quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Sobre a minissérie SOM E FÚRIA


O que se obtém da junção de uma série de TV canadense adaptada por um cineasta brasileiro, onde atores paulistanos de teatro são interpretados por cariocas que só trabalharam em novela? A minissérie de Fernando Meirelles, “Som e Fúria”.

Ver o comercial da minissérie foi suficiente para que eu não a assistisse. Ela veio, foi, e sua existência passou em brancas nuvens até que duas amigas me falaram bem da produção. Pelo respeito que tenho à opinião delas, e aproveitando que um filme foi feito a partir da minissérie, resolvi assistir. O resultado? Meu respeito pela opinião delas sofreu um baque violento.

“Som e Fúria” vem de uma série canadense chamada “Slings and arrows”. O título em inglês faz referência ao monólogo do “ser ou não ser”, de Hamlet, e o brasileiro se refere ao monólogo “a vida não é mais do que uma sombra ambulante”, de Macbeth. Na TV canadense, o formato era de série e teve três temporadas, cada uma com seis episódios. Fernando Meirelles adaptou as duas primeiras temporadas e fez uma minissérie de doze episódios. Vamos às razões de meu desgosto:

Em geral, acredito que a teledramaturgia brasileira está há alguns anos em um buraco do qual não consegue sair. Novelas, séries, minisséries, programas cômicos, programas dramáticos, nada tem qualidade. Produção nota dez. Criação nota zero. O outrora celebérrimo padrão Globo de qualidade já não existe mais e o que se faz na Globo pode muito bem ser comparado aos produtos de segunda feitos pela Record, Bandeirantes, SBT e Rede TV. Entretanto, a idéia de passar recibo de nossa própria falta de imaginação e ir buscar no Canadá o argumento para uma minissérie me entristece. Ainda creio que se é para fazer porcaria, que ela seja pelo menos brasileira.

“Slings and arrows” é sobre uma companhia estável de teatro na cidade fictícia de New Burbage. É, em tudo e por tudo, calcada nos ingleses Old Vic e RSC, que trabalham a um tempo com o governo e a iniciativa privada em temporadas anuais onde são levadas peças de Shakespeare e de outros dramaturgos clássicos. E é aí que começa o problema.
 
Ao transpor a história toda para São Paulo, Fernando Meirelles simplesmente ignorou o fato de que esse tipo de companhia não existe por aqui e desencadeou uma série interminável de incongruências. Não existe companhia de teatro clássico estável no nosso pobre Municipal. A Secretaria de Cultura é um órgão burocrático, inoperante, que mais parece uma repartição pública e seus fomentos ao teatro são poucos e pessimamente gerenciados, o que joga por terra, por inexistentes, os papéis de Dan Stulbach, Regina Casé, Haydée Bittecourt e todo aquele conselho esquisitíssimo de engravatados que lê O GLOBO em plena capital paulista e se reúne para decidir os destinos do teatro em São Paulo. Ver a executiva rica e gananciosa de Regina Casé em um stair master falando no celular ou recitando mantras motivacionais dentro de seu carro importado não têm rigorosamente NADA a ver com o nosso teatro. Tem, sim, com a realidade empresarial do teatro, do cinema e das artes na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas jamais caberia em São Paulo.


No mais, é natural para os atores ingleses fazerem o mesmo papel de Shakespeare mais de uma vez em suas carreiras. John Gielgud fez cinco Hamlets, quatro Lears, quatro Prósperos, Olivier fez dois Hamlets, dois Coriolanos, fez Iago e Othello, Mercúcio e Romeu, e assim por diante. Só que Andréa Beltrão dizendo que aquela era sua quarta montagem de Sonho de uma noite de verão ou Daniel Dantas fazendo seu “terceiro Macbeth” soa mais falso do que o “Bar Falstaff”, onde se reúne essa cultíssima classe teatral, em contraste com nossos pobres e desinformados atores, que provavelmente morrerão sem saber quem é Falstaff. É quase tão absurdo quanto um teatro de periferia chamado Sans Argent (“sem dinheiro”), piadinha que deve ter feito muito sucesso no Canadá, onde se fala francês e inglês, mas que no Brasil fica entre o incompreensível e o implausível. A figura do crítico teatral capaz de destruir carreiras com seus artigos já caiu em desuso até mesmo no hemisfério norte, e a regra pela qual um ator sindicalizado não trabalha nem um minuto após as cinco e meia da tarde é algo que o Brasil nunca viu, e muito menos os atores de teatro, que geralmente trabalham por prazer e até de graça. Há inúmeras outras bobagens desse tipo, como a agência de propaganda de Rodrigo Santoro, que anda de helicóptero mas ainda manda fax, ou os problemas de Andréa Beltrão com o Imposto de Renda, que é draconiano nos Estados Unidos e já levou milionários à cadeia, mas que no Brasil é um trâmite rápido e sem importância.

