domingo, 28 de novembro de 2010

Twisted Sister, 24 anos depois


Lembro-me de uma redação que fiz na oitava série em que tínhamos que nos apresentar à nova professora de sei lá quê matéria, onde ela exigiu que o texto fosse iniciado com uma frase marcante que tivesse, ou não, algo a ver conosco. Não compreendi o pedido. A professora explicou: “Qualquer coisa que seja marcante para você. Comece o texto com isso”. Depois de alguns minutos de total indecisão, escrevi: “Meu nome é Bernardo Schmidt e um dos melhores momentos de minha vida foi assistir um show do Twisted Sister em Washington DC”.

Com o advento da MTV, em 1982, o video-clip tornou-se instrumento definitivo na divulgação de um novo LP. O formato já existia desde a década de 60, mas sem maior apuro técnico ou artístico e – com raras exceções – os clipes se resumiam a criações conceituais no mais das vezes toscas, ou meras filmagens da música sendo cantada. Michael Jackson quebrou esse molde a pauladas e popularizou a si mesmo e à MTV com o magnífico vídeo-filme da música Thriller, dirigido pelo cineasta John Landis e com a participação especial de Vincent Price em áudio, com a gargalhada mais famosa de todos os tempos. Era entretenimento para toda a família. Em 1983 surgiu algo diferente. Maquiagem no estilo “heróis (ou monstros) da Marvel” já se conhecia através do Kiss (que por sinal se livrou da maquiagem nesse mesmo ano, logo depois de ter vindo ao Brasil) e vinha renascendo com bandas como o Motley Crue, mas um grupo de homens que se maquiava e cujo vestuário beirava o cross-dressing era coisa que não se via desde Ziggy Stardust ou do New York Dolls. O Twisted Sister, por assim dizer, ressuscitou o estilo.

O TS já existia desde 1972, sem maior sucesso. Gravaram dois LPS no início da década de 80 – Under the Blade e You Can’t Stop Rock’n’Roll – mas foi com Stay Hungry, em 83, que veio finalmente a consagração. E não tanto pela qualidade musical, que era constante desde o primeiro disco, mas porque o clip utilizado para promovê-lo através da MTV foi maravilhoso, arrojado e inovador. A música chamava-se We’re not gonna take it (“Não vamos aceitar isso”) e a letra era um hino de revolta juvenil contra qualquer tipo de autoridade. Frases como This is our life, this is our song/ We'll fight the powers that be just/ Don't pick our destiny'cause/ You don't know us, you don't belong, ou Oh, you're so condescending/ Your gall is never ending/ We don't want nothin'/ Not a thing, from you já eram, por si só, tudo aquilo que um adolescente gostaria de dizer aos pais, mas o clipe superou em muito o poder dos versos. No mesmo estilo de Thriller, possuía uma historinha que mostrava um garoto ouvindo música e tocando guitarra em seu quarto, até o momento em que é interrompido por seu pai, que lhe dá um sermão aos berros, criticando e humilhando o garoto de todas as maneiras, até concluir com o célebre “What do you wanna do with your life?” O garoto responde “I wanna rock!” (título da música do TS que ele estava ouvindo antes do pai entrar), e solta um acorde da guitarra que ejeta o pai pela janela.



O TS desfrutou do sucesso de Stay Hungry e do clip de We’re not gonna take it por dois anos, até que lançaram Come Out and Play, em 1985. O gordo dinheiro injetado na banda com o disco anterior, além do período em si – meados da década de 80, em que o heavy metal passou por uma fase horrenda, poser, virou hard rock, guitarras cruas foram acrescidas de teclados e sintetizadores, e os trapos e os andrajos de androginia pré-histórica foram substituídos por roupões de lantejoulas, meias-calças e cabelos bufantes – fizeram de Come Out and Play um arremedo daquilo que se conhecia por Twisted Sister.

