domingo, 1 de agosto de 2010

O Poeta Scharffenberg de Quadros

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Meus caros,
escrevi este pequeno apanhado biográfico do poeta Scharffenberg de Quadros para a biografia de Jânio que lançarei em breve. Eram primos em 2° grau. Ficou bem maior do que eu esperava e portanto incluí apenas parte dele no livro. Aqui ele vai na íntegra.

Lamento não ter conseguido encontrar fotos de Scharffenberg para ilustrar o artigo. Não obstante, é, pra variar, o único esboço biográfico do poeta na internet. Nem o site da Academia de Letras do Paraná - de cuja cadeira 38 Scharffenberg é patrono - traz qualquer informação sobre ele.
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Reinaldino Antônio Scharffenberg de Quadros nasceu em 21 de janeiro de 1878, em São José dos Pinhais, Paraná, filho de Antônio Manoel de Quadros e Maria Elisa Scharffenberg. Criança, devorava livros de poesias e sonhava em ser soldado. Escreveu seus primeiros versos aos nove anos, e embora fosse um garoto tímido e introvertido, aceitou recitá-los na festa de aniversário de uma amiga, por quem inocentemente se apaixonara. Os presentes, a princípio, se enterneceram com o poetinha, mas ao fim de sua récita, foi com verdadeira admiração que o aplaudiram, vislumbrando brilhante carreira poética para o futuro.

A Biblioteca Municipal Scharffenberg de Quadros,
em São José dos Pinhais
A paixão infantil, contudo, não era recíproca e macerou-lhe pela primeira vez o coração. Desiludido, foi procurar alento em seu outro objetivo de vida: a carreira militar. E o fez de maneira impetuosa; aos doze anos, fugiu de casa com destino à Curitiba, onde pretendia, em seu delírio pueril, ser soldado e encontrar um lugar tranqüilo e isolado onde pudesse traduzir sua latente cratividade em fulgurantes poemas. Achando-se em dificuldades, chegou a pedir guarida em um quartel, mas com isso seu pai conseguiu localizá-lo, e ele foi levado de volta à São José, onde uma punição severa lhe foi aplicada. Mas sua sensibilidade poética estava repleta de valentia e de temeridade, e o jovem Reinaldino não estava disposto a permitir que uma tunda paterna lhe despedaçasse os sonhos. Fugiu de novo, no ano seguinte, desta vez para São Paulo, onde tentaria arranjar meios de chegar ao Rio de Janeiro. Queria estudar para ser militar. Sua fuga não era mera rebeldia juvenil. Tinha uma ambição, e não tendo respaldo da família para realizá-la, faria tudo sozinho. Só que ele não estava preparado para enfrentar uma cidade como São Paulo. Procurou trabalho dias seguidos no afã de poder sustentar-se com dignidade, mas não conseguiu. O parco dinheirinho com que saiu de São José logo terminou, e o molecote de 13 anos incompletos se viu sozinho em uma metrópole que não conhecia. Por quase dois meses ele viveu como um menor abandonado, passando fome e dormindo nas ruas. Sua fuga arrojada se transformara em um pesadelo que o relegara à reles condição de um mendigo. Foi quando a Providência o colocou frente a frente com um amigo de seus pais, que horrorizou-se com o estado do garoto, e providenciou para que ele fosse imediatamente devolvido ao lar paterno.

De volta a São José, apavorava-o pensar na reação que teria o velho Antônio Manoel. Que castigos terríveis estariam reservados para ele? Seu pai mandou chamá-lo. Reinaldino foi cabisbaixo, como um condenado, pronto para uma coça exemplar, que jamais esqueceria. Não foi surrado. Ao invés disso, seu pai lhe disse que o que fizera estava errado, e que não era justo submeter sua mãe a um desgosto como aquele. Reinaldino concordou e jurou que nunca mais faria aquilo. Em seguida, vendo o garoto prostrado, como que a esperar uma guilhotina, o velho abriu um sorriso: se era seu desejo tornar-se militar, eles estavam de acordo e faziam gosto. Ele levantou a cabeça e arregalou os olhos, cheios de lágrimas, sem acreditar no que acabara de ouvir. Mas o pai rapidamente atalhou: desde que se preparasse por dois anos em Curitiba. Reinaldino exultou. Aceitava a condição com alegria, pois só fugira pela segunda vez para poder estudar e entrar em uma escola militar. Seus pais sabiam disso, e foi possivelmente a interferência de sua mãe que abrandou o coração de Antônio Manoel, e o fez incentivar o desejo obstinado do filho. Em novembro de 1892, findo o período preparatório, ele prestou os exames de admissão e foi aprovado como aluno da Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Voltou a escrever. São dessa época seus primeiros poemas conhecidos.

