sexta-feira, 14 de junho de 2013

Jô Soares entrevista Bernardo Schmidt sobre Jânio Quadros


Terça-feira, 4 de junho de 2013. Um dia como vários que tenho vivido, inesquecíveis, desde o lançamento do primeiro volume de minha biografia de Jânio Quadros. Desta vez me tocou roçar ombros com Jô Soares em seu programa de entrevistas que já vai entrando de rijo pela segunda década sem sinais de fadiga. Jô, que assisto desde o Planeta dos Homens, apresentado por ele na década de 70 junto a Paulo Silvino, Miele e Agildo Ribeiro, esse mesmo Agildo maravilhoso que por conta de seu imensurável talento — e a arrepiante e impagável história do biliquê — acabou tornando-se, com a maior justiça, o grande homenageado de nossa conversa.

Jô, cujo Viva o Gordo assisti religiosamente todas as segundas por anos a fio, aprendendo ali (e com Chico Anysio, evidentemente) quem eram esses titãs do humor teatral e televisivo que a memória brasileira cruelmente esqueceu, como Milton Carneiro, Luiz Delfino, Henriqueta Brieba, Paulo Celestino, Ema D’Ávilla...

Jô, no dia 4 de junho
Assisti várias vezes a gravação do extinto Jô Soares Onze e Meia, nos estúdios que o SBT mantinha no Sumaré. Lá pude ver o gordo entrevistando personagens tão díspares como Fernando Henrique, Guilherme Arantes, o Ira, Florinda Bulcão, Luiza Erundina, Magic Paula, a saudosa Hebe... o câmera “Eddie Murphy”, o contra-regra e “pai de santo” Tião... cheguei a colher um depoimento com o próprio Jô em seu camarim, para um trabalho escolar que fiz na época (e que trarei a vocês um dia, quando conseguir, enfim, transformar em DVD as centenas de fitas de vídeo que entulham meus armários).

Com Jô nos estúdios do Sumaré, em 1991
No novo século, desde sua volta para a Globo, não surgira ensejo para presenciar in loco a gravação de seu programa. E eis que acabei fazendo-o não na qualidade de espectador, mas de entrevistado. Logo após o talentoso e divertido Nando Cunha (o proverbial tough act to follow). Não há mais o que dizer, a não ser que assistam o vídeo, cujo link vai abaixo, mas admito que fiquei impressionado ao ver Jô falando sobre Jânio com tal admiração, já que tenho fresca na lembrança a apresentação de Viva o Gordo — que trazia montagens de Hans Donner fundindo o humorista em outras imagens, mostrando-o em cenas cômicas com celebridades do mundo inteiro — onde Jô fazia troça com o ex-presidente, trazendo-lhe uma bandeja com copos de whisky. Sinal dos tempos. Jô, seguramente, como tantos outros brasileiros, soube o que era o governo com Jânio, sem Jânio e com aqueles que tanto o atacavam, e que hoje ocupam o poder, servem ao poder e, sobretudo, se servem do poder.

Terça-feira, 4 de junho de 2013
O belo estúdio de Jô na Berrini

Antes de encerrar, duas curiosidades e dois esclarecimentos. Primeiro as curiosidades: Jô contou a história de sua desavença com Jânio e a troca de cartas que se seguiu, desembocando em uma chuva de pétalas de rosa de parte à parte. Fausto Silva tem uma história idêntica com o ex-presidente, que contarei em um dos volumes futuros. E o guitarrista Marcinho Eiras, que está substituindo o Tomate — recuperando-se de uma grave crise pulmonar — foi o grande animador do público, na espera antes do início da gravação. Sua rendição do tema do joguinho “Mario Bros”, utilizando suas guitarras como pianos (marca registrada do guitarrista, trazendo ecos de Stanley Jordan), foi muito divertida.

Linda foto tirada por Natália Negro no momento em que Jô exibia a célebre imagem de Jânio com os pés cruzados, que valeu a Erno Schneider, do JB, o prêmio Esso de jornalismo

Os esclarecimentos, àqueles que já me perguntaram, e àqueles que ainda têm a dúvida: quando cumprimentei Jô, naquela caminhada até nos sentarmos, agradeci a ele pela imitação de Jânio, ressaltando que até hoje, depois de 15 anos pesquisando o velho, infelizmente não aprendi a imitá-lo. E o que o Bira desejava dizer mas Jô não deixou é que o ritual do “lava-pau”, na Bahia, era referido como “lavar o cabo João”. Ouro puro. Memórias para todo o sempre. Agradeço à belíssima produção do Jô, de gentileza fidalga desde o motorista até o produtor-executivo. E também à Natalia e o Alexandre, indispensáveis, sem os quais o dia não teria sido tão delicioso.

Divirtam-se.
Bernardo Schmidt

Assista abaixo a entrevista de Bernardo Schmidt a Jô Soares:



Jô Soares entrevista Bernardo Schmidt sobre Jânio Quadros from Bernardo Schmidt on Vimeo.
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sábado, 20 de abril de 2013

Entrevista à TV CÂMARA de São Paulo — 19/04/2013

Meus caros,
dei recentemente uma entrevista à TV Câmara sobre o primeiro volume da biografia de Jânio Quadros, que lancei este ano. Vários assuntos foram abordados e tive inclusive a chance de comentar alguns vídeos de entrevistas de Jânio, inseridos na conversa.

Alguns desses assuntos foram a fama de Jânio, de ser um político “folclórico”, e suas diferenças em relação aos políticos da época. Falamos da impulsividade, notório defeito seu, e de sua humildade em reconhecer equívocos, qualidade que sempre lhe foi reconhecida. Entre outras coisas, lembramos Jânio borrifando inseticida na cadeira do prefeito, na qual se sentara dias antes Fernando Henrique, o alcoolismo, o carisma, seu estilo de governar e as múltiplas dificuldades que enfrentou junto ao congresso, quando exerceu a presidência.

Falamos também sobre o depoimento exclusivo de Tutu e sobre a necessidade fundamental de escrever um livro que não sofra dos mesmos defeitos de 99% dos livros escritos sobre Jânio: falta de credibilidade ou falta de conteúdo.