Ombreiras de pele ou penas
de urubu, lenços de zebra, coletes de oncinha, meias-calças...
TS e o visual "poser" de
Come Out and Play

Nós, os fãs, entretanto, estávamos vivendo aquela época e só percebemos isso hoje. Enquanto tudo acontecia, aquilo era a glória. Especialmente porque tive a sorte de estar nos Estados Unidos quando começou a turnê mundial do novo LP e um belo dia vi no jornal o anúncio de um show do Twisted Sister marcado para o dia 26 de janeiro de 1986, em uma arena coberta chamada Capital Centre, que não ficava – conforme eu assinalei erroneamente em minha redação – em Washington, mas em um município próximo, Landover, no estado de Maryland. Como cheguei em cima da hora não pude ficar na pista e comprei o ingresso que sobrava, na arquibancada. Não importava, porque aquilo tudo foi um sonho.

O ingresso desse show inesquecível

Houve uma rápida abertura do Dokken, banda menor que se desfez logo depois, e começou a atração principal. O Capital Centre veio abaixo. O TS era paradoxal; estavam ricos e famosos graças a Stay Hungry, e no entanto o cenário nada mais era do que um pano todo pintado simbolizando um ferro-velho com prédios e as pichações que apareciam na contra-capa do LP Come Out and Play. Se não me engano a bateria de A. J. Pero estava sobre um carro todo detonado, parte do que seria o tal ferro-velho. Era a marca registrada das apresentações do TS: não havia necessidade de cenários mirabolantes, holofotes e pirotecnia, todos usados à farta pelas bandas de então. Bastava a energia incomum de Dee Snider e as músicas emblemáticas, que cantávamos a plenos pulmões. Em We’re not gonna take it as luzes se apagavam e se ouvia o detestável sermão do pai, que servia como introdução à música. Um delírio. Houve um ou dois bis, num deles apareciam os quatro (Dee, Ojeda, Jay Jay e Mendoza) nas janelinhas dos prédios de pano, cantando. Tosco, tosco, e no entanto inesquecível. Na última música, Be chrool to your scuel, Dee Snider não se contentou em cantar, apenas; pegou uma terceira guitarra e acompanhou os outros.


Depois da lua-de-mel do TS com a MTV, a emissora musical resolve banir o clipe de "Be Chrool to your scuel" - cujo título parodia "Be true to your school", dos Beach Boys - que contava com a participação especialíssima de Alice Cooper. O motivo seria o realismo excessivo das imagens, que mostravam - embora de maneira inofensiva, humorística e próxima aos cartoons - os alunos transformando-se em zumbis canibais.

Desse show guardei o Official World Tour Program, o programa do show, com 24 páginas de fotos e informações sobre o grupo e a turnê, com um pequeno booklet de curiosidades e trivia no meio (vi esse estupendo programa à venda no eBay por míseros 30 dólares), ter conhecido o Capital Centre, fechado em 1997 e demolido em 2002 e a recordação extraordinária de assistir o grupo no auge do sucesso, quando eu tinha apenas 13 anos.

A fama destruiu o Twisted. Para moleques como eu e milhões de outros fãs, o Come Out and Play era a glória da mesma forma que o Stay Hungry, o Under the Blade ou qualquer outro álbum que a banda lançasse, mas em termos críticos, alheios à tietagem, ou para o público mais exigente, o LP foi uma decepção e minou o destino do TS. Em 1987 eles tiraram a maquiagem e lançaram Love is for Suckers. A. J. Pero fôra substituído por Joey Franco. Mais uma decepção. Lembro-me de um artigo que ironizava a música One Bad Habit, que dizia no refrão: I’ve got one bad habit, I like to rock’n’roll. O crítico então escreveu: “Not such a bad habit, and not such a bad album”. Ironias à parte, ele foi simpático. Eu pessoalmente acho Love is for Suckers ótimo, em muitos aspectos superior a Come Out and Play, mas a crítica especializada aniquilou o LP, que acabou sendo um fracasso de vendas. O grupo se desfez e passou os 15 anos seguintes no vinagre.


