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quinta-feira, 18 de julho de 2019

Minestrone Cultural XVI


ALBERT FINNEY (1936/2019)

Finney era provavelmente o último que restava dessa segunda geração de grandes atores britânicos do século XX, nascida entre os anos 20 e 30, que incluía Richard Burton, Alan Bates, Peter O'toole, Richard Harris, e assim por diante (Hopkins e Derek Jacobi vieram um pouco depois), e que sucedeu Olivier, Gielgud e Richardson. Um de seus primeiros grandes sucessos no teatro foi justamente Coriolano, em 58, inicialmente como stand in de Olivier e depois como seu substituto. Em 60 ele fez sua estréia no cinema no papel de Mick, filho do Archie Rice de Olivier, em The Entertainer. Impressionou pela voz, pela presença, pelo carisma, pelos assustadores olhos azuis e em geral, pelo imenso talento.

Toda essa geração explodiu no cinema por essa época; Burton com Cleópatra, O'toole com Lawrence, Finney com Tom Jones, Bates com Zorba e Harris com Sporting Life, mas Finney acabou sendo o mais bissexto de todos eles. Alternava teatro e cinema com tranqüilidade e nunca se permitiu virar escravo de qualquer um deles. Seu melhor papel no cinema, por sinal, só viria em 1983, com The Dresser, de Peter Yates, baseado na peça de Ronald Harwood (não confundir com o pálido remake de 2017, com Anthony Hopkins). Sua performance nesse filme pode ser catalogada como uma das melhores da história do cinema. Tudo é perfeito em Finney, no papel de Sir, o velho ator. Poucas vezes vi tanta intensidade, um vozeirão tão poderoso e uma emoção tão verdadeira. Humor, drama e tragédia. As poucas cenas de seu Lear, no filme, são melhores do que qualquer Lear que já vi até hoje com exceção justamente do de Olivier, que por extraordinária coincidência estava fazendo seu próprio Lear para a televisão, nesse mesmo ano.

O Sir de Finney, interpretando Lear
A diferença é que Olivier estava com 76 anos. Finney interpretou Sir com 47 (sem falar que em um dos obituários li que Finney foi um Lear prematuríssimo no teatro, em 1963, portanto aos 27 anos). Esta é uma da mais interessantes características do ator: seja pelo excesso de álcool, de cigarro ou do que quer que seja, desde muito cedo ele trouxe no rosto sinais precoces de envelhecimento e sua voz foi ficando cada vez mais aveludada. Para ele era fácil, portanto, interpretar velhos utilizando apenas as marcas da idade em seu rosto e em sua voz, mesmo quando ele ainda era efetivamente jovem.

Tom Courtenay fez brilhantemente o papel do camareiro em The Dresser, reprisando o personagem que criou no West End. Eis o que disse sobre Finney, na época: "A peça é sobre a interação de dois homens, e sem querer denegrir os atores com quem contracenei nas montagens teatrais (Freddie Jones e Paul Rogers) o fato de que Albert é o que é - um verdadeiro gigante teatral - faz com que o filme seja melhor, como um todo. Eu sei disso".

Finney e Courteney
Courtney e Finney concorrerm ao Oscar de Melhor Ator, o que é raro. Perderam para Robert Duvall num filme qualquer em que ele faz o papel de um cantor de música country. Em se tratando das cagadas do Oscar, não chega a chocar. Como não impressiona que toda essa geração foi criminosamente esnobada: O'toole, oito indicações, zero Oscar; Burton, sete indicações, zero Oscar; Finney, cinco indicações, zero Oscar; Harris, duas indicações, zero Oscar; Bates, uma indicação, zero Oscar. Sua última indicação veio com a coadjuvância em Erin Brokovich, em 2000, início de seu derradeiro caso de amor com Hollywood, e que lhe rendeu bons papéis, como Ed Bloom em Big Fish (2003) e Charles em Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto (2007), o ótimo e subestimado canto do cisne de Sidney Lumet.

Finney se foi aos 82 anos, após uma batalha com o câncer. No rim, para choque de todos nós, seus admiradores há tantos anos, que imaginávamos que sua desgraça seria o fígado ou o pulmão.

Um ator absolutamente maravilhoso e inigualável. (8/2/2019)

THE GATHERING STORM (2002)

Há tempos acalento a ambição de escrever um pequeno artigo com uma análise comparativa de várias interpretações diferentes de Winston Churchill, no cinema. Até então eu já assistira quatro Churchills, de Brian Cox a Gary Oldman, passando por Brendan Gleeson e John Lithgow, mas me faltava um dos mais importantes, senão o mais importante de todos: o de Albert Finney. E esta semana, ainda tocado por sua morte, assisti The Gathering Storm, feito para TV pela HBO em 2002. O tema do filme é a relação inesperada e profundamente benéfica entre Winston, então um membro apagado e decadente do parlamento britânico, e Ralph Wigram, funcionário do ministério de relações exteriores; na medida em que a guerra se aproximava, o primeiro ministro Stanley Baldwin procurava esconder informações sobre a expansão bélica dos alemães, com o fito de evitar que a Grã-Bretanha participasse de qualquer conflito armado. Ciente disso, um oficial do governo e amigo de Winston, Desmond Morton, coopta Wigram para que ele copie documentos secretos da chancelaria e os entregue a Winston, para que ele possa alertar a população e o próprio governo sobre a necessidade do reino se preparar para uma guerra iminente e inevitável.

O Winston de Finney
É uma belíssima produção e reúne um verdadeiro dream team cinematográfico, embora o destino fosse a exibição televisiva. Na produção executiva estão ninguém menos do que Ridley e Tony Scott; a direção é do competente Richard Loncraine - que tinha o Ricardo III de Ian Makellen no currículo - e o roteiro ficou por conta de Larry Ramin e Hugh Whitemore. O elenco é um espetáculo: além de Finney temos Vanessa Redgrave no papel de Clementine, sua esposa. A reunião dos dois é altamente simbólica, pois segundo me consta, um dos primeiros espetáculos dos quais Vanessa participou profissionalmente foi o Coriolano de Olivier, dirigido por Peter Hall, no papel de Valéria, esposa do general romano. Com a saída de Olivier quem o substituiu foi justamente Finney, também em início de carreira. Os dois já haviam se encontrado novamente em outras ocasiões, como em Murder on the Orient Express, de 1974, mas é um deleite vê-los juntos em sua maturidade. Passados quarenta e quatro anos de Coriolano, os dois são o casal Churchill. No papel de Randolph, um dos filhos de Winston, está o jovem Tom Hiddleston, aos 21 anos, em seu terceiro filme. As coadjuvâncias são todas notáveis: Desmond é Jim Broadbent, Stanley é Derek Jacobi, Celia Imrie é a secretária Violet e Tom Wilkinson interpreta o diplomata Robert Vansittart. O próprio Ralph Wigram é interpretado pelo ator Linus Roache, que faz bem seu trabalho, mas dado o peso do elenco, um ator de mais renome poderia ter sido chamado. Sua esposa é a linda Lena Headey.

Redgrave e Finney
É a melhor performance de Finney nos últimos quinze anos de sua carreira. E meu artigo certamente não precisa mais ser escrito; dá pena comparar Finney com qualquer outro ator que tenha interpretado Winston. Além de perfeito em sua composição, ele está assustadoramente idêntico ao político britânico. Beberrão como seu personagem, Finney estava inchado na medida certa, sem ser gordo e sem parecer excessivamente decrépito, considerando que Winston (assim como Ulysses Guimarães) SEMPRE teve cara de velho. Estão lá todos os seus achaques; o charuto logo de manhã, o café na cama, a leitura dos jornais, as cartas ditadas direto de sua banheira e o temperamento insuportável que nem Clemmie conseguia agüentar. Mas ao invés de tudo isso ser demonstrado por excelentes atores que não tem a mais ínfima semelhança com Winston (caso de Brendan Gleeson), se desdobram em quatro para imitar o sotaque britânico (Lithgow) ou estão escondidos sob uma tonelada de maquiagem (Oldman), Finney não precisava fazer quase nada. A vida que levou o transformou em Churchill.

