quinta-feira, 23 de julho de 2020

Minestrone Cultural XVIII


EDIÇÃO PANDEMIA


DISCOS (1972/1982)

Instado pelo Alexandre, entro na brincadeira que vem rolando há tempos no Facebook, de escolher dez discos e postá-los, um por dia, sem quaisquer explicações. Mas vou ter que mudar duas regras:

a) Não vou postar os dez discos mais importantes da minha vida porque não consigo escolher apenas dez. A música, para mim, é tão fundamental quanto respirar e são milhares os discos que forjaram meu gosto musical e estão guardados com carinho em minha memória. Escolherei apenas dez discos que me marcaram profundamente até eu completar dez anos, com a triste certeza de que pelo menos outros vinte ficarão de fora. Sobretudo os internacionais, que neste primeiro momento optei por não incluir, ou esta lista não teria mais fim.

A infância, como se sabe, é o período em que somos um livro aberto, em branco, pronto para receber todas as influências artísticas e de qualquer outro tipo (daí a imperiosa necessidade de expor a criança somente àquilo que é benéfico e produtivo). Graças a Deus tive em meus pais duas pessoas que amavam música e possuíam um gosto musical refinadíssimo, então meu próprio gosto se formou a partir do contato com o que havia de melhor.

b) Vou fazer um pequeno comentário sobre cada um porque não vejo qualquer graça em postar dez capas sem nenhuma explicação. É o que torna o Facebook uma vitrine sem charme e sem valor: a publicação inconseqüente de fotos sem texto. Amanhã ninguém nem lembra que isso foi postado. Por isso tenho saudades do Orkut.

Deixo de fora LPs de Moraes Moreira como Lá vem o Brasil descendo a ladeira e Bazar Brasileiro - provavelmente os mais importantes de minha infância - porque já estou falando deles em minha última postagem do Minestrone Cultural.

01 - Guilherme Arantes (1976)

Esse LP na verdade pertencia ao meu irmão e eu, com quatro ou cinco anos, adorei as maravilhosas melodias compostas por Guilherme e não me esqueci jamais delas. Todas me marcaram de uma maneira ou de outra. Esse foi o primeiro LP do grande pianista e ele trazia fresca, jovem e pulsante sua inspiração musical e poética. Poderia comentar todas as canções. "A Cidade e a Neblina", "Águas Passadas", "Não Fique Estática"... canções tão pessoais, tão inocentes e românticas. "Meu Mundo e Nada Mais" explodiu na trilha sonora da novela Anjo Mau, de Cassiano Gabus Mendes, "Cuide-Se Bem" explodiu em Duas Vidas, de Janete Clair, e Guilherme cimentou ali seu caminho vitorioso como um de nossos melhores compositores.

O encontro com o querido Guilherme nos bastidores do Jô, em 1993

02 - Roberto Carlos (1977)

Meu pai ganhou esse LP do irmão, que ao presenteá-lo escreveu-lhe uma dedicatória linda, aludindo à amizade, à camaradagem e à cumplicidade que os dois compartilhavam há quase quarenta anos. O tema de tudo, evidentemente, era a belíssima canção "Amigo", escrita por Roberto para Erasmo. Eu pessoalmente, chegando aos seis anos, preferia "Muito Romântico" (que só anos depois vim a saber que é de Caetano) e "Pra Ser Só Minha Mulher" (que também só descobri muito tempo depois ser música do mestre Tony Osanah). Minha mãe, fã de Roberto desde a Jovem Guarda, contentava-se com "Falando Sério" e "Jovens Tardes De Domingo". Infelizmente meu pai se foi, inesperadamente, cinco meses depois, e a canção "Outra Vez", de Isolda, passou a ser um verdadeiro tabu para ela.

03 - Ópera do Malandro (Chico Buarque e outros, 1979)

Não há como falar de Chico e de sua presença basilar na minha vida sem citar Meus Caros Amigos, de 1976, e Chico Buarque (o proverbial "disco da samambaia"), de 1978. Amei todas as músicas, decorei todas, cantava todas e não há uma única canção desses dois LPs que eu tenha gostado menos. Mas como esta lista fatídica só pode acomodar dez LPs, serei obrigado a uma escolha pior que a de Sophia: um único disco de Chico para constar aqui, e escolho a Ópera do Malandro.

Minha mãe costumava fazer uma gambiarra com um dos vendedores da HiFi, no Iguatemi, e ao invés de comprar o LP ou a fita originais, ela adquiria uma fita gravada do LP, por um dos vendedores, a um preço reduzido. Era a pré-história da pirataria. E dentre as inúmeras fitas que ela comprou assim, veio a "Ópera do Malandro", de Chico. Foi uma paulada em minha inocência. As músicas eram espetaculares. "O Malandro" (letra de Chico para a música de Kurt Weill), com o MPB4, começava com o acompanhamento único de uma caixa de fósforo e terminava com uma orquestra. Um verdadeiro deleite.

O "Hino de Duran" trazia Chico junto à "Cor do Som" (cujo LP Frutificar, de 1979, tive que deixar de fora desta lista) e eu viajei com o teclado de Mú e a guitarra de Armandinho. As letras fortes e marcantes de "Uma Canção Desnaturada" e "Pedaço de Mim" ainda não faziam sentido para mim, mas as melodias me maravilharam. Os artistas, os arranjos, tudo. Decorei todas. Cantava todas. O "Tango do Covil" era uma de minhas favoritas, assim como a poderosa "Geni e o Zepelim". Também amei Moreira da Silva dando uma aula de malandragem na "Homenagem ao Malandro". Mas como não podia deixar de ser, já que meu inusitado registro de barítono surgiu cedíssimo, eu amava acompanhar Paulo Fortes na "Ópera", em que Chico misturou, brilhantemente, as músicas de Bizet, Verdi e Wagner com suas próprias letras, pertinentes ao espetáculo teatral do qual eram trilha.

Além dos já citados, esse musical de Chico me introduziu à Marlene, Alcione, Gal Costa, Elba, Zizi Possi, As Frenéticas, João Nogueira e toda nossa melhor MPB. A "Ópera do Malandro" foi uma das maiores riquezas da minha infância.

04 - Realce (Gilberto Gil, 1979)

Gil, com trinta e sete anos, terminou a década de 70 energizado e renovado. Soube se modernizar sem que sua obra perdesse um pingo de seu valor. Realce é um extrato de seu momento musical, impregnado de samba e Reggae. A canção-título parece homenagem à década que se encerra e um chamamento à nova ordem musical; "Realce" tem a cara dos anos 80. Já "Superhomem, a canção" (preferida inconteste de minha mãe), é balada atemporal e um hino ao lado feminino dos homens, tão decantado por Gil, Caetano e Pepeu, naquela época. Em "Marina" Gil revoluciona, transformando a canção escrita em 1944 por Dorival Caymmi em um reggae da melhor qualidade. "Rebento" é um samba lindíssimo, também inteiramente atemporal, que seria reverenciado como uma composição perfeita em qualquer época. Minha preferida é "Toda Menina Baiana", outra perfeição.

05 - Gal Tropical (Gal Costa, 1979)

Gal Costa está em situação semelhante à de Chico. Era uma das artistas preferidas de minha mãe, que comprava seus LPs assim que eram lançados. É difícil, portanto, falar dela sem mencionar Água Viva (1978), Aquarela do Brasil (1980) e Fantasia (1981). Mas ficarei neste momento com Gal Tropical porque não creio que ela tenha mostrado melhor a mistura de seu talento superior de cantora (a maior do Brasil, junto à Elis) com sua faceta de intérprete, como neste disco. E Gal é tão talentosa, tão versátil, que passeia pela MPB brasileira dos últimos cinqüenta anos, espanando-lhe o mofo e dando-lhe feição moderna e atual. Com sete anos, eu adorei "Balancê", com seu refrão fácil e sua melodia cativante, sem saber que Gal exumava um sucesso que Braguinha compusera para o carnaval de 1936!


Também não sabia que a lindíssima "Estrada Do Sol" era parceria de Tom e Dolores Duran. Só sei que fiquei encantado com a sutileza da melodia, como também me encantou a "Juventude Transviada" de Luiz Melodia. Outras canções que me impressionaram muito pela da interpretação de Gal e dos arranjos perfeitos de Antônio Perna Fróes foram "Índia", que eu ouvia ali pela primeira vez, e "O Bater Do Tambor", excelente frevo de Caetano que me fazia sentir em Salvador, nos becos e nas reentrâncias que os trios não invadiam, nas noites de carnaval. E ouvi "Meu Nome É Gal" pela primeira vez, nessa nova versão da música-homenagem de Roberto e Erasmo, muito melhor do que a versão original de 1969.

06 - Cinema Transcendental (Caetano Veloso, 1979)

Como se vê, a MPB estava no auge quando se encerrou a década de 70. Cinema Transcendental traz pérolas que me acompanham até hoje. "Lua de São Jorge" é adorável, mas a "Oração ao Tempo" é uma das composições mais lindas que já ouvi em minha vida. É uma jóia na coroa de Caetano. "Beleza Pura" está lá para constar mas já era sucesso no cardápio de Armandinho e A Cor do Som, assim como "Menino do Rio" virou trilha do filme inesquecível de André de Biasi, na interpretação perfeita de Baby Consuelo. "Trilhos Urbanos" é uma beleza e há espaço para o divertido "Vampiro" de Jorge Mautner, mas junto à "Oração", minha canção preferida desse álbum é provavelmente a "Elegia", que tem poesia de Péricles Cavalcanti e Augusto de Campos, e suponho que a música seja de Caetano. Mas eu só iria realmente conhecer Caetano a partir de Uns, em 1983.

07 - Rita Lee (1980)

Há pessoas que criticam Rita por essa fase de sua carreira, que consideram não estar à altura de seus LPs com o Tutti Frutti. Discordo frontalmente. A obra de Rita é toda boa, em geral, mas Roberto de Carvalho trouxe uma riqueza melódica que acho inegável e da qual sou fã. Com efeito, a impressão que dá é de que ela foi atacada simplesmente porque virou uma usina de sucessos. Desde o primeiro LP que lançou com Roberto (em 1979, ano abençoado), seguindo por este e pelo próximo, temos uma verdadeira coleção de ótimas canções. Me faz lembrar Elton John ou Billy Joel, em que não há como ter favoritas porque são todas boas. "Lança Perfume", "Baila Comigo" e "Nem Luxo, Nem Lixo" não são apenas fáceis de recordar e gostosas de cantar. São músicas excepcionais, retratos de sua época e seriam standards em qualquer lugar do mundo. Rita é uma grande compositora e sua obra, seja com Os Mutantes, com o Tutti Frutti ou com Roberto trouxe sempre a marca de um talento sem igual.

