segunda-feira, 27 de junho de 2011

Evolução Concisa dos meus "Livros de Cabeceira"


Gabriel,
com grande atraso mando o texto que você me pediu sobre meus “livros de cabeceira”. Demorei para mandar não só pelos afazeres diários (que consomem muito e pagam pouco) mas porque ao contrário do que se imagina, não sou um grande leitor. Você não verá aqui os clássicos portugueses, brasileiros ou de qualquer outra nacionalidade. Aliás, você não verá ficção, a não ser teatral. Leio bastante, mas não por vontade, passatempo, hobby ou compulsão. Ler é uma contingência de minhas pesquisas. Uma contingência prazerosa, sem dúvida nenhuma, mas não tenho, a rigor, livros de cabeceira. Ou talvez os tenha, mas eles mudam ao longo dos anos. Há uma rotatividade fundamental nos títulos. Assim sendo, o que mando aqui é uma evolução concisa (BEM concisa) dos meus livros de cabeceira.

Maria José Dupré

O Cachorrinho Samba,
de Maria José Dupré

O primeiro deles, e possivelmente meu único verdadeiro livro de cabeceira, porque o li e reli umas vinte vezes e me acompanhou por boa parte de minha infância, foi O Cachorrinho Samba, de Maria José Dupré. Recomendação de uma professora que tive aos 9 anos, na 3ª série primária. Fiquei maravilhado. Que introdução magnífica ao mundo da leitura! Descobri ali o que era viajar com um livro, desligar-me do mundo real, sentir o que sentem os personagens, os medos, os cheiros, os sabores, as apreensões, as alegrias, tudo. Foi tal o efeito desse livro em meu espírito que procurei espontaneamente o livro que a mesma professora recomendara à 4ª série, A Mina de Ouro, também de Dupré. Mais uma excelente experiência. O próximo passo foi comprar o resto da coleção da Ática (“Coleção Cachorrinho Samba”) que incluía os dois livros, além de A Montanha Encantada, O Cachorrinho Samba na Floresta e O Cachorrinho Samba na Fazenda. Não parei mais; sem qualquer estímulo familiar, minha admiração pela autora me levou, nos dois anos seguintes, a fuçar a biblioteca de meu falecido pai, onde encontrei Éramos Seis, Dona Lola, A Casa do Ódio e outros romances adultos de Maria José, que também aproveitei para ler. Enfim, tenho hoje a mais infinita gratidão pela “Sra. Leandro Dupré”, como ela era estupidamente identificada em muitos de seus livros. Ela ainda estava viva, naquela época, com uns 90 anos, e quase a conheci pessoalmente (um dia conto esta história). Quando me perguntam qual o maior autor brasileiro de livros infantis, não digo Monteiro Lobato. Ele vem em segundo, depois de Maria José Dupré. 

A Droga da Obediência,
de Pedro Bandeira

Na adolescência li pouquíssimo. Fui contaminado pela música e deixei a leitura em segundo (ou terceiro) plano. Daquela época, posso citar Ameaça de 7 Cabeças, de Pedro Bandeira. Gostei do livro, que li na 7ª série, aos 13 anos, e fui atrás do que se havia recomendado para os alunos da 8ª, A Droga da Obediência, também de Bandeira (ambos da Editora Moderna). Mas o “efeito Cachorrinho Samba” não se repetiu. A Droga da Obediência foi interessante porque tratava de tormentos adolescentes, mas na época eu queria ouvir heavy metal e tocar guitarra. Me interessava bem mais a leitura dos posters da Som Três ou da revista norte-americana Circus, do que literatura de qualquer tipo. Hoje, não me recordo mais da trama de nenhum dos dois livros, mas guardo um exemplar autografado de Ameaça de 7 Cabeças, porque o Pedro Bandeira — na época com apenas 43 anos e já um best-seller — fez uma palestra na minha escola e pudemos conhecê-lo e conversar com ele, que sempre foi um grande sujeito. 

Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, tradução de Ferreira Gullar

Em 87 ou 88 assisti duas vezes a montagem de Cyrano de Bergerac dirigida por Flávio Rangel com Antônio Fagundes no papel-título. O prazer que senti é indescritível. Por sorte o texto utilizado na peça estava à venda em uma edição pocket da José Olympio, e eu o adquiri e passei os meses seguintes lendo e relendo, assistindo em minha mente cada uma das cenas daquela montagem extraordinária, que ainda hoje é única, já que Cyrano é uma obra que aterroriza atores e diretores e não foi jamais remontada entre nós. Não digo mais nada porque qualquer elogio a essa obra-prima é redundante, mas não me furto de elogiar o trabalho impecável de Ferreira Gullar. Até aquele momento, a única tradução de Cyrano que havia em português era a de Carlos Porto Carrero, feita — creio eu — nos anos 20 ou 30. É um tijolo de erudição, mas parece saído de manuais jesuítas do século XVI, de tão arrevesado que é o português utilizado. Conseqüência disso, não tem qualquer teatralidade. Gullar fez uma tradução livre, substituiu o alexandrino pelo decassílabo, eliminou trechos, criou outros e acabou fazendo um trabalho brilhante, perfeito, que se encontra no mesmo patamar de grandeza do texto original. 

The Annotated Shakespeare, comentado por A. L. Rowse, editado pela Greenwich House 

A música deu lugar ao teatro e Cyrano deu lugar a Shakespeare. No início dos anos 90 fui bombardeado por três montagens sucessivas de peças do bardo; o Macbeth de Ulysses Cruz, o Macbeth de Antunes Filho e o Sonho de uma noite de verão do Ornitorrinco. A cultura para mim sempre foi uma teia, em que uma coisa leva à outra, e o impacto causado pelas duas primeiras montagens, sobretudo, me obrigou a ir atrás dos filmes feitos a partir das peças de Shakespeare. Assisti todos. O Henry V de Olivier devo ter visto umas 200 vezes. E quando não encontrava filmes, apelava para esse livrão com as obras completas e comentadas. The Annotated Shakespeare é um trabalho admirável de Alfred Leslie Rowse, e nele conheci Coriolanus, Titus Andronicus (o filme de Julie Taymor ainda não existia), The Merry Wives of Windsor, Measure for Measure, Cymbeline e assim por diante. Para não dizer que esquadrinhei o volume completo, admito que me mantive à distância dos sonetos, que conheço pouquíssimo, mas lembro-me de iniciar a leitura de cada peça como alguém que inicia um decatlo; no canto da página o glossário de Rowse para o inglês elizabetano; ao lado, o meu velho Webster para o inglês contemporâneo, no qual eu também precisava de ajuda. Na faculdade eu era o mala que citava o bardo no original. Não há dúvidas que deseje dirimir ou textos que precise escrever sobre Shakespeare, até hoje, que eu não conte com esse livrão como fonte eterna de inspiração e conhecimento. E junto dele, o livro Ser Ator (Globo, 1986), de Olivier, minha bíblia enquanto fui ator amador, na faculdade. 


Gravura que encontrei no livro com a tradução de Jenny
para Escola de Maridos, e que mais tarde utilizei na
montagem que realizei dessa peça no Mackenzie
Obras de Molière, traduzidas por Jenny Klabin Segall

O único autor teatral que conseguiu me desviar de Shakespeare, ainda que temporariamente, foi Molière. Em 1993 assisti onze vezes a montagem de Escola de Maridos, traduzida e dirigida por José Rubens Siqueira, em cartaz no SESI, e me apaixonei violentamente pelo mestre comediógrafo. O problema é que Zé Rubens só traduzira o Escola (traduziu depois Tartufo) e não havia — como não há até hoje — obras completas de Molière em português. Não querendo conspurcar a riqueza poética do autor lendo as traduções em prosa editadas pela Lello no início do século XX, em Portugal, não me interessando pelas pedregosas adaptações em verso, de Castilho, e considerando também que Guilherme Figueiredo só emprestara seu vasto conhecimento do francês ao Tartufo, embarquei nas traduções feitas pela erudita Jenny Klabin Segall.

