Conta o mestre Fernando Jorge que na década de 40, causavam sensação as palestras que o crítico literário Agrippino Grieco realizava em parceria com seu amigo, o poeta Salomão Jorge, pai de Fernando. Agrippino começara sozinho, vendendo por sua conta os ingressos. O trabalho, estóico mas ineficaz, não rendia nada, e Agrippino acabava sempre ganhando uma ninharia por suas palestras, que versavam sobre literatura. Quando soube disso, o astuto Salomão lhe propôs uma sociedade: cuidaria da parte comercial, vendendo as palestras para prefeituras de cidades do interior que possuíssem alguma verba cultural ociosa, para que nenhum dos dois precisasse se preocupar com venda de ingressos, e o poeta passava a fazer parte do pacote, palestrando antes de Agrippino, sobre poesia. O crítico topou a parada e os dois saíram pelo interior de São Paulo promovendo discussões literárias. Falavam em teatros, prefeituras, clubes e escolas, para os mais variados tipos de assistência.
Encontravam revezes em alguns lugares. Determinado prefeito recebeu-os com cordialidade, mas abriu seus livros e lamentou o curioso fato de que a única verba que possuía no momento era para o caso de ter que decretar estado de calamidade pública. O que se mostrava um poderoso impedimento para o prefeito não pareceu incomodar muito o ácido crítico e o poeta descendente de sírios:
— Então faremos a palestra com a verba para calamidade pública! É bem a propósito, inclusive — disse Agrippino, resoluto. — Podemos até discorrer sobre o assunto, se for necessário... — acrescentou Salomão, solícito.
O quiromante Sana Khan
O folclórico quiromante Sana Khan (lembrado até hoje pela estrambótica profecia sobre a carreira política de Jânio Quadros), vendo nisso uma oportunidade de aparecer, e visando os cobres que a dupla de literatos amealhava em suas palestras pelo interior paulista, resolveu procurar Salomão Jorge e pediu-lhe a permissão para viajar junto com eles. Disse que falaria pouco, e que apenas colocaria seus dotes de quiromante à disposição do público, lendo mãos e respondendo perguntas. Salomão consultou Agrippino, que abominava o adivinho:
— Salomão, não convide este impostor para participar de nossas conferências, senão vamos ficar desmoralizados! Ele não passa de um intrujão, um parlapatão! Ele só quer ganhar dinheiro às nossas custas!
Não adiantou. O poeta conseguiu convencê-lo de que a presença de Sana Khan adicionaria um toque metafísico às conferências, e que a procura por elas poderia aumentar. Agrippino aceitou, de muita má-vontade, mas advertiu o amigo:
— Tome cuidado. Depois de apertar a mão dele, conte os dedos!
Certa vez, Salomão providenciou uma palestra em uma cidade cuja maior colônia estrangeira era de sírios-libaneses. Muito bem-pago pelos endinheirados comerciantes e também pertencente à colônia, o poeta preparou com denodo o discurso de abertura da conferência, que precederia seu costumeiro arrazoado sobre poesia. Começou, num tom candente e emocionado:
— Meus amigos! A França deu Voltaire, Victor Hugo, Balzac!...A Itália deu Carducci, Dannunzio, Dante Alighieri!...
Agrippino, que se encontrava do lado de fora da sala onde a palestra era pronunciada, aguardando sua vez, ouviu as últimas palavras de Salomão e decidiu escutá-lo. As frases do poeta iam num crescendo que envolvia o público:
— A Espanha deu Cervantes, Unamuno!...A Inglaterra deu Shakespeare! Os Estados Unidos, Lincoln!
Os sírios prestavam absoluta atenção nas palavras de Salomão. Estavam de olhos pregados no poeta. Agrippino começou a ficar tenso. A oração de Salomão parecia não chegar a lugar algum. O crítico olhava o público, que fitava o orador, e olhava o orador, que prosseguia inabalável em suas colocações:
— O Brasil nos deu Castro Alves, Ruy Barbosa!...
Alguns presentes sorriram, assentindo à escolha acertada dos nomes ilustres da pátria que os acolhera. Mas Salomão não havia terminado. De sopetão, lançou aos presentes esta pergunta:
— E a Síria? Que grande homem deu a Síria?
Agrippino começou a tremer. Em sua imensa cultura, desdobrava-se mentalmente mas não conseguia sequer imaginar qualquer personagem célebre que tivesse saído da Síria. O público assistia Salomão com os olhos vidrados, não apenas absorto por sua brilhante oratória, mas agora esperando ansiosamente sua peroração, que veio em seguida, cheia de suspense:
Salomão Jorge, na caricatura de Aldemir
— A Síria deu o maior de todos os homens! Maior do que Victor Hugo, maior do que Dante, maior do que Shakespeare, maior do que Ruy Barbosa!
Agrippino já não olhava mais. Procurava prender a respiração, para frear a batedeira de seu coração. Sabia que uma única idéia mal-interpretada sobre o amado país de origem de 99% dos presentes seria o suficiente para que os dois fossem linchados. Por fim, Salomão concluiu:
— A Síria deu, meus amigos...Nosso Senhor Jesus Cristo!
Por um momento houve um silêncio monstruoso. O público ficou apatetado diante da afirmação bombástica do poeta. Agrippino permanecia inerte, olhando para baixo, suando em borbotões. Salomão permanecia de braços abertos, sorrindo, depois de declarar que Jesus era sírio. De repente se ouviu um aplauso tímido no fundo da sala. Depois outro, mais forte. Mais um, de alguém na frente, e outro, e outro, e em poucos segundos um estrondo maciço de palmas varreu o recinto. Os sírios levantaram-se para aplaudir Salomão com todas as suas forças, acompanhando as palmas com “bravos” e gritos de êxtase:
— Ooooohhhhhhhh....Aaaaahhhhhhhhh...
Do lado de fora, Agrippino quase enfartara. Despencou sobre uma cadeira e respirou aliviado, enxugando o suor. Logo depois entrou e pronunciou sua palestra, também fartamente aplaudida, e no fim Sana Khan divertiu a platéia lendo a mão dos presentes. Na saída, um sírio se aproximou de Agrippino. Ainda estarrecido com a revelação do poeta, perguntou:
— Doutor Agrippino, é verdade, como disse o doutor Salomão, que Jesus Cristo era sírio? — Bem, bem, meu amigo — respondeu Agrippino com sua magnífica comicidade — isso eu não posso afirmar com toda a certeza. Mas aqueles dois que morreram ao lado Dele, na cruz, não resta dúvida de que eram sírios!
