segunda-feira, 26 de julho de 2010

Morena Baccarin


Quando, de uma hora para a outra, o Warner Channel começou a veicular incessantemente a vinheta anunciando a estréia da série “V”, três coisas me chamaram a atenção. A primeira não era novidade: a repetição detestável do mesmo anúncio vinte vezes por hora. O Warner Channel, aliás, é aquele canal que parece estar sempre em intervalo comercial. A segunda foi uma luz que se acendeu no fundo de minha memória, naquele lugar onde despejamos as lembranças descartáveis, e me trouxe de volta uma minissérie que a Globo, se não me engano, transmitiu no início dos anos 80, cujo highlight eram as cenas (ridículas e mal-feitas, e que mesmo assim me apavoravam) em que os extraterrestres comiam ratos e outros desditosos roedores e marsupiais com inusitado apetite. E a terceira foi o close no rosto de uma moça de cabelo curtinho e expressão simpática que dizia “we’re of peace, always”.

Curioso para ver o que a modernidade faria com aquele símbolo trash dos anos 80, uma espécie de “anti-ET”, onde os alienígenas não são bonitinhos e bonzinhos, e sim répteis malvados, e não conseguindo compreender o porquê de se ressuscitar algo tão datado, resolvi assistir a estréia. O elenco é medíocre e o roteiro é bobo, os efeitos especiais são bons e a narrativa é ágil e dinâmica. Em suma, é exatamente o que se vê em 9 entre 10 enlatados dramáticos como Supernatural, Vampire Diaries e Lost. E assim como faço com esses, eu também pretendia ignorar V se a série não contasse com um trunfo inigualável sobre os outros: a personagem Anna, líder do ETs, aquela do cabelo curto que dizia “we’re of peace, always” em close.

Já no segundo episódio só o que consegui ver foi Anna, em meio à trama que se desenrola, e através da qual se vai compreendendo que os alienígenas na verdade são perversos e pretendem dominar a Terra. Havia algo estranho; Anna era curvilínea, cintura fina, sensual, gostosa, enfim, não podia ser americana. Talvez mexicana ou porto-riquenha. No fim não resisti e resolvi googlar a moça, para saber se ela já era famosa na Tv americana, ou pelo menos conhecida, já que V, além de requentar a insípida Elizabeth Mitchell, que vem do elenco de Lost, ainda reavivou a carreira do Scott Wolf, que não emplacava um sucesso desde o fim de Party of Five, há dez anos. Descobri que a moça tem 30 anos e vem fazendo coadjuvâncias esquecíveis desde 2001. Situação idêntica à de milhares de aspirantes ao sucesso na Tv e no cinema. O que eu não esperava era descobrir que Anna na verdade se chama Morena Baccarin e é carioca.


No passado recente:
cabelo de crente e cara de bolacha

Nos episódios seguintes, comprovei aquilo que vinha se tornando mais e mais óbvio: poucas vezes houve caso de amor tão flagrante entre a câmera e uma atriz, como ocorre com Morena. Não via isso desde 2001, quando Kristin Kreuk apareceu pela primeira vez em Smalville. Kristin, porém, já veio pronta. Em relação à Morena a coisa não foi tão fácil. Anos se burilando foram necessários para que a menina esquisita com cabelo de crente e cara de bolacha se transformasse nessa maravilha. Hoje, com o estupendo cabelo-joãozinho que lhe cai como luva (e que já vem cultivando há algum tempo), ela encontrou a perfeição para seu visual televisivo ou cinematográfico. E a personagem Anna é o veículo ideal para isso. Ao contrário da original, que me recordo como sendo uma megera, durona e repulsiva, a Anna de Morena é equilibrada e comedida sem ser estática, tem um sorriso de Monalisa determinado e ao mesmo tempo irônico, e os olhos mais maravilhosos e expressivos que a Tv já viu nos últimos anos.

A Anna de Morena, e seu perene (e irresistível) sorriso de Monalisa

Em entrevista a atriz afirmou que se inspirou na atitude dos políticos para compor a personagem. Acertou em cheio. A exemplo da maioria dos políticos, ela é agradável por fora e acanalhada por dentro. Só que a podridão interior de um político é tanta que não raro ele trai seu caráter verdadeiro, deixando refletir no sorriso a imundície de sua alma. Anna é pior, porque é uma vilã implacável, sádica e monstruosa, ao mesmo tempo em que encanta e atrai a cada esgar, a cada fala, a cada cena. Sua dissimulação é sedutora. Suas mentiras são hipnóticas (o que vem a calhar na hora do tal “Bliss”, com que manipula seus súditos). Ela é uma predadora perfeita, porque magnetiza, seduz e atrai, afetando uma vulnerabilidade que é tão adorável quanto falsa. A série se ilumina toda vez que a vemos entrando com seu cabelo-joãozinho, os vestidos justos ou os terninhos executivos impecáveis que só fazem ressaltar sua beleza e elevar ao cubo sua feminilidade. Outra decisão acertada, por incrível que pareça, foi Christopher Shyer no papel do braço direito Marcus. Fugiu-se à escolha previsível de um boneco inflável, um desses modelinhos de merda que infestam a TV americana, e optou-se por um sujeito mais velho, com a cara passada a ferro e o cabelo acaju. É um factótum crível, o proverbial papagaio de pirata, remetendo àquelas bichas velhas que vivem para pajear grandes atrizes. A relação de Anna com o jornalista Chad, de Scott Wolf, no limiar do oportunismo e da sedução, também agrada e vem na medida certa.

Anna não exige grandes profundidades dramáticas e interpretativas de uma atriz, mas também não se escora unicamente no carisma da vilã bonita e malvada. Morena transmite um milhão de intenções com o mais leve levantar de sobrancelhas e na mais tênue alteração de seu sorriso. Da mesma forma, não precisou quase nunca mudar o tom de sua voz, sempre suave e diplomático. No episódio doze, entretanto, provou que é mais do que uma mulher com extraordinário dom para ter o rosto mostrado em close; sua expressão de horror, suas lágrimas e o ataque histérico que tem quando descobre que os fetos de seu exército foram destruídos – a primeira vez que sucumbe à uma emoção humana – é arrepiante. Gritou e chorou de forma convincente, sem as caretas da deplorável (e lindíssima) Laura Vandervoort, ou as limitações (por conta do botox) de Elizabeth Mitchell.

Morena Baccarin é o corpo, o coração e a alma dessa série. Vale a pena assistir V simplesmente para apreciar seu ardente caso de amor com a câmera. Se não fizer mais nada, já deixou sua marca nos anais da Tv. Se tem talento para transcender o presente que foi o papel de Anna em sua vida, não se sabe. Tomara que tenha.

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