Mostrando postagens com marcador Kristen Stewart. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Kristen Stewart. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Minestrone Cultural XV


O PATATIVA

Mais textos deste blog sendo usados em teses de mestrado e doutorado. Neste caso, da UFU e da UFMG. O ego agradece.



COLETTE (2018)

Achei curioso que Glenn Close tenha sido indicada para o Globo de Ouro pelo filme "The Wife" e nem um pio foi dado sobre "Colette", com Keira Knightley. Não é desdouro nenhum à magnífica Glenn Close, a quem que considero a melhor atriz norte-americana viva, mas ao fato de que são dois filmes basicamente sobre o mesmo assunto: uma mulher que trabalha como ghost-writer do marido, fazendo dele um escritor consagrado. Com uma simples diferença: a história de Colette é real. É a história da escritora francesa Sidonie Gabrielle Colette (1873/1954), que começou escrevendo livrinhos picantes sobre a adolescente Claudine (para agradar a clientela vulgar e ignorante do marido), que se transformaram em verdadeira coqueluche na Paris do início do século XX. Mais tarde, livre do marido inútil e perdulário - a quem deixou por outra mulher - e escrevendo sob seu próprio nome, ela se tornou a escritora mais famosa da França, além de um ícone da liberdade sexual.

O filme é interessante e dinâmico. Keira Knightley está bem, assim como Dominic West e todo o elenco. Mas em se tratando de uma escritora tão célebre e socialmente tão avançada e progressista, eu desejaria que o trabalho tivesse sido mais profundo. Tal como é contada, a história dá uma sensação de que foi tudo preto no branco, se encaixou perfeitamente e acabou. E não foi assim. A vida de Colette foi muito mais complexa e interessante. Um roteiro menos raso e pelo menos meia hora a mais de filme teriam feito a diferença. Mas é entretenimento de primeira.

Recomendo, sobretudo nestes tempos de efervescência LGBT.

PS: Roberta, começou a temporada 2019 de prêmios cinematográficos, rs. (6/12/2018)

2x LIZZIE

A história real da norte-americana Lizzie Borden, que no fim do século XIX foi acusada de assassinar o pai e a madrasta a machadadas já foi retratada por Hollywood algumas vezes. Há duas versões mais conhecidas: a de 1975 feita para TV, dirigida por Paul Wendkos e estrelada pela linda e saudosa Elizabeth Montgomery, e uma versão que acaba de ser lançada no cinema, produzida e estrelada por Chloë Sevigny com direção de Craig William Macneill.

Também são duas as maneiras que existem de se realizar um filme sobre Lizzie (e sobre qualquer fato verídico): tomando por base a documentação existente e utilizando uma licença poética aqui e ali; ou pura e simplesmente ignorando tudo isso e enveredando pela ficção. Ambas são válidas, e a segunda tem grande potencial artístico quando se trata de um personagem que já está distante no tempo. O problema é que Lizzie não está tão distante assim e ainda que existam lacunas abismais sobre o duplo assassinato e seja, efetivamente, um caso não resolvido, os autos do inquérito e a cobertura da imprensa são copiosos e o espectador curioso vai saber quando o roteiro estiver invadindo o terreno da invencionice.

Kristen: Bridget
Conseqüentemente, são duas as formas de analisar esses filmes: leva-se em conta a fidelidade àquilo que é real e comprovado ou passa-se o largo disso e a análise se limita ao mérito artístico. Os dois filmes sobre Lizzie se enquadram perfeitamente nessa dicotomia. "Lizzie", de 2018, roteirizado por Bryce Kass, traz como fio condutor da trama o suposto romance de Lizzie com a empregada Bridget, que no filme é interpretada por Kristen Stewart. Lizzie tem uma vida infeliz; está com 32 anos e é solteira, epilética, é desprezada pela madrasta (Fiona Shaw) e seu pai (Jamey Sheridan, como sempre um ótimo bully) é um canalha insensível e abusivo. Como se isso não bastasse, por questões de segurança o velho planeja transferir a herança dele e de sua finada esposa para o ex-cunhado (Denis O'Hare), o que deixaria Lizzie e sua irmã Emma (Kim Dickens) inteiramente dependentes de um tio mau caráter com quem elas não tem qualquer relação. Bridget, por sua vez, é uma pobre imigrante irlandesa que trabalha de sol a sol e é estuprada pelo patrão todas a noites. Unidas pela desgraça, as duas se apaixonam, começam a ter um caso secreto e Lizzie a convence a tomar parte no plano de assassinar o pai e a madrasta.


Chloë Sevigny e Kristen Stewart estão excelentes. O elenco é bom, a produção é de primeira e artisticamente é um ótimo filme. Já em termos de veracidade, ele não tem qualquer valor. É uma obra quase que estritamente de ficção. O roteirista se baseou no livro de Evan Hunter, que - surpresa! - é um ROMANCE. Chama-se "Lizzie, a NOVEL". Lizzie era solteira e epilética mas os principais acontecimentos, a começar por seu romance com Bridget, seguindo pelo odioso vilão no qual é transformado o tio John, os estupros de Bridget, e etc., são invenção do escritor e do roteirista. Para quem não conhece e nem quer conhecer a história real de Lizzie, vale a pena. Mas se houver interesse em um relato minimamente fiel ao que de fato aconteceu no fatídico 4 de agosto de 1892, é melhor assistir "The Legend of Lizzie Borden", lançado em 1975.

O filme estrelado por Elizabeth Montgomery é uma produção da emissora ABC e teve orçamento bem mais modesto. O trunfo do filme era trazer Montgomery, que estava tentando se livrar da imagem de Feiticeira com filmes arrojados e bem feitos, e vinha se firmando como uma ótima atriz dramática. O roteirista William Bast tomou pouquíssimas liberdades e se manteve bem próximo à realidade dos fatos: Malgrado a avareza patológica do velho Andrew Borden (Fritz Weaver), a família era rica e pertencia à alta sociedade de Fall River, Massachusetts; Lizzie era mimada, prepotente e jamais teria um caso com a empregada (Fionnula Flanagan). Primeiro porque não existe uma única prova ou mesmo suspeita de que fosse lésbica (uma completa invenção de Evan Hunter), e segundo porque ela não era simpática e agradável com a criadagem, como faz crer o filme de 2018. Andrew Borden, em compensação, é mostrado como um tarado sexual, cujas perversões vão da necrofilia (um de seus comércios era de confecção de caixões e embalsamamento) à uma atração horrivelmente imprópria por Lizzie. Tudo, evidentemente, com o pudor e a decência que exigiam os filmes veiculados em TV aberta, na década de 70.

Montgomery: muito boa
Ausente o episódio fictício do romance lésbico, "The Legend of Lizzie Borden" tem a vantagem de se concentrar bem mais no inquérito e no julgamento de Lizzie. Ficamos sabendo que houve mais de uma suspeita de envenenamento na residência dos Borden; que a polícia foi de uma incompetência ímpar em todo esse processo; que Lizzie era dada à prática de pequenos furtos em sua casa e em lojas; que ela incinerou um vestido no fogão da cozinha nos dias subseqüentes ao crime; e, mais importante, que ela recebeu doses de morfina todos os dias para acalmar os nervos, desde o assassinato até o fim do julgamento. Quando a promotoria acusou Lizzie de múltiplas contradições no depoimento dado durante o inquérito, a defesa alegou, com êxito, que isso era efeito colateral do consumo de morfina. Houve quem levantasse a hipótese, tempos depois, de que a prescrição equivocada de morfina poderia ter provocado em Lizzie um surto de Fuga Dissociativa, o que transformaria o assassinato, no máximo, em homicídio culposo.

No filme de 2018 a prisão preventiva de Lizzie parece a de um preso político sendo jogado em um buraco sem ventilação. Nada mais distante da realidade; o julgamento de Lizzie se tornou ponto de honra do recém-nascido feminismo e atraiu tanta atenção que seu advogado de defesa não foi nenhum outro senão o ex-governador de Massachusetts, George Robinson (Don Porter).

Recomendo os dois filmes. O primeiro é fiel aos fatos. O segundo é uma boa ficção. (14/12/2018)

ISOLDA BOURDOT

Isolda e Roberto, em 2018

Morreu Isolda, com apenas 61 anos.