08 - Cauby! Cauby! (Cauby Peixoto, 1980)

Cauby foi o maior cantor brasileiro da segunda metade do século XX (e em minha opinião, do século inteiro), portanto era natural que fosse um dos favoritos de meus pais. Até mesmo meu pai, que não gostava dos maneirismos do cantor, seus lenços, sua maquiagem, suas desmunhecadas, deixava isso de lado e admitia o imenso talento de Cauby. Em 1980 a Som Livre lançou um LP de homenagem a seus trinta anos de carreira, reunindo canções que os maiores compositores brasileiros - todos seus fãs confessos - fizeram para ele, ou foram celebrizadas por sua interpretação. Na ocasião fiquei impressionado com o vibrato de Cauby em "Bastidores", de Chico, gostei muito do "Cauby! Cauby!", de Caetano e "Ronda", de Paulo Vanzolini (malgrado a breguice do arranjo).


Com os anos fui aprendendo a apreciar a bonita e simples "Oficina", de Tom Jobim e "Não Explique", de Eduardo Duzek. Há uma curiosa versão ao vivo de "Chão de Estrelas" cantada por Cauby, Sílvio Caldas e ninguém menos que o saudoso Jessé, procurando não fazer feio em meio aos mestres. Mas nem tudo é perfeito; Roberto e Erasmo, que começaram suas carreiras com Cauby, colaboraram com a perfeitamente esquecível "Brigas de Amor". Jorge Ben colabora com a sem-graça "Dona Culpa" e inclusive canta com Cauby. Terrível. Os arranjos do talentoso e saudoso Lincoln Olivetti estão datados e são irregulares; por vezes funcionam lindamente, por vezes trazem uma certa cafonice daquele início de década de 80. É, contudo, pérola rara de nosso cancioneiro e recordação docílima de minha infância.

09 - A Arca de Noé (Vários, 1980)

Sob a batuta do grande Augusto Cesar Vanucci, a Globo produziu o especial "A Arca de Noé", obra-prima realizada a partir dos poemas infantis de Vinícius, musicados por Toquinho. A direção foi de Evaldo Rui e o programa foi ao ar em outubro de 1980. Difícil descrever algo tão maravilhoso. É necessário ter sido criança naquela época, para entender. A introdução - nunca esqueci - era uma narração de Chico para este poema: Sete em cores, de repente/ O arco-íris se desata/ Na água límpida e contente/ Do ribeirinho da mata. Já me arrepiou naquele momento. Na seqüência entrava Milton cantando E abrem-se as portas da arca/ Lentamente surgem francas/ A alegria e as barbas brancas/ Do prudente patriarca, e assim por diante. Para mim, aos oito anos, aquilo era o paraíso musical das crianças. Alceu Valença cantando a divertidíssima "A Foca"; meu ídolo Moraes Moreira cantando "As Abelhas" e o MPB4 - meus já conhecidos dos discos de Chico - nos fazendo rir às casquinadas em "O Pato", com direito a Miltinho fazendo com perfeição a voz do pato. Ney Matogrosso, com "São Francisco" e Elis, com "A Corujinha", traziam um tom mais sério, mas nossa alegria estava no Boca Livre cantando "A Casa", nas Frenéticas e Martim Francisco - o "Padilha" do Planeta dos Homens e de Viva o Gordo - na "Aula de Piano", e etc.

O que posso dizer de algo tão bom? Da beleza de Aretha, uma verdadeira boneca viva, filhinha de Vanusa e Antônio Marcos? Que o programa fez tanto sucesso que a Globo o reprisou, semanas depois, e eu pedi à minha mãe que transcrevesse a narração de Chico? Que eu decorei o poema da Arca, cantado por Milton, e três anos depois, aos onze anos, recitei em aula suas dez estrofes, para o completo basbaque de minha professora de português? Que conheci ali o gênio de Vinícius e Toquinho?... não há o que dizer. Como disse antes, só quem foi criança naquela época entenderá.

10 - Wilson, Geraldo, Noel (João Nogueira, 1981)

Outra jóia que devo - como todas desta lista - à minha mãe. Atenta ao que de melhor se produzia em nossa MPB, ela comprou a fita Wilson, Geraldo, Noel, onde João Nogueira homenageava os compositores Wilson Batista, Geraldo Pereira e Noel Rosa. Mais uma vez ressalto a importância de expor a criança a coisas boas: essa fita foi meu primeiro contato com qualquer um dos três compositores, e 1) a riqueza das composições, 2) a perfeição dos arranjos (mérito de Cristovão Bastos, Geraldinho Vespar, Nelsinho e Paulo Moura) e 3) a interpretação de João, me tornaram fã eterno dos três (de João eu já era fã desde a Ópera do Malandro). E durante anos eu escutei essa fita de cabo a rabo. Em 1996 comprei o CD e continuo escutando-o até hoje.

Alcione e João em desfile da Portela, 1984
Considero todas as faixas excelentes, mas admito que tenho minhas favoritas: de Noel, o partido-alto "De Babado" não é só uma delícia, mas ainda traz Alcione dividindo os vocais com João. Ainda de Noel posso citar a impagável e altamente curiosa (para uma criança) "Positivismo", com letra inspiradíssima de Orestes Barbosa. E "O Maior Castigo Que Eu Te Dou", que gosto muito e hoje, infelizmente, seria espinafrada pela patrulha PC. Wilson Batista, como na vida, roça ombros com Noel, nos lindos sambas "Louco", o "Samba do Méier" e o "Largo da Lapa", cartões postais do Rio cantados, sentidos e poetados. Mas também patenteia seu bom humor, na divertidíssima "Esta Noite Eu Tive um Sonho", parceria que não poderia ser com nenhum outro senão Moreira da Silva. E Geraldo não fica a dever nada a seus dois colegas e contemporâneos, com as ótimas "Bolinha de Papel" e "Você está sumindo".

Que mais posso dizer?

Valeu a pena ser criança com essa MPB.

Quantas gerações depois da minha poderão dizer o mesmo? (30 e 31/05/2020)

ANTÍPODAS SIAMESES

Dois ignorantes e seu exército de idiotas.




(1, 7 e 21/05/2020)

SAMBA DA PERGUNTA

           

Samba da Pergunta
(Pingarilho/Vasconcellos)

Ela agora mora só no pensamento
Ou então no firmamento
Em tudo que no céu viaja

Pode ser um astronauta
Ou ainda um passarinho
Ou virou um pé de vento

Pipa de papel de seda
Ou, quem sabe
Um balãozinho

Pode estar num asteróide
Pode ser a Estrela Dalva
Que daqui se olha

Pode estar morando em Marte

Nunca mais se soube dela
Desapareceu... (19/05/2020)

MENCKEN E O "COMPLETO IDIOTA"

Há alguns anos está rodando a internet uma citação do jornalista norte-americano H. L. Mencken (1880/1956), que termina com uma frase considerada profética: "Em algum grandioso e glorioso dia, os cidadãos comuns de nossa terra atingirão, finalmente, o desejo de seus corações, e a Casa Branca será ocupada por um categórico burro e um completo idiota narcisista".

O trecho final foi utilizado inicialmente para caracterizar George W. Bush, que realmente se enquadrava com facilidade no quesito "burrice". Mais à frente foi a vez dos republicanos utilizarem a frase para ressaltar o narcisismo de Barack Obama. E atualmente a frase corre a internet como a qualificação perfeita de Donald Trump, ao mesmo tempo burro e narcisista.

Entretanto, como a frase soava perfeita demais para caracterizar Trump, entraram em ação os fact-checkers da internet, a fim de verificar se a citação é real e se foi, de fato, escrita por Mencken. O resultado é interessante. Ela é 90% real. Escrevendo para o Baltimore Evening Sun de 26 de julho de 1920 - portanto há quase exatos cem anos - Mencken discorria sobre campanhas eleitorais regionais e nacionais, e o quanto era difícil que um homem íntegro e preparado conseguisse transmitir sua mensagem em um país tão grande. Suas colocações são absolutamente lapidares, e trazem assustadora ressonância com nosso país, e especificamente os nossos três últimos presidentes eleitos:

Quanto maior a massa, mais difícil o teste. Em pequenas áreas, diante de pequenos eleitorados, um homem de primeira classe luta para abrir seu caminho, carregando ocasionalmente até mesmo a massa com ele pela força de sua personalidade. Mas quando o campo é nacional e a luta deve ser travada principalmente em segunda e terceira mão, e a força da personalidade não pode ser tão facilmente sentida, então todas as probabilidades estão no homem que é, intrinsecamente, o mais desonesto e medíocre - o homem que mais facilmente pode dispersar a noção de que sua mente é, virtualmente, um vácuo.

Depois desse diamante de lucidez, ele conclui:

A Presidência tende a ir, ano após ano, para tais homens. À medida que a democracia é aperfeiçoada, o cargo representa, de forma cada vez mais fiel, a alma interior do povo. Nós nos movemos em direção a um ideal elevado. Em algum grandioso e glorioso dia, os cidadãos comuns de nossa terra atingirão, finalmente, o desejo de seus corações, e a Casa Branca será adornada por um completo idiota.

Como se vê, nem "burros" e nem "narcisistas". Os espalhadores de memes aumentaram um pouco a verdade e the White House will be adorned by a downright moron se tornou the White House will be occupied by a downright fool and a complete narcissistic moron. Um pecadilho, que não obstante retrata Trump com clareza, e, retroativamente, acerta Lula em cheio, por narcisista e burro, e Dilma e Bolsonaro igualmente, no quesito "burrice".

**********


É preciso ter cuidado para não cair em algumas armadilhas, na hora de analisar Trump:

1º - Em primeiro lugar ele não criou nada e não é um self-made man. Seu pai já era um próspero empresário do ramo imobiliário quando Trump apareceu e encontrou tudo feito e encaminhado. Ele apenas se aprofundou no lado sujo dos negócios e ao longo dos anos, quando não se cercou da patuléia mais abjeta e perigosa dos Estados Unidos - avalistas permanentes de seus desatinos - foi um homem de negócios medíocre, ridículo e falastrão. Abriu falência SEIS vezes. Perdeu bilhões, e - é lógico - nunca de seu próprio dinheiro, mas daquele que conseguiu através de facilidades junto a amigos no governo e a negociatas escusas com gente que esteve sempre nas franjas da lei. Podemos citar dezenas de multi-milionários (sobretudo no Brasil) que não fizeram sua fortuna de uma maneira honesta, ou graças a um bom tino comercial. Aliás, são provavelmente a esmagadora maioria.