Pelos vários anos seguintes, entregou-se com afinco e abnegação ao Exército brasileiro. O Brasil vivia as duras conseqüências da proclamação da República, e com apenas 16 anos ele já lutava junto ao grupo que defendeu o Forte mais tarde denominado "Pereira Barreto", contra as forças do Almirante Custódio de Melo. Mal entrado nos 20 anos, sentava praça em Belém e São Luís; esteve em Pernambuco, no Rio Grande do Norte, em várias localidades do Rio Grande do Sul, morou em inóspitos vilarejos de Minas Gerais, conheceu o sertão, e de cada um desses lugares recolhia impressões, angústias e sofrimentos que enriqueciam seu engenho poético, ativo e prolífico.

O Almirante Custódio de Melo

O traço mais marcante de sua personalidade era, segundo muitos que o conheceram, a generosidade. Solteiro e pobre, vivia uma vida de privações, mas estava satisfeito com o que lhe pagavam e tinha um coração de ouro, jamais negando ajuda a quem necessitasse, desde mendigos até meros desditosos, que lhe choravam as mágoas e misérias pessoalmente. Essa admirável qualidade nem sempre agradava seus familiares e amigos, cientes que estavam de que a maioria dos beneficiários de Sharffenberg era de sanguessugas, que se valiam da bondade do poeta para subtraí-lo do pouco que lhe restava de seu soldo como oficial do exército. Caridoso em excesso, talvez, mas nunca parvo, ele não ignorava o fato. Limitava-se a sorrir:

- Coitados! Sempre precisam mais do que eu!

Sonhando com uma casa própria, ele adquiriu um pequeno lote no Engenho de Dentro, no Rio, e começou a economizar um pouco todos os meses, a fim de comprar materiais de construção. Alegre, avisou a família que dentro de pouco, a casa estaria pronta. A construção, no entanto, arrastou-se por meses, e sua irmã Leontina estranhou a demora. Foi pessoalmente ao local e verificou que a casa não tinha nem mesmo sido começada. Informou-se do andamento do projeto, e descobriu que não havia o que construir, pois à medida que Reinaldino estocava o material, um vizinho se esgueirava pelo terreno durante a noite e roubava tudo. Indignada, apressou-se em contar o furto ao irmão, sugerindo que fossem à polícia naquele mesmo dia, mas ele novamente a surpreendeu; não só já sabia de tudo, como chegara a ver o fulano roubando, uma noite. Leontina, estupefata, ainda teve que ouvir uma reprimenda do irmão:

- Ora, minha irmã! Chamar aquele coitado na polícia! O que ele rouba talvez nem chegue para comprar o pão que precisa dar aos filhos!

Preocupado sempre com os demais, acabou sem dinheiro para divulgar como deveria sua abundante produção poética. O único livro que lançou em vida, Canções Natais, de 1908, só foi editado graças ao apoio financeiro de um médico amigo seu, o Dr. Matos Cascais. Teve pouca repercussão, e ele foi obrigado a se contentar com a publicação efêmera de suas poesias em periódicos cariocas.

Hermes da Fonseca

A singular generosidade, que já o impedira de morar em uma casa só sua e de editar suas poesias com mais freqüência, foi responsável também por sua saída do exército. Durante o governo do Marechal Hermes da Fonseca, o salário dos militares foi substancialmente aumentado, e o que deveria ser motivo de satisfação a um militar de carreira, e sobretudo alívio para um trabalhador humilde como Reinaldino, se transformou em repulsa. Considerou o aumento uma sangria inadmissível do erário, e não tolerava que o povo fosse onerado por um aumento que se destinava a uma classe que recebia o suficiente para viver sem luxos, mas com perfeita dignidade. E não ficou só nas palavras. Externou seu protesto e pediu imediata reforma de seu cargo de capitão, deixando com tristeza o meio em que almejara viver desde criança. Continuou escrevendo, com igual intensidade.