Eis a apresentação feita pela TV Câmara:

O JORNAL DA CÂMARA PRIMEIRA EDIÇÃO recebe hoje o historiador e jornalista Bernardo Schmidt, estudioso e biógrafo do ex-presidente Jânio da Silva Quadros. Ele é também pesquisador de política e teatro. A biografia de Jânio é o primeiro livro dele. Escrever sobre o polêmico, inventivo e excêntrico ex-presidente despertou tanto a energia do historiador que ele já traça as linhas para o segundo volume sobre a vida do “homem da Vila Maria”, na zona norte da cidade. O segundo volume tratará da passagem de Jânio pela Câmara Municipal na primeira legislatura depois de encerrado o Estado Novo.
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Assista abaixo a entrevista:

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Menotti Del Picchia fala de Edoardo Di Guarnieri


Edoardo Di Guarnieri

Para Cecília, Flávio e Cacau

Dizer que tanto em Gianfrancesco Guarnieri quanto em Oduvaldo Vianna Filho “o talento corria nas veias” é redundância, só que enquanto Vianinha matava um leão por dia para sair da sombra de seu polivalente pai, dramaturgo, roteirista e diretor de teatro e de cinema desde os anos 20, Guarnieri não adentrou a seara de seu pai, que era a música clássica. Seara, aliás, que já era de seu avô Antônio, violinista maestro.

Edoardo Di Guarnieri nasceu em Veneza, em 18 de abril de 1899. Sua carreira musical começou com o estudo de violoncelo, no conservatório da cidade. Diplomado com loas, ganhou uma bolsa para prosseguir o aprendizado na celebérrima Schola Cantorum, de Paris (onde seu pai também estudara) e lá teve professores como Vincent D’Indy e Gian Francesco Malipiero. Tomou gosto pela música de câmara e, de volta à Veneza, fundou o quarteto de cordas I Vitoriale, com o qual viajou por toda Europa, alcançando sucesso e renome. No fim dos anos 20 ampliou seus horizontes profissionais partindo para a regência de ópera e orquestra sinfônica. Influência paterna: Antônio era consagrado maestro do Scala de Milão. Demonstrando talento invulgar, logo estava regendo temporadas líricas por todo o país. Apresentou-se em Milão, Veneza, Florença, Roma, Turim, e como já fizera antes, nas principais capitais do continente. O Scala, por sinal, acabou sendo divisor de águas para Edoardo, porque lá conheceu uma famosa harpista de Pádua, Elsa Martinenghi – quase um ano mais velha que ele, nascida em 27 de maio de 1898 – com quem se casou no primeiro lustro dos anos 30. Foram morar em Veneza, mas por compromissos profissionais de ambos em Milão, essa é a cidade em que nasceu o filho único do casal, que recebeu o bombástico nome de Gianfrancesco Sigfrido Benedetto Martinenghi Di Guarnieri.

Os Guarnieri estavam felizes e realizados, mas havia um grande problema: Benito Mussolini e o regime fascista, que contaminava a Itália. Como tantos artistas e intelectuais dos mais variados matizes culturais, Edoardo não tinha inclinações comunistas mas era um democrata de corpo e alma e deplorava qualquer tipo de repressão. Segundo Gianfrancesco, o filho único cujos depoimentos sobre o pai permeiam este texto, “a Itália estava rachada entre fascistas e anti-fascistas, isso sim. É claro que os anti-fascistas se aproximavam mais do que hoje conhecemos como esquerda. (...) Embora meu pai não tivesse nenhum posicionamento político, era muito consciente, sempre foi um homem que não se sujeitava a nenhuma espécie de autoritarismo. Então sua carreira sofreu muito naquele período justamente quando eu nasci”.

Começaram os boicotes e as perseguições. Bem-relacionada e menos visada, Elsa recebeu como um presente dos céus o convite da Rádio Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, para se apresentar no país que se mostrava uma belíssima alternativa ao casal em apuros. O Brasil também vivia uma ditadura, iniciada em 30, mas passava pela farsa do “período constitucional”, que dava a impressão de que aos poucos o país voltaria à normalidade democrática. Em 1935, quando o pequeno Gianfrancesco contava apenas um ano de idade, Elsa arrumou as malas e veio para o Brasil, deixando marido e filho na espera de boas novas. “Assim que chegou ao Rio de Janeiro”, conta Gianfrancesco, “ela estabeleceu muitos vínculos de amizade com os músicos cariocas. Tornou-se amiga íntima da cantora Gabriella Besanzoni Lage, que promovia algumas temporadas líricas na cidade”. E foi através de Gabriella – que na verdade era italiana como Elsa e estava no Brasil desde os anos 20, quando se casou com o milionário Henrique Lage – que a esposa de Edorado pôde, ao cabo de um ano, enviar ao governo italiano um pedido protocolar para que seu marido fosse contratado como regente da S. A. Teatro Lírico Brasileiro, sediada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, tendo Gabriella como estrela. Pediu também a transferência permanente dos Guarnieri para o Brasil. Como salienta Gianfrancesco, não se pode dizer que o alto escalão fascista tenha lamentado a partida do trio:

Para o governo italiano, era ótimo mandar embora do país todas as pessoas que fossem de esquerda. (...) Quando o convite formal para que meu pai viesse reger uma orquestra no Brasil finalmente chegou à Itália, o governo de Mussolini rapidamente autorizou a saída dele do país. Assim, seis meses após a partida da minha mãe, eu e meu pai embarcávamos no navio Conte Grande com destino ao Rio de Janeiro. Cheguei com dois anos e meio.

Edoardo desembarcou no Brasil com a fama relativa que granjeara na Europa e tornou-se amigo de figuras proeminentes da música e da elite cultural. Entre elas, Heitor Villa-Lobos. Em entrevista de 1949 ao Diário da Noite, Edoardo revelaria que sua admiração pelo brasileiro era anterior à sua saída da Itália: “Conheci Villa-Lobos, como compositor, muitos anos antes de eu vir para o Brasil. Suas obras eram muito mais conhecidas na Europa do que na sua pátria. Eu, que vivi na França e Itália, conheci o Brasil através da música desse grande compositor, isto durante a primeira grande guerra”. O italiano, que em 49 já era um dos dois ou três mais respeitados maestros do Brasil, não regateia elogios ao mestre brasileiro, e exalta a profissão de fé humanista que ambos compartilhavam:

A arte neste momento passa por um período mecânico, do qual o humanismo está completamente ausente. Neste momento, Villa-Lobos tem a coragem de não aderir a essa tendência e de fazer aquilo que é realmente arte, no sentido humano. Instintivamente, Villa-Lobos sente o momento histórico que está vivendo, e faz a exaltação de todos os anseios do homem em suas magníficas peças. É por isso que eu qualifico Villa-Lobos um dos pouquíssimos compositores cujo nome, devido a essa sua arte profundamente humana, se perpetuará. Realmente, Villa-Lobos é um dos maiores compositores contemporâneos. Sinto por ele profunda admiração. (Diário da Noite, 5/8/49)

Edoardo pesquisou a fundo nossa música e seu interesse transcendeu o aspecto artístico e penetrou no social, como era de sua índole. Diz Gianfrancesco: “Quando vim com meu pai, em 1936, ele teve um trabalho muito grande, tanto para a organização de orquestras como na defesa do músico brasileiro, do compositor nacional. Ele sempre se interessou muito pelos problemas dos músicos e da música no Brasil. Foi um grande batalhador”. Teve início ali a influência de um binômio fundamental na vida futura do filho: o amor pela arte e a consciência social. Mas naquele primeiro momento o que fazia a alegria do garoto Gianfrancesco era brincar com os pincéis da mãe, que pintava quando não estava ocupada com a harpa. Só que a brincadeira do garoto nada tinha a ver com pintura: “Havia um aparelho de rádio sempre sintonizado na Rádio Ministério da Educação, que mantinha uma programação de óperas. Eles transmitiam óperas completas e minha principal diversão na época era reger aquelas óperas elo rádio, usando como batuta um dos pincéis da minha mãe. Eu regia o rádio, mas na minha cabeça, sabe o que havia? Uma orquestra inteira!”

