sexta-feira, 1 de outubro de 2010

"Ponto de Partida", de Gianfrancesco Guarnieri e Sérgio Ricardo

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A célebre ilustração de Elifas Andreato para
 o cartaz original de Ponto de Partida
Meus caros,

o texto a seguir, escrito em agosto de 2005 e revisto em setembro de 2006 foi minha modesta homenagem aos 30 anos da montagem original de Ponto de Partida, peça que Gianfrancesco Guarnieri escreveu sobre o assassinato de Wladimir Herzog, a partir da composição de Sérgio Ricardo.

Para o blog, ampliei um pouco o texto, ilustrei-o com imagens raras e o permeei com os depoimentos exclusivos que me foram dados pelos queridos Sônia Loureiro (setembro de 2006), Sérgio Ricardo (novembro de 2006) e Antônio Petrin (julho de 2007). Em um país decente, tanto essa peça quanto seu autor e seus atores seriam sempre lembrados e homenageados. No Brasil, porém, prossegue a celebração das nulidades e o sepultamento daquilo que tem o máximo valor cultural, artístico, político e social. Cabe a nós tentar mudar essa triste situação, seguindo o exemplo de Herzog, Guarnieri e Sérgio Ricardo.

Divirtam-se, aprendam e divulguem.
Bernardo
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De todas as associações musicais de Guarnieri que tiveram conseqüências no teatro, sua parceria com o cantor e compositor Sérgio Ricardo foi a mais ideologicamente carregada. Vamos aos fatos.

Desde a realização do filme Gimba, dos dois Arena conta e Memórias de Marta Saré, Guarnieri dava um jeito de incluir a música em quase todos os seus trabalhos. Na primeira metade da década de 60 seu parceiro mais habitual foi Carlos Lyra. Na segunda, foi Edu Lobo. Paralelamente ao fim do Arena, desmantelado pela ditadura, Guarnieri trabalhou no Oficina, numa montagem de Don Juan, de Molière, dirigida por Fernando Peixoto. Só que a perseguição da ditadura também chegou ao Oficina. "Mas o motivo ali era outro", como observaria Guarnieri anos depois: "Eles eram perseguidos do ponto de vista moral, com denúncias de consumo de drogas, e menos sob o ponto de vista político". Em 71, ele foi trabalhar na recém-formada companhia de Othon Bastos e sua esposa Martha Overbeck, que vinham de participações aclamadas por público e crítica no Teatro Oficina.

Martha Overbeck e Othon Bastos, 1976

A primeira peça da feliz união desses dois talentos fantásticos que são Guarnieri e Othon foi o espetáculo Castro Alves Pede Passagem, com direção do próprio autor e músicas de Toquinho. Um sucesso retumbante, que lhe rendeu os prêmios Molière e da APCT, de melhor autor. Com essa peça, ele deu início ao que ele chamaria mais tarde de "teatro de ocasião". Ou seja, peças que aparentemente eram inofensivas, mas que traziam violenta carga subliminar, metafórica, geralmente não captada pelos censores da ditadura, em sua maioria cretinos e ignorantes.

Em 1972 Guarnieri trabalhou em TV enquanto Castro Alves seguia carreira vitoriosa em São Paulo, Rio e no resto do Brasil. No início de 73 ele escreveu Botequim, novamente com músicas de Toquinho. A peça estreou em Brasília, com direção de Antônio Pedro. Em abril veio mais um jato de criatividade: Um Grito Parado no Ar, com Othon e Martha Overbeck, direção de Fernando Peixoto.

Os censores podiam até ser cretinos e ignorantes, mas não era possível enganá-los sempre. Especialmente quando o nome da peça já provocava arrepios, naqueles anos de chumbo. Foi o caso de Basta!, escrita no início de 74. Guarnieri tinha a idéia de transformar Botequim, Um Grito e Basta! em uma trilogia, mas o texto foi proibido. É preciso deixar claro que Guarnieri, como um homem de pensamento e de mente aberta, nunca tratou o tema político ou operário de maneira maniqueísta e radical. Suas peças subvertem para os dois lados. O bom e o mau, o bruto e o suave, o equilibrado e o radical são sempre mostrados em seus defeitos e qualidades. Cabe ao público decidir o que considera certo, ou justo. Sobre Basta!, vale a pena ler o que Guarnieri respondeu a Mário Masetti, que seria o diretor desse espetáculo, em uma entrevista de fevereiro de 76 ao SNT, que transcrevo aqui:

Acho que o que aconteceu com "Basta!" foi a prova, realmente, de que o que eles procuram impedir mesmo é que as pessoas tenham qualquer motivo para poder pensar um pouco. Foi uma peça que eu fiz evidentemente sabendo da existência da censura. Procurando não ter nenhum momento, nenhuma palavra que pudesse ser considerada atentatória à moral, à família, ou aos bons costumes. A peça não tem nada disso. É um raciocínio a respeito do senhor e de um empregado através dos tempos. E esta peça foi totalmente proibida. Acho que isso, como depoimento, é mais um exemplo de que a censura, realmente, não está voltada apenas para preservar a moral e tudo mais. Mas que ela se volta fundamentalmente para impedir qualquer tipo de discussão, por mais de alto nível que ela se coloque. O que não se pode é discutir, nem questionar, não se pode perguntar nada. Porque "Basta!" é uma peça que não assevera coisa nenhuma, não defende esta ou aquela posição ideológica. É apenas dois indivíduos passando pelo processo que, a meu ver, o homem tem passado desde o feudalismo, a revolução industrial e tudo mais. Mas, foi realmente proibida.

Guarnieri voltou para a TV, colhendo os louros por sua performance antológica como Tonho da Lua no mega-sucesso da Tupi, Mulheres de Areia, de Ivany Ribeiro.

