terça-feira, 19 de julho de 2011

"Água da Fonte" e "As Sandálias de Cristo", de Fernando Jorge

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Perdoe-me o leitor pelo fato de, mesmo numa tese sentimental, não conseguir deixar de lado o amor pela erudição. Mas que fazer? Sou um livresco, um cerebral. Entre um belo livro, fartamente ilustrado, e uma adorável paisagem, prefiro o primeiro. Gosto não se discute...
(Fernando Jorge, 1959)

No segundo lustro da década de 50, com quatro livros em seu currículo — Notas sobre o Aleijadinho (1951), O Orvalho (1953), Vidas de Grandes Pintores do Brasil (1954) e As Mãos na Ciência, na História e na Arte (1958) — Fernando Jorge foi contratado pelo editor do jornal A Gazeta, Américo Bologna, para escrever uma crônica semanal no velho periódico fundado por Cásper Líbero. Surgiu a coluna “Croniqueta Ilustrada”, que Fernando utilizou, durante alguns anos desse primeiro decênio de sua carreira, para mostrar “crônicas e prosas várias, muitas rabiscadas ao léu dos acontecimentos”. O formato era, sim, o da crônica, mas o autor transcendeu esse molde. A “crônica” é considerada a narração histórica em tempo real, o próprio noticiário de uma publicação diária. Os textos da primeira fase de Fernando na Gazeta rompem a barreira da crônica e se aproximam do ensaio. Mais do que comentários literários, políticos, artísticos ou sociais, são estudos sobre temas de toda e qualquer origem, encimados por uma notícia que serve como ponto de partida para o desenvolvimento desses estudos. A reação do público foi muito positiva, Fernando recebeu cartas com elogios, comentários, de vez em quando críticas, e inclusive perguntas pessoais, consultas sentimentais, dúvidas escolares, e assim por diante.

O editor José de Barros Martins

Em 1959 o cronista entrou em acordo com José de Barros Martins, dono da prestigiada editora Martins (que publicava, entre outros, a obra de Jorge Amado), para o lançamento de uma coletânea de crônicas publicadas na “Croniqueta Ilustrada” da Gazeta. O nome escolhido para o livro foi “Água da Fonte” e a capa ficou a cargo de Darcy Penteado. Um dia Fernando perguntou a Darcy o que representava, exatamente aquele desenho, estilizado e quase abstrato. O renomado artista plástico respondeu: “É um fauno tocando uma avena. Achei a leitura do seu livro tão agradável e sedutora que me veio à cabeça o ritual com que aquelas divindades campestres da mitologia grega seduziam as ninfas, tocando suas flautas e seguindo-as com seus pés caprinos, pelos bosques”. O elogio do sensível artista comoveu Fernando. E por que esse título? O autor esclarece no frontispício: “Pelo motivo destas páginas terem brotado das minhas nascentes culturais. (...) Espírito introspectivo, pouco sociável, extravasei nestas páginas meus solilóquios literários. Sim, esta é também água da minha fonte”.

Darcy Penteado
Quem diria, porém, que esse nome já começaria a lhe dar problemas antes mesmo do livro ser publicado. Em meio ao processo de revisão e formatação dos originais, um dos executivos da gráfica “Revista dos Tribunais”, que trabalhava sempre com a Martins, chamou Fernando e lhe avisou que o escritor maranhense Josué Montello acabava de entregar um livro seu para ser impresso por lá, e que solicitava a Fernando a troca do nome de sua coletânea de crônicas, pois pretendia usar o título Água da Fonte no seu próprio livro de ensaios. Fernando deu de ombros e avisou que não trocaria coisa nenhuma porque submetera seus originais antes de Josué. O vaidosíssimo maranhense, arrasado, crente que Fernando mudaria o nome imediatamente, apenas pela honra de lhe fazer um favor, teve que se conformar em rebatizar seu livro, que acabou intitulado Caminhos da Fonte.

Josué Montello

É muito interessante estudar a fundo este Fernando que se encontrava no verdor dos 20 anos quando escreveu estas crônicas. Suas características são claras, tanto nas qualidades quanto nos defeitos. Entre os últimos, há um gongorismo indisfarçável e indisfarçado, provavelmente herança de sua passagem pela verbosa Academia de Letras da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. O convívio diário e horário do jovem cronista com a poesia o deixou empanzinado e ele precisava digerir, processar e fazer desaguar tanta influência. Sendo a poesia um ramo da literatura que o próprio Fernando se proibiu de explorar criativamente, por não ousar competir com o pai na seara da qual este era mestre absoluto, a crônica foi a válvula de escape. As frases gongóricas e rebuscadas lhe jorram pelos dedos. Para o novel escritor, os pássaros não cantavam no céu azul ensolarado, eles “lançavam, com seus gorjeios, pérolas raras e ressoantes no firmamento cor de opala, aquecido pelos beijos do sol”. Eva não tinha lábios doces, vermelhos e macios, ela possuía uma “boca ambrosíaca, de lábios nacarados, feitos com a polpa veludínea das romãs”. Os olhos do retirante não estavam injetados e marejados pelo sol que brilhava violento no céu azul do fim de tarde; eles, “febricitantes pelo excesso de luz, ardiam em delíquio, estriados de fibrilhas sangüíneas”, e “o firmamento, cerúleo, de tons flavos, escarlates, dardejava nas suas carcaças trôpegas, flechas incandescentes” (crítica semelhante seria feita no futuro por Ruy Castro ao inusitado 15 Contos, de Jânio).