A ópera foi, efetivamente, o veículo que introduziu Gianfrancesco ao mundo da expressão artística:

Eu tinha uns três anos e meio quando meus pais começaram a me levar à ópera. Sempre nas matinês, porque à noite a entrada de crianças era proibida. (...) Eu ficava de pé, escondido no meio da orquestra, porque não podia assistir da platéia, era muito pequeno. Então eu ficava no meio dos músicos, em cima dum tamborete... Assisti o ciclo de Wagner inteirinho. E olhe que assistir Wagner de pé não é mole, não. E eu gostei demais. Tenho grande influência da ópera. Ópera foi uma coisa que me marcou muito. (...) Fui conduzido ao teatro através da expressão lírica que foi a ópera, uma coisa que muito me impressionou. (...) Era uma coisa maravilhosa, eu ficava encantado. As óperas se estendiam por horas e horas e eu ficava ali, quieto e fascinado. Acho que a grande influência na minha carreira foi a ópera. Na época eu não compreendia muito bem, mas sentia que já havia ali uma dramaturgia, eu sabia que havia uma história com começo, meio e fim.

Folha da Noite, 23/10/48
À parte toda essa fascinação, vale registro um comentário de Gianfrancesco que nos leva ao cerne do temperamento abrasivo e exigente de Edoardo: “Ele se cuspia no espelho. (...) Eu vi meu pai, depois de um concerto, no camarim, se olhando por uns dois minutos ao espelho. Em seguida, cuspir na imagem e berrar: ‘Che merda! Che merda! Che merda!!!’ (risos)”

Também é interessante verificar até que ponto o fascismo feriu a alma de Edoardo; ele, que quase tivera um ataque apoplético quando viu, pouco depois de chegar ao Brasil, a marcha de um grupo de integralistas – que macaquearam não só a ideologia fascista mas seu patético uniforme verde – naturalizou-se brasileiro em 1941 e tomou uma atitude de inusitada coragem, com o ingresso brasileiro no segundo conflito mundial, no ano seguinte:

Quando o Brasil resolveu entrar na Segunda Guerra Mundial, ele escreveu uma carta para o Getúlio Vargas, dizendo que estava disposto a pegar em armas para combater os alemães e italianos. Alguns dias depois recebeu um comunicado vindo das Forças Expedicionárias Brasileiras, que agradecia sua iniciativa, mas afirmava que não era o caso dele se alistar. Ele não foi para a guerra, mas começou a se envolver em política aqui mesmo. Melhor dizendo, em uma batalha pessoal da qual não se afastaria até seu último dia de vida. Havia naquela época, no Rio de Janeiro, uma base pequena ligada ao Partido Comunista que se empenhava em fazer pichações. Ele se uniu a este grupo e, após os concertos do Municipal, ainda vestindo a casaca de regente, saía para pichar os muros da cidade.

Edoardo na regência, Souza Lima no
Piano da PRA-6 da Rádio Gazeta
Dispensado honrosamente de servir no front italiano junto à FEB, Edoardo não recusou as ofertas que recebeu, na ocasião, de reger temporadas líricas tanto no OSSODRE (Orquestra Sinfónica del Sodre) de Montevidéu quanto no Teatro Colón, de Buenos Aires, o que fez durante os dois últimos anos da segunda guerra.

A rotina do casal Martinenghi Di Guarnieri – corrida e constante – torna plenamente compreensível o sentimento do filho Gianfrancesco, que anos depois diria que “não tive uma educação muito rigorosa mas também não fui paparicado. Tive quase tudo, mas nem sempre carinho”. Elsa e Edoardo não podiam parar. Trabalhavam para sobreviver. “Eles não me forçavam absolutamente a nada e procuravam sempre me satisfazer. Porém o trabalho exigia demais deles, então eu não tinha um convívio diário. Às vezes eu passava dias sem vê-los; eram ensaios, apresentações”...

Terminada a ditadura getulista, as ofertas profissionais no Rio escassearam. “Meus pais, durante algum tempo, ficaram fazendo ponte-aérea Rio-São Paulo, aqueles aviões da Panair, que eram terríveis”, conta Gianfrancesco. No fim dos anos 40 o casal foi definitivamente para a Paulicéia. “Meu pai já regia alguns concertos no Teatro Municipal de São Paulo e também os Concertos Dominicais da Rádio Gazeta”. O filho foi modesto; entre 1948 e 1950, Edoardo tornou-se diretor artístico da ALBA – Artistas Líricos Brasileiros Associados – criada sob os auspícios da primeira dama do Estado, Leonor Mendes de Barros – passou a fazer parte do corpo estável de maestros do Municipal e além dos tais “concertos dominicais” havia o “Roteiro Coral e Sinfônico”, “Noite na Ópera”, “Grandes Concertos” e o que aparecesse pela frente. Edoardo virou uma espécie de pau pra toda obra na popularíssima “orquestra PRA-6”, da Gazeta. No início de 1950 estava no ar pela emissora praticamente cinco dias por semana, fosse na “Cortina Lírica”, no “Soirée de Gala”, na “Sala de Concerto Schwartzmann”, nos programas patrocinados pelo Banco Francisco Amato e assim por diante.

 

Março de 1950 foi um mês fundamental. Primeiro porque o Departamento Municipal de Cultura, que estivera às moscas durante os primeiros três anos do governo estadual de Adhemar – que era quem fazia e desfazia na cidade e no Estado – mas agora engrenara sob a direção de José de Barros Martins, promoveu uma verdadeira maratona de concertos e sinfonias de Beethoven a ser realizada no Municipal, inteiramente sob a regência de Edoardo, acompanhado pela orquestra do teatro e tendo como solista o alemão naturalizado brasileiro Fritz Jank (1910/1970). O evento teve início no dia 3 e foi um sucesso retumbante.

Pau pra toda obra... Edoardo estava no ar praticamente todas as noites pela Gazeta...