Com a maior justiça, Finney levou o Globo de Ouro, o Primetime Emmy e o Bafta de Melhor Ator. Foi a última vez que recebeu os três.

O filme é bom por esses motivos mas quando termina há uma sensação de que é o momento em que deveria estar começando. Parece um teaser da maravilha que ainda estava por vir. Nestes tempos de séries sobre a realeza britânica, dói na alma que a HBO não tenha feito isso já naquela época. Algo como Memórias de Bridshead. Uma microssérie. A vida de Churchill é material para vários filmes e ninguém o teria interpretado de maneira tão definitiva quanto Finney.

Recomendo. Com saudade e admiração por Finney, e de coração partido, pelo que poderia ter sido e não foi. (11/2/2019)

ADULTING, por Bill Maher

Impressionado com as reações á morte de Stan Lee, Bill Maher escreveu um texto no blog de seu programa comentando que uma importância excessiva está sendo dada por adultos aos quadrinhos e aos filmes de super-herói. Na opinião de Maher, quadrinhos são para crianças e a inteligência dessas pessoas seria utilizada de forma bem mais produtiva com literatura adulta.

O artigo teve uma repercussão gigantesca, ele perdeu milhares de seguidores no Twitter e - instado pela mídia - reiterou seus comentários em seu programa semanal.

Concordo com 100% do que foi dito por Maher. (01/02/2019)
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The guy who created Spider-Man and the Hulk has died, and America is in mourning. Deep, deep mourning for a man who inspired millions to, I don’t know, watch a movie, I guess. Someone on Reddit posted, “I'm so incredibly grateful I lived in a world that included Stan Lee.” Personally, I’m grateful I lived in a world that included oxygen and trees, but to each his own. Now, I have nothing against comic books – I read them now and then when I was a kid and I was all out of Hardy Boys. But the assumption everyone had back then, both the adults and the kids, was that comics were for kids, and when you grew up you moved on to big-boy books without the pictures.

But then twenty years or so ago, something happened – adults decided they didn’t have to give up kid stuff. And so they pretended comic books were actually sophisticated literature. And because America has over 4,500 colleges – which means we need more professors than we have smart people – some dumb people got to be professors by writing theses with titles like Otherness and Heterodoxy in the Silver Surfer. And now when adults are forced to do grown-up things like buy auto insurance, they call it “adulting,” and act like it’s some giant struggle.

I’m not saying we’ve necessarily gotten stupider. The average Joe is smarter in a lot of ways than he was in, say, the 1940s, when a big night out was a Three Stooges short and a Carmen Miranda musical. The problem is, we’re using our smarts on stupid stuff. I don’t think it’s a huge stretch to suggest that Donald Trump could only get elected in a country that thinks comic books are important.

http://www.real-time-with-bill-maher-blog.com/index/2018/11/16/adulting

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BOECHAT


Num mundo de bucéfalos de direita e esquerda, norte, sul, leste e oeste, de cretinos tão ignorantes e tão falastrões, a morte de um homem brilhante como Boechat é tragédia ainda maior e mais amarga.

É aquela injustiça fundamental: por que, com tantos imbecis nocivos e inúteis por aí, tem que morrer justamente uma das poucas pessoas conhecidas pela inteligência e pela lucidez?

Lamento imensamente. (11/2/2019)

CREED II (2018)

Muito ruim...

Não sou apenas fã de todos os filmes de Rocky; eu estava nos Estados Unidos quando Rocky IV entrou em cartaz, assisti no cinema, chorei com a morte de Apollo, me apaixonei por Brigitte Nielsen, trombei com Dolph Lundgren em um elevador em NY, curti toda a mística EUA x URSS que o filme trazia, e, por fim, aplaudi o primeiro Creed como uma reciclagem interessante dos personagens e da trama, depois de dois Rockys insípidos.

Creed II matou a franquia. O ressurgimento de Ivan Drago era carta preciosa na manga dos produtores e poderia ter rendido um filme tão melhor. Tal como foi feito, raso, sem graça e sem assunto, Creed II é o pior filme da série. Esperava-se a volta de Carl Weathers em flashbacks de som ou imagem, assim como ocorreu com Burgess Meredith em Rocky V (no que considero a melhor, mais linda e mais emocionante cena daquele filme) e ao invés disso temos apenas seu filho: um mala, sem um pingo do talento ou do carisma do pai, campeão mundial sem méritos e sem predicados, chatinho e mimizento.

Stallone e Dolph Lundgren
Rocky IV foi sensacional porque sabíamos que tanto Apollo quanto Rocky eram pigmeus perto do gigantesco russo; trabalhou-se então o contraste entre o treinamento frio e high tech de Drago em contraponto ao treinamento tosco mas pessoal e afetivo de Rocky. Drago podia ter a força mas Stallone vinha com resistência e coração. O filme é tão bom e essa dicotomia foi construída com tanto cuidado que quase acreditamos que Stallone pudesse de fato vencer alguém três vezes maior do que ele.

Em Creed II temos uma situação duplamente contrária; Drago entrou em desgraça com seu país quando foi derrotado por Rocky então perdeu o prestígio, a mulher, a carreira e o dinheiro. Seu filho não tem qualquer privilégio e é treinado nos mesmos moldes rústicos de Stallone, em Rocky IV. Só que Adonis Creed também não recebe o treinamento caro e mecânico de Ivan Drago; ele está lesionado, treina sem vontade, com uma eterna expressão de dor de barriga e não há, como em todos os filmes de Rocky, aquela catarse musical do treino, em que o personagem faz as pazes consigo mesmo e com seus problemas. Nada é crível, nada emociona. Até o câncer de Rocky sumiu como por encanto.

Uma pena. (13/2/2019)

OKKO'S INN (2018)

Sem qualquer expectativa assisti
若おかみは小学生! (cuja tradução literal é "A jovem estalajadeira é uma estudante de primário!", mas no inglês virou o simples Okko's Inn). É a história de uma menina que perde os pais em um acidente automobilístico e vai morar na pousada de sua avó materna. O plano é que ela eventualmente assuma a direção do local quando a avó não puder mais trabalhar, mas desde o primeiro momento ela se dá conta de que o local é habitado por fantasmas. Longe de assustá-la, porém, eles ajudam a menina a lidar com a perda e a nova situação. O tema é tratado com delicadeza, sem mergulhar na tragédia de Okko. Há o sentimentalismo fundamental das animações japonesas mas tudo permeado com bom humor e uma leveza apropriada ao público mais infantil.

Impressionado com a beleza da animação, descubro que o responsável pelo roteiro (baseado nos livros de Hiroko Reijô) é Reiko Yoshida, roteirista de animações de grande sucesso como O Reino dos Gatos (2002) e A Voz do Silêncio (2016), além de séries como a divertidíssima Girls und Panzer (2012). Mas a surpresa, mesmo, veio com a descoberta de que o diretor, Kitarô Kôsaka, embora esteja apenas em seu quarto filme como diretor, é um dos melhores e mais famosos animadores japoneses. Participou, como key animator, de produções do quilate de Akira (1988) e de todos os maiores sucessos do Ghibli, desde Nausicaa, passando por Mononoke Hime, Cemitério dos Vagalumes, A Viagem de Chihiro, até o último longa de Miyasaki, Vidas ao Vento.

Mais um herdeiro do Ghibli e de toda a melhor época da animação japonesa.
Recomendo.

A VILÃ (Ak-Nyeo, 2017)


Mais uma vez a Coréia do Sul dá show em matéria de cinema. Mistura de La Femme Nikita com Kill Bill, escoimando-se os defeitos de ambos. O elenco é ótimo, com destaque para Ok-bin Kim e, sobretudo, Seo-hyeong Kim.