Guarnieri, como Tonho da Lua
A peça seguinte foi bem diferente. O ano era 1975, e Guarnieri resolveu dar uma pausa no ciclo. Ou pelo menos na estrutura do ciclo. A ditadura chegava próximo ao auge da repressão. Terá sido justamente a ausência da liberdade de expressão que levou Guarnieri a montar um monólogo? Ou, nas palavras dele mesmo, "um recital", um "improviso elaborado"? A questão é que Me dá o Mote foi um prosaico desabafo do homem comum. Guarna escreveu o texto, chamou seu velho parceiro Edu Lobo e os dois foram fazer o espetáculo juntos. Não era um show de dois amigos, no estilo de Jobim e Vinícius, cantando e conversando. Não. A peça estava mais nos moldes de Tudo de Novo (do próprio Guarnieri, encenada sem muita repercussão em 1970), onde a música permeia e acrescenta sentido e sentimento ao texto. Sobre Me dá o Mote, eis o que Guarnieri disse à atriz e amiga Myriam Muniz, na mesma entrevista ao SNT, em fevereiro de 76, em plena temporada da peça:

A única coisa que tentei, realmente, foi recolocar um personagem que está ausente dos nossos palcos, que é o homem simples, o homem comum. Um careta que viaja no trem, que é pingente. Falar sobre ele da forma que eu estava sentindo que devia falar. Sem elaboração, sem nada. E não fiquei frustrado, porque a proposta era realmente aquilo mesmo. Era quase um improviso. De chegar e jogar a coisa. Não era uma proposta de fazer um espetáculo, não era isso. Quando você bola um espetáculo, você quer atingir um determinado efeito, você está sabendo por onde ir, você bola recursos para isso. Aquele não. A gente chegava lá, eu e o Edu Lobo, e tacava a ficha. Não tinha preocupação nenhuma.

Saíram em turnê, mas em outubro de 75 levaram um golpe fortíssimo. A apresentação do dia 25 era em uma cidade do interior de São Paulo, só que minutos antes de entrarem em cena receberam a notícia de que o jornalista Wladimir Herzog acabara de ser encontrado morto nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo. É precioso o depoimento de Guarnieri sobre o assunto, dado à Fundação Perseu Abramo:

Edu e Guarnieri,
em "Me dá o Mote"

Edu Lobo e eu, na ocasião, viajávamos pelo interior de São Paulo apresentando o show "Me dá o Mote", quando fomos fulminados pela terrível notícia. Diziam que Vlado tinha se suicidado nas dependências do DOI-CODI. Indignados e inconformados, imaginávamos os momentos infernais sofridos pelo nosso amigo sob as torturas aplicadas pelos algozes da OBAN [Operação Bandeirante, centro de informações, investigações e de torturas montado pelo Exército em 1969]. Atordoados, nossa primeira reação foi cancelar o show que realizaríamos naquele dia e voltar para São Paulo onde, junto aos amigos, poderíamos decidir como extravasar nossa revolta. Mas em seguida, percebemos que a não realização de nosso espetáculo, que muito tinha a ver com o clima do país na época, se constituiria em mais uma vitória da truculência e barbárie e que o que tínhamos a fazer, no momento, como resposta era realizar um espetáculo com muito amor e confiança no futuro, dedicando-o publicamente ao Vlado. Assim o fizemos. O público aplaudiu de pé. Não aclamavam apenas um espetáculo que lhes tocou o coração: reverenciavam o jovem jornalista, culto, sereno, patriota, progressista, de mil amigos e admiradores em razão de suas múltiplas qualidades. Por certo, sem o saber ainda, homenageavam aquele que com o impacto de sua imolação determinava o desmoronamento da ditadura.

O assassinato de Wladimir Herzog foi o estopim para a criação daquela que é possivelmente a mais contundente peça do ciclo de repressão de Guarnieri. E terceira colaboração entre o autor e Othon: Ponto de Partida. O título vem de uma música que o cantor e compositor Sérgio Ricardo (João Mansur Lufti, 1932) acabava de criar. Em viagem com a esposa Vanya ao Paraná, Guarnieri assistiu um show de Sérgio Ricardo e ficou impressionado com a notável composição, de poética sofrida, agreste, e no entanto esperançosa:

Ponto de Partida
(Sérgio Ricardo)

Não tenho para a cabeça
Somente o verso brejeiro,
Rimo no chão da senzala
Quilombo com cativeiro

Não tenho para o coração
Somente o ar da montanha
Tenho a planície espinheira
Com mãos de sangue e façanha

Não tenho para o ouvido
Somente o rumor do vento
Tenho gemidos e prece,
Rompantes e contratempos

Tenho pra minha vida
A busca como medida,
O encontro como chegada
E como ponto de partida

Não tenho para o meu olho
Apenas o sol nascente,
Tenho a mim mesmo no espelho
Dos olhos de toda gente

Não tenho para o meu nariz
Somente incenso ou aroma
Tenho este mundo matadouro
De peixe, boi, ave e homem

Não tenho pra minha boca
Sagrados pães tão somente
Tenho vogal, consoante
Uma palavra entre dente

Tenho pra minha vida
A busca como medida,
O encontro como chegada
E como ponto de partida

Não tenho para o meu braço
Apenas o corpo amado
E assim sendo o descruzo
Na rédea, no remo e no fardo

Não tenho para a minha mão
Somente acenos e palmas
Tenho gatilhos e tambores
Teclados, cordas e calos

Não tenho para o meu pé
Somente o rumo traçado
Tenho improviso no passo
E caminho pra todo lado.

Tenho pra minha vida
A busca como medida,
O encontro como chegada
E como ponto de partida.

Sérgio, cuja fama por ter arrebentado e jogado um violão na indócil platéia do festival da Record de 67 acabou maior do que o reconhecimento merecido por ser um dos nossos melhores compositores, era plenamente festejado dentro do meio artístico, tinha uma sólida carreira dentro de nossa MPB e foi autor da trilha sonora dos dois filmes mais importantes de Glauber Rocha: Deus e o diabo na Terra do Sol e Terra em Transe. Guarnieri e Sérgio já se conheciam do teatro (Sérgio trabalhou no Arena) e da militância política, mas esta seria efetivamente a primeira parceria entre os dois. É Sérgio que conta:

Eu fazia um show em Curitiba quando vi Guarnieri na platéia. Ao terminar ele se mostrou muito entusiasmado com minha música "Ponto de Partida" e convidou-me para trabalharmos juntos em sua próxima peça. Fui para o seu sítio no interior de São Paulo. Trabalhávamos em várias idéias que acabavam sempre em comédia. Sua esposa foi quem nos tirou do delírio cômico, dizendo que Guarnieri precisava fazer a peça que tinha na cabeça, sobre o Vlado. Concordei com ela e propus a ele que fizesse o primeiro tratamento que eu entraria depois para fazermos juntos o segundo, e o acabamento.

Entra em cena a inspiração espantosa de Guarnieri, que o fazia escrever suas peças em questão de horas - como no caso de Um Grito Parado no Ar - ou em três dias - como no caso da enorme A Semente. Ponto de Partida foi escrita em dois dias. Sérgio aguardava esse primeiro rascunho para dar suas opiniões e mudar aquilo que julgasse que deveria ser mudado. Só que para sua surpresa, a peça veio perfeita, como ele mesmo relembra:

Ao ler o primeiro tratamento de Guarnieri, não vi nada que pudesse ser alterado. A peça estava absolutamente pronta. Propus então que nossa parceria fosse texto dele e música minha. Aceitou, com a condição de eu fazer o papel do ferreiro Ainon, pai de Birdo (Herzog) e de eu ceder o título e a música com minha letra de "Ponto de Partida".

