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terça-feira, 17 de outubro de 2017

Minestrone Cultural X


MIDSUMMER

1935 e 1968

As versões cinematográficas de "A Midsummer Night's Dream" de 1935 e de 1999 são conhecidas. A primeira é a pioneira mega-produção da Warner dirigida por William Dieterle, baseada na premiada montagem teatral de Max Reinhardt, com um elenco estelar que inclui Mickey Rooney (Puck), Olivia de Havilland (Hermia), Joe E. Brown (Flute) e outros. A versão de 1999 foi dirigida por Michael Hoffman, se passa na virada do século XIX para o XX e também traz grande elenco, com nomes como Michelle Pfeiffer (Titania), Christian Bale (Demetrius), Calista Flockhart (Helena) e Anna Friel (Hermia).

Perdida nos desvãos do tempo ficou uma versão de 1968, do grande diretor inglês Peter Hall com alunos e mestres da Royal Shakespeare Company. Nada haveria de especial nisso, considerando-se que se trata de filmagem sem grande apuro técnico, feita apenas para eternizar a montagem teatral da época. O que conta neste caso também é o elenco, que conta com figuras que iniciavam ali suas carreiras mas que brilhariam intensamente até hoje, como Ian Holm (Puck), Helen Mirren (Hermia), David Warner (Lysander) e Diane Rigg (Helena), entre outros.

Enquanto o Bottom de Kevin Kline, em 1999, recebeu apenas maquiagem e orelhas de burro, vemos (na foto) que a transformação do personagem foi basicamente idêntica em 1935 a 1968. Uma divertida máscara de burro, que permitia pequenos movimentos da boca, cobriu tanto James Cagney, em 1935, frente à maravilhada Titania de Anita Lousie, quanto Paul Rogers, em 68, junto à jovem e linda Titania de ninguém menos do que a hoje famosa e respeitada Dame Judi Dench.

Artigo em breve. (01/05/2017)

INCHON (1981)

Terence Young era um diretor eclético para dizer o mínimo; tinha em seu currículo nada menos do que três dos principais filmes de James Bond ("Dr. No", "Thunderball" e "From Russia with love"), além dos ótimos "Wait Until Dark", com Audrey Hepburn e "L'avventuriero", com Anthony Quinn e Rita Hayworth. Mas tinha também uma lista de filmes menores com Charles Bronson, idiotices como "Le guerriere dal seno nudo" (1973), meteu-se em uma fria com "Jackpot" (1975), estrelado por Richard Burton e Charlotte Rampling, interrompido por falta de dinheiro, e embora ainda contasse com o prestígio da classe artística, sua carreira entrou em decadência em meados dos anos 70. "Bloodline", baseado no livro de Sidney Sheldon e lançado em 1979, trazia Audrey Hepburn como protagonista e um elenco estelar que incluía James Mason, Irene Papas, Omar Sharif e Ben Gazarra. Foi um fracasso absoluto. Mas nada que se comparasse a seu projeto seguinte: um filme sobre a invasão anfíbia de Inchon, durante a guerra da Coréia.

A produção de "Inchon" já começa com inúmeros problemas. Os principais são três: o orçamento do filme - gravado em grande parte na Coréia do Sul - passou de 45 milhões de dólares, um verdadeiro oceano de dinheiro, em 1979; esse dinheiro veio da Igreja da Unificação, a célebre seita coreana fundada e chefiada pelo Reverendo Moon (o que não encontrou objeção de Terence, que certamente não queria repetir o fiasco de "Jackpot"); e por fim, o roteiro de Robin Moore e Laird Koenig é péssimo. O tema da guerra é tratado superficialmente e a história de amor é monótona e implausível. Ben Gazarra é um oficial americano lotado na Coréia do Sul. Ele é casado com Jacqueline Bisset, mas seu casamento naufraga e ele se junta com uma garota local. Quando a guerra da Coréia começa ele se sente obrigado a tirar a esposa do país. Eles se encontram, conversam por cinco minutos e se reconciliam. É ridículo, para não mencionar o fato de que Bisset e Gazarra tinham zero de química.

Terence Young e Olivier
Quanto ao resto do elenco, Olivier faz um bom trabalho no papel de Macarthur. Como já consignei em outros artigos, não sou fã de seu sotaque americano e ele estava visivelmente fragilizado por uma série de convalescenças, mas era um ator tão extraordinário que mesmo quando não estava em sua melhor forma ainda é um prazer assisti-lo. E ele não fazia qualquer segredo sobre o porquê de ter aceito o papel: dinheiro. Honesto o abnegado, não enriquecera com a profissão - mesmo sendo o maior ator shakespeariano do século XX e tendo sido diretor do National Theatre por quase dez anos - tinha filhos adolescentes e pressentindo que sua carreira se aproximava do fim, desejava deixar algum dinheiro para sua família, e sabia que esse dinheiro viria do cinema. Também é muito bom ver o grande Toshirô Mifune, mesmo que lhe tenham dado um papel mínimo que não lhe faz justiça. As garotas coreanas - as atrizes Karen Kahn (Lim) e Lydia Ley (Mila) - são muito boas. David Janssen e Richard Roundtree têm papéis pequenos e dispensáveis.

Cenas de batalha estão acima da média e a partitura de Jerry Goldsmith é boa. A edição é ruim; por conta de pré-estréias em que o público apedrejou a versão final de 140 minutos, o diretor reeditou o filme e quase trinta minutos foram para o lixo. O som também é estranho; tiros de metralhadora às vezes nos lembram o som de desenhos animados. Por essa e por outras, "Inchon" só foi lançado dois anos depois de filmado e recobrou apenas 1/9 de seu orçamento.

No geral, é uma produção defeituosa, mas muito longe de ser o desastre nuclear a que se referem os comentários apocalípticos do IMDB. O filme não foi lançado em VHS ou DVD, o que é uma pena. A pior coisa que eu poderia dizer sobre "Inchon" é que, em vez de um blockbuster (que é o mínimo que se poderia esperar de um filme com um orçamento desses), ele parece um filme feito para a TV. Ou um filme B. Mas quem tiver a chance de assisti-lo, deve fazê-lo. (21/05/2017)

A LOUCURA DO REI GEORGE



George III (1738/1820) foi rei da Inglaterra por mais de quarenta anos. No último quadrante de sua vida ele desenvolveu um transtorno mental que o tornava irascível, hiperativo, inconseqüente e o fazia falar sem parar, em uma blablação incontrolável. Séculos depois, médicos que se debruçaram sobre os registros de seu caso sugeriram que poderia ser uma doença nervosa chamada "porfíria", hoje conhecida e perfeitamente curável.

Na época, porém, depois de tratamentos medievais que em nada melhoraram seu estado, ele acabou sob os cuidados de um médico que tinha métodos nada ortodoxos para tratar a doença do rei.

É o tema do filme The Madness of King George", de 1994, dirigido Nicholas Hytner com Nigel Hawthorne, Helen Mirren e Ian Holm.

A cena a seguir é a do momento em que o médico, Ian Holm, inicia seu tratamento com o rei, interpretado por Nigel Hawthorne. O embate desses dois gigantes, permeado pela música de Händel, cria uma das mais maravilhosas cenas da história do cinema. (06/06/2017)

ORLANDO VILLAS BÔAS
FBF 11/1992


Que bom que esse maravilhoso Orlando Villas Bôas, discípulo digno e admirável de Rondon, está sendo alvo de todos os tipos de homenagens, junto a seus irmãos. Será que alguém também lembrará que o Parque do Xingu foi fundado pelo decreto nº 50.455, de 14/04/1961, assinado por um tal de Jânio? (foto de novembro de 1992, com Orlando e seu filho Noel. Estou com esse boné lamentável porque acabara de entrar no Mackenzie e tinha vergonha de andar por aí com a cabeça raspada) (09/06/2017)

THOTH


(14/06/2017)

SYLVYA (2003)


Muito interessante. Um bom filme com uma ótima dupla de protagonistas - Gwyneth Paltrow e Daniel Craig - sobre uma das figuras mais intensas e mais trágicas da literatura norte-americana: Sylvia Plath. E é pouquíssimo conhecido, provavelmente porque a única filha viva de Ted Hughes e Plath não gostou nada da idéia e impediu a utilização de quaisquer poesias de seus pais no filme.