Fernando, na juventude
Possível é que tais adornos poéticos — a exemplo do que Fernando diz em crônica a respeito de Cruz e Sousa, poeta por vezes acusado de gongorismo — sejam “acréscimos de Beleza”, mas o caso é que aos poucos o cronista foi apaziguando seu estro e adequando-se ao formato da crônica, o que não o impediria, mais à frente, conforme veremos, de queixar-se pela ausência da poesia nas manifestações mais comezinhas de pensamento. É só o que se pode identificar como um defeito, propriamente. Seu então devotado catolicismo, por exemplo, funciona inteiramente a favor de sua pena. Anda lado a lado com o escritor, o pesquisador e o historiador. Sua apologia ao papa Pio XII, em “O Papa e o Materialismo”, como indica o título da crônica, é sobre alguns dos pontos de vista daquele papa e um pequeno estudo sobre as boas ações. A “Conversa com São Nicolau” é uma deliciosa fantasia sobre a fé e a humildade, escrita durante o período das festas de fim de ano. Graças a Deus, Fernando não cai jamais na esparrela da carolice. Pelo contrário; será vítima dela, pouco depois de Água da Fonte, quando lançar seu livro sobre Bilac. Este, por sinal, já está nas cogitações do jovem Fernando, que na crônica “São Paulo dentro do Brasil” reserva um parágrafo para falar do “poeta fluminense tão conhecido e amado por todos que se inebriam com a embriagante melodia dos símbolos”.

Olavo Bilac

Objetivamente, as 30 crônicas de Água da Fonte são a afirmação literária de um “moço bem velhinho”, como se denominava Jânio em sua lira acadêmica. Fernando tinha vinte e poucos anos, e no entanto vivera em meio aos livros, entre os velhos, e com os livros velhos desde tão tenra idade, que vez por outra revela achaques de um ancião, dizendo coisas como “refestelei-me na velha e carinhosa cadeira de balanço”, como se recém-saído do Largo, da convivência com os colegas, às voltas com as namoradas, freqüentando a noite febril e intensa da São Paulo dos anos 50, fosse algum aposentado que via o tempo passar em uma “velha e carinhosa cadeira de balanço”. Não obstante, dedica nada menos do que quatro crônicas ao envelhecimento e à morte. Essa riqueza existencial do jovem petropolitano, radicado na Paulicéia, que fala com tanta inteligência e perspicácia sobre conceitos subjetivos como a Felicidade, a Saudade, a Solidariedade, a Mentira e a Alegria revela antes sua velhice anímica. Como poderia ele, tão novo, expender conceito tão rico e meditado sobre a felicidade?

Nós, mortais, temos em geral inteligência estreita para compreendermos os momentos ligeiros de ventura. Sempre martirizados pelo demônio da insatisfação, sempre sequiosos por um ideal inatingível, não percebemos, muitas ocasiões, a visita discreta da felicidade. É necessário que o pálido sofrimento das asas negras e garras mais aduncas que as das harpias, venha crucificar nossa alma com seus cravos aguçados. Só liberto do ergástulo caliginoso, onde curtiu longas agonias, o ex-prisioneiro poderá deslumbrar-se contemplando o rolar dos astros e a luz transfiguradora do Tabor...

Jânio dava a impressão de ser um “moço bem velhinho” mais no sofrimento do que em qualquer outra área. Fernando é o jovem de alma velha. Seu corpo está no presente mas sua alma está com os mestres que ele admirou e de cuja fonte bebeu na infância e na adolescência. Taine, Victor Hugo, Göethe, Napoleão, Tolstói, Epicuro e demais romancistas, filósofos, poetas ou estadistas de diversas nacionalidades são nomes que vemos em mais de uma ocasião nas crônicas de Fernando, embasando e alicerçando sua belíssima cultura.

Victor Hugo
O que não quer dizer que perdesse o contato com as questões prementes de sua época. Não. Água da Fonte é crítica social, até mais do que crônica literária. Fala de inflação, de fome, de analfabetismo e de carestia. Seu texto “O Fim Inglório dos Ditadores”, inspirado na então recente deposição do general venezuelano Perez Jimenez é excelente documentário sobre o clima político da época e traça paralelo inestimável entre o pensamento de Hitler, “o vândalo do nacional-socialismo”, e a influência que não soube absorver de Nietzsche, “filósofo de um amoralismo que inúmeras vezes chega às raias da demência”. O estudo representa uma espécie de gênese do que viria a ser a magnífica introdução escrita por Fernando para sua biografia de Getúlio, 30 anos depois, onde é feita uma comparação minuciosa e inédita entre a vida do homúnculo de São Borja e os preceitos do livro O Príncipe, de Maquiavel. Em relação a Getúlio, a quem Fernando deve ter começado a pesquisar já naquele tempo, há um juízo breve: “Esse brasileiro que vivia rasgando constituições morreu amortalhado nas pregas hieráticas e nobres de uma Constituição”. A conclusão da crônica é um de seus lemas desde então:

A única ditadura que um homem deve aceitar, de bom grado, é a do Espírito. Em vez do cesarismo de um Hitler e de um Mussolini só podemos acatar a autoridade de um Göethe e de um Dante. O domínio dos primeiros foi efêmero, por ter sido material. O domínio dos segundos é eterno, por ser espiritual.