Ela compôs "Outra Vez" quando tinha 20 ANOS. A música tornou-se seu "signature piece" e sucesso eterno na voz de Roberto, a partir de 1977.

Na minha concepção "Outra Vez" é uma das melhores canções de amor do cancioneiro brasileiro em todos os tempos. Está no mesmo panteão das obras-primas de Tom, Vinícius, Lyra, Dolores, Chico, Caetano, Gil, Roberto, Erasmo, Moraes Moreira, e poucos outros.

Esse LP de Roberto, especificamente, tem um valor sentimental imenso para minha família. Foi lançado, como sempre, no Natal de 1977. A primeira música é "Amigo", outro sucesso eterno, que Roberto compôs para Erasmo. Meu tio (afetivo) aproveitou a canção e presenteou meu pai com esse disco, junto a uma dedicatória linda e inesquecível, celebrando a magnífica amizade dos dois por 40 anos.

Minha mãe gostava do disco. Ela e meu pai acompanharam Roberto de perto desde a época da Jovem Guarda, cujo programa assistiram várias vezes ao vivo no Teatro da Record. Mas quando meu pai morreu inesperadamente, poucos meses depois do lançamento desse LP, a música "Outra Vez" assumiu um significado real, brutal e doloroso para ela.

Essa música foi, de certa forma, banida, em nossa casa. Eu, que amava o dico, tinha que ouvi-lo praticamente escondido. Porque sabia que essa música era um gatilho para todas as lembranças do mundo.Vi minha mãe chorar ao ouvir "Outra Vez" por décadas seguidas.



Era a sensibilidade inigualável de Isolda.
Do fundo do meu ateísmo rezarei uma prece de gratidão a ela, hoje, por ter nos dado esse diamante de sentimento que é "Outra Vez". (18/12/2018)

LOVE & MERCY (2014)

Não sabia da existência deste ótimo filme sobre a grande batalha de Brian Wilson por sua sanidade mental. Pior: como nunca tive predileção maior pelos Beach Boys, a única coisa que eu sabia é que Brian teve um breakdown homérico, no estilo de Arnaldo Batista. Mas estava alheio ao fato de que teve um pai invejoso e canalha; que compôs obras-primas quando se cansou de escrever as bobagens que levaram os Beach Boys à fama; e que mais tarde esteve sob a tutela médica e legal de um médico cafajeste e depravado, que o transformou em um receptáculo de remédios controlados e quase o levou à morte.

Lembro-me vagamente de suas primeiras entrevistas depois do longo e tenebroso inverno de anos e anos que passou, tendo Gene Landy como guardião legal. Ele parecia um autômato. Os remédios para sua mal-diagnosticada esquizofrenia haviam devastado sua mente. O filme acompanha em flashback a curva descendente de sua sanidade - mostrando o processo criativo dos últimos discos de Brian com os Beach Boys - ao mesmo tempo em que o mostra maduro, tendo que lidar com o parasita que se instalou de mala e cuia em sua vida, aproveitando-se do distanciamento de Brian com seus irmãos e filhas. Paul Dano e Joan Cusak interpretam Brian muito bem, nas diferentes épocas. Elizabeth Banks está ótima como a gentil e compreensiva Melinda, e Paul Giamatti dá um show de talento e de canalhice.

Recomendo. (29/12/2018)

ETTY


Etty Fraser... tão amada, tão querida, tão gentil, tão generosa...

Quem, da classe teatral não conheceu Etty por todos os teatros de São Paulo, vendendo os broches com as musas da comédia e da tragédia, em uma campanha pioneira e exitosa do F.A.C.T., Fundo de Assistência à Classe Teatral, de arrecadação de fundos para os artistas com HIV? Quem de nós comprou aqueles broches pelo menos uma vez? Ou dez? Tenho um dourado, outro prateado, um menor, um maior...

Ela já era uma artista consagrada e respeitada, fizera parte da fase áurea do Oficina, participara de novelas antológicas como Beto Rockfeller, era nome de proa de nosso meio artístico (até programa de culinária ela teve) e e ao invés de deitar sobre esse louros e não fazer nada, ela trabalhou incansavelmente por seus colegas. Mesmo quando perdeu seu marido, o ator Chico Martins (figura tão adorável quanto Etty), ela sequer fez uma pausa em seu trabalho com o F.A.C.T.

Além de seu talento e sua perene gentileza, não esqueço seu humor e sua gargalhada impagável.

Etty passou a vida sorrindo. E é sorrindo, com a máxima gratidão, que ela deve ser sempre lembrada.

(Foto de 2003) (3/1/2019)

MINI-MARATONA DE FILMES LANÇADOS EM 2018

WILDLIFE (2018)

Antes de assistir "Love & Mercy", há poucos dias, eu não sabia nem quem era Paul Dano, mesmo que o rapaz seja ator coadjuvante de vários filmes de nomeada, como "Sangue Negro", "Little Miss Sunshine" e "12 anos de escravidão". E acabo de descobrir que em janeiro deste ano foi exibido em Sundance o seu filme de estréia como diretor, "Wildlife", roteiro do próprio Dano baseado no romance de Richard Ford. Passa-se no início da década de 60 e é sobre um casal - Jerry (Jake Gyllenhaal) e Jeanette (Carey Mulligan) - que tem um filho de catorze anos, Joe (Ed Oxenbould). Jerry é um idealista, orgulhoso e ingênuo, e seu fracasso profissional fará com que ele aceite um trabalho junto aos bombeiros que lutam contra os incêndios anuais que ocorrem nas florestas daquela região. Isso significa que ganhará pouco e ainda ficará longe da família. Jeanette não aprova a ida do marido e a separação temporária de ambos, juntamente às decisões que serão tomadas a partir de então por ela, terão que ser absorvidas e compreendidas pelo filho adolescente.

Jake está muito bem em papel relativamente quadrado, e quem brilha sem restrições é Carey, absolutamente perfeita em transmitir os anseios e angústias da esposa/mãe de trinta anos, transbordando sua sexualidade reprimida, e frustrada com sua vida tediosa e suburbana. É plenamente oscarizável. Ed Oxenbould faz um bom trabalho mas estava com dezesseis quando interpretou Joe e não é preciso ser um gênio para compreender que entre um menino de 14 e um de 16 existe um abismo. É, sem embargo, uma belíssima estréia de Paul Dano na direção.

THE OLD MAN & THE GUN (2018)

Filme baseado na história real do ladrão Forrest Tucker (1920/2004), que passou a vida cometendo furtos e assaltando bancos, e depois realizando fugas espetaculares das prisões para onde era mandado. Dirigido e roteirizado por David Lowery (a partir de um artigo de David Grann), a produção se concentra nos últimos anos de Tucker, sua relação com os parceiros de crime Teddy (Danny Glover) e Waller (Tom Waits) e uma mulher que conhece acidentalmente depois de um assalto (Sissy Spacek).

Mais do que qualquer outra coisa, este filme é uma homenagem a Robert Redford. É aquele filme que se permite desvestir, por fim, o mito, o grande diretor, o inigualável galã, o lendário Sundance Kid, e mostrá-lo, ainda que com sutileza e carinho, na vulnerabilidade de seus inacreditáveis 82 anos. E para não levar a coisa longe demais, ele o faz encarnando um ladrão que era conhecido pela simpatia e pela educação. Redford não é Tucker. É o Redford de sempre, na melhor tradição dos astros da primeira metade do século passado. E não poderia estar em melhor companhia do que com Sissy Spacek. Ela está simplesmente maravilhosa.

Me permito uma colocação quiçá polêmica: o papel do delegado que o persegue é feito por Casey Afleck. Não vou entrar nos méritos de seu trabalho, até porque o considero um ator razoável. Mas ele está sendo acusado de assédio sexual por duas mulheres. Em um ano em que o #metoo foi tão intenso e tão avassalador, me pergunto se não haveria em Hollywood pelo menos 500 outros atores para esse papel. Mas enfim, apesar disso, recomendo.

