quarta-feira, 30 de março de 2016

Bibi Ferreira e sua recusa no Sion


Correio da Manhã, 27/2/1929

Eis o que aconteceu: Em meados de fevereiro de 1929, Procópio procurou o Sion — colégio de freiras francesas fundado no início do século passado — para que Bibi, com seis anos, iniciasse o primário. A primeira conversa foi entre Aída e uma freira do colégio; falaram sobre o uniforme e outros detalhes além de um pagamento inicial pela matrícula. Antes que um novo encontro pudesse ser marcado, a escola mandou avisar por telefone que uma carta chegaria pelo correio. Antecipando-se à carta, Procópio foi à escola e recebeu a notícia de que a matrícula de Bibi fora indeferida pela madre superiora — uma tal de Marie Gaetan, que mal chegara ao Brasil — por ela ser "filha de artistas teatrais".

A Noite. 26/2/1929
O diálogo subseqüente entre a freira e Procópio é surrealista; ela se desculpou, explicando que quando lhe disseram que Bibi era filha de artistas, "eu supus que a arte do senhor era outra... de teatro não admitimos ninguém". E a coisa não parava aí: "Não é nesse ponto, apenas, que se tornam rigorosos os nossos estatutos. Também não recebemos pessoas de cor, embora oriundas de famílias de sociedade". Ou seja, não bastasse o preconceito mais asqueroso, as freiras ainda eram abertamente racistas; a proibição à presença dos negros não era tácita ou informal; era estatutária! Procópio obtemperou que era casado, levava uma vida absolutamente regrada e podia prová-lo com documentos. A freira não aceitou e respondeu que se a exceção fosse feita, outros pais poderiam se melindrar e retirar as filhas do colégio. O ator não respondeu mais. Deu meia volta e saiu da escola. À imprensa, ele falou com ironia:

As famílias que têm suas filhas no colégio das Irmãs de Sion  que não podem sofrer o contágio de minha filha, cheia de inocência e de pureza  freqüentam o meu teatro, aplaudem o pai de Bibi! Não era natural, pois, se revoltarem contra a convivência de suas filhas com minha garotinha que não está em idade de ensinar maus costumes, e não os têm.

Mais sério, cuidou de traçar uma linha entre seu teatro e aquele a que denominou de "brejeiro", provavelmente o que continha nudez e apologia à boêmia:

Eu professo uma arte honesta e tenho feito nas peças que represento a propaganda dos sãos princípios sociais. Não divulgo o chamado "teatro brejeiro". Não aceito, por isso, a equiparação do artista honesto ao lázaro moral, cuja sânie progride mais do que a material. Em nome de um programa que constitui uma ofensa, foi fechada a porta de um estabelecimento orientado por servas do Senhor à minha filha, que é dócil e boa. Não hei de, por causa deste incidente, atirar Bibi à ignorância. É bem possível que para não ver reproduzido o indeferimento, seja forçado a mandar Bibi educar-se no estrangeiro. (Correio da Manhã, 27/2/1929)

No dia 23 Procópio foi à sede do jornal A Manhã, fundado quatro anos antes por seu amigo Mário Rodrigues. Mário, porém, deixara o jornal no ano anterior para fundar A Crítica e quem estava ocupando o cargo de redator-chefe naquele momento era o anarquista e socialista Agripino Nazareth. Procópio contou-lhe a história toda. Saiu de lá e foi para a redação de A CríticaAs reações não se fizeram esperar e foram muitas, e das mais variadas origens. A "Casa dos Artistas" foi uma das primeiras a verberar sua revolta:

Irmãs de Sion, originárias da gloriosa França - a terra liberal por excelência, capital da Inteligência e irradiadora da Arte — procedestes menos como filhas de Cristo, do que como remanescentes de uma burguesia enfatuada, inculta, prenhe de preconceitos irritantes, intoleráveis no Brasil, que vos agasalha. (...) A Casa dos Artistas (...) não vê com bons olhos o vosso ato, contrário a todos os princípios cristãos, contrários ainda aos princípios constitucionais do nosso país, que não admitem classes, nem privilégios tão irritantes, provindos de quem, por todos os motivos, deveria dispensar melhor atenção aos que lhe dispensam deferências especiais. (...) Depois da sempiterna cena do Morro das Oliveiras, é de esperar tudo mais entre os homens... e reanimar um velho preconceito por trinta dinheiros e sem figueira é humano, demasiadamente humano... (A Manhã, 24/2/1929)