Jânio Quadros, depois da renúncia, tornou-se freqüentador assíduo da suntuosa mansão do empresário Wilson Moreira da Costa na avenida Brasil, em São Paulo. Em uma dessas ocasiões, em meio a contínuas rodadas do melhor whisky escocês, perguntou ao senador Lino de Mattos, que o acompanhava:
– Lino, você já leu os livros do Wilson, Coração, Sexo e Cérebro e A Filha do Boticário? – referindo-se aos dois livros de Wilson, na verdade escritos por Fernando Jorge, segredo, na época, guardado a sete chaves. – Não, não li. – respondeu Lino. – Então leia. Eu creio que você vai gostar. Sei que você é político, não gosta muito de ler obras de ficção, de romance, mas leia. Leia. Você vai gostar.
Não dispondo de cópias naquele momento, Wilson prometeu-as para breve. No meio tempo, foi à casa de Fernando Jorge, relatou-lhe o episódio e pediu que Fernando escrevesse a dedicatória em ambos os livros.
– Não, os livros são seus, Wilson... – Mas eu não sei escrever bonito, então por favor faça uma dedicatória bem amável para o senador.
O autor então escreveu as dedicatórias em nome de Wilson e os livros foram dados a Lino de Mattos. Dias depois, Fernando estava sozinho em sua casa. A esposa e os filhos haviam ido passar o fim de semana em Santos, no apartamento dos pais dela. Ele aproveitou para descansar. Chegara exausto depois de mais um dia de trabalho penoso e mal-pago como bibliotecário da Assembléia Legislativa, e dormia pesadamente quando escutou, lá pelas duas da manhã, uma barulheira na porta do sobrado onde morava. Acordou, estremunhado, olhou pela fresta da janela e viu um carro de luxo, parado.
– Fernando! Fernando! Fernando! Sou eu, Wilson!
O empresário estava na porta batendo palmas para acordá-lo. “O que será que aconteceu?”, pensou Fernando, descendo as escadas. Abriu a porta e recebeu Wilson, que foi logo falando:
– Fernando, aconteceu um fato sensacional! – O que é? – Estive com o Lino de Mattos até há pouco numa boate, tomando whisky, e ele me pediu um favor especial. Eu preciso atendê-lo, e vai depender de você. Eu preciso de você! Já!
Fernando conhecia os “favores especiais” de Wilson; o horário, porém, era pra lá de impróprio.
– Mas são quase três horas da madrugada... – Já! Já! – replicou Wilson, incisivo, sem dar a mínima para o fato de que arrancara Fernando de um sono profundo. – Mas o que é que ele quer? – O Lino de Mattos me disse que quer pronunciar hoje, às quatro, cinco horas da tarde, lá em Brasília, um discurso de Grande Expediente, para mostrar ao Brasil inteiro que ele, Lino de Mattos, é que é o verdadeiro senador da legalidade, e não o Auro Moura Andrade! – E daí? O que tem isso a ver comigo? – Fernando, ele está furioso, irritadíssimo com o Auro, porque o Auro anda se proclamando o senador da legalidade, dizendo que ele sempre pregou o retorno e a posse do João Goulart na presidência da República, mas quem fez isso primeiro, e sempre, constantemente, foi ele, Lino de Mattos, então ele quer pronunciar um discurso hoje, HOJE, pra mostrar ao Brasil inteiro, sem citar o nome do Auro, que ele, Lino de Mattos, é que é o senador da legalidade, e não o Auro. E lá na boate ele me deu um roteiro do discurso que ele quer. Por favor, comece a escrever.
Eis o tal favor, jogado a altas horas, de chofre, na cara de Fernando, que ainda tentou obtemperar:
– Mas, Wilson... eu estou cansado! Eu fui dormir tarde, tive um dia agitado lá na Assembléia... isso é coisa de louco, como é que eu vou escrever isso assim? – Não, não, você tem que fazer isso! Eu dei minha palavra a ele, e ele vai meio-dia lá no meu escritório, na José Bonifácio, pra apanhar o discurso, eu prometi a ele! – Ô Wilson, você é louco... como é que eu vou fazer um discurso de Grande Expediente? – Está tudo aqui – respondeu o empresário, determinado, exibindo seu bloco de anotações. – Os dados, eu tomei nota de tudo, comece a escrever, eu fico aqui. – Eu não posso, Wilson, eu estou muito cansado... – Mas eu prometi! Você não pode fazer isso comigo, por favor, eu dei minha palavra a ele! Eu vou ficar aqui! – Wilson, eu estou morto de sono!!! Meu cérebro não está funcionando bem, está tudo embaçado...
Percebendo que sua argumentação não estava funcionando, o empresário resolveu atacar por outra frente:
– Olhe.... eu sei que você, coitado, você é um lutador, inclusive você quer sair deste sobradinho aqui... – ao dizer isso, tirou a carteira do bolso, o talão de cheque, e escreveu um valor que seria hoje algo em torno de dez ou quinze mil reais. – Está aqui. Você me entregando amanhã, antes do meio-dia, vou te dar uma quantia igual.
O valor teve o condão de acordar Fernando, que olhou para o cheque, incrédulo:
– Wilson, eu não sei se vou fazer... mas... você está sendo muito generoso, isto aqui é um exagero... – Não, não, você merece. O discurso é de Grande Expediente, tem uma porção de dados aqui, olhe o que você tem que dizer. Tem que dar uma hora de discurso. Ele já está inscrito. Antes de ir pra Brasília ele vai meio-dia no meu escritório pegar o discurso.
Além de estar meio tonto por ter sido acordado no meio da madrugada, Fernando escrevia a mão, o que significava que o trabalho seria ainda mais difícil. Mas Wilson sabia o que estava fazendo; Fernando tinha mulher, dois filhos pequenos e um salário de miséria que não lhe permitia comprar quase nada. Sonhando com geladeira, televisão e demais eletrodomésticos, o escritor disse:
– Olha, Wilson, eu vou tentar, e se eu não conseguir eu devolvo o seu dinheiro, você não precisa me dar nada... – Não! Por favor! – gritou Wilson, desesperado – Olhe, por favor! Eu dei minha palavra! – Wilson, eu não quero explorar você. Se eu não conseguir eu devolvo o cheque pra você. – Não! Por favor! Eu vou ficar aqui! – Não, não, aliás, eu vou lhe pedir um obséquio: vá embora. Se você ficar aqui vai me perturbar. Você vai ficar me olhando aí com cara de ansiedade, com esse olho aí, esbugalhado, não dá. Eu vou acordar minha empregada que está lá dormindo no quarto dela, vou pedir pra ela fazer um café muito forte, e vou pegar alguns livros aí da minha biblioteca pra evocar a história constitucional do Brasil, ele fala aqui um negócio de constituição, não sei o quê, eu vou encher uma lingüiça, e vou tentar. Se eu não conseguir, devolvo o seu dinheiro, e... – Não, não! O dinheiro é seu! Por favor! Fernando! – no auge do desespero, Wilson se ajoelhou, espalmou as duas mãos e disse, com a voz embargada – Por favor, é o meu futuro! É o meu futuro! – Wilson, vá embora. Por favor, vá embora – replicou Fernando, enfarado com o surrealismo da cena no meio de sua sala, às três da manhã.