Um retrato da depressão em uma época pré-Prozac e demais anti-depressivos. (18/06/2017)

ESCAPE (1940)


Drama de um americano procurando sua mãe na Alemanha nazista, contando, para tanto, com a ajuda de uma relutante e bem relacionada americana naturalizada alemã. Elenco impecável encabeçado pelo grande galã Robert Taylor, a primeira dama de Hollywood, Norma Shearer, a magnífica e tão injustamente esquecida estrela de Valentino, Alla Nazimova e, como cereja do bolo, o vilão feito por ninguém menos do que - Dih - o gênio Conrad Veidt.

Recomendo. (28/06/2017)

MIFUNE - THE LAST SAMURAI (2015)

Esperei ansiosamente para poder assistir o documentário de Steven Okazaki sobre o maior dos atores japoneses do século XX, o grande Toshiro Mifune. Admirador de Mifune desde "Shogun" (que assisti quando passou na TV, em 1980) até sua parceria inigualável com Akira Kurosawa, estava louco para conhecer melhor o ator, sua vida e sua obra.

Elementos e recursos para que o documentário fosse excelente não faltaram. Okazaki teve o raro privilégio de entrevistar os filhos primogênitos tanto de Mifune quanto de Akira Kurosawa, além de atores e atrizes que trabalharam com Mifune. A seu dispor esteve todo o acervo da TOHO, do espólio de Kurosawa e o acervo particular da família de Mifune. De quebra, Spielberg e Scorsese deram depoimentos sobre a influência do ator no cinema norte-americano. E com tudo isso, o documentário me decepcionou.

Tem apenas 80 minutos para contar a vida de um ator que fez centenas de filmes e influenciou um século de gerações diferentes de atores do mundo inteiro. Os depoimentos foram superficiais, fontes preciosas foram desperdiçadas e longos minutos foram gastos em histórias colaterais que nada tinham a ver com Mifune. 

Dos dezoito filmes do ator com Kurosawa, Okazaki escolheu três ou quatro para esmiuçar e mesmo assim nada foi dito que já não tenha sido amplamente vergastado por qualquer cinéfilo. Até mesmo as cenas escolhidas foram equivocadas. Quando o assunto é Rashōmon ou Shichinin no Samurai, não são mostradas cenas faladas, de Mifune. Nenhuma. Quando chegamos a Kumonosu-jō, toda uma sequência é gasta para que um ator coadjuvante fale de sua própria cena, e outra é para contar que a cena das flechas foi filmada sem que Kurosawa tivesse feito um seguro de vida para os atores. Muito interessante. Como detalhe. Só que nada mais é dito sobre esse trabalho primoroso de Mifune e Isuzu Yamada. Atrizes como Kyôko Kagawa e Yôko Tsukasa, que contracenaram várias vezes com Mifune e poderiam ter contado detalhes fantásticos tanto de seu processo criativo quanto de suas idiossincrasias, mantiveram-se no raso, na anedota. Culpa do diretor.

É lembrado por Spielberg que "The Magnificent Seven" é remake de Shichinin no Samurai e que "A Fistful of Dollars" é remake de Yojimbo. Mas nem uma palavra é dita sobre "The Outrage", com Paul Newman e Claire Bloom, dirigido por Martin Ritt em 1964, ser remake de Rashōmon .

Spielberg e Mifune

Nenhuma novidade ou insight sobre o rompimento de Mifune e Kurosawa, um daqueles mistérios que há tempos está pedindo para ser resolvido de uma vez. E terminada a parceria, Okazaki parece engatar uma quinta para terminar o documentário, mesmo considerando que Mifune teve pelo menos vinte anos de vida ativa no cinema e na televisão, depois de seu último filme com Kurosawa.

Kurosawa e Mifune
Para o público nerd, George Lucas é ausência imperdoável (e inexplicável), pois é conhecida e confirmada a influência que Kakushi-toride no san-akunin, de 1958, teve sobre toda a concepção da saga Star Wars. Também conhecido é o convite feito por Lucas para que Mifune interpretasse Obi-Wan Kenobi, e a recusa de Mifune, por recomendação de seu empresário cretino. Diz-se por aí, em trivias do Star Wars, que até o capacete de Darth Vader foi desenhado em cima dos capacetes de Mifune em seus filmes de samurai. Lucas, portanto, faz grande falta no documentário.

No mais, nem uma única entrevista de Mifune. Nenhum programa de TV, nenhuma presença em prêmios ou eventos. Me pareceu preguiça do diretor. Mifune era um homem retraído e reservado. Teria sido de valor inestimável vê-lo falar de sua própria vida e de sua carreira. Desconstruir o mito e mostrar sua humanidade. O diretor deveria ter garimpado toda e qualquer cena em que Mifune oferecesse uma peça na qual ajudasse a desvendar o quebra-cabeças de sua personalidade. Tal como foi editado, o documentário é sobre uma figura do século XVIII. Não há registros de voz, não há citações e declarações do próprio.

Uma oportunidade perdida. (19/06/2017)

BIBI SINATRA (Ensaio Aberto, 18/9/2014)



Bibi durante a temporada
de "Bibi canta repertório Sinatra"
No dia 1º de junho o Brasil comemorou os 95 anos de sua estrela maior, Bibi Ferreira. Neste finzinho de mês deixo meu singelo presente a todos os admiradores de Bibi: o ensaio aberto de seu espetáculo cantando músicas que ficaram famosas na interpretação de de Frank Sinatra. Eis o que aconteceu:

A estréia de "Bibi canta Repertório Sinatra" no Teatro Renaissance de São Paulo estava marcada para o dia 19 de setembro de 2014. A fim de acabar com qualquer insegurança em relação ao espetáculo, Bibi resolveu realizar um ensaio aberto na véspera, dia 18, às 21h. As imagens deste video foram feitas por mim naquela noite.

Bibi estava tranqüila. Só desejava mesmo testar as músicas diante do público antes do espetáculo entrar em temporada. Economizou a voz, evitou os agudos, fez recomendações, pediu mudanças aqui e ali, mas sempre descontraída e de bom humor.


Divirtam-se.
Um beijo, minha amada Bibi.

Bernardo (26/06/2017)

MARINA


Simpatia habitual da querida Marina, nos shows do Acústico MTV. (10/07/2017)

TERM OF TRIAL (1962)

Olivier e Signoret em "Term of Trial"
Direção e roteiro do competente Peter Glenville, que embora bissexto já tinha em seu currículo a vitoriosíssima adaptação do "Summer and Smoke" de Tennessee Williams, e seu filme seguinte a "Term of Trial" seria a obra-prima "Beckett", adaptação da peça de Jean Anouilh com Peter O'Toole e Richard Burton. O elenco traz feras como Olivier, Simone Signoret e dois estreantes da maior qualidade: Sarah Miles e Terence Stamp. É a história de um modesto e retraído professor de língua inglesa (Olivier) que foge do alistamento para combater na segunda guerra, o que prejudica sua carreira, impedindo-o de dar aulas em prestigiosas escolas particulares. Restam-lhe apenas as escolas públicas com todos os seus maus-elementos (entre eles, Stamp).

Ele aceita dar aulas de reforço a uma aluna de quinze anos (Miles) e ela se apaixona perdidamente por ele, mesmo sabendo que ele é casado (com Signoret, cujo papel começa magro e sem graça mas ganha inesperado conteúdo com o desenrolar da história). É um filme despretensioso mas muito bem feito e extremamente valorizado pelo elenco. E no entanto é menos do que uma nota de roda-pé na filmografia de todos eles. Inexplicável.

