quarta-feira, 28 de julho de 2010

Seu Glaucus e as tardes ensolaradas do Taboão

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Com Seu Glaucus, em 1999
O ano era 1999. Eu estava começando minha pesquisa sobre Jânio e devo ter encontrado Glaucus Quadros através da lista telefônica, bendita antigüidade que tanto me ajudou quando iniciei esse trabalho. Meus métodos não eram nada ortodoxos; a família de Jânio era espinheiro tão impenetrável que eu não me furtei de pegar a lista no sobrenome Quadros e liguei para cada um na esperança de encontrar alguma coisa. Para minha extraordinária surpresa, não eram poucos os assinantes que possuíam esta ou aquela ligação familiar com Jânio. A maioria era de jovens, netos do primo, filhos do primo do tio, e assim por diante, e me recomendavam a seus pais ou avós. Seu Glaucus foi um dos poucos velhos que atendeu, e atendeu com a lhanura e a humildade que lhe eram peculiares. Disse-me que era primo de Jânio em 1° grau, mas não tivera grande convivência com ele, razão pela qual não sabia se poderia me ajudar. Eu, completamente cru, num mato sem cachorro, entrevistava quem me aparecesse, haurindo nas entrevistas aquilo que nem um único livro trazia (ou traz) sobre sua família. Marcamos a entrevista para um fim de tarde e lá fui eu para o Taboão da Serra.

O trecho onde morava Seu Glaucus era aconchegante. Uma área residencial pacata, e a casa dele ficava numa ladeira. Quando cheguei lá, numa tarde morna e ensolarada, vi que ele me esperava na porta. Era um velhinho simples, modesto, não tinha qualquer semelhança com Jânio, e me recebeu com absoluta naturalidade. Convidou-me a entrar, e logo no corredor, eis que vejo uma cena enigmática: havia um piano em cima de uma mesa. Ele não esperou nem que eu perguntasse. Apontou para uma mancha na parede, de mais ou menos 1 metro de altura, e explicou: “Quase perdemos o piano em uma das enchentes aqui do bairro. Nesta última foi só o que se pôde fazer para salvá-lo”. Passamos o resto da tarde e a noite proseando. Deu-me informações preciosas sobre a família, contou-me suas lembranças pessoais de Jânio desde os anos 40, quando veio pela primeira vez de Ponta Grossa – onde morava – para São Paulo, até o último encontro deles, já nos anos 80. Falou de seu velho pai Miguel, da admiração pelo irmão médico Jacyr, do controverso Gabriel Quadros, pai de Jânio, de alegrias, tragédias, fatos cômicos, histórias sensacionais do Jânio-intramuros que ninguém conhece, e de tantas e tantas coisas que revelarei no livro que será publicado nos próximos meses.

Miguel Quadros

Eu me sentia numa casa de campo. O Taboão era um sossego total. Na sala com móveis de uma simplicidade quase rústica, ouvíamos os grilos e tomávamos café com sequilhos. Eu aqui e ali pegava um Hilton de seu Glaucus e ele pegava o meu Marlboro (marca que parei de fumar logo depois, influenciado pelos slims do Seu Glaucus). Dona Elizete, sua esposa, apareceu por um minuto apenas para ver se estava tudo bem e se retirou discretamente. Não víamos a hora passar, tal o prazer da conversa. Lá pelas dez horas eu avisei que tinha que ir embora, porque pegar um ônibus ali, àquela hora, não seria fácil. Ele pareceu lembrar: “Puxa... não te ofereci nada... jante aqui conosco”. Agradeci imensamente, mas tive que sair correndo pelo adiantado da hora. Mas marcamos nova conversa para breve. Dali a alguns meses, voltei ao Taboão. O sol brilhava, a temperatura começou a baixar e no fim da tarde uma garoa fria começou a cair. Seu Glaucus me aguardava na porta, novamente, já acendendo seu cigarro. “Acabei de passar o café”, me disse, contente. Havia adorado nossa boca de pito do outro dia e preparou-se para mais esta. Beberiquei o café, delicioso, tirei o maço de Marlboro do bolso e ele imediatamente atalhou: “Comprei um maço de Hilton só para esta conversa”.

Mais um maravilhoso mergulho no passado. Avós de Jânio, Curitiba, Piraquara, Rio Grande, Paulo de Frontin, Cacequi. Lembranças de tios, figuras maiores e menores, tertúlias, brigas, picuinhas, primos terçando bengalas, inimizades sendo levadas ao túmulo, assassinatos, nobreza e saudade. "Jânio cresceu num ambiente político de apadrinhamento e de nepostismo tão profundos", disse-me ele, aludindo às conhecidas práticas de Getúlio e Adhemar, testemunhadas por Jânio na época da faculdade e por toda a década de 40, "que fazia questão de manter a família longe, de forma que não procure parentes que vão te dar esta ou aquela informação sobre as atitudes dele no governo. Não existem". Perguntei-lhe de fotos da família. “Perdi 99% nas enchentes”, disse-me desolado. Aqui e ali ele ilustrava uma história imitando a voz com que Jânio dizia alguma coisa e nós ríamos. E as horas passavam. As tardes de sol brilhante e as noites frias e garoentas do Taboão, fumando, proseando e tomando café com Seu Glaucus foram meu refrigério nesse início de pesquisa, tão árduo e tão complicado. Enquanto portas menores e insignificantes se fechavam sumariamente para mim naquele momento, por eu ser um ninguém e não ter nada publicado, a casa de Seu Glaucus esteve sempre aberta, era um verdadeiro oásis, onde a tônica era a simplicidade e a gentileza. Ele estava sempre de bom humor. Não alterava a voz jamais. Era um cavalheiro em tudo.