Agripino Nazareth
Foto: "Anarquistas e comunistas
no Brasil", de John Foster Dulles 
Agripino Nazareth, como não podia deixar de ser, frisou o aspecto da divisão social e evidente privilégio de classe, no episódio:

Ele bateu às portas do Sion, com a pequenina pela mão; bateu e disseram-lhe que ali não havia lugar para a filha de um comediante. E naquela repulsa como que se fazia ressurgir, depois de séculos e séculos de evolução da própria igreja, o horror beato pelos saltimbancos, pelos histriões, pelos cômicos, por todos quantos refletem no teatro, a beleza e a infâmia da vida de cá de fora. O horror antigo ou a hipocrisia de todos os tempos. Porque as meninas do Sion, como hoje fazem as suas mamães, poderão mais tarde admirar Procópio, aplaudir Procópio. Mas não poderão ter ao seu lado, no mesmo colégio, companheira de estudo e de brinquedos infantis, a filha do ator que as fará rir, mais tarde sem as maldições da igreja. (...) A culpa é de Procópio, que antes de Sion, deveria ter batido às portas do Vaticano, para pleitear um título de conde, O conde Procópio... Depois disso ele poderia ser ator, poderia ser até açambarcador de gêneros de primeira necessidade, e, portanto, concorrer para que as criancinhas sofressem fome, que o Colégio Sion lhe abriria as portas. Lá não estão muitos netos de ferozes negreiros e outros tantos filhos dos que enriqueceram sobre a sangueira da Grande Guerra?... (A Manhã, 26/2/1929)

A Crítica, 24/2/1929

A Manhã, 27/2/1929

Armando Gonzaga
Foto: www.armandogonzaga.com.br
O dramaturgo Armando Gonzaga, em nome da SBAT consignou seu nojo pela atitude do Sion:

No Brasil não há privilégios e castas ou estirpes. E é por isso que ainda mais escandaliza a estranha atitude das religiosas do Sion, atitude que chega a ser cruel. (...) Mas não é só. Aceitando mesmo, apenas para argumentar, que o ator seja um indivíduo completamente perdido no conceito social; nada mais natural e piedoso do que procurar salvar a sua prole. E foi a isso que se recusaram inexplicavelmente as diretoras do colégio Sion, elas que acham que o ator é uma expressão da infâmia no convívio da sociedade. Dir-se-á que as prudentes irmãs temeram que a pobre criança, com seis anos apenas, já estivesse de tal modo contaminada pelo "mal do teatro", que oferecesse um grave perigo às educandas do Sion. Mas se é assim, confessem essas senhoras a fragilidade dos ensinamentos ministrados no seu afamado colégio, os quais não resistiriam à ligeira influência dos maus costumes de uma criança de seis anos! (A Manhã, 27/2/1929)

A Manhã, 8/3/1929
Uma pérola de humor ácido é o texto do ator Carlos Machado que trabalhou com Procópio na companhia de Lucília Peres, quando o pai de Bibi estava começando sua carreira (e voltaria a trabalhar com ele nos anos 30). Referindo-se à diretora do colégio como "Vossa Maternidade", ele estapeia a freira sem parar:

Temeu V. Maternidade, ou temeu que temessem os pais das vossas educandas, que essa bela criança de seis anos apenas, pudesse trazer no sangue o vírus mau do teatro, ou escondido nas pequenas dobras do seu corpinho gentil, o miasma infeccioso dos bastidores, esses antros onde julga V. Maternidade que Satanaz impera em contínuas bacanais. Como sois ingênua, minha irmã! Sois mesmo mais que ingênua, sois ridícula! (...) Bibi, minha irmã, é uma criança pura e inocente e boa. Tão inocente e pura que até o diabo respeita, mas que V. Maternidade não soube respeitar, lançando sobre ela na vossa freirática ignorância um anátema doloroso, que mais tarde, com a maturidade do seu intelecto, a fará sofrer e revoltar-se. E dizer que o Cristo sofreu tanto para criar uma religião de bondade e de doçura, para que essa mesma religião pouco a pouco vá perdendo terreno, pelas leviandades e ignorância dos seus sectários!

