez porque a temática excessivamente americana da peça perdesse um pouco a graça no Brasil, ou porque o objetivo não fosse esticar a temporada por anos, como foi o caso do musical de Lerner e Lowe. O certo é que a recepção foi a melhor possível. Sobre Bibi, eis o que disse o mesmo Paulo Salgado: "Fazemos questão de iniciar este nosso comentário prestando uma homenagem toda especial a esta grande atriz, que soube ser, com graça, leveza, com acerto e alegria, a deliciosa personagem criada originalmente por Thornton Wilder e musicada por Jerry Herman. Raramente temos visto uma atriz comunicar tão rapidamente seu personagem à platéia como Bibi nessa peça".

Depois de Dolly!, Bibi ficou seis anos longe dos palcos, para onde só voltou em 1972 com Paulo Autran, em Homem de la Mancha. Durante esse período dirigiu alguns espetáculos, mas trabalhou quase que exclusivamente em televisão.

Barbra Streisend, no filme Hello, Dolly!

O sucesso financeiro das sucessivas montagens do musical nos teatros e a venda posterior dos direitos para o cinema fizeram do velho Thornton Wilder um homem rico e ele viveu feliz e tranqüilo seus últimos 15 anos de vida. O musical virou filme em 1969, pelas mãos do mestre Gene Kelly. A produção milionária estrelada por Barbra Streisend decepcionou crítica e público e foi um fracasso financeiro. Uma das críticas, além do que teria sido uma direção pouco inspirada de Gene Kelly, se assemelha muito ao que aconteceu com o filme de My Fair Lady, em que uma atriz de teatro (Julie Andrews) foi substituída por alguém supostamente mais rentável em termos cinematográficos (Audrey Hepburn). Neste caso, Carol Channing foi substituída por Barbra Streisend. Mais um erro abismal. Streisend tinha 27 anos na época; era, portanto, absurdamente jovem para o papel de Dolly. Como se isso não bastasse, ambas já haviam concorrido, uma com a outra, pelo tony de melhor atriz, Channing por Dolly! e Streisend por Funny Girl. Channing levou a estatueta para casa. O feito se repetiu por vias tortas: o filme de Gene Kelly foi indicado a sete oscars; Streisend foi ignorada.

Outra crítica é a de que as músicas de Jerry Herman ironicamente funcionavam melhor com uma atriz cômica que não cantava nada - como Carol Channing - do que com uma boa cantora distante da personalidade da personagem, que era o caso de Streisend.

A crítica não se adequaria à situação brasileira, pois Bibi tinha todos os atributos para o papel, desde o talento vocal e cômico até o physique du role, mas, de fato, por vezes eu tenho a impressão de que esse papel não exige muito da voz de Bibi, e que são poucas as oportunidades que ela teve para realmente mostrar toda sua potência como cantora. Pode ser que ela tenha aceito o papel justamente para exercitar sua veia cômica, saindo da "ingênua-ignorante" diretamente para a "cortesã-aposentada", como a imprensa da época caracterizou Eliza e Dolly.

Uma curiosidade é que a música Na marcha da vida, a passar (Before the parade passes by) anos mais tarde se tornou a música de abertura do extinto programa de Jô Soares, Viva o Gordo.

Mas enfim, vamos ao privilégio de ouvir Bibi, Paulo Fortes e grande elenco clicando AQUI (link renovado). No disco há um aviso, hoje hilário, dizendo que a gravação "foi cientificamente planejada de modo a apresentar a mais alta qualidade de reprodução, qualquer que seja o fonógrafo usado, novo ou velho". De fato, o som está bem limpo e se ouve com muito prazer. Mas o melhor ficou para o fim, quando o consumidor é tratado por "Vossa Senhoria": "Em resumo, V. S. pode comprar este disco sem o mais leve receio de que ele venha a tornar-se obsoleto no futuro".

Na verdade ele ficou obsoleto não pela qualidade da gravação, mas pela obsolescência do conteúdo. Dolly é leve e agradável, mas não é My Fair Lady. É, contudo, diversão garantida. O disco, em si, não está nenhuma maravilha e apresenta um ou dois pulos, que, graças a Deus, mal são notados. Portanto divirtam-se.

Abaixo, o texto da contra-capa do LP e a lista de músicas.
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O que é ALÔ, DOLLY!