Recomendo. É dificílimo de encontrar mas quem conseguir não deve perder a oportunidade. (21/07/2017)

GOD'S GIFT TO WOMEN (1931)


Caso comum no cinema do fim dos anos 20 e início dos anos 30: uma foto fala mais do que o próprio filme. Neste caso, trata-se de "God's Gift to Women", de 1931, comédia dirigida pelo húngaro Michael Curtiz (que dez anos depois se notabilizaria por dirigir "Casablanca").

Fay e Stanwick
Nesse elenco quem menos importava era a atriz principal, Laura La Plante, que iniciara sua carreira nos primórdios do cinema mudo mas não vingou com o som e se aposentou em 1935 (morreu em 1996, aos 91 anos, olimpicamente esquecida). O filme era veículo para o então galã Frank Fay e o extraordinário elenco coadjuvante feminino.

Fay (o homem da foto) fizera uma transição exitosa do cinema mudo para o falado e era uma grande aposta da Warner. Era talentoso e cantava bem, mas seu sucesso durou pouco. A razão: ele era um ser humano absolutamente desprezível. Era alcoólatra, convencido e sabia-se que batia em suas mulheres. Casou-se com Barbara Stanwick em 1928 e lançou-a no meio cinematográfico. Nos anos seguintes a carreira dela foi ao espaço e a dele foi para o buraco. Separaram-se em 1935. Comenta-se que o filme "Nasce uma estrela" é abertamente baseada na história dos dois.

Para piorar, Fay era anti-semita e a ascensão do nazismo e a conseqüente eclosão da segunda guerra tornaram-no persona non grata em múltiplos círculos de Hollywood. Fez apenas nove filmes nos 30 anos seguintes e morreu no mais completo ostracismo, em 1961.

Fay e Louise Brooks

Blondell e Fay
Na foto que encabeça o artigo vemos, da esquerda para a direita, a francesa Yola D'Avril, que vinha de grandes sucessos que iam do drama "All Quiet on the Western Front" à comédia "Those Three French Girls". A seu lado está ninguém menos do que a maravilhosa Lousie Brooks, sem sua antológica franja, tentando timidamente, na América, chegar ao estrelato que já alcançara na Europa pelas mãos de Georg Pabst. E por fim, a linda e encantadora Joan Blondell, a "It" girl do momento, uma mistura entre Clara Bow e Mae West, com lindos e imensos olhos azuis que o preto e branco omitia criminosamente.

A comédia tem seus momentos. Fay faz um personagem que é descendente de Don Juan e vivia uma vida desregrada e cheia de mulheres até que se apaixona de verdade e tenta mudar seus hábitos. Mas não consegue. Hoje a única coisa que as pessoas se lembram é evidentemente o "catfight" de Brooks, Blondell e D'Avril na cama do convalescente Fay. Um pastelão histórico.

Fay me faz lembrar Bradley Cooper. Poderia ter sido um dos maiores, em Hollywood. Foi um talento desperdiçado. Por ele mesmo. (28/07/2017)


ROGÉRIA


Que tristeza. Rogéria foi uma das pessoas mais inteligentes que já conheci. Ela pode até ter se notabilizado inicialmente como uma travesti no meio artístico, mas como acontece com todo ser humano evoluído, sua sexualidade acabou se tornando mero detalhe em uma existência extremamente mais rica e profunda.

Assim como Elke, que nos deixou igualmente cedo, não havia na vida de Rogéria lugar para ódios e ressentimentos. Ela pairou sobre o preconceito e deixa um legado imenso de talento, nobreza e bom humor. Vai fazer muita falta. (05/09/2017)

VANYA E VANJA


Finalizando o artigo sobre Vanya e analisando alguns filmes que não entraram no texto me deparo com uma curiosa semelhança física: Paul Giamatti, que interpreta um ator em meio a uma montagem de "Uncle Vanya" no filme "Cold Souls", de 2009, está a cara de Arne Lie, personagem título do norueguês "Onkel Vanja", de 1963, dirigido por Gerhard Knoop.

O filme de 63, feito para a televisão norueguesa, traz, entre outros nomes, a linda e jovem Liv Ullmann no papel de Sonya. Já "Cold Souls" teria sido um filme bem melhor se tivesse se concentrado nas cenas de "Uncle Vanya", que Giamatti realiza brilhantemente. (10/09/2017)

90 ANOS DE LAURA CARDOSO

Com Laura em 1990, nos bastidores do Sérgio Cardoso depois de uma apresentação de "Vem Buscar-Me Que Ainda Sou Teu" de Carlos Alberto Soffredini, direção de Gabriel Vilella

Muito está sendo dito por aí sobre Laura ter feito 80 e tantas novelas. Mas ela é um talento tão consumado, tão maiúsculo, que a TV não é suficientemente grande para comportá-lo. Tudo que vi de Laura foi perfeito: no cinema, na TV e no teatro.

E não bastasse ser essa atriz que nos orgulha como brasileiros, ela ainda é um ser humano como poucos. É inteligente, é articulada, é culta. E ao mesmo tempo é simples, é humilde, é acessível, é doce. Quando estudei no Mackenzie, quantas vezes não a vi andando pela Consolação, indo a pé para o SESC, onde encenava "Pedreira das Almas", com Luis Melo? Quantas vezes a abordei, com a mesma admiração, e quantas vezes ela me respondeu com a mesma bonomia e a mesma gentileza?

No ano passado encontrei-a na missa de sétimo dia de meu irmão Flávio Guarnieri. Chegou sozinha, andando tranqüila. Foi dar um beijo em sua amiga Cecilia. Espalhava nobreza e dignidade aos menores gestos. Uma rainha. (13/09/2017)

JERRY



Muito a falar. Muito a agradecer. Tantas "Sessão da Tarde". Tantas gargalhadas, tanta felicidade. Toda a minha infância e minha juventude. Mas ainda não consigo.

Deixo aqui por enquanto "When you pretend", do filme "Artistas e Modelos", que assisti um milhão de vezes. Era o entretenimento de nossas tardes. Uma coisa linda, doce, pura, divertida.

Obrigado, Jerry. (21/09/2017)

J. PEREIRA


Quando decidi criar um blog exclusivo para divulgar a coluna musical que J. Pereira mantinha no Diário da Noite, na década de 50 ("No Mundo dos Discos"), não pensava em outra coisa senão trazer a inteligência e a cultura musical de J. àqueles que não tiveram o prazer de conviver com ele. Disse, no primeiro artigo do blog, em 2013:

"O Brasil é um país sem memória". Frase sovada, cediça... Melhor que repeti-la pela milésima vez, é fazer algo a respeito. Trazer J. Pereira dos arquivos empoeirados e de difícil acesso, para a Internet, ao nosso lado e ao mesmo tempo para o mundo todo, como ele jamais sonhou que poderia, falando com tanta força, tanto vigor, sobre música, 63 anos depois, é fazer algo a respeito.

Hoje tive o supremo prazer de verificar que, embora ainda faltem centenas de artigos para transcrever (tarefa que preciso de tempo e sossego para realizar, e infelizmente ando sem ambos), os 150 artigos que já transcrevi alcançaram seu objetivo: pesquisadores de todo o Brasil o estão consultando e aprendendo com ele. Acabo de saber que um pesquisador da PUC do Rio citou um dos artigos em sua tese de doutorado sobre o compositor Marino Pinto.

Fico muito feliz de ter sido a ponte entre J. e os pesquisadores de hoje.