Cruz e Sousa

Dois exemplos de crítica social aliada ao resgate histórico são os textos “Aspectos Inéditos de Cruz e Sousa” e “Uma Feição Inédita de Júlio Ribeiro”. Dois grandes talentos, dois escritores atacados pela tísica, e, por fim, dois expoentes das letras nacionais que morreram na mais deplorável miséria. A primeira crônica nos arrepia enumerando as incontáveis adversidades contra as quais lutou esse extraordinário poeta, que não só viveu em franciscana pobreza, fustigado pela tuberculose, mas foi também uma vítima do racismo. O segundo é curioso porque traz a análise de um polemista feita por outro. Mas Júlio Ribeiro, autor do discutido “A Carne”, era, nas palavras de Fernando, “um nevropata”. Suas polêmicas não eram movidas pelo humor e pela cultura, como as de Fernando; Júlio era bilioso, era daqueles que não se importava em descer ao inferno, desde que levasse junto a vítima de sua mal-querença. “Assim como não sei perdoar, não sei também ceder”, era um dos motes desse abrasivo e vitriólico escritor, que não por coincidência, morreu sem um vintém, esquecido por todos. A conclusão dos dois textos poderia ser encontrada no fim de uma terceira crônica, “Fome, Flagelo Universal”, em que Fernando fala que “milhares de brasileiros assassinados por ela, morrem subnutridos, desidratados, tuberculosos”, e ainda aponta o dedo certeiro para os “males insidiosos” do país, que já naquela época eram “a Politicagem, Imprevidência Social, Impatriotismo, Desordem”.

Júlio Ribeiro
É particularmente prazeroso verificar que desde aquela época Fernando não era como os cronistas tradicionais, que manifestavam sua discordância envolvendo-a em plumas, lantejoulas, salamaleques e demais frescuras para não ferir os melindres de fulano ou beltrano. Fernando demonstra discernimento político e independência intelectual para criticar como bem entende aquilo que lhe parece injusto ou absurdo. Prova disso é a verdadeira autópsia que faz do governo de JK (que mais tarde se tornaria seu amigo e confidente), e aquele que é possivelmente o comentário mais brilhante que já se fez sobre a construção de Brasília, em “Vicente de Carvalho, o Inimigo do Mar”:

Enquanto o norte é assolado por cruel seca, o presidente da República preocupa-se em construir Brasília. O Sr. Juscelino Kubitschek é semelhante ao homem que tem uma casa em ruínas. Sua residência está caindo aos pedaços, as paredes se acham esburacadas, com o reboco se fragmentando. As torneiras não funcionam, o soalho se encontra com os tacos soltos, as telhas se quebraram, as vigas e o travejamento ameaçam, de um minuto para o outro, desabar... No entanto, o proprietário desta moradia tatibitate, pernibamba, em vez de consertar o próprio lar, vai preocupar-se em adquirir uma luxuosa casa de campo e abarrotá-la de alfaias, tapeçarias, bibelots, mármores, bronzes... Em matéria de disparates levamos a vitória, positivamente...

Juscelino Kubitschek

O cronista continua, sem embargo, um otimista incurável. Em “O Homem Célebre e a Multidão”, texto esclarecido e bem fundamentado sobre a relação entre líderes políticos e a massa, ele cita quatro definições de um professor para esse amorfo agrupamento humano. As duas primeiras caem como luva no grosso de nosso povo:

1 – A multidão casual, que se define como associação fortuita e extremamente frouxa de pessoas que se agregam para presenciar um acontecimento qualquer que lhes fere a atenção.
2 – A multidão convencional, semelhante ao primeiro tipo, com a única diferença de que seus membros se sujeitam a certas regras, como os espectadores de um jogo desportivo.

Fernando Jorge, porém, faz questão de afirmar que “o brasileiro, pelo menos, é um povo bom, inteligente, que tem evoluído sob o ponto de vista cultural. Se as nossas massas não se acham altamente politizadas, como acontece nos Estados Unidos e na Inglaterra, é porque a Cultura e a Experiência ainda se encontram em processo de sedimentação dentro do nosso organismo social”. Ingenuidade pura, ou otimismo arraigado no imo do bom cronista. O povo brasileiro é completamente inculto e não tem o mais ínfimo traço de politização. E haverá no mundo povo mais frouxo e mais submisso do que o nosso, que assistiu inerte a todos os movimentos militares do século XX sem mover uma palha? Poderíamos talvez excetuar a revolução de 32 (que se iniciou – não vamos esquecer – do descontentamento de uma elite política alijada do poder), resistências localizadas e de vida curtíssima durante as ditaduras de 37 e 64, e quiçá o movimento das Diretas-Já, esse sim, em sua maior parte, um movimento popular. Fora isso o que temos é a “associação fortuita”, “a multidão convencional”, agrupamentos de desocupados e ignorantes que ouviram cantar o galo e não sabem onde, como a “marcha da família”, ou uma molecada burguesa e cretina que desejava aparecer na TV, no ridículo e circense movimento dos “caras pintadas”.

Vargas
Há que convir, entretanto, que Fernando Jorge não estava sozinho nessa crença. O suicídio de Vargas, a deposição de Carlos Luz e, pouco depois, a eleição de Jânio e a adoção de uma política externa moderna e independente deram, por assim dizer, uma sensação de que o povo brasileiro progredira em sua mentalidade política. Em 1962, Franklin de Oliveira, em seu Revolução e Contra-Revolução no Brasil (Civilização Brasileira, 1962) parece fazer coro com Fernando, quando traz ao lume esta pérola de ingenuidade: “Só são irracionais as massas sem nível ideológico. Não é hoje o caso do brasileiro. Já ultrapassamos as fases sebastianistas. O país pede hoje ação consciente. Exige pensamento formulado com exata clareza e precisa substância”. E dois anos depois o país mergulhava na penumbra do golpe de 64, que durou 20 anos. É o próprio Fernando que recoloca a discussão nos eixos, afirmando, mais à frente, com invejável clarividência que “as multidões se extasiam com homens enérgicos e arrogantes. Talvez semelhante simpatia se explique devido à ausência, nas massas, de uma personalidade firme e definida. Elas são, pode-se dizer, abúlicas”.