Recomendo, e agora verei Confession of Murder, do mesmo diretor, Byung-gil Jung. (6/4/2019)

A FACE IN THE CROWD (1957)

Descobri esta jóia dirigida por Elia Kazan inteiramente por acidente. O roteiro - brilhante e profético - é do craquíssimo Bud Schulberg e mostra como, já nos anos 50, a mídia conseguia fazer e desfazer celebridades televisivas.

O elenco é bárbaro: Patricia Neal encanta e se sustenta perfeitamente pelo talento e pelo charme. Walter Mathau, Tony Franciosa e Lee Remick (linda e jovem) também estão ótimos, mas são todos aperitivo para a impecável performance de Andy Griffith.

Eu, que o conhecia vagamente pelos episódios esparsos de Matlock que assisti nos Estados Unidos, no início da década de 80, fiquei de queixo absolutamente caído por seu trabalho. Uma maravilha. Griffith era um talento maiúsculo que infelizmente acabou não descoberto e engolido pela televisão. Pior do que isso: por alguma razão (provavelmente o macartismo), A Face in the Crowd parece ter sido esquecido nas premiações de 1957 e 1958. Griffith, Neal, Schulberg e Kazan mereciam muito uma indicação. E Griffith, sobretudo, merecia o prêmio muito mais do que Alec Guiness pela Ponte do Rio Kwai.

Recomendo. É atualíssimo. (26/4/2019)

TEATRO

Não carece de legenda. (14/02/2019)



UMA NAÇÃO SEM NOÇÃO, de Ricardo Rangel


Com o máximo prazer compareço ao lançamento de “UMA NAÇÃO SEM NOÇÃO”, livro do querido Ricardo Rangel, pensador brilhante, de cultura frondosa e dono do melhor e mais atilado comentário político da atualidade.

Recomendo a todos. (16/2/2019)

JÔ

Surpresa inusitada e maravilhosa: ser citado por Jô Soares no segundo volume de suas memórias.


Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia
Vol I: "Um Moço Bem Velhinho"
Bernardo Schmidt
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R$ 30,00 (Frete incluso para todo o Brasil)

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NEO-LIBERALISMO

É uma decepção atrás da outra... (3/4/2019)


STANLEY DONEN (1924/2019)

Stanley Donen
Não poderia deixar passar em branco a morte de Stanley Donen, que completaria 95 anos em abril. Tive a sorte de assistir Cantando na Chuva - dirigido por ele em 1952 - quando ainda era criança e essa obra-prima da comédia musical me abriu a cabeça e o paladar artístico para o universo dos musicais. Nesse filme conheci o trabalho do maravilhoso Gene Kelly e, sobretudo, conheci Donald O'Connor, que pouco depois fui ver com Marilyn, em There's no business like show business, outro pilar de minha formação nos musicais.

Cantando na Chuva sobreviveu a todo e qualquer teste de qualidade na minha vida. Mais do que isso, ele não parou de me entreter e de me ensinar coisas novas. Apenas há alguns anos descobri que a trilha sonora do filme é uma homenagem aos compositores Nacio Brown e Arthur Freed, e que todas as músicas do filme (com exceção de “Make'em laugh”, creio) fizeram parte de musicais da Metro no fim do anos 20, momento em que surgiu o cinema falado, e durante toda a década de 30. E sabendo disso fui atrás desses filmes, o que tem me proporcionado prazer contínuo e me permitido conhecer jóias inteiramente esquecidas do cinema norte-americano produzido no período que precedeu a segunda guerra.

Donald, Stanley e Gene
Fred Astaire era um gênio e provavelmente influenciou a carreira tanto de Kelly quanto de Donald; sem embargo, estes dois são meu sapateadores favoritos de todos os tempos. Eu poderia ter escolhido qualquer número do filme, pois são igualmente perfeitos, ma escolhi o hilário “Fit as a feedle”, que faz parte do início, quando Don Lockwood (Gene) narra o paupérrimo início de carreira dele e de seu colega Cosmo Brown (Donald). É um número rápido e divertido. Mas é importante ressaltar que literalmente dezenas de artistas e grupos de teatro já tentaram refazer essa cena ao vivo, ao longo dos anos, e o resultado NUNCA chega nem perto do original. Há momentos em que até hoje nos perguntamos como eles conseguiam fazer isso. E acima de tudo, como conseguiam fazê-lo sem afetar o menor esforço. É atestado da intensa superioridade de Gene, Donald e o os heróis do cinema musical produzido naquela época.

Minha vida é melhor por ter assistido um filme tão encantador, tão delicioso, tão benfazejo e de qualidade artística tão extraordinária como Cantando na Chuva. E por essa razão meu melhor “Obrigado” vai neste momento para Stanley Donen. (23/2/2019)


ANO NATSU HE

A lindíssima “Ano Natsu He“ (traduzida para o inglês como “One Summer's Day“) que embala a seqüência inicial de “Sen to Chihiro no kamikakushi“ (A Viagem de Chihiro), tocada no piano pelo seu próprio compositor, Joe Hisaishi, acompanhado pela Filarmônica de Londres. (11/3/2019)



LEAVING NEVERLAND (2019)

Acabo de assistir as quatro horas do documentário de Dan Reed sobre Michael Jackson. Trata-se do depoimento de dois rapazes - James Safechuck e Wade Robson - que afirmam ter sido molestados sexualmente por Michael durante anos. Tendo sido fã de Michael desde que me conheço por gente, assistido seu show no Morumbi em 1993 e celebrado sua absolvição em 2005, confesso que foi brutal.

Wade Robson não me convenceu. Tem con man escrito na testa. Há inúmeros "poréns" naquilo que diz, naquilo que ele e sua família fizeram para estar próximos de Michael e, sobretudo, no fato de ter testemunhado a favor dele em 1993 e 2003. Além disso, manteve amizade com o artista até sua morte e há pouco ainda tentava, da maneira mais humilhante, se envolver com todo e qualquer evento em homenagem a Michael, que pudesse lhe render dinheiro ou prestígio. À parte de ter conhecido o artista e até certo ponto privado com ele, nada do que diz se sustenta. Um bom advogado destrói toda sua argumentação em segundos. E o que restar em pé estará coberto de reasonable doubt.

Michael e James Safechuck
Já o depoimento de James Safechuck me arrepiou até os pelos da nuca. Lembro-me do comercial da Pepsi, lembro-me de tudo isso... É terrível conhecer esse lado de Jackson, e ter que admitir, mesmo sentindo tanta admiração por seu talento, que ele era, de fato, um pedófilo. Sempre advoguei a idéia de que Jackson era mental e emocionalmente uma criança entre outras crianças, e que qualquer contato que ele pudesse ter com essa meninada que freqüentava Neverland - seu estranhíssimo rancho/zoológico na Califórnia - não transcenderia aquilo que acontece quando uma criança vai dormir na casa de um amigo. E pelo jeito eu estava errado. Por baixo de sua vulnerabilidade, sua bondade, sua gentileza, sua brandura e seu jeito manso e feminino - características todas reais - havia um predador sexual como qualquer outro. Que abusava, que manipulava, que mentia e fazia mentir, que dispunha de meninos e os trocava a seu talante sem pensar uma única vez na devastação emocional que estava causando em cada um deles, como o pior dos pedófilos.

Assisti seu show no Brasil em 1993. Foi frio. Não teve a paixão e a explosão de música,
canto e dança que o público esperava.

Continuo considerando Michael um artista inigualável e seguirei ouvindo e amando suas músicas. Mas hoje tenho a triste certeza de que ele não era apenas uma pessoa imensamente perturbada; ele era um pedófilo. Se for provado que James mentiu, eu darei a mão à palmatória com prazer. Mas duvido que isso aconteça.

Poderia falar mais, mas o melhor é assistir.