Tenho certeza de que J. teria adorado. (11/10/2017)

DEZ ANOS SEM PAULO

Com Paulo em 1994, no camarim de "O Céu tem que esperar", no Teatro Villalobos,
Rio de Janeiro. Paulo ainda estava à caráter

Quando Paulo morreu comentei que era cedo demais para falar de alguém que teve tanta influência sobre mim e meu aprendizado teatral. Verifico que passados dez anos, ainda é cedo. Talvez porque ele ainda está muito presente ou porque, com sua morte, não apareceu ninguém para carregar o pesado epíteto de "maior ator brasileiro". Quando Procópio morreu, Paulo declarou: "Evidentemente ninguém poderá substituí-lo". Só que Paulo era não só a substituição, mas a renovação e a ampliação de Procópio. E não ficamos órfãos de um maior ator. Nos anos que sucederam a morte de Procópio, Paulo encenou Molière, Marguerite Duras, Harold Pinter, Poiret, Bernard Slade e Ibsen. Uma versatilidade que Procópio  só viveu através de Bibi.

Na minha adolescência eu sonhava com o Lear de Paulo. Sonhava com seu James Tyrone (que nunca veio, infelizmente). Hoje penso no que teria sido seu Edgar, na "Dança da Morte" de Strindberg, com Marília, Irene Ravache ou qualquer grande atriz dessa geração. Não tenho esses devaneios com nenhum outro ator. Quem mais se aproxima a isso é o maravilhoso Othon Bastos, que embora transborde saúde, já está com 84 anos. Quando Tom Jobim morreu minha querida amiga Tatiana me disse de como era assustador esse processo de "perdermos nossas referências". É o que aconteceu com Paulo. Perdemos nossa maior referência de ator. Temos muitos atores excelentes, mas aquele que foi da tragédia ao musical, da comédia ao drama, do monólogo à novela, esse não existe mais. Sua morte, como disse Fernandona, à época, "é simbólica".

Penso em Paulo todos os dias. Com a mesma saudade. Repito o que disse na época:

E digo, sobretudo, que vou sentir sua falta. Porque Paulo era uma figura benéfica e benemérita. Presente a nossas casas, conhecido por todos. Sentirei falta de sua sinceridade cortante. De sua elegância. De sua risada asmática. Da tranqüilidade e da autoridade com que dizia que "Oriundi" foi uma porcaria. Que adorou Ivanov, do Tapa. Que detestou "Gata em teto de zinco quente" com Vera Fischer. Que considerava a performance de Gianfrancesco Guarnieri em "Ponto de Partida" o maior momento de um ator em todos os tempos. Que gostava muito de Simon Khoury e Alberto Guzik, mas sentia, fundamentalmente, que deu a mesma entrevista durante 50 anos. Que morrer era a coroação da vida. E lembrarei que quando fui falar-lhe, depois de "O Avarento", abracei-o, beijei-o, e disse: "Mesmo sabendo que você é ateu, DEUS TE ABENÇOE". E ele riu, com seus lábios finos, os olhos cheios de bonomia por trás dos óculos, e a personalidade magnífica, tão adorável e inesquecível. (12/10/2017)

88 ANOS DE FERNANDONA

Com Fernanda em 2009, no SESC Vila Nova, durante temporada do monólogo
"Viver sem Tempos Mortos", em que ela comemorou seus 80 anos

A primeira vez que vi Fernanda no teatro foi no Ruth Escobar, com "Dona Doida", em 1990. Na platéia, o amado e saudoso Gianfrancesco Guarnieri. Com 18 anos, eu me vi no meio desses dois titãs. Não posso dizer que foi amor à primeira vista porque eu já os amava há quase dez anos, desde que assisti "Eles não usam Black-Tie" no cinema, e "Cambalacho" na televisão. Guarnieri me marcou desde "Éramos Seis", com Nicete Bruno, mas Fernanda eu fui conhecer melhor e admirar com "Brilhante" e "Guerra dos Sexos". Vá lá o clichê geracional, mas na época os atores de TV  eram uma constelação trazida do teatro, e não das capas de revista ou dos desfiles de moda.

Assisti Fernanda várias vezes depois do espetáculo com poesias de Adélia Prado. O curioso é que ouvia dizer, por más línguas, que ela era estrelona. Pude comprovar, em diversos encontros, que ela é o oposto diametral da estrelona. Fernanda é simples, bem-humorada, divertida e foge de qualquer abordagem que a transforme em algum tipo de monstro sagrado. E assim como as grandes figuras de nosso teatro no século XX, ela é inteligente, culta, lida, e mesmo um dedo de prosa com ela é uma aula magna.

Sua vida até o momento é tão plural, tão rica, tão decente, tão maravilhosa que quase perdôo Fernanda por nunca ter montado um Shakespeare. Ela esteve presente, durante a segunda metade do século XX, em todas os momentos mais marcantes da arte teatral, e sempre do lado humanista, democrático e popular. Há um arrependimento, mas não é dela; é meu. Perdi sua Arkádina.

O aniversário é dela. O presente é nosso: sua vida. Sua carreira. Ela ser brasileira.

Parabéns, querida Fernanda! (16/10/2017)

90 ANOS DE GEORGE C. SCOTT 

George C. Scott, em cena de "A Christmas Carol"

Uma semana de efemérides. Mas eu seria relapso se deixasse passar em brancas nuvens o aniversário de 90 anos daquele que considero o maior ator norte-americano do século XX: George C. Scott. Brevemente escreverei um artigo sobre a filmografia completa de Scott, então aqui me limito a falar sobre meu primeiro contato com seu imenso talento.

O conto "A Christmas Carol", de Charles Dickens, é extremamente famoso nos Estados Unidos e já foi levado à telona e à telinha inúmeras vezes. Lá, o natal não é o natal se a TV não passar "It's a wondeful life", de Frank Capra, e algumas das várias versões de "A Christmas Carol". Ocorre que eu estava nos Estados Unidos em novembro de 1984, quando estreou a mais recente versão para o célebre conto de Dickens; uma produção anglo-americana para TV, dirigida por Clive Donner e protagonizada por George C. Scott, tendo à ilharga um elenco praticamente todo britânico. Sendo fã dos quadrinhos Disney desde tempos imemoriais, minha ansiedade por assistir o filme decuplicou depois de saber que o personagem "Scrooge McDuck" (Tio Patinhas) é diretamente baseado no protagonista de "A Christmas Carol", Ebenezer Scrooge.

Assistir esse filme é uma daquelas experiências que desejamos para os nosso filhos, sobrinhos e crianças em geral. Com apenas 12 anos, conheci Dickens através de um de seus contos mais inspirados, mais maravilhosos, e tendo como guia o gênio que era George C. Scott. Um filme para rir, chorar, refletir, pensar e não esquecer nunca. O conto fala de um homem rico e avarento, solteiro, sem amigos, sem esperança, dessensibilizado pelas decepções que ele próprio provocou, e o encontro sobrenatural que tem, na véspera de natal, com três espíritos: o dos natais passados, do natal presente e dos natais futuros.

Eles mostram a Ebenezer que ele cometeu grandes erros e é parcialmente culpado por sua desdita, mas que no fundo de toda sua teimosia, seu ressentimento e suas mágoas ainda havia uma pessoa boa, com tempo para corrigir os equívocos e recomeçar. Um verdadeiro primor. Hoje em dia, quando assisto esse filme, choro da primeira à última cena. O próprio Dickens se emocionaria em ver o oceano de emoção que a estupenda colaboração entre Donner e Scott (que haviam feito um "Oliver Twist" sem o mesmo sucesso, dois anos antes) produziu, com sua obra.

Nos anos seguintes, utilizando a televisão e o mercado crescente de aluguel de fitas VHS, me aprofundei na filmografia de Scott. Acompanhei sua carreira até o que considero uma morte prematura, em 1999, aos 72 anos.