Em “Ruy: Antítese do Homem Tropical”, Fernando não se dá o trabalho de dissecar a personalidade esquizofrenicamente honesta do iluminado baiano, objeto de veneração de toda a nacionalidade na primeira metade do século XX, e retratado em dezenas de estudos; ao invés disso, o cronista dá o pontapé inicial nas pesquisas biográficas que o consagrariam nas décadas de 60 e 70 e apresenta uma tese original sobre a tão decantada “Águia de Haia”. Em fecundo trabalho comparativo, analisando os esforços e os estilos de diferentes biógrafos desde Plutarco, e concentrando-se no que teria sido a deficiência perene dos biógrafos de Ruy — o abuso do panegírico, a inexistência de um perfil psicológico e a falta de um aprofundamento sociológico sobre o meio onde o baiano cresceu e se aculturou — Fernando revela que o grande jurisconsulto andava no contra-fluxo de seus contemporâneos:

Inteligência atilada e organizadora, [Ruy] percebeu os inúmeros antagonismos da nossa sociedade: a economia agrária e pastoril em conflito com a cultura européia, ou melhor, francesa. O patriarca e o bacharel. O pequeno proprietário e o senhor de engenho. O pernambucano e o mascate, O choque da cultura negra e indígena. O contraste entre o senhor e o escravo. Daí se poderia explicar, sob o ponto de vista filosófico e psicológico, o anseio de Ruy por uma vida simétrica, coerente, que desmentisse a nossa conhecida mobilidade, a nossa inteligência mais brilhante que analítica, os nossos súbitos entusiasmos e os nossos ainda mais rápidos desânimos...

Ruy Barbosa

Mais à frente Fernando escancara as diferenças medulares de Ruy e seus semelhantes, na Política, no Direito e na Literatura:

A existência de Ruy foi marcada por um aticismo bem estranhável num filho dos trópicos. Ela apresenta seguimento lógico, linhas rígidas de uma vontade quase espartana. Dir-se-ia que ele se esforçou, sempre, em ser vertical, destruir o conceito generalizado a respeito da dispersividade do homem brasileiro. Para tanto basta contemplar a trajetória equilibrada, rítmica, de sua carreira, de objetivos claramente definidos desde o início.

É tese que mereceria ser levada adiante por um biógrafo de Ruy, quiçá o próprio Fernando ou mesmo seu pai, Salomão Jorge, célebre cultor do legado ruísta, pois como salienta Fernando, na mesma crônica, “ainda não surgiu, infelizmente, um grande biógrafo do grande brasileiro”. E por falar em Fernando e Salomão, é também em Água da Fonte, mais especificamente na crônica “Carta a Antonio Pousada”, que nasce — ou é posta às claras para o público — a inimizade entre Fernando Jorge e o escritor cearense Raimundo Magalhães Jr.

A crônica se origina de uma carta do romancista português Antonio Pousada à coluna de Fernando, onde o lusitano queixava-se da falta de interesse dos editores com sua obra, que já fôra, no passado, exaltada por Monteiro Lobato. Fernando elogia Pousada, procura tranqüilizar o escritor, explicando que o assédio das editoras não é indicativo absoluto de sucesso e que os livros do português vinham sendo bem vendidos, malgrado a ausência de um contrato editorial, o que significa que o povo leitor tinha interesse em seus trabalhos. Pousada, porém, deve ter sido vítima de um comentário desairoso de Raimundo Magalhães em sua coluna no Diário Carioca porque, à certa altura, Fernando dispara, falando diretamente ao português:

Acredito, sinceramente, na sua vocação literária. Sei que um foliculário cearense resmungou, com azedume, que a sua literatura é só artificialismo, mais nada. Não existe nela, segundo ele, nenhuma sinceridade, tudo é ficção. Mas os leitores de seus livros autobiográficos sabem quanto isso é mentira, quanta humanidade, quanto sofrimento, evolam-se das páginas da novela de sua vida.

Raimundo Magalhães Jr.
O “foliculário cearense” não era nenhum outro senão R. Magalhães Jr. O jornalista e biógrafo tinha facilidade para escrever e acabava de lançar aquele que é convencionalmente considerado seu melhor livro, a biografia de Deodoro em dois volumes. Mas também tinha fama de ser leviano, injusto, inconseqüente, precipitado em seus julgamentos, e, no jargão literário, “usar muita cola e tesoura”, ou seja, citar indiscriminadamente, encher o texto de aspas e, na maioria das vezes, sem dar crédito às fontes. E isso só piorava quando além de tudo eram fontes que não mereciam confiança, vezo que desmoralizou Magalhães nas décadas de 60 e 70, quando lançou seus desastradíssimos trabalhos sobre Ruy Barbosa e Machado de Assis. Por essa razão, tanto Fernando quanto seu pai não nutriam qualquer admiração pelo cearense, que teve contendas individuais com ambos, pouco depois. Mas Fernando não se importava. A bem da verdade, não dava a mínima. Era jovem, trabalhava naquilo que gostava, namorava uma moça boa com quem ia se casar e constituir família. E tinha os livros: “Apesar de tamanhas misérias ainda existe neste planeta, por felicidade, muita coisa bela, superior, capaz de sublimar a vida, como as artes, as letras, as ciências. Sim, basta abrir esses volumes e, imediato, virão palestrar com minha pessoa, Dante, Cervantes, Aristóteles, Göethe, Shakespeare, todos os sublimes espíritos feitos de raios de luar e revérberos de aurora, todos esses máximos arquitetos da humanidade espiritual”.

