segunda-feira, 2 de maio de 2011

José Renato Pécora (1926/2011), fundador do Teatro de Arena

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José Renato Pécora
Meus caros,
na madrugada de hoje (02/05/2011) morreu o fundador do Teatro de Arena, José Renato Pécora. Ele era paulistano, nascido em 1926, e foi, sem qualquer exagero, um dos maiores diretores de teatro de nossa história. Começou num grupo amador que montou com os amigos no Clube Pinheiros, em 1948, e logo em seguida se matriculou na primeiríssima turma da recém-criada EAD, Escola de Artes Dramáticas da USP, sob direção de Alfredo Mesquita e contando com professores do gabarito de Décio de Almeida Prado e Vera Janacopos. Em 1949 a EAD fez uma excursão ao Recife e em uma das apresentações, José Renato organizou as cadeiras do Teatro Princesa Isabel formando involuntariamente uma arena. De volta a São Paulo, Décio de Almeida Prado deu ao pupilo o livro Theater in the Round, de Margot Jones, sobre suas experiências pioneiras com o Teatro de Arena. Demoraria algum tempo, entretanto, até que Renato voltasse ao tema.

Diplomado ator com especialização em direção, em 1950, José Renato foi convidado para dirigir um grupo no SESC. Quando o patrocínio da entidade escasseou, um ou dois anos depois, ele chamou Geraldo Mateus, seu companheiro de EAD, a esposa deste, Monah Delacy, e com eles montou a primeira companhia permanente do Teatro de Arena. O espaço encontrado foi em uma das salas do Museu de Arte Moderna, que funcionava no prédio dos Diários Associados, na rua 7 de abril. Com a cara e a coragem, enfrentaram uma turnê carioca, na qual montaram espetáculos utilizando pouquíssimos recursos, e compensando a pobreza da produção com a qualidade extrema do elenco, que trazia nomes como Sérgio Britto, John Herbert e Eva Wilma. Quase sem querer, atraíram a atenção do então presidente Café Filho, que os convidou para uma apresentação no Palácio do Catete. A performance para o presidente teve uma repercussão positiva nos meios teatrais de São Paulo, e quando aqui chegaram, voltando da turnê, receberam apoio financeiro do engenheiro e ator Sérgio Sampaio e de Emílio Fontana, na época dono de uma fábrica de refletores.


"Uma Mulher e Três Palhaços" de Marcel Achard, no Catete,
tendo o presidente Café Filho na platéia.
Em pé sobre o cavalete, Eva Wilma.
Foi então que a companhia se transferiu para o modesto cubículo da Teodoro Bayma e se fundiu com um grupo amador que procurava sede para apresentar suas peças, o Teatro Paulista do Estudante, liderado por dois jovens talentosíssimos que traziam a arte no sangue: Oduvaldo Vianna Filho, cujo pai era um dos maiores dramaturgos do país, e Gianfrancesco Guarnieri, filho do afamado e respeitado maestro Edoardo de Guarnieri. Eventualmente, o Arena e o TPE se fundiram e José Renato começou a ficar sobrecarregado com a direção dos espetáculos. Procurando alguém com quem pudesse dividir o fardo das direções do grupo, acatou a sugestão de Sábato Magaldi, que lhe indicou um rapaz que acabava de voltar de um curso de direção com John Gassner, nos Estados Unidos: Augusto Boal.


José Renato, em depoimento a Bel Teixeira sobre a fundação do Teatro de Arena em 2004

O resto é história; vieram Ratos e Homens, de Steinbeck, direção de Boal, Eles não usam Black-Tie, de Guarnieri, direção de José Renato, Chapetuba Futebol Clube, de Vianinha, direção de Boal, e tantas outras. José Renato passou um ano na Europa fazendo um curso com Jean Villar e retornou a tempo de dirigir Revolução na América do Sul, escrita por Boal, Geni Marcondes e Chico de Assis, e considerada pioneira do teatro político musical que o próprio Arena viria a consagrar anos depois.


Já no TNC, em 1961, José Renato dirige a primeira montagem de "Boca de Ouro", de Nelson Rodrigues, com Milton Moraes no papel título (na foto, junto à Vanda Lacerda). De cara, ganha o Prêmio da Associação de Críticos do Rio de Janeiro

Mas José sentia que sua colaboração ao Teatro de Arena já havia sido dada. Em 61 ele aceitou o convite para dirigir o Teatro Nacional de Comédia, no Rio, e se despediu do Arena, deixando estruturada sua última idéia para o grupo, a montagem de A Mandrágora, que acabou dirigida por Boal. No TNC ele seguiu a proposta nacionalista que se iniciara no Arena e montou autores brasileiros tão díspares quanto Arthur Azevedo e Nelson Rodrigues, encenando também peças de Antônio Callado e Dias Gomes. Quando veio o golpe de 1964 José Renato estava no Uruguai com o TNC, dirigindo A Invasão, de Dias Gomes. Desfeito o TNC ele foi estudar no Paraná e de lá só saiu para dirigir a peça inaugural do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, onde mais uma vez se superou, com a antológica montagem da Ópera dos Três Vinténs de Brecht, no fim de 1964. De volta ao Paraná assumiu a direção do TCP, Teatro de Comédia do Paraná, onde trabalhou durante dois anos, até que foi convidado a dirigir a divisão cultural da Sala Cecília Meirelles. Em 1970 tornou-se professor de direção teatral da FEFIERJ.