O segundo problema é a adaptação em si, do inglês para o português. Fernando Meirelles deve estar esquecendo-se de nosso idioma, porque traduziu de forma literal expressões que não têm paralelo em português, como deal with it, (que fazendo um trapézio idiomático, seria algo como um taxativo “acostumem-se com isso”) traduzido como “lidem com isso”; ou get back on that horse, talvez semelhante ao “dar a volta por cima” ou “voltar para o jogo”, traduzido como “montar esse cavalo”. Healing process, “processo de cura”, virou “processo de cicatrização” e Daniel de Oliveira tenta seduzir Maria Flor oferecendo-lhe nachos, que no Brasil não gozam de toda essa fama e só se conhecem pelo nome de “Doritos”. São tropeços inexplicáveis, porque poderiam ser adaptados para o português com a maior facilidade. O que não se perdoa é que Dan Stulbach chame Titus Andronicus de Titus Andrômedo ou Felipe Camargo repita três vezes Trólio e Créssida. Aí saímos do erro de adaptação para a ignorância pura e simples sobre a obra de Shakespeare, e sendo o bardo pedra angular da série, não teria sido ruim que roteiristas e elenco fizessem um intensivão sobre ele e suas peças.

O terceiro problema é trazer o enredo para São Paulo. À primeira vista, se a adaptação fosse melhor, ou, por outra, se fosse de fato uma adaptação, e não simplesmente uma tradução que só mudou nomes dos locais e de pessoas, não haveria qualquer problema em ambientar a série na capital paulista, que tem uma produção teatral respeitável. Mas para isso seria necessário um diretor que soubesse o que é esta cidade e parasse de mostrar o viaduto do Chá, o Anhangabaú, o Minhocão e todo o centro como se fossem lugares onde paulistanos perambulam tranqüilamente de madrugada, contemplativos e meditabundos, falando em celulares, sob as luzes de uma metrópole que vive à noite. No mundo real, Pedro Paulo Rangel teria seu celular roubado antes de ser atropelado. Equívoco horrendo cometido, aliás, à saciedade por outra minissérie recente, “Alice”, da HBO. Isso pode ser muito bonitinho para os turistas, mas é uma visão estupidamente glamourizada e totalmente inverídica. Tão inverídica quanto Maria Flor perguntar ao cobrador o tempo que demora para chegar ao Municipal, coisa que qualquer paulistano que pega ônibus, conhece o trânsito, e sobretudo ela, que já era atriz da companhia e fazia supostamente o mesmo percurso todos os dias, deveria saber.

Seria interessante também que Meirelles tivesse sido informado de que o atual prefeito baixou uma lei idiota e inútil que acabou com os outdoors, o que torna inverossímil a cena de Dan Stulbach olhando para uma enorme propaganda na lateral de um prédio. Da mesma forma, espero que algum dia as pessoas compreendam que em São Paulo ninguém diz “vamos dar um rolé", e sim “um rolê"; que a classe teatral paulistana é paupérrima e nunca teria dinheiro para happy hours diários em barzinhos chiques e descolados; e que se Andréa Beltrão um dia morar em São Paulo e colocar sua chave “debaixo do tapete”, arrisca-se a voltar no fim do dia e encontrar apenas uma clareira onde antes costumava estar sua casa. São Paulo não é Londres e aqui ninguém deixa chave em lugar nenhum, ninguém em sã consciência anda pelo centro de madrugada e muito menos falando no celular.

Acima de tudo, gostaria que Fernando Meirelles, que por sinal é paulistano, tivesse chamado pelo menos UM ator paulistano para trabalhar nessa série. O único é Dan Stulbach, que é coadjuvante (Paulo Betti é de Sorocaba e está há 30 anos fazendo novelas no Rio. Cecília Homem de Mello é de Amparo e pouco trabalhou como atriz, sendo produtora de elenco de Fernando Meirelles). Felipe Camargo é conhecido pelo carioquêsshhh puxadíssimo. Andréa Beltrão era o símbolo da “Armação Ilimitada”, dos surfistas e das praias cariocas, Regina Casé nem se fala, Maria Flor, Daniel Dantas, Pedro Paulo Rangel e assim por diante. Daniel de Oliveira é mineiro mas pelo tempo que passa no Rio já fala num híbrido de mineirês com o carioquês, situação idêntica à de Débora Falabella e Leonardo Miggiorin. Isso nos leva ao quarto problema: o elenco.