Em 1964 veio novo livro reunindo as crônicas de sua coluna semanal: As Sandálias de Cristo. De 1959, quando foi editado Água da Fonte, até a data da publicação de Sandálias, Fernando lançou sua biografia de Olavo Bilac e conheceu o outro lado da fama; se as Notas sobre Aleijadinho lhe proporcionaram um Jabuti e o reconhecimento de seus pares, Vida e Poesia de Olavo Bilac, com prefácio de Menotti Del Picchia, despejou sobre ele o sucesso de vendas, o prestígio literário e... a inveja de seus confrades. O “foliculário cearense” Raimundo Magalhães Jr. teve sua própria iniciativa de biografar Bilac abortada pelo trabalho de Fernando e promoveu violenta campanha contra ele, pela imprensa e nos meios literários, sobretudo na Academia Brasileira de Letras. Fernando passou os anos de 63 e 64 no olho do furacão das reações despertadas contra e a favor de seu livro. O resultado é que Vida e Poesia de Olavo Bilac tranfrormou-se na primeira biografia best-seller e provocou defesas memoráveis de luminares como Agrippino Grieco, Manuel Bandeira, Nestor de Holanda, Geir Campos e o poeta português Campos de Figueiredo, entre outros. Em meio a isso o autor encontrou tempo para escrever as crônicas que acabaram enfeixadas no volume da editora de Bruno Buccini.

Cardeal Motta
Um dos argumentos utilizados pelos opositores da biografia de Bilac escrita por Fernando era o de que o livro valorizava demais as pândegas do poeta, suas escapadas amorosas, suas boêmias junto aos amigos e tudo aquilo que, no juízo daquele bando de carolas e “moraleiros” idiotas, poderia macular a pureza nefelibata do aedo de “Ouvir Estrelas”. Terá sido por isso que o livro de Fernando foi batizado com o nome da crônica onde fala justamente de um par de sandálias hoje guardadas em uma igreja alemã, e que supostamente pertenceram a Jesus Cristo? O prefácio também parece escudo contra qualquer ataque de viés religioso, de vez que foi escrito por ninguém menos do que o Cardeal Motta, então arcebispo de São Paulo. Seja como for, o livro traz 60 crônicas. Ao contrário de Água da Fonte, coletânea de artigos, mais meticulosos e detalhados, Sandálias de Cristo traz crônicas curtas e objetivas. Perfeitas para o executivo que está almoçando, o aluno no recreio, o operário no ônibus, o transeunte no banco da praça. São leitura prazerosa, “pés-de vento”, aulas compactas sobre os mais variados assuntos, sempre com o selo inconfundível de erudição e competência de Fernando.

Caricatura, na época de "Sandálias de Cristo"

Na orelha do livro, o jornalista Hélio Siqueira cita uma opinião sobre Fernando emitida anteriormente por Sérgio Milliet, onde este comenta que o escritor “faz crônica séria e culta sem contudo se desviar para o ensaio”. Não alcanço a restrição de Milliet. Passar da crônica para o ensaio não é um “desvio”, e sim o mero desenvolvimento do tema, a amplificação do que se conclui através das pesquisas. Fernando fez isso em Água da Fonte, mas não em Sandálias de Cristo. Aqui vemos crônicas, no sentido exato do termo. Mais à frente Hélio comenta que “Fernando Jorge tece um rendilhado de comentários amenos, servidos por citações oportunas e ilustrativas”, “sem o menor traço de pedantismo ou de veleidades a enciclopedista”. Aqui o comentário de Siqueira sabe à resposta daquilo que provavelmente se dizia à boca pequena contra os escritos de Fernando (e também de seu pai, Salomão Jorge, que não se furtava de escrever artigos corrigindo os equívocos desta ou daquela enciclopédia). Me parece o embrião do que é hoje a inversão de valores, pela qual o burro é incensado e o culto é considerado pretensioso. Nunca houve alguém mais modesto e menos pedante do que Fernando Jorge, mas o saber enciclopédico é uma de suas maiores características. Não vejo a possibilidade de se criticar um livro, um ensaio ou uma crônica de Fernando porque neles o escritor faz transbordar sua gigantesca cultura. Especialmente quando se trata de Fernando, cujo maravilhoso talento de escritor faz com que esse manancial de informações seja absorvido de forma suave, imperceptível ao leitor.

Com o mestre, em uma das reentrâncias
de sua biblioteca
Talvez pela campanha que tanto Fernando quanto seu livro sobre Bilac foram vítimas por parte de ressentidos como Raimundo Magalhães, Sandálias de Cristo dá por vezes a impressão de ser menos um estudo histórico-sociológico e mais um comentário humano. Como já fizera em Água da Fonte, o autor utiliza a história e a observação de fatos contemporâneos e do cotidiano para a melhor compreensão de suas implicações na vida e no comportamento do homem. Mas ao contrário do primeiro livro, onde as análises são mais filosóficas, aqui as crônicas têm tom de desabafo, de protesto velado contra a mesquinhez, a pobreza de espírito, a intolerância e demais sentimentos menores. Por qual outra razão Fernando discorreria com tanto vigor sobre a generosidade, criando diamantes como este: “Quanta gente é generosa com aquilo que não tem! Mas na hora do desprendimento, da filantropia, quando se pede o mínimo sacrifício em prol de uma ação meritória, a boa vontade desaparece, evapora-se como fumaça, restando apenas os despojos inúteis das palavras vãs...”. E que mais o levaria a escrever “A Paixão pelo Dinheiro” — lado B de “Chuva de Dinheiro”, sobre a ganância, em Água da Fonte — parindo jóias da mesma forja e descrevendo aqueles ratos que vivem para amealhar o vil metal: “Certos tipos são como os telefones automáticos. Se tiramos o receptor do gancho, sem introduzir em seguida o dinheiro no orifício competente, o aparelho permanece silencioso, inativo. Podemos berrar, espernear, sacudi-lo, que nada adiantará...”.