Ela possuía um vernáculo divino, uma riqueza invejável de vocabulário, mas suas traduções eram demasiadamente literárias, se apegavam excessivamente à forma e à métrica, deixando de lado a simplicidade do humor molieresco. Sem embargo, conheci George Dandin, As Preciosas Ridículas, Escola de Mulheres e outras comédias através de Jenny. Por muito tempo suas traduções foram o pão da minha alma. Até na praia eu andava com esses livros debaixo do braço. Tais edições — que também continham suas traduções para Racine e Corneille — eram da Martins, se não me engano, lançadas nas décadas de 60, por aí, mas as traduções são dos anos 30 ou 40. Não tenho as capas para mostrar porque os livros pertenciam à biblioteca George Alexander, do Mackenzie. 

Tragédias e Comédias Gregas e Romanas

A teia da cultura em ação novamente. Através de Molière cheguei a Terêncio e Plauto, através de Shakespeare cheguei a Plauto e Sêneca, e através de Sêneca cheguei à tragédia grega. Sêneca comecei a ler em inglês, primeiro nas arcaicas traduções elizabetanas (as mesmas que devem ter sido lidas por Shakespeare, aliás), que encontrei em empoeiradíssimos volumes na George Alexander, e depois em uma modesta edição da Penguin. De vez em quando encontro por aí, perdidas, traduções feitas em Portugal. De Terêncio, acho que nunca vi nada em português. O Brasil está completamente alheio a esse circuito. Plauto e os gregos conheci através de Jaime Bruna, cuja tradução do Hipólito de Eurípides me fez chorar e permanece, portanto, a minha favorita entre todas. Eram duas edições da Cultrix. Dali a pouco devorei inteira a coleção da Jorge Zahar com tradução de Mário da Gama Khoury e me aprofundei nos três tragediógrafos e em Aristófanes (que sinceramente não apreciei). Também aprendi bastante com os trabalhos analíticos de Pierre Grimal e Junito de Souza Brandão. Bruna, Khoury, Grimal e Brandão são pedra angular de meu aprendizado greco-romano. Também gostaria de poder dar o nome do autor de um livrão que me ensinou muito sobre a história do teatro, e que durante meses consultei. Só que não me lembro mais nem do nome do livro, nem do autor. Teria que voltar ao Mackenzie para olhar. É muita coisa. Mas coloquemos as coisas desta forma: a década de 90, para mim, em termos literários, divide-se entre Shakespeare, Molière, os gregos e os romanos. Dos gregos, meu favorito é Eurípides, dos romanos, meu favorito é Sêneca.

Biografia, História e Política

A partir de 1998 — ano em que se inicia oficialmente a pesquisa sobre Jânio — minhas leituras passaram a ser exclusivamente de material político, histórico e biográfico, e assim permanecem até hoje. Desde então, li mais em um único mês do que lera em toda a minha vida, antes disso. Li milhares de livros, literalmente, nestes últimos 13 anos. Não posso citar livros de cabeceira; o que posso dizer é que naquele início muito me influenciaram os quatro volumes de memórias de Afonso Arinos, A Alma do Tempo, Escalada, Planalto e Alto Mar, Mar Alto, editados pela José Olympio. Li-os e anotei-os de cabo a rabo. No primeiro lustro do novo século, por recomendação de uma amiga, tomei-me de amores incontroláveis por Tina Modotti, personagem maravilhosa, singular, de vida muito mais rica e atribulada do que Olga Benário, e que ainda não recebeu do cinema a homenagem a que faz jus há tantas décadas.