Fritz Jank
E segundo porque no dia 10, o recém-empossado prefeito Linneu Prestes desengavetou e sancionou o Projeto de Lei 39 – 49, apresentado um ano antes pelo vereador Miguel Franchini, que instituía de uma vez por todas a Orquestra Sinfônica Municipal, o que significava dobrar o subsídio destinado à orquestra, aumentar os salários dos 90 músicos que a compunham e efetivar esses mesmos músicos, que até o momento trabalhavam por contrato e podiam ser dispensados de uma hora para outra.

A vitória era completa para Edoardo, porque além de ver melhorar a situação de seus colegas, a chamada “Lei Franchini” nomeou cinco diretores efetivos para a orquestra: João de Souza Lima, Mozart Camargo Guarnieri, Armando Belardi, Zacarias Autuori e o próprio Edoardo. Na sexta-feira, 24 de março, Edoardo subiu ao palco do Municipal para reger duas peças de Beethoven: a abertura de Coriolano, o Concerto n°3, op. 37 em dó menor e a 6ª Sinfonia, chamada “Pastoral”, com Jank e a Orquestra Sinfônica Municipal.

Na platéia, o escritor modernista Menotti Del Picchia (1892/1988), que na época era colunista do jornal A Gazeta e escrevia sobre teatro, literatura e demais assuntos ligados à arte. Embevecido com o que presenciou naquela noite, o célebre homem de letras eternizou suas impressões em uma coluna que trazemos ao lume depois de 63 anos.
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O REGENTE

Especial para A GAZETA, por MENOTTI DEL PICCHIA, da Academia Brasileira de Letras

Os músicos entraram com seus instrumentos, sentaram-se junto das estantes semeando de manchas pretas e de violentas cintilações de metal sob os focos das luzes o palco enorme. Uma inquietação de estranhos besouros serrando com seus ferrões pedaços de madeira agita o bando: são os violinistas que movem os arcos afinando os instrumentos. Uns músicos voltam as páginas da partitura e os caracóis metálicos dos trombones e das trompas se engancham nos smokings negros como anéis de serpentes de prata em troncos requeimados. Sons desarmônicos – miados de gatos, urros cavos de leões em grutas, pios de pássaros de par com pigarrear de gargantas gripadas – colore de uma pitoresca mistura acústica o ambiente onde a platéia, como um grande monstro, respira e tosse, aguardando com ânsia reprimida o início do concerto.

Baixam as luzes do recinto. Entra o regente!

Essa entrada é sempre espetacular. Lembra a aparição do toureiro que vai trabalhar a fulva fera. A fera é a platéia, que ele terá que dominar, entreter, bandarilhar com emoções e ferir mortalmente com os finais patéticos. Ele sabe qual a responsabilidade da batalha. Entra preocupado, com as maxilas apertadas, o que faz franzir seus lábios como se sorrisse forçadamente. É alto, magro, elegante. A casaca de abas compridas esvoaça ao seu passo nervoso e rápido, e ele lembra uma longa “tesoura” negra, dessas que mexem as duas móbeis penas da cauda quando pousam num beiral. As palmas explodem. E ele é o dominador! Voltou-se, do seu estrado para a platéia, tem a fronte pensativa, larga, onde a luz de um farolete aceso bem no alto da cena se desintegra, polarizando ali halo como se fora a fosforescente expressão do seu pensamento.

O bando dos músicos ficou como que congelado nos seus bancos. Estão todos eles imóveis, estatuados com seus instrumentos em posição de dar início à sinfonia. Todos os violinistas têm o violino sob o queixo, a mão a segurar o arco e todos os arcos juntos fazem um desenho simétrico, a dar a impressão de que aqueles músicos foram fabricados em série. Atrás, as colunas coríntias dos braços altos dos contrabaixos. Mais para trás, ainda, o bombo, os pratos, as timbales, os trombones, as trompas. Tudo está pronto. No silêncio que se fez, se ouviria o tic-tac de um reloginho de pulso.

Atenção! O regente ergue a batuta. Parece um mágico levantando sua varinha de condão e que vai realizar um prodígio. Todos estão suspensos – músicos e platéia – naquela varinha. Uma ânsia anelante está no ar, as respirações param. Subitamente, como um estrondo, a orquestra rompe, triunfal, a sinfonia.

Começa o milagre. O regente, com a máscara de quem está em transe mediúnico, transfigura-se. Está longe, no mundo maravilhoso das harmonias. Não se sabe se aquele rosto convulso, cataléptico, sofre ou goza: há uma ausência nele como se a alma lhe houvesse passado toda para as mãos, para os dedos nervosos, sensíveis como antenas, inquietas como borboletas. Eles começam a plasmar a música, a modelá-la como se fossem dedos de escultor e os sons material dócil e plástico, moldável aos seus movimentos. Pega essa massa acústica e afina-a num fio longo, torcido numa espiral luminosa, como se se tratasse de um pingo de vidro mole, desses que os mestres vidreiros de Murano filigranam em arabescos encantadores. Bruscamente lhe dá corpo, torna-a espessa, imponente, poderosa e elétrica, como o bojo negro de uma nuvem de tempestade. A varinha mágica continua a realizar prodígios. O regente multiplica-se em gestos, se estorce como um faquir em espasmos, agride a orquestra com gestos violentos de espadachim que quer atravessar algo com sua espada, ou se acalma, beatífico, embolado por um ritmo celeste, na ondulação lírica de um pianíssimo... Coisas prodigiosas nascem desses sons: flores, Campinas, pastores tocando cornamusas, amantes se beijando entre moitas de violetas, nuvens se estriando em céus irisados, gotas de chuva pingando das copas, águas de riachos cantando entre rebanhos belantes... A Pastoral de Beethoven!

Menotti Del Picchia
Aí está no que pensei vendo o grande regente Edoardo de Guarnieri nos dar uma das suas magistrais edições de Beethoven, tendo como companheiros de aventura o meu caro amigo Fritz Jank e a querida Orquestra Sinfônica, hoje oficializada, com cinco maestros, como se fosse uma composição de oitenta vagões com cinco máquinas puxando. No Brasil é assim: oito ou oitenta!
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Gianfrancesco e seu pai Edoardo
Pelos dez anos seguintes Edoardo viveu o fastígio de sua profissão. Preparou e regeu as primeiras apresentações mundiais das óperas como Izaht e A Menina das Nuvens, de Villa-Lobos, e Maria Petrowna, de João Gomes de Araújo. Depois de mais de 15 anos voltou a trabalhar na Europa, regeu na Polônia, na Tchecoslováquia e realizou extensa agenda de apresentações na União Soviética. Dirigiu Renata Tebaldi, Fedora Barbieri, Tito Schipa, Bidu Sayão, músicos como Arnaldo Estrella, Anna Stella Sehie e Rostropovich. Recebeu o prêmio das Associações de Críticos Teatrais de São Paulo e Rio inúmeras vezes, deu aula de música e além de maestro do Municipal, tornou-se assessor técnico do Departamento de Cultura. No meio de tudo isso, o filho único saiu sorrateiramente de sua asa e virou ator. Pouco depois escreveu uma peça – Eles não usam Black-Tie, em 58 – e emplacou um sucesso que o levou ao olimpo do teatro brasileiro. O pai acompanhou de perto o namoro do menino com a dramaturgia, desde a infância, quando chegou até a ser expulso de uma escola por escrever um texto que os padrecos do educandário consideraram subversivo, mas não havia nada que o preparasse para o que aconteceria com seu filho. Eis o que ficou na lembrança de Gianfrancesco, anos quase 50 anos depois:


Miriam Mehler e
Gianfrancesco Guarnieri
em cena de Eles não usam Black-Tie

Meus pais ficaram muito orgulhosos com o sucesso da peça. Meu pai, principalmente, com quem eu compartilhava um objetivo de vida: o de lutar contra as injustiças sociais. Ele gostava do que eu fazia, bem antes do Black-Tie, até o teatro do colégio no Rio, das pecinhas que eu escrevia por lá. Meu pai sabia que, de alguma maneira, ele tinha me tirado da música, mas não sabia que rumo minha vida tomaria. Quando ele viu o êxito da montagem, é como se dissesse que eu estava preparado para fazer outras coisas. No fundo, acho que ele sentia um orgulho tamanho do Black-Tie que é como se a peça tivesse sido escrita por ele.

Não é exagero dizer que o golpe de 64 foi mortal para Edoardo. Não só porque ia contra tudo que ele acreditava e era a verdadeira negação de um sacerdócio democrático e humanista que ele e o filho haviam abraçado fervorosamente, mas porque consistia na reprise odiosa de um estado ditatorial que o fez abandonar seu país, que ele encontrou em pleno vapor no Brasil (embora aplacado momentaneamente pela participação brasileira junto aos aliados) e que agora tentava se reinstalar. Era o recomeço de um pesadelo de perseguições e ameaças. Gianfrancesco fugiu para a Bolívia com Juca de Oliveira. Voltou quando ouviu, numa rádio de La Paz, que o pai fora preso e levado ao DOPS. A prisão ocorreu mesmo, mas durou apenas algumas horas. Pai e filho não tiveram outra alternativa senão continuar trabalhando. O desgosto, contudo, de ver o Brasil mergulhar novamente nas trevas de uma ditadura, minou a saúde do velho maestro.

Regina Duarte e Gianfrancesco em
"O Terceiro Pecado"
Em 25 maio de 1968, Edoardo foi ao Municipal para presidir uma banca que examinaria candidatos ao preenchimento de algumas vagas na orquestra sinfônica, em especial a do maestro russo Leon Kanievsky, que teria de se ausentar do país. Era tarefa a que Edoardo se entregava com afinco e dedicação, pois gostava de incentivar os novos músicos e homenagear os mais velhos, seus contemporâneos e companheiros que iam deixando a orquestra. Ao subir as escadarias do teatro, sofreu um aneurisma e caiu. Foi imediatamente acudido por pessoas próximas e levado ao pronto-socorro municipal, no Pátio do Colégio. Não resistiu. Morreu momentos depois. Completara 69 anos pouco mais de um mês antes. Sucedeu, então, a mais agridoce das coincidências; seu filho Gianfrancesco, na época, protagonizava com Regina Duarte a novela O Terceiro Pecado, de Ivani Ribeiro, na qual fazia o papel do Professor Alexandre, que era, na verdade, o mensageiro da morte. Ele recebeu a notícia em meio a uma gravação e não teve tempo de se trocar. O resultado é que não só foi paramentado de mensageiro da morte ao pronto-socorro, como ainda precisou, por um desencontro qualquer da funerária, dirigir o féretro até a Biblioteca Municipal, em cujo saguão o corpo de Edoardo foi velado, por todo aquele sábado. Na década de 90 Gianfrancesco contou ao programa Vídeo Show, com um sorriso de saudade, os olhares de pânico e estupefação que provocou em transeuntes que não reconheciam a ele, mas ao personagem, dentro do automóvel fúnebre.


Mozart Camargo Guarnieri
Edoardo deve ter sido um piadista incorrigível, porque essa não foi a única das situações de inesperada hilariedade provocadas por sua morte. Eis mais um fato, este pela primeira vez contado ao público paulista: por uma ironia do destino, Edoardo Di Guarnieri e Mozart Camargo Guarnieri tinham o mesmo sobrenome, basicamente a mesma formação artística, eram maestros, estabeleceram suas carreiras nos anos 30 e trabalhavam nos mesmos lugares, ou seja, os teatros municipais de São Paulo e Rio. Natural, portanto, que o público julgasse que eram aparentados, o que não o eram. Havia, porém, a mais sólida das amizades entre o veneziano Edoardo e taubateano Mozart. Em novembro de 1962, por exemplo, o governo carioca promoveu a divertida reunião dos Guarnieri na récita única da ópera Um Homem Só, que teve música de Camargo Guarnieri, libreto de Gianfrancesco Guarnieri e regência de Edoardo Di Guarnieri. Só quem estava lá (como Cecilia Thompson, na época esposa de Gianfrancesco), sabe a confusão em que estava o público, certo de que via uma ópera composta pelo pai, escrita pelo sobrinho e regida pelo primo, e variações de toda sorte. A questão é que quando morreu Edoardo, o lendário Correio da Manhã carioca – fundado em 1901 por Edmundo Bittencourt e que contara, um dia, com totens como Ruy Barbosa em seu time de redatores – já no triste processo de decadência que levaria à sua extinção, seis anos depois, não teve dúvidas e matou Camargo Guarnieri!

O esplêndido quiproquó com os Guarnieri: o Correio da Manhã anuncia a morte de Camargo Guarnieri, e o próprio segura uma das alças do caixão de seu amigo Edoardo...

Em sua edição de 26 de maio o jornal noticiou a morte de Camargo Guarnieri, com direito à biografia e tudo mais. O público carioca, além da tristeza pelo passamento do competente maestro e compositor, deve ter perguntado por que cargas d’água o taubateano seria enterrado em Guarulhos. Mas o susto mesmo teria vindo se morassem na Paulicéia e pudessem ler o Diário de S. Paulo do dia 28, que mostrou a saída do caixão do saguão da Biblioteca Municipal para o cemitério de Guarulhos – cidade onde Edoardo residia há alguns anos – tendo a primeira de suas alças carregadas por ninguém menos do que o “defunto” Camargo Guarnieri, que para o bem da música e do Brasil, viveu bem e saudável até 1993. Já do Correio da Manhã não veio sequer uma errata, dias depois.