Jânio, na juventude
Quando não o via pessoalmente, falávamos no telefone. Não importa a dúvida que surgisse sobre a juventude de Jânio, o primeiro para quem eu ligava era Seu Glaucus. Eram horas de conversa, esmiuçando fatos, detalhes, hipóteses e teorias – só Deus sabe o quanto esse apego de Seu Glaucus por nomes e datas foi benéfico e fundamental para mim – e só desligávamos quando a dúvida estivesse esclarecida. Lembro-me dele interrompendo a conversa, por um momento, e voltando em seguida. “Algum problema, Seu Glaucus?” “Não”, disse-me ele. “A Lizete estava olhando e me perguntou se era nosso filho no telefone, porque só com ele eu falo com essa intimidade”.

Mal sabia eu que vivíamos ali o fim de sua alegria plena. Passei tempos sem vê-lo, na correria dos meus trabalhos que exigiam muito e pagavam pouco, como sempre. Um dia me deu saudade e telefonei para ele. Outra pessoa atendeu. Disse-me que Seu Glaucus mudara-se para o interior, para viver com o filho. Por sorte, tinha o telefone de contato. Liguei. Seu Glaucus atendeu, com a mesma tranqüilidade, mas com a voz grave e melancólica. Verdadeira tragédia se havia abatido sobre ele. Perdera sua esposa e ao mesmo tempo desenvolveu um mal incurável que o fez perder a visão. Não se entregara, entretanto. Era lhano e doce por fora, mas um guerreiro de extraordinária fibra, por dentro. Mantinha a simpatia, não se deixava levar pela depressão ou pela tristeza de tanta desgraça. Ligava para ele de vez em quando, sempre prometendo uma visita para breve.

Em 2008, ouvindo as várias fitas que gravei de nossas conversas e com 200 ou 300 páginas já escritas sobre a juventude de Jânio, tropecei em um problemão: determinado trecho fundamental de nossa conversa ficou, por alguma razão, inaudível. Peguei o telefone e liguei para Seu Glaucus. Ficamos uma hora ao telefone. Ele me dirimiu a dúvida da gravação e muitas outras. Eu dizia, entusiasmado: “Seu Glaucus, descobri a data de nascimento de fulano, e data de morte de beltrano!” Ele respondia “que beleza, que ótimo, sabia que você ia encontrar”. No fim de nossa conversa, veio aquele sexto sentido. Falei-lhe, abertamente: “Seu Glaucus, sem o senhor este livro não existiria. O senhor não tem idéia do quanto a sua ajuda foi valiosa, e do quanto lhe sou agradecido por tantas gentilezas e tanta boa vontade”. Ele respondeu, com um sorriso na voz: “Que bom... espero que você me traga uma cópia quando ele estiver pronto, e leia para mim”. Há dias liguei novamente. Fui informado que ele morreu em abril, aos 83 anos.

Sei que quando trabalhamos com pessoas idosas, como é meu caso, nesta área de pesquisa histórica, temos que estar preparados para o inevitável. Mas entre as mais de 130 pessoas que entrevistei para este livro, há algumas que atravessaram o limite da relação pesquisador-depoente e se tornaram amigos verdadeiramente queridos. Seu Glaucus era um deles. Desejei de coração, estes anos todos, que ele vivesse para ver o livro – que tanto incentivou, ajudou a preparar e do qual é praticamente co-autor – sobre Jânio publicado. Não foi possível. Mas seu nome estará lá, em primeiro lugar, e sua memória será festejada, como ele merece.

A mente funciona de maneira curiosa. Por alguma razão, quando soube da morte de Seu Glaucus, esta foi a primeira coisa que me veio à cabeça, e não poderia descrever melhor o que senti:

"Now cracks a noble heart. Good night, sweet prince, and flights of angels sing thee to thy rest!"

2 comentários:

  1. Belo texto. Fiquei muito tocada.
    Beijos

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  2. Quão árduo é o trabalho de um historiador, mas, tudo o que é feito com amor e dedicação mostra bons resultados. No seu caso foram ótimos. Você é um mestre da descrição. Fiquei de olhos marejados pelo senhor Glauco que curiosamente também morou em Taboão. Sucesso!

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