Nisso Carlos se equivocou. Bibi não apenas não se revoltou com o fato, como o viu, ao longo dos anos, com bom humor e a indiferença que uma proibição tão imbecil mereceu. Mas logo em seguida o ator fez comentários lapidares, falando verdades que todos conheciam e poucos externavam, em relação ao ensino do Sion. Disse que teria recomendado a Procópio o colégio de seus próprios filhos, "onde se lhes ministra uma eficiente instrução, sem o alarde do vosso, de onde saem ignorância dourada, bonecas de luxo com pouca instrução mas imbuídas de muitos hábitos de luxo e de riqueza, que se tornam contraproducentes e desastrosos na vida real, porque nem sempre essas moças encontram rapazes ricos para casar". (A Manhã, 28/2/1929)

Foi eloqüente o protesto do poeta Castello Branco de Almeida, e tocou em cheio num aspecto dessa polêmica que, como se viu, vinha revoltando a muitos: o viés financeiro, comercial na atitude da freira, rejeitando a matrícula de Bibi por medo de melindrar pais metidos a beatos e santarrões:

Pesa sobre a alma da superiora do Colégio Sion o crime sem igual de haver envenenado um coração de criança e ferido um homem no que ele tem de mais nobre, de mais puro e de mais santo: o amor de pai! (...) Religião e negócio ao mesmo tempo: é o que é! Cristo, um dia, expulsou os vendilhões do templo; (...) postas as coisas no pé em que estão, que aconteceria hoje, se Ele voltasse? O seu primeiro ato, estou certo, seria expulsar os novos vendilhões, aqueles mesmos a quem confiou a Casa de seu Pai! Mas não há de voltar! Podeis mercadejar à vontade! Como toda mercadoria se adultera, podeis adulterar à vontade a palavra de Cristo, que é toda a vossa mercadoria! Vós, freiras de Sion, vendeis ENSINO RELIGIOSO: a vossa parte na rendosa mercancia. Explorai, pois, o vosso comércio! (A Manhã, 1/3/1929)

A Manhã, 3/3/1929

A "Mesa Executiva da Classe dos Atores Brasileiros", que, suponho, seja a pré-história do Sindicato dos Atores, vociferou seu protesto pela imprensa, enviando memorandos à Liga de Defesa Nacional, à Sociedade dos Homens de Cor e ao Centro Acadêmico Nacionalista. À Liga, o protesto ultrapassa a moralidade e entra na inconstitucionalidade na atitude das freiras, que sequer eram brasileiras:

A Manhã, 1/3/1929
O caso é por demais escandaloso e, neste momento, prende e causa surpresa a todas as inteligências superiores do nosso país. Motivou-o a errada consciência e a menos nobre sensibilidade de uma educadora, filha de Deus... Trata-se do incidente Procópio-Sion. (...) A não ser somente as filhas dos atores, as filhas dos mestiços não poderão ser educadas no Colégio de Sion. Como? Por quê? (...) Diante disso, só mesmo o ímpeto natural aos indignados, o desabafo colérico do raciocínio ante fenômenos ignóbeis, a lógica procurando dirimir acontecimentos inaceitáveis num país e acalmar, elucidar, o gesto inconstitucional da freira que dirige o Colégio Sion. Que Pátria, política e moralmente perguntando, é a nossa? (...) Nesta hora da nossa vida social, o mestiço foi banido do convívio superior das castas, como se o mestiço pelas suas qualidades mentais e morais não fosse uma casta também superior.

À Sociedade dos Homens de Cor o comentário é sentimental e procura desagravar os negros, tão horrível e publicamente segregados pelas freiras:

O gesto nascido por parte de uma suposta filha de Cristo que, recusando uma criança, procurou generalizar esse mesmo gesto, ofendendo toda uma classe e humilhando, da mesma forma, os seres, quando estes sejam produtos de raças diferentes, é por demais aviltante e de primitiva intransigência. De há muito, o próprio Homem, crescendo em cultura e procurando a harmonia das espécies, baniu da terra, em virtude de conquistas fadigosas à procura da democratização dos povos, o antipático e desumano preconceito da cor. (...) Aqui impera a expressão coletiva da gênese racial, no afã criador de fazermos da nossa gente e das nossas coisas, a radiosa realidade de um país acima de quaisquer pruridos aristocráticos, como aqueles em tão má hora emitidos pelo falso catecismo de uma representante religiosa. (...) É uma ofensa direta e mesquinha ao produto humano de duas raças. (A Manhã, 3/3/1929)