Sucesso internacional como nunca havia ocorrido com outra comédia musical, está há 28 no St. James Theater, onde já deu mais de 1000 funções, todas com lotação esgotada, superando de longe os recordes anteriores de bilheteria. Prevê-se, dado o volume de suas vendas antecipadas, que ALÔ, DOLLY! estará na Broadway pelo menos até junho de 1971, o que jamais foi obtido por outro espetáculo do gênero. Se considerarmos que existem mais duas companhias exibindo ALÔ, DOLLY! pelo interior do país (uma com sua criadora original, Carol Channing, e a outra com Betty Grable), podemos então atentar para a verdadeira extensão deste extraordinário êxito. Em Londres, onde estreou no dia 5 de dezembro, com Mary Martin, ALÔ, DOLLY! já tem uma venda antecipada que lhe garante um mínimo de 4 anos em cartaz. Em Melbourne, Austrália, já está em cena há 18 meses. Em Tóquio, onde nenhuma outra comédia musical havia feito sucesso anteriormente, é, hoje, a grande “coqueluche”, havendo no Japão nada menos de 10 gravações da sua canção-tema ALÔ, DOLLY!. Esta canção, aliás, já é a música mais gravada no mundo inteiro em todos os tempos, com mais de 1000 versões diferentes, inclusive uma em russo, o que já lhe deu uma venda de mais de 3 milhões de discos.

E qual a razão de todo esse sucesso? Antes de mais nada é porque ALÔ, DOLLY! é uma peça feliz e que faz a todos – artistas e público – muito felizes. À saída do St. James Theater, em Nova York, uma espectadora disse à outra: “Não vou mais ao meu psicanalista. Assistirei ALÔ, DOLLY! uma vez por semana e economizarei mais da metade do dinheiro da consulta”. Assim é ALÔ, DOLLY!: um espetáculo único capaz de trazer felicidade e alegria a crianças e adultos. Sua história é singela e romântica, acessível a todas as platéias do mundo, que a entendem e assimilam em um instante, passando dela a participar como se fossem seus personagens.

Sua música é toda ela maravilhosamente bela. Uma verdadeira “feérie” de sons e ritmos que não se limitam apenas à sua canção-tema, mas a todos os outros números musicais igualmente lindos. Seus cenários e guarda-roupa são inesquecíveis. A cenografia, aliás, é de Oliver Smith (o mesmo de My Fair Lady) que aqui se superou em todos os aspectos técnicos, bastando que se diga que em ALÔ, DOLLY! a cortina não se fecha uma única vez, sendo todas as 23 mutações de seus belíssimos cenários feitas inteiramente à vista do público, por um complicado e eficiente sistema de trilhos e manobras de cabos de aço, aqui recriados pelo talento invulgar de nosso grande cenotécnico Luciano Trigo. Esse sistema foi idealizado para ALÔ, DOLLY! e jamais foi utilizado para outro espetáculo.

Seu corpo de baile, graças a uma coreografia moderna de Gower Champion, reproduzida no Brasil por Lowell Purvis, especialmente contratado para esse fim, proporciona ao público um brinde extra com números musicais inesquecíveis, como o famoso “Galope dos Garções”. Tudo isso tem feito com que ALÔ, DOLLY! seja considerada a melhor comédia musical da Broadway moderna, única e legítima sucessora da gloriosa tradição de My Fair Lady.

Bibi Ferreira e Paulo Fortes em ALÔ, DOLLY!

Libreto de Michael Stewart
Música e Letras de Jerry Herman
Baseada em "A Casamenteira", de Thornton Wilder
Tradução de Haroldo Barbosa, Victor Berbara e Max Nunes
Arranjos vocais de Shepard Coleman
Orquestrações de Philip J. Lang
Direção Musical de Carlos Monteiro de Souza

1 - Abertura (Overture) - Orquestra
2 - Ponho a mãozinha aqui - Bibi Ferreira e Elenco
3 - Tem que ser aquela - Paulo Fortes e Elenco
4 - Ponha uma roupa de domingo - Hilton Prado - Augusto Cesar - Bibi Ferreira
5 - Meu chapéu enfeitarei de fitas - Lisia Demôro
6 - Marche, marche, marche - Bibi Ferreira - Lisia Demôro - Marli Tavares
7 - Dançando - Bibi Ferreira - Hilton Prado - Augusto Cesar - Lisia Demôro
8 - Na marcha da vida, a passar - Bibi Ferreira e Elenco
9 - Elegância - Lisia Demôro - Hilton Prado - Marli Tavares - Augusto Cesar
10 - Alô, Dolly! - Bibi Ferreira e Elenco
11 - Apenas um momento - Hilton Prado - Lisia Demôro e Elenco
12 - Adeus, querida - Bibi Ferreira
13 - Final - Bibi Ferreira-Paulo Fortes e Elenco

3 comentários:

  1. Fantástico, Bernardo! Seu blog é uma fonte preciosa de informações sobre Bibi, informações as quais até agora não tínhamos acesso. Obrigada por dividir e parabéns pelo texto maravilhoso.

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  2. olha eu tneho um blog ao qual posto os links de filme s q gosto e ao postar o Hello, dolly! deixei como dica este teu texto! parabéns pela qualidade... fiquei impressionadissimo!! se quiser olhar, n chega aos pés do seu! http://garotoenxaqueca2010.blogspot.com/2010/10/hello-dolly-1969-download.html

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