2º - Não se deve confundir "inteligência" com "esperteza", ou "carisma" com uma personalidade espalhafatosa e desavergonhada que acaba agradando uma parcela mais ignorante da população (no que ele guarda espantosa semelhança com Lula, conforme já consignei até em artigo do meu blog). O que Trump foi, de fato, é um sujeito esperto e imoral, que deu todos os jeitos do mundo, legais e ilegais, para se manter em evidência, não importando a quem ou o quê ele destruísse no caminho. Mesmo às custas de sua própria reputação, porque ela sempre foi ruim. Ele é tosco e primário, não é capaz de concatenar um raciocínio sem dizer alguma asneira, e lida com seus negócios do mesmo jeito superficial e performático com que apresentava aquele reality. Ele é um artista de TV e maneja o público assim como um youtuber de 20 anos, ou as Kardashians. Isso não é inteligência. Isso é a esperteza para saber manipular um público que é ainda mais burro do que ele.

3º - Sua ascensão à presidência é tristemente fácil de compreender: os democratas não tinham, em Hillary, a melhor candidata. Pessoalmente, lamento até hoje que Elizabeth Warren tenha se recusado a competir naquela eleição, pois sua estrela estava brilhando intensamente (ao contrário de hoje, em que é carta fora do baralho) e ela teria sido uma candidata perfeita para substituir Obama. Não obstante, Hillary VENCEU a eleição e não tomou posse pela mesma razão que Gore não tomou posse em 2000: as eleições presidenciais norte-americanas ainda tem seu martelo batido pela instituição mais vetusta e corrupta da civilização ocidental: o colégio eleitoral. Fosse pela vontade do povo, Trump não teria jamais espalhado sua morrinha pela Casa Branca. (19/07/2020)

APANHADO CINEMATOGRÁFICO INCOMPLETO NA PANDEMIA

Por razões óbvias, tenho assistido mais filmes em uma semana do que assisti o ano passado inteiro. Não tenho como resenhar todos então me limitarei aos que me recordo no momento. Também tentarei não me estenderei nos comentários:

GREYHOUND (2020) - Direção do desconhecido Aaron Schneider, e mais um ótimo trabalho de Tom Hanks. Ele é o capitão que vai comandar (pela primeira vez) uma frota de navios até a Inglaterra para ajudar os aliados, sendo que grande parte do trajeto é feito sem retaguarda aérea, o que torna os navios presas fáceis dos submarinos alemães. O filme se passa justamente no período em que a frota é obrigada a enfrentar inúmeros desafios. Belíssimo filme de guerra, um verdadeiro pé-de-vento, valorizado pelo ritmo dinâmico, a direção e a interpretação de Hanks. Recomendo.

THE OLD GUARD (2020) - Baseado no HQ de Greg Rucka e Leandro Fernandez, com direção da também relativamente desconhecida Gina Prince-Bythewood. Um grupo de mercenários que passa a vida combatendo o mal tem em comum o fato de que - sabe-se lá o porquê - são imortais. Para piorar, são perseguidos por agências governamentais e empresários inescrupulosos que querem utilizar esse dom para o bem ou para o mal. Gostei. Filme de ação padrão e considerando aquilo que é produzido pela Netflix, está acima da média. E é sempre bom ver Charlize Theron. Só.

THE BROWNING VERSION (1951) - Sobre este, precisarei fazer alguns comentários. Conhecido no Brasil pelo cretiníssimo nome de "Nunca te amei", o filme é baseado na peça de Terence Rattigan, com roteiro do próprio e direção de seu maior colaborador, Anthony Asquith. No papel principal, do professor Andrew Crocker-Harris, o tão subestimado Michael Redgrave.

Simplesmente magnífico. Tenho raiva de mim mesmo por não ter visto este filme antes. Trata da vida de um professor que vai se aposentar depois de muitos anos de trabalho e se vê diante da terrível e objetiva realidade de que ele é desprezado por seus alunos e por sua própria esposa. A aposentadoria o colocará face a face com seu fracasso e o que lhe restou de todos esses anos.

Redgrave tem uma performance que traz ao lume aquilo que ele tinha de melhor: a capacidade de transmitir sentimentos profundos e perturbadores com a mais sublime sutileza. Enquanto Olivier fazia tremer teatros com sua energética interpretação de fora para dentro; enquanto Gielgud provocava suspiros com sua voz poderosa, tremelicosa e declamatória; e enquanto Richardson conquistava público e crítica com seus maneirismos cômicos e bonachões, Redgrave corria por fora, calmo, tranqüilo e brilhante.

Jean Kent (Millie) e Michael Redgrave (Andrew)

The Browning Version teve duas outras versões nos últimos trinta anos, contando com craques como Albert Finney e (o recentemente falecido) Ian Holm. Não assisti e não duvido que sejam bons. Mas não creio que alcancem a riqueza dramática, sincera e pungente, de Redgrave. Recomendo enfaticamente.

EU NÃO QUERO SER HOMEM (Ich möchte kein Mann sein, 1918) - Ernst Lubitsch tinha vinte e seis anos quando dirigiu este filme e fazia cinema há apenas três. Ainda engatinhava na arte da qual tornou-se mestre inconteste. Não obstante, os quarenta e cinco minutos da comédia muda "Ich möchte kein Mann sein" são muito divertidos e trazem um assunto que talvez fosse normal na época, depois virou tabu, depois ficou normal, virou tabu, ficou normal, e é assim até hoje: uma mulher (Ossi Oswalda, a primeira grande estrela de Lubitsch e chamada, na época, de "A Mary Pickford alemã") que se cansa de receber ordens de seu tutor - por quem, aliás, é apaixonada - e resolve se vestir de homem, para experimentar as mesmas liberdades do sexo masculino.

Uma vez que leva a cabo seu plano, passa por diversas situações inusitadas (como despertar a paixão de outra mulher, ou tornar-se "amigo" de seu tutor, que encontra em uma festa) e percebe que ambos os sexos tem suas dificuldades. Recomendo pela curiosidade do tema e pela interessante atualidade da trama.

COHERENCE (2013) - Nunca sequer ouvira falar de Coherence ou de seu escritor/diretor, James Ward Byrkit, até que um dia, vendo um video sobre filmes de ficção  científica que mereciam mais notoriedade, Coherence foi citado e resolvi assisti-lo. E foi uma excelente surpresa. O filme lida com o conceito do multiverso quântico a partir da passagem de um cometa, e considerando o quanto o tema vem sendo banalizado, nos últimos tempos, impressiona a qualidade do roteiro, da direção e dos atores (todos praticamente desconhecidos). Aquilo que começa como o mais alegre e despretensioso jantar entre amigos se torna uma montanha russa arrepiante. Recomendo.

ARCHIVE (2020) - Reciclagem de Transcendence, Ex-Machina e The 6th Sense (e, cá entre nós, a capa me fez pensar que era um remake de Enemy Mine). A esposa morre, o marido armazena sua memória em um HD e tenta construir um corpo para ela. Não é um fracasso completo, mas quando você começa a amar os dróides e desprezar o personagem principal (o sempre chato e desagradável Theo James), algo está muito errado. Há um plot twist legalzinho, mas só o que consegui pensar foi "que desperdício da linda Rhona Mitra".

BECOMING (2020) - Assisti pensando que seria um alentado documentário sobre a vida de Michelle Obama, já que traz o título de sua auto-biografia best-seller, Becoming. Não é. Trata-se, na verdade, de um documentário da turnê de lançamento do livro que a ex-primeira dama fez pelos Estados Unidos, e em meio aos grandes eventos, ficamos sabendo um pouco mais sobre ela. Embora não seja completo como eu desejaria, é um documentário interessante e ver uma mulher admirável e inteligentíssima como Michelle expendendo conceitos sobre a vida, é um prazer.


ON THE RECORD (2020) - Documentário da HBO que conta o caminho trilhado pela executiva Drew Dixon até que ela tivesse coragem de falar sobre ter sido drogada e estuprada por Russell Simmons, famoso produtor de rap dos anos 90. Sua acusação abriu uma porteira e várias outras mulheres acusaram Russell. Dirigido por Kirby Dick (duas vezes indicado ao Oscar por documentários) e contando com Oprah Winfrey entre suas produtoras executivas e incentivadoras de todo o projeto, On the record tinha tudo para se tornar um grande alerta sobre aspecto abertamente deletério do chamado "rap de ostentação": mulheres sendo abusadas e tratadas como mero produto, mas quando o documentário estava em vias de ser lançado, Oprah retirou seu nome do projeto, não se sabe até hoje por quê. Seja qual for a razão (em entrevistas ela diz acreditar e endossar o que dizem as mulheres), ela retirar seu beneplácito fez com que o documentário caísse no vazio. É uma pena, porque se trata de um bom trabalho e que merece ser conhecido. (19/07/2020)

BAD EDUCATION (2019) - Segunda direção de Cory Finley, depois de sua estréia com o interessante Thoroughbreds, de 2017, com Olivia Cooke e Anya Taylor-Joy. A história é real o roteiro de Mike Makowski se baseia em um artigo escrito para a New York Magazine por Robert Kolker. Fala sobre a maior fraude do sistema educacional norte-americano empreendida pelo inspetor de ensino Frank Tassone (Hugh Jackman) e sua assessora, Pam Gluckin (Allison Janney). É um dos melhores filmes de 2020, até o momento, e não tenho visto maiores comentários sobre ele. Hugh interpreta à perfeição o empertigado, empoado e vaidosíssimo Frank Tassone, imoral e corrupto até a medula, e que vê ameaçado de ruir o castelo de cartas de suas trampolinagens pessoais e profissionais, no momento em que uma aluna adolescente e curiosa se mete a fazer perguntas sobre a reforma de sua escola. Recomendo.

EL HOYO (2019) - Goreng (Ivan Massagué) acorda em uma cela junto a outro preso (Zorion Eguileor). A prisão, porém, é vertical, tem mais de 100 andares e cada andar é uma cela para dois presos. Um elevador de comida é abastecido no topo uma única vez, começa a descer andar por andar e fica dois minutos em cada andar. É a única refeição que o preso terá no dia e é fácil imaginar o que vai sobrando para os andares inferiores, e o que isso causará no corpo e na mente desses presos. Para piorar, os presos são mudados randomicamente de andar, mensalmente. É uma premissa sensacional e o filme tem provocado centenas de interpretações diferentes. Recomendo muito. O próximo comentário trará spoilers, então quem não viu deve pular para o próximo filme. (spoilers) Eu não seria justo se não avisasse que embora seja um excelente filme, o fim é altamente decepcionante. Como aliás costuma acontecer, com filmes que são feitos a partir de uma idéia extremamente original.

EL CIUDADANO ILUSTRE (2016) - Brilhante. Como tantas outras jóias, descobri inteiramente sem querer e ainda pensei que se tratava de um lançamento. Só quando fui procurar mais informações sobre o filme é que descobri ser uma produção argentino-hispânica de 2016. Enquanto me deleitava assistindo El Ciudadano Ilustre, da dupla de diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn, não pude deixar de me perguntar inúmeras vezes, e de lamentar o porquê do Brasil não conseguir fazer algo tão bom. Especialmente depois de ver aquela bosta de nome Bacurau, incensada de forma tão postiça e irreal, pela mídia.