O convívio do dois foi o melhor possível. O que os moveu, como artistas e como seres humanos, foi sempre a luta pelo bem comum, e na composição dessa obra-prima de nossa dramaturgia não foi diferente. Trocaram, escreveram, criaram e ficou em Guarnieri a lembrança de um compositor exemplar. Para Sérgio a lembrança de uma "grande pessoa, grande amigo e criador genial".

Embora falsamente apresentada como "fábula inspirada em lenda medieval", passada na Espanha, a trama era gritantemente alusiva ao assassinato de Herzog: em uma aldeia fictícia, um pastor de cabras (Birdo) é encontrado enforcado (a exemplo de Herzog, nas dependências do DOI-CODI). Sua noiva (Maíra, inspirada em Clarice, esposa de Herzog) estava grávida de Birdo e era filha do líder da aldeia, um cego chamado Félix (representando o poder executivo). Inconformada, ela procura saber quem assassinou seu noivo, apenas para descobrir que a culpada é sua própria mãe, Aida (representando o poder militar). Resoluta em seu despotismo e certa de que livrara a filha de um perigoso subversivo, Aida ainda promove o aborto forçado da própria filha, a fim de que a semente de Birdo não a fecunde.

Sérgio, como o ferreiro Ainon

A música Ponto de Partida tornou-se tema e fio condutor da peça, cantada durante o espetáculo pelos personagens de Maíra, Dôdo, pastor de cabras e Ainon. Em seguida veio a música Menino Pássaro, cantada por Ainon, num cortante e comovente lamento pelo assassinato de seu filho:

Menino Pássaro
(Sérgio Ricardo/Guarnieri)

Ah...
De minhas mãos nasceram armas
Cravos, correntes, ferraduras
De minhas mãos nasceram lanças
Elmos, escudos, armaduras
Brotaram de minhas mãos sementes
Na semeadura

E adubos e flores para um campo
Longe distante ao pé dos montes
Campo santo de repouso eterno
Última pousada dos amantes

(fala) Flores para Isabela, mãe de Birdo
O que teve nome dado por forasteiro
Que a sorrir, indicando um colibri
Apontou murmurando: "Birdo... Birdo".
Menino pássaro
Órfão pássaro de Isabela
Que já sofrera a perda
Do primeiro sêmen fecundado

Ah...
de minhas mãos nasceram afagos
Carícias rudes, calejadas
De minhas mãos os primeiros passos
Primeiros risos e querenças
Cresceram de minhas mãos
Muralhas trilhando o caminho

De minhas mãos meu filho voa
Moço pássaro para a viagem
Orgulhoso ao vê-lo, sorria
Altivo caminhava o filho do ferreiro
Moço já, e que bem o sabia
Que de minhas mãos
Levou o gosto acre, o duro impulso
E a mais doce alegria.

Guarnieri, no papel de Dôdo

O tema do personagem Dôdo, amigo de Birdo e retrato do povo mais massacrado e conformado com a repressão, chama-se Vidas Rasas:

Vidas Rasas
(Sérgio Ricardo/Guarnieri)

Quantos carneirinhos
Quantas vidas rasas
Que será do mundo
No calor das casas
Se meus carneirinhos
Não criarem asas
Que será do mundo
No calor das casas?

São filhos do medo
Rotos andarilhos
São gado tangido
Pelos empecilhos…
Nossos pés são chagas
Nossa voz mugido…
A mão não afaga
Coração partido

Quantos cordeirinhos
Quantas vidas rasas
Que será do mundo
No calor das casas
Se meus carneirinhos
Não criarem asas
Que será do mundo
No calor das casas?

Dôdo, Maíra (Sônia Loureiro), Aida (Martha Overbeck) e o ferreiro Ainon. Ausente na foto, apenas Othon Bastos, o Don Félix








A parceria de música e letra termina com Prece, cantada por todo o elenco, onde se delineia a estrutura hierárquica da tal vila fictícia onde se passava a peça. Félix, Aida, Ainon, Maíra e Dôdo:

Prece
(Sérgio Ricardo/Guarnieri)

Félix: Oremos concidadãos
Que nos una uma só prece
Hora de meditação
Arrependimento e paz

Oremos pela justiça
Pelo retorno da calma

Aída: Pelo retorno da calma
Oremos concidadãos
Que nos liberte do medo
Deus que tudo sabe e ouve

Contritos todos oremos
Deus nos livre da aflição

Ainon: Deus nos livre da aflição
Filho meu desamparado
Tão sozinho em abandono
Deixou-me a vida deserta

Foge minh'alma com a dele
Com a dele foge minh'alma

Maíra: Foge minh'alma com a dele
Com a dele foge minh'alma
Oremos pela vingança
Numa revolta incontida

Tenho a dor como chegada
E como ponto de partida

Dôdo: Como ponto de partida
Tento só sobreviver
Tanto mal vejo ao meu lado
Tanto bem para querer

Sozinho que nem um morto
Eu só minto de viver.

A música Miguel Vasca, tema do grande adversário de Don Félix, é uma música instrumental só de Sérgio Ricardo.

Vlado, um mês antes de seu assassinato

Na boca do povo, a suspeita de que Ponto de Partida fôra inspirada na morte do jornalista. Entre o elenco e a classe artística, não havia a suspeita, mas a certeza absoluta. Meses antes, a peça teria sido sumariamente interditada, e Guarnieri no mínimo preso. Mas a morte do jornalista da TV Cultura, que contava apenas 38 anos de vida, além de monstruosa sob qualquer aspecto, foi um tiro no pé por parte dos militares. Guarna explicou isso perfeitamente, em entrevista dada pouco antes de morrer ao site do Banco do Brasil [cujo link infelizmente já não consegui mais encontrar]:

Esse acontecimento marcou um momento em que a própria burguesia se sentiu terrivelmente ameaçada. Quem conhecia o Vlado, de fato, sabia que ele poderia ter suas convicções, mas que ele não era militante de movimento armado nem nada do gênero. Ele tinha um posicionamento, como bom intelectual que era, mas isso não justificava sua eliminação. O "suicídio" do Vlado foi um alerta, momento-chave para que houvesse uma virada. Tanto que, logo em seguida, veio o movimento da Anistia. O próprio fato da censura liberar a peça era sinal de que as coisas estavam mudando. Os militares achavam que era melhor aceitar o texto como uma lenda medieval do que criar polêmica em torno do assunto. No final, preferiram acreditar que era apenas uma lenda inofensiva para não detonar um barril de pólvora. A opinião pública estava de olho e não deixaria um ato daquele passar despercebido.