Gianfrancesco vela o pai (Diário Popular, 26/5/68)
Em sessão da Câmara Municipal de São Paulo, de 4 de junho de 1968, o vereador Benedicto Rocha, do MDB, fez um bonito elogio de Edoardo, e concluiu, dizendo:

A sua vida e a sua obra serão exemplos a estimular e a orientar os novos artistas. Elas valem por grandes serviços prestados à cultura nacional que terão continuidade, não apenas nos seus exemplos, mas nas atividades artísticas de seu filho, o jovem teatrólogo Gianfrancesco Guarnieri, que de seu pai herdou não somente a vocação, mas um grande e devotado espírito público.

A Sérgio Roveri Gianfrancesco foi taxativo: “Meu pai morreu um pouco de tristeza. Ele não agüentava ver a repressão que se instalou após o golpe militar de 64. Minha mãe se deixou levar quatro anos mais tarde, é como se tivesse optado por ir aos poucos”.

Sobre os pais de Gianfrancesco, eis o que disse Roveri, na introdução do livro que contém sua longa conversa com ele:

Artistas renomados, libertários e inimigos de qualquer regime que fizesse vistas grossas às desigualdades sociais, Edoardo e Elsa exerceram uma influência arrebatadora sobre a vida e a dramaturgia de Guarnieri. Transmitiram a ele não só o amor pela arte – primeiro a música, e depois o teatro – mas também uma semente de inquietação social, uma obsessão quase que genética pela defesa das liberdades individuais.

No encerramento, nada de apologias. Não era o estilo de Edoardo. Deixemos o próprio encerrar, com palavras que transbordam sua filosofia de vida e tudo aquilo no que ele sempre acreditou:

A música não deve atingir apenas a um pequeno grupo de iniciados. Sendo uma linguagem que evolui, inspira-se ela na vida dos homens. Deve falar a todos das alegrias, das dores, das angústias, enfim, de tudo o que diz respeito à sensibilidade humana e à realidade do período histórico na qual é transmitida, proporcionando beleza, serenidade, amor e o otimismo tão necessário à humanidade que luta, que sofre, que se debate. Obtém, assim, a música, o que é fundamental para todos os homens: paz e serenidade. (Diário de S. Paulo, 26/5/68)
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BIBLIOGRAFIA:

  • Khoury, Simon. Atrás da Máscara 1 – Segredos Pessoais e Profissionais dos Grandes Atores Brasileiros. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1984.
  • Roveri, Sérgio. Gianfrancesco Guarnieri. Um Grito Solto no Ar. São Paulo, Imprensa Oficial, 2004.
  • Correio da Manhã
  • Diário da Noite
  • Diário Popular
  • Folha da Noite
  • O Estado de S. Paulo
  • Última Hora
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Ver também:

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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia - Vol. 1 - "Um Moço Bem Velhinho"

         A Biografia Definitiva de Jânio - Parte I

O leitor deste livro, fruto de treze anos de pesquisas, acompanha a descrição envolvente, magnética, da juventude de Jânio, como nunca antes havia sido feita. (...) Quem quiser, a partir de agora, conhecer a fundo a vida de Jânio da Silva Quadros e a sua época, os seus contemporâneos, precisará ler o livro de Bernardo, sob a pena, se não fizer isto, de se tornar omisso, lacunoso, mal informado.

Fernando Jorge

Acompanhei atentamente os dez últimos anos de vida de Jânio. Desde sua derrota na eleição de 1982 para o governo de São Paulo, quando ficou atrás de Montoro e Reinaldo de Barros, passando por sua inexplicável indecisão em 84, período em que o Brasil inteiro se uniu pelas Diretas-Já e em seguida por Tancredo; sua brilhante eleição no ano seguinte, derrotando um super-confiante Fernando Henrique Cardoso, sua atuação na sucessão de Montoro, em 86, na qual prometeu apoio a Quércia, Ermírio e Maluf, não apoiando nenhum; seus três anos de mandato, sua complicada sucessão, em 88, dividindo-se entre Leiva e Maluf, abrindo caminho para Erundina; sua quase candidatura em 89, o começo do fim com os constantes AVCs, a despedida da política, o apoio a Maluf e a Aureliano, e mais tarde a Collor, no segundo turno; o declínio progressivo em 90, o apoio final a Fleury e a morte de Dona Eloá.

Daí em diante sentiu que a vela de sua vida – como ele mesmo dizia – “bruxuleava”. Era um espectro, uma sombra esmaecida e distante do que fora um dia. Aqui e ali os jornais davam notícias de suas repetidas internações. Foi desaparecendo. Jânio já não existia mais. Sua morte, em fevereiro de 1992, só veio encerrar de vez aquilo que terminou com a morte de sua esposa.

Em 1991, a professora Vera Chaia lançou em livro sua tese de doutorado sobre a “liderança política” do mato-grossense (A Liderança Política de Jânio Quadros – 1947/1990. Ibitinga, Humanidades, 1991), analisando a atuação do político pelos diferentes cargos públicos que ocupou. Vera chegou a contatar a assessoria de Jânio para um possível encontro; o ex-presidente não era refratário a conversar com estudantes (sobretudo se fossem mulheres) e dera, no passado, uma proveitosa entrevista a Miriam Limoeiro Cardoso, que preparava uma tese comparada sobre a economia nos governos de Jânio e Juscelino (Ideologia do desenvolvimento – Brasil: JK/JQ. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2ª ed. 1978). Como a pesquisa de Vera ocorreu entre o fim do mandato na prefeitura e os primeiros problemas de saúde, o pedido foi negado. 


Seu trabalho de pesquisa, não obstante, é de alta qualidade e contou com os depoimentos de alguns janistas históricos, como J. B. Vianna de Moraes e Jair Carvalho Monteiro, assessores da segunda prefeitura de Jânio, como Alex Freua e Wilson Pereira, e até de um célebre contemporâneo de faculdade e de política, Ulysses Guimarães. Presa, porém, ao tema que escolheu e às limitações de um trabalho acadêmico, Vera não chegou a escrever um livro compreensivo e definitivo sobre o ex-presidente. Lamenta-se, por sinal, que não tenha partido para uma iniciativa de maior fôlego, considerando que na época em que realizou sua pesquisa, muitos dos maiores amigos, colegas e correligionários de Jânio ainda estavam vivos e bem. É a mesma sensação de oportunidade perdida que se tem ao compulsar o trabalho acadêmico de Regina Sampaio sobre Adhemar e seu partido (Adhemar de Barros e o PSP. São Paulo, Global Editora, 1982), cuja lista de depoentes inclui notáveis protagonistas da história, como Lucas Nogueira Garcez, Conceição da Costa Neves, Paulo Lauro, Erlindo Salzano e Mário Beni.