A premissa de El Ciudadano Ilustre é simples: um grande escritor argentino, Dante Mantovani (Oscar Martínez) recebe o prêmio Nobel e ao invés de se sentir orgulhoso e realizado, vê na honraria uma espécie de "institucionalização" de sua obra; está sendo transformado em efígie por uma academia vetusta e embolorada, como se sua obra fosse convencional e sua carreira terminasse ali. Desestimulado, recusando lauréis e eventos pelo mundo todo, ele recebe um convite do prefeito de Salas - a cidadezinha onde nasceu e à qual não retorna há quarenta anos - para palestras e homenagens. Julgando que a volta ao proverbial "torrão natal" lhe devolverá a inspiração, ele aceita o convite, e lá o escritor terá um encontro não apenas com um passado que não necessariamente deseja recordar, mas com o choque brutal de chegar imbuído de uma aura de consagração e fama à uma cidade provinciana, que pouco mudou em quatro décadas.

É importante que se diga: o filme não é o retorno do filho pródigo que vai acertar as contas com o passado. Longe disso. El Ciudadano Ilustre tem uma trama profunda e interessante. Não é de forma nenhuma sentimental e não perde um minuto sequer com bobagens ou contemplações; o que temos é o desenrolar de um torvelinho de acontecimentos que ninguém poderia prever. O IMDB o caracteriza como "Comédia, Drama". Não é comédia. Tem uma ou outra situação risível mas é um drama, em tudo e por tudo. Mas um drama inteligente, dinâmico, sem rodeios e sem ambages, que vai direto ao ponto. O roteiro de Andrés Duprat é da melhor qualidade e o trabalho dos atores é impecável. Não digo mais nada para não dar spoilers e porque recomendo o filme.

Não há negá-lo: os hermanos nos dão uma surra em termos de cinema e estão de parabéns.

PRINCESS CARABOO (1994) - Não sabia que este filme existia e ver seu poster me encheu de nostalgia. Não houve homem da minha geração (ou da geração anterior) que não tenha amado Phoebe Cates. Ela foi uma das atrizes mais lindas e mais atraentes da década de 80, e decidiu abandonar a carreira logo depois deste filme, provavelmente para se dedicar aos dois filhos que teve com Kevin Kline (também conhecido como "o filho da puta mais sortudo deste mundo"). O filme trata da história de uma mulher que é encontrada perdida em uma fazenda, falando uma língua que ninguém consegue entender. Ela desperta curiosidade generalizada e tudo se desenrola a partir daí. É baseado em fatos reais, tem um elenco surpreendentemente bom (Jim Broadbent, John Lithgow, Stephen Rea e o próprio Kline, em um papel coadjuvante) e ver Phoebe Cates - que na época já contava trinta e um anos, apesar de parecer ter dezoito - é o mais agridoce dos prazeres, para um cinéfilo. Recomendo, fazendo a ressalva de que se trata de um filme leve e descompromissado, então não assistam achando que é Schindler's List.


ALL WE HAD (2016) - Em sua estréia como diretora, Katie Holmes conta a história de Rita Carmichael, uma mãe solteira que coleciona namorados inúteis, livra-se deles e perambula de cidade em cidade com sua filha Ruthie. Em uma delas seu carro enguiça e elas são forçadas a trabalhar em um restaurante para se sustentar. E lá elas conhecerão novas pessoas e suas vidas terão uma mudança inesperada. E por falar em Phoebe Cates, toda vez que vejo Katie em algum filme, lamento que sua carreira tenha sido interrompida pelo casamento. Ela é uma atriz brilhante, muito superior a tantas outras da sua geração e deveria estar conseguindo papéis melhores. Sua direção é competente e seu desempenho é impecável. Stefania LaVie Owen, que interpreta sua filha Ruthie, também é muito boa. (20/07/2020)

JERRY LEWIS, CLOWN REBELLE (2016) - Já existia um documentário, digamos, "definitivo" sobre Jerry Lewis, produzido com seu beneplácito e sob seus auspícios, chamado Method to the Madness of Jerry Lewis, de 2011.

É bom, pela extraordinária quantidade de material apresentado e por alguns entrevistados inteligentes e abalizados (e alguns absolutamente inúteis, proverbiais "arroz-de-festa" como Billy Cristal e Jerry Seinfeld), embora a ausência de Jim Carrey, entre eles, tenha sido bastante incômoda. Seja como for, um ano antes de Jerry morrer foi a vez dos franceses prestarem sua última grande homenagem ao comediante, neste modesto mas interessante documentário de uma hora. Jerry desde sempre foi amado e reverenciado pelo franceses, isso nunca foi segredo, mas sua influência transcendeu em muito o mero status de "rei da comédia"; o documentário mostra cenas de arquivo com depoimentos repletos de admiração e respeito por Jerry, vindos de cineastas como Louis Malle e Jean Luc Goddard. Mais do que uma sucessão de idólatras regurgitando elogios hiperbólicos, Clown Rebelle é um estudo real do diretor, criador, pioneiro, e artista cinematográfico que foi Jerry. Para os fãs (como eu), é um prato cheio.

GLORIA: IN HER OWN WORDS (2011) - Gloria Steinem ajudou a redimensionar o movimento feminista nos anos 60 e 70. Atingiu notoriedade, inicialmente, em 1963, quando se empregou como "coelhinha" em um dos night-clubs que Hugh Hefner abriu, na época, para promover sua revista. Mal sabia ele que Gloria era na verdade uma jornalista e depois de trabalhar algumas semanas e recolher todas as informações que desejava, demitiu-se e escreveu um artigo arrasador, acusando todos os abusos e maus-tratos a que as mulheres eram submetidas nesses clubes. O documentário segue, mostrando a fundação da icônica publicação feminista Ms., a amizade de Gloria com luminares do feminismo como Bella Abzug, sua rixa com Betty Friedan, as polêmicas, as alegrias e tristezas, e tudo através de depoimentos antigos e atuais (ou seja, até 2011) da própria Gloria. Detecto dois problemas: primeiro, é gostoso ouvir o biografado em suas próprias palavras, mas Gloria é demasiadamente contemporânea e seria interessantíssimo ouvir suas colegas, amigas, desafetos e etc.

Gloria Steinem
Deixá-la como única voz do documentário me pareceu preguiça, e entramos no segundo defeito: trata-se de um documentário da HBO, provavelmente feito em meio a dez outros. Não há aprofundamento e não há análise, e isso é criminoso em se tratando de uma mulher fantástica como Gloria, conhecida por sua inteligência e pelas posições importantes, corajosas e controversas que defendeu e atacou ao longo de sua vida. Para neófitos no assuntos, porém, vale a pena.

IT IS NO DREAM (2012) - Erram feio aqueles que consideram Ben Gurion o idealizador do Estado de Israel. Esse mérito cabe ao húngaro Theodor Herzl (1860/1904), que se formou advogado mas passou a exercer o jornalismo e, como correspondente do vienense Neue Freie Presse em Paris, assistiu o julgamento de Alfred Dreyfus, um verdadeiro aborto da justiça francesa. Dreyfus era acusado de traição por estar passando segredos militares franceses para os alemães.

Não apenas isso era inteiramente falso, mas cristalizou-se na mente de quem assistiu a execração pública de Dreyfus a certeza de que por trás daquilo havia, na verdade, um forte elemento anti-semita. A condenação de Dreyfus calou fundo na alma de Herzl e a partir daquele momento ele iniciou o seu sacerdócio sionista, pregando o retorno dos judeus à Jerusalém. Eu desconhecia completamente a história de Herzl e sua luta incansável pela criação de um estado judaico, desde seus contatos com multi-milionários como Rothschild (procurando alguém que pudesse bancar esse êxodo), a busca pelo sultão Abdülhamid, a admiração que lhe votava Sigmund Freud, até a oferta dos ingleses para que os judeus ocupassem Uganda. É uma pena que o documentário não se estenda mais no assunto. Uma hora e trinta e sete minutos não são nem de longe suficientes para conhecermos algo tão complexo quanto o sionismo e toda a gênese do que veio a ser Israel. E grande tragédia se abateu sobre a família de Herzl depois de sua morte, o que é apenas pincelado no documentário. Espero que algum diretor talentoso retome a vida desse grande judeu, futuramente. Mas - repetindo-me - para neófitos é muito bom. Narração de Ben Kingsley e narrando as citações de Herzl, está Christoph Waltz.


WHERE'S MY ROY COHN? (2019) - É irônico que logo depois de falar de um aborto da justiça francesa, falemos de quem promoveu a condenação e execução de Julius e Ethel Rosenberg, notório aborto da justiça norte-americana: Roy Cohn (1927/1986). Por alguma razão - provavelmente por Donald Trump ter sido seu último protégé - recentemente foram produzidos, quase que ao mesmo tempo, dois documentários sobre essa escrotíssima figura. Ele surgiu inicialmente como acólito de Joseph McCarthy durante o período negro de perseguição aos comunistas, na década de 50. O macartismo soçobrou no alcoolismo e na imbecilidade fundamental de McCarthy (que morreu desmoralizado e bêbado, em 1957), e Cohn - que além dos comunistas também perseguia e condenava homossexuais como transviados e anormais - acabou sendo chutado para fora de seu armário, quando ficou dolorosamente clara a sua relação amorosa com o soldado G. David Shine, que ele aboletou como aspone em seu gabinete. Cohn desapareceu por um tempo e ressurgiu na década de 60, como representante legal de mafiosos e demais criminosos milionários, e ganhou fama por ser um advogado agressivo, um caloteiro incorrigível, por continuar escondendo a sua homossexualidade (até sua morte, em decorrência da AIDS), por manter, sabe-se lá como, imensa influência nas rodas políticas de Washington, e por representar sempre o que existiu de pior e mais daninho na sociedade.