Vlado enforcado no DOI-CODI
O raciocínio segue no depoimento à Fundação Perseu Abramo:

Sob o impacto da morte de Vlado escrevi "Ponto de Partida". Intuía ser aquele momento decisivo para a derrocada do regime militar. Motivado não só pela dor e indignação mas, particularmente, pela urgência de alardear o que se passava conosco, com nosso país e com os melhores de nossa sofrida gente. (...) Tencionava abrir meu espírito e coração escrevendo sobre os anos de chumbo em que vivíamos, assolados pelo medo, acordando sobressaltados, mas também sobre coisas belas, os atos de solidariedade, a generosidade na luta. De Vlado nasceu Birdo. Birdo, pássaro em esperanto, liberdade, ternura, consciência, sabedoria e amor. De Clarice Herzog, mulher de Vlado, nasceu Maíra, amada de Birdo, encontrado em uma triste manhã, enforcado em meio à praça. Maíra que espera um filho de Birdo, que se recusa a aceitar o suicídio do amante e que expressa as razões de sua incredulidade diante do povo.

Pronta a peça, começam os ensaios. Sérgio vinha de fazer apenas espetáculos eminentemente musicais em teatro, então Ponto de Partida seria sua estréia em um espetáculo não-musical, ainda que incluísse músicas. O nervosismo era grande, mas também a empolgação. Sobre Fernando Peixoto, diretor da peça, Sérgio foi taxativo: "Um excelente profissional". Sobre seus companheiros, a lembrança é preciosa:

Sérgio Ricardo (Ainon) e Guarnieri (Dôdo)
em cena de "Ponto de Partida"
Minha sensação era de estar numa copa do mundo, atuando ao lado de craques. Eles jogavam um bolão. Tive que dar o máximo de mim mesmo, mesmo sem experiência de atuar como ator em teatro. Até então só atuara em cinema e televisão [Sérgio fizera espetáculos eminentemente musicais no Arena]. (...) Tive prazer total em interpretá-lo [Ainon, o Ferreiro]. Senti-me realizado no mais alto grau de emoção e identificação com o personagem, pela riqueza do texto, seu sentido político e poético, pelo drama que carregava.

Eis o que Sônia Loureiro contou sobre o episódio:

Nós todos estávamos sofrendo esse processo de repressão e loucura em cima disso, porque as peças do Guarnieri sempre foram visadas pela censura, e sempre fomos supervisionados por todos os policiais do Dops que se possa imaginar. Nós tínhamos amigos, amigos do Othon, do Fernando Peixoto, que ficavam sempre ali no teatro, com a gente, para nos preservar de ataques de qualquer tipo. Nunca fomos atacados porque nós tínhamos pessoas armadas lá que ficavam nos assessorando. O Mário Masetti era um dos que ficava lá, porque ele era assistente de direção de todos esses espetáculos, era o braço direito do Fernando Peixoto. A gente chamava os dois de Asterix e Obelix, porque o Fernando era baixinho, magrinho, e o Mário imenso, gorducho, enorme (risos), e era uma dupla boa. Uma dupla bem-humorada, pessoas legais, inteligentíssimas, sensibilíssimas, e amigos a toda prova.

Dôdo, Ainon e Maíra

Acho que ensaiamos uns dois meses e antes da estréia tivemos que apresentar a peça para 15 censores! E tinha um censor que era o cara mais odiado e temido por toda a classe artística, um tal de Coelho. Tanto que tinha muitas piadas sobre "Coelho" no Grito. O Coelho era morte súbita. E o Coelho foi com esses censores todos nos assistir. A Vanya estava lá, o Edu Lobo, que tremia tanto que não conseguia comer. Ele foi comer um quibe e tremia tanto, coitado, que derrubou o quibe, esparramou tudo pela roupa, e a gente tentando limpar o Edu Lobo (risos), e ele é muito tímido, mas era nosso ídolo e a gente não sabia se limpava a gravata dele, se limpava, se comprava outra (risos). O Fernando Peixoto fumando um charuto atrás do outro, estava empesteando o teatro todo. Então eram os censores e pouquíssimos amigos. A Vanya acho que arranjou alguns bam-bam-bans pra nos dar respaldo jurídico, caso desse algum pepino. E nós morrendo de medo de terminar o espetáculo e sermos todos presos e enquadrados no AI-5.

Mas aí o Fernando virou pra nós e falou "olha, façam com amor, façam acreditando que estamos na Espanha, e tal", aí eu pensei cá comigo "eu vou fazer esse meu personagem, vou esquecer que tem crítica, que é Herzog, e vou colocar isso na memória emotiva da vida real". E fiz só na base da emoção, mesmo, sabe? Do emocional, quando você esquece o político, porque o Fernando sempre foi muito frio em relação a isso, ele não queria que chorasse muito porque ele achava piegas, e etc., e esse dia não. Aí eu fiz num pique de emoção! A voz saía agudíssima, lá em cima, tanto que os meninos do Maria Déia falaram "nossa, você vai perder a voz", eu disse "não, eu quando estou nervosa sai agudo, mesmo". E passou bem. Eles gostaram do espetáculo, se emocionaram, acharam bonito e passou. Como eles viram que se o pessoal levasse simplesmente no conteúdo da história, ia se emocionar e não ia ficar pensando em política, o Coelho liberou a peça e fez uma restrição de idade por causa da cena do aborto.