WHERE HANDS TOUCH (2018)

Baseada em fatos reais, é a história da relação entre uma garota negra alemã e um rapaz ariano. No começo eu pensei que ia ser apenas mais um romancezinho meloso de segunda guerra, coberto dos clichês de sempre, mas é mais profundo do que isso. A perseguição àqueles que foram chamados de "bastardos da Renânia" (Rheinland) - filhos e filhas de mulheres alemãs com soldados negros franceses lotados nessa região que cerca o Reno durante a ocupação francesa depois da primeira guerra mundial - foi tão implacável quanto aos judeus.

Não é um super-produção e está longe de ser um épico, mas é um filme pequeno e bem-feito. Lamenta-se que o roteiro não seja melhor. Amandla Stenberg e George MacKay fazem um bom trabalho e são convincentes como o casal inter-racial amoroso na Alemanha nazista. Abbie Cornish não está mal, embora seu sotaque seja artificial e ela pareça uma albina. Recomendo pela presença de Amandla, a menininha do Hunger Games que agora está com 20 anos.

TIME FREAK (2018)

Em 2011 o diretor e roteirista Andrew Bowler foi indicado ao Oscar de melhor curta pelo filme “Time Freak”. Não assisti mas imagino que a premissa seja exatamente a mesma do longa lançado este ano com o mesmo nome, por Andrew. Stillman (Asa Butterfield) é um nerd super dotado em física e quando vê seu relacionamento com a linda Debbie (Sophie Turner) soçobrar, ele constrói uma máquina do tempo que lhe permite reviver e corrigir as situações que minaram sua relação. E é evidente que haverá um preço para cada evento alterado.

Eu adorei. É uma comédia romântica adolescente e há que assistir desarmado, sem esperar teoremas, paradoxos e explicações lógicas. É só diversão. O elenco está afinado e Evan (Skyler Gisondo), o melhor amigo de Stillman, realiza a proeza de ser engraçado e carismático, e não um idiota insuportável como ocorre em 99% das comédias norte-americanas. E ajuda bastante o fato de que Sophie Turner, no papel de Debbie, é Doppelgänger da Marilia. (3/1/2019)

BAD TIMES AT THE EL ROYALE (2018) - Inesperadamente EXCELENTE. Assisti única e exclusivamente pela presença de Jeff Bridges e acabei brindado com um visceral coquetel tarantinesco. A história é envolvente, divertida, bizarra e imprevisível; e o elenco não poderia ser melhor.

Recomendo. (19/12/2018)

BANDERSNATCH (2018) - Mistura anárquica de “Groundhog Day” (1993) com “The Butterfly Effect” (2004) com “Edge of Tomorrow” (2014), e o recheio do velho Você decide, que passava na Globo na década de 90.

Me perdoem por ser a voz da dissensão, mas o Black Mirror tem 40 minutos, e 40 minutos é exatamente o quanto ele deve ter. “Bandersnatch” é intoleravelmente longo e chato. (30/12/2019)

MINI-MARATONA ALEATÓRIA DE ANIMAÇÕES

ANOMALISA (2015)

Eu coloquei Charlie Kauffman no vinagre há alguns anos, desde o super-estimado e super-soporífero "Sinédoque, Nova York" (2008). A obra do escritor, inicialmente original e inteligente, transicionara rapidamente para absurda e pretensiosa. Sobre "Sinédoque", basta dizer que foram feitos comentários do tipo "ser uma decepção é um elogio"... No momento em que ser chamado de "incompreensível" ou "ruim" começa a ser uma qualidade, é porque o autor se perdeu em sua própria maluquice. Não por coincidência, Kauffman ficou seis anos sem trabalhar depois disso. Em 2014 ele roteirizou e dirigiu um filme para TV. E em 2015 veio "Anomalisa".

É um filme completamente adulto e a princípio imaginei que a decisão de realizá-lo como animação, ao invés de um filme normal, seria mais uma das idiossincrasias de Kauffman. Não é. A idéia, tal como foi concebida, funciona melhor dessa forma. Não darei spoilers: Michael Stone é um guru do atendimento ao cliente e essa é a grande contradição de sua vida; enquanto aperfeiçoou todas as técnicas de agradar clientes, ele é infeliz em suas interações humanas e trata suas próprias relações de forma mecânica e insensível. O filme mostra o que acontece quando ele vai a uma viagem de negócios e conhece uma mulher capaz de quebrar esse ciclo de mesmice.

Espetacular. Jennifer Jason Leigh, no papel de Lisa, está magnífica. Concorreu ao Oscar e ao Globo de Ouro mas perdeu para "Divertida Mente".

MA VIE DE COURGETTE (2016)

Baseado no romance de Gilles Paris, com direção de Claude Barras. Ícaro, cujo apelido é Courgette (Abobrinha) mata a mãe alcoólatra por acidente e acaba em um orfanato, onde fará amizades com outras crianças que também tiveram experiências traumáticas com a família. Ele chegará, aos poucos, a termos com as tristezas que atravessou.

Por ser uma animação e ter nas crianças o seu público-alvo, o filme trata suas tragédias de forma muito leve e carrega uma mensagem fundamental de esperança. É uma linda animação e concorreu ao Oscar e ao Globo de Ouro, entre pesos-pesados como "Moana" e "Kubo and the Two Strings". Perdeu em ambos para "Zootopia".

LE PETIT PRINCE (2015)

1 - Fiquei impressionado quando encontrei esta animação porque nunca tinha sequer ouvido falar dela. Imagino que isso se deva ao fato de que a distribuição mundial está sendo feita pela Netflix, então o filme acabou alijado dos grandes prêmios de Hollywood (posso estar enganado). Infelizmente não encontrei o audio original, sempre preferível. O audio norte-americano, porém, é bom e não compromete.

2 - Não se trata literalmente da história de Antoine de Saint-Exupéry, mas de uma adaptação de Irena Brignull e Bob Persichetti (direção de Mark Osborne) sobre uma garotinha excessivamente organizada, de vida quadrada e metódica. Em meio ao tédio de sua rotina ela conhece o vizinho, um velho aviador que lhe conta, de forma colorida, divertida e lúdica, a história de seu encontro, anos antes, com o Pequeno Príncipe. E isso virará do avesso a vida da menina.

Recomendo.

BALLERINA (2016)

No fim do século XIX duas crianças - Felicie e Victor - fogem de um orfanato e vão a Paris para realizar seus sonhos: o dela de ser bailarina e o dele de se tornar inventor. Por meio de um ardil em que se faz passar por uma menina rica com a ajuda de uma ex-bailarina, Felicie consegue um teste para O Quebra-Nozes, na Ópera de Paris. Mas ela terá que se disciplinar, treinar e enfrentar várias dificuldades para seu sonho virar realidade.

Sem ser nenhuma obra-prima, Ballerina é um ótimo passatempo e entretenimento de primeira, sobretudo para aficionados de dança. Recomendo. (13/1/2019)

PONYO x SONG OF THE SEA


"Selkies" existem na mitologia irlandesa-escocesa e são focas que viram seres humanos à noite. Seria a versão celta-gaélica do mito da sereia. O diretor irlandês Tomm Moore utilizou-se dessa fábula e de um sortido de histórias de sua própria infância para roteirizar e dirigir "Song of the Sea". A selkie Bronach se casa com o humano Connor e eles tem um filho humano. Já a filha Saoirse é um híbrido e tem uma missão a cumprir. Não darei spoilers porque quem não assistiu deve fazê-lo o quanto antes.

Mas não me furto de comentar a influência rematada e óbvia da magnífica Ponyo, de Miyazaki na Saoirse de Moore. Não só na elaboração da personagem mas em toda a história. É Miyazaki fazendo escola, como sempre. Em litros de lágrimas, entretanto, o japonês ainda leva pronunciada vantagem.

Recomendo. (15/1/2019)

SUSPIRIA (1977 e 2018)

Segundo entrevista citada no IMDB, foi Daria Nicolodi que teve a idéia e a concepção toda de “Suspiria” (1977), a partir de uma história contada por sua vó, que teve aulas em um conservatório europeu onde os professores, além de artes, também praticavam a magia negra. Transmitiu a idéia ao marido e cineasta Dario Argento, ambos escreveram o roteiro do filme e a direção ficou a cargo de Argento: a norte-americana Suzy Bannion (Jessica Harper) vai estudar dança em um conservatório em Friburgo, na Alemanha. Fatos estranhos ocorrem desde o primeiro dia; uma mulher é assassinada, esfaqueada e enforcada, outra tem uma queda antológica em uma espécie de piscina de arame farpado, uma praga de larvas é encontrada na escola, um pianista cego é assassinado e devorado pelo seu próprio cão-guia, e por fim a norte-americana descobre que em uma ala secreta da mansão havia um verdadeiro sabá de adoração da Mater Suspiriorum, um bruxa vetusta que controlava toda essa maldade.