Começou com McCarthy e terminou (coberto de plásticas) com Trump. Um talento
sem igual para juntar-se com o que havia de mais sórdido

O primeiro documentário, Where's My Roy Cohn?, é excepcional na cronologia e nos detalhes daquilo que expõe. Traz ótimas entrevistas e é perfeito para que conheçamos a vida e a história de Cohn. Quando soube da existência do segundo documentário, Bully. Coward. Victim. The Story of Roy Cohn, portanto, achei redundante e desnecessário, mas como o assunto é rico e envolvente, não resisti e também o assisti. E tive uma grata surpresa, porque a diretora é ninguém menos do que Ivy Meeropol, neta de Julius e Ethel Rosenberg. Seu pai, Michael Meeropol é um dos entrevistados, então todo esse aspecto da vida de Cohn ganha um aprofundamento inédito. Outra coisa que me impressionou neste documentário foi a terrível briga - para mim desconhecida - de Cohn com seu antigo namorado, um desclassificado ainda pior do que ele chamado Richard Dupont, que não é citada no documentário anterior. E há também a presença de Tony Kushner, autor da célebre peça Angels in America, que traz Cohn como personagem. Os dois documentários são complementares e devem ser assistidos. E logo depois, quem se interessar deve assistir Citizen Cohn, cinebiografia algo romanceada, dirigida pelo ótimo Frank Pierson e que traz James Woods em excelente performance no papel de Cohn. Al Pacino também o interpretou, na versão televisiva de Angels, mas não creio que foi feliz em sua interpretação. O filme de Woods é melhor. (23/07/2020)
_________________________________

Veja mais:

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Vergonha Alheia


Com Regina em 1992, em seu camarim
do inesquecível  "A Vida é Sonho"
Triste. Admiro Regina desde que sou criança. Considero-a uma atriz magnífica. A defendi no famigerado episódio em que ela dizia ter "medo" do PT e os lulopetistas a pegaram para Cristo. Sempre achei Regina uma opinante simplória e bem-intencionada, em questões políticas. Uma pessoa boa, mas sem qualquer conhecimento de nossa situação ou de nossa história, e que aparecia de tempos em tempos para dizer uma abobrinha qualquer que era absorvida pelo carinho que nutrimos por sua carreira pregressa.

Encontrei-a pessoalmente pela última vez no Black-Tie de Dan Rosseto no MUBE em 2011 e a enchi de abraços. Não necessariamente concordei com algumas de suas posições políticas ou ideológicas ao longo desta última década, mas não via nenhum inconveniente nela escolher quem bem quisesse, pelo voto. Jamais a hostilizaria, como sempre faz o PT com aqueles que não rezam pela cartilha do presidiário.

Quando ela aceitou o convite de Bolso, fiquei apreensivo. Governo desmoralizado, desastroso, um verdadeiro rio de piranha. Mas Moro estava lá, o que, a meu ver, ainda emprestava a esse governo de merda uma última centelha de respeitabilidade. E desejei sorte à Regina, não sabendo o que esperar.

E o resultado foi o pior possível. Lembro-me de Fernandona recusando o convite de Sarney para o ministério da Cultura, explicando em carta polidíssima que aquela não era sua praia. Como seria bom que Regina tivesse feito o mesmo. Que tivesse explicado que é atriz há quase 60 anos e que não tem a mais ínfima vocação para a política. Que fez teatro e TV e não espraiou seus conhecimentos pelas centenas de outras manifestações culturais do nosso povo. Que não sabe gerir uma secretaria, não tem noção de como lidar com subordinados e colegas que vão depender de suas atitudes. Que - acostumada com as palmas merecidas de seu público - não sabe lidar com a crítica, com a insatisfação e com os protestos daqueles que são atingidos por sua incompetência. Que não tem estofo intelectual ou emocional para ocupar uma secretaria com peso de ministério.

Durante a pior crise de saúde que já atravessamos, em que a área coberta por sua secretaria é uma das mais castigadas, além de perdermos luminares de nossa cultura diariamente, Regina sumiu. Não deu um pio. Ninguém podia encontrá-la. Esperávamos que estivesse em meio a um bom freio de arrumação que a fizesse compreender o erro palmar que cometeu aceitando o convite de Bolso, e que reapareceria para pedir desculpas e se demitir. Ao invés disso ela reapareceu como se nada tivesse acontecido, não se desculpou, não se demitiu, não fez um único comentário produtivo e ainda protagonizou um dos mais bizarros espetáculos de vergonha alheia que já tivemos o azar de ver pela internet.

Vê-la esbravejando como uma madame ultrajada, uma legítima aprendiz de Damares, depois do video de Maitê Proença (que, cá entre nós, não representa nada para nossa cultura, foi a canastrona de sempre lendo sua notinha e entrou nessa como Pilatos no Credo), gesticulando como uma doida, cantando o hino da copa de 70, tão medularmente ligado ao governo Médici, minimizando torturas e assassinatos durante a ditadura, não tendo nenhuma empatia pelo ser humano e ignorando a liturgia do cargo que ocupa, falando sem qualquer compostura ou educação por cima dos apresentadores, foi o fim de sua carreira. Regina ultrapassou os limites do ridículo e alcançou o nível subterrâneo desse presidente de fancaria que temos hoje. Igualou-se a ele.

Não tenho mais nada a dizer. As atitudes de Regina, e suas imagens falam por si só.


Vi com otimismo a entrada de Moro no governo. E vi um homem honrado se demitindo, depois de um ano de trabalho honesto.

Vi com otimismo a entrada de Regina no governo. E vejo com engulhos sua permanência inútil, ociosa e deletéria.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Minestrone Cultural XVII



RUTH, A DESDÊMONA NEGRA

A Desdêmona negra de Ruth e o Othello de Abdias do Nascimento.

"Era uma época muito intensa, com várias montagens na cidade. E o TEN seguia esse ritmo. Com apenas um ano de existência participamos do Festival Shakespeare, organizado por Paschoal Carlos Magno. Dulcina de Moraes cedeu o teatro. Cada grupo encenou um número de sua montagem. Foi um espetáculo belíssimo. Todo mundo participou: Madalena Nicol, Maria Della Costa, Procópio Ferreira, a própria Dulcina, entre outros. Cacilda Becker fez Desdêmona, ao lado do Abdias do Nascimento, na montagem de Othelo. Depois eu e Abdias repetimos a cena de estrangulamento, para o festival. Fui a primeira Desdêmona negra. Acho que a primeira Desdêmona negra do mundo!"

Obrigado por tudo, amada Ruth.
(Foto de 1946) (29/07/2019)

INCLUSÃO RELIGIOSA


Ninguém sabia mais de inclusão religiosa do que os marketeiros dos anos 40: um simpático BAPHOMET era símbolo de uma das cervejas da Antarctica. (15/09/2019)

JORGE FERNANDO

Com Jorge no Procópio Ferreira, em 1991. Cláudia Raia estava em cartaz com
"Não Fuja da Raia", dirigido por Jorge.

"Guerra dos Sexos": Paulo, Fernanda, Tarcísio,
Maitê Proença e Mônica Figueiredo
O que sempre admirei em Jorge - assim como todos - foi sua energia. Não tinha nem trinta anos e já dirigia novelas de Janete Clair e Manoel Carlos. Em 1983 dirigiu Guerra dos Sexos, de Sílvio de Abreu, encarando com naturalidade o desafio de dirigir o primeiro encontro artístico de dois tótens como Paulo e Fernanda (e de quebra, Tarcísio e Glória). Sucesso sem precedentes. Em 86 veio Cambalacho, também de Sílvio, desta vez com Guarnieri e Fernanda. Mais sucesso. Entre 87 e 89 acredito que ele alcançou seu auge, dirigindo duas das melhores novelas brasileiras de todos os tempos, ambas do mestre Cassiano Gabus Mendes: Brega & Chique e Que Rei sou eu?

"Cambalacho": Fernanda e Guarnieri
Depois disso não havia muito o que dizer: Jorge encerrava a década de 80 com trinta e cinco anos e o status inegável de melhor diretor de novelas da televisão brasileira. Ele participou de algumas peças como ator e fazia um espetáculo solo chamado Boom, mas confesso que senti falta de vê-lo em algo sério, sendo dirigido por alguém tão competente quanto ele. Sabemos que Jorge tinha aquela persona artística fulgurante, barulhenta e divertida, e por isso mesmo teria sido interessante vê-lo quebrar isso ao meio e interpretar algo diferente. Acredito que talento para isso não lhe faltava.

"Que Rei sou Eu?": Constelação
Vê-lo em Boom ou em entrevistas era gostoso, não havia como não se contagiar por sua eterna empolgação, por aquela figura tão teatral, sempre ligada em 220. De vez em quando, entretanto, me causava uma certa agonia. Jorge era gordo, não parava, dava cambalhotas, ficava vermelhíssimo e aquilo ocasionalmente me fazia pensar em sua saúde. Trabalhava sem parar. Era uma panela de pressão. Mas nunca pensei que algo lhe aconteceria. Nos últimos quinze anos ele se acalmou, seguiu dirigindo mas deixou de lado os antics, as macaquices e as excentricidades da década de 90.

Soube acidentalmente, pelo Instagram, da pancreatite e do AVC. Me chocou profundamente ver sua foto depois do derrame. Esquálido, mas com o sorriso firme e forte, no rosto. Nos comentários, o desespero de uma fã: "Por favor cuide-se! Precisamos de você!"

Uma força da natureza. Não consigo imaginá-lo "descansando" em paz. Onde estiver, espero que seja o mesmo de sempre, fulgurante, barulhento e divertido, em paz. (28/10/2019)

MARIE FREDRIKSSON


Dia funesto. Marie Fredriksson subiu aos céus, aos 61 anos, depois de longa batalha contra o câncer. O show do Roxette no estacionamento do Anhembi, em 1992, é das lembranças mais doces, mais cálidas e que mais fazem transbordar meu coração de saudade daquela época. Uma noite amena, gostosa, ao ar livre, e todos nós cantando com eles cada um daqueles sucessos que tornaram Marie e seu amigo Per Gessle famosos, prestigiados e amados no mundo inteiro.


Marie e o parceiro de Roxette, Per Gessle
Olhando para trás e ouvindo - como faço até hoje - os cds da dupla, penso que o Roxette tinha um segredo muito simples: era entretenimento puro. No melhor sentido. Músicas excepcionais, boas vibes, grande talento e pura alegria. Difícil ver algo tão saudável no meio musical. Baladas como "Listen to your heart", "It must have been love" e "Spending my time" não eram particularmente originais, revolucionárias ou engajadas. E não precisavam ser nada disso. Porque eram BOAS. Boas demais. Agradavam todo o tipo de público. Assim como a leveza de "Joyride", o refrão magnético de "She's got the look", e bobagens adoráveis como "How do you do".

Será coincidência que o Roxette de vez em quando me faz lembrar do ABBA, seu primo mais rico e mais velho, também sueco? Talvez porque são a quintessência do entretenimento; algo que é tão bom e tão prazeroso, que toca tão fundo o coração de quem ouve, que não há nada que possamos associar a eles a não ser felicidade.