Ironicamente, foi uma tragédia ocorrida dentro do exército que propiciou a Scharffenberg alguma notoriedade como poeta. A sublevação dos tenentes do Forte de Copacabana, liderada por Siqueira Campos em 5 de julho de 1922, e a conseqüente morte de três deles , deram ao poeta inspiração para compor sua obra-prima, Os 18 do Forte, mesmo nome com que o episódio ficou conhecido (ainda que não se saiba ao certo quantos eram). Sensível e emotivo, Scharffenberg, que conhecia e era amigo de muitos desses tenentes, ficou devastado com o episódio, e a desgraça que se apossou de seu ser está primorosamente refletida no belo e pungente poema épico.

Foto da revolta conhecida como "Os 18 do Forte"
Menos de 20 dias depois de ocorrida a chacina nas areias de Copacabana, o trabalho já estava pronto, e foi publicado no fluminense Correio da Manhã em 22 de julho, com grandes elogios da crítica. Mas para um homem como Scharffenberg, um sucesso relativo e agridoce como aquele não significava nada diante da dor lancinante, que lhe perfurava a alma pelo opróbrio de seus antigos companheiros. Caiu de cama, arrasado. O extremo desgosto fez com que sua saúde entrasse em vertiginoso declínio. O coração, que há tempos não andava bom, começou lentamente a ceder. Ficou letárgico por quatro meses. Quando saiu desse estado, já não era o mesmo. Se sua introspecção já atingia o paroxismo, desde a infância, ele agora ficara apático. Isolou-se de tudo e de todos e mantinha contacto com estreitíssimo número de pessoas. Estava alquebrado, doente, e seu vício pelo cigarro triplicou. Pior do que tudo, sua verve poética secou, e são raros os poemas que escreveu a partir dali. Tornou-se místico. Fascinado com os mistérios da Índia, vendeu sua biblioteca, amada parceira de toda vida, e comprou livros sobre as religiões e filosofias daquele país. O longo e profundo poema Humanidade, dividido em 12 partes, é um exemplo da influência dos cânones hindus sobre sua mente, nesse período. Talvez pressentindo o fim, ele, como tantos, estivesse tentando aproximar-se de algo maior, que lhe pudesse dar alento ao conturbado coração.

Coração que o matou, por fim, em 18 de maio de 1929. Morreu nos braços da fiel irmã Leontina, que não o desamparou por um só minuto, naqueles últimos sete anos de sofrimento. Somente décadas depois de sua morte é que suas numerosas poesias vieram ao lume e ele recebeu o reconhecimento que jamais teve, em vida. Seus trabalhos foram publicados, seu nome virou rua em Curitiba e São José dos Pinhais, ele dá nome à Biblioteca Municipal de São José e foi eleito patrono da cadeira número 38 da Academia Paranaense de Letras.

(Seria impossível escrever sobre Scharffenberg sem o precioso texto do escritor Durval Borges de Macedo sobre o poeta, incluído em QUADROS, Scharffenberg de. Poesias. Curitiba, Gerpa, 1945)
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Se o poema épico de Scharffenberg sobre os 18 do Forte já é praticamente impossível de encontrar em bibliotecas,  pior ainda na internet, onde está inédito. Até AGORA. A seguir vai, na íntegra, pela primeira vez, o poema Os Dezoito do Forte, conforme foi publicado no livro citado acima.
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Os Dezoito do Forte

(Reminiscências da epopéia de Copacabana)


“... são tombados os traídos heróis...”
Lúcio de Mendonça — Vergastas


                EVOCAÇÃO

     Alvo, ao luar, se destaca no recorte
Da praia, muito longe, o vulto deste Forte,
          Que parece dormir...
Tudo em torno é silêncio e apenas, aos pés dele
     Serenamente o mar eleva aquele
          Seu eterno bramir.

     Perto, à cidade, acesa em luzes d’ouro,
De pedraria é como um rútilo tesouro
          Que ele guarda com amor;
E, longe, na amplidão, que o seu olhar espreita,
     Apenas voga, plácida, uma estreita
          Vela de pescador.

     Tanto é a calma, o silêncio, a mansuetude
Naquele seu aspecto, entre imponente e rude.
          De monstro a repousar.
Que, dos feros canhões ocultos no seu seio
     Ignorantes, as aves, sem receio,
          Passam sobre ele, a voar...

