quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Jânio: Ideologia, Populismo e Caudilhismo


Ao longo dos anos se verifica que a História é, de certa forma, estabelecida por aqueles que a contam, deixando, por vezes, que conceitos subjetivos e questionáveis acabem cristalizados como versão final. A vida de Jânio está cheia desses conceitos e essa é uma das razões que me levaram a escrever a biografia do ex-presidente: uma tentativa despretensiosa de desmistificar bobagens que já entraram para a história como verdade, por conta de historiadores e jornalistas (e sociólogas, inclusive) que deixaram seu ódio por Jânio falar mais alto que a verdade factual e documental.

Jânio tinha duas características políticas acentuadas: o caudilhismo e o populismo. A primeira é a qualidade do chefe de um bando, seja militar, civil, ou o que for. A segunda é o movimento pelo qual um político sobe ao poder, e lá se mantém, única e exclusivamente com o apoio popular. Getúlio combinou as duas idéias, embora de maneira espaçada, pois subiu ao poder por um golpe militar (1930), foi deposto 15 anos depois (1945) e voltou ao poder uma segunda vez, só que agora com o voto popular (1950). Jânio, que granjeou a estima do povo desde o início de sua vida pública, ao contrário de Getúlio, que só se tornou conhecido depois de um golpe, pretendeu o poder incondicional (no que daria vazão ao seu caudilhismo) só que com pleno respaldo popular, jamais utilizando-se de meios despóticos para atingir seus fins (no que daria vazão a seu perfil populista).

Isso é para mostrar que as duas características que pautaram a vida política de Jânio são antagônicas a quaisquer ideologias. O populista, sobretudo, não pode se associar demais a ideologias, sob pena de perder determinado naco da população que poderá futuramente ser o fiel da balança, em uma eleição. Getúlio percebeu isso em 30, e procurou desvincular a Aliança Liberal de qualquer ideologia, inclusive o recém-nascido comunismo (razão pela qual Prestes ficou fora da revolução). Já em 35, combateu a Intentona Comunista da maneira mais violenta possível. Em 38 foi a vez de descer o sarrafo no Integralistas. Na 2ª Guerra, Vargas pendia para o Eixo, e o Brasil só apoiou os Aliados quando o dinheiro americano jorrou copioso em terras nacionais. E por aí vai.

Jânio trabalhava da mesma forma, só que dentro da democracia. Sua primeira filiação partidária foi na conservadora UDN; depois veio o híbrido PPS (Partido Popular Sindicalista), do perrepista Marrey Junior e do ex-integralista Miguel Reale, mas o jovem mato-grossense acabou se elegendo pelo nanico e fisiológico Partido Democrata Cristão. Já em 54 elegeu-se governador pelo Partido Socialista Brasileiro. Em 58 elegeu-se deputado federal pelo PTB paranaense. Na eleição presidencial voltou à UDN. Em 61 condecorou o Guevara, chocando os engomados políticos da UDN e os militares. Ao mesmo tempo tinha como Ministro da Guerra Odylio Dennys, general velho que participou de todos os golpes militares do século 20. Em 64 e 68 foi severamente punido por fazer pronunciamentos contrários ao golpe de 64. No início da década de 80, elogiou Lula e o PT, e ao mesmo tempo transformou-se no mais aguerrido anti-comunista que já se viu na face da terra. O que se depreende disso? Que o caudilhismo e o populismo de Jânio impediam que ele tivesse qualquer perfil ideológico. Foi comunista quando isso convinha à sua ascensão política e anti-comunista quando se fazia necessário.

O que não pode deixar de ser ressaltado, a bem da justiça, é que quando estava no poder, seja como prefeito, governador ou presidente, Jânio era um grande liberal e não se deixava guiar por quem quer que fosse, a não ser sua própria consciência. E como ele já estivesse no poder e não precisasse mais de votos, isso é prova de que, quando detinha o poder e podia agir sem permutas ou concessões partidárias e políticas, ele professava a sua própria ideologia, que, se analisarmos a fundo, era mais de esquerda do que de direita. Quando lhe perguntavam se isso era incoerência, ele sacava da manga mais uma de suas respostas brilhantes: "Já fui acusado de comunista e de anti-comunista, o que demonstra que o que realmente sou é um democrata".

Também há dúvidas quando se consideram as medidas que Jânio tomou na presidência, como a briga de galo, o turfe, os biquínis, etc. Isso se explica facilmente: uma vez na presidência, Jânio se deparou com o abismo financeiro deixado por seu antecessor, JK, que realizou seu megalomaníaco plano de 50 anos em 5, construindo Brasília e deixando a conta para o presidente que viesse a seguir. Como Jânio precisava recolher os cacos da economia nacional, medidas impopulares teriam que ser tomadas. Isso significava desagradar o povo em muitos aspectos, já que desde aquela época, quem pagava a conta dos políticos era o cidadão mais humilde. Assim, com a intenção de desviar um pouco a atenção das medidas de saneamento da economia, divulgou-se fartamente a proibição da briga de galos, do turfe e a questão dos biquínis, consideradas questões bobas, mas que eram justas e agradariam a maioria do povo.