Lamento. A música perde. O mundo perde. (10/12/2019)



RAMBO - LAST BLOOD (2019)

Os dois primeiros Rambos são marcas fundamentais de minha adolescência e considero que ambos são ótimos filmes de ação. O segundo invade uma área mais apelativa e patrioteira, do soldado que vai vencer sozinho a guerra que os americanos perderam, mas contou com um elemento de romance que deu inesperadamente certo, na inclusão da doce e trágica Co Bao (a inigualavelmente linda Julia Nickson), e o sucesso financeiro foi astronômico. O terceiro envolveu a dominação soviética no Afeganistão e lançou mão de artifício muito típico do cinema americano na década de 80, de colocar os russos como o mal encarnado. Stallone, aliás, era useiro e vezeiro da prática, que aplicava com precisão cirúrgica para comover seus compatriotas. Neste caso, o público considerou o filme um Rambo II requentado, o sucesso foi raso e a franquia chegou ao fim.

Vinte anos depois, em uma onda de reviver aos sessenta anos os personagens que fez quando tinha trinta, Stallone ressuscitou a franquia e dirigiu o quarto Rambo. A história se passa na conflagrada e devastada Burma (a antiga Birmânia, hoje Myanmar), e o velho soldado vai resgatar missionários que tentavam levar remédios e religião ao sofrido povo da região. A violência tem outro tom; o roteiro de Stallone pode ser ingênuo e maniqueísta como sempre, mas as mortes agora são mais pesadas e sangrentas. Não é um filme ruim. Apenas não precisava existir. Tudo o que soldado representava e tinha a dizer já ficara sobejamente claro nos dois primeiros filmes. O que se viu ali foi unicamente um agrado aos fãs da série.

Este ano Stallone dirigiu o quinto Rambo. Ele está com 73 anos. Sim, ele está bombado e mandou ver nas plásticas e no cabelo, mas, curiosamente, não é esse o calcanhar de Aquiles do filme; (spoilers - quem ainda não viu e não quer saber o que acontece deve parar de ler aqui) o que, a meu ver, faz naufragar o mais novo episódio da vida lascada de John Rambo é que esta é uma trama eminentemente urbana. O primeiro filme não é nas selvas de um país asiático mas a maior parte da ação se passa em uma floresta. Ele só chega à cidade no fim do filme. Agora, Rambo tem que resgatar uma sobrinha (ou coisa que o valha) de um cartel mexicano que rapta e prostitui meninas, além de torná-las viciadas em drogas. É terrível; em seu primeiro confronto com os bandidos, ele não precisa nem ser pego, porque caminha espontaneamente em direção a eles e leva uma tunda de criar bicho. Ou seja, o soldado de pavio curto, forte, mestre em concatenar planos de última hora e em tirar leite de pedra, não faz nada, apanha e durante sua recuperação ele dá aos bandidos tempo de sobra para liquidar sua sobrinha. Em outras palavras, Rambo era incomparável no meio de matas inexpugnáveis, fugia das mais sofisticadas emboscadas, vencia os mais violentos combates com armas capazes de pulverizar uma cidade, mas não consegue fazer o trabalho de um simples policial.

Entramos no segundo problema: a sobrinha morre em decorrência dos abusos que sofre. É uma ducha de água fria que quase me fez parar de ver o filme ali mesmo. Não sei o que passou pela cabeça de Stallone para derrapar tão feio na evolução da história. Talvez o excesso de personagens idênticos que tem feito nos últimos anos (Barney Ross em Os Mercenários, Ray Breslin em Rota de Fuga ou James Bonomo em Alvo Duplo) ou o cabelo estranhamente curto e bem penteado tenham confundido Stallone sobre o cerne do personagem; Rambo não é apenas a vingança dos oprimidos ou o braço forte da lei; ele é uma prevalência quase mítica, divina, do bem sobre o mal. É o homem que vence guerras sozinho. A catarse só pode ocorrer se o bem prevalecer intacto, como no caso dele próprio, no primeiro filme, dos prisioneiros americanos no Vietnã, no segundo (onde se lamenta imensamente, mas pelo menos entende-se e permite-se a morte colateral e dramática de Co), seu comandante no terceiro e a principal das missionárias no quarto.

Com a morte da sobrinha o filme perde o eixo e vira uma história manjada de vingança. Ele mata um dos sequestradores no México e atrai todos eles para o sítio onde vive. Transforma o lugar em uma usina de armadilhas - outro artifício já utilizado em inúmeros filmes, incluindo Esqueceram de Mim - e mata todos eles de forma metódica e sádica. No fim ninguém fica feliz. Os bandidos morrem mas Rambo perde a sobrinha que lhe trazia alegria e uma razão para seguir vivo. Não existe aquela sensação tênue de esperança que há no fim de todos os outros. Este é uma desgraceira do início ao fim.

Julia Nickson: maravilhosa e estupidamente esquecida

Para concluir, nos créditos há uma montagem de cenas dos cinco "Rambo", sinalizando que a série chegou mais uma vez ao fim (considerando que no quinto "Rocky" também havia montagem semelhante, e depois disso ainda houve um "Rocky" e dois "Creed", não há rios de credibilidade). Cometeu-se um último crime: deixaram Co Bao de fora. A maravilhosa personagem, cujas últimas palavras foram justamente "Do not forget me", acabou esquecida pelo idiota que juntou as cenas. (25/12/2019)

EMMA (1996, 2009, 2020)


A Emma de Gwyneth
Minha impressão sempre foi de que assim que se iniciou a produção de Emma com Gwyneth Paltrow - roteiro e direção de Douglas McGrath a partir do livro de Jane Austen - a A&E e uma pilha de produtoras inglesas imediatamente se mobilizaram para produzir seu próprio Emma televisivo, pegando carona no filme de McGrath. Não estavam errados; Gwyneth atingira em cheio o coração do público com seu papel trágico em Seven e as portas do protagonismo hollywoodiano estavam escancaradas para ela. A atriz lutou pelo papel de Emma e a fim de consegui-lo chegou até a trabalhar em uma comédia idiota, The Pallbearer (veículo exclusivo para David Shwimmer, na época famosíssimo com o seriado Friends), que o estúdio lhe impôs como condição para protagonizar Emma.

De uma forma ou de outra, McGrath - geralmente roteirista, ocasionalmente ator e de vez em nunca diretor - fez um belo filme. Gwyneth estava no auge de sua beleza e de sua juventude (24 anos), e o elenco incluía valores ascendentes como Jeremy Northam, Alan Cumming e Toni Collette, roçando ombros com estrelas consumadas como Greta Scacchi. É uma comédia romântica leve e agradável, e acabou indicada a dois Oscar (Música Original e Figurino; levou o primeiro).

A Emma de Beckinsale
A produção televisiva, por sua vez, esteve longe de ser ruim; o diretor Diarmuid Lawrence (1947–2019) tinha considerável experiência dirigindo séries e novelas e chamou o competente roteirista Andrew Davis para adaptar o livro de Jane. O papel-título foi para Kate Beckinsale, ainda um diamante bruto aos 23 anos, mas começando a despontar no firmamento cinematográfico. A exemplo do filme de McGrath, o elenco desta produção traz grandes valores em início de carreira, como Mark Strong, Samantha Morton e Olivia Williams. Com um orçamento bem menor, sem a beleza estética ou o timing de comédia da produção hollywoodiana, é um filme perfeitamente passável e, em sua simplicidade, encaçapou dois Primetime Emmys (Direção de Arte e Figurinos). A versão de Gwyneth alcançou os cinemas em outubro de 1996, e o filme de TV foi transmitido no mês seguinte. Depois de duas adaptações encavaladas no mesmo ano, Emma ficou no vinagre até 2009, quando a BBC decidiu transformar o livro em uma minissérie de quatro capítulos (coisa que a própria BBC já havia feito em 1972, sem grande repercussão) com Romola Garay no papel-título. 

A Emma de Romola
E em fevereiro de 2020 estreou uma nova versão cinematográfica com Anya Taylor-Joy no papel-título, dirigida por um sujeito chamado Autumn de Wilde e com roteiro da igualmente desconhecida Eleanor Catton.

Tenho uma opinião semelhante em relação a estas duas últimas produções: são muito boas, em termos gerais estão no mesmo nível de excelência dos filmes produzidos em 1996, mas, acima de tudo, não havia nenhuma necessidade de produzi-las. Romola Garay e Anya Taylor-Joy são ótimas. São lindas, talentosas e carismáticas mas não trazem rigorosamente nada de novo ao que já vimos anteriormente. As versões de Gwyneth e Kate ainda estão frescas em nossa memória, são filmes bem-feitos, modernos, não são datados e não estão ultrapassados, e a simples verdade é que quem quer conhecer "Emma" poderia recorrer aos dois filmes que já existem (O mesmo, aliás, se aplica de maneira berrante ao pretensioso e soporífero remake de Little Women estreado no ano passado, dirigido e roteirizado por Greta Gerwig).

Sobre esta nova versão, ressalto que a escolha do elenco tem mais acertos do que erros. A Harriet de Mia Goth é excelente. Se não for a melhor, nada fica a dever às atrizes que já interpretaram esse papel. Também maravilhosa é Amber Anderson no papel de Jane Fairfax. Josh O'Connor é perfeitamente asqueroso como Elton, e assim por diante. Bill Nighy está ligeiramente deslocado no papel do pai de Emma, mas não compromete. A maior de todas as minhas objeções é à escolha do inexpressivo e medíocre Johnny Flynn para o papel seminal de Knightley. O amigo/pretendente de Emma foi feito brilhantemente por atores como Jeremy Northam e Mark Strong e a performance de Flynn é fraca. Sem falar que quando põe a cartola vira o próprio Visconde Sabugosa do saudoso André Valli.

No mais, Anya Taylor-Joy precisaria livrar-se um pouco da expressão de eterna desconfiança e medo que caracteriza a maior parte de seus trabalhos, e assumir a personalidade exuberante e descontraída de Emma. Ela poderia sorrir, de vez em quando. Seu rosto élfico, não obstante, é hipnótico e é muito difícil tirar os olhos dela.

Recomendo, mas sempre lembrando que estas duas últimas produções não precisavam existir. (22/03/2019)

SERGIO (2020)

Greg Barker é diretor de documentários, dirigiu um documentário sobre Vieira de Mello há uns dez anos e agora veio este filme sobre os meses que antecedem a morte do diplomata brasileiro.

Me veio à mente o filme Neerja (2016), em que Sonam Kapoor interpreta a aeromoça Neerja Bhanot, que morreu para salvar 359 pessoas em um vôo seqüestrado por terroristas, em 1986: amo Sonam Kapoor mas o filme não precisava existir. Já sabemos o início, o meio e o fim. Não são tantas as pessoas de vida pública que precisam virar filme; no mais das vezes, um bom documentário é mais do que suficiente.