"Fernando! Por favor, é o meu futuro!
É o meu futuro!"
Assim que conseguiu livrar-se do empresário, Fernando acordou a empregada e disse: “Eu vou tirar uma soneca de uma hora, mais ou menos, e vou dormir profundamente. Às cinco horas você me acorda de qualquer maneira, mesmo que eu esteja morrendo de sono”.
Uma hora depois, que para Fernando pareceram cinco minutos, a empregada o sacudiu até acordá-lo, preparou um bule enorme de café forte e um pãozinho; Fernando forrou o estômago, sentiu-se mais desperto e se trancou na biblioteca. Começou a preparar o discurso, tomando especial cuidado com a clareza do que escrevia, pois sua esposa, que é quem batia seus textos à máquina, não estava lá para fazê-lo. Quando isso acontecia, Fernando levava os manuscritos a um escritório de datilografia na Praça da Sé, dirigido por uma senhora chamada Yolanda, que tinha, no local, umas quinze ou vinte datilógrafas. Era fundamental, portanto, que elas mais tarde não tropeçassem em nenhum garrancho incompreensível que pudesse atrasar o trabalho.
Fernando escreveu durante três ou quatro horas. Redigiu o tal discurso para o Grande Expediente, encheu lingüiça, falou sobre a história constitucional do Brasil, consultando livros, etc. Quando terminou, morto de sono apesar do café, dormiu um pouco, e acordou cerca de dez da manhã. Tomou um táxi e foi direto para a Praça da Sé. Chegando lá, praticamente invadiu o escritório de Dona Yolanda. Era uma senhora muito distinta, e Fernando não fez rodeios sobre o que precisava:
– Dona Yolanda, vou lhe pedir um favor. Está aqui um discurso meu, a senhora entende a minha letra, as datilógrafas aí também, eu pago três vezes mais pra senhora, por cada página: pare todo o serviço aqui e dedique-se somente a esta transcrição, porque eu preciso entregar isto antes do meio-dia num escritório aqui perto. É uma coisa muito importante. Por favor. – Claro – respondeu a gentil Yolanda – pode ficar sossegado, seu Fernando. Mas... o senhor está muito pálido, o senhor está se sentindo bem?
Tirando o fato de que fôra acordado de madrugada por um empresário ligeiramente histérico e passado as horas seguintes movido a café, na redação de um discurso sobre assunto que não lhe interessava em nada, sim, estava razoavelmente bem.
– É, sim, estou mais ou menos. Por favor, a senhora... – Claro, claro, fique tranqüilo, eu vou convocar todas as minhas datilógrafas, vamos parar os outros serviços. – Eu serei bem generoso com a senhora, a senhora não vai se arrepender.
As quinze moças dividiram o calhamaço e começaram a bater. Nervoso, Fernando ficou perambulando pela Praça da Sé, esperando o tempo passar. Uma hora depois voltou, quando elas já estavam no fim. Remunerou regiamente Dona Yolanda e suas funcionárias, pegou o calhamaço datilografado, juntou da maneira que pôde e saiu correndo em direção ao escritório de Wilson na José Bonifácio, no oitavo andar de um prédio perto do Largo São Francisco.
O escritório de Wilson ocupava o andar e tinha um corredor estreito que levava a uma ante-sala onde havia um sofá no canto, a mesa da secretária e a sala do empresário, com duas portas, uma em direção à secretária e a outra para o corredor. Quem estivesse no sofá podia ver quem entrava na sala por qualquer uma das portas. Fernando chegou, foi anunciado, entrou na sala e viu Wilson em manga de camisa, ansiosíssimo.
– E o discurso? Cadê o discurso? – Está aqui. – Ahhhhh, que maravilha!!! Que maravilha!!! Excelente! E eu não esqueci, não, olha aqui, toma o seu cheque!
De repente batem na porta. Era a secretária:
– Doutor Wilson, o senador Lino de Mattos acaba de chegar.
Fernando quis sair imediatamente, mas se saísse por qualquer uma das portas seria visto por Lino, que estava sentado no sofá da ante-sala, e o senador o conhecia, fôra apresentado a Fernando por Salomão Jorge, pai de Fernando e colega de Lino na Assembléia Legislativa de 47 a 50. Wilson espremeu o escritor na porta do corredor e abriu a outra porta em direção à secretária.
– Senador, tenha a bondade de entrar.
Lino se levantou e foi andando em direção a Wilson, enquanto este sinalizava veladamente para que Fernando saísse pela porta do corredor. Fernando abriu a porta e saiu correndo. Pegou o elevador, chegou à rua mas não resistiu; encostou-se numa parede e começou a gargalhar, desanuviando sua tensão. Os transeuntes acharam que se tratava de um reles doido, acometido de um ataque de riso.
Com o discurso em mãos, o senador foi para Brasília, pronunciou-o no mesmo dia e obteve uma repercussão tremenda. No dia seguinte O Estado de S. Paulo publicou longo artigo de fundo na terceira página, comentando que Lino havia pronunciado um discurso estranho, enigmático, e questionando qual teria sido sua intenção ao proclamar-se “senador da legalidade”, declarando que sempre pregara a posse de Jango. O jornal observava que Lino parecia estar acusando alguém e falava com tanta veemência que parecia irritado. Outros jornais, inclusive a Folha, também comentaram.
Juvenal Lino de Mattos
O resultado disso é que Lino de Mattos não parou mais de pedir discursos a Wilson Moreira da Costa. Nos meses seguintes, Fernando escreveu algo em torno de 70 ou 80 discursos diferentes para Lino, alimentado pelo dinheiro do Wilson. O senador não regateava elogios ao empresário:
– Wilson, aquele discurso que você escreveu... como você escreve bem... como você escreve bem! E que discurso erudito, cheio de cultura.... por favor, você não me abandone... não me abandone, eu preciso de você, você é uma pena brilhante, o Jânio tem razão, você tem muito talento literário. Posso contar com você? Agora, meus discursos de Grande Expediente, você é que vai escrever! Você é que vai escrever! Sou professor, mas eu reconheço: a sua cultura é eclética, é ecumênica!
Lino acreditou piamente que era o empresário quem escrevia, e o verdadeiro autor daqueles discursos que tanto o encantavam era Fernando Jorge.
Wilson, sempre desejoso de freqüentar as mais altas e exclusivas rodas, e constantemente iludido por seus delírios de grandeza e de poder, não conseguia esconder sua felicidade, e as vantagens que – imaginava ele – viriam daquela triangulação secreta:
– Ah, o Lino está na minha mão... o senado agora está na minha mão... eu vou ser o homem mais poderoso deste país. Amanhã o que eu quiser, vou ter o apoio do senado, porque o Lino vai manobrar tudo lá, é amigo íntimo do João Goulart, agora ninguém mais me derruba! Esses canalhas que andam dizendo por aí que eu não sou autor destes livros... eles vão ver!