O filme - hoje um clássico - é uma sinfonia psicodélica de cores e de terror gráfico e psicológico como poucas vezes se vira, antes. Na tentativa de repetir o sucesso de “Suspiria”, Argento decidiu aumentar a história sozinho: a Mater Suspiriorum então tornou-se apenas uma de três irmãs macabras que pretendiam dominar o mundo. As outras eram a Mater Lachrymarum e a Mater Tenebrarum. Em 1980 veio a continuação de “Suspiria”, sugestivamente intitulada “Inferno”. O filme começa com uma moça lendo um livro chamado As Três Mães, onde explicava-se que além da Mater de Friburgo, ainda havia outras duas, vivendo em mansões em Roma e Nova York. A moça descobre que o prédio onde mora, em NY, é precisamente o endereço da Mater Tenebrarum, que se torna o tema do filme. Assustada, ela escreve para seu irmão, em Roma, a fim de que ele venha encontrá-la e ambos investiguem o caso juntos. É quando a seqüência habitual de desgraças começa a acontecer.

“Inferno”, por diversas razões - sobretudo o raquitismo do roteiro e o péssimo Leigh McCloskey - é muito inferior a “Suspiria” e esteve longe de repetir seu sucesso. Fãs de Argento, porém, ficaram satisfeitos e começaram a esperar pela terceira e última parte, que versaria sobre a Mater Lachrymarum e encerraria a trilogia. Argento fez o público esperar nada menos do que 27 anos pela conclusão. “La terza madre” foi lançado em 2007 e é protagonizado por Asia Argento, a filha de Argento e Nicolodi, que contava apenas dois anos quando “Suspiria” chegou aos cinemas. O filme é um desastre. Uma bobagem que se inicia com uma urna que é aberta e começa a provocar assassinatos e toda a sorte de desgraças. Mas é tudo tão idiota e tão amadorístico que causa tristeza; os filmes de Argento sempre tiveram um estilo meio B, meio alternativo, mas o que vemos aqui é apenas ruim. A Mater Lachrymarum, tão esperada, é uma modelo qualquer, semi-nua, com maquiagem preta ao redor dos olhos. Um grande anti-clímax. Mesmo trazendo a sempre boa Asia Argento. Com “La terza madre” o diretor destruiu sua própria franquia.

Sabe-se lá por que razão, no ano passado o diretor italiano Lucas Guadagnino resolveu requentar “Suspiria”, utilizando alguns elementos da história da Três Mães. Infelizmente, o que poderia ser uma bela e moderna recauchutagem do giallo de Argento, virou um filme chatérrimo e pretensioso. Características, aliás, do único filme pelo qual Guadagnino é conhecido: o romancezinho babaca e medíocre “Call me by your name”. A superioridade do filme de 1977 começa por um detalhe muito simples: ele tem uma hora e trinta e oito minutos, ao passo de que o remake tem duas horas e trinta e dois minutos. Toda a simplicidade do terror kitsch de Argento vira uma panacéia político-psicológica intolerável, no remake. Suzy é Dakota Johnson e ela consegue uma vaga no conservatório onde terá aulas com Madame Blanc, interpretada por Tilda Swinton. Mas além de uma pilha de referências à política alemã do fim da década de 70 o diretor ainda encasquetou de meter uma subtrama relativa à segunda guerra, então temos um velho psicólogo que sonha em reencontrar sua mulher, desaparecida em 1944. O psicólogo também é Tilda Swinton, com uma tonelada de maquiagem, verdadeiro ladrão de cena sem qualquer razão de ser, já que seu papel como um todo poderia ser eliminado. A única coisa interessante é que sua mulher, Anke, é interpretada por Jessica Harper, em aparição sentimental que homenageia o “Suspiria” original.

Plasticamente o filme tem cara de cortina de ferro. Há uma espécie de ferrugem da decadência comunista no conservatório e em demais locações, que cairia muito bem ao filme, se a história não tivesse sido tão contaminada pela pretensão de parecer complexa e politizada. É tudo tão chato e demorado que quando chegamos ao clímax, o leitmotif das três mães, e mais especificamente da Mater Suspiriorum, praticamente se perdeu. E o máximo que se consegue é uma conclusão tão ruim quanto o fim de “La terza madre”.

Um desperdício. Para quem ainda não viu, recomendo o primeiro
“Suspiria”.  (23/1/2019)

THE CROWN

Foi de tal forma positiva a impressão deixada por Claire Foy quando assisti o insosso First Man, que resolvi assistir outros trabalhos dela. Acabei chegando a The Crown, série da Netflix que a popularizou no mundo inteiro. São duas temporadas que dramatizam o reinado de Elizabeth II a partir de seu casamento, em 1947 (até 1963, no fim da segunda temporada). Gostei bastante. A produção é fantástica. O elenco é superlativo e não tenho adjetivos suficientes para qualificar o trabalho de Claire, embora não haja licença poética neste mundo que permita a comparação entre a lindíssima Claire e a simpática Elizabeth, de beleza insípida e inodora. Neste caso a escalação de Vanessa Kirby, no papel da hellraiser Margaret, foi mais feliz. E temos ainda a curiosa circunstância do jovem Philip ser efetivamente mais bonito que o ator que o interpreta, o esquisito Matt Smith, que parece estar usando uma máscara. Mas vamos a alguns comentários pontuais:

1 - Considerando que o (bom) roteiro de Peter Morgan tem alguma relevância histórica, é chocante verificar a superficialidade dos problemas enfrentados pela rainha. Com exceção do grande nevoeiro de 1952 e a crise do Canal de Suez em 1956 - nos quais ela se limitou a apoiar o Primeiro Ministro, fosse Churchill (John Lithgow) ou Anthony Eden (Jeremy Norham) - a única coisa com a qual Elizabeth se preocupou no meio tempo foram questiúnculas protocolares da realeza, picuinhas familiares e a idiotice fundamental de seu marido. Uma terrível demonstração de que os detratores da monarquia estavam certos: a rainha só estava lá para resolver problemas que não existiriam caso a monarquia sumisse. E nisso, anos foram gastos para que se resolvesse o imbróglio matrimonial da pobre Margaret; a situação de David, o tio sibarita que abdicou ao trono; as aulas de vôo de Philip e outras minudências sem qualquer importância para o povo britânico. É ponto positivo da série, que não faz segredo disso e nos apresenta o trono de forma imparcial, com seus defeitos e qualidades.

Claire Foy
2 - A série me deu a oportunidade de conhecer melhor a atual família real britânica, mesmo sabendo que aqui e ali fatos foram romanceados, exponencializados ou sanitizados para efeito dramático (e pela paz entre a realeza e o departamento jurídico da Netflix). Não obstante, o retrato parece fiel. Elizabeth é candidamente exposta como uma mulher ignorante, que desde criança foi basicamente adestrada como um cavalo de corrida para uma única função, ficando alheia a todas as outras. Isso vai assombrá-la no futuro, quando se sente diminuída diante de intelectuais, homens de letras e representantes de outros governos (o que não deixa de nos trazer uma ponta de orgulho por Dom Pedro II, considerado mundialmente o mais erudito de todos os monarcas do século XIX). Margaret é de fato a irmã linda e rebelde, dona dos predicados artísticos e performáticos necessários para ser a rainha, ao contrário de sua tímida e retraída irmã. Causa raiva observar a insensibilidade com que Elizabeth rompe promessas e volta atrás em sua palavra para decidir o destino de sua irmã, valendo-se de um respeito chocho e medroso a cânones embolorados que poderiam ter sido abolidos já naquela época.

