Não há trabalho sobre a parceria de Guarnieri e Flávio Rangel que possa vingar sem que se leia a biografia de Flávio escrita por José Rubens Siqueira (Viver de Teatro, Nova Alexandria, 1995). José Rubens foi o único a colher o depoimento do próprio Guarnieri sobre esse assunto, e contou ainda com a entrevista que Ferreira Gullar fez com Flávio (versão integral sem cortes), onde ele falou bastante sobre toda a parceria, incluindo o filme Gimba, Presidente dos Valentes. É, portanto, obra fundamental para qualquer pesquisa.
Rangel sempre foi um grande aficionado do cinema e, como vários diretores de teatro (Fernando Peixoto é um deles), sonhava dominar não apenas os palcos, mas também as telonas. Esse sonho quase se tornou realidade em duas ocasiões: primeiro em 1960, quando dirigiu a montagem original de O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, no TBC. Empolgado com a magnífica obra-prima de Dias, comentou com o próprio que a peça poderia virar filme. A idéia acabou sendo levada adiante, mas na hora de escolher quem ia dirigir, Flávio acabou sendo preterido por Anselmo Duarte, que possuía experiência em direção cinematográfica, coisa que Flávio não tinha.
No ano seguinte Flávio e Guarnieri já sonharam A Semente como um filme, muito mais do que como uma peça, tanto é que algumas rubricas de Guarnieri chegam a ser cômicas (um bom exemplo é a presença de urubus no lixão onde Agileu conversa com os mendigos), quando imaginamos a dificuldade de realizá-las num palco italiano tradicional como o do TBC, onde a peça acabou sendo levada. Mais uma vez o plano de tornar-se diretor de cinema foi frustrado, para Flávio.
Quando a versão cinematográfica de Anselmo Duarte para O Pagador de Promessas foi laureada com a Palma de Ouro no Festival de Cannes, Flávio mais uma vez voltou a acalentar o sonho de dirigir um longa. Talvez influenciado pelos esforços do CPC da UNE na tentativa de fazer um cinema de fundo social, que resultou no clássico Cinco Vezes Favela (1962), Flávio escolheu Gimba, de Guarnieri, ambientado num morro carioca — e que ele próprio já dirigira no teatro, em 59 — para levar à telona. Inseguro nessa sua estréia no cinema, Flávio foi se aconselhar com Roberto Santos — diretor de O Grande Momento, primeiro longa de Guarna — que se tornou co-roteirista e ajudou Guarnieri a dar um tratamento com linguagem cinematográfica ao texto de 59. E as filmagens foram de novembro de 62 até o início de 63.
Eis o que Flávio teve a dizer sobre o filme, para Ferreira Gullar:
É uma experiência artística que eu considero frustrada, porque o filme talvez devesse ser em cores e não em preto-e-branco. E eu fiquei no meio do caminho, entre um filme de conotação folclórica, que talvez fosse isso que as pessoas esperavam, e a tragédia social. Não ficou nem uma coisa nem outra. (...) O filme não é ruim. Tem uma música lindíssima, que até hoje ficou muito famosa, uma música do Carlos Lyra com letra do Guarnieri, que era tocada no filme pelo violão do Baden Powell e com a gaitinha do Omar Izar, que é aquela: "Feio, não é bonito"... chama "O Morro". (...) Mas não é um filme, assim, desprezível, não. É um filme correto. Conta sua história corretamente. Falta alguma coisa a ele. Falta aquilo que o espetáculo no teatro tinha, talvez. Falta vibração. (Viver de Teatro, 1995)
Quando começaram as filmagens, no morro da Mangueira, Alberto Silveira escreveu na Manchete que “há quem acredite que Gimba, com seu ambiente folclórico e verdadeiro, danças e canções, alcance a grandeza de Porgy and Bess” (15/12/62), referindo-se ao musical negro de George Gershwin, filmado em 1959 por Otto Preminger. Não foi o caso. A recepção ao filme em termos de crítica e público foi morna e ele acabou esquecido rapidamente. O que sobrou, realmente, foi a composição de Lyra e Guarna, que se tornou um clássico de nosso samba e, segundo Rangel contaria em entrevista ao SNT, em 75, era uma das preferidas de Tom Jobim. Certa vez comentei com Guarnieri que estava prestes a conseguir uma cópia do filme e que o assistiria, finalmente. Ele riu um pouco e me disse: "Não se dê o trabalho". Daí se vê mais ou menos em que conta ele tinha o filme.
A morte de Gimba: Gracinda Freire e Milton Moraes |
Milton (Gracinda atrás dele) cumprimenta o menino José da Silva Cruz Filho, que interpreta Tico |
Gracinda Freire |
O elenco traz figuras de proa do cinema nacional, como Ruth de Souza, atores do Arena, como Milton Gonçalves, e ainda Paulo Copacabana e o grande Osvaldo Louzada, reprisando no cinema seus papéis de Mãozinha e Gabiró, que fizeram na montagem original com Maria Della Costa. Cyro Monteiro — excelente, por sinal — faz o papel de Carlão, que no teatro foi de Sadi Cabral. Altamiro Martins, que no teatro interpretou um repórter tanto em Gimba quanto em Pagador de Promessas, foi preterido nas duas versões cinematográficas; no filme de Anselmo Duarte o papel foi para o jovem Othon Bastos; no filme de Rangel, o repórter foi vivido por John Herbert. Entre as curiosidades temos Zé Kéti trabalhando como ator, assim como pequena participações de Maurício Sherman e Paulo Emílio Salles Gomes.
Gracinda (Guiô) e José Cruz Filho (Tico) |
Ruth de Souza (Chica Maluca) e Cyro Monteiro (Carlão) |
Zé Kéti |
Baden Powell e Omar Izar
Além de Feio, não é bonito, há belíssimas inserções musicais de Baden com seu violão pelo filme inteiro. Há também uma musiquinha cantada para celebrar a chegada de Gimba ao morro. Na peça, essa música era Salve Salve General. No filme, a música chama-se Gimba Chegou, e (pelo que sei) foi composta especialmente para o filme por Zé Kéti. Não consegui entender perfeitamente sua letra, mas é algo assim:
Gimba chegou
o mais valente desse morro
Gimba voltou pro reinado que é seu
salve o rei vagabundo (?)
Gimba é o mais valente que tem,
que tem, que tem no império do samba
Gimba é o mais valente que tem
que tem, que tem, e ... de nada. (?)
Gimba voltou
voltou pro morro de mangueira (?)
Gimba voltou a saudade apertou,
a saudade apertou.
E no fim Feio, não é bonito é reprisada; no meio de várias vozes me parece que está a voz de Cyro Monteiro. (4/12/2006)
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Este é o link para download de Feio, não é bonito cantado por Zé Kéti no início do filme, alguns minutos de Baden Powell tocando na trilha de Gimba, a música Gimba Chegou e a reprise de Feio, não é bonito no fim do filme. Divirtam-se.
Hi! I've been trying to find a copy of 'Gimba'. Could you please contact me?
ResponderExcluirMy email is snuhmcsnort@hotmail.com
Thanks!
Jeff
Sorry, Jeff. You, me and thousands of people. The one I had was a VHS copy I borrowed years ago from a friend and I had to return it and haven't seen her since. Let's pray it will be released on DVD someday. Cheers!
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