Casado desde 1959 com uma grande mulher, e conhecedor, agora, da felicidade doméstica e sentimental, Fernando também dedica ao sexo feminino palavras e análises que não se encontravam em Água da Fonte. Em “Os Inimigos do Casamento” ele consigna desde logo sua recém-adquirida experiência, afirmando que “o matrimônio é um estado de alma. Só obtém sucesso quando o coração se aquieta, entra em remanso, como as ondas que após se quebrarem em vagalhões, ficam tranqüilas e desfalecentes no colo tépido das praias...”. Em “A Mulher, esta Incompreendida”, declara que, para ele, a mulher “não oferece enigma algum”. Sua tese é clara: esses “curiosos espécimes do gênero humano” não são mais do que aquilo que provocam nos homens. Se rejeitam seus pretendentes, são consideradas perversas e nocivas. Se aceitam a investida, são dóceis e bondosas. “A mulher”, diz Fernando, sabiamente, “em noventa por cento dos casos, é boa ou má segundo as reações psicológicas dos homens. O mistério da mulher não está nela: acha-se em nós”. O autor se afasta dos epigramistas misóginos da Careta e de outras revistas e livros que leu em sua infância e juventude, e professa um credo moderno, progressista, mais coerente com sua época. Sobre o casamento, propriamente, ele se estende com desenvoltura, em “Como Certas Mulheres, Sem Querer, Matam os Seus Maridos”, apesar de acusar um certo machismo, preconizando que a mulher deve ter esta ou aquela qualidade, sem mencionar a urgência do homem possuí-las na mesma medida:

O casamento, por mais feliz que seja, precisa ser uma escola de paciência. O seu êxito, que consiste numa perene e mútua satisfação, num entrosamento isócrono [que ocorre ao mesmo tempo] de anseios e vontades, depende de diminutas concessões. Por tal motivo, antes de tudo, o belo sexo necessita possuir, em doses suficientes, algumas virtudes básicas, como a tolerância, a modéstia e o bom humor, as quais devem, estar aliadas à resignação e à coragem.

Fernando é humano. Tropeça levemente aqui e ali; se assume ares proféticos em “A Evolução da Ciência”, brincando com a facilidade dos transplantes de órgãos no futuro — hoje uma realidade — é implacável com a cinqüentenária Ethel Vickery, que cometeu a temeridade de vencer um desfile de beleza na Inglaterra, conforme se vê na crônica “A Crueldade de Vovó”. O texto, bem-humorado e desprovido de qualquer intenção doutrinária, é um pito do escritor na “linda matrona” que teria acabado com os sonhos de um punhado de mocinhas, ávidas pela faixa de miss e o prêmio em dinheiro. Mas em meio à jocosidade há uma fresta por onde se divisa uma real, embora moderada, condenação à vaidade daquela senhora. Conceitos de Fernando como “qualquer concurso de beleza, tal um jogo de boxe, uma partida de futebol, pressupõe uma competição entre jovens. A flor pertence à primavera e a Beleza só engrinalda os flamantes cabelos de ouro da Juventude”, ou “a natureza distribui de maneira sábia os seus dons, propiciando energia ao jovem e experiência ao ancião”, ou ainda “a beleza da velhice (...) é uma reminiscência, chama que ainda bruxuleia, prestes a apagar-se ante a primeira rajada de vento forte” lembram a reprimenda de Hamlet à sua mãe — “You cannot call it love, for at your age the heyday in the blood is tame, it’s humble, and waits upon the judgment” (Ato III, Cena IV) — foram ultrapassados pela revolução sexual que aconteceria no fim dos anos 60 e encontram-se hoje obsoletos. A propósito de Shakespeare, teria sido oportuno, à época, corrigir o mestre na brilhante crônica “O que é o Ciúme?”, explicando que, conquanto seja dedução perfeitamente pertinente, o uxoricídio de Herodes não foi a base do gênio dramaturgo para a criação de Othello, que vem do conto de Cinthio, Un Capitano Moro.

Em “Uma História do Pioneirismo Paulista”, Fernando comenta que o escritor Francisco Marins, no início de sua carreira, como jornalista em Botucatu, contribuía com “narrativas ainda um pouco ingênuas e algo romanescas, que revelavam, entretanto, um prosador correto e agradável”. O mesmo juízo pode ser feito sobre Fernando naquela ocasião, quando, aos 36 anos, lamentava o ocaso da poesia. Chegam a comover súplicas como esta contida na crônica “João XXIII e os Cegos”:

Sonhem, construam imagens. Quando o sol se erguer do horizonte não digam simplesmente: o sol nasce. Sejam românticos, parnasianos, simbolistas. Declarem, por exemplo:
— O sol nasce como a juba dourada de um leão que vai, aos poucos, crescendo de sanha.
Se descreverem a capital da Grécia a uma amigo, depois de visitá-la, não se acanhem de observar:
— No crepúsculo Atenas parece coroada de violetas.
O mundo precisa de Poesia. E digam o que quiserem, o homem sempre será um animal romântico.