Claire e Elizabeth

Margaret (Vanessa Kirby)
Philip, considerado eternamente aquele apêndice incômodo e dispensável da rainha - e que já fora retratado como um velho escroto e de maus-bofes pelo ator James Cromwell no filme "The Queen", de 2006 - aparece com as mesmas cores, só que mais jovem. O Duque de Edimburgo, tal qual a série o apresenta, nunca soube ou compreendeu qual era o papel do consorte, e quando entendeu, finalmente, não o aceitou. Incapaz de brilhar por qualquer coisa que não fosse sua linhagem, de granjear o respeito da realeza e de transcender sua função de "procriador real", ele arranca a fórceps da rainha um título de "príncipe". No mais, passa os anos espalhando sua inutilidade e dando problemas à Elizabeth, não como marido mas como um filho burguesinho e tresloucado. Suas infidelidades, suas reclamações intermináveis, seu despreparo ou deslumbramento em ocasiões formais do trono, sua obstinação em fazer o filho Charles estudar na mesma escola onde ele próprio estudou e foi vítima de bullyings de todos os tipos, ou suas tropelias com o amigo Mike Parker, tudo é razão para desprezarmos Philip. Nem mesmo seu passado de tristezas provoca qualquer simpatia. Os episódios, aliás, que se concentram em sua infância - conquanto muito bem feitos - são supérfluos. No fim somos obrigados a concordar com a vã e preconceituosa rainha mãe (Victoria Hamilton, ótima), sobre a péssima escolha de marido feita por Elizabeth.

David (Alex Jennings)
Fogo pesado é reservado para David, o Duque de Windsor (Alex Jennings), que sucedeu o Rei George V e reinou durante o ano de 1936 até sua abdicação, em dezembro, quando passou o trono ao irmão, pai de Elizabeth. No imaginário popular cristalizou-se a imagem de um homem que renunciou em nome do amor que sentia por Wallis Simpson (Lia Williams), uma norte-americana divorciada duas vezes. A série deixará bem claro que ele podia até amar a volúvel Wallis - uma reles cortesã - mas sua abdicação esteve muito mais próxima da covardia do que do heroísmo romântico que se propagou. A série não o mostra como um personagem sofrido, incompreendido e que abriu mão de todas as honrarias possíveis para poder se dedicar ao casamento, mas como um dândi decadente, afrescalhado e vagabundo. Um grã-finozinho venenoso, prepotente e metido à besta, que torcia o nariz para a realeza que o pariu mas não se furtava de sustentar sua vadiagem parisiense com uma mesada vergonhosa que vinha do palácio de Buckingham. O golpe de misericórdia chega quando ele volta à Inglaterra, em busca de alguma sinecura bem-remunerada e a rainha o põe para correr a pontapés, esfregando-lhe na cara sua associação indecorosa e sórdida com os nazistas durante a segunda guerra, mesmo depois de já ter abdicado.

Lithgow e Foy no SAG Awards de 2017,
de onde ambos saíram vencedores
3 - John Lithgow é um ótimo ator e admiro sua carreira há quase 40 anos. O que tenho a dizer de sua performance como Churchill - premiada com um Emmy, aliás - é que ele conseguiu criar seu próprio Churchill, como uma espécie de entidade independente do original. Ele não tem a mais ínfima semelhança com Churchill, a idade que o personagem exige nesse período, aquele rosto característico de bebê alcoólatra, mas por alguma razão está mais próximo do velho Primeiro Ministro do que estiveram os inúmeros atores que o interpretaram nestes últimos anos, entre eles, verdadeiros titãs como Brian Cox e Gary Oldman. É uma bela performance. Já Michael C. Hall e Jodi Balfour estão tristemente equivocados nos papéis de John e Jackie Kennedy. Michael até caprichou no bizarro sotaque de Boston, mas Jodi está mais para uma princesa hawaiana do que para Jackie, uma branquela sem graça e inexplicavelmente festejada pela realeza britânica.

Há outras coisas a comentar mas não me ocorrem no momento. Lamento saber que a terceira temporada mostrará os personagens mais velhos e Claire será substituída. Meu coração está imaturamente partido. (23/1/2019)

WOLF HALL (2015)

Seguindo a lista de trabalhos de Claire Foy cheguei agora à "Wolf Hall" (2015), minissérie de seis capítulos da BBC baseada em dois dos romances de Hilary Mantel, "Wolf Hall" e "Bring Up the Bodies". Trata do período em que Henrique VIII foi casado com Ana Bolena, visto sob a ótica de Thomas Cromwell. Existem dois trabalhos definitivos sobre esse tema, que são os filmes "A Man for All Seasons" (1966) e "Anne of a Thousand Days" (1969). O primeiro traz Leo Mackern em uma interpretação de Cromwell que é praticamente insuperável. Isso sem mencionar o Henrique espetacular de Robert Shaw e o Thomas More exemplar de Paul Scofield. O segundo tem uma Ana Bolena perfeita em Genevieve Bujold, além do Henrique de Richard Burton e a comovente Catarina de Irene Papas. A minissérie opta - corretamente - em não referenciar nem de longe tais obras-primas e desenvolve um mote até então não explorado: a participação de Thomas Cromwell em todo o episódio.

Rylance e Foy
Ele era conselheiro do Cardeal Wolsey e acabou sendo absorvido por Henrique quando o cardeal falhou em conseguir o apoio do papa para o divórcio do rei e caiu em desgraça. Mark Rylance faz um Cromwell inteiramente oposto ao de Mackern; este era um poço de energia e parecia um porco do mato, agressivo e acanalhado, com sua voz potente e os olhos estrábicos e ofuscantes (pelo fato, aliás, de que um dos olhos de Mackern era de vidro). Era abertamente o vilão que orquestrou o ocaso de Thomas More. Rylance é um Cromwell ofídio, reptiliano, lerdo e meticuloso como um crocodilo. Ao contrário de Mackern, que transbordava recursos teatrais, Rylance é absolutamente contido e utiliza seu extraordinário leque de expressões faciais para transmitir toda e qualquer intenção, com raríssimas alterações de voz. E é menos óbvio em sua vilania. Ou, por outra, é apenas um entre uma côrte de vilões, sob o comando de um rei vilão. Um trabalho admirável e que provavelmente o credenciou para "Bridge of Spies", de Spielberg.

Claire Foy

Existe um elemento de licença poética que deve ser notado: sendo uma minissérie sobre Cromwell, os autores acharam por bem diminuir seus mal-feitos (além de estender sobre ele o manto da comiseração, mostrando a morte, no mesmo dia, de sua esposa e suas duas filhas, vítimas de uma praga), transferir para outros (como Norfolk) maldades realizadas por ele, e transformar Ana Bolena na verdadeira vilã. Considerando que as fontes primárias sobre Ana são poucas e contraditórias, que Henrique era um imaturo e um desequilibrado cuja única preocupação era ter um filho homem, e que o julgamento que levou Ana à morte foi uma farsa asquerosa que mancha a história da Inglaterra, a personagem vinha sendo tratada com relativa simpatia, pelo cinema. Merle Oberon comoveu com sua beleza e seu sofrimento, no velho clássico "The Private Life of Henry VIII" (1933), e Genevieve Bujold interpretou uma mulher forte, voluntariosa e inteligente, que no fim acaba sendo vítima de um destino que não pôde conter, por ser incapaz de dar um filho a Henrique; Wolf Hall mudou isso. Claire Foy - sempre excelente - é uma putinha mimada, perversa e calculista. Gaba-se de ter "criado" Thomas Cromwell - ou "Cremuell", como ela jocosamente se refere a ele, com sotaque francês - instiga agressivamente a morte de quaisquer amigos de Henrique que se oponham a seu casamento, tem um verdadeiro orgasmo quando fica sabendo que Catarina morreu e flerta tranqüilamente com os homens de seu séquito.

Merle Oberon e Geneviéve Bujold no papel de Bolena

Entretanto, o pequeno discurso que fez antes de ser decapitada - e uma de suas poucas falas efetivamente comprovadas e reais - foi tão eloqüente, tão generoso e tão correto que a história tem tido problemas em colocá-la num pelourinho por falsidade e oportunismo. E neste caso a Bolena de Genevieve estaria mais próxima à realidade. Nunca saberemos.