Ponto de Partida estreou em 26 setembro de 1976 em São Paulo, no teatro Tahib. Excetuando Me dá o Mote, mais recital do que peça, esta era a volta de Guarnieri aos palcos, desde A Resistível Ascensão de Arturo Ui, em 1970. A direção ficou a cargo de Fernando Peixoto, mais uma vez, e no elenco estavam Guarnieri (Dôdo), Othon (Félix), Martha Overbeck (Aida), Sérgio Ricardo (Ainon) e Sônia Loureiro (Maíra). O acompanhamento musical era de uma dupla de músicos e cantores (Chico e Alberto) chamada “Maria Déia”. Ainda segundo Sônia Loureiro:

Gianni Ratto, Martha Overbeck, Fernando Peixoto e Othon Bastos

A cenografia e os figurinos eram do Gianni Ratto, um grande mestre. Havia um praticável, do meio do palco pro fundo, uma árvore com uma forca e a bigorna ficava um pouco mais pro proscênio, na esquerda baixa do palco. Minha primeira cena eu entrava no palco com uma lamparina e acho que já cantando um dos temas, à boca chiusa. Seria a "incelença" de que fala a rubrica do Guarnieri, porque eu estava pranteando o Birdo, lá enforcado. E sempre acompanhada pelo Maria Déia, que era um conjunto acústico, excelente, que acompanhou todas as músicas. Eles ficavam lá no canto deles, vestidos de chilenos, ou bolivianos, sei lá, e tocavam charangos, tinha um que tocava harpa, eram ótimos. A música mais difícil para cantar era aquela do pai para o filho (Menino Pássaro), o Sérgio cantava ela muito mal, o Petrin cantou pior ainda (risos), que ele é extremamente desafinado, então era uma tragédia. O Sérgio cantava com muita emoção, emocionava, mas ele não era ator, esquecia o texto, aí olhava pra mim com desespero, com aquela cara de "o que é que estou fazendo aqui?" (risos), ele odiava aquilo, passava mal cada vez que tinha que entrar em cena.

A cena do aborto era sugerida. Eles vinham por cima de mim, e aparecia só a Martha (Aida) de frente, e eu de costas pro público, só as minhas reações, só o meu rosto, eu deitada na rampa que tinha lá atrás, que era usada como casa, como palácio, era um espaço vazio, era muito vazio, acho lindo isso, tudo muito vazio. E era uma cena arrepiante. Depois do aborto tinha uma cena e eu vinha me arrastando pelo palco, pela rampa, pelo chão, chorando, desmontada, eu ia até o centro do palco, aí os meninos começavam a tocar uma música que eu cantava, que era tão triste, só o charango e a flautinha chilena bem suavinha por trás, aí eu vinha até o centro do palco e dizia minha fala, bem friamente, olhando para o público, como que cobrando deles, com uma contra-luz e acabava o espetáculo. Teve uma vez uma mulher que foi só eu começar a falar e ela já começou a aplaudir. Não parou de aplaudir, eu não sabia nem o que fazer, se parava, se começava de novo.

Clarice Herzog
A Maíra era a revolucionária. Não era a universitária. Ela era A revolucionária. Porque ela estava grávida, já estava com a semente do Birdo dentro dela, então a responsabilidade dela era muito maior com relação à luta toda, e a tentar fazer com que as pessoas se congregassem em função de uma rebelião com relação a tudo que estava acontecendo. Coisa que não aconteceu aqui, não acontece em lugar nenhum, porque sempre as forças opressoras acabam dominando, mas no tema da peça, ela era uma revolucionária consciente e preocupada porque ela tinha a semente do Birdo dentro dela, e ela não queria que isso morresse, então era um trabalho de responsabilidade dela. Todas as frases que eu tinha, todas as falas, eram com muito sentimento de verdade, e com muita responsabilidade em cima dessa idéia. Era a Clarice Herzog continuando a vida dela. Era esse o meu processo com relação a esse personagem.

O sucesso do espetáculo foi maciço. Guarnieri novamente levou o APCA, o Molière, o Governador do Estado e o Mambembe de melhor autor. E Sérgio lançou o compacto duplo de Ponto de Partida, no ano seguinte, com as músicas da peça. Infelizmente, ele teve que deixar o espetáculo depois de alguns meses. Eu a princípio pensei que ele deixara o espetáculo de sponte própria, por julgar que sua melhor contribuição devia ser dada na música, e não no teatro. Me enganei redondamente. Sérgio não saiu porque quis e não fosse por uma fatalidade, teria continuado:

Minha entrega era tão grande ao personagem, que em breve adquiri um cotovelo de tenista [inflamação muscular por esforço intenso e repetitivo chamada tecnicamente de epicondilite lateral], pelos golpes que desferia na bigorna. Se fosse um ator experiente, teria representado, e não vivido o papel do ferreiro. Não supunha que a peça fosse ficar tanto tempo em cartaz. O sucesso era tão grande que a temporada foi se prolongando e eu comecei a sentir uma espécie de enxaqueca minutos antes de entrar em cena, que me acompanhava durante todo o espetáculo. A contra-gosto fui obrigado a pedir substituição.

Flávio Rangel
Do espetáculo só ficaram boas lembranças para Sérgio. Uma em especial:

O momento de maior emoção, dentre os tantos, para mim foi ao final de uma apresentação em que Flavio Rangel, a quem sempre respeitei como o melhor diretor de teatro do momento, cobriu-me de elogios pela minha interpretação.

Mas a substituição foi benéfica para o espetáculo, porque em seu lugar entrou o magnífico Antônio Petrin, que deu ao papel de Ainon um colorido dramático que Sérgio ainda não podia alcançar. Eis o que conta o próprio Petrin:

Petrin, como Ainon

O Othon me convidou, claro, com a autorização do Fernando Peixoto, aí eu comecei a ensaiar o espetáculo. Aquilo que o Sérgio tinha de facilidade de cantar aquelas músicas, eu tinha uma certa dificuldade. Já tinha cantado, e tal, mas nada assim, e eu pra te dizer a verdade eu nem sei dizer se eu cantava bem ou se cantava mal. O que eu sei é que nunca recebi uma crítica desfavorável nessa área. Tinha o meu momento do encontro com a Maíra, e a canção do Ferreiro. Uma música difícil, mas o grupo Maria Déia era um pessoal muito legal, um pessoal muito bacana, então correu tudo muito bem. A menina, Sônia Loureiro, é que cantava melhor. A Sônia cantava bem, e ela já vinha do espetáculo desde o começo, então me ajudou muito.

Minha canção, o "Menino Pássaro", tem uma parte, algumas frases que são cantadas, e algumas outras tantas, que são faladas em cima da música, então acho que por aí é que a gente não teve problema. Provavelmente, quando eu entrei, aquilo tanto que o Sérgio cantava, eu acabei declamando em cima da música, talvez até mais dramático. Mas essa peça ficou aqui no Tahib um tempo grande, um sucesso absoluto, lotado todas as noites. Aí fomos pro Rio de Janeiro, e no Rio é que foi, assim, o auge do sucesso, porque ela foi feita ali no Teatro João Caetano, ali na Praça Tiradentes, então era uma multidão em frente àquele teatro, querendo entrar no espetáculo. E o teatro tinha mil lugares, e esses números nunca mais eu esqueci, porque nós fizemos lá 12 apresentações, e nós tivemos lá mais de 12 mil espectadores. No primeiro dia já vendeu tudo. Foi uma coisa... no dia da estréia, a Praça Tiradentes ficou uma mar de gente.