É fartamente sabido que ele não achava certo o princípio pelo qual atores devem concorrer entre si por um prêmio, então não foi receber o Oscar de melhor ator ganho por "Patton", em 1970. Foi uma atitude corajosa, audaciosa e temerária, que prejudicou sua carreira. Ele tentou explicar mil vezes que não estava recusando o prêmio, e sim pedindo para ser retirado da competição, com a qual não concordava. Hollywood ficou magoada. Acresça-se a isso o fato de Scott ser orgulhoso, saber o talento que possuía, e temos a receita para um casamento dar errado. Scott e Hollywood eram incompatíveis. Ele seguiu trabalhando pelos 30 anos seguintes, mas o fim foi melancólico. Tirando dois ou três filmes, a última década de sua carreira é uma coleção de filmes esquecíveis. Pouquíssimo, pouquíssimo para quem tinha tanto talento.

No fim de sua vida a indústria cinematográfica o esnobou. Hoje é reverenciado como um Deus. Ainda me recordo do "In Memoriam" do Oscar no ano seguinte à sua morte. Quando a imagem de Scott apareceu em filmes espetaculares como "The Hustler" e "Dr. Strangelove", a salva de palmas foi ensurdecedora. Uma coisa linda e tocante. Como sempre, era Hollywood pedindo desculpas...

Too little, too late. (18/10/2017)
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Veja mais:

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Minestrone Cultural VIII

.
O PATATIVA

Mais textos deste blog sendo usados como fonte para teses de doutorado na USP e na UNB. O ego agradece.



O VENTO E O BENTO


O clássico de Victor Fleming, "...E o Vento Levou", com Vivien Leigh e Clark Gable, estreou em dezembro de 1939 nos Estados Unidos, e em setembro de 1940 no Brasil. E é claro que o grande revisteiro Freire Junior e a atriz cômica Alda Garrido não perderam tempo e criaram às pressas um espetáculo de Revista satirizando o filme, "E o Bento... Levou", e o colocaram em cartaz já em outubro. (25/09/2016)

1909


O Barão do Rio Branco era chanceler de Affonso Penna. Vejamos o que diz esse comercial de "Manah", um fortificante qualquer (na verdade sacarose de tamarindo composto):

“Seu Barão, o que devo fazer para ficar forte e bonito como o senhor?”. O Barão responde: “Deves te alimentar com o milagroso Manah, que além de ser atualmente a salvação das crianças, ainda oferece um prêmio de 500$000”.

O detalhe é que os publicitários da época não contrataram o venerando barão, que jamais cederia sua imagem para um anúncio idiota como esse. Não era assim que funcionava. E Rio Branco tem em sua história uma nota de roda-pé como garoto propaganda do MANAH.

Pelo menos o bom e balofo barão foi chamado de "forte". E morreu três anos depois.

Este aqui é da série "Anúncios apelativos da década de 30":

(27/09/2016)


AYN RAND - A SENSE OF LIFE (1997)


Maravilhoso.

É catártico ver tanta inteligência em uma pessoa, e tal facilidade em transmiti-la. Ayn Rand desconstrói filosofia, política, sociologia, antropologia e psicologia, e realiza façanha que apenas um punhado de pessoas antes dela realizou, ao longo dos séculos: explicar de maneira clara, simples, concisa e envolvente, o segredo da felicidade.

Um bom documentário sobre um dos mais admiráveis seres pensantes de nossa história. (08/10/2016)

NIHIL SUB SOLE NOVUM


Caramba... ontem a página do Harold Lloyd postou uma montagem divertidíssima mostrando como o poster do filme mais recente de Keanu Reeves, John Wick 2, é idêntico ao poster do filme Two Gun Gussie, de Lloyd, lançado em 1918.

Hoje a página simplesmente deletou a postagem. Será que ficaram com medo de melindrar os produtores do filme de Reeves?? Bom, seja qual for a razão, refiz a montagem e posto novamente, só de birra. (12/10/2016)

MÁRIO PAMPONET

Mário Pamponet, Luis Avelima, Humberto Mesquita, Bernardo Schmidt e Synesio Jr.

A vida passa mesmo em um segundo. Naquele dia de fevereiro de 2014 fui haurir conhecimento e experiência roçando ombros com esses quatro coringas de nossa imprensa, de nossa televisão, de nossa música, de nossa cultura, enfim, de nossa arte. Da esquerda, Mário Pamponet Júnior, Luis Avelima, Humberto Mesquita e Synesio Júnior.Como não aprender com eles? E como não apreciar cada minuto da prosa que seguiu, terminado o programa de rádio que gravamos, e que seguiria eternamente se não tivéssemos que ir embora em algum momento?

A conversa andou pelo Pinga-Fogo, pela Bandeirantes, pelo velho João Sayad, pela Secretaria Municipal de Cultura, dali para a música, Caetano, Gil, Inezita Barroso e quando menos percebemos, estávamos às gargalhadas em plena Paulista com Avelima em verdadeira conjuração de Alaíde Costa! Sim, porque aquilo já transcendeu a imitação para virar uma coisa quase mediúnica.

Hoje perdemos Mário Pamponet. Fica a tristeza de não ter convivido mais com ele. Mas fica também o privilégio de tê-lo conhecido e abraçado. Obrigado, Mário! (25/10/2016)

DE WONKA PARA WONKA



Interessantíssimo saber o que o maravilhoso e recentemente falecido Gene Wilder pensava sobre o horroroso remake de Tim Burton para o clássico Willy Wonka and the Chocolate Factory.

Concordo com ele em quase tudo. (11/11/2016)

THE ADVENTURE OF SHERLOCK HOLMES'
SMARTER BROTHER (1975)




Gene Wilder alcançou o olimpo de Hollywood depois de seus três filmes com Mel Brooks, sua parceria com Woody Allen, o Willy Wonka dirigido por Mel Stuart e tudo o que fez naquele primeiro lustro da década de 70. Em 1975, dono de um dos maiores cachês da indústria, resolveu partir para a carreira solo. Escreveu, dirigiu e protagonizou "The Adventure of Sherlock Holmes's Smarter Brother", no qual interpretou um irmão mais novo e menos talentoso do famoso detetive de Conan Doyle.

Wilder trazia patentes a influência de Brooks e a memória afetiva de um passado que efetivamente não viveu, exceto (creio eu) pelo relato de pais e avós. No caso do primeiro temos a comédia pastelão, as piadas por vezes quase infantis e a presença de 80% do cast estável de Brooks, como Madeline Kahn, Dom De Louise e Marty Feldman.

Madeleine e Gene em foto promocional do filme
Quanto ao passado, a história ocorre na última década do século XIX e todo aquele período parecia ser fetiche de Wilder. Em tudo: interpretação, música, dança, comportamento, vestuário e assim por diante.

Outra impressão clara que se tem é a de que o filme é uma declaração de amor de Wilder a Madeleine Khan. Nunca ela foi mostrada de forma tão generosa, tão intencionalmente em primeiro plano, assim como em nenhuma performance ela logrou ser a um tempo linda, engraçada e cantora brilhante. Tudo nela pode e deve ser admirado, em cada cena. Que outra razão poderia haver para que Wilder incluísse, no produto final, três números musicais inteiros protagonizados por ela, sendo que não são capitais para o enredo e deles poderia haver apenas trechos? Entre eles há que citar "You don't love as I do", de 1923, precedendo o atentado sofrido pela personagem de Kahn, no teatrinho de vaudeville primorosamente recriado. Ela é o diamante dessa coroa. Wilder ter deixado de lado por instantes a comédia rasgada, aproveitando a magnífica voz de Kahn, sua beleza e seus dotes dramáticos (ou tragicômicos), é um de seus múltiplos presentes para a posteridade. 

Outro deleite é a inexplicável "The Kangaroo Hop", de 1912, que surge do nada e vai para o nada. E ainda assim, é número adorável, divertido e quase comovente do filme, com Wilder, Kahn e Feldman cantando e pulando como crianças. O elemento surrealista da coisa toda me trouxe a grata lembrança de Peter O'Toole cantando "The Varsity Drag", em "The Ruling Class", lançado pouco antes. Era provável reflexo da época, da necessidade de quebrar aqueles medalhões do início do século.