Morto Jânio em 92, por toda a década seguinte foram poucos os livros que apareceram para jogar alguma luz sobre a lendária figura do ex-presidente. Em 1996 vieram três de uma só vez: A Renúncia de Jânio (Rio de Janeiro, Revan, 1996), o tão esperado “livro-confissão” que Carlos Castello Branco só permitiu que lançassem após seu falecimento, e que pouco ou nada esclareceu. Foi escrito no primeiro lustro da década de 60 e tem o mérito único de trazer a visão do próprio Castelinho acerca de todo o episódio da renúncia, sem no entanto explicá-lo, que era o que todos esperavam. Também decepcionante é Jânio Quadros – Memorial à história do Brasil (São Paulo, Rideel, 1996), coleção caótica de artigos de e sobre Jânio, cujo ponto alto é o texto de recordações do neto do ex-presidente. O melhor deles é o terceiro, justamente o que não se pretende nem analítico e nem biográfico: Viagem com o Presidente Eleito (Rio de Janeiro, Mauad, 1996), de Joel Silveira, no qual o saudoso jornalista consigna, com talento e graça, as recordações da viagem que fez com Jânio logo após a eleição de outubro de 1960.

A eles podemos acrescer trabalhos pequenos mas bem-intencionados como os de Marcone Formiga (Jânio – Herói ou bandido? Brasília, Dom Quixote, 1992) e Arnaldo Lacombe (Jânio Quadros – A Renúncia e os Governos Militares. São Paulo, Legenda, 1998), livros de escopo mais amplo como o Testemunho Político, do jornalista Murilo Melo Filho (Rio de Janeiro, Bloch, 1997), fantasias bem-humoradas como Uma vassoura na história do Brasil, de Cleiber de Andrade (Belo Horizonte, Consórcio Mineiro de Comunicação, 1998), até as “Memórias”, que podem ser mais ou menos reveladoras, de Roberto Campos (A lanterna na popa. Rio de Janeiro, Topbooks, 2ª ed. 1994), Abreu Sodré (No Espelho do Tempo – Meio Século de Política. São Paulo, Best Seller, 1995), Júlio de Sá Bierrenbach (1954/1964 – Uma década política. Rio de Janeiro, Domínio Público, 1996), Mário Martins (Valeu a Pena. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996), Toledo Piza (Por quem morreu Getúlio Vargas. Rio de Janeiro, Ampersand, 1998) e poucos outros.

Foi a essa altura, no fim daquela década que se iniciou com as mortes de Jânio e de Ulysses, que comecei a estranhar a inexistência de um trabalho longo e detalhado sobre o presidente que renunciou. Por que um personagem tão fascinante, com um vida tão rica, tão cheia de fatos interessantes, misteriosos, emocionantes e anacrônicos, estaria relegado ao esquecimento? O general Castello Branco foi objeto das ótimas biografias complementares de Luiz Vianna e Foster Dulles; JK deixou vários volumes de memórias, além de ter sua infância e juventude esquadrinhada com a competência e a erudição tradicionais de Francisco de Assis Barbosa; até Costa e Silva mereceu um estudo bastante respeitável, da autoria de Jayme Portella. Para o “homem da vassoura”, entretanto, só havia lugar nos anedotários, no folclore, na área humorística da história. Percebi aos poucos que a escassez de estudos profundos sobre a vida de Jânio não era apenas fruto da preguiça dos historiadores, mas de uma rematada má-vontade com sua figura política.


Jânio não estava sendo só ignorado na escolha de personagens históricos a serem biografados; o pouco que se contava de sua história vinha sempre eivado do ressentimento de seus adversários e do desprezo da geração que o sucedeu. E a maioria dos escritores (jornalistas ou sociólogas, visto que a rigor, nenhum historiador se debruçara, ainda, sobre a vida de Jânio) que ocasionalmente falava do ex-presidente não conseguia transcender sua própria orientação política e carregava para seus textos um teor vingativo. No fito de punir o mato-grossense pelas eventuais posições mais reacionárias tomadas durante sua vida pública, ou por simples antipatia pessoal, ignoram-no ou perpetuam-no em livro com a imagem de palhaço, de alcoólatra ou de reles desequilibrado mental, sem ressaltar suas múltiplas qualidades. Essa injustiça não provoca danos somente ao estabelecimento da história do mato-grossense, mas ao estudo de nossa história republicana. Embora nascido no Mato Grosso, Jânio é o político mais representativo e importante de São Paulo na segunda metade do século XX. A partir do estudo de sua vida, contudo, é possível mapear os momentos mais marcantes de todo esse último século.

O tio de Jânio, Miguel Quadros, participou da campanha civilista de Ruy Barbosa em 1909; Gabriel Quadros (pai de Jânio) foi estudante da primeira turma de agronomia da Universidade do Paraná, reduzida a ¼ pela gripe espanhola; foi ligado pessoal e profissionalmente a Affonso Alves de Camargo e teve que sair do Paraná com a família, em direção a São Paulo durante o golpe de 1930 por ter ligações históricas com o PR paranaense. Fugiu da polícia de João Alberto Lins de Barros no Paraná e fugiu novamente em 31, já em São Paulo, rumo a Cândido Mota. Durante a Revolução de 32, Gabriel pertenceu ao MMDC no posto de tenente-médico (o mesmo de Adhemar e Juscelino); Jânio estava na tradicionalíssima Faculdade de Direito do Largo São Francisco durante a intentona comunista de 35, o golpe do Estado Novo e o putsch integralista de 38. Era simpatizante do PRP e da candidatura de José Américo, caso ela tivesse ocorrido. Estava no último ano do curso quando estourou a grande guerra; empregou em seu escritório um nissei que perdera seu trabalho em virtude da animosidade com o Japão; ele próprio começou a trabalhar no prestigioso Dante Alighieri, que cuidadosamente ocultava sua origem italiana sob o nome temporário de “Colégio Visconde de São Leopoldo”.

Com o fim da ditadura getulista Jânio se integra instantaneamente ao novo movimento político que começa a tomar forma; tem duas experiências partidárias (UDN e PPS) em 1945, entregando-se de corpo e alma à campanha de Eduardo Gomes. Assiste – frustrado por estar do lado de fora – a Constituinte e as eleições estaduais de janeiro de 1947. Candidata-se, finalmente, pelo PDC à Câmara Municipal de São Paulo, em uma das mais conturbadas eleições municipais de todos os tempos, e inicia sua vida pública. Estava ligeiramente atrasado em relação aos políticos com quem roçaria ombros ou terçaria armas durante as décadas de 50 e 60: Adhemar já fora deputado estadual, interventor, e ocupava o governo de São Paulo pela segunda vez; Juscelino chefiara a Casa Civil da interventoria de Benedito Valadares, fora nomeado prefeito de Belo Horizonte e exercia pela segunda vez o mandato de deputado federal. Carvalho Pinto, economista e advogado, já era considerado um papa das finanças municipais a partir da prefeitura de Abrahão Ribeiro. Carlos Lacerda, três anos mais velho que Jânio e filho de um dos mais proeminentes políticos da República Velha, tem no início de sua vida pública um detalhe dos mais interessantes: flertara com o comunismo, fincara o pé no jornalismo e em janeiro de 1947 se elegeu vereador pelo Rio de Janeiro. Apenas onze meses depois, em 16 de dezembro, renunciou a seu mandato, reclamando da falta de autonomia do Distrito Federal e acoimando a Câmara de “dispendiosa inutilidade”. Teria Jânio – que por essa época já era vereador diplomado, a poucos dias da posse – tomado conhecimento da atitude de seu colega carioca?