O livro de Elena Poniatowska
sobre Tina Modotti
Sobre sua extraordinária existência, que se espalha por três continentes e mistura cinema, música, fotografia, militância política, boemia, alguns dos maiores artistas plásticos do século XX, grandes romances e grandes perdas, li três biografias que se completam em suas diferenças: o livro de Margaret Hooks — Tina Modotti, fotógrafa e revolucionária (José Olympio) — completo e imparcial, além de ser o mais recente dos três; o ensaio de Christiane Barckhausen Canale — No rastro de Tina Modotti (Alfa Omega) — opinativo, informativo e instigante; e a biografia romanceada de Elena Poniatowska — Tinísima (Ediciones Era, México) — que desperdiça sua extraordinária documentação em situações inventadas, onde se detecta claramente a personalidade da própria autora, mas vale por ser uma pesquisa profunda e meticulosa (Tina merecerá um post exclusivo em breve).

Dali em diante cito dois livros sobre Jânio que podem não ser completos ou essenciais para a compreensão do político, mas me serviram de porto seguro quando iniciei a pesquisa e estão gastos de tanta consulta: A Liderança Política de Jânio Quadros (Humanidades), de Vera Chaia (que tinha comigo desde 1991, quando ele foi lançado, mas que só fui ler com atenção e cuidado nessa época) e Tempos de Jânio e outros tempos (Civilização Brasileira), de Castilho Cabral (também escreverei brevemente um post com a bibliografia comentada de e sobre Jânio, então não desço a detalhes no momento). Dentro da pobre e lacunosa bibliografia acerca de nossos presidentes, me impressionou bastante o exaustivo trabalho em dois volumes de Raymundo Magalhães sobre Deodoro (Deodoro, a Espada contra o Império, Companhia Editora Nacional), o esmerado e abalizado estudo de Américo Jacobina Lacombe sobre Afonso Pena (Afonso Pena e sua época, José Olympio) e a belíssima biografia de Nilo Peçanha (A Vida de Nilo Peçanha, José Olympio) escrita por Brígido Tinoco. Esta última está entre as melhores biografias que já li em minha vida. E eu não seria justo se não mencionasse Chatô, rei do Brasil, de Fernando Morais, que considero de longe o melhor livro do jornalista. Bem melhor do que Olga, por sinal, cujo mérito é trazer a ótica de Prestes, mas tem sua espinha dorsal no trabalho anterior de Ruth Werner.

A Academia do Fardão e da Confusão, de Fernando Jorge

Aquilo que mais se aproxima de um livro de cabeceira, hoje em dia, para mim, é A Academia do Fardão e da Confusão (Geração Editorial), de Fernando Jorge. Poderia citar antes dela os dois volumes da biografia de Getúlio (TA Queiroz) escritos por Fernando, repositório monumental, formidável de informações que me mostrou com clareza, objetividade, erudição e excelência a verdadeira dimensão que deve ter uma biografia. Mas não são livros de cabeceira. Já o livro sobre a Academia é uma mescla única de cultura e diversão. Não conheço outro livro que tenha me ensinado tanto, ao mesmo tempo em que me fez gargalhar tão ruidosamente. É o raríssimo passatempo que instrui e diverte. Assim como pessoas há que se voltam para a Bíblia em momentos de angústia, ou a livrinhos de máximas e pensamentos quando estão tristes, abro o livro da Academia em qualquer página quando estou irritado ou chateado, e na leitura da primeira história que encontro pela frente, as nuvens se dissipam, meu humor melhora e começo a rir. Os livros escritos pelo Fernando são uma coleção de trabalhos brilhantes, de pesquisas notáveis, de um resgate inestimável de nossa história e de nossa literatura, mas entre todos, meu preferido é o da Academia. É polimórfico, multi-temático, caleidoscópico, é uma obra-prima.

Deveria ter feito esse trabalho há mais tempo, ou feito um por década. Tremo só de imaginar as injustiças que cometi, os esquecimentos de livros que muito me marcaram nesta ou naquela época, mas que não me ocorrem no momento. Mas enfim, é isso aí.

Abraços
Bernardo

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