É lugar-comum dizer isso, mas trata-se tão somente de "admirável esforço para um trabalho de estréia". Tem música, comédia, romance e ação. Num nível superficial, mas também super-valorizado pelo elenco.

Recomendo. Eram todos gênios. Wilder, Kahn, Feldman e o querido Dom De Louise.

No video, as cenas completas de "The Kangaroo Hop" e "You don't love as I do". (14/11/2016)

TBT 1991

Com Paulo Autran no Head Office, em 1991

Um bonito prédio comercial acabava de ser inaugurado na Joaquim Floriano, quase esquina com São Gabriel, ao lado do Pão de Açúcar. No térreo, um restaurante luxuosíssimo e uma sala pequena de espetáculos com o nome do prédio: "São Paulo Head Office". Assisto o "Quadrante", monólogo de Paulo Autran. Pela primeira vez via no palco o amado e saudoso mestre.

No fim vou ao camarim, nervoso, me apresento singelamente como mais um de seus admiradores e dou-lhe um abraço emocionado. A seu lado estava (lindíssima, por sinal) Zizi Possi. Troco duas palavras com Paulo sobre o espetáculo e confesso-lhe minha ignorância com a poesia - que permeava o "Quadrante" - e minha dificuldade em compreendê-la e desfrutá-la. O mestre me diz, com toda a sabedoria que guardava por trás dos olhos bicolores: "Toda a boa poesia é acessível". (17/11/2016)

TBT 2003

Chico e Sérgio, 2003

Em 2003 fui assistir Sérgio Britto e Cleyde Yáconis em "Longa Jornada Noite Adentro" no Centro Cultural Banco do Brasil, aqui em São Paulo, e trombei com Chico de Assis. Lembro que o cumprimentei e ele apontou para o livro que eu levava debaixo do braço (a biografia de Leopoldo Fróes escrita por Raymundo Magalhães Jr.): "Esse sujeito (Magalhães) até soneto inventou, dizendo que era do Machado de Assis", referindo-se ao desastroso trabalho em 4 volumes, de Magalhães sobre Machado.

Eu não resisti, pouco depois, e disse a ele: "Chico, você está a cara do Mário Covas!", que morrera apenas dois anos antes. Ele riu e respondeu na hora: "Pois é, mas é de propósito! Estou aqui incorporando ele!"

Na saída dos atores, aproveitei para eternizar esse belo encontro de titãs. (22/12/2016)

TBT 2010

Com Liza e Flávio, 10/10/2010

No Teatro Santo Agostinho, onde fui assistir meu irmão Flávio Guarnieri protagonizando "O Advogado de Deus", de Zibia Gasparetto (ditado por Lucius), dirigida por Valdir Ramos com Liza Vieira, Denis Derkian e outros.

Eu acabava de sair do hospital. Estava tão anêmico que mudei o filtro de cor da foto, na época, para ficar menos pálido. Mas meu hoje saudoso mano merecia essa deferência. Quanto à Liza, continua igual há 40 anos.

Saudade. (01/12/2016)

25 ANOS SEM ERIC CARR

A reportagem feita graças à minha insistência

Em 24 de novembro de 1991 morreu o imenso Freddie Mercury, vocalista do Queen, aniquilado pela AIDS, espalhando tristeza e comoção por todo o mundo. Lamentei muito sua morte; o Queen foi a primeira banda de rock que gostei e que me abriu as portas para todo o universo de hard rock e heavy metal que fui curtir tão intensamente por toda a década de 80.

Mas houve outra morte naquele mesmo dia, que senti de forma ainda mais profunda: a do baterista do KISS, Eric Carr, aos 41 anos, vitimado por um câncer brutal no coração e pulmões.

O KISS foi minha banda favorita por anos e anos, e as notícias que chegavam ao Brasil naquela época pré-internet, sobre Eric, eram poucas e superficiais. Não havia MTV ou qualquer outro canal especializado em música, o KISS estava em uma época relativamente decadente então era ignorado pela mídia, e nós, fãs da banda, nunca chegamos a saber a gravidade de seu estado de saúde. Sabíamos que estava doente, mas sequer poderíamos imaginar que era terminal. Recebemos sem qualquer preparo a notícia de sua morte.

Não encontrando uma única nota sobre o assunto nos jornais do dia seguinte, tomei a iniciativa de ligar para a editoria da Folha Ilustrada, caderno artístico da Folha de S. Paulo. Reclamei com quem atendeu o telefone: "Por que é que vocês não noticiaram a morte do Eric Carr??" Fui transferido, e depois da mesma reclamação ser feita para 4 ou 5 pessoas que não faziam idéia do que eu estava falando, ou a razão de minha reclamação, veio ao telefone, para a minha extrema sorte, o editor. Infelizmente esqueci o nome do sujeito (de sobrenome "Cavalcanti") e não encontrei nos números antigos da Folha que pesquisei no acervo digital.

Eric, na turnê de Crazy Nights
Ele foi gentil, confessou que ninguém ali sabia direito quem era o baterista do KISS e ouviu meu palanfrório de tristeza e indignação com a maior paciência. No fim perguntou: "Você tem fotos dele?" Sim, eu tinha centenas de fotos dele. O editor então prometeu que um artigo seria publicado assim que o motorista da Folha viesse ao meu apartamento e retirasse as fotos. Empolgadíssimo, separei minha coleção inteira de revistas, uma tonelada de material, e entreguei ao motorista, que apareceu mais tarde.

E eis que na quarta-feira, 27 de novembro de 1991, a Folha publicou uma notinha serôdia sobre o falecimento de Eric Carr, utilizando foto que vinha de uma revista alemã que fazia parte da minha coleção. Como fã enlouquecido e sem noção, estranhei que não dedicassem uma página inteira a Eric, mas fiquei muito feliz de ver que meu empenho pessoal impediu que sua partida tão prematura passasse em brancas nuvens pela imprensa brasileira.

Saudades do bom Eric Carr. (24/11/2016)


MIRAI SHÔNEN KONAN (1978)


Miyasaki vintage. Série de TV com 26 episódios de meia hora sobre Conan e Lana, duas crianças às voltas com a ganância, a maldade e as agruras de um mundo pós-apocalíptico. Embora fosse um trabalho de equipe, Miyasaki dirigiu, foi responsável por grande parte dos storyboards e estava no departamento artístico. Identificam-se claramente alguns dos temas que ele desenvolveria nas décadas seguintes, bem como a personalidade de seus personagens.

A ver, como tudo aquilo que saiu da mente e das mãos privilegiadas desse gênio que é Hayao Miyasaki. (02/12/2016)


"OS SETE SAMURAIS" E "THE MAGNIFICENT SEVEN"

O poster, original japonês, de
"Os Sete Samurais"
Com o recente lançamento de "The Magnificent Seven", dirigido por Antoine Fuqua, resolvi conhecer de uma vez seus antecessores. Vai um rápido comentário:

O projeto original é de 1954, quando Akira Kurosawa roteirizou e dirigiu a primeira de suas obras-primas, "Os Sete Samurais". O filme é ambientado no século XVI, período que sucedeu uma série de guerras civis que anarquizaram o Japão e deixaram inúmeros povoados à mercê de bandidos e saqueadores. Conta a história de um pequeno grupo de camponeses cansado de ter suas colheitas roubadas, e que sai à caça de samurais que se comprometam a defender seu vilarejo.

Sem entrar nos detalhes - pois para isso seria necessário um longo artigo - uma das múltiplas qualidades do trabalho de Kurosawa é a criação dos personagens; cada samurai tem uma personalidade distinta, extremamente bem delineada e, em geral, complementar. Toshiro Mifune, no início do que seria sua gloriosa parceria com Kurosawa, brilha em cada cena, como Kikuchiyo. O mesmo ocorrendo com o Kiuzo de Seiji Miyaguchi, o Kambei Shimada de Takashi Shimura e assim por diante. Até mesmo o romance, em filme tão agrestemente masculino, funciona perfeitamente, entre o jovem Katsushiro, de Isao Kimura, e a voluntariosa e moderníssima Shino, de Keiko Tsushima.