É doloroso.
Tem que ser visto. (14/3/2019)

O PACIENTE - O CASO TACREDO NEVES (2018)

Brutal. Baseado no livro homônimo do pesquisador médico e escritor Luis Mir, conta a história dos últimos dias de Tancredo, a partir de sua internação. O então presidente eleito começou a apresentar dores fortes no abdômen três dias antes da posse e, diante do alarmismo fatalista criado pelo médico Francisco Pinheiro da Rocha, ele acabou sendo internado para uma operação de emergência. É inacreditável a sucessão de erros primários, ridículos e absurdos desencadeada pela precipitação desse médico. Em primeiro lugar Tancredo foi levado para o Hospital de Base de Brasília, uma espelunca sem infra-estrutura e completamente despreparado para atendimentos cirúrgicos de maior gravidade. Em seguida Pinheiro pensou que Tancredo estava com apendicite; aberto, na mesa de operações, constatou-se que seu apêndice não tinha absolutamente nada de errado. Culpou-se então o divertículo de meckel, uma espécie de pequeno apêndice do intestino que pode aparecer em certas pessoas mas que geralmente não dá qualquer problema. Retirou-se o divertículo.

Tancredo Neves
A operação foi assistida por políticos e gente que não tinha nada a ver com o pato, aumentando horrivelmente a possibilidade de infecção. A sutura foi porca. E como se isso não bastasse, descobriu-se depois que o divertículo - como costuma acontecer - não representava qualquer ameaça e o problema era um pequeno tumor, e ainda por cima benigno. Só que a internação às pressas, a operação mal-feita, o pós-operatório medieval, a hemorragia, a obstrução intestinal, a transferência tardia para São Paulo e as duas operações seguintes a que o velho Tancredo, com 75 anos, foi perversamente submetido, arruinaram sua saúde já combalida e ele acabou morrendo de falência múltipla de órgãos. Ou seja, um problema que poderia ter sido contornado facilmente com o tratamento adequado, virou uma tragédia dos mais horrorosos equívocos nas mãos de um bando inescrupuloso de médicos imbecis e incompetentes.

A foto terrível de Tancedo e a junta médica
Por conta de tudo isso - e acima de tudo pela performance exemplar do maravilhoso Othon Bastos, no papel de Tancredo - o filme é doloroso e difícil de assistir. O que temos é um homem idoso tendo sua vida aniquilada pela estupidez humana num espaço de 40 dias.

Em termos artísticos, não importa o quanto eu já esteja acostumado com a falta de qualidade do cinema brasileiro, eu continuo me decepcionando. A imagem é de novela, e não de filme; a direção de arte é nenhuma. Tudo é fake, tudo é cenário, tudo tem cara de estúdio. O roteiro não chega a ser ruim, mas a direção de atores é inexistente e prevalece uma canastrice fundamental. Othon, Esther Góes (Risoleta), Mário Hermeto (Tancredo Filho), Luciana Braga (Inês Neves), Otávio Müller (Dr. Renault) e Emiliano Queiroz (Dr. Batista Rezende) estão bem. Já Paulo Betti (Dr. Pinotti), Leonardo Franco (Gilberto Assis) e Leonardo Medeiros (Pinheiro Rocha) estão exagerados e caricatos.

Vale pelo triste registro histórico. Não há conspiração nenhuma de quem quer que seja, na morte de Tancredo. Houve, sim, a irresponsabilidade criminosa de um grupo desprezível de trapalhões. (22/4/2019)

A DOG'S LIFE


Chaplin, Keaton, Lloyd a Laurel & Hardy com seus amigos (25/4/2019)

ANTUNES


Por uma abençoada confluência de astros, minha entrada na faculdade coincidiu com um período de fastígio de Antunes no SESC da Vila Nova, ao lado do Mackenzie. Eu, com 21 anos, era uma esponja de cultura teatral e, munido de minha carteira de meia-entrada da UNE, transformei o teatro do SESC (e basicamente todos os teatros de São Paulo) em minha segunda casa. Assisti Macbeth três vezes. Vereda da Salvação mais outras tantas. Depois levava os amigos. Minha mãe viu Macbeth comigo no Municipal e Vereda lá no SESC (apaixonou-se perdidamente por Luis Melo). Qualquer coisa que acontecesse por ali, eu ia.

Não vou repisar aqui o que significou para a minha vida ter assistido o clássico de Shakespeare encenado por Antunes e interpretado por Melo. Já o fiz muitas vezes. Mas em uma das ocasiões em que fui comprar ingressos para essa ou outra peça (Gilgamesh, creio, em 95), à tarde, antes de ir para o Mackenzie, encontrei Antunes sentado no sofá que havia no saguão, acompanhado de Portella, Geraldinho e outros atores do que se poderia chamar seu elenco fixo. Sentei-me por perto e escutei um pouco da conversa, que era descontraída.

Melo interpretando Macbeth em Trono de Sangue

Eu levava comigo um gravadorzinho de fita-cassete com que pretendia gravar um trabalho de faculdade, saindo de lá, e quando eles se levantaram para entrar, eu abordei Antunes. Com a humildade de um vassalo perante o suserano - o diretor tinha a fama de ser uma pessoa difícil - pedi-lhe uma pequena entrevista para o diretório acadêmico da faculdade. Uma mentira que apliquei ao longo dos anos com bastante sucesso, já que eu nunca pertenci ao diretório, e mesmo que pertencesse, uma conversa com Antunes estava meio distante do universo de Propaganda e Marketing. Para minha surpresa, ele aceitou e se sentou no mesmo lugar onde já estava. Não tinha nada de difícil. Era uma pessoa fácil e gentil, desde que o interlocutor falasse sua língua. Sentei-me a seu lado, completamente aturdido, porque não pensei que ele aceitaria, e comecei a disparar perguntas sobre tudo aquilo que pudesse pensar no momento.

Foi uma conversa genérica. Sem maior repertório para poder encarar um totem como Antunes, conduzi o papo pelo momento atual do teatro brasileiro, os autores e diretores de sua predileção, sua relação com Shakespeare e etc. Desnecessário comentar a paixão causticante com que expendia seus conceitos, um mais brilhante do que o outro, sobre o palco. Era um gênio do teatro falando. Conversamos por uns quarenta minutos, mais ou menos, e ele explicou que teria que voltar para o ensaio. Agradeci e abracei-o com o coração transbordando de alegria e entusiasmo. Prestes a entrar no teatro ele se virou para mim: "Você não me disse teu nome". "Bernardo". Ele brincou: "Bernardo? Ahhh... quem vem lá? Bernardo?" Mergulhado em Shakespeare graças aos filmes de Olivier, Welles e Brannagh, e no Brasil, graças a pessoas como ele, Luis Melo e Antonio Fagundes, reconheço a primeira cena de Hamlet e respondo, de um salto: "Responde tu primeiro! Viva o rei!" Ele sorriu e entrou. Saí do SESC ébrio de satisfação, trêmulo, como uma garrafa de nitroglicerina que foi agitada.

Mais do que por sua gigantesca contribuição às artes cênicas, mais do que por ser, junto a Flávio Rangel, o maior diretor de teatro que o Brasil já teve, é assim que vou lembrar de Antunes. Como alguém que deu uma entrevista a um jovem sem sequer saber seu nome. Que não se importou com o fato de eu estar amplamente despreparado para entrevistar alguém como ele. E que ao invés de me mandar à merda, que é algo que ele poderia tranqüilamente ter feito, estando no meio de um ensaio, me viu pelo que eu era: um jovem curioso, pronto para ser ensinado, cheio de vontade de aprender mais sobre aquilo do qual ele foi um de nosso maiores mestres.

Obrigado por TUDO, Antunes!

Obrigado! (3/5/2019)

RUBENS EWALD FILHO (1945/2019)


Cresci vendo Rubens Ewald no antigo Jornal Hoje falando sobre cinema, mas foi só por volta dos dezessete anos, quando desenvolvi uma obsessão pelo Oscar, suas cerimônias e seus premiados, que realmente pude constatar o quilate do cinéfilo que ele era. Um amigo me deu um número especial de uma publicação qualquer sobre cinema falando tudo sobre o prêmio. O autor: Rubens. Devorei aquela revista e praticamente decorei seu conteúdo. Foi uma espécie de guia para tudo aquilo que eu desejava (e precisava) assistir, em minha nascente cultura cinematográfica. Ele comentava exatamente aquilo que merecia ser comentado, não se alongava demais, era objetivo e honesto; aqui e ali criticava o que julgava que deveria ser criticado, e o fazia com um conhecimento tão profundo, tão depurado, que era impossível não respeitar sua opinião, e, no mais das vezes, concordar com ela.