No caso de "Wolf Hall", o que temos é uma minissérie de produção imbatível e de um elenco quase ideal. Digo "quase" porque não considerei ideal o trabalho de Damian Lewis (Henrique) ou de Joanne Whalley (Catarina). Bons, mas não excepcionais como o resto. E minha única ressalva seria sobre o ritmo excessivamente lento. A importância de Cromwell é muito aumentada e no fim veremos a história de "Anne of a Thousand Days" esticada por seis episódios de uma hora. Melhor seria que a minissérie englobasse esse período e fosse até a morte de Cromwell, que caiu em desgraça com o rei apenas quatro anos depois, quando foi responsável pela desastrada orquestração do casamento com Anne of Cleeves, quarta esposa de Henrique (logo depois de Jane Seymour). Talvez os produtores pretendessem transformar a minissérie em uma série, de fato, mas tal não ocorreu.

Recomendo.

___________________________________

Veja mais:

terça-feira, 7 de julho de 2015

Minestrone Cultural III

WILDE SALOMÉ

Em sentido horário, Pacino, Jessica Chastain,
Oscar Wilde e Roxane Hart
Fiquei quatro anos caçando este filme. Pacino não gosta de dirigir e quando o faz, é porque o projeto é teatral e está muito próximo a seu coração. Foi assim com "Looking for Richard", de 96, misturando documentário, teatro e cinema sobre o Ricardo III de Shakespeare. Foi a Strattford, conversou com doutores no assunto, discutiu cada cena, cada personagem, tinha uma equipe divertida e um belíssimo elenco (excetuando Winona Rider, bela fisicamente mas fraquíssima como Lady Anne). Pode-se dizer que acabou realizando uma obra prima praticamente sem querer.

Quinze anos depois foi a Salomé de Oscar Wilde que reacendeu sua veia de diretor. Desta vez não somente pela excelência da peça mas porque Pacino estava em temporada com uma leitura dramática do texto e resolveu documentá-la. Em suas palavras, trabalhava em uma peça, um filme e um documentário ao mesmo tempo.

"Wilde Salomé", porém, não é "Looking for Richard". Assisti o filme ontem e vou revê-lo ainda algumas vezes, mas minha primeira impressão não foi a melhor. Os elementos estão quase todos lá, Pacino foi à Irlanda e à Inglaterra, conversou com o neto de Wilde, estudiosos de sua obra incluindo o grande Gore Vidal (em uma de suas últimas aparições), mas a coisa não acontece. Ao contrário de Ricardo, no qual Pacino alcançou uma combinação perfeita de peça/documentário, ele parece ter se perdido neste processo. As interpolações são excessivas, em momentos equivocados e suas múltiplas queixas sobre a pressa com que tudo tem que ser feito tem cara de ensaiadas. "Looking for Richard" foi uma delícia de se ver porque conseguia juntar a tragédia da peça com o humor do documentário. Era engraçado e instrutivo, além de um verdadeiro deleite teatral. "Wilde Salomé" não tem graça. Ultrapassa negativamente a linha do documentário e vira o making of de um documentário. A última coisa que se valoriza, no fim das contas é o texto.

Jessica Chastain
É minha segunda restrição: não gostei particularmente nem de sua interpretação de Herodes e nem da Salomé de Jessica Chastain. Pacino é genial mas a exemplo do que aconteceu com grandes atores como Richard Burton, George C. Scott e até mesmo Olivier, ele é hoje um poço de tiques e cacoetes dele mesmo. Seu tetrarca abobalhado e com voz de vovô não tem nada a ver com o que eu esperava e não se coaduna com o texto limpo e escorreito de Wilde. Kevin Anderson é insípido e inodoro como João Batista; Roxanne Hart é brilhante e lamenta-se que sua Herodias seja engolida pelos outros personagens. Quanto a Jessica Chastain, é uma ótima atriz e quaisquer defeitos de sua interpretação - inclusive a famosa dança da personagem, que deveria ser catártica e para mim foi decepcionante - devem ser debitados à direção falha de Pacino.

Mesmo assim recomendo. Estamos falando de Pacino e Wilde. São bons até quando não são ótimos. (31/05/2015)

Edit de 21/06/2022: Revi algumas vezes "Wilde Salomé" e minha opinião segue sendo a mesma, sem alterações. O que posso acrescentar é que encontrei aquela que acredito ser a razão principal para Pacino ter perdido a mão, nesse trabalho: a ausência de seu amigo e braço-direito em "Looking for Richard", Frederic Kimball. O ator, que morreu em 2008 aos 75 anos, era uma espécie de contra-ponto e complemento intelectual e cômico ao trabalho performático de Pacino, e sem ele - seus comentários, seu humor e sua cultura - o trabalho perdeu duas de suas quatro pernas.


O MACBETH DE PAUL SCOFIELD (1966)

Paul Scofield no papel de Macbeth
São muitos os Macbeths cinematográficos que já vi, em vários idiomas; no teatro também tive a oportunidade de assistir algumas montagens extraordinárias, mas no primeiro lugar, junto ao Macbeth do querido mestre Luis Melo, está a versão radiofônica que descobri há pouco, do grande Paul Scofield. Trata-se de uma performance para a BBC em 1966, que vinha no rescaldo da montagem teatral de Scofield, um ou dois anos antes.

É uma aula magna. Sempre admirei Scofield e sua famosa contenção, sua internalização quase psicótica de sentimentos e emoções, embora fazendo uma ressalva aqui e outra ali desse método. Neste Macbeth, Scofield atinge o equilíbrio perfeito entre comedimento e força performática. Me ocorre, enquanto escrevo isto, que Scofield parece ter depurado e melhorado o método declamativo de Gielgud. Mantém-se um pouco o antigo tremelique da voz, mas suavizando-o e substituindo-o por uma intensidade trágica.

É uma beleza. Ouçam e deleitem-se. (23/05/2015)




GLORIA SWANSON POR EDWARD STEICHEN


Enquanto Mary Pickford casava com Douglas Fairbanks formando o casal mais poderoso do cinema, e ainda dava um jeito de continuar personificando a "Namoradinha da América" por sua beleza saudável e natural, GLORIA SWANSON atacava por outra frente: era a inatingível. Classuda, elegante, sofisticada. Ícone da moda. Musa de Cecil B. DeMille e de Erich Von Stroheim. A esposa cara, que só um milionário ou um membro da realeza européia poderia bancar. Esse era o folclore, essa era sua estampa.

Na verdade era apenas uma garota baixinha (1 metro e 55) de Chicago, que soube usar como ninguém seus atributos. O que sempre me encantou em Gloria foi sua beleza real, pulsante. Não chegava a ser o vulcão de sensualidade de Theda Bara, mas também estava longe de ser a estátua de gelo que era Garbo. Tinha uma beleza extraordinária, que podia intimidar, mas ao mesmo tempo era descontraída, cativante, gostosa. Seu sorriso era charmoso e atraente. Seu olhar era sexy. Uma combinação maravilhosa. Diga-se de passagem, casou-se, no auge da fama, com um membro da realeza: Henry de La Falaise, Marquês de La Coudraye foi o terceiro de seus seis maridos.

De 1918, quando participou de seu primeiro longa, até 1933, quando foi efetivamente engolida pelo cinema falado, ela fez 44 filmes. Aqui e ali fez participações. Em 1950 teve uma volta espetacular no antológico Sunset Boulevard, de Billy Wilder. Soube quando subir, soube quando parar, lançou suas memórias (Swanson on Swanson) em 1980 e morreu com status de lenda, três anos depois, aos 84 anos.

As fotos deste artigo são de 1924, e foram tiradas pelo luxemburguês Éduard Jean Steichen, ou, como era chamado nos Estados Unidos, para onde foi ainda criança, Edward Jean Steichen (1879/1973), fotógrafo e artista polivalente que eternizou muitas das divas do cinema mudo. As imagens de Gloria sob o véu bordado são uma aula magna de fotografia, muitas vezes copiada e jamais superada.

Gloria Josephine Mae Swanson completaria hoje 116 anos. (27/03/2015)




Foto menos conhecida, de um ensaio de 1927


INTERSTELLAR

Assisti "Interstellar", finalmente.