Almoço na casa de Procópio em 29 de março de 1929. Da direita: Procópio e Aída, no centro o jornalista Mário Rodrigues com Bibi, a atriz Hortênsia Santos (de lenço preto), entre outros. Segundo as Memórias de Procópio, o pai de Nelson Rodrigues teria se prontificado a utilizar, contra os pais hipócritas que protestaram contra a admissão de Bibi, um de seus mais temidos expedientes: procurar-lhes as amantes e publicar fotos e cartas amorosas trocadas entre eles. Procópio agradeceu mas optou por esquecer a ofensa do Sion. (Foto: "Procópio Ferreira, o Mágico da Expressão", de Jalusa Barcelos)

Desnecessário dizer que Mário Rodrigues — jornalista agressivo, de têmpera violenta — ficou histérico com a injustiça absurda perpetrada pelo Sion. No dia 28 de fevereiro já estampou na primeira página de seu jornal a manchete: "Em Paris, um piedoso padre acolhe, ampara e educa as meninas dos Music-Halls, esse sim, é que está mais perto d'Aquele que disse 'Vinde a Mim os pequeninos', e não madre Marie Gaetan, a desencantada da beleza da vida, a cortesã da fortuna, da fidalguia e do burguesismo!"

Na seqüência ironizava o preconceito do educandário: "No Colégio Sion não entram filhas de atores, afirma madre Gaetan, a superiora do caríssimo estabelecimento. Mas de lá saem atrizes e otras cositas más, podemos afirmar nós outros, que afinal de contas, conhecemos a cidade...". Para piorar, ventilara-se que uma sobrinha da cantora lírica Gabriela Besanzoni estudava tranqüilamente no colégio das freiras. Mais uma ironia: "O Sion tem sua 'lista de ouro'. Não recebe filhinhas de artistas. Mas produz, e em abundância, atrizes de teatro e do palco da vida". (A Crítica, 28/2/1929)

A Crítica, 2/3/1929
No dia 2 de março Mário dedicou seu editorial ao caso de Bibi e o Sion. Inicialmente questionou o silêncio das autoridades pelo que seria um crime previsto em lei. Referindo-se à diretora do colégio como "madame Gaetan", "essa freira cheia de ranço", diz ele:

Recusando o ingresso da filhinha de Procópio Ferreira no colégio que dirige, sob o pretexto alegado, não teria a estrangeira malquista atentado contra as nossas leis? Ela feriu uma classe laboriosa, fulminando-a através de um desprezo mesquinho. (...) Não se compreende, pois, que um instituto de gente estranha se desmande ao ponto de inscrever nos seus estatutos a tremenda escusa miserável, cuja vilta recai, primeiro, sobre a nossa legislação, acoimada de impudica e indigna de respeito. Que lástima!... Há aqui um pomposo Conselho Superior do Ensino, a que se devem achar subordinados tais estabelecimentos. Perguntamos-lhe se não atenta no achincalhe subversivo de madame Gaetan. Desta madre curtida de fel (...).

Em seguida, o racismo, que lhe traz à memória a figura da "Mãe Preta", amas de leite de nove entre dez brancos, à época:

O Sion não recebe também as "brunes". Adstrito a preconceitos irredutíveis, o mercantilismo das cortesãs da aristocracia, idólatras do sangue azul, não admite a caldeação de raças. Cabelos louros, olhos verdes, pele de roseclér... É uma injúria silvante ao nosso povo, que, sem a miséria dourada das árvores genealógicas de sociedades decadentes, gafadas de depravações seculares, se forma dessa forte mistura, na qual se fundiu o tipo do meio aborígene. Ó figura excelsa, legendária, sublime de abnegação, de Mãe Preta!, dizei às inimigas do sacrifício que nasceste, afortunadamente, para a fecundidade e para o desprendimento; que nunca rejeitaste o peito farto de leite e doçura a um pequenino, filho de ator ou filho de fidalgo. (...) Mãe Preta, os teus filhos, ou os filhos dos teus filhos, não entram no Colégio Sion... Parabéns! Assim, eles não perderão, ali, o sentimento da Pátria, ultrajada por hóspedes sem cautela; nem perderão a oportunidade de aprender contigo o que tantos aprendemos: o amor da humanidade. (...) Mãe Preta, inculta e agreste, quanto és melhor que essa madame Gaetan, a priora das desigualdades sociais! (A Crítica, 2/3/1929)