Leonard Maltin
Nos Estados Unidos descobri seu alterego norte-americano, Leonard Maltin. Mas este sempre foi mais um historiador do que qualquer outra coisa, e na época das premiações de cinema, como Oscar, SAG, Globo de Ouro, etc., afirmo com a máxima convicção que os comentaristas cinematográficos de todas as emissoras - excetuando Gene Siskel e Roger Ebert - não chegavam aos pés de Rubens. Eu via com espanto alguns deles, metidíssimos, consideradíssimos, respeitadíssimos, metendo os pés pelas mãos e errando feio todas as previsões dos vencedores. Rubens estava acima de todos eles. Era imbatível. Assistir o Oscar com a narração de Renato Machado, a tradução de Elizabeth Hartman (a intérprete, não a atriz) e os comentários de Rubens era experiência imperdível. Ele sabia tanto que não raro dava spoillers de filmes que estavam concorrendo e nem sequer haviam chegado ao Brasil ainda. Era seu único defeito.

Em meados da década de 90 eu encasquetei de montar a peça Oleanna, de David Mamet na faculdade. Estava influenciado pela montagem de Fagundes e pelo filme dirigido pelo próprio Mamet, com William H. Macy. A Internet era incipiente, Mamet ainda não era famoso o suficiente para aparecer em revistas e não havia verbetes sobre ele em livro nenhum. Num mato sem cachorro, pego a lista telefônica e ligo para quem? Rubens. Se alguém saberia alguma coisa sobre o filme, o diretor ou seu roteirista, era ele. E ele mesmo atendeu. Demorou um pouco para entender o que eu queria mas quando se deu conta de que eu era apenas um curioso atrás de informações sobre Mamet, riu e conversamos durante quase uma hora. Ele era simples e não tinha um pingo de estrelismo. Mesmo sabendo que era o maior crítico brasileiro e um dos maiores (senão o maior) do mundo, era uma pessoa como qualquer outra, simpática e acessível.

A chegada da TV a cabo no Brasil - nessa mesma época - acabou representando um segundo auge de Rubens. Contratado pela TVA ele ampliou aquilo que já fazia com a Globo e multiplicou por dez sua atividade como comentarista e entrevistador. Passava pelo menos metade do ano viajando o mundo, participando de festivais e entrevistando todos os atores, atrizes, diretores e figuras de maior ou menor importância, no mundo cinematográfico. Conhecido e reverenciado no meio, não havia celebridade que lhe fechasse as portas. Pelo contrário; foram incontáveis as vezes em que artistas demonstraram sua admiração, boquiabertos, com a cultura oceânica de Rubens. Me pergunto sobre o destino desse acervo da TVA (que se não me engano pertencia à editora Abril), porque há entrevistas antológicas feitas por ele, que não podem ser perdidas.


Anos depois repeti a dose; estava escrevendo um texto sobre Guarnieri e liguei para ele a fim de perguntar sobre a versão de Éramos Seis da Tupi, que ele escreveu em parceria com Silvio de Abreu. Mais um par de horas da melhor prosa, e foi bem na época do lançamento da Coleção Aplauso, então falamos de tudo e de todos, no teatro e no cinema. Várias vezes trombei com ele em teatros ou eventos. A última vez foi no Persona em Foco de Othon Bastos. A simplicidade de sempre. Desceu do automóvel, na Cultura, colocando a camisa que usaria durante a gravação. Cumprimentou a mim e a quem estivesse por perto como um velho amigo.

Era um grande mestre. Perdemos todo com sua partida. Ele fará muita falta. A frase foi banalizada pela utilização excessiva, sobretudo com gente que não fará falta nenhuma. No caso dele a frase não podia ser mais tristemente real. Ele fará MUITA falta.
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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Minestrone Cultural VII


OTHON BASTOS

Othon no Persona in Foco, foto de Jair Magri

Costumo dizer isto sobre Bibi e digo também sobre Othon com o maior prazer: são poucas as pessoas que me fazem sentir orgulho de ser brasileiro. Pouquíssimas. Othon Bastos é uma delas. Quando Atilio Bari me avisou que ele gravaria o "Persona em Foco", fiz questão de comparecer. E quando soube que minha amada Sonia Loureiro seria uma das entrevistadoras, a obrigação revestiu-se de ainda mais prazer.

Sônia Loureiro, Othon e Rubens Ewald
A carreira de Othon é absolutamente modelar. Foi levado ao teatro pelas mãos eruditas e operosas de Paschoal Carlos Magno; fundou o Teatro Vila Velha com a esposa e atriz Martha Overbeck; participou dos quatro espetáculos mais importantes do Oficina; produziu e protagonizou as melhores peças de resistência à ditadura, escritas por Guarnieri.

No cinema esteve no "Pagador de Promessas", o filme de Anselmo Duarte premiado com a Palma de Ouro em Cannes; foi alterego de Glauber Rocha, protagonizou obras-primas de Ruy Guerra e Leon Hirszman, marcou presença indispensável no ressurgimento do Cinema Brasileiro em filmes de Walter Salles e Lais bodanski. Na TV foi do Teatrinho Trol e do Grande Teatro Tupi até "Os Imigrantes", "Roque Santeiro" e "Éramos Seis".

Com Gracindo Jr. e Othon no Teatro dos 4, depois da representação de
"Meus Prezados Canalhas", 1994

A gravação, em maio, foi um verdadeiro deleite. Othon, com sua cara séria, sua pose marcial e sua voz grave e ameaçadora, é um brincalhão, um piadista de primeira, bem humorado e de bem com a vida, feliz por receber, aos 83 anos, tanto carinho dos jovens presentes. Falou de sua cidade natal, da infância, da escola, das primeiras experiências de palco. Alternou-se entre o cômico e o comovente. Sempre com a lágrima prestes a transbordar, cheio de poesias e citações na ponta da língua. Com Sônia, sua colega e parceira de tantos trabalhos, Othon bateu uma bola redondíssima. Com Rubens Ewald a coisa demorou a engrenar, mas quando engrenou, foi uma beleza.

Othon é um dos maiores atores brasileiros? Sem dúvida nenhuma. Ele é o Teatro Brasileiro? Não. Ele é MAIOR do que o teatro. Ele é a ARTE brasileira. O que o povo brasileiro tem de melhor.

Assistam.



Reclamo novamente, como já reclamei quando da apresentação do programa com Fagundes, da tesoura que tolhe, desbasta e limita em 59 minguados minutos, uma gravação que ultrapassou as duas horas e meia. Othon tem 60 anos de carreira, participou em primeiro plano de tudo de mais significativo que se fez nesse período. E para nossa imensa satisfação, ele é inteligente, articulado, torrencial, gosta de falar, fala bem e é um contador de histórias primoroso. Simplesmente não me conformo com o absurdo e o pecado de querer espremer em uma única hora algo tão maravilhoso, apenas para que uma reprise qualquer comece no horário certo, lá pela meia noite e meia!

TV Cultura, por favor! DANEM-SE as reprises. Othon é nosso passado e nosso presente. Vamos valorizá-lo AGORA, pelo amor de Deus. (15/08/2016)

ANGUS MCBEAN

Angus Macbean
No dia 19 foi Dia da Fotografia, ou dia do fotógrafo, um dos dois. Sobre o papel da fotografia na minha própria vida não vou nem falar porque não pararia mais. Ano passado falei de Chico Albuquerque. Este ano eu pretendia falar de três imensos fotógrafos franceses do século XIX - Nadar, Carjat e Mulnier - mas me vi perdido num oceano de fotos magníficas, retratos, em sua maioria, e não consegui escolher.