     Passai, passai, gaivotas que, das vagas
Fugis, dentro da terra, às quietações pressagas,
          De rijos furacões.
Passai, que, muda já nessa hórrida garganta,
     Não mais, atroando o espaço, se levanta
          A voz de seus canhões...

     O monstro que, rugindo; erguendo a fronte
Há pouco ei-lo vigia eterno do horizonte,
          Que, sossegado jaz.
     Duas noites sonhou; e, em febre, delirante,
Ergueu por sobre a Pátria a voz possante
          Que os montes tremer faz...

     Duas noites clamou, reboando pelo
Côncavo azul do céu, o vigoroso apelo
          A seus demais irmãos...
Só longe, a voz do mar, só, no alto, a voz do vento,
     Sucederam, sob o amplo firmamento,
          Aos seus rugidos vãos!

     Duas noites durou-lhe o sonho, apenas
E agora, sob o luar destas noites serenas
          De calma e mansidão,
Paira, sobre esse herói de pedra, que medita,
     A tristeza insondável, a infinita
          Dor da Desilusão!

     Passai, passai, ó velas! E, ao voltardes
Das amplidões do mar, na placidez das tardes
          Que enchendo as almas, vai,
Os que, ali dentro, o exemplo, ai! deram-nos risonho
          — Ó pescador, lembrai!....

OS DEZOITO DO FORTE

                              I

Eles eram dezoito... Os mais partiram
Tanto que a causa, enfim, viram perdida.
Eles — dezoito apenas — preferiram
Ficar, quando ficar custava a vida...

Eles viram partir seus companheiros
          Ansiosos de viver!
Em vez de censurá-los altaneiros,
          Preferiram morrer...

Preferiram ficar em seu reduto,
O coração sereno, o ânimo afoito,
Unidos nesse bando resoluto
          Dos últimos dezoito...

Os mais, da guarnição, abandonaram
Trincheiras e canhões, torres e valos;
Só eles os seus postos conservaram...
          — Que baixeza insultá-los!

                       * * *

Eles eram tão moços! E, lá fora,
O mundo, a vida, o amor, tanta ilusão
Que anseios de viver, de se ir embora,
Cada um não sufocou no coração!

Por que, enfim, esse gesto? essa vergonha
          Da derrota, afinal?
Ah, brava mocidade, que ainda sonha
          E morre pelo ideal,

Quando o tempo que passa é só de egoísmo,
Dos que buscam subir, galgar nos trancos,
Do interesse arrastando ao torvo abismo
          Os seus cabelos brancos!

Quando todos, os traindo, demandaram
Da existência afrontosa os vãos regalos,
Só eles, mais que a vida, a honra amaram...
          — Que vileza insultá-los!

Poetas e heróis, à hora derradeira,
Como uma só mortalha ter quiseram,
Tomaram, soluçando, da bandeira
E em dezoito pedaços a fizeram...

E, enquanto cada qual, com terna unção,
          Cingia a insígnia bela,
Como a gritar-lhe à Pátria o coração,
          Que ia morrer por ela,

Na sua punha um deles a alma inteira:
“Adeus, queridos Pais! Que, em despedida,
“Vos beijo nesse canto da bandeira
“Por quem dei quanto pude... a minha vida!”

E eles foram lutar em campo aberto,
O peito, não de ferro, mas de ralos
Pedaços da bandeira só coberto...
          — Que torpeza insultá-los!

                       * * *

Foram, sim, mas tão belos, tão risonhos,
Quais bravos paladinos de outras eras,
Oferecer à morte os pobres sonhos
De suas infelizes primaveras!

O mar, o céu, a terra lhes sorriam...
          Por suas pobres vidas,
A cada passo, ansiosas, lhes pediam
          As coisas conhecidas...

Foram, sim — ó visão de tal momento! —
Serenos corações, espadas nuas.
Ao encontro de todo um regimento,
          Cantando pelas ruas...

Foram, sim... E, ao fulgor primaveril
Que os sabres lhes rodeava de áureos halos,
Bateram-se, dezoito, contra mil...
          — Que vergonha, insultá-los!

Bateram-se... minutos? Meia ou uma hora?
Quem sabe? Enquanto tinham munições,
Atiraram; depois, saltando fora
Da trincheira, lutaram como leões,

Corpo a corpo, entre mandos, entre apodos,
          Entre estampidos e ais,
Até que, de um em um, caíram todos,
          Mortos — mas imortais!