Em 1960 o ator Yul Brynner deu a um produtor a idéia de um remake hollywoodiano do filme de Kurosawa. "The Magnificent Seven" tomou a forma de um faroeste passado no fim do século XIX, no qual pistoleiros famosos e algo decadentes são cooptados por camponeses de um vilarejo de mexicanos constantemente achacado por uma quadrilha. O filme, dirigido por John Sturges, mantém a espinha dorsal de "Os Sete Samurais" com poucas alterações. O Chris de Yul Brynner é o Kambei Shimada de Takashi Shimura. Kikuchiyo e Katsushiro são fundidos em um único personagem, Chico; o Britt de James Coburn emula propositalmente o personagem Kiuzo, e assim por diante.

Uma das inovações é dar personalidade ao líder da quadrilha, que no filme japonês passa em brancas nuvens e no filme de Sturges tem grande destaque na figura de Eli Wallach.

Considerado o maior faroeste de todos os tempos, está muito longe disso, em minha modesta opinião. Acredito que tem dois pilares poderosos de sustentação e de entretenimento, sendo o primeiro o extraordinário carisma de seu elenco principal, que traz atores maravilhosos como Brynner, Steve Macqueen, Charles Bronson, Robert Vaughn e os já citados Coburn e Wallach. E em segundo, a lendária trilha sonora de Elmer Bernstein, utilizada durante décadas nos comerciais do cigarro Marlboro. Suas duas horas, entretanto, não chegam aos pés das três horas e vinte sete minutos do épico de Kurosawa. Também não alcançam a profundidade de cada um de seus personagens, ou o "pathos" de seu destinos.

Embora em muitos aspectos seja um filme de ação, "Os Sete Samurais" tem uma atmosfera sombria, constantemente chuvosa, que espelha o ânimo dos camponeses; cada rasgo de sentimento é intenso, violento, como que contrastando com a tristeza da existência miserável de todos. O olhar de admiração que Katsushiro dispara na direção de Kiuzo, quando este rouba um mosquete dos bandidos, é uma obra-prima por si só; o monólogo de Kikuchiyo, amaldiçoando seus ancestrais fazendeiros é uma pérola de emoção e interpretação; a cena em que Shino praticamente pede para ser violentada por Katsushiro é digna de uma antologia sobre o feminismo; o velho do vilarejo é um personagem quase macabro, assustador em sua sabedoria. A contra-parte americana de cada uma dessas cenas é superficial e insípida, em comparação. O filme americano é asséptico, bonitinho. E quanto ao velho do vilarejo mexicano, é um senhorzinho simpático e divertido, que fala de mulheres e afirma ter 83 anos, quando aparenta no máximo uns 60.

É um bom filme. Mas não passa disso. E mesmo assim teve três continuações, sendo que apenas Brynner participou da segunda. As outras duas poderiam ser filmes à parte, mas mantiveram o DNA do primeiro na tentativa frustrada de auferir alguns cobres na bilheteria.

Este ano Antoine Fuqua resolveu ressuscitar a franquia mas recauchutou a coisa toda. A idéia de sete justiceiros impondo ordem permanece e a época em que se passa é a mesma do filme de Sturges. O vilarejo, os camponeses e o vilão, porém, deixaram de ser mexicanos. Trata-se de uma verdadeira cidade do velho oeste que foi dominada por um bandido de colarinho branco, interpretado por Peter Sarsgaard. A personagem feminina é agora uma mulher que teve seu marido assassinado a sangue frio por Sarsgaard e se torna praticamente a oitava magnífica. Os pistoleiros são na nova versão uma espécie de delegação da ONU: há um negro - Chris é agora Chisolm, interpretado por Denzel Washington - um mexicano, um índio, um oriental e três americanos brancos. Nenhum deles guarda qualquer semelhança com os personagens dos filmes anteriores.

É entretenimento leve. Completamente raso, sem sequer sombra do oceano psicológico dos personagens de Kurosawa. Só que hoje o filme do japonês está num passado distante e os jovens nunca nem ouviram falar dele. Podem, por essa razão, apreciar sem quaisquer idéias pré-concebidas, o filme de Fuqua. Denzel continua muito bom; Chris Pratt fez o mesmo papel em todos os filmes de que participou, ou seja, o galã idiota; os excelentes e talentosos Vincent D'Onofrio e Ethan Hawke são tristemente sub-aproveitados e dos outros não há maiores recordações.

Minha recomendação única: assistam os três na seqüência cronológica. (13/12/2016)

BEIJO NO GORDO!

O privilégio de ser entrevistado pelo gordo, em junho de 2013

Foram 26 anos de programa, contando os dez no SBT e os dezesseis na Globo.

Na década de 80 eu assistia o programa de Carson todas as noites, quando estava nos Estados Unidos, bem como a Letterman (que vinha logo depois, na NBC), Arsenio Hall, retardatários como Pat Sajack e Dennis Miller, etc., e conhecia, portanto, o formato do talkshow. Estranhava que nunca se tivesse tentado nada semelhante no Brasil. Jô tentou.

Johnny Carson
Sempre condenei o fato de que a parte efetivamente humorística do programa se limitasse ao monólogo, em geral pouco inspirado. Era para mim o mais supremo contra-senso. Jô queria continuar fazendo o humor que o celebrizara, mas parece ter ignorado o fato de que o talkshow era eminentemente um programa de humor. Não por coincidência, 99% dos apresentadores vinham da comédia, de um jeito ou de outro.

Carson e Letterman tinham monólogos duas vezes maiores do que o de Jô, e ocupavam toda o primeiro bloco do programa com sketches de humor e personagens, no caso de Carson, e com as mais fantásticas palhaçadas, improvisadas ou muito bem elaboradas, no caso de Letterman. Depois vinham as entrevistas, quase que como uma sobremesa para o prato principal que já viera antes. Os programas de ambos - assim como de todos os outros - contavam com uma equipe de dez ou vinte redatores. Os monólogos estavam longe de ser uma sucessão boba e insípida de piadas; eram o extrato das notícias do dia, nos Estados Unidos e no mundo, transmitido com o intuito de fazer rir, além de informar.

David Letterman
Letterman inovou, inclusive, realizando sketches memoráveis com artistas do primeiro time hollywoodiano. Estes adoravam participar porque era humor da melhor qualidade, feito de forma despretensiosa e divertida. Nunca esqueço um programa em que ele utilizou ninguém menos do que Paul Newman e Zsa Zsa Gabor em inserções absolutamente hilárias, do mais puro nonsense. Bill Murray foi um campeão dessas palhaçadas, assim como Steve Martin, Bruce Willis, Alec Baldwin e assim por diante. Mais do que isso, Letterman foi para as imediações do Ed Sullivan Theater e pinçou por ali coadjuvantes de seus quadros de humor, como Rupert Jee (com quem eu trombei em NY, em 1997), os vendedores bengalis Mujibur e Sirajul, etc.

Jô tinha cacife para fazer tudo isso porque é inteligente, culto, preparado, e é amigo de 90% do meio artístico, mas optou por uma produção enxutíssima, de poucas pessoas e um ou dois redatores, onde brilhou durante duas décadas o velho Max Nunes. Era um bela homenagem ao grande redator que Jô admirou por toda sua vida, mas agrilhoou o processo criativo do programa, que não teve como sair daquela linha de humor que já estava, infelizmente, ultrapassada. Vez por outra era repetido um sketch em que Jô entrevistava uma velhinha engraçadíssima nas ruas de Porto Alegre. Foi precisamente o que faltou ao programa. Mais sketches desse tipo. Letterman os apresentava diariamente, com ele ou com seus sidekicks, como Calvert Deforest, o contra-regra Biff Henderson, o cue-card guy Tony Mendez, etc.