Resolvi então aproveitar que no mesmo dia comemora-se o Dia do Ator e fico com Angus Macbean (1904/1990), certamente o maior fotógrafo do Teatro Inglês no século XX. É graças à sua lente que podemos hoje conhecer de perto a caracterização de todos os mestres - Olivier, Vivien Leigh, Gielgud, Peggy Ashcroft, Richardson e etc. - em seus melhores papéis shakespeareanos.

Foi também retratista de algumas das maiores celebridades de Hollywood e - soube recentemente - é de sua câmera a capa de "Please Please Me", dos Beatles.

Gênio.


Há centenas de fotos magníficas de MacBean. Merecem um artigo à parte. Acima, o "Tito Andrônico" de Olivier e Vivien, 1955, que Kenneth Tynan definiu como "an unforgettable concerto of grief".
(21/08/2016)

MIMI WO SUMASEBA (1995)

Ampliando um pouco o leque de maravilhas que vem do Ghibli, assisti みみ を すませば, "Sussurros do Coração", com roteiro de Miyazaki e direção de Yoshifumi Kondô.

Eu andava um pouco desconfiado porque depois de ser maravilhado seqüencialmente por jóias de Myiazaki como "Kaze no tani no Naushika" ("Nausicaä do Vale do Vento"), "Tonari no Totoro" ("Meu Amigo Totoro"), "Sen to Chihiro no kamikakushi" ("A Viagem de Chihiro") e "Gake no ue no Ponyo" ("Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar"), confesso que não tive a mesma catarse com "Majo no takkyûbin" ("O Serviço de Entregas da Kiki"), "Kurenai no buta" ("Porco Rosso") e "Mononoke-hime" ("Princesa Mononoke"). Estes últimos três são brilhantes, originais, tem imagens belíssimas (sobretudo Kurenai), são manancial de inspiração para filmes que vieram depois (sobretudo Takkûbin) e devo revê-los quando puder, mas não foram a lufada violenta de genialidade dos primeiros. Talvez minha opinião mude depois de uma segunda chance.

A desconfiança seguiu quando assisti Hotaru no haka ("Cemitério dos Vagalumes") - verdadeiro vale de lágrimas, apelativo demais - e Omohide poro poro ("Memórias de Ontem"), este certamente bem melhor, mais leve e contemplativo (alcançando aqui e ali picos de absoluta genialidade nas cenas que envolvem a criança Taeko, divertidíssima e um dos mais maravilhosos personagens do Ghibli), ambos de Isao Takahata, nº2 do Ghibli.

Cheguei então a Mimi wo sumaseba, que desfia as idas e vindas da menina Shizuku e seus tormentos adolescentes. O tema seria suficiente para afastar qualquer adulto, mas quando se trata de algo escrito por um gênio, o receio desaparece. E esta animação é uma pérola. Myiazaki é tão sutil, tão inteligente que transforma uma simples história de coming of age, repleta de clichês, namoricos e bobagens em um épico de fantasia e sensibilidade. Seu célebre talento em criar as mais adoráveis personagens femininas infanto-juvenis está inteiro em Shizuku. Há humor, há drama e há música. Não sei se foi idéia de Myiazaki ou do diretor incluir no filme e na própria trama e música "Country Roads", de John Denver, mas a brincadeira é responsável por dois dos melhores momentos de toda a produção.


Eu seria profundamente injusto, porém, se desse todo o crédito ao roteirista e esquecesse o diretor Yoshifumi Kondô. Receber um diamante bruto de alguém como Myiazaki e entregá-lo polido e radioso é para quem tem a centelha do gênio. Ele trabalhou como produtor de animação de quase todos os filmes do Ghibli, e Myiazaki o preparava para ser seu sucessor no estúdio. Estreou com Mimi wo sumaseba, que foi um extraordinário sucesso de crítica e público mas não pôde dar seqüência ao que seria uma linda carreira, porque teve um aneurisma e morreu três anos depois. Tinha 47 anos.

Mas seu filme ficará para sempre.

Recomendo. (21/08/2016)

KARI-GURASHI NO ARIETTI

Mais uma jóia do Ghibli. Direção de Hiromasa Yonebayashi e roteiro de Myiasaki, baseado em "The Borrowers", de Mary Norton.

Embora seja originalmente falado em japonês, é uma parceria do Ghibli com a Disney, então a canção-tema é em inglês. Música linda, por sinal, composta e cantada pela francesa Cécile Corbel.

Encontrei o video abaixo no Vimeo (o Youtube proibiu a reprodução da música por conta de direitos autorais). Além de trazer a canção, é uma homenagem ao Ghibli. (04/09/2016)



THE HOLLOW CROWN

Ben Whishaw como Ricardo

Belíssima produção da BBC! Como não soube dela antes? Primeira vez que vejo Ricardo II e Henry IV levados à TV (evitei as montagens da BBC na década de 70, geralmente ruinzinhas).

A performance de Ben Whishaw como Ricardo II beira a perfeição! Há tempos o trabalho de um ator não me impressionava tanto. Jeremy Irons está ótimo como sempre. Simon Russell Beale está ok como Falstaff. Talento sem carisma, infelizmente. Já Tom Hiddlestone, tão comentado, ultimamente, me decepcionou. É o contrário de Beale. Tem um rosto marcante, algum carisma, mas está longe de poder lapidar um diamante interpretativo como Hal. É, como tantos, um ator moderno. Falta-lhe estofo para Shakespeare.

Ainda estou na primeira temporada. Voltarei para comentar a segunda, que continua a saga dos Plantagenetas. (09/09/2016)

FALSTAFF (1965)

Ou "Chimes at Midnight", citando a fala de Falstaff a Shallow no fim do Henry IV. Versão restaurada, finalmente, de mais um dos trabalhos de Welles que estão esquecidos por conta de décadas de má conservação dos negativos. Assisti há uns quinze anos mas a cópia em video era da pior qualidade.

Volto a assistir agora, restaurado, e confesso que é bom vê-lo na sequência do contemporâneo "The Hollow Crown". Welles costura de maneira algo anárquica as cenas de Falstaff nas duas peças e a série da BBC me refrescou na memória a cronologia de Ricardo II e os duas partes de Henry IV.

O elenco tem semelhanças e qualidades curiosas; Welles é o melhor Falstaff de todos os tempos, então nem sequer sobra espaço para que lembremos de Simon Beale. E como Maxine Peake, mesmo sendo ótima, poderia competir com Jeanne Moreau? Já o Henrique de Jeremy Irons, natural e decadente, está muito mais crível do que o sempre gongórico e declamativo John Gielgud. Quanto a Margaret Rutherford e Julie Walters, são Mistress Quickly diferentes, mas com igual talento.

Jeanne Moreau e Orson Welles

No caso do jovem Hal, ocorre a triste coincidência de tanto Tom Hiddleston quanto Keith Baxter serem equivalentes em sua mediocridade e não conseguirem - apesar de intenso esforço e boa-vontade - convencer na pele do boêmio e inconsequente Hal.

Recomendo. (10/09/2016)

1940

Magnífica propaganda da Antarctica para o Carnaval de 1940. Que beleza! (15/09/2016)


Obra prima apenas para anunciar nos jornais o sorteio da Loteria Federal na primeira quinzena de 1940. (14/09/2016)


1940 - Carnaval. Tenho que descobrir quem era o artista, ou os artistas que faziam esses desenhos. Uma coisa espetacular. (15/09/2016)


ELKE

Com Elke no Pequi, 2002

Em maio foi Cauby... hoje foi Elke que subiu aos céus. Mortes fortemente simbólicas. Pessoas doces e coloridas. Nunca foram contra nada. Ao contrário, eram a favor de tudo. Verdadeiros exemplos para determinados movimentos ressentidos e vingativos que pregam, com o mesmo preconceito e sectarismo que condenam, os direitos deste ou daquele. Para eles tudo e todos tinham seu espaço. Não precisaram criar trincheiras, adversários, inimigos figadais para transmitir sua liberalidade. Acredito que pela simples e prosaica razão de que eram felizes e amavam o ser humano, em primeiro lugar. Eram verdadeiros humanistas, verdadeiros democratas.