Em meados da primeira década do século XXI começou o culto da nova geração pelo heavy metal e pelo hard rock dos anos 80. Bandas consagradas ou bandas de um único hit que haviam sumido há vários anos foram descobertas pelos jovens e ressurgiram gozando de sucesso inédito em reunion tours, com os integrantes originais na faixa dos 50 anos. Por alguma razão – seja porque o público brasileiro é o mais carinhoso e empolgado que existe, ou porque somos fundamentalmente carentes de shows desse tipo, ou até mesmo porque os rockeiros do hemisfério norte nunca se deram conta de que nosso país sempre foi um dos maiores consumidores de heavy metal e hard rock de todos os tempos – o Brasil está geralmente no topo da turnê de todas essas bandas. E no ano passado, com A. J. Pero de volta à bateria, o TS veio ao Brasil pela primeira vez. Eu não esqueci a banda, ao longo dos anos até comprei algumas coletâneas caça-níquel em cd para relembrar os sucessos, mas por uma razão ou por outra acabei não vendo o show realizado no Via Funchal, que – para meu supremo arrependimento – soube mais tarde ter sido fantástico. A energia estava toda lá, a maquiagem era a mesma do Stay Hungry, um sucesso atrás do outro, e até comentários dos colunistas mais conservadores davam conta de que o show fôra excelente.

Em junho deste ano a internet anunciou que o TS voltaria para mais dois shows no Brasil em novembro, um em Curitiba e outro em São Paulo. Desta vez não perdi. Ontem, 24 anos depois de tê-los visto no Capital Center, ouvi novamente, ao vivo e in loco, o lendário “We are Twisted! Fucking! Sisteeeeeer!” com que Dee Snider começa todos os shows. Do lado de fora do Via Funchal, minutos antes, eu às vezes ria, observando aquele monte de rockeiros e fãs de rock (nos quais evidentemente me incluo), todos de meia-idade, todos na faixa dos 40, alguns ainda mantendo o mesmo cabelão comprido, outros já encaretados pela idade e pelas circunstâncias. Aqui e ali meninas de 16, 17 anos, proverbiais groupies, deslumbradas com a presença desses velhos metaleiros que faziam sucesso quando os pais delas ainda eram adolescentes. No palco a sensação foi a mesma. Snider e Mark Mandoza estão idênticos mas Jay Jay French e A. J. Pero engordaram pelo menos 20 quilos. O som é quase o mesmo, excetuando-se French e Ojeda, que pareciam não lembrar mais dos solos de cada música. Nada que atrapalhasse a catarse do momento.

O sucesso inesperado do ano passado deixou Dee e cia. relaxados e à vontade em meio ao público de São Paulo. Estavam sem qualquer maquiagem e desfiaram, às vezes sem pausa, aqueles sucessos que sabemos de cór e salteado. No início de The Price, depois da famosa introdução de Eddie Ojeda, Dee estava de costas, preparando-se para começar quando o público se antecipou e cantou, afinado, em perfeito uníssono, o How long i have wanted/ this dream to come true/ and as it approaches/ i can't believe i'm through. Snider virou-se, surpreso com aquele côro sensacional e brincou, no microfone: “I’ll sing it, ok?” Mesma coisa em I Wanna Rock, que teve o pulo coletivo mais sincronizado da história do rock, e em todas as ocasiões em que houve oportunidade para acompanhá-los. No fim de We’re not gonna take it, o público entoou o refrão quando a canção já estava terminada. A banda não deixou por menos e voltou a tocá-la, cantando o refrão junto ao público. Uma beleza.