E Fernando? Teria mágoas por ver Wilson Moreira da Costa mais uma vez levando mérito intelectual por aquilo que não fez? Aparentemente não:
"Você não queira saber como eu fiquei satisfeito com aquele dinheiro. Comprei liquidificador, comprei geladeira, comprei livros, roupas, camisas, gravatas, fui nos melhores restaurantes. E o Lino nunca soube. Morreu sem saber". ______________________________________ Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia Vol I: "Um Moço Bem Velhinho" Bernardo Schmidt Editora O Patativa 350 pgs ilustradas R$ 30,00 (Frete incluso para todo o Brasil)
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Castro Alves Pede Passagem foi um grande sucesso e colocou Guarna de volta na proa do cenário teatral brasileiro, em plena época de repressão, e ainda lhe rendeu os prêmios APCT e Molière de melhor autor. Ele mais tarde diria que esse foi o início de seu "Teatro de Ocasião", em que realizava obras para o momento, e que provavelmente não realizaria, fossem outras as circunstâncias. Só que ele diria também que depois de A Semente, Castro Alves era sua peça preferida.
Com uma peça sua lotando casas pelo Brasil inteiro, Guarna pôde se dedicar com mais tranqüilidade às novelas que fazia sem parar na Tupi. Terminada Meu pé de Laranja Lima, com Ivany Ribeiro, começou imediatamente Nossa Filha Gabriela com a mesma autora e assim entrou em 1972. Participou de Signo da Esperança, de Marcos Rey, direção de Zara, e em outubro desse ano começou Camomila e Bem-me-quer, terceira novela que fez com Ivany, e mais uma direção de Zara. Foi quando recebeu um telefonema do produtor Orlando Miranda. Quem conta é a cantora e atriz Marlene, em depoimento a Simon Khoury:
A cantora Marlene
Quando estava fazendo o show 'Marlene, Olê, Olá' (1972), o Orlando Miranda telefonou entusiasmado pro Gianfrancesco Guarnieri pedindo a ele que não deixasse de me assistir, porque o que estava fazendo era um negócio muito sério e coisa e tal. Já tinha gravado uma música do Guarnieri, "Gimba", que faz parte da trilha-sonora da peça que a Maria Della Costa tinha feito em São Paulo e Paris, e eu tinha muita admiração pelo Guarnieri, por suas peças e canções. Ele atendeu ao convite do Orlando e veio me ver. No camarim ele entrou emocionado e disse: "Já tenho o título de uma peça que vou escrever pra você: Samba-enredo".
Voltou pra São Paulo, ficou batendo naquela maquininha de escrever dele, e quando se levantou da mesa, estava pronta a peça "Botequim" (risos). Ele fez uma personagem bastante dramática para mim, e estreei a peça no Teatro Princesa Isabel em 73, com músicas do Toquinho e dele. Meu papel era terrível, uma viúva assassina. (Bastidores, Vol. IV, Leviatã 1994)
Botequim realmente estreou em 11 de abril de 73 em Brasília. Direção de Antônio Pedro e músicas de Toquinho. Guarna vivia um momento extraordinário. Sem precisar pisar no palco, produzia mais um soco metafórico na ditadura, e ainda de quebra, no mês anterior começara a trabalhar numa das novelas mais exitosas de toda a década de 70: Mulheres de Areia, de Ivany Ribeiro. No papel de Tonho da Lua, Guarnieri faria história. Mas a historia do momento está no teatro, e o depoimento de Marlene é bem completo e vale a pena ler:
Antônio Pedro
Uma das pessoas que incutiu na minha cabeça que eu poderia me tornar uma grande atriz dramática naturalmente foi o Guarnieri, que escreveu a peça para mim. Pra fazer essa minha personagem em "Botequim" foi uma barra muito pesada. Tive até que beijar a boca de uma mulher, por aí você pode avaliar. O papel era muito violento, foi uma luta tremenda que travei comigo mesma, custei muito a me enfronhar na personagem, pois realmente fugia a tudo o que tinha feito anteriormente. Ela era má, rancorosa, lasciva, desesperada, e havia uma cena de liberação sexual em que eu tinha primeiro que transar com um homem e depois com uma mulher, e nos ensaios não conseguia. Não conseguia porque ainda estava cheia de conceitos e preconceitos, uma série de bloqueios. Foi a partir dessa peça que passei a compreender uma série de problemas; consegui me liberar de tudo, e isso eu devo ao texto do Guarnieri e ao excelente trabalho que o diretor Antônio Pedro fez comigo. Fizemos uma série de exercícios de laboratório e ele foi muito compreensivo, pois gastou dois meses até conseguir fazer erguer minha personagem.
Marlene e Ivan Cândido, em cena de Botequim
Tinha uma cena com o Ivan Cândido, que fazia o papel de meu marido: eu tinha que transar com ele e depois ele me obrigava a fazer amor com uma mocinha (Thaia Peres) que entrava no botequim com seu namorado (Eduardo Tornaghi). E empacava aí. O Antônio Pedro colocava a Thaia e eu frente à frente e pedia que nos olhássemos fixo por alguns minutos pra trocarmos energias, e isso era feito também por todos os atores do elenco. Depois tínhamos que nos tocar de leve, acarinhar, tocar e beijar. Ele queria que fôssemos ficando íntimos e gostássemos muito uns dos outros. A coisa foi indo, foi indo, até que um dia explodi e deixei a personagem fazer tudo o que eu não estava conseguindo realizar. Eu me atirei em cima do Ivan Cândido como um animal no cio; depois tocava primeiro nos pés dela, nas pernas, ia subindo, subindo, ia me levantando e segurando nos cabelos dela, que eram longos, e quando cheguei à sua altura, olhei fixo em seus olhos, me aproximei do seu rosto e naturalmente a beijei nos lábios. A cena era muito forte e lindíssima. Nos ensaios abertos ao público, gente da classe, essa cena era aplaudidíssima. Estreamos em Brasília, e a peça lá foi levada na íntegra, mas quando viemos pro Rio, a censura mutilou todo o espetáculo e essa cena foi suprimida. (Bastidores, Vol. IV, Leviatã 1994)
Em Botequim, Guarna não tinha figura histórica de nenhum tipo para exaltar. O espetáculo trata do confinamento de pessoas diferentes num boteco qualquer - o que por si só já dava o tom do momento que o país (e o teatro) vivia, subjugado que estava a um poder ditatorial - e das conseqüências desse confinamento, num dia de intensa borrasca. Há figuras arquetípicas da sociedade, como o beberrão conformista, a universitária aguerrida, a burguesa ignorante e etc., mas a crítica em geral, embora positiva, considerou o espetáculo hermético demais. Guarna teria exagerado tanto nas citações e nas referências cifradas que não era possível compreendê-las ou inseri-las no universo dramático da peça. A isso ele respondia com extraordinária sinceridade: "O pileque confessional de Botequim é como se fosse um depoimento meu sobre o que fiz e o que vi de 1968 para cá. A peça é uma retomada de posição face às minhas perplexidades, tão semelhantes às de muitas pessoas que existem por aí. Estou interessado em dizer e fazer coisas, mesmo que, por motivos óbvios, só possa ir até certo ponto. O importante é tentar superar e romper a muralha do silêncio que nos cerca. O fascinante na arte é exatamente assumir a nossa própria consciência, mostrando que a vida continua, mesmo com toda a marginalização imposta". (Botequim e Um Grito Parado no Ar, Monções, 1973)
Ficha Técnica de Botequim, que tinha o título alternativo de "Céu sobre Chuva", deixando aberto o caminho para a próxima peça de Guarnieri, "Um Grito Parado no Ar"
A mistura e a proximidade de cenas de realismo total com cenas completamente herméticas ou metafóricas confundiram a crítica. As atuações, entretanto, foram elogiadíssimas, especialmente a do veterano Oswaldo Louzada, no papel do bêbado Carrapato. Eis o que disse dele Roberto Cleto, na Última Hora: "Uma interpretação absolutamente sensacional de Oswaldo Louzada, de uma verdade tão grande que às vezes a gente tem a impressão que frases que ele está dizendo não são absolutamente de Guarnieri, mas dele mesmo, tal a sinceridade com eu soam".