Elke começou como modelo, se tornou atriz e não por coincidência virou uma espécie de guru e mascote dos Dzi Croquetes. Era o embrião do hoje tão decantado (e mal definido) pansexualismo. Elke não tinha uma tribo. Tinha TODAS. Era respeitada e bem recebida em todos os lugares. E por quê? Porque dentro dela havia um ser humano pensante, inteligente, fino, sofisticado, antenado com o momento. Poucos percebiam isso, por conta de sua persona televisiva, extravagante e espalhafatosa, mas Elke estava a anos-luz de ser só uma comediante, uma mera drag queen barulhenta e divertida. Era cultíssima, lida, viajada, vivida.

Beleza estonteante, aos 18 anos

Encontrei Elke duas vezes. Uma vez num avião, quando tinha uns nove ou dez anos. Fui pedir-lhe um autógrafo. Ela assinou e beijou o papelucho que lhe dei. Agradeci e saí andando quando escuto, altíssimo: "E O MEU BEIJO???" Voltei envergonhadíssimo e levei uma carimbada de Elke na bochecha. Ao longo dos anos lembrei-me dela com carinho e simpatia. O programa do Chacrinha é parte fundamental de minha adolescência e toda a semana eu tinha um encontro inadiável com ela, com as chacretes e com o Velho Guerreiro. Na seqüência ela foi trabalhar com Sílvio Santos. E assim foi: nunca um escândalo, nunca uma fofoca, nunca uma maledicência, nunca uma polêmica. A figura mais "outrageous" de nossa TV era discreta e tranqüila. Vivia para divertir os outros e a si mesma. Sem jaça, sem maldade. Só alegria.

Em 2002 (creio), estou com os amigos no constante e saudoso PEQUI, na esquina da Alameda Santos com a Peixoto Gomide, o chamado "bar teatral" da época, quando entram Leão Lobo e Elke (lembra, Glaucia?). Vindos de uma gravação, talvez. Leão eu via toda hora nos teatros, por aí (como até hoje, por sinal), mas Elke eu não via há pelo menos 20 anos. Pedi licença a Leão, literalmente, para "tietá-la". "Fique à vontade", respondeu ele rindo, e abracei Elke, que trazia seu sorriso imenso e os lábios vermelhíssimos como sempre. Conversamos, falamos do Velho Guerreiro, de sua célebre participação na "Xica da Silva" de Cacá Diegues, de seus colegas jurados, papo de tiete, mesmo. Como esquecer sua gargalhada?

Um ser humano maravilhoso

Aprendi muito sobre tolerância e generosidade humana observando o exemplo dela e de Cauby. Na página de Elke, hoje, no Face, há uma mensagem que termina com uma frase que certamente é dela. Frase tão certeira, que a define tão perfeitamente, e que considero uma pérola:

"CRIANÇAS, CONVIVER É O GRANDE BARATO DA VIDA. APROVEITEM E CONVIVAM". (16/08/2016)

VEM COMIGO


Com Goulart, 2001 (creio)

Goulart, meu Deus.... que ano terrível!... toda semana um necrológio...

Não há pessoa da geração dos anos 70 que não tenha crescido sob o impacto das reportagens cruas e marcantes de Goulart de Andrade no "Comando da Madrugada". E não pelo sensacionalismo de algumas matérias, ou pela ocasional nudez (sempre muito bem-vinda), mas porque ele era um repórter tão competente e tão carismático, que conseguia transformar em palatável e informativo algo que nas mãos de qualquer outra pessoa seria de escandaloso mau-gosto.

Além de ser o mais versátil de todos. Lembro-me até hoje de sua antológica reportagem com Andrea de Maio e as travestis de rua, aplicando silicone ali mesmo, em frente à câmera do fiel Capeta, da maneira mais tosca e insalubre possível. Em outra ocasião Goulart acompanhou Zeketti a uma clínica de urologia e os exames no velho compositor foram mostrados candidamente, sem cortes (minha mãe cobriu os olhos, gritando, "que horror!!!!"). E depois disso mostrava tranqüilamente uma visita ao restaurante de Marcos Bassi, ou mostrava a Cinemateca e ria de encontrar fitas de si mesmo na década de 60, ou celebrava o centenário de Chaplin falando a mesma língua do melhor cinéfilo. Misturava o mundo sofrido e cão ao mundo burguês, ou ao mundo artístico, intelectual, sempre com suavidade, bom humor, bom astral, de forma impecável. Conhecia tudo e todos.

Goulart era O repórter. E um prazer imenso e constante de assistir, madrugada adentro.

Essa foto é de 2000 ou 2001. Ele andava meio sumido, na época, e adorei conhecê-lo. Mais de uma década depois ele aparece na Gazeta, ensinando reportagem a estudantes da Cásper. Que fim mais lindo, mais digno, mais perfeito para ele, que era um vade-mécum de jornalismo e reportagem.

Um grande beijo, mestre!

E OBRIGADO! (23/08/2016)

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"If you want to view paradise, simply look around and view it.
Anything you want to, do it. Wanna change the world?
There's nothing to it".

"Pure Imagination", de Leslie Bricusse e Anthony Newley, cantada por Gene. E ninguém poderia ter interpretado melhor essa música. Porque embora fosse um homem sério, pragmático e não considerasse Wonka seu melhor papel, ele certamente mudou nosso mundo. Para muito melhor. (31/08/2016)

Gene e Mel, em 1974, filmando "Young Frankenstein", e em 2007,
na estréia do musical baseado no filme

Quando soube da morte de Gene Wilder, Mel Brooks tuitou: "He blessed every film we did together with his special magic and he blessed my life with his friendship".

Já Wilder, quando perguntado sobre como era trabalhar com Brooks, nos três filmes que fizeram juntos, respondeu: "Heaven on a stick".

Na foto, os dois em 1974, durante as filmagens de "Young Frankenstein" e 33 anos depois, quando o filme virou musical e Wilder compareceu a uma apresentação com Mel.

Tenho pensado muito em Gene Wilder. Vou escrever sobre ele em breve. (04/09/2016)

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A deliciosa "Crazy", canção que abre o filme Stir Crazy - segunda colaboração de Gene e Richard Pryor, desta vez dirigidos por Sidney Poitier em 1980 - foi escrita por Michael Masser e Randy Goodrum, e no filme é cantada pelo próprio Gene Wilder.

Mais uma lembrança doce e divertida - como praticamente tudo que vinha de Gene - tendo como pano de fundo uma Nova York molhada e fria - e pra lá de caótica - e ainda assim aconchegante, do fim dos anos 70. (13/09/2016)

GENE

2008, lançando "The woman who wouldn't" em Hollywood

Como tantas pessoas da minha geração, pensei que Gene Wilder tinha se aposentado do cinema por não conseguir superar a perda de sua esposa, a atriz Gilda Radner, morta em 1989 depois de três anos de uma batalha cruel contra um câncer no ovário. A verdade, entretanto, era completamente outra. Dois anos após a morte de Gilda, Gene se casou novamente com aquele veio, de fato, a ser o grande amor de sua vida: Karen Boyer, que ele conheceu fazendo laboratório para o filme See no Evil, Hear no Evil em uma instituição para surdos. Feliz e tranqüilo no amor, decepcionou-se com os roteiros que recebeu nos anos seguintes, que considerou medíocres, cheios de palavrões, sexo gratuito, violentos demais ou apinhados de efeitos especiais, em suma, tudo aquilo de que foge um ator sério como Gene, forjado no Actor’s Studio de Lee Strasberg, e experimentado nos palcos desde muito cedo, interpretando textos dos maiores dramaturgos de todos os tempos.