Me mantive distante de toda a (grande, aparentemente) polêmica cercando esse trabalho de Christopher Nolan. Soube que gerou críticas calorosas, tanto pró quanto contra, mas não li. Apertei "play" desarmado. Prefiro não fazer grandes comentários, porque tudo será spoiler para quem não viu. Mas recomendo que as pessoas procurem ver a mensagem filosófica, emocional e sentimental por trás da ficção científica. Alguns dos conceitos de individualidade, de inevitabilidade e até mesmo de simples amor entre os seres humanos, contidos em falas de  Anne Hathaway, Matt Damon e David Gyasi, são profundíssimos.

No mais, Nolan adora um "brain teaser" como ninguém, e "Interstellar" é um manancial deles. Mas - como bem observou uma crítica que só li agora, depois de ver o filme - em "Inception" ele criou as regras e fez o que quis com elas. Em "Interstellar" ele se manteve "science bound".

Lembrei-me, evidentemente, do 2001 de Kubrick, do "Contact", de Robert Zemekis, até do mais recente "Gravity", de Alfonso Cuarón... enfim, só uma palavra define o filme: ESPETACULAR.

Recomendo. (26/06/2015)

CLOUDS OF SILS MARIA

Mais um filme que descubro sem querer em um site de torrent. Fazia tempo que não assistia nada com a maravilhosa Juliette Binoche, e este "Clouds of Sils Maria", escrito e dirigido por Olivier Assayas me deixou curioso. Assisti e foi uma surpresa muito agradável.

A história, delicada e intimista, e ao mesmo tempo pessoal e profunda, está dividida em três capítulos, e gira em torno da reação de uma grande atriz de teatro e cinema - Maria (Binoche) - diante da morte de seu mentor, a convivência com sua secretária - Valentine (Kristen Stewart) - e a montagem de uma peça que ela já encenara 20 anos antes, só que agora no papel de uma personagem mais velha.

Binoche é perfeita (como sempre) na humanidade vulnerável e comovente que empresta a seu personagem, mesmo nos momentos mais comezinhos. Melhora com o tempo. Continua intensamente apaixonante. Sua química com Kristen Stewart funciona e são deliciosas as cenas de ambas, sobretudo as cômicas. Stewart, aliás, foi largamente elogiada por esse papel. Não exageremos. Ela está ok, simplesmente, e graças a Deus está aos poucos enterrando aquela porcaria de trilogia de vampiros através da qual ela se tornou popular.

Filme contemplativo e reflexivo.

Recomendo muito. (29/06/2015)

ANNA KARENINA (2012)

Terceira colaboração de Keira Knightley com o diretor Joe Wright, depois do magnífico "Atonement" e do lamentavelmente fraco "Pride and Prejudice". Não vou me alongar. Apenas três comentários, antes de declarar enfaticamente que "recomendo":

1 - Há dezenas de versões do livro de Tolstoi por aí. Esta traz o diferencial no roteiro - do sempre competente Tom Stoppard - e uma cenografia originalíssima (Seamus McGarvey) que utiliza um teatro como base de praticamente todos os cenários. Funcionou muito bem.

2 - Sei que houve críticos condenando o que seria o uso excessivo de alegorias visuais em contraponto a um vazio sentimental. Discordo. Wright soube usar a alegoria na medida certa, de forma equilibrada, não transformando o filme em uma bagunça de som e imagens (pecado cometido por Baz Luhrman e, no Brasil, por Luiz Fernando de Carvalho) e criando cenas cheias de sensibilidade e notável beleza.

3 - Considero essa, senão a melhor, uma das melhores performances de Keira Knightley em todos os tempos. E acabo de ver na internet que ela não foi indicada a NADA por esse filme! Essa produção toda, diga-se de passagem, foi vergonhosamente esnobada pelo Oscar (venceu figurino, o que não qualifica nem como prêmio de consolação) mas Keira, pelo menos, merecia uma indicação ao Oscar ou ao Globo de Ouro.

Recomendo. (09/07/2015)

MUCH ADO ABOUT NOTHING (2012)

Não faz nem quinze dias que assisti um "Cymbeline" cinematográfico do qual jamais ouvira falar, e eis que me aparece um "Much Ado About Nothing" que também passou em brancas nuvens. Ao contrário de "Cymbeline", porém, cujo filme (até onde eu sei) é pioneiro, esta é a segunda versão em celulóide para a comédia romântica de Shakespeare sobre Benedik, Beatrice, Claudio e Hero.

E isso foi um problema, pelo menos para mim. Malgrado seus defeitos, sou fã de carteirinha da versão de Kenneth Branagh e não houve um único momento em que não comparei a presente versão, dirigida por Joss Whedon, com o filme de 1993. Whedon modernizou a trama, o que geralmente não atrapalha, mas neste caso prejudica o núcleo de Dogberry; ele funciona no original porque compreende-se perfeitamente como parte do elemento humorístico que um grupo de imbecis represente a lei em Messina do século XV, mas se torna fake em uma cidade qualquer dos Estados Unidos de hoje. Outra inovação que não engoli foi o preto-e-branco. "Much Ado About Nothing" é uma das poucas comédias do Bardo que efetivamente tem graça e além disso há leveza, diversão, romance, cenas de festas, músicas originais. Isso tudo pede cor, brilho, sol, uma fotografia agradável e luminosa. O preto-e-branco botou isso a perder.

Amy Acker: uma maravilhosa Beatrice
O elenco é jovem e composto na maioria de atores da TV norte-americana. São todos razoáveis sem serem ótimos. Reed Diamond foi um Don Pedro aceitável, assim como o Dogberry de Nathan Fillion e o Don John de Sean Maher. Lamentei o corte impiedoso de Antonio, irmão de Leonato, e gostei da Conrade de Riki Lindhome, transformada, de comparsa masculino de John no texto shakespeariano, em sua namorada. O destaque, mesmo, vai integralmente para Amy Acker, que eu sequer conhecia (porque nunca assisti os seriados dos quais ela participa de vez em quando) e que foi uma excelente Beatrice.

É um esforço honesto, mas, sinceramente, quem quiser conhecer essa adorável comédia de Shakespeare, deve assistir a versão de Kenneth Branagh. (08/07/2015)

PROOF

Com apenas dez anos de atraso, assisti "Proof", adaptação da peça de David Auburn - sobre a filha de um gênio da matemática que teve que colocar sua vida em segundo plano para cuidar do pai - roteirizada pelo próprio Auburn e dirigida por John Madden. Curiosamente, o mesmo tempo em que não vejo um trabalho verdadeiramente bom de Gwyneth Paltrow, minha undisputed muse do fim dos anos 90 e início do novo século. Pepper Potts, da franquia do "Homem de Ferro", única coisa que tem feito nos últimos anos , é tão insulsa que chega a me dar urticária.

"Proof", é talvez a melhor coisa que Gwyneth já fez. E se não for a melhor, contém todos os elementos e razões pelos quais ela se tornou musa. Ela acerta em cheio no tom da personagem: triste sem ser chata, problemática sem ser insuportável, profunda sem ser densa, no limiar entre a depressão e o desequilíbrio. Todas as nuances, as mais sutis, de angústia, perturbação, isolamento e frustração de Catherine foram reveladas com maestria por Gwyneth. Não há um pingo de falsidade. É uma performance madura, burilada, própria de uma atriz experiente, e mais do que isso, experimentada no teatro (o que nem creio que seja o caso dela).






















Um trabalho maravilhoso que, pra variar, foi inteiramente ignorado pelo Oscar. Jake Gyllenhaal, Anthony Hopkins e Hope Davis estão todos muito bem, mas Gwyneth é o vértice. Fiz as pazes com ela. Voltou a ser minha musa. Não undisputed, porque Anna Friel é soberana, mas musa, nonetheless.

Foi indicada a um Globo de Ouro. E nem isso ganhou.

Recomendo. (18/07/2015)

CIENTOLOGIA

Tom Cruise, em evento da Cientologia
Qualquer pessoa minimamente inteligente saberá que a cientologia é uma das piores farsas surgidas nos últimos 100 anos. Ela mistura a palhaçada dos mórmons com o radicalismo dos nazistas e a ganância dos políticos, jogando no mesmo liquidificador amplas quantidades de insanidade e toda a burrice fundamental do ser humano.