Jay Jay French, que no passado não abria a boca durante o show, estava falador e alegre. Disse que a medida do amor deles pelo Brasil é que naquela turnê tinham um show no Chile, um show na Argentina, um na Bolívia e DOIS no Brasil. Enquanto dizia isso, Snider desfraldou uma bandeira brasileira com o símbolo do TS no meio, que recebeu do público. O grande vocalista, aliás, cantando com a mesma força e alcance dos anos 70 e 80, não regateou elogios a São Paulo. Em determinado momento disse, sem rebuços, “You're the fucking best, São Paulo, you’re the best, primêro, number one”, e declarou desde logo que o Brasil já era “our second home”, porque o público era louder, e as garotas eram hotter. Provocou gargalhadas quando falou isso, apontou para uma garotinha e disse, “but not you, little girl”. Arrematou dizendo “Twisted Sister is gonna move to São Paulo. We will live here with you, ok?”. Em tom mais sério, relembrou a morte de Ronnie James Dio, com quem o TS faria um show na Europa, este ano, e a quem Snider qualificou de um “deus do heavy metal”. Em tributo a Dio, o TS tocou Long Live Rock’n’Roll, que o público também cantou junto.


Foi balsâmico rever o TS depois de quase 25 anos. Que energia, que comunhão fundamental com o público, que prazer compartilhado entre músicos e espectadores.

Ouvindo as músicas e assistindo os clips hoje, impressiono-me com a inocência daquela juventude e o quanto éramos desnecessariamente reprimidos. E sinto nojo do que se faz hoje. Talvez o mesmo nojo que quem cresceu na década de 60 sentiu quando ouviu o rock dos anos 80. Ou talvez o que se faz hoje seja uma merda, mesmo.

6 comentários:

  1. Excelente texto Bernardo! que loco ter visto esse show deles em 1986 nos EUA.. deve ter sido épico! TS sempre foi uma das minhas bandas favoritas, e a performance do Dee Snider ao vivo é fantástica!
    abraço

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  2. Foi, foi épico, Mathias. Esqueci de mencionar os dois ou três bis. Em São Paulo foi aquele bis mais ensaiado, que já esperávamos. Nos EUA lembro-me de já estar começando a olhar para a saída, depois do segundo bis, quando o estádio inteiro escuta "Are you still theeeeere?", rs, do Dee, aquela gritaria generalizada e eles voltaram. Uma beleza!
    Obrigado por escrever, um abraço.

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  3. Texto ótimo, que sorte a sua por tê-los visto nos EUA. Imagino que não haja ninguém mais qualificado para fazer essa comparação do que você, e fez muito bem.
    We’re not gonna take it é realmente um clipe inovador para a época. Twisted fez história.
    O show foi inesquecível. Espero contar aos meus netos daqui a alguns anos com a mesma emoção que você parece ter sentido ao escrever este post.
    Beijos
    Bella Brendler

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  4. Bella, obrigadíssimo pela gentileza. Você além de conhecedora, tem um texto excelente e um blog que que eu recomendo desde já a todos os amantes do rock. Beijos, continue o bom trabalho!

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  5. Galera, mandei o texto a nosso querido Dee Snider e ele não apenas deu um retweet:

    "On Wednesday 1st December 2010, @deesnider said:

    You all should read this excellent article and review. It is in portugese so find a translator if you need to! RT @bernardoschmidt Dee, wrote this text about São Paulo's show, with a comment on TS show I saw in 1986, Capitol Center, MD - http://migre.me/2yhbL"

    Como ainda me mandou esta carinhosa mensagem pessoal:

    "On Wednesday 1st December 2010, @deesnider said:

    Wow Bernardo, you just blew me away with your article! I am truly touched by the emotion you convey. I give everything I have at these shows. I give it for people like you."

    Obrigado, Dee.
    É por isso que a legião de fãs do TS permanece intacta desde a década de 80 e vocês são bem-recebidos e bem-quistos em todos os lugares.
    Um grande abraço!

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  6. Só agora li este outro texto.E acabo de ver o comentário que você recebeu do Dee. Ele estava realmente feliz e agradecido com relatos de seu fã. Isso é uma honra. Não é? !I Que legal! !

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