Felipe Camargo e Gilliard
Foram necessários 25 anos de carreira para que Felipe Camargo aprendesse a atuar um pouco. Continua sendo medíocre mas pelo menos deixou de ser aquele canastrão abominável, fanho e inexpressivo dos primeiros trabalhos que cometeu na TV, como “Anos Dourados” e “Roda de Fogo”. Seu Dante é passável e no decorrer da série até se torna simpático, mas não convence como um ex-ator shakespeariano. Não com aquela voz. E não com aquele cabelo. Nos flashbacks em que interpreta o malfadado Hamlet que acabou com sua carreira Camargo está parecendo o cantor Gilliard. Na atualidade, parece que um poodle desgrenhado caiu em sua cabeça e ele ainda não reparou. Esse detalhe realmente começa a incomodar depois de um tempo.

Andréa Beltrão é caso mais ou menos semelhante. Assisto-a desde “Armação Ilimitada” e, quase 30 anos depois, este é o primeiro trabalho dela em que me convence como boa atriz. Está muito bem na pseudo-diva chata e desequilibrada.

Maria Flor é um caso à parte. Trata-se de uma força da natureza. Ela é 100% carisma. Como atriz ainda mostra-se limitada, tem interpretado todos os seus personagens mais ou menos da mesma maneira doce e brejeira (e convenhamos aqui, a bem da justiça, que os papéis que lhe foram dados até hoje não são muito diferentes entre si), e no entanto sua presença vale cada episódio de que participou.


O mesmo se pode dizer das lamentáveis novelas em que esteve, dos filmes horrorosos que fez (com exceção de “Chega de Saudade” que é muito bom) e até dessa inqualificável bobagem que acaba de terminar, chamada “Aline”. Não há como classificá-la. Ela é puro carisma. Qualquer coisa que fizer será um prazer absoluto assisti-la.

Daniel de Oliveira, Débora Falabella e Leonardo Miggiorin não se sobressaem nem para o bem nem para o mal, mas vale dizer que Daniel como Hamlet é forçar demais a barra. Sei que o propósito da série é justamente o de mostrar os preconceitos enfrentados por um ator de novela que faz um clássico, mas essa seria realmente uma espécie de versão “Malhação” para o Hamlet. Quanto à Débora, é muito bonita mas seus trinta anos de idade tornaram sua Julieta um pouco madurinha demais.
Já Daniel Dantas como Macbeth é uma piada! Dantas, com sua eterna expressão de sonâmbulo alegre (que já lhe valeu uma comparação ao Mr. Bean), sua voz pastosa e sua dicção de bêbado, não seria jamais um Macbeth nem aqui nem na China. Sua escolha para interpretar um consumado ator de teatro para mim é incompreensível. Por que não chamar o maravilhoso Luís Melo - um ator de VERDADE e o melhor Macbeth brasileiro de todos os tempos - para esse papel, ao qual traria experiência e, a um tempo, desespero e humor?

Na parte positiva, Dan Stulbach mostra ótima veia cômica no seu Ricardo, Pedro Paulo Rangel empresta seu sólido talento ao fantasma Oliveira, mas quem rouba a cena é Cecília Homem de Mello, no papel da eficiente secretária e assistente Ana. Seu timing de comédia é esplêndido! Ela se desincumbe de todas as suas cenas com notável competência e protagoniza talvez os melhores momentos da produção.

Dan Stulbach, Pedro Paulo Rangel e Cecília Homem de Mello
Aqui vale outro parêntese: além de não ter priorizado atores paulistanos, Meirelles também não priorizou verdadeiros atores de teatro. Com exceção de Rangel, todo o elenco tem 99% de sua carreira na televisão e os que fizeram teatro aqui e ali não possuem qualquer trabalho que valha recordação. É uma pena. Um elenco de feras do teatro paulistano poderia ter elevado ao cubo a qualidade dramática da série.

O quinto e último problema é um que acaba anulando qualquer possibilidade de brilhantismo por parte do elenco: o roteiro. A idéia de uma companhia teatral que está tentando a duras penas montar um Hamlet e no meio do caminho são mostradas as alegrias e tristezas pessoais de toda a equipe envolvida não é de forma nenhuma original, mas se bem realizada pode render um trabalho interessante, como parece ter sido o caso da série canadense, bastante premiada. A fórmula derrapou feio por aqui, não apenas pela total falta de identidade da história com São Paulo e o nosso país, mas porque há momentos em que o texto peca pela baixa qualidade.