Marlene e Oswaldo Louzada (em pé), em cena de Botequim
Aldomar Conrado, do carioca Diário de Notícias, fala do brilhante elenco do espetáculo: "Na condução dos atores, Antonio Pedro revela-se excepcionalmente seguro. Não existe um ator sequer a quem fazer restrições. Evidente alguns se sobressaem pela própria oportunidade que os personagens lhe oferecem, mas o nível geral é de rara qualidade. Marlene (em quem sempre admiramos a cantora e sempre duvidamos do talento de atriz) explode no Botequim com uma força, uma garra, que lhe garante, de antemão, uma nova carreira cheia de sucesso. Isolda Cresta estava precisando, há muito tempo, da oportunidade que Olga lhe oferece. E a atriz cria um personagem pungente, rico em sutilezas, certamente o melhor momento de sua carreira (...). Louzadinha - Oswaldo Louzada, vivendo um Carrapato com profunda humanidade. Ivan Cândido, com extrema correção, num personagem totalmente impossível: o operário. Thaia Perez e Eduardo Tornaghi interpretam com uma sinceridade comovente os dois jovens estudantes, que no final da peça são considerados 'contaminados' pelas autoridades sanitárias. (...) Para André Valli, um destaque especial. O Túlio criado por André terminou me acompanhando até agora. Eu não consigo esquecer aquele ar pungente de quem é leitor da seção Cartas do Leitor, de quem nunca prevaricou, de quem sempre grita estrangulado. Um personagem, enfim, que termina sendo um pouco protótipo de todos nós, na nossa impossibilidade de gritar mais alto. E que André Valli realiza com muita segurança".
Botequim
A seguir, as letras de todas as músicas de Botequim. Para nossa sorte, foram todas editadas no LP de Toquinho e Marlene lançado em 73 que leva o nome desse espetáculo e que traz quase todas as músicas da parceria Toquinho/Guarna (excetuando completamente Tudo de Novo e algumas menores da trilha de Castro Alves). O LP tem como intérpretes o próprio Toquinho, Marlene, o MPB4, e Guarnieri, nos brindando com uma excelente rendição da Embolada do Carrapato. As letras por vezes são maiores na peça e foram ligeiramente diminuídas para a edição deste LP.
Quem Sabe Mais (Toquinho/Guarnieri)
Sei que é você que sabe mais E que tudo o que se faz Você tem que consentir. Eu concordo em seguir Sem zangar, sem fugir, sem chorar.
Pois você soube calar os murmúrios da razão, Minha voz, meu coração. Mas não soube ver a luz do meu amor, E ele é bem maior que a sua lei. Você tirou de mim o gosto do perdão Sem saber chorar o que chorei.
Sei que nem sempre é ganhador Quem se julga vencedor. Não duvides, podes crer, eu ainda hei de ver Você zangar, você fugir, você chorar. No melhor do seu sofrer você triste há de ver Eu contente festejar.
Pois não soube ver a luz do meu amor, E ele é bem maior que a sua lei. Você tirou de mim o gosto do perdão Sem saber chorar o que chorei.
Esperando por você
(Toquinho/Guarnieri)
Por você fiz tanto, Fiz de tudo por você. E em cada pranto Escorreu muito de você.
Foram noites longas, muito longas sem você, E eu fiz coisas tristes, ah, tão tristes...
Por você fui todo,
Mesmo tolo por você. Vivo a cada instante O que eu lembro de você.
Lembro, é só lembrança O que eu tenho de você. E eu estou só e sempre Esperando por você.
Eu sofri sem mostrar. Entre o pó das rendas claras Guardo a minha dor. Dor é o que resta para dar. Entre o pó das rendas claras Choro o meu amor, Cego, sem a luz do teu olhar.
Sem querer fui pouco, Quase nada por você. Fui num breve instante Um momento de você.
Sombra abandonada, Tão distante de você. E eu estou só e sempre Esperando por você.
Canção do Medo
(Toquinho/Guarnieri)
Medo, tenho medo, muito medo Se o desejo é forte de ver Minha vida se modificar.
Tenho medo, muito medo
Se a saudade é grande
Da noite sagrada em que eu quis amar.
Vem a vontade de crescer. Vem a coragem de gritar. Aí, eu fecho os olhos, Tranco a porta, calo a boca Pra me guardar.
Medo, tenho medo, muito medo Quando vem a vida e obriga A gente a se decidir.
Tenho medo, muito medo De enfrentar a morte e a má sorte E eu tenho medo de existir.
Vem a vontade de viver. Vem a coragem de sorrir. Aí, eu fecho os olhos, tranco o riso, Calo a boca pra prosseguir.
Sou Assim
(Toquinho/Guarnieri)
Sou assim, não me envergonho. Nesse mundo tão tristonho Nada, enfim, tem mais valor.
Sou assim, sou muito esperta. Mais vale renda certa Que suspiros de amor.
Sou assim e assim me imponho.
Já não vivo mais de sonho,
A ilusão não tem sabor.
Sou assim e pouco importa. Se o poeta me vê morta, Tenho e pago meu cantor.
Quem chora por amor é um imbecil. Quem vive de ilusão é muito mais. E eu que vim do nada sei agora De quanto a riqueza é capaz.
Tirei do meu caminho a compaixão. Amar não diz mais nada para mim. E esqueci as palavras de perdão, Pois os meios sempre são justificados pelos fins.