Os autógrafos do amado Guarnieri no livro da peça, "Para Bernardo, com o grande abraço do Guarnica", e de Clarice Herzog, "Bernardo, aprofunde seus estudos sobre o nosso querido Guarnieri. Vale a pena! Clarice".

Sônia Loureiro aprovou a mudança: “Petrin é gente finíssima. E ele tinha assistido o espetáculo antes, então quando foi chamado foi uma beleza. E como ele era ator e o Sérgio não era, a gente estava sempre em suspenso, com medo que o Sérgio esquecesse alguma coisa, sempre preocupado e ligado para suprir algum equívoco. Aí quando o Petrin entrou com o texto em cima, com a marcação certa, com a emoção colocada no lugar, ficou mais gostoso, mais tranqüilo. Era gostoso trabalhar com ele. Ele se emocionava, ele vibrava, era muito legal”.

A atriz, porém, também teve que deixar o espetáculo tempos depois, por ter sofrido um acidente de moto. É ela quem conta:

No auge da temporada, num sábado eu saio do teatro, no Tahib, e fui de moto me encontrar com o Carlos Augusto Strazzer, a Irene Ravache, o Ademar Guerra, uma porção de atores que tinham ido assistir, e nós marcamos numa cantina no Bixiga, eu saía do Taib, passava pela 14 Bis, tinha aquela subida, eu com o meu ex-marido, só que na curva da 14 Bis tinha uma mancha imensa de óleo, nós não víamos. Aí a moto virou, eu o vi ser lançado pra fora da moto, a moto quicou em alguma coisa, subiu comigo, aí eu puxei a perna e minha coxa raspou no cano de escapamento, aí eu caí no chão.

A queimadura de quinto grau que eu tive você não sente na hora, estava meio tonta, atrás estava o carro do Strazzer, estava o Mamberti também, eles pararam, nos socorreram, nos levaram para o Hospital 9 de julho que é ali perto, me enfaixaram, me deram remédios e eu fui pra casa. Ainda fui no domingo pra fazer o espetáculo, só que aí tinha passado 24 horas, e quando cheguei no camarim, caí dura. Não teve espetáculo. E aí não voltei mais pro "Ponto de Partida". Fiquei 3 horas e meia numa banheira de salmoura tomando morfina na veia pra conseguir tirar aquela faixa, que fôra colocada erroneamente na minha perna, e tinha grudado completamente na ferida. Minha perna parecia um tender (risos). Passei seis meses em recuperação.

Othon (Félix) e Martha (Aida)
Martha ficou desesperada, porque estava lotando, as pessoas querendo assistir o espetáculo, e as atrizes que foram convidadas não queriam fazer. Acho que ficavam apavoradas com a responsabilidade e não aceitavam. Aí eu lembrei da menina que tinha trabalhado comigo num daqueles espetáculos que não teve produção da Martha e do Othon: Ana Maria Braga - não essa apresentadora, e sim a irmã da Sônia Braga - que não é mais atriz. Eles foram falar com ela, ela leu o texto, foi lá e fez. E a Martha, num rasgo de generosidade que acredito que ninguém tenha tido isso na vida, ela me pagou até o último dia de espetáculo "Ponto de Partida", me pagou meu salário integral. Não tenho palavras para agradecer a ela.

Segundo Antônio Petrin: “Depois, quando saiu a Sônia – ela teve um problema de acidente com uma motocicleta, ela se queimou, teve que sair do espetáculo, e aí entrou a irmã da Sônia Braga, Aninha Braga – pensei que a dinâmica musical que eu tinha com a Sônia seria perdida, mas o espetáculo era tão poderoso, tão forte, que essa parte do canto não chegava a comprometer, mesmo se a gente fazia mal”.

O texto de Guarnieri é atemporal. Ou antes, se adequa a qualquer situação onde a liberdade é tolhida. É o que diz o próprio Guarna, ao site do Banco do Brasil:

A peça é atual. Sua mensagem é válida sempre que houver autoritarismo e essa democracia totalmente esfrangalhada. Ponto de Partida ainda nos faz pensar sobre como as pessoas podem reagir diante de situações de profunda crise. Como vivem e se comportam essas pessoas que viram - e vêem - o que não deveriam ter visto. Elas precisam lidar com a pressão e o medo de talvez serem mortas por saberem demais. (...) São pessoas como o personagem Dôdo, que teme pela própria pele, mas que não deixa de falar, mesmo que de maneira fantasiosa ou alegórica. Na peça, é possível sentir como o medo atinge a população e provoca grande sofrimento. Ponto de Partida também critica a maneira como a burguesia, armada com o poder, leva suas regras a ferro e fogo, sendo capaz de matar seus herdeiros para evitar que sangue novo e revolucionário venha ao mundo.

Seguem mais depoimentos de Sônia e Petrin:

Sônia (Maíra) e Guarnieri (Dôdo)

Sônia Loureiro – Trabalhar com o Othon era o prazer de sempre. Mas do técnico absoluto que era o Othon, passei ao visceral completo que era o Guarnieri, como Dôdo. O Guarnieri não era técnica, era brilho, luz própria! Não precisava de nenhuma técnica porque era um ator nato. Pra mim era uma glória contracenar com ele. Porque eu sentia que aquilo ia ser um desafio, mas acabou sendo fácil, porque ele jogava muito. Eu jogava, ele jogava, eu jogava, ele jogava... teve um dia em cena em que nós estávamos tão envolvidos, tão envolvidos na nossa discussão que ele começou a ficar puto com a Maíra, ele veio e me deu um tapa na cara! Me deu um tapa na cara, e a coisa foi toda do personagem dele, foi a evolução daquilo que nós criamos, e eu joguei, entrei no negócio com ele, chorei, me emocionei pra caramba, e dizendo o texto com toda força possível. O Dôdo representava justamente o medo, a insegurança, o povo naquela situação em que estava, e eu ia no meu lado de sobriedade emocional, representando o ideal do revolucionário, que acaba se fodendo sempre. Quando a cena acabou teve não sei quantos minutos de aplauso em cena aberta. O Guarnieri sempre tinha aplausos em cena aberta. E o Sérgio Ricardo não entendeu aquilo e queria entrar no palco pra dar porrada no Guarnieri e defender a mocinha (risos).