Baseado no livro de Lawrence Wright e entrevistando dezenas de ex-membros da seita, o documentário "Going Clear: Scientology and the Prison of Belief" vai fundo na investigação e não perdoa ninguém. Destrói com sólida documentação o criador da seita, L. Ron Hubbard e seu herdeiro, David Miscavige. Impossível não assistir com absoluta estupefação os segmentos que falam dos dois cientólogos mais famosos do mundo: John Travolta e Tom Cruise.

O documentário provoca três sentimentos: fascínio, medo e vergonha alheia.

Recomendo. (03/07/2015)

LUIZ GUIMARÃES JUNIOR

Um dos episódios na série de artigos que venho publicando sobre a temporada de Ernesto Rossi no Brasil, em 1871, foi a doação generosa e abnegada do grande ator para a construção de uma escola na antiga "Freguesia de São José", que hoje corresponde ao centro do Rio, onde se localiza a Câmara dos Vereadores.

Elogiando o belo gesto de Rossi, Guimarães Jr. escreveu, entre outras coisas, estas palavras, no Diário do Rio de Janeiro. São lapidares: (27/06/2015)

















VINCENT PRICE ROASTS BETTE DAVIS (LEGENDADO)

Neste lendário "The Dean Martin Roasts" de 1973, Bette Davis é fritada por seu amigo Vincent Price. Haviam trabalhado juntos em "Meu Reino por um Amor", de 1939, quando Bette já era uma estrela e Vincent ainda galgava os degraus da fama, e voltariam a se encontrar somente em 1987, no último filme de Bette, "As Baleias de Agosto".

Price, mais conhecido por seus magníficos filmes de terror, dá um show de humor! Em sua resposta Bette devolve as piadas de Vincent e acaba sobrando para Howard Cosell.

Saudade de todos eles! (05/07/2015)



GEORGE C. SCOTT E JACK LEMMON

Em 1997 William Friedkin dirigiu um remake televisivo do famoso "12 angry men", de Sidney Lumet, realizado em 1957 a partir da peça de Reginald Rose sobre o julgamento de um menor infrator. Nos papéis de Henry Fonda e Lee J. Cobb estavam, respectivamente, Jack Lemmon e George C. Scott. Com todos os defeitos da nova versão (sobretudo algumas escolhas bizarras de elenco, como o inqualificável Tony Danza), a performance de Lemmon e Scott - dois dos melhores atores americanos de todos os tempos - foi elogiadíssima. Scott, que estava esquecido e irritara a indústria cinematográfica eternamente rejeitando seu Oscar por "Patton", encaçapou o Globo de Ouro, o Emmy e foi indicado ao SAG. Era como se Hollywood estivesse tentando se desculpar com o ator através das premiações televisivas.

Ou talvez estivessem se dando conta de que o grande ator estava morrendo. Era preciso correr. Seja para premiá-lo, seja para dar-lhe bons papéis, dos quais tivera pouquíssimos nos últimos quinze anos. Provavelmente por conta disso, da boa relação de amizade entre George e Jack, em 1998, quando surgiu a idéia de se produzir outro remake televisivo, desta vez de "Inherit the Wind", dirigido em 1960 por Stanley Kramer, o diretor Daniel Petrie chamou os dois. A peça de Jerome Lawrence e Robert Edwin Lee se baseia em um processo real ocorrido no início do século passado, e George reprisou o papel de Frederic March, enquanto Jack interpretou o personagem criado por Spencer Tracy.

Em 1996 Scott montou "Inherit the Wind" no papel de
Drummond, que no filme de 1998 foi para Jack Lemmon. No
teatro, o papel de Brady foi para o não menos maravilhoso
Charles Durning
É uma delícia de filme. Não só porque se trata de uma produção bonita e bem cuidada do canal Showtime, mas porque é um genuíno prazer assistir atores maravilhosos como George e Jack contracenando. Em entrevista da época em que o filme foi ao ar, em maio de 99, Jack contou que não se continha de admiração ao ver George atuando. Assistia-o em cena como se estivesse na platéia.

George morreu quatro meses depois. "Inherit the Wind" foi seu canto do cisne.

Procurei esse filme durante anos na Internet e nunca encontrei. Outro dia tentei novamente e o encontrei no Youtube! Que sorte extraordinária. E parece que o upload foi de um brasileiro, porque ele possui legendas opcionais.

Recomendo a todos, especialmente àqueles que apreciam e sentem saudade do impecável trabalho de George C. Scott e Jack Lemmon. (07/06/2015)

George e Jack em "Inherit the Wind"
https://www.youtube.com/watch?v=NYCfo4hVolQ

83 ANOS DE PETER O'TOOLE


Programa quádruplo (começado há alguns dias) para comemorar os 83 anos que o maravilhoso Peter O'Toole completaria hoje.

O primeiro filme que assisti era uma daquelas lacunas absolutamente imperdoáveis na reputação de qualquer cinéfilo que se preze: a obra-prima de David Lean, "Lawrence of Arabia". Por razões que a própria razão desconhece, eu ainda não havia parado para apreciar corretamente as quase 4 horas do filme de 1962 que catapultou O'Toole para o status de estrela hollywoodiana de primeira grandeza. Assisti finalmente. Não há espaço ou conveniência para comentar aqui algo que tem que ser visto e estudado minuciosamente. Mas é magnífico. Tudo é perfeito. Desde a escolha do personagem, o excêntrico e extraordinário Thomas Lawrence (figura singular que mereceria dois ou três filmes além desse), a performance de O'Toole, até o trabalho impecável de Lean, o elenco inigualável que traz Omar Sharif, Anthony Quinn, Alec Guiness, Anthony Quayle e José Ferrer, a trilha sonora e tudo mais. Certamente um dos melhores filmes de todos os tempos.

Na seqüência assisti outro filme que me provocava curiosidade mas que nunca tivera o ensejo de ver: "Lord Jim", de 1965, direção de Richard Brooks, baseado no livro de Joseph Conrad sobre o marinheiro James "Jim" Burke e sua luta constante para manter-se em uma linha reta de correção moral. Aquilo que Lawrence tem de grandioso, "Lord Jim" tem de sutil. É uma história triste, mas mostrada de forma bela e delicada. As locações no sul da Ásia são fantásticas e é competentíssimo o elenco que inclui titãs como James Mason, Curd Jürgens, Eli Wallach, Paul Lukas e a linda Daliah Lavi. Recomendo. E assim como todos os filmes desta lista, recomendo para aqueles que tem saudade de filmes que podiam até ter ação, mas não se furtavam de contar uma história.

Os dois últimos eram inteiramente desconhecidos para mim. E foram gratíssimas surpresas. "The Night of the Generals", de 1967, baseado no romance de Hans Hellmut Kirst, foi o penúltimo filme do diretor ucraniano Anatole Litvak.

A história é engenhosíssima e mistura uma investigação por assassinatos sexuais com a Operação Valquíria, uma das últimas (e mal-sucedidas) conspirações alemãs para eliminar Hitler. O'Toole é um dos três generais alemães na lista de suspeitos pelos assassinatos. Ele não poderia ser mais perfeito para o papel. Era alto, esguio, olhos azuis e embora tivesse o cabelo castanho, passava tranqüilamente por loiro. Hitler teria um orgasmo se pudesse contemplar o "arianismo" de O'Toole. O filme marca o primeiro reencontro da dupla que protagonizou o Lawrence da Arábia, O'Toole e Omar Sharif, e ainda traz os grandes Donald Pleasence, Tom Courtenay, Phillipe Noiret (do afamado "Cinema Paradiso"), e Christopher Plummer em coadjuvância de luxo.

Por fim, "Murphy's War", de 1971, direção de Peter Yates, sobre um soldado irlandês que vê seu navio ser afundado e toda a tripulação aniquilada por um submarino alemão no fim da segunda guerra, e seu desejo patológico de vingança. Totalmente sem querer acabei assistindo mais um trabalho de O'Toole com Noiret, sendo que em "Murphy's War" ele também contracena com sua então esposa, a atriz Sian Phillips. É o menos brilhante dos quatro filmes, o sotaque irlandês de Murphy vem e vai, mas tem seqüências de tirar o fôlego e aquela tensão que só Yates sabia criar.



(02/08/2015)
_________________________________

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...