Os diálogos entre Maria Flor e Daniel de Oliveira são constrangedores, ridículos. O casal não empolga, a traminha da menina que é acusada de estar transando com o galãzinho televisivo famoso não convence e a própria noção de que o povo de teatro está se lixando para o que dizem sobre fulano estar transando com beltrana dentro de um elenco é de um puritanismo patético. O desfecho, em que ela abandona a possibilidade de fazer Julieta para acompanhar o menino em seu próximo trabalho na TV, é ainda pior; ela pretendia ficar e é convencida a ir embora com 5 minutos de um papinho furado de Andréa Beltrão, que a chama pelo mimoso apelido de “sua merdinha” (o proverbial little shit, que pode até possuir uma conotação amigável em inglês, mas em português é apenas ofensivo).

Os seis últimos episódios (segunda temporada da série canadense) têm menos equívocos na área dos diálogos. Erram talvez nas soluções piegas e improváveis, como da funcionária que é fã de Beltrão e recita versos shakespearianos em plena repartição da Receita Federal, o gayzinho que vira hetero pela intensidade do texto de Romeu e Julieta, e a transformação do outro diretor, que deixa de ser alternativo e esquisito. Aliás, esse personagem, o de “Oswald Thomas”, cretino e prepotente, sem a menor competência e sem o menor conhecimento de teatro, cuspindo idiotices em inglês e alemão – alusão direta, perfeita e irretocável a Gerald Thomas – é um dos pontos mais altos da minissérie.

“Som e Fúria” não foi ruim. Me pareceu mais um esforço na direção errada. Seria como montar uma minissérie sobre as agruras de uma Escola de Samba em Washington DC. Seu pecado principal está na base, e por isso acaba comprometendo todo o resto. Não dá a vontade de ver a terceira temporada da série canadense, onde o grupo monta o Rei Lear, e sim um desejo imenso de um dia assistir uma minissérie em que brasileiros vão falar sobre as alegrias e tristezas de um grupo de teatro autenticamente brasileiro. E se for em São Paulo, melhor ainda. A fauna teatral bandeirante é das mais ricas e daria material para uma série divertidíssima, que com toda a certeza faria rir e chorar.

2 comentários:

  1. Depois de você vi com outros olhos. Quando eu assisti a série, e eu assisti em tempo real, episódio por episódio, feito fã que fui, cheguei a comemorar o fato de a televisão brasileira ter abordado o Teatro como tema de uma minissérie. Nunca fui entendido no assunto, também pudera, moro em Uberaba, Minas Gerais, uma cidade que quando o Grupo Galpão vem se apresentar os prestigia com meia dúzia de gatos pingados, onde os poucos grupos existentes cobram uma fortuna por aulas ‘teatrinho de escola’. Aliás, eu mesmo faço teatro na minha ex-escola, uma forma de me preparar para a prova da EAD que está por vir. Pouco conheço sobre a dramaturgia brasileira e mundial, o sonho de ser ator nasceu tem pouco tempo e a idéia vive de teatro sempre me assustou um pouco. Como espectador ignorante do mundo teatral, asseguro: a minissérie, talvez por sua produção – é o que você me faz pensar agora -, encanta. Embora deva tomar cuidado ao empregar encanto numa produção televisiva. Talvez meu lado sonhador tenha se deixado levar, por desconhecer outras maneiras, pela mágica do que provavelmente é ser ator. Mas no fim o que eu vi mesmo pode ter sido só mais uma ‘encantadora produção televisava’. Obrigado.

    Ps.: a Maria Flor pode mesmo ser tão carismática, mas não há carisma que salve Aline.

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  2. Tive que rir. Você tem mão de ferro. Até entendo as tuas amigas.
    Vejo pouco televisão e acho tudo deplorável. Como moro numa cidade pequena, atualmente tenho ido pouco ao cinema, teatro então.. nem pensar, assim sendo, quando aparece alguma coisa que se destaca na medíocre programação global, a gente se enche de esperanças. É claro que quando se descasca o abacaxi ele pode estar podre em algumas partes, ou podre inteiro, mas vale lembrar - sem querer nivelar por baixo - que em tempos de Macho Man com Jorge Fernando e Marisa Orth, está que nunca deveria ter saído da banda Vexame, Som e Fúria é quase um milagre. Mas tua crítica especializada tem total fundamento.

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