O Dôdo de Guarnieri

Antônio Petrin – O Guarnieri era de uma qualidade de ator, que você falava assim "mas"... porque ele era... como vou dizer... ele tinha uma naturalidade, que às vezes, se você fosse observar claramente nos cânones de uma interpretação, aquilo lá às vezes não saía da nota cinco. (imita) "Ti – ti – ti – nha um – uma forma até meio...", pra dizer as coisas. Mas isso tudo era falado, sabe, e saía com uma verdade inacreditável. Então o Guarnieri era desses atores que entravam e executavam como se aquilo fosse a coisa mais fácil do mundo. Nada era dificuldade. Você não via uma tensão em nenhuma parte do corpo. Que é o grande segredo para o grande intérprete é quando o corpo está solto como nós estamos aqui. Por isso que a voz sai facilmente, e tal. Se a gente pudesse, aliás, o Stanislavski tem esse exemplo, né? Ele coloca na cena um casal de velhinhos conversando, e do outro lado uma cena quase que circense, fazendo milhões de malabarismos, e os dois velhinhos ali conversando. A platéia esquece o malabarismo, fica olhando o casal de velhinhos, tal é a naturalidade com que eles estão representando, porque aquilo não é uma coisa ensaiada. Ensaiaram aquele salto, ensaiaram aqueles pulos, aquela coisa toda, não, o que é legal é aquilo ali. E o Guarnieri era esse tipo. Você podia fazer acontecer chuva de prata aqui, e você colocava ele dizendo qualquer texto, você ficava nele, esquecia a chuva de prata. E eu fazia a mesma coisa com o Grande Otelo. Eu fazia uma peça, O Homem de la Mancha, eu, Paulo Autran, Grande Otelo, Bibi Ferreira. Eu saía de cena e ficava vendo Grande Otelo representar. De tanto que era essa coisa, essa coisa natural, mas não aquele natural pensado, "olha como eu sou natural", não, aquela coisa espontânea, era aquilo.

Othon e Martha

Sônia Loureiro – A Martha era técnica, também. E muito forte. Dizia suas falas de maneiras forte e incisiva, tanto é que mesmo sendo só um pouco mais alta do que eu, se agigantava em cena. Ela e o Othon eram o poder. O poder militar e o poder civil, o poder armado e o estratégico. O poder. E a postura deles era nesse sentido. Sempre muito frios, eu lembro de um texto que ela tinha, quando ela explicar o negócio do aborto, ela fazia aquilo com uma frieza, e isso deixava a coisa muito mais cruel. A frieza com que ela falava, e a gente fazia tudo muito virado pro público. Bem Brecht. Pra que o público entendesse bem. Quarta parede, mesmo. A única que podia extrapolar um pouco dessa coisa do Brecht era eu mesmo. Ela é um ponto de união entre todo o elenco.

Antônio Petrin – Quando eu não estava em cena, eu estava nos bastidores assistindo o Guarnieri. Veja bem: um grande ator, que você vê a magia dele, quando você está junto, contracenando, não dá pra você apreciar o trabalho do outro, porque você tem que desenvolver o teu, então são dois personagens se batendo ali. Mas o genial é quando você podia sair de cena e ficar olhando o colega. Quando isso acontece é coisa rara no teatro! E o Guarnieri era desses.

Paulo Autran
A propósito desse comentário de Petrin, vale transcrever aqui o que disse o grande mestre Paulo Autran sobre Guarnieri, seu teatro político e mais particularmente, sua interpretação de Dôdo:

Guarnieri é um talento extraordinário. As últimas peças políticas dele, ainda no período da ditadura, foram um mar de sucessos. Eram, no momento, peças indispensáveis, a que a gente assistia com um prazer enorme. Ele dizia o que queríamos dizer, embora usando uma simbologia especial, porque a censura não deixaria passar peças realistas. Escreveu muito, e bem. É um dos nossos bons autores. E, na minha opinião, é um dos nossos atores excepcionais, um ator maravilhoso. (...) Em "Ponto de Partida". Guarnieri fazia uma pausa, olhava para a platéia, e dizia a fala final da peça. Era um instante em que ele atingia a perfeição na interpretação. Comovente. (Paulo Autran - Um Homem no Palco, Editora Boitempo, 1998)

Sônia Loureiro – Isso não acontece mais. Hoje em dia a emoção é do exterior para o interior, e não do interior para o exterior. Então as coisas estão mudadas, bem menos sentidas, bem menos fluídas, estão afastando cada vez mais o público do teatro, porque nós estávamos sempre com casa lotada, com cambistas vendendo ingressos na porta, e peças praticamente proibidas. Eu vivi isso, experimentei, tive este prêmio na minha vida, e só posso agradecer ao Guarnieri, à Martha, ao Othon, que foram pessoas que eu sei que estavam vibrando por mim, querendo trabalhar comigo, me deram uma grande chance, porque eu estava começando em teatro, e é com muita emoção que eu lembro disso, muito feliz, é muita alegria que isso me dá, não é tristeza, não. Talvez, se eu me emocionar pra chorar, como agora, é por alegria de ter tido essa grande oportunidade.

Três décadas depois. Acima, Guarnieri, Martha Overbeck e Sônia Loureiro.
Abaixo, Fernando Peixoto, Antônio Petrin e Othon Bastos

Quatro anos depois, em 1980, o Maria Déia lançou um LP em que incluíram a música Ponto de Partida. Guarnieri escreveu um texto para a contra-capa do LP, que reproduzo aqui (e aproveito para agradecer ao amigo Eduardo Xavier, que cedeu esse material):

Chico e Alberto,
Recebi e ouvi várias vezes a fita que me mandaram do último disco do Grupo Maria Déia. Sério, ele representa o retrato fiel de vosso trabalho. É bem verdade que, ouvindo, sempre sentirei falta da presença de vocês, da troca rápida de instrumentos, da comunicação que prescinde do eletrônico, da garra viva e real à nossa frente. Mas ela está presente na gravação e por certo provocará curiosidade nos ouvintes e eles hão de querer vê-los. Escrevo rápido sem tempo de fazer beleza. Estamos todos muito ocupados ou querendo – necessitando estar. Certo é que a fita, apesar de cassete, me emocionou. E como a gente diz para garantir a verdade da sensação: me arrepiou.