Até Getúlio Vargas  ainda presidente do Rio Grande do Sul e testando as águas para ver se aceitava o convite do velho Antônio Carlos, para se candidatar à presidência  entrou na jogada, respondendo ao telegrama que Procópio lhe enviara contando o ocorrido. Disse o futuro ditador (e autor, diga-se, a bem da verdade, de uma lei, quando deputado, que iniciava o processo de regulamentação da profissão do ator), cheio de solidariedade: "Lamento ocorrência a que vos referis em vosso telegrama e reafirmo, com prazer, a consideração que sempre me inspirou a classe teatral. Cordiais saudações, (a) Getúlio Vargas". (A Crítica, 5/3/1929)

Mário Rodrigues chegou a sugerir a Procópio um expediente utilizado em situações extremas, ou seja, a publicação em seu jornal de fotos das amantes de alguns dos pais com filhas no Sion. O ator, inteiramente alheio ao terrorismo contido na atividade diária de jornalistas abrasivos como Mário, agradeceu mas declinou a proposta. O pai de Nelson Rodrigues entendeu mas não largou o osso. Durante algumas semanas ele aporrinhou a bolorenta madame Gaetan, descobrindo podres da freira que incluíam desde propriedades degradadas até multas que não haviam sido pagas. 

Aporrinhando madame Gaetan: Mário Rodrigues publica notícias e desmandos do Sion
todos os dias para vingar a afronta à Bibi e ao amigo Procópio

Anna César Vieira
E os protestos continuaram. Por sinal, oportuno e inteligente foi o protesto da escritora e feminista pioneira Anna César Vieira:

O "sangue azul", a aristocracia argentária, burguesa, tola, desaparecem dos cenários contemporâneos, dando lugar a altas e excelsas qualidades morais, científicas, literárias, artísticas e industriais. (...) O pensamento moderno não admite crendices, nem preconceitos absurdos, mentirosos; aperfeiçoa, burila sociedades e povos, sem distinção de raças, nem de classes (...). Não recebe o "colégio" nem pretos, nem filhos de artistas de teatro, como se não fosse da estirpe moral do mestre do Gólgota beber água das mãos da Samaritana e morrer crucificado pelo amor do próximo. O preto e o artista de teatro, em qualquer hipótese, fazem parte do próximo, igualmente, com as outras criaturas, e Deus a todos os seus filhos agasalha, abençoa e concede graças, sem exigências fátuas e injustiças. Se as do Sion, ou os seus estatutos, conforme declararam, não admitem filhos de pretos, nem de artistas de teatro, no "convívio rico" da casa, como então acreditar que lá se possa com sinceridade ensinar a amar e servir o maior, o incomparável artista da criação que em sua maravilhosa obra realizou a síntese de todos os gêneros das arte imortal? E como tolerar também os padres negros do catolicismo?! (Correio da Manhã, 8/3/1929)

A Manhã, 24/2/1929
O procedimento lamentável dessas freiras sujas, preconceituosas e racistas acabou provocando, na imprensa, o primeiro artigo especificamente sobre Bibi.  Foi logo no começo do imbróglio, e na autoria traz as iniciais "M. D.". Não sei quem é, mas Procópio tinha amigos no jornal A Manhã:

A NOTA TEATRAL

Abigail Ferreira, Bibi, como a chamam, quantos a conhecem, é uma encantadora criancinha de seis ou sete anos e cheia de inteligência.

É inocente como todas as meninas de sua idade.

Bibi alia aos seus encantos, à sua ingenuidade e à sua inteligência, uma verdadeira alma de artista. Bibi dança com a graça dos artistas profissionais; baila músicas clássicas, lembrando as estrelas da arte coreográfica; em bailados de fantasia, dá a impressão, quando se exibe em cena, de uma pluma agitada pela brisa. Mas não é só. A pequenina Bibi declama, como se fosse gente grande, mas gente grande animada pelo fogo sagrado da arte, versos dos nossos maiores poetas. Bibi também representa, às vezes, em comédias do Trianon, papéis de crianças.

Bibi, com todas essas qualidades, é o grande orgulho de seu pai, o ator Procópio Ferreira. E não deve ser pecado, perante o catolicismo, terem orgulho os pais de meninas como Bibi.

As crianças privilegiadas como Bibi devem ser eleitas de Deus. São anjos que baixaram à terra. E serão vultos notáveis entre os homens, espíritos criadores, gênios, se Deus continuar a protegê-las.

Eleita de Deus, que tanto a beneficiou, Bibi não o é das irmãs de Sion!

Essas religiosas, revelando uma crueldade sem nome, em contradição com o verdadeiro espírito católico não aceitaram como aluna no colégio que dirigem a inocente Bibi.

Por quê?