Outra forma de divulgação artística que embalou a juventude de Fernando e que agora entrava em irremediável declínio era a conferência literária. Sobre o assunto, em “Conferências e Conferencistas”, o autor regurgita as pérolas habituais: “O primeiro dever do conferencista é agradar. E para isto convém não ser muito pesado. Se o leitor vai realizar uma palestra não procure mostrar-se profundo em demasia, erudito em excesso. Aquele que esgota, nestas circunstâncias, um assunto, acaba esgotando, via de regra, o auditório”. A conclusão, porém, é melancólica: “Ah, quem me dera, depois de ser vítima dos falastrões, dos semeadores de torpor, escutar Rivarol, cujas palavras mágicas, segundo Chênedollé, pareciam cair em reflexos cintilantes, à semelhança de irisadas e aurifulgentes pedrarias!”

Bilac, em sarau literário que embalou os jovens da geração de Salomão Jorge

Em “A Decadência da Conversação”, de título auto-explicativo — mas que também poderia se chamar “O Lamento do Intelectual” — o início é plangente: “Tenho observado com mágoa que a palestra, um dos mais benéficos exercícios mentais, já não é cultivada como outrora, quando conversar a respeito de qualquer assunto era uma arte encantadora”. O que vem a seguir é lapidar, nos mostra por que fomos reduzidos à “pátria do perfil”, dos resumos, das análises perfunctórias, superficiais, que acabaram com a conversa e vão aos poucos acabando com historiadores como o próprio Fernando:

Tecer argumentos sutis em torno de um livro, de um caso em evidência? Oh, não, seria muito cansativo! Bastam uns comentários ligeiros... O jornal se incumbe de dar opinião. Para quê conversar se podemos nos distrair folheando uma revista, assistindo um programa de cinema ou de televisão? Eis porque a arte de palestrar é uma arte moribunda. O século XX a desprezou para conceder atenção ao industrialismo, achando que uma reunião de economistas é mais útil que um diálogo a propósito da estética de Ruskin. (...) Com efeito, que palestras vazias, anêmicas, sem substância! O único remédio, à falta de bons interlocutores, é mergulhar nos bons livros. Pelo menos os “mestres mudos” apresentam uma vantagem: não dizem tolices.

Poesia concreta
No campo da crítica literária, sobram pauladas para o então ainda jovem Concretismo, “ou melhor”, segundo Fernando, “Concretinismo”. Na crônica “Poesia não é Charada” ele recepciona de braços abertos as novas idéias, o modernismo, “necessário porque traz oxigênio revigorante às manifestações superiores do espírito”. Mas não engole a tal linguagem “verbivocovisual” criada por Décio Pignatari e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos: “Sabe o leitor o que é isto? É uma das mais perfeitas bobagens do planeta, o retrocesso puro e simples à linguagem gutural do homem das cavernas, quando o nosso peludo antepassado, muito idêntico aos símios, se exprimia através de sons confusos, inarticulados”. Era demais, realmente, pedir que Fernando (ou Salomão Jorge), amante da poesia tradicional, um “bilaquiano” por excelência, se enamorasse dos joguinhos de palavras que constituíram a efêmera poesia concreta. Mas os comentários de Fernando sobre o assunto, como este: “Querem ser originais, revolucionários, e acabam sendo grotescos”, ou este: “O que falta, à quase totalidade deles, é talento e cultura”, são de uma atualidade tão formidável que parecem escritos sobre o rap, o funk, e outras aberrações que vêm nulificando a música brasileira nos últimos anos.

Da mesma forma, quando Fernando diz, em “O Canibalismo”, que “tudo que é estranho, original, embora bárbaro, desperta uma curiosidade mórbida no homem civilizado. (...) Os nossos nervos anestesiados, a nossa vida prosaica, monótona, sempre invariável, acabam nos fatigando. Queremos, então, uma válvula de escape. Emoções primitivas, arrasadoras. Eis o motivo por que sobrevive, nesta época de tantas conquistas e progressos espirituais, o amor às lutas de boxe, aos filmes de gangsters e de far west. (...) Quanto mais tiros houver, na tela, quanto mais assassinatos ele presenciar, maior prazer experimentará. É que o troglodita, o canibal, tipos sorrateiros, teimam em acompanhá-lo, relutam em abandonar a sua alma”, poderia estar tanto justificando o sucesso inaudito de filmes cuja tônica é a violência gratuita — naquela época o ingênuo faroeste, hoje filmes como Assassinos por Natureza e Clube da Luta — como explicando o porquê da audiência maciça que têm há anos os programas de baixaria, de mondo cane, dos Big Brothers, das apresentadoras ordinárias e desclassificadas e toda a porcaria televisiva.

Santos Dumont

Há dois aspectos curiosos em Sandálias de Cristo. O primeiro já se viu em Água da Fonte com Bilac, ou seja, a menção de personagens que fascinaram Fernando desde sempre, e aqui se repete com Paulo Setúbal e Santos Dumont, eternizados em biografias do próprio escritor. No caso do último, é interessante o comentário alusivo ao brasileiro e aos irmãos Wright, de que “até hoje, continuam as discussões apaixonadas em torno do real descobridor da navegação aérea”, já que foi a biografia de Fernando, lançada em 1971, que esclareceu definitivamente essa dúvida de tantos anos, à qual os norte-americanos insistiam em se aferrar. E o segundo é o “resíduo pseudo-literário” daquilo que Fernando fixou na lembrança possivelmente sem querer, por sua constante convivência com a obra de escritores do passado, e que mais tarde seria mote para algumas de suas melhores esculhambações. Assim, é divertido ler as crônicas sobre o nariz (“Cada um é Dono do seu Nariz”) e os papagaios (“O Papagaio na História e na Literatura”), porque são textos gostosos, informativos, despretensiosos, mas remetem instantaneamente às conferências proferidas por Alberto Faria em 1925, na Academia Brasileira de Letras — “Nariz e Narizes” e “O Galo Através dos Séculos” — magistralmente aniquiladas por Fernando em sua obra-prima, A Academia do Fardão e da Confusão.