Todos, não. Um, de pé, restava ainda.
Era o último titã. Olhando em volta,
Vendo mortos os seus e a luta finda,
          Ei-lo que o sabre solta.

Rompe o dólmã, aponta o coração
E aos algozes dizendo, a desafiá-los:
Atirem, seus... rolou, varado, ao chão...
          — Não, não se há de insultá-los!

                       * * *

Soldados do Brasil, lançai por vossas mãos
As flores da saudade às suas sepulturas...
E vós, do oceano em meio às noites mais escuras,
Marujos do Brasil! lembrai vossos irmãos...

Qualquer que tenha sido a causa defendida,
Se o foi sinceramente, acatai-a, Soldados!
Mais nobre que coroar heróis afortunados,
É exaltar o que deu, por seu Ideal, a vida...

Eles dormem, agora; e, ao longe, sobre aqueles
Que os venceram, no forte, adeja outra bandeira
Porque aquela que os viu, à hora derradeira,
Lutar, morrer por ela, essa morreu com eles...

Perversos? Isso, não! Mas Bravos lidadores
Que tinham dentro em si, aberta toda em flor,
A alma da mocidade a lhes sorrir amor,
A lhes brilhar de fé nos olhos sonhadores...

Perversos? Não, jamais! Soldados, atenção,
Quando era ainda completa, a guarnição do forte
Reuniu-se, certa vez, a discutir a sorte
Da praça; e já fatal se via a rendição,

Quando esse que depois os comandou na luta,
De súbito se ouviu: — Isso, nunca! — exclamar;
— O forte não se rende; antes fazê-lo voar! —
E, em meio da mudez da guarnição, que o escuta,

Tomando de um papel torce-o, chega-o à chama,
Acende-o como um facho e, esplêndido de heroísmo,
Gênio, arcanjo da guerra iluminando o abismo,
Em busca do paiol, parte, agitando a flama...

Mas eis que o desespero em torno dele arrocha
Os dois braços de um pai que, desvairado, geme:
— Os meus filhos! Piedade! — e, à sua voz, que treme,
Treme do herói a mão e cai-lhe aos pés a tocha...

Inda hesita; mas logo, o olhar posto lá fora,
Lembrando-se, também, de um ente bem amado
A quem vai preferir a honra de soldado:
— Sim — diz — tendes razão. Eu fico. Ide... Ide embora...

Soldados do Brasil! lançai por vossas mãos
As flores da saudade às suas sepulturas...
E vós, do oceano em meio às noites mais escuras,
Marujos do Brasil! chorai vossos irmãos...

E se, perante vós, não sob acobertadas
Garantias, alguém achar de amesquinhá-los,
Soldados do Brasil! tirai vossas espadas...
          Não deixeis insultá-los!

                              II

                 O PAISANO

Em cada herói o garbo de um soldado
Trazia a guarda impávida do Forte.
No cáqui do uniforme o sol punha, dourado,
Um sorriso de adeus à triste coorte...

          Tinham todos marcial o aspecto, embora,
          Na exaltação do Ideal que os conduzia
          Certo descuido houvesse em todos, que, àquela hora,
          O desespero d’alma traduzia.

Só, entre eles, qual nota diferente
Nesse mavórtico hino sobre-humano,
Vinha, obscura e, talvez, desajeitadamente,
A figura sombria de um paisano.

          Alto, esguio, trajando roupa escura
          E a elegância de um gentleman no porte,
          Ele vinha, com a mesma impávida bravura
          De seus irmãos no Ideal, sorrindo à morte...

Ele vinha, jungido à aliança breve
De um momento de dor seu coração,
Esguio e obscuro qual, aos céus subindo, deve
— Ó Povo! — ser a tua Aspiração...

          Era rico e era livre... E por que vinha?
          Ó beleza dos gestos ditos — loucos!
          Vendo partir do forte o bando, que não tinha,
          Ante tantas legiões, senão tão poucos;

Surpreendido, em sua alma destemida,
Por toda aquela esplêndida epopéia,
De súbito esquecendo a liberdade e a vida,
Amplas asas de fogo abrindo a Idéia,

          Ei-lo, toma de uma arma e, lado a lado,
          Alto, esguio, sereno, nobre, ufano,
          Com eles vai morrer, na luta, amortalhado
          Na sua roupa escura de paisano...

                 ALTO!