Bibi é filha de um ator. E para as santas irmãs de Sion as filhas dos atores, mesmo eleitas de deus, são encarnação de demônios.

Deveriam ser queimadas vivas.

Que pena no século XX não haver a Santa Inquisição.

M. D.

Não foi o único. Quando a polêmica já estava no fim, surgiu o artista plástico mineiro e amigo de Procópio, José Maria dos Reis Júnior, transbordando indignação. Num artigo intitulado "Carta aberta à filha do ator Procópio Ferreira" (que não transcrevo na íntegra pelo tamanho, mas está publicada, abaixo) ele faz longa e inteligente análise de toda situação e seus desdobramentos:

A Crítica, 19/3/1929
Bibi, não te sintas ofendida; ao contrário, orgulha-te de o haver provocado, de teres sido a sua causadora, porque ele revelou, com a sinceridade de um instantâneo, o verdadeiro retrato moral da sua autora; surpreendeu, pelo imprevisto, o real critério que rege essa instituição de ensino rotulada com as predicações de Cristo. Infere-se daí que essas só lhe servem para frustrar as aparências — pois, em verdade, o que transparece evidente desse ato é o culto servil a todos os ridículos convencionalismos sociais, é o estabelecimento de uma atitude sevandija ao burguesismo hipócrita.

Respeito às prédicas do Rabi? Em toda parte, menos ali — que o fato da tua recusa bem o demonstra. Aquele, jamais, em circunstância alguma distinguiu categorias sociais, pois pregava a igualdade humana, de uma maneira tão nobre, tão alevantada que até o diviniza aos olhos dos leigos, que somente por essa forma lhe compreendem a ação. Para Ele o homem é sempre o mesmo — 
recamado de ouro ou revestido de pústulas — se a sua consciência for limpa, se o seu espírito for claro. E se, porventura, particularizava simpatias, seriam sempre para os miseráveis, para os desprotegidos das venturas terrestres.

(...) Nada mais revoltante que uma casa de ensino, dizendo-se cristã, reverenciar, com um desplante cínico, os melindres fictícios da sociedade — negando-se a receber, para amoldar seu caráter e iluminar sua inteligência, uma criança como tu o és, pela simples alegação de que és filha de artista! (...) Que juízo se poderá formar de uma preceptora que recusa ministrar ensino e conselhos, que, na sua acanhada compreensão, são os únicos capazes de bem formar as consciências, a uma inocente que a ela se recorre e cuja vida, segundo ela mesmo, está na iminência de ser transviada? (...) Em todo o caso, Bibi, por isso ou por aquilo, só tens a agradecer-lhe esse gesto que te evitou contrair costumes tão hipócritas e contra os quais toda a intelectualidade se bate. (...) Assim sendo, criaturinha amiga, só tenho a felicitar-te por não teres sido aceita no Colégio de Sion e garantir-te que o estigma reverteu a quem te não aceitou. Isso é o que queria dizer-te.

A "descortesia cruel e ímpia" das freiras do Sion teve um efeito colateral positivo: assim que a polêmica se espalhou, várias escolas, religiosas ou não, se prontificaram a oferecer matrícula à Bibi. Procópio ficou gratíssimo e optou prudentemente por uma escola que não tivesse inspiração religiosa ou cristã; matriculou Bibi na Anglo-American School, em Botafogo, escola fundada por uma educadora inglesa dez anos antes. Bibi teve a melhor educação que uma criança poderia ter, consolidando seu bom caráter, sua inteligência, sua cultura ampla e diversificada, sua personalidade encantadora e benfazeja, e desenvolvendo seus múltiplos talentos. E o Sion adquiriu a fama de uma escola burguesa, segregadora, hipócrita, preconceituosa e racista. Uma mácula eterna.

Fon Fon, 16/3/1929, e a mensagem de solidariedade a Procópio e Bibi
(Segundo "A Manhã" de 5/3/1929, essa foto é do dia 25 de julho de 1928, quando Bibi
se apresentou para Washington Luís, na Feira de Amostras)
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VEJA TAMBÉM:
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BIBLIOGRAFIA
  • A Crítica
  • A Manhã
  • A Noite
  • Correio da Manhã
  • BARCELOS, Jalusa. Procópio Ferreira, o Mágico da Expressão. Rio de Janeiro, Funarte, 1999.
  • DULLES, John Foster. Anarquistas e Comunistas no Brasil. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1977.
  • FERREIRA, Procópio. Procópio Ferreira apresenta Procópio. Rio de Janeiro, Rocco, 2000.

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