Quanto Vale uma Criança
(Toquinho/Guarnieri)
Quanto vale uma criança sem brinquedos pra brincar Encostada ao pé da porta sem nem forças pra chorar. Quanto vale um sorriso do menino adormecido Na infinita madrugada em seu sonho colorido.
Façam seu jogo, senhores. Mãos no bolso, boa ação. Façam seu jogo, senhores. Alivia o coração. Façam seu lance, senhores. Toda alma quer perdão. Façam sue lance, senhores, no mercado da aflição.
Quanto vale a cor do ódio nesses olhos de criança, Que não sabem ver ternura e que da paz não têm lembrança. Quanto vale uma lágrima triste, vil, em descaminho Num rostinho de menino que tem medo de carinho.
Façam seu jogo, senhores. Mãos no bolso, boa ação. Façam seu jogo, senhores. Alivia o coração. Façam seu lance, senhores. Toda alma quer perdão. Façam sue lance, senhores, no mercado da aflição.
Quanto vale um homem morto no melhor do seu destino, Pelo medo assassinado, esse resto de menino. Quanto vale esse meu canto que já nasce estrangulado Pelo nó da indiferença, canto tão desesperado.
Façam seu jogo, senhores. Mãos no bolso, boa ação. Façam seu jogo, senhores. Alivia o coração. Façam seu lance, senhores. Toda alma quer perdão. Façam sue lance, senhores, no mercado da aflição.
Embolada do Carrapato
(Toquinho/Guarnieri)
Abram alas minha gente que chegou um cantador
Que nem sempre é decente, mas que canta por amor.
Bolso cheio só de raiva, fel na boca e coração.
Meu nome foi Dino Paiva, era nome de prisão. ("cristão", depois da censura)
Mas nas quedas desse mundo, ou por troça ou desacato,
Fui perdendo até o nome, só me chamam Carrapato.
Pior que sarna sou o que gruda, nó que ato não desato.
Nossa Senhora me acuda: quando chego, chega o chato.
Troco tudo nesse mundo, até o certo sai errado. Rezo a Deus o amor profundo, e o diabo é que é chamado. Eu pus filho nesse mundo, eu casei, fui batizado. Eu amei mulher fingida, tava sendo engambelado.
Fui lavar a minha honra com trabuco e com machado, Só encontrei foi mais desonra, pois voltei todo cortado. Fico só com minha raiva, meu amor atraiçoado. Fico só com cinco filhos sem saber se aparentado.
Mesa de Bar
(Toquinho/Guarnieri)
Mais uma noite foi passada, Se despede a madrugada, Surge o sol, não tem calor.
Essa gente tão cansada Esperando quase nada, Implorando por favor.
Um canto seu, sua morada. Ter talvez a namorada, Um pouquinho de amor.
É na mesa de um bar Que se bebe ilusão, Que se sofre demais, Que se pede perdão. É na mesa de um bar Que se engana a razão, Que a saudade Maltrata o coração.
Dane-se
(Toquinho/Guarnieri)
Leve pra longe esse choro, Eu não posso lhe ajudar. Minha vida é um estouro, Não me venha perturbar. Cada um por si, Não me venha querer ensinar.
Quero é curtir, Não me faça crescer, Não me faça morrer de pensar. Dane-se!
Cada um faz somente o que quer, Enfrento enquanto puder. Quando a morte por certo vier, Eu não perco um momento sequer.
O sofrimento do mundo Não consegue me afligir. Eu não quero ir ao fundo, Não me venha reprimir.
Guarnieri estava sem limites para sua criatividade. Mesmo trabalhando como um doido na novela de Ivany Ribeiro, encontrou tempo não só para escrever Botequim (em dois dias), mas um segundo espetáculo para estrear ao mesmo tempo: Um Grito Parado no Ar.
Escrita em uma única noite, essa peça é talvez a mais original e a mais genial de toda a obra de Guarnieri. Conta a história de um grupo de teatro tentando finalizar um espetáculo que estreará em dez dias, e que luta com todos os tipos de dificuldade, desde os materiais até os emocionais, passando pelos existenciais, psicológicos, amorosos, sociais, etc. Seguindo esse princípio, Guarnieri pintou uma verdadeira tela viva que transmite todas as mensagens que o público - e o cidadão - brasileiro queria e precisava ouvir, dentro de um exercício teatral complexo e engenhoso. A peça envolve mímica, mind games entre os atores, inserções musicais, inserções de entrevistas feitas por Mário Masetti, entrevistas com prostitutas e assim por diante.
O espetáculo foi uma nova colaboração entre Guarnieri e a companhia de Othon Bastos e sua esposa Martha Overbeck. Para harmonizar e dar forma a isso, só Fernando Peixoto. Com sua direção brilhante, competente e precisa, os seis personagens vão desfiando suas tristezas, incertezas, inseguranças, desamores e medos em exercícios para a peça que supostamente deve estrear, mesmo com a pobreza franciscana da produção, que vai sendo - tal qual o povo - subtraída de seus poucos recursos até ficar sem a luz do teatro. O exercício teatral era tão rico que em certos momentos os atores já não se comunicavam mais com palavras, mas com gestos que significassem intenções ou emoções, se amando e se agredindo até o ponto em que já não se sabia mais onde terminava a peça dentro da peça e começava a realidade. Em seu livro Teatro em Pedaços (Hucitec, 1989), Fernando Peixoto explica por alto os três planos em que se divide o espetáculo:
Elenco e equipe técnica de Um Grito Parado no Ar
Um diretor e cinco atores procuram realizar um trabalho, enfrentando toda sorte de pressões externas; o trabalho está sendo minado por uma infra-estrutura repressiva, que provoca uma crise de conseqüências insuspeitas; a peça que este grupo está procurando encenar é mostrada através de cenas isoladas, mas nunca totalmente definida. (...) Noutro plano estão os poucos momentos em que o diretor e atores conseguem vencer; são mostrados exercícios de interpretação, laboratórios e improvisações, discussões sobre os personagens. O espectador assiste ao processo de criação do ator. A mística do teatro é desnudada. (...) No terceiro plano estão as entrevistas com o povo, todas autênticas, gravadas nas ruas de São Paulo. Na peça dentro da peça seriam entrevistas realizadas para servirem de material de estudo para a criação de suas personagens.