Em 1999 teve seu próprio rendez vous com o câncer, um linfoma não-hodgkin, que tratou e venceu. No primeiro lustro do novo século descobriu o prazer pela escrita, lançou suas memórias e mais quatro ou cinco livros de ficção, todos muito bem recebidos. Apreciou a transformação em musical de duas de suas colaborações com Mel Brooks — The Producers e Young Frankenstein — e deplorou, com toda a razão, o horroroso remake de Tim Burton para “Willy Wonka and the Chocolate Factory”. Em entrevistas disse que não descartava uma volta ao cinema desde que o roteiro fosse de seu agrado. Chegou a mencionar Judy Dench como uma das atrizes com quem gostaria de trabalhar. Recentemente desenvolveu o Mal de Alzheimer. Ouvi dizer que Spielberg o teria convidado para interpretar o papel principal em The BFG, baseado no livro de Roald Dahl — mesmo autor de Willy Wonka — mas já era tarde. Pra variar, Hollywood só acordou quando Wilder já não tinha mais condições de trabalhar. O papel foi para o competente mas insípido e inodoro Mark Rylance.

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Qualquer coisa que eu disser sobre Willy Wonka e o efeito que teve sobre mim como criança será redundante. Sobre os 40 ou 50 minutos de filme antes de Wonka aparecer. Sobre sua entrada antológica, memorável, na qual finge ser um manco e acaba dando uma cambalhota que encanta a todos (e que mais tarde soube ter sido idéia do próprio Wilder). As “nevascarangas”, da (ótima) dublagem em português. O pátio central, na qual ele canta “Pure Imagination”. Oompa Loompas. O que dizer sobre a cena do refrigerante que fazia todos levantarem vôo? A arrepiante e sensacional cena do túnel... não preciso falar que tive medo. Ou que havia um certo pavor na desgraça de cada uma das crianças, cada vez que recebiam sua justa punição. Tudo é fantástico, tudo é mágico. A cena final, o everlasting gobstopper, a revelação de Wonka, o carinho e o elevador... ah, o elevador. Aprendi com esse filme o que era chorar de emoção. Melhor não falar. Como disse, tudo é redundante quando se fala do que atinge as raias da perfeição.

Meu segundo encontro com Gene veio quando eu entrava na adolescência. Foi em Silver Streak, que a Globo transmitiu em algum sábado à noite. Lembro-me de rir até secar as lágrimas. Rir de não conseguir respirar. De passar o resto da noite e os dias seguintes comentando o filme com meus irmãos. Gene e Richard Pryor eram dia e noite, café com leite, queijo e goiabada e todas as analogias possíveis que descrevam aquilo que não necessariamente se encaixa, mas aumenta. Eram complementares mas não no sentido de um suprir as faltas do outro, mas de somar sem obstruir. Não eram os novos Gordo e o Magro, ou Martin e Lewis, porque nenhum deles era o straight man. Ambos eram protagonistas cômicos equivalentes. Diferentes mas compatíveis. Como dizia o próprio Gene, sempre fazendo a ressalva humorística de que não desejava ser mal compreendido, a relação poderia ser comparada ao sexo, em termos de que a química interpretativa entre ambos era incontrolável. Não paravam de improvisar, de criar, de divertir, enquanto estavam juntos em cena. E Silver Streak é um banquete de humor, onde sobram risos, uma trama policial excelente e um belo romance entre Gene e Jill Claybourgh. Gene era um leading man completo.

Gene e Richard Pryor

No Inside the Actor's Studio, 1996
Willy Wonka e Silver Streak foram tão importantes na minha vida, que nada feito por Wilder depois conseguiu superá-los. Pelo menos para mim. Woman in Red eu vi no cinema. Muito divertido, Kelly Lebrock era uma visão do paraíso para um adolescente como eu, de 14 ou 15 anos. Mas não passava disso. Lembro-me de ver Funny About Love, quando saiu em vídeo. Um belo romance dramático, mas não dei maior atenção. Another You, sua última e melancólica parceria com Pryor, até hoje nunca assisti. E o tempo passou. Sua entrevista a James Lipton no Inside the Actor’s Studio, em 96, por aí, foi muito marcante. Gene estava trabalhando pouco, alguns filmes para TV, e sua falta estava sendo imensamente sentida. Quando entrou no palco me emocionei às lágrimas. Era tão bom vê-lo rindo, contando as histórias extraordinárias por trás de cada uma das obras-primas de que participou nos anos 70. Foi ali que percebi, também, que ele era o anti-celebridade. Era simples, pés completamente no chão, inteligentíssimo, o exato oposto do que se vê hoje em Hollywood ou no meio artístico em geral. Compreendi perfeitamente por que não estava trabalhando como sempre. Tinha vida fora do cinema.

No lançamento de "Kiss me like a Stranger"
em Londres, 2005
Há uns dez anos, mais ou menos, soube por uma menina, no Orkut, que ele lançara suas memórias. Senti com força a saudade de ver novamente sua maravilhosa figura nos divertindo e nos emocionando no cinema. Do pouco que chegava até nós, na TV a cabo e naquele pedregoso início de youtube, eu tinha a satisfação de ver que ele estava muito bem. Sua saúde estava boa e ele se dizia mais feliz do que nunca com a nova profissão. Gostava, genuinamente, de escrever. Por volta de 2013 senti mais uma vez, essa saudade. Era como se de vez em quando eu tivesse um “encontro de alma” com Gene. Morando em Paris, aparentemente, naquela época, ele não pôde estar presente para a cerimônia do AFI Life Achievement Award, dedicado a Mel Brooks. Mandou uma mensagem gravada. Fiquei preocupado. Achei-o frágil, como nunca o vira antes. Sim, estava com 80 anos, mas até aí, Mel estava com quase 90 na homenagem e parecia um garoto, agitado e falastrão.

Assisti, então, de uma única vez, The Producers, Young Frankenstein e Blazing Saddles. O primeiro é ótimo. O segundo é uma obra-prima com alguns deslizes. E o terceiro é uma idiotice com alguns bons momentos. Aproveitei o embalo e vi outros dois filmes que estavam, por sorte, inteiros no youtube (e não estão mais, pelo que sei): o simpático e esquecível Start the Revolution Without Me, de 1970, direção de Bud Yorkin, com Gene e Donald Sutherland em papéis duplos; e o desconhecido e estranhíssimo Rhinoceros, de 1974, segunda e última colaboração entre Gene e Zero Mostel, dirigida por Tom O'Horgan a partir da peça de Ionesco. Para se ter uma idéia, não tive saco para ver até o fim. Com tudo para dar certo, o filme é simplesmente chato.

No ano passado, novo encontro de alma. Fui varejar o agora bem fornido youtube com tudo que pudesse achar, de Gene. Entre outras, assisti sua magnífica entrevista a Ernie Manouse, de 2006, por ocasião do lançamento de suas memórias, e seus dois bate-papos com Robert Osborne, do TCM, em 2013 e 2014. Foi agridoce. Nestas últimas sua saúde já se mostrava precária. Gene, sempre tão articulado e tão brilhante ao expor suas opiniões, estava cansado, lento, fragilizado. O gênio estava lá, mas já não tinha mais vontade ou força para se mostrar inteiro. E no dia 29 de agosto deste ano ele se foi. Treze dias depois do grande Arthur Hiller, diretor de Silver Streak.

Queria, evidentemente, ter tido o prazer de poder abraçá-lo pessoalmente e agradecer-lhe por ter sido quem foi e por ter premiado nossa vida com seu talento. Mais do que isso, porém, já me contentaria com a certeza de que ele tinha pelo menos noção do quanto fez bem a todos nós com seu trabalho. Gene era tão honesto, tão pragmático que não sei se ele alguma vez parou para considerar isso. Espero que o grande amor e admiração que todos lhe devotávamos tenha sido fonte de conforto para ele em todos os momentos.

Muito obrigado, amado amigo, lembrança mais doce de nossa infância, referência eterna de talento, modelo de inteligência, exemplo de honestidade... OBRIGADO!



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