"De poucos sonhos”, confesso, me arrancou lágrimas além do arrepio. Sei lá, entendi. Estamos todos doridos. E nesses tempos que nem de ressaca. Gosto do vosso trabalho, da vossa arte – vocês têm memória, procuram raízes, não se deixam engolir por elas e vão adiante com o pé fincado no real. Mas têm memória e sabem que além do dentro de si existe um fora que o conforma. E ambos estão aí em vossa música e poesia. Brasil de cima a baixo, do direito e do avesso. E como diria o cantador, “em época em que a esquerda vai pra direita e a direita se fantasia de esquerda é difícil ser honesto com tudo”. No país da mentira, vosso trabalho é desmistificação; parte do povo se abre na alma do artista e arrisca e tenta e procura e consegue expressão sem nada, felizmente, de definitivo. Sei lá, está todo mundo meio pirado. Estamos às vésperas de muita coisa boa. Sonhar demais nunca é demais, irmãos, e cresçam os frutos dos quintais. Ai de mim, há coisa nova que ressurge de velhas coisas tão mal-sabidas ainda. Dobradinha! Êta musiquinha bandalha, tão meu Brasil. Verdade, Chico, o som asséptico é na realidade muito mais perigoso, você bem o diz. Viva o desafinado e nossas bandinhas do interior! Êta amor tão grande que tentaram esconder e fazer esquecer em sangue e hipocrisia. Ele continua e cada vez mais vivo. E nos falsetes e gritos doridos do Alberto, sinto explodir nossa alma. É isso, sem modas, certos ou errados, procurar se colocar do avesso como cada qual de nós é. Que é o gosto, o bom, o mau gosto? Sinto em vocês, até mesmo os acordes que ouvia na antiga Rádio Nacional... Sei lá, de Norte a Sul, Brasil contraditório mais vivo e incandescente. Estou nas ruas, sei do povo por sentir-lhe o cheiro, a voz, a lamúria e a risada inesperada. Por isso nos irmanamos. Por isso vocês quiseram que eu dissesse alguma coisa sobre o disco. É isso, irmãos de rota. Para ouvi-lo direito há que estar de coração na mão, olhos alertas e coração pronto, sem desânimos, dogmas e ceticismos. Cansa-me o intelectual empanzinado. Sabemos nada, procuramos chegar ao fundo, como diz o poeta. Ao fundo, cada qual por seu caminho. E nos cruzamos nele e iremos juntos. Assim seja. Abraços e amor,

Gianfrancesco Guarnieri

Sérgio Ricardo, hoje
Mas o que emociona mesmo, e o que fica para sempre da parceria extraordinária de Guarnieri e Sérgio Ricardo não são só as músicas, mas a ligação afetiva, a identificação de propósitos, a grandeza do talento, de caráter e de coragem. Para definir o que Guarnieri significou para os brasileiros, Sérgio nos brinda com mais uma pérola de sua poética singular e super-dotada:

Guarnieri foi um grande guerreiro cujas armas eram a palavra, a poesia e sua atuação como ator. Um grande pensador em tudo o que fez, usando a arte para transformar a carcomida realidade brasileira. Um guerreiro vitorioso pois alcançou nossa alma, nossa consciência e nosso coração. Nota MIL.
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Este é o link de download do compacto duplo de Sérgio Ricardo, trazendo as músicas do espetáculo, além das versões dele e do Grupo Maria Déia para a música Ponto de Partida.
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Veja também:


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10 comentários:

  1. Como sempre, maravilhoso, precioso... PARABÉNS!
    Vi o espetáculo lá no centro, tenho o disco do Maria Déia (amigos queridos que não vejo há um tempo), e - para não dizer que falei falei e não disse nada, lembro que o grupo tinha um terceiro integrante, Nelson Guerchon, que saiu para assumir a medicina, mas que estava no espetáculo, inclusive (e ainda participou deste disco). Momentos de grande emoção: assistindo há anos atrás, e lendo este oportuno texto. Abração. (Como sempre, repasso para grupos, para atingir mais gente ainda.)

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  2. Sem querer criar polêmica mas já criando: o Nelson Guerchon já tinha saído do Maria Deia quando o grupo foi para São Paulo fazer o Ponto de Partida. Quem subiu ao palco do Teatro TAIB com Chico Moreira e Alberto de Castro foi Ronaldo Florentino. E o Nelson também não participou do LP mostrado na postagem. Eu sei. Estava lá. Inclusive, criei a capa do LP e fiz os desenhos da capa e do encarte.

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    1. Confirmo tudo que foi dito por BeMedina. As fotos do espetaculo demonstram uma terceira pessoa no Grupo Maria Déia, além de mim e do Chico Moreira. Essa pessoa era Ronaldo Florentino. Na ocasiao éramos um trio, mas usavamos diversos instrumentos: contrabaixo, violoes classicos, violas caipiras, charango, flauta transversa, flautas diatonicas, guitarra portuguesa, bandolim e percussoes diversas.

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    2. Aqui esta' o link para a pagina Internet do Grupo Maria Déia. Através dele é possivel verificar através de foto do elenco do "Ponto de Partida" (com Antonio Petrin que substituiu Sérgio Ricardo) - Teatro da Associaçao Israelita Brasileira (TAIB) no Bom Retiro, Sao Paulo. No alto da foto do elenco é possivel ver Fernando Peixoto com um banjo nas maos e à sua direita o violonista e compositor Ronaldo Florentino, que com Chico Moreira e, comigo, Alberto Chicayban de Castro, tocava ao vivo a musica do espetaculo. Link: https://e.jimdo.com/app/sc1a575943dec7034/pe6be2ce4736bb4be/?cmsEdit=1

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    3. Alberto, obrigado pelo esclarecimento. Infelizmente não consegui acessar o site (Oops! You're not logged in (anymore). Log in to your Jimdo website). Espero que o texto tenha sido do teu agrado e tenha trazido lembranças boas. Abração!

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  3. Caro Bernardo,

    um visitante do meu blog acaba de me avisar que o link para o disco do Sergio Ricardo quebrou. Você poderia repostar? Muito obrigado!

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  4. Viajei no tempo...lembrei do dia que assisti a peça Ponto de Partida. Lamentei ter perdido o livro...por uma boa causa: Enviei para uma amiga que estava no exilio...ela voltou...o livro ficou.E eu precisando dos dados dele para colocar num trabalho acadêmido: Guarnieri, Gianfrancesco - Ponto de Partida.. editora???ano. São PAulo. em que página está o verso de Sérgio Ricardo: tenho para minha vida a busca como medida o encontro como chegada e como ponto de partida?????
    Parabéns pelo trabalho...Marci Brondi

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    Respostas
    1. Marci, como vc deve ter visto nas mensagens anteriores, ando meio atribulado e afastado da vida internética, por uma série de razões, mas assim que puder vou responder todas as tuas perguntas sobre o livro, que se não me falha a memória, é da Civilização Brasileira. Para começar, te aconselho a procurar uma cópia do livro na Estante Virtual - www.estantevirtual.com.br - onde creio que vc poderá encontrá-lo por preço acessível.

      Volto em breve.
      Abraços
      Bernardo

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