É certamente o caso de Vieira de Mello. Entretanto, existe aqui um pequeno plot twist: nos funerais do diplomata, quem recebeu os pêsames foi sua esposa de direito, Annie Vieira De Mello. Só que hoje é público e notório que Annie e Vieira estavam em um processo ácido e não-amigável de divórcio fazia tempo, e quem de fato vivia maritalmente com o diplomata há quatro anos (ocupando um cargo, aliás, no mesmo escritório das Nações Unidas em Bagdá), era a jovem argentina Carolina Larriera. Ela passou os anos seguintes sem se manifestar, embora tivesse todo o apoio da mãe do diplomata. Recentemente a justiça brasileira lhe deu ganho de causa, reconhecendo a união civil de ambos, sendo ela, portanto, a verdadeira viúva de Vieira.

Vieira e Moura

É a única coisa que impede o filme de Greg Barker de naufragar na redundância. E paradoxalmente, aquilo que o torna ainda mais chato e soporífero, porque conquanto seja uma belíssima figura de nossa diplomacia e um homem distinto e justo, a vida sentimental de Vieira não tem (ou não deveria ter) qualquer relevância para o público. Não há nenhuma necessidade de invadir um terreno inteiramente pessoal, dentro de uma história de guerra e geopolítica. E a cada cinco minutos do filme somos obrigados a presenciar alguma ceninha brega de romance entre os dois.

Wagner Moura não tem nada a ver com Vieira e sua interpretação é careteira e over. Sendo ele e Rodrigo Santoro os únicos atores brasileiros chamados para qualquer coisa em Hollywood, neste caso sou parcial a Rodrigo, que com a maquiagem certeira, ficaria bem parecido com Sérgio. Ana de Armas está ok.

Enfim, um documentário estaria de bom tamanho.

Típico filme feito em meio a quinhentos outros, pela Netflix. (19/04/2020)

KIRAWARE MATSUKO NO ISSHÔ (2006)

Matsuko está sempre procurando o amor de seu pai, mas sente que ele dedica toda sua atenção a Kumi, a filha doente. Como resultado, ela passará o resto de sua vida procurando amor nos lugares errados. Na escola em que trabalha, é demitida por tentar proteger um aluno que roubou dinheiro. Ela deixa sua família e foge da cidade. Nos próximos trinta anos, Matsuko não fará nada além de escolher o que é pior para ela. Empregos humilhantes, relações abusivas e incontáveis ​​homens que a espancam e ela os perdoa.

A história toda é um melodrama que quer nos forçar a sentir pena de Matsuko, mas eu não consegui. Ela é burra demais. Uma coisa é ter problemas de rejeição paterna e outra, bem diferente é cometer o mesmo erro idiota duzentas vezes, mesmo quando o destino oferece a ela uma segunda chance atrás da outra durante décadas. Matsuko se afasta das boas amigas, foge esquizofrenicamente de sua irmã doce e amorosa e basicamente rejeita todos que podem fazer algum bem a ela. Esse tipo de historinha brega pode até funcionar bem em novelas mexicanas. No filme, é uma falha incontornável.

Kiraware Matsuko no isshô é excelente em termos de direção, elenco e produção. A narrativa é muito bem trabalhada. Mas falha miseravelmente na própria história, que é superficial e apelativa. Bom exemplo disso é a cena final, tão bonitinha e colorida quanto piegas e vazia, na qual Matsuko encontra sua irmã no céu e faz o que poderia ter feito uma dúzia de vezes enquanto ambas estavam vivas. (19/04/2020)

1900 (1976)

(A quarentena me levou a revisitar filmes que assisti há muitos anos e começam a sumir de minha memória, e outros - como este - que eu não assistira até agora, por uma razão ou por outra. Submeti esta crítica a um famoso site cinematográfico mas ela foi rejeitada. Certamente por duas razões: 1) Eu não fui exatamente diplomático em meu comentário, embora a versão que eu mandei a eles não contivesse palavrões. Aqui o texto vai sem cortes; 2) Eu estou falando a verdade nua e crua sobre o filme, e nada que já não seja sabido por qualquer cinéfilo.)

I wonder ... two hours into one of the stupidest, most pretentious and pointless pieces of garbage I've ever come across, did I actually see De Niro and Depardieu in full frontal nudity having their limp dicks wanked by some unfortunate actress?? It can't be...

If the question "What the fuck did I just watch??" was ever in order, it is desperately in order right now.

"1900" is like "Caligula" but much worse. MUCH worse. Bertolucci - who had about as much talent (and political savvy) as Tinto Brass but somehow managed to con Hollywood into thinking he was a bold art-house filmmaker through such filth as "Last Tango" and the likes of it - put together a movie where a pig gets slaughtered, a young girl tries to masturbate Burt Lancaster, kids show their penises to each other, horse manure is spread on Donald Sutherland's face and so on. No wonder De Niro doesn't even mention this. The movie that is supposed to be about the rise of fascism is actually a snuff film.

I don't even know what to say ... what the hell is this?? How does a five-hour shit show like this gets an approval by any studio? True masterpieces have been butchered by studio executives for having more than two hours but this hot mess gets to run over five?? The lead actors are pathetically miscast: De Niro is as dull and out of place as he can be while Depardieu - one of my favorite actors, btw - barely speaks and acts like a monkey the whole time; everyone is dubbed, direction is nill, Morricone's score sucks, one of the screenwriters is - surprise! - Bertolucci's brother, the so-called political message is shallow or flat-out wrong!...

This is the biggest sham in movie history. Thank God I didn't pay to see it and stopped after two and a half painful hours. To summarize it, in the words of the immortal Don Rickles: "18 hours of crap!"

RICKLES E OUTROS, LEGENDADOS

DON RICKLES E LARRY KING (1985)



Esta foi a primeira de muitas entrevistas dadas por Rickles no programa de Larry King. E certamente a mais engraçada. Os dois se conheciam há quase 30 anos e Larry - eternamente inclinado, com sua cara de sapo, seus óculos gigantes e seu suéter esquisito - não poderia deixar de ser um alvo perfeito para a metralhadora verbal de Rickles.

O que vemos nesta entrevista não é apenas o talento habitualmente superior de Rikles para o improviso e para os melhores sarros de todos os tempos, mas um Larry King vencido, gargalhando às casquinadas de seu próprio roast.

Humor da melhor qualidade, como evidentemente não se vê mais. (02/03/2020)

RICKLES ROASTS REAGAN (1973)



O programa de Dean Martin tinha um "roast" semanal que se tornou célebre, trazendo as maiores estrelas de Hollywood, da música, da política, do esporte e de qualquer área cujos membros estivessem dispostos a rir de si mesmos em rede nacional. Era um deleite.

Em setembro de 1973, a vítima foi ninguém menos do que o governador da Califórnia e ex-ator Ronald Reagan, que mais tarde seria presidente por dois mandatos. Don Rickles não pega leve, não dá tréguas, e protagoniza mais um de tantos momentos memoráveis em sua carreira. (31/03/2020)

RICKLES ROASTS BOB HOPE (1974)



Don Rickles participa do "roast" de Bob Hope em outubro de 1974, com apresentação de Dean Martin e presença dos convidados James Stewart, Jack Benny, Omar Bradley, Phyllis Diller, Milton Berle, Neil Armstrong, Billy Graham e Ronald Reagan, entre outros. O comeback de Dean é antológico, assim como a reação de Rickles às vaias que recebe quando faz uma piada com Sugar Ray Robinson. Imperdível.

WOODY ALLEN ROASTS DIANE KEATON (2017)



Diane Keaton foi homenageada na 45º prêmio do AFI e quem apareceu no fim da cerimônia para entregar-lhe o prêmio foi seu ex-marido Woody Allen. Ele faz um discurso brilhante, como sempre, e diverte o público rememorando histórias de sua colaboração artística e romântica com Diane.

No fim de seu discurso há um easter egg que arrepiou os cabelos dos mais sensíveis. Vejamos se vocês encontram. (20/04/2020)

SIDNEY POITIER RECEBER OSCAR HONORÁRIO (2002)



O ator Sidney Poitier recebe um Oscar honoráro na cerimônia da Academia, em 2002, das mãos de Denzel Washington e do produtor Walter Mirisch.

BILL MAHER E OS "WET MARKETS"


Sou admirador confesso e incondicional de Bill Maher há muitos anos e é com prazer que o vejo se superando a cada semana, em seu programa da HBO, na ingente tarefa de trazer uma palavra de humor, inteligência e sobriedade ao público televisivo norte-americano.

Transmitindo seu programa semanal diretamente de sua casa desde o início da pandemia, ele é obrigado a trabalhar sem o público, cujas reações são sempre tão importantes para artistas que, a exemplo dele, iniciaram suas carreiras como stand-up comedians. As gargalhadas podem até fazer falta, mas o conteúdo de seus monólogos continua absolutamente perfeito e imbatível.

Seus comentários sobre o Corona Vírus em todas as suas ramificações são irretocáveis. No dia 24 ele falou sobre a relação perversa, criminosa e doentia que temos com os animais. Ele já falara sobre os chamados "wet markets" chineses - uma mistura dantesca de mercado de peixe e açougue, onde animais são vendidos vivos ou mortos para serem consumidos. Já há consenso de que o Corona provavelmente surgiu pelo consumo do maravilhoso (e prestes a ser extinto) Pangolim, e essas sucursais do inferno, onde animais são torturados todos os dias com plena sanção da lei, estão longe de serem fechados.

A questão levantada por Maher é que as atrocidades cometidas nesses "wet markets" não estão nem um pouco distantes daquilo que se faz normalmente em granjas, fazendas de gado bovino, suíno ou qualquer outro e, em geral, na indústria pecuária, onde os animais são brutalizados e submetidos aos piores e mais desumanos maus tratos que possam ser imaginados.

Ele também fala de uma porcaria da Netflix chamada "Tiger King", sobre um imbecil qualquer que tem um tigre, ou coisa que o valha (graças a Deus nunca perdi meu tempo com esse lixo), e faz colocações certeiras sobre o quanto acabamos sendo coniventes com tudo isso. Mais do que tudo, mostra algo que já deveríamos ter percebido: a miséria a que submetemos os animais está finalmente voltando para nós.

Assistam.
Compartilhem. (25/04/2020)



DANIEL AZULAY


Não sabia que você estava com leucemia, Daniel... porque teus videos e tuas aparições desde que te reencontrei na internet, faz uns três anos, foram repassadas da felicidade retumbante, colorida e coberta de algodão doce que eu já conhecia desde a minha infância. Infância que você tornou melhor, mais criativa, mais lúdica.

Você só me deu bons exemplos, lições valiosas de bom senso, de civilidade, de comportamento, além do incomparável enriquecimento artístico. Comecei a desenhar por causa do teu programa. Teu talento inspirou a todos nós. O teu bom humor, a tua paciência e a maneira divertida com que você se comunicava com as crianças instilaram calma e gentileza ao nosso temperamento. Melhoraram nossa relação com a escola, com nossos colegas e nossos afazeres.