Houve tentativas, como transformar Derico em "assessor para assuntos aleatórios", os clipes em que anunciavam o novo e-mail do programa na Globo, a busca por uma namorada para o pianista Osmar, o bullying com o garçom chileno, e etc., mas foram poucas e de vida efêmera. Não sei se Jô conseguiria dividir os holofotes com um sidekick, mas acho que faltou-lhe sempre um Ed Macmahon ou um Paul Schaeffer. A banda teria que ter papel maior. Carson tinha no maestro Doc Severinson um segundo sidekick, além de Macmahon; Letterman utilizava todo seu staff em sketches, desde o narrador Alan Kalter, passando por Schaeffer, até o presidente da CBS, Les Moonves.

O resultado é que o gás criativo terminou em determinado momento e o público passou a ser bombardeado todas as noites, durante o monólogo, por piadas que surgiam na internet, ou as chamadas pérolas do Enem. Uma ou outra vez isso tem sua graça, mas os talkshows nos quais Jô se inspirou jamais teriam permitido a exploração diária de material não-original dessa forma.

Jô em 1988, primeiro ano do "Jô Soares Onze e Meia" (Rubens Mano - Folhapress)

Jô em 1988, primeiro ano do "Jô Soares Onze e Meia" (Nani Gois - VEJA)

Também não aprovei seu excessivo envolvimento pessoal em determinados assuntos. Carson e Letterman passaram 30 anos entrevistando figuras políticas das mais variadas orientações ideológicas ou programáticas. O objetivo foi sempre um só: o entretenimento. Especialmente Letterman, cujo humor era mais escrachado e descompromissado. Jô deixou, em ocasiões emblemáticas, que seus próprios pontos de vista não apenas dominassem o tom de algumas entrevistas, mas descambassem para a mágoa pessoal, o que por vezes provocou a irritação do público e impediu que figuras interessantes retornassem a seu programa. Nessa área são marcantes os casos de Wilson Simonal, Hélio Fernandes e Luiz de Orleans e Bragança, entre outros.

No lado político, foi relativamente perdoável que Jô apoiasse de corpo e alma, por exemplo, o impeachment de Fernando Collor, ridicularizasse as idiossincrasias de Itamar e não fizesse vista grossa aos inúmeros erros e incoerências de Lula na presidência, o que teve como conseqüência a recusa dos três de voltarem ao programa.

Dilma e Jô
Já a entrevista chapa-branca com Dilma, no momento mais crítico do naufrágio de seu lamentável governo, é deslize inexplicável que acertou seu prestígio em cheio quando o programa entrava na reta final. Ao invés de submetê-la ao justo pelourinho de uma entrevista com um público que não fosse sua claque habitual, deixando-a vulnerável e açulando sua sinceridade com perguntas incisivas, esclarecedoras, mas sem esquecer do humor e permitindo inclusive que ela mostrasse sua humanidade (o que provavelmente suscitaria muito mais simpatia do que ódio), ele foi entrevistá-la no conforto e na segurança do Planalto, onde o que se viu foi um encontro blandicioso e estéril que nada esclareceu, a exemplo do que ocorreu recentemente no Roda Viva com Michel Temer.

Por outro lado, diga-se, "As Meninas do Jô" foi uma das melhores coisas introduzidas por seu programa, na TV. Uma mistura exata de informação e entretenimento.

Lilian Witefibe, Lúcia Hipólito, Ana Maria Tahan
e Cristina Lobo: As Meninas do Jô
(Zé Paulo Cardeal - TV Globo)
Feitas essas colocações, eu ficaria dias enumerando entrevistas memoráveis. Assisti o "Jô Soares Onze e Meia" desde a primeira noite, então tenho minha memória repleta de lembranças. O Ultraje a Rigor cantando a música "Filho da Puta", que as rádios haviam censurado dias antes; Ney Latorraca e Marco Nanini matando as pessoas de rir, falando sobre o eterno Irma Vap; o velho brigadeiro Burnier obrigando um Jô de saco cheíssimo a ler intermináveis documentos (se não me falha a memória) sobre Aragarças; o saudoso Patrick Swayze, bem-humorado e divertido; Maluf, candidato em 89, trocando de sapato com Jô, por conta do anúncio que fez na época, para a Vulcabrás; Caetano indignado, olhando diretamente para a câmera e chamando o jornalista do New York Times de "canalha", tendo a seu lado um Gil calmo e sorridente; Dercy Gonçalves desafiando a quem tentasse calar sua verve pouco ortodoxa: "Venha! Venha que eu dou-lhe uma bucetada!"...

Dercy e Jô
Jorge Dória me fez gargalhar sonoramente (como sempre) com a história que contou a Jô: "Lembra do fulano? Sabe que ele morreu, né? Ele era amigo de beltrano, que já morreu, e fez tal coisa com sicrano, que já morreu, e ambos trabalhavam para não sei quem, que já morreu", e seguiu em frente, em meio às risadas do público, até que Jô intercalou: "Por enquanto só estamos os dois vivos, pelo jeito"; o querido Oswaldo Loureiro, depois de muita insistência, deu uma palinha de sua magnífica voz de barítono; Quércia cantou e tocou no violão uma música caipira; Geraldo Magela explodiu como comediante depois de sua entrevista a Jô; Chico Buarque deu uma de suas poucas entrevistas a Jô, para lançar seu livro "Estorvo"; Tom Jobim encantou a todos meramente por estar ali, vivo e espalhando a imensidão de sua presença; Roberto Carlos esteve lá pela primeira vez ainda no SBT, depois de longa negociação com a Globo, ressentidíssima com a partida do gordo e dificultando em tudo que era possível a presença de globais no programa da concorrente...

Juca e Jô
Juca Chaves dava uma aula de inteligência cada vez que comparecia. Em uma das ocasiões cantou uma de suas músicas, e nunca esqueci do fim: "Se bicudo vem de bica e se grota vem de gruta, conforme a palavra indica, deputado vem de puta"...

Celso Pitta, estomagado com as piadas de Jô sobre sua administração, resolveu vingar-se retendo o "habite-se" dos estúdios da Berrini até o o último segundo possível, horas antes da reestréia de Jô na Globo; Francisco Milani brilhou no programa de estréia, no papel de um contra-regra atrapalhado que fazia os últimos reparos nos cenários do programa quando ele já tinha começado. O sketch terminou com um holofote se espatifando no centro do palco.

Curiosamente, embora o programa tenha durado dezesseis anos na Globo, portanto seis a mais do que no SBT, o grosso de minhas recordações vem da primeira fase. Talvez seja cedo demais para recordar o período Globo. 


Estive em gravações de seu programa inúmeras vezes no SBT, logo no início, e fui entrevistado por ele em 2013, na Globo. Uma experiência inesquecível. Abaixo, fotos que tirei de gravações que assisti no Sumaré:

O grupo Ira dando entrevista a Jô em 1991
Jô entrevista o ministro FHC em 1993, sob o olhar atento
do contra-regra e "pai de santo" Tião
Jô entrevistando a atriz Florinda Bulcão no mesmo dia
Também em 1993. Vê-se o guitarrista Rubinho (morto em 1999), o contra regra Tião (sobre quem não há qualquer referência por esse nome, na Internet) e o câmera José Roberto Lucas de Araújo, conhecidíssimo como Eddie Murphy, que trabalhou com Jô por vários anos. Depois foi para a Globo e por volta de 1999 ou 2000 abateu-se sobre ele grande desgraça: o diabetes o fez perder a visão e ele passou por dificuldades financeiras. Infelizmente a Internet não registra seu destino.

Teria muito mais a falar sobre o assunto, mas paro por aqui. Acredito que no cômputo geral ele acertou mais do que errou. Acredito também que o "late night" brasileiro perde um de seus melhores quadros. (16/12/2016)
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