A meio do caminho doloroso
A pequenina tropa, fatigada,
Quis, uma vez ainda, o amável gozo
Sentir da fresca linfa desejada.

Parou; bateu à porta entrefechada
De um lar; pediu; e um vulto carinhoso
Lhe veio, em pouco, à sede acalorada
Oferecer o líquido precioso...

Ia de mão em mão o copo; e, lentos
Os dezoito guerreiros, num profundo
Silêncio, aos lábios ávidos o erguiam,

Como a querer beijar, beijar sedentos,
A saudade da Vida lá no fundo
Daquele último copo em que bebiam...

                       * * *

Por sua vez erguendo-o na mão forte,
Aquele que dos mais à frente vinha:
“Companheiros — lhes disse — à sorte minha
“Podeis, livres, poupar a vossa sorte.

“Que aquele a quem viver inda lhe importe,
“Evite a hora cruel que se avizinha;
“Pois, aos que me seguirdes, se adivinha
"Que o caminho da honra é um só — a Morte!”

Disse; e o copo, esvaziando-o lentamente,
Numa outra mão depõe, que, em gesto frio,
Enche-o, bebe-o e a outras mãos o vai passar,

Enquanto ele, o caudilho, os olhos sente
Cheios d’água, à medida que, vazio,
O derradeiro copo as vê deixar...

                       * * *

E, esplêndida, lá no alto, a etérea taça
Da tarde se inclinava, derramando,
Como uma poeira d’ouro, sobre o bando
A apoteose da Vida, que não passa!

Como da velha Grécia, à antiga raça,
A esses rudes heróis de aspecto brando
Vinha a luz, feita um halo, coroando
De uma auréola imortal de Sonho e Graça...

E eles iam bebendo; e, em meio aos brilhos
Do cristal, ante o ansioso olhar profundo
Com que da linfa o seio revolviam,

De esposas, noivas, pais, amigos, filhos,
Os espectros boiavam-lhe no fundo
Daquele último copo em que bebiam...

        ÚLTIMO SONHO

Sobre a amplidão azul do oceano, que, bramindo,
Das vagas no colar cingia o areal infindo,
O bando audaz, que vinha, em silêncio, a marchar,
Estendia, cismando, o adeus de seu olhar.
E, sob a luz que, como a estrofe áurea de um hino,
Cantava pelo espaço, um Sonho — pequenino
Abriu, flutuando, ao longe, o olhar de cada herói...
Como o batel que ao mar trazer o infante sói —
Era um longínquo Ideal, que do imo da água calma
Surgia, a reluzir, como uma estrela d’alma.
Depois, vitória-régia, abrindo a imensa flor,
Astro, do equóreo seio erguendo o ígneo fulgor,
Sobre a amplidão, como um nascer de sol risonho;
O olhar de cada herói viu explodir seu Sonho!
Era, a desabrochar, como uma flor, do chão,
A imagem de uma Terra, imensa na extensão,
Que esse mesmo azul mar, por costa quase infinda,
Cingia do colar de sua espuma linda...
Era a miragem, longe e rútila, a sorrir,
De uma Terra, um País, que o sol, em seu fulgir,
Pela raça que o habita e o solo seu fecundo,
Parecia beijar melhor que a todo o mundo!
Era a visão bendita, o sonho de um País
Livre, de um País justo, equânime, feliz,
Onde, mais que ambições, houvesse patriotismo
E onde, mais fundo que o seu mais tremendo abismo,
Cavasse, entre o Poder e o despotismo vil,

Intransponível sulco um Povo varonil!
Onde, mais que o interesse egoísta, se estampasse
O pudor da Virtude austera em cada face,
E pudesse, o que o Cimo ousasse lhe alcançar,
Do alto de sã consciência a Pátria contemplar!

Era este, eis, o Ideal que, belo de esperança,
Em tons áureos de luz e verdes de água mansa,
Não já como ilusão de flores ou de sóis
Mas lábaro glorioso, àquele olhar de heróis
Erguia-se como um amanhecer risonho!

Eras tu, doce Pátria, o seu último Sonho...

          DENTRO DA TARDE

O intrépido pugilo avança... Ociosas
São as vagas que o mar, monótono levanta,
E uma daquelas tardes cariciosas
Sob o arco azul do céu, radiosamente, canta...

          De páramos longínquos vem voltando
          Das gaivotas, em linha, a revoada primeira.
          Mesmo assim, dos dezoito heróis o bando
          Avança pela praia em rápida fileira.