Sônia Loureiro, em cena de
Um Grito Parado no Ar
Em conversa que tive em 2006 com Sônia Loureiro, que interpretou Nara na montagem original, ela jogou luz sobre o processo de ensaios, que durou pouco menos de um mês:
O Fernando montou tudo isso em cima disso, de jogos, mesmo, nós improvisamos o tempo inteiro, com um texto que era um roteiro do Guarnieri. O Guarnieri fez um roteiro, e nós criamos em cima, nos ensaios. Em cima da idéia dele. Mas não fugindo nem um milímetro da idéia que ele propôs. Aquela coisa do Chacrinha, dos interrogatórios kafkianos baseados nos interrogatórios do Doi-Codi, a menina que não quer dar e demonstra o puritanismo ao contrário. Então nós improvisamos em cima, e saiu a maravilha que saiu. (...) E o Fernando como diretor era muito calmo, muito engraçado, muito piadista, um relax. Eu conhecia o Fernando dos espetáculos do Zé Celso, considerava o Fernando genial, uma pessoa intelectualmente sábia, e uma criatura muito molinha, muito gostosa, muito piadista, muito engraçado. Muito relax. Muito, muito. (...) E vou te dizer que o mesmo mérito, senão maior, foi da produção de Martha Overbeck, que era atriz e produtora, esposa de Othon, até hoje. Ela com muita coerência, contratando profissionais competentes, e nós ensaiando 12 horas por dia, numa salinha, improvisando, o espetáculo foi todo feito em cima de improvisações em cima dos temas. Tudo.
Assunta Perez e Sônia, na cena da "Mãe Coragem" de Um Grito Parado no Ar
A Assunta Perez fazia a atriz mais velha, Flora, recalcada, que colocava muitos pontos em discussão, de atores da meia-idade que ainda trabalham em teatro. (...) Assunta Perez era divina, trabalhando. Nunca esqueço uma cena dela, porque os improvisos se sucediam, agressão, depois começava o jogo de futebol, aí passava pra passeata, aí passava pro tiro na menina, eu, a menina morria, eles a colocavam na mesa, e aí a Assunta vinha, dizia um texto baseado na "Mãe Coragem", do Brecht, que era muito forte, muito vivo, de todas as mães que perderam seus filhos na época da ditadura que nós estávamos vivendo. Uma cena belíssima, as pessoas morriam de chorar, todas as noites, e eu deitada, morta, me emocionava com a interpretação da Assunta Perez, que era maravilhosa.
É preciso registrar a fantástica performance desse fabuloso ator que é Othon Bastos, no papel de Augusto, que recebeu elogios unânimes, inclusive de grandes figuras de uma geração teatral anterior a de todos eles, como Pedro Bloch. Segundo Sônia:
Othon Bastos, em cena de Um Grito Parado no Ar
Contracenar com ele nessa peça foi um dos maiores prazeres da minha vida. Ele é uma criatura que tem uma técnica excepcional. Ele é formado em Londres, como ator. Ele é um cara muito racional, a emoção dele é totalmente controlada, ele é um grande exemplo de ator técnico, agora, o olho dele brilha quando ele contracena com você. É muito bom. Ele não trabalha sozinho, ele joga, ele joga legal com você, ele contracena, mesmo, não gosta de trabalhar sozinho. É um doador, nesse sentido.
Quando eu me vi frente a ele comecei a tremer, falei "Jesus, eu tenho que funcionar, tem que acontecer alguma coisa". Tinha que dar um beijo de verdade nele, eu morri de medo, porque a esposa dele era a produtora (risos), e claro que não consegui fazer da primeira vez. Ela me chamou de lado e me disse assim "Meu amor, você é atriz ou não? Você tem que fazer de verdade! Beija ele mesmo que eu estou dando a maior força!" (risos) E aí eu fui e beijei mesmo, pronto! Com o aval da esposa, que é uma super atriz, uma super produtora, e infelizmente é uma pessoa que parou de trabalhar, nesse sentido, e eu acho que o Brasil perdeu muito com isso. Perdeu muito. Martha Overbeck, volte! Você é maravilhosa.
Sônia Loureiro, em foto de 2006
Sônia fala da estréia curitibana, em abril de 1973:
Estreamos em Curitiba, no Guairinha. Foi um sucesso absoluto, lotando as casas todos os dias, ganhamos todos os prêmios, melhor ator, melhor direção, atriz revelação, eu, atriz coadjuvante Assunta Perez, melhor atriz, Martha Overbeck, ganhamos todos os prêmios. Em São Paulo fizemos no Teatro Aliança Francesa, na General Jardim. Ficamos muito tempo em cartaz lá, lutando de terça a domingo, sendo que dois espetáculos na quinta, dois sábado e dois domingo, lotadaços, com briga na porta pras pessoas assistirem, durante uma época de recessão política, castração de liberdade, que é 1973. No Rio de Janeiro também. Todos lotados. Nunca fizemos um espetáculo com meia casa. Por isso que eu digo: durante a época da ditadura, o teatro de resistência fez muito sucesso, deu emprego a muita gente, técnicos, produtores, assessores de imprensa, atores... eu tenho carteira assinada com a "Othon Bastos Produções Artísticas". O Guarnieri assistiu a estréia e ficou tão emocionado que não conseguia falar com a gente, ele chorava. Ele só chorava. Abraçava a gente e chorava, abraçava a gente e chorava, abraçava a gente e chorava...
Recentemente, Fernando Peixoto elaborou em sua recordação do Grito. O depoimento, dado à Marília Balbi e constante no livro Em Cena Aberta, da Coleção Aplauso, é valioso e uma aula magna de teatro, como praticamente tudo que foi feito por esse grande mestre:
Programa Original de Um Grito Parado no Ar (clique em cima para ver maior)
Dirigir esse espetáculo foi uma experiência fascinante. Porque dialeticamente fui dirigido por ele. O texto possui uma teatralidade potencial que se articula no palco de forma quase espontânea. São poucos os espetáculos que fiz até hoje que sinto como tão pessoal, tão meu. Mas o grito é de todos nós. A peça não descreve a biografia de ninguém, nem retrata este ou aquele integrante da chamada classe teatral. Mas cada personagem reúne uma série de características que estão na vida real de muitos atores, atrizes e encenadores. A peça trata da vida de todos nós.
Estruturei o espetáculo sem me preocupar com a elaboração de uma rigidez formal. Não existia pré-estabelecida pela direção uma organização cênica em termos de espaço ou de linguagem visual. Os atores improvisavam seus movimentos, que a cada dia eram determinados por motivações interiores e pela compreensão do verdadeiro conteúdo de seus relacionamentos, uns com os outros. Numa primeira fase de trabalho analisamos minuciosamente o texto. Não só para descobrir o seu significado, mas para fixar sua estrutura dramática e cênica, seus movimentos internos e externos, a condução de seus temas, os momentos da ação, a progressão ou a eventual interrupção da mesma.
Adquirimos com esse exercício uma consciência clara do movimento dinâmico e ideológico dos personagens em comparação com a realidade e com os modelos vivos que conhecemos. E a peça trata da vida de todos nós. De forma aberta ou velada estamos, todos, em algum momento de algum personagem, ou em mais de um, com Um Grito Parado no Ar. Em 124 cenas determinávamos o conteúdo de cada uma. Às vezes a cena era apenas uma frase ou uma palavra, outras vezes, apenas o silêncio. No estudo das entrelinhas, das pausas, do não-dito, do sugerido.