Nesta investigação inédita sobre a juventude de Jânio, e o caminho trilhado por ele para se tornar o maior fenômeno da política brasileira no século XX (bem como os próximos volumes, que cobrirão detalhadamente a existência do mato-grossense até sua morte), mais de 600 livros foram consultados, milhares de edições de jornais de oito décadas diferentes, documentação até hoje desconhecida e entrevistas com mais de 130 pessoas. Foi, portanto, fundamental ter começado a pesquisa ainda em 1998, porque as experiências do ex-presidente na infância e na juventude, detalhadas neste primeiro volume, só poderiam ser contadas, ou confirmadas e enriquecidas, por testemunhas oculares, esses depoentes preciosos, basilares que tive a sorte de encontrar, cheios de disposição, na faixa dos 80 e 90 anos. Desnecessário dizer: 90% deles não haviam sido procurados jamais para falar sobre Jânio. E a partir deles é que se desenrola toda a trama de uma vida que percorreu 75 anos, 42 dos quais, dedicados exclusivamente à política. A dezenas delas recorri mais de uma vez, a outras tantas recorri mais de dez vezes e a um grupo mais limitado, venho recorrendo há mais de dez anos, sempre que preciso de informações.

Num primeiro momento posso citar a importância fundamental de pessoas como a prima-irmã de Jânio, Clotilde de Quadros Cravo, cuja memória perfeita para nomes e datas envolvendo sua família me ajudou sobremaneira nas lacunas inevitáveis de uma pesquisa que há muito deveria ter sido feita. Lícia, Maria de Lourdes e Maria do Carmo da Silva Vendas, três sobrinhas de Leonor, mãe de Jânio, da mesma forma, uniram esforços e me deram belíssimos depoimentos, no Rio de Janeiro, esclarecendo questões jamais levantadas sobre a desconhecida origem da família Silvano da Silva. E como não falar de meu querido e saudoso Glaucus Quadros, filho de Miguel – o tio querido e admirado por Jânio – que esteve, ainda criança, junto ao pai em momentos decisivos, inclusive instantes após o atentado covarde que o matou, no próprio dia em que eclodiu o golpe do Estado Novo?

Glaucus foi testemunha das brigas horríveis de Jânio e seu pai, viu os preventórios de Gabriel – popularmente conhecidos como “lava-pau” – no Bom Retiro, os porres homéricos de Jânio na casa dos amigos, o tratamento autoritário dele com Eloá e as preocupações que isso causava aos pais da moça. E, se isso não fosse suficiente, era irmão mais novo de Jacyr, filho primogênito de Miguel, e único primo a quem Jânio realmente estimava.

João Brasil Vita e seu irmão Fiore me levaram às peladas que a mocidade do Cambuci promovia no campinho da vizinhança; Ruth Prado me provou que Jânio amou e teve seu coração partido antes de conhecer Eloá; Anis Aidar e José Lourenço me transportaram, com seus depoimentos, ao bonde que os levava de suas casas até o Arquidiocesano, que na época ficava em frente à Estação da Luz; Francisco Ladeira chegou a conhecer a clínica de abortos de Herculano, irmão de Gabriel; Hilário Torloni por pouco não estagiou com o pai de Jânio na zona do meretrício, junto a outros estudantes de medicina; Sebastião Giraldes, Granadeiro Guimarães e Octavio Machado de Barros lembravam vivamente de seus tempos de “Sanfran”, da avareza de Jânio no jogo de cartas ao tapa-olho que foi obrigado a usar nos primeiros meses de curso; J. Pereira o viu professorar, Heloisa Selmi-Dei foi sua aluna e quem o apresentou a seu pai, Roberto Selmi-Dei; José Yamashiro foi seu colega de escritório e cabo eleitoral; a viúva de Afrânio de Oliveira, Vera, e a filha de Quintanilha Ribeiro, Maria Luiza, falaram com carinho e saudade da ligação umbilical de Jânio com esses, que foram dois dos maiores companheiros do “homem da vassoura” desde os bancos universitários; Nicolau Tuma e seu pai, José, contaram cédulas da eleição à Câmara com Jânio e Gabriel; Décio Grisi e Jânio se abraçaram em plena Praça Clóvis Bevilaqua quando descobriram que estavam eleitos... fatos extraordinários, lembranças ricas, esclarecimentos e correções.

Acima de tudo, o INEDITISMO. A vida de Jânio nunca havia sido pesquisada exaustiva e criteriosamente. Sua história começa a ser contada agora, com o lançamento desta biografia, 96 anos depois de seu nascimento e 21 anos depois de sua morte.


Jânio, presidente da República, visita o Arquidiocesano e conversa com um de seus velhos professores, o Irmão Amandino. Logo atrás do padre, sorrindo, está José Lourenço. (foto: Memorial Arquidiocesano)

O autor e a filha de Jânio

No mais, só posso agradecer a Oscar Pedroso Horta Filho pela fidalga gentileza, o bom humor e a paciência evangélica com que sempre me atendeu desde o início da pesquisa, e a Fernando Jorge, a quem Jânio disse, em carta, que “se vai ser o meu biógrafo asseguro-lhe que meus ossos dormirão em paz”. O grande escritor, o maior de nossos historiadores, cedeu-me essa tarefa e ainda me honrou com prefácio que me lisonjeia e enriquece meu trabalho.

Gratidão imensa e amizade fraterna me ligam à Ana Laura Quadros Gomes, sempre solícita, gentil e atenciosa nas diversas vezes em que recorri à sua ajuda. Foi elo valioso e indispensável no contato com sua mãe. Aproveito, assim, o ensejo para enviar meu melhor agradecimento à Dirce “Tutu” Quadros. A filha de Jânio foi de uma sinceridade constante e absoluta em seu depoimento – o único que deu até hoje, desde a morte de seu pai – e em momento algum se evadiu de qualquer pergunta minha, mesmo quando o assunto não fosse agradável. Tutu sempre soube da importância de seu depoimento e só concordou em me receber depois de muitas conversas, e a certeza de que meu trabalho primava pela imparcialidade, pelo bom senso e pela ambição única de contar, enfim, a história de Jânio, sem omissões e sem distorções.

Leia a PARTE 2
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Bernardo Schmidt
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