José e Vianinha na década de 50: parceiros e amigos
até a morte prematura de Vianna, em 74
A década de 70, longe de representar uma época de marasmo ou de ressaca criativa, foi o período em que José Renato dirigiu seus maiores espetáculos e tornou-se, junto a Fernando Peixoto, o diretor mais prolífico e marcante dos anos de chumbo. Em 1972 foi diretor do mega-sucesso (e mais tarde longa-metragem) Um Edifício Chamado 200, que escreveu em parceria com Paulo Pontes e Milton Moraes. Em 1973 teve seu último encontro com Vianinha, dirigindo a estréia de Alegro Desbum, espetáculo de Vianna e Armando Costa. Pé-quente em tudo que fez, dirigiu, em 1979, Baixa Sociedade, vitoriosa estréia de Juca de Oliveira como dramaturgo. Paradoxalmente, no mesmo ano, depois de longa batalha empreendida por ele, pela liberação do texto, José Renato dirigiu Rasga Coração, espetáculo que Vianinha morreu escrevendo, e que não chegou a terminar completamente. No início da nova década, em 1982, dirige Motel Paradiso, segundo texto escrito por Juca de Oliveira.

Com Eva e José Renato no Teatro dos Arcos, em 2005

José Renato nunca parou de trabalhar. Pelo contrário. Gostava daqueles desafios que poucos teriam coragem de enfrentar. Quando não estava dirigindo em produções isoladas, tomava para si atribuições hercúleas como a direção e a manutenção do minúsculo e recôndito Teatro dos Arcos, no centro de São Paulo. No início deste ano recebeu o convite de Eduardo Tolentino, diretor do Grupo Tapa, para voltar a atuar - depois de 56 anos apenas como diretor teatral - na produção de 12 Homens e uma Sentença, de Reginald Rose. O velho diretor aceitou e brilhou nos palcos paulistanos de fevereiro até ontem, quando concluiu sua performance dominical, foi tranqüilo para casa e morreu, de madrugada. Em homenagem a esse grande mestre trago a vocês a excelente entrevista que ele deu ao Serviço Nacional de Teatro, SNT, em 29 de junho de 1977, tendo como entrevistadores os atores Milton Gonçalves e Beatriz Veiga, e o crítico Licínio Netto. Lê-lo será experiência infinitamente mais prazerosa e esclarecedora do que um pálido necrológio, que não pode transmitir nem a sombra de seu frondoso talento.

Não me furto de transcrever aqui, porém, um trecho dessa entrevista, onde José Renato fala sobre seu trabalho como professor de direção teatral, e, humilde como convém a um mestre, nos dá uma pérola que pode e deve ser uma oração perene para qualquer diretor:

Então, a minha contribuição no momento tem sido fazer com que os diretores, os jovens diretores, conscientizem a responsabilidade intelectual que tem para com o teatro. Procurem se aprofundar e saber o que querem dizer, realmente, através do seu espetáculo. É extremamente importante que cada um deles conscientize as idéias que pretendem passar para o público, através do seu espetáculo. Conscientize também que ninguém faz espetáculo para ser fechado numa sala, para si mesmo. Faz espetáculo para se comunicar, e só assim é que o teatro vive. Então, acho que na medida em que cada um deles adquira consciência de que a técnica é uma coisa que ele pode adquirir através do tempo, vem a consciência de que a responsabilidade intelectual é uma coisa que ele tem que adquirir nesse instante. A partir desse momento, essa consciência que se apodera dele não o pode abandonar em nenhum trabalho que ele faça. Esse trabalho pode dar a essa gente nova essa noção da importância intelectual do trabalho que ele exerce, a liderança intelectual que ele vai desempenhar, e que eu acho extremamente importante. Todo planejamento dos seus trabalhos tem de ser feito a partir dessa responsabilidade. É isso que eu procuro dar a cada um deles.

José Renato Pécora
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Clique nos thumbnails para ver a imagem maior:

Update em 12/11/2017 - Infelizmente tanto o ImageShak quanto o Photobucket parecem ter ido pro saco. Encontrarei um novo host para as imagens da entrevista ou farei a transcrição manualmente assim que tiver tempo. Peço desculpas pelo incômodo.

Bernardo

2 comentários:

  1. Uma perda lastimável para o teatro.

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  2. Como mostra o texto,a história de José Renato sempre foi marcada por grandes realizações.Por esse motivo sua vida será sempre uma grande lição.

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