Programa Original (clique em cima para ver maior)
Depois partimos para a fixação do comportamento dos personagens, da forma histórica como se relacionam entre si em cada situação específica. Assim estruturei o espetáculo. O resto ficou livre: a exteriorização formal pode e deve ser reinventada a cada dia. E era permanentemente reestimulada pela realidade cotidiana, pela participação ativa na vida, como cidadãos e homens de teatro. Para quem fazia o espetáculo, ler o jornal diariamente era uma forma de ensaio. Nos laboratórios os atores-personagens se descobriam a si mesmos e, ao mesmo tempo, minados por seus problemas pessoais, pela crise financeira que os destrói e pelo terror psicológico que os castra, descobrem também a sua impotência.
Cena de Um Grito Parado no Ar
O movimento teatral brasileiro da época vivia a reflexão crítica sobre o momento. Estávamos limitados pela censura e Guarnieri quis escrever um roteiro para ser ampliado, modificado, discutido. Mas existindo a censura, nosso grito foi em cada apresentação, um atestado de nossa liberdade de criação cerceada, a afirmação de uma limitação que nos foi imposta. Mas no grito, o objeto de estudo é o esmagamento do homem pela sociedade. Com a ditadura havia uma despolitização total da cultura brasileira, um esvaziamento de nossa cultura, mas havia uma reação contra isso. O teatro manteve vivo a sua verdade crítica. É por acreditar no homem que existiu Um Grito Parado no Ar. Homem enquanto ser socialmente oprimido, mas capaz de alterar sua própria condição social à luz da história.
Em alguns ensaios eu me sentia diretor de tráfico e conselheiro espiritual: reunia o elenco apenas para resolver problemas de circulação e aconselhava ou apoiava, sem nada impor, uma ou outra idéia. Juntos fomos, pouco a pouco, encontrando as soluções cênicas. Foram tantos momentos. Teve uma cena em que Othon Bastos faz um monólogo central da peça de costas para a platéia, dirigindo-se de frente a seus companheiros de elenco, atinge uma força cênica que nunca seria possível se estivesse de frente para o público. Mas quando ergue o corpo assassinado da estudante baleada na rua, seu primeiro movimento é encarar em silêncio o público.
Essa peça foi um ato de amor pelo teatro e pela profissão, que Guarnieri colocou com angústia e fé e eu procurei assumir como meu, como nosso. E que se define numa fala do personagem diretor, que por brincadeira do Guarnieri chamava-se também Fernando, que dizia: “Eu só sei me comunicar através disso que está aí, o teatro. E está cada vez mais difícil!”
Osmar Rodrigues Cruz, Fernando Peixoto e Guarnieri, na premiação do Molière de 1973
Embora Guarnieri tenha recebido os prêmios da APCA, o Molière e o Governador do Estado de melhor autor, ficou uma certa mágoa pelo fato dessas instituições terem premiado somente o Grito em detrimento a Botequim, pelo simples fato de ambas as peças terem estreado quase ao mesmo tempo. Mas esses prêmios não são nada perto da contribuição dada por Guarna, Toquinho, Fernando Peixoto, a companhia de Othon Bastos e a companhia que realizou o Botequim, ao teatro brasileiro, nessa primeira metade da década de 70.
Um Grito Parado no Ar não tinha músicas cantadas pelos atores, com exceção da "música-tema", cantada inicialmente por Sônia Loureiro, sozinha, à capela, e no fim por todo o elenco. A despretensiosa iniciativa de criar uma única música original para o espetáculo acabou produzindo (em minha humilde opinião) a melhor música da resistência à ditadura de 64. Uma melodia lindíssima de Toquinho e uma poesia maravilhosa de Guarnieri. O resultado disso é que a letra acabou censurada e somente o refrão foi liberado para gravação no LP de Marlene e Toquinho. Nem o site oficial de Toquinho traz a letra inteira, só o refrão. A letra, na íntegra, é inédita virtualmente. Portanto é com redobrado prazer que a tiro de seu injusto esquecimento e a entrego a vocês:
Um Grito Parado no Ar (Toquinho/Guarnieri)
Moro no fim de um escuro corredor Papel jornal fazendo as vezes de vidraça Quarto mirim que só tem cheiro de bolor, Eu vivo assim, em cada esquina uma ameaça.
Não peço nada, eu não quero me envolver, Na rua nua em cada cara uma desgraça. Há tanta gente procurando esquecer Que a vida é à-toa, a morte chega e tudo passa.
Quem souber de alguma coisa Venha logo me avisar Sei que há um céu sobre esta chuva E um grito parado no ar...
A vida enfim é um escuro corredor, Leio jornal e muitas vezes acho graça. E quanto a mim, estou vivendo de favor, Não sou ruim embora viva de trapaça
Não peço nada, eu não quero me envolver. Até a lua tem as nuvens por mordaça, Assassinada mesmo antes de nascer, A esperança sobe aos céus como fumaça.
Quem souber de alguma coisa Venha logo me avisar Sei que há um céu sobre esta chuva E um grito parado no ar...
Este é o texto escrito por Guarnieri para a contra-capa do LP Botequim, que inclui quase todas as parcerias dele com Toquinho. Interessante o detalhe revelado por Guarnieri, de que a letra da Canção do Medo teria sido escrita por Toquinho:
Reunimos aqui o trabalho de alguns anos. Composições nascidas do tempo roubado a diversos compromissos. Quase sempre madrugada. A maioria das canções pertence ao Botequim. Embora o seu significado fique mais claro conhecendo-se a peça, achamos que poderiam ter vida própria e que, no conjunto, mesmo desligadas dos textos, transmitem o que a gente sente. Há canções de Castro Alves pede passagem e o tema de Um grito parado no ar.
Estas músicas são o resultado de um grande entendimento, de uma parceria que surgiu espontâneamente transformando o trabalho num jogo estimulante e alegre, muito alegre, mesmo nas melodias tristes ou na melancólica constatação de fatos. E pensando nesta contradição descobrimos nosso otimismo. Acreditamos.
O que importa mesmo é que ouvindo estas canções temos necessidade de criar outras, muitas outras, sempre outras. Para meu amigo, meu parceiro Toquinho, isto é fácil como respirar. Toco vive música simplesmente. E é um poeta. Em alguns minutos fez a letra da Canção do Medo, e trancado num escritório de teatro fez a canção de encerramento de Botequim, resumindo o que eu pretendia dizer em poucos e lindos versos. Cheguei a ficar com ciúme. Mas o ciúme foi embora e ficou somente a enorme alegria de ver como o meu amigo Toco entende das coisas. E voltaremos com outras canções...
Divirtam-se com Botequim, que além das músicas do LP vem exclusivamente acrescido de Modinha, da trilha de Nossa Filha Gabriela, e as duas músicas do espetáculo Tudo de Novo: a música título e Zana, cantadas por Marília Medalha. _________________________________________ Parte 1 deste artigo