segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Bibi Ferreira em Pessoa


Meus caros,
mais uma jóia de Bibi que divido com vocês. Trata-se do LP Bibi Ferreira em pessoa. Pelo que sei, este LP lançando pela Philips é o que poderia se chamar de um compacto duplo porque a rigor só tem 5 músicas.
A data do lançamento ainda não está totalmente certa para mim. O abalizado Dicionário Cravo Albin cita 1960 como ano de lançamento. Já o site de Ângela Glavam diz que em 1963 ela "grava o LP Bibi Ferreira em pessoa, premiado pelos críticos do jornal Correio da Manhã - Melhor disco em Prosa, do ano". Na segunda faixa, por exemplo, Bibi fala "Brasil, capital Brasília", o que indicaria qualquer data após 1960, mas depois faz uma brincadeira com o divórcio de Marilyn e Arthur Miller, o que significa que Marilyn ainda estava viva, ou seja, antes de 1962. Por outro lado, pode ser material requentado para o disco. Na dúvida, fico com o site.

É um disco maravilhoso. A primeira faixa traz o pout-purri de Mulher Rendeira que Bibi ressuscitaria no primeiro Bibi in Concert. A segunda é um sketch cômico que satiriza as crônicas sociais transmitidas pelo rádio nas décadas de 40 e 50, e provavelmente figurou em alguma Revista de Bibi. Esse estilo de pastelão radiofônico de notícias entrecortadas por vinhetas musicais foi brilhantemente modernizado e reutilizado pela atriz Helen Helene e o Circo Graffitti na década de 90, com o memorável espetáculo Almanaque Brasil.

A terceira faixa traz o delicioso ÓperaBrás, óperas cantadas com letras de grandes clássicos brasileiros. Assim, como vimos no Bibi in Concert I, a entrada dos soldados no Fausto de Gounod ganha letra de Dorival Caymmi em Maracangalha; a cavatina de Rossina, Una Voce Poco Fa, da ópera Barbeiro de Sevilha é cantada com a letra de Implorar só a Deus de Moreira da Silva, e a cavatina de Figaro, na mesma ópera, ganha a letra de O Teu cabelo não nega de Lamartine Babo (muito mais elaborada no Bibi em Concert, aliás).

A quarta faixa chama-se Bela Cap e é inédita. Foi composta pela própria Bibi em parceria com Jean D'Arco e Meira Guimarães. É ao mesmo tempo uma homenagem sentida e comovente ao Rio de Janeiro, que há pouco deixara de ser capital do Brasil, e uma maneira de Bibi extravasar artisticamente sua imensa identificação com os musicais da Metro, que já começavam a entrar em decadência por essa época. Com efeito, mutatis mutandi, Bela Cap poderia perfeitamente ter sido cantada por Rita Hayworth ou Debbie Reynolds em musicais com Dan Dailey, Larry Parks e demais atores que simplesmente faziam escada para a grande protagonista feminina. É uma música lindíssima, poética e uma das mais belas declarações de amor ao Rio que já vi.

Aloysio de Oliveira

A última música segue a mesma linha. Chama-se O Cruzeiro, foi composta por Bibi e é uma sátira à desvalorização crônica da moeda brasileira então em circulação. Também poderia figurar em um musical brasileiro e provavelmente é sobra de alguma Revista.

A produção deste LP - jamais reeditado ou lançado em cd - é de ninguém menos do que o grande Aloysio de Oliveira, antigo membro do Bando da Lua, que acompanhava Carmen Miranda. Aloysio por esses tempos já vinha se firmando como um de nossos mais competentes produtores e parceiro musical de Tom Jobim.


Deleitem-se, clicando AQUI (link renovado). São dezenas as facetas do talento rico e pujante de Bibi Ferreira. Neste LP, ao mesmo tempo singelo e precioso, encontramos algumas delas.
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Ver também: 

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Um comentário:

  1. Bernardo, maravilhoso, como sempre.
    Com sua permissão, vou publicar no site de Bibi, ok?

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