Avança... Entre as blandícias que lhe entorna
A natureza, em seu convite eterno à Vida,
Ele sabe que vai e que não torna
Pois esperança ou honra, uma há de ser perdida.

          Que lhe importa saber que apenas eles,
          De toda uma legião exânime ou covarde,
          Irão trocar a vida por aqueles
          Momentos imortais de um pobre fim de tarde!

Avança. Avança, sim! que ali, já perto,
A todo um regimento onde os irmãos são mil,
Eles querem mostrar, o peito aberto,
Como sabem morrer os bravos do Brasil!

          Soam tiros, de súbito... Alarido;
          Alvorotos de alarma; e clarins que ressoam;
          E vozes de comando; e gritos; e tinido
          De ferros; e explosões; e estampidos que ecoam...

São eles que se batem, belos loucos,
Menos de vinte contra um regimento todo!
É o pequenino pelotão dos poucos
Que amam, mais do que o posto, a Pátria, com denodo.

          São eles, novos Leônidas sublimes,
          Menos de vinte, em frente a uma falange inteira!
          São eles, vindo expiar na morte os crimes
          De ter criado num Sonho e amado uma Bandeira!

São eles! Encarniça-se a peleja.
Contra o simples pugilo a praça inteira luta.
“Fogo!” dos capitães a voz troveja,
E ríspido espoucar de mil fuzis se escuta.

          E tumultua, cresce o tiroteio.
          É um caos, uma feroz desordem, a batalha!
          No espaço, como o arfar de um grande anseio,
          Passa, crebro, o zunir de balas e metralha

Depois, a pouco e pouco, vão cessando
Os tiros; vai morrendo, aos poucos, o tumulto;
Tudo é findo; somente, ainda, do bando,
Resta de pé, na praia, o destemido vulto

          Do derradeiro herói, o último guarda...
          Mas, breve, a munição lhe falta, e ei-lo que lança
          A arma aos pés e, rasgando ao alto a farda,
          Seu grande peito expõe ao pelotão que avança...

                       * * *

Agora, sim, agora tudo é findo...
Sobre o bando, que jaz num lago rubro e quente,
Na grande curva do céu infindo
A luz crepuscular canta, radiosamente...

          De páramos longínquos vem voltando
          Das gaivotas, em linha, a última revoada
          Ah! como elas, não mais do bravo bando
          Ninguém verá, em fila, a rápida avançada.

Ninguém. Mas, nesse canto onde caíram;
Nesse adorado chão da Pátria estremecida
Que com seu sangue indômito tingiram
E beijaram com a boca a que fugia a vida:

          Em meio dessa esplêndida moldura
          De luz ocídua; o olhar de cada um deles posto,
          Fixamente, no céu, como à procura
          De termo àquela dor que ainda lhes guarda o rosto.

Daqueles bravos mortos a visão
A tudo e a todos há de, augusta e varonil,
Gritar, subindo impávida do chão,
Que ainda sabeis morrer, Soldados do Brasil!

                       * * *

Tudo é findo... Lá longe, no recorte
Da praia se destaca o vulto desse Forte,
          Que parece dormir.
Pesa o silêncio em torno e, apenas, aos pés dele,
Serenamente o mar eleva aquele
          Seu eterno bramir...

Dos heróis que tombaram a lembrança,
Como espuma que a vaga em seu topo balança,
          Passará afinal...
Para que um nome fique, o heroísmo, só, não basta:
Donde foge a Fortuna, a Glória afasta
          Sua luz imortal...

     Mas onde quer que, deles, entretanto,
Guarde um peito de mãe ou o de uma esposa, em pranto,
          A saudade sem fim,
A alma da Pátria irá, como um eco distante,
     Dizer, pensando neles, soluçante:
          — Foram dignos de mim!


Rio, agosto de 1922
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Um comentário:

  1. O livro que cita, esta aberto na minha frente. Achei pouco tempo atrás na casa da minha mae e em estado bem precário. Comecei a folhear e gostei de saber mais sobre meu tio-avô. Curiosa se tinha mais informacoes sobre ele na Internet, vi seu blog. Tenho fotos dos bisavós Antonio Manoel de Quadros e Maria Elisa escaneadas com um bebê no colo ( mas nao sei se era ele) e uma outra que é certeza ser dele.

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