O que acontece é que, como sempre, os historiadores ficaram na superfície do fato, esquecendo-se das causas e das conseqüências. 1 - Em relação aos galos, a proibição já era regional, em razão da evidente crueldade da rinha. Jânio nada mais fez do que transformar a proibição regional em nacional. 2 - Quanto aos biquínis, até hoje as pessoas sequer sabem dizer qual era a proibição; pois bem, o que Jânio proibiu foi "o desfile de biquínis em concurso de Miss". 3 - Jânio proibiu o turfe (corridas de cavalos) em dias úteis. Aí é só analisar: a proibição das rinhas foi correta? Sem dúvida, tanto é que persiste até hoje. Quanto aos biquínis, a verdade é que os concursos de Miss entraram em decadência, mas enquanto existiram até pouco tempo atrás, os desfiles continuavam sendo de maiô, e não de biquíni, prova de que a proibição de Jânio mais uma vez o sobreviveu, e que sua medida, para todos os efeitos, estava certa.

A proibição parcial do turfe, que nada mais é do que um jogo de azar exatamente igual ao Bingo, acabou logo depois, porque o dinheiro que banca o turfe é graúdo.

Em geral, Jânio se relacionou bem com os movimentos de esquerda por quase toda sua vida. Os movimentos de esquerda é que - com toda razão - jamais lhe deram confiança. Em 48, por exemplo, quando o partido comunista estava recém-entrado na clandestinidade e sendo demonizado pelo governo Dutra, Jânio, ainda vereador, votou a favor da doação de uma coleção de livros do Jorge Amado - considerado um perigoso comunista, na época - para bibliotecas municipais. Nas eleições para a prefeitura, em 53, e para governador, em 54, Jânio se elegeu com o apoio do Partido Socialista. O rompimento com os socialistas ocorreu no fim dos anos 50, mas Jânio continuou surpreendendo a esquerda brasileira, especialmente na política externa que adotou na presidência: engatou o reatamento de relações com a URSS (efetivada por Jango em dezembro de 61, 4 meses depois de Jânio renunciar), ensaiou ao mesmo tempo um mercado comum sul-americano (que se concretizaria nos anos 90 com o Mercosul) e um mercado com os países da cortina de ferro européia; aproximou-se de Kruschev, com quem mantinha relações muito mais estreitas do que com Kennedy, para o desgosto dos militares e dos udenistas que seguiam as orientações americanas como vacas de presépio; condecorou Yuri Gagarin e Che Guevara, etc.

Jânio e Che Guevara

Pelo fato de Jânio ser populista, não ter pertencido formalmente a agremiações comunistas e não ter se assessorado quase nunca de gente com qualquer tradição comunista, a esquerda sempre lhe franziu o nariz. Além disso, a carreira de Jânio teve início quando o comunismo foi para a clandestinidade, e nos anos 50, enquanto Jânio vivia seu fastígio político, o comunismo praticamente não existiu. Quando começou a voltar, na primeira metade da década de 60, com as Ligas Camponesas de Francisco Julião e o movimento trabalhista de Brizola e Miguel Arraes, o golpe veio e acabou tanto com o comunismo quanto com a carreira de Jânio. Já na segunda metade da década de 60, quando a repressão à esquerda atingiu seu máximo, Jânio fez um pronunciamento contra o governo de Costa e Silva que lhe valeu uma pena de 120 dias de confinamento em Corumbá.

A imprensa entrevistou José Dirceu - na época presidente da UNE - sobre o ocorrido, e Dirceu deu a medida exata do juízo que esquerda fazia de Jânio: declarou que a esquerda não se sentia nem um pouco sensibilizada com o confinamento de Jânio, já que sua renúncia fôra a responsável por todo aquele estado de coisas. Ou seja, a esquerda debitava o golpe de 64 sobre a renúncia, e não via Jânio como vítima do golpe, e sim como responsável por ele.

Na década de 70 a ditadura entrou em sua reta final. A posição de Jânio - cassado e proibido de falar em política - ficou entre o silêncio e a adesão. Era contrário ao radicalismo de ambos os lados. Sonhava com a volta da democracia mas elogiava Ernesto Geisel. Condenava os excessos da ditadura mas criticava o MDB, ao qual se filiara na década de 60, se retirara em meados dos anos 70 e que agora adjetivava como um balaio de gatos. Quando as eleições voltaram, porém, tentou de todos os jeitos reativar sua filiação, a fim de se candidatar ao governo. Não conseguiu. Nos meses que antecederam a eleição indireta entre Maluf e Tancredo, manteve-se sobre o muro, hora pendendo para um, hora pendendo para outro. Dias antes da votação, decidiu-se por Tancredo.

Em sua última campanha, em 85, para a prefeitura de São Paulo, Jânio enfrentou dois candidatos que tinham tradição esquerdista: Fernando Henrique Cardoso e Eduardo Suplicy (ironicamente, FHC é filho de general e Suplicy vem de uma das famílias mais ricas do Brasil). Com um passado político que incluía uma estranha renúncia, sempre caracterizada como um golpe político frustrado, Jânio acabou taxado como o grande reacionário do pleito. Sem argumentos para rebater tais acusações, o lado mais negro de seu populismo entrou em ação, e ao invés de se defender diante do que o acusavam, ele decidiu adotar a estratégia de se defender atacando. No caso, atacar exatamente o esquerdismo de seus adversários. Dessa forma, Cardoso virou um subversivo que incentivava o uso de drogas e Suplicy virou um reles instrumento dos comunistas para transformar São Paulo em uma sucursal da Albânia. Com efeito, a volta da democracia, no Brasil, coincidiu com os estertores do comunismo mundial, então as eleições de 85 até 90 foram polarizadas não só entre esquerda e direita, mas entre capitalismo e comunismo. E, vendo a esquerda soçobrar no mundo inteiro, Jânio rapidamente se decidiu pela direita. E na direita, cercado pelos piores elementos da política brasileira, ele terminou seus dias. (29/3/2004)

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