Você foi nosso amigo. O teu sorriso era o sol brilhando sobre todos nós. Você foi a manhã ensolarada e radiosa das nossas vidas.

Não sabia que você lutava contra um câncer... mas pra falar a verdade, eu não sei de nada. Não sei por que os melhores tem que ir antes. Por que um anjo como você tem que sucumbir ao câncer e ao corona. Por que você não foi aclamado, respeitado e festejado como o artista admirável que mudou vidas para melhor, influenciou beneficamente milhões de crianças e transformou o mundo em um lugar menos amargo e mais construtivo.

Eu não sei de nada.
O que sei é que beijo as tuas mãos e te agradeço de joelhos pelo que você fez por mim.

Muito, muito obrigado. Eternamente.

Deus te receberá de braços abertos. (28/03/2020)

MORAES MOREIRA

O encontro com esse meu ídolo maravilhoso, a quem adoro e admiro há quase
quatro décadas (Casa das Rosas, 09/12/2016)

Assisti Moraes pela primeira e única vez em dezembro de 2016. Ele faria um show e uma tarde de autógrafos para seu livro Poeta Não Tem Idade, na Casa das Rosas. Terminado o show, fui um dos primeiros a levar meu livro para receber seu autógrafo. Ele estava um pouco aperreado com a confusão que se criou entre o fim do show e o lançamento do livro, mas não dei a menor atenção a isso. Me aproximei e disse aquilo que há muitos anos desejava dizer a ele: "Moraes, antes de qualquer coisa quero te agradecer de coração, porque a tua obra melhorou a minha vida". Pego de surpresa, percebi nitidamente como seu semblante se suavizou e ele me disse, cheio de bonomia: "Ôôô, meu querido... muito obrigado... que alegria saber disso". Beijei-lhe a mão e despejei-lhe mais mil elogios, ressaltando a importância de Lá vem o Brasil descendo a ladeira e Bazar Brasileiro em minha cultura musical. Acima de tudo, quis que ele soubesse como sua música me fez bem. E esse segundo de eternidade, com Moraes, não esquecerei nunca.

Chegando em casa comecei a escrever um texto para o blog, que seria sobre os dois LPs e minha admiração por Moraes. Sem me espraiar em exegeses sobre sua obra ou seu papel de protagonista na MPB dos últimos cinqüênta anos. Preferi algo simples e devotado, na linha do que costumo fazer, ou seja, uma análise fundamentalmente sentimental. Pensava até em aumentá-lo e incluir uma parte sobre Guilherme Arantes, outro de meus primeiros ídolos. Terminei o texto sobre Lá vem o Brasil descendo a ladeira e deixei-o parado, pretendendo retomá-lo em breve. Não o fiz, e no dia 13, para o absoluto espanto de todos nós, Moraes se foi. Ainda não consigo falar o que sinto sobre essa perda, mas publico desde já o que escrevi sobre o LP de 1979, prometendo para daqui a alguns dias o resto, que incluirei aqui mesmo.

_________________________________

Amante da boa música e sobretudo da música brasileira, minha mãe era freqüentadora assídua das duas lojas HiFi que havia no Shopping Iguatemi. Tinha seus artistas favoritos, mas aquele fim de década de 70 andava riquíssimo em termos de talento. Chico, Caetano, Gil, Gal, Elis, Bethania, Alcione, Tim Maia, Jorge Ben, estavam todos particularmente inspirados. Roberto e Erasmo brilhavam como nunca, naquele pós-Jovem Guarda. E o mesmo ocorria com os egressos dos Novos Baianos, cada um por seu lado, Baby, Pepeu e especialmente Moraes Moreira.

Sua carreira fora dos Novos Baianos ia de vento em popa e em 1979 ele lançou Lá vem o Brasil descendo a ladeira. Minha mãe, fã de Moraes desde a época dos Baianos, comprou a fita na HiFi. Eu, com sete anos, já praticamente destruíra as fitas da Ópera do Malandro, de Chico, que ela comprara o ano anterior, e me encantei com Moraes desde o primeiro contato. Amei as onze músicas da fita. Sem exceção. Da primeira à última, todas escreveram páginas do livro de minha curta vida, até aquele momento, como sói ocorrer com as músicas que ouvimos em nossa infância (razão pela qual os pais deveriam se preocupar mais com aquilo que seus filhos escutam, nessa idade).

A canção-título, "Lá vem o Brasil descendo a ladeira" (Moraes/Pepeu), sambão de cadência mansa e gostosa, era impossível parar de cantar. Eu ouvia ali pela primeira vez coisas como "a todos mostrava naquele momento, a força que tem a mulher brasileira" e descobria o que significava "o equilíbrio da lata, não é brincadeira". Só muito mais tarde fui conhecer a explicação de Moraes para essa letra, criada a partir de uma visita de João Gilberto ao sítio dos Novos Baianos.

"Pelas Capitais" (Moraes/Jorge Mautner) é um frevo bem humorado e divertido, perfeito para uma criança aprendendo geografia e reconhecendo na letra cada uma das capitais brasileiras. "Eu sou o Carnaval" (Moraes/Antônio Rizério) me introduziu à baianidade fundamental de Moraes, embora naquela época eu não conseguisse entender quando ele dizia coisas como "eu sou o pierrot e a colombina de Ubarana-Amaralina que alucina a multidão", ou o maravilhoso refrão em dois movimentos, que diz "toda a cidade vai navegar no mar azul badauê, fazer tempero, se namorar na massa, no massapê" e em seguida, "baba de moça no carapuá, ganzá, bongô, agogô, pirá". Era ininteligível como poesia, mas contagiante, delicioso como música e ritmo.

Moraes e Fausto Nilo

"Coração Nativo" (Moraes/Armandinho/Fausto Nilo) e "O Prometeu" (Moraes/Cícero Lima, que suspeito ser o poeta Antônio Cícero, primo da então esposa de Moraes) tinham letras para mim incompreensíveis, rasgos de poesia pessoais demais para serem decifrados por uma criança de sete anos. Era divertido cantar com Moraes versos como "oh! que mar sereno ou vendaval, oh! que céu moreno ou coqueiral, oh! que azul veneno eu vejo em ti, nativo coração de lata"; também me dava prazer entoar o reggae "já esperei meu prometeu, no céu da terra se perdeu, no fogo luz do nosso amor, o céu com a terra se encontrou". O que Moraes e os letristas pretendiam transmitir com tudo isso, só fui descobrir quase quinze anos depois. Mas, novamente, como música, como arranjo, movimento, cavaquinho e sanfona, o reggae da Bahia, aquilo era perfeito. Nada que não se pudesse esperar de um LP cujos arranjos foram feitos por Moraes em parceria com Pepeu Gomes e Armandinho. Três gênios, e nada menos do que isso.

Moraes e Armandinho

Moraes e Pepeu

"Som Moleque" (Moraes/Fausto Nilo) era das minhas preferidas. Adorei tudo, o ritmo, a melodia, a guitarra no estilo de trio elétrico, a mistura do metal com os violinos, a cuíca, o clima de praia no fim de tarde... "Eu acho é pouco, batuca quem não tá moco, maluco quebrando coco, liso, leso muito louco, com o peso no coração, eu não". Uma delícia de samba-rock. O lado 1 terminava com puro prazer. O lado 2 começa com uma verdadeira obra-prima: "Valentão" (Oswaldinho/Moraes), que conta a história de um sanfoneiro que não perdia vaza "pra justificar sua fama de ser valentão", o que acaba em um duelo onde mata e é morto por um viajante. No início da canção ele diz que "era fã de um sanfoneiro, sanfoneiro bom. Que não era o Mário Zan, mas era, com certeza, dentre todos o melhor daquela redondeza", o que me levou a perguntar a minha mãe quem era Mário Zan, de quem me tornei grande admirador. O duelo, mesmo, é o de sanfonas, no meio da canção. Inesquecível. E uma das poucas faixas em que a música aparentemente não é de Moraes. Neste caso, é do grande Oswaldinho do Acordeon, na época um garoto de vinte e quatro anos.

Moraes e Abel Silva
"Chão da Praça" (Moraes/Fausto Nilo) é outra obra-prima. É um frevo lento que eu identificava, em criança, como tendo quatro movimentos; o primeiro em que fala "meu amor, quem ficou nessa dança, meu amor, tem pé na dança. Nossa dor, meu amor, é que balança, nossa dor, o chão da praça". O segundo suavizava a melodia, explicando: "Vê que já detonou som na praça porque já todo pranto rolou, olhos negros cruéis, tentadores, das multidões sem cantor". O terceiro - primeira parte do refrão - se iniciava com o frevo lento: "Eu era menino, menino, um beduíno com ouvido de mercador. Lá no oriente tem gente com olhar de lança na dança do meu amor", culminando com o ápice: "Tem que dançar a dança, que a nossa dor balança o chão da praça". Um banho de música, que me traz recordações de tanta coisa daquela época. E uma das favoritas de Caetano Veloso.


Na seqüência vinha a balada "Feito Muhammad Ali" (Moraes/Abel Silva), que me encantava pela solo de guitarra elétrica e pelo refrão fácil, mas que até hoje não compreendo muito bem, a não ser para dizer que parece falar de uma bailarina e há piadas que devem ser pessoais, como "e a língua bem ferina", que destoa do resto e me faz boiar até hoje. Mas amo a canção, sabia quem era Ali por lembrar vagamente de uma luta sua que assisti no ano anterior (com Leon Spinks) e acho engraçadíssimo porque sempre o ouvi dizer "meu amor querer bailar feito Môrramadalí". "Choro Pequenino" (Moraes) é a celebração da ecleticidade de Moraes; até essa faixa do lado 2 já passáramos pela sanfona e pela guitarra elétrica. Era hora do cavaquinho, que seu filho Davi começou a cultivar, certamente, naquela época. Eu adorava cantar junto essa música porque ela é um desafio de dicção e de respiração: "Pegue bem depressa (pausa)... o cavaquinho e olhe cara com carinho nota por nota, anotar"... um samba-choro perfeito.

E a fita se encerra com "Assim pintou Moçambique" (Moraes/Antônio Rizério), mais um jato de baianidade de Moraes, com alguns versos que eram grego para mim, como "de Arembepe a Itapagipe, da Ribeira a Jacuípe, tudo é lindeza", outros que já ressoavam no meu incipiente discernimento poético, como "estrela de quinta grandeza, filha de mãe sudanesa, tudo é beleza", misturados a frases tão musicais, tão rítmicas, que parecem ser o som de um instrumento de percussão: "Fazendo um som no atabaque, trazendo axé pro batuque, cantando um samba de black. Assim pintou Moçambique, nesse tique, nesse taque, nesse toque, nesse pique". Magistral.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...