Também remonta àquele tempo o início do sacerdócio de Fernando na função que herdou do pai, de bedel da literatura e da língua portuguesa, tanto na correção de textos nacionais como na tradução de obras estrangeiras e na identificação de plágios. Há, ao todo, seis crônicas sobre o assunto, três para corrigir textos, dois para corrigir traduções e um para falar sobre o plágio. Em meio a seu “Outros Apontamentos de Leitura” ele quase se desculpa, dizendo esperar “que ninguém me julgue um mestre-escola embravecido, de palmatória em punho, sempre disposto a colocar de castigo, num canto da sala de aulas, os seus inocentes e amedrontados estudantes”, mas a verdade é que esses “apontamentos” são preciosos. Quiçá em menor intensidade quando corrigem efêmeras publicações de outros países, tão pródigos em equívocos de todos os tipos sobre o Brasil, mas verdadeiramente importantes na medida em que procuram dirimir os erros que vêm há décadas se disseminando nos livros de história política ou literária. É o caso do tal “segundo império”, a que aludem inúmeros professores, e que, a rigor, não existiu jamais, sendo a denominação correta “segundo reinado”. Burrice análoga a caracterizar-se o Brasil pós-1889 de “Primeira República”, a pós-1930 de “Segunda República”, e a pós-1945 de “Terceira República”, quando houve apenas uma, que dura até hoje, e que, incidentalmente, foi denominada “República Velha” antes de 1930.

Humberto de Campos
Outra observação que é menos um puxão de orelha do que um serviço aos pósteros, é a correção a Humberto de Campos, que em seu livro Fatos e Feitos afirma ser A Moreninha o primeiro romance brasileiro. Fernando põe a história de volta nos trilhos, explicando com documentação rica e fidedigna que o primeiro romance nacional é, de fato, As Aventuras de Diófanes, da escritora Teresa Margarida da Silva e Orta, editado em 1752, quase um século antes do romance de Joaquim Manuel de Macedo. No ramo das traduções há uma dupla correção; Fernando colheu um erro nas Memórias de Tolstói, que diz ser espanhol o escritor francês Lesage. Mas não fica só nisso; aproveita para externar seu estranhamento: “O que não compreendo, entretanto, é como Raquel de Queiroz, que traduziu para o editor José Olympio as memórias do genial russo, tenha deixado de comentar, em nota ao pé da página, um semelhante lapso”.

Por fim, impossível não aprender com inigualável prazer, diante de períodos como este:

O indianismo melancólico, romântico de Gonçalves Dias, lembra o inconsolável Chateaubriand, do mesmo modo que os romances de Alencar possuem o lirismo do solitário de Saint-Malo e o poder descritivo de James Fenimore Cooper. No amargor, tédio e pessimismo de Álvares de Azevedo, sentimos a “dúvida desesperadora” de Byron. Em Castro Alves, na sonoridade de seus versos, na grandiloqüência das suas metáforas, deparamos a força verbal de Hugo. Machado de Assis imita Sterne no Brás Cubas e Júlio Ribeiro adota os processos naturalistas de Zola, enquanto Coelho Neto queria ser grego e Tobias Barreto, alemão...

Que fazer com Fernando? Criticá-lo, prendê-lo ou açoitá-lo porque com 30 anos já demonstrava essa combinação tão rara de erudição com excelência no manuseio da pena? Vamos condená-lo pela magnífica crônica “Livros Brasileiros de Viagens”, em que desenha painel conciso e analítico das obras escritas por brasileiros célebres em suas andanças pelo exterior? Ou faremos como Euclides de Castro Carvalho, ex-deputado estadual do PSP, que foi, furibundo, bater às portas da Gazeta para reclamar com Américo Bologna que seu próprio (e mediocríssimo) livro de viagens não havia sido incluído na lista de Fernando? E o que dizer da extraordinária lista coligida pelo autor, em “Amor à Burocracia”, dando nome às dezenas de poetas e escritores que só não pereceram de inanição porque conseguiram um emprego público, que em nada lhes acrescentava à carreira, à obra ou ao espírito, e no entanto pagava seus vícios e a alimentação deles e de suas famílias?

Água da Fonte e Sandálias de Cristo são livros de apelo eterno. Quantos expoentes de nossas letras não renegaram seus trabalhos primogênitos? As crônicas de Fernando para a Gazeta (e ocasionalmente para o Jornal de Notícias) são exemplo raro de esforços da juventude que o literato pode compulsar, na maturidade e se orgulhar. Permanecerão entre nós daqui a 100 anos. Sua sinceridade intelectual e literária, o amor pelos livros e pela cultura, a necessidade altruísta de compartilhar o conhecimento, todas esses traços da personalidade de Fernando jamais se alteraram.



“A Parvolândia”, segundo Fernando Jorge, “é uma terra imensa, sem limites, super-povoada, a maior, talvez, do universo”. Mas nos escritos do mestre petropolitano, temos a fábrica da resistência, uma trincheira que ele não cessa de fortificar, um porto seguro para todos aqueles que não podem viver sem o convívio e o cultivo maravilhoso e excelso dos livros.

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