domingo, 29 de novembro de 2015

Pílulas Janísticas — 1

Compilação de publicações da página da biografia de Jânio Quadros no Facebook


VIDA DO LINCOLN DE CAMPO GRANDE


Não tanto uma biografia, mas talvez o primeiro livro escrito sobre Jânio. O que se chamava antigamente de "opúsculo". Para descer-lhe o sarrafo, já que na ordem do dia estava a eleição para governador (1954), e Jânio pretendia pular da prefeitura - onde estava há menos de um ano - para o governo.

O título faz zombaria com a já conhecida fascinação de Jânio com Lincoln e critica as alianças do mato-grossense, que vinha da campanha do "tostão contra o milhão" mas andava em lua-de-mel com políticos e empresários riquíssimos, como Auro Moura Andrade e Olavo Fontoura.

Se parasse no primeiro sub-título estaria perfeito, mas no segundo o autor - desconhecido - tropeça no mais baixo dos preconceitos, quando diz: "A Lincoln a história atribuiu por emblema um machado, instrumento de trabalho viril. O Lincoln de Campo Grande preferiu uma vassourinha, utensílio das empregadas domésticas. A diferença de instrumento exprime a diferença de caráter"...

Desnecessário dizer que Jânio venceu a eleição. Com o apoio da burguesia e do proletariado. Das domésticas e de seus patrões. (14/3/2014)

**********

SENNA E JÂNIO


Quem diria que este encontro realmente ocorreu? Não há especificação de data, mas imagino que tenha sido alguma comemoração do primeiro campeonato mundial de Ayrton, após a vitória no GP de Suzuka, em outubro de 1988.

Jânio deixaria a prefeitura pouco depois. Mas houve tempo para que duas figuras tão intensamente diferentes se encontrassem e fossem fotografados juntos por Vidal Cavalcanti, da Folha. (15/3/2014)

**********

JK, JQ, ULYSSES E... IVETE


Foto divertida do acervo do Globo mostra reunião política de 1957 ou 58, que uniu no mesmo palanque JK (com expressão hilária) presidente, Jânio governador e o bom Ulysses, na época deputado federal, ao microfone.

A curiosidade é que entre JK e JQ está Ivete Vargas, que na juventude era linda e que - dizem os coevos - foi cacho de ambos. Com Jânio a coisa era rápida e superficial. Por JK, entretanto, dizem que a sobrinha de Getúlio se apaixonou perdidamente. (16/3/2014)

**********

JÂNIO E CÂNDIDO RONDON


Exercendo o governo de São Paulo havia poucos meses, Jânio recebeu Rondon para uma homenagem. Co-estaduanos, tiveram um encontro emocionante do qual Jânio jamais se esqueceria, mesmo décadas depois da morte do grande marechal, ocorrida três anos após o encontro. A foto de Rondon tinha destaque especial no escritório do ex-presidente.

Disse-me um amigo que Jânio, no primeiro ano de sua vida, viveu na esquina da Rua Cândido Rondon com a Rua Pedro Celestino. Nunca pude confirmar a informação, mas vale registrar que a Rua 14 de julho, onde Jânio nasceu, tem esquina com a Rua Cândido Rondon. (17/3/2014)

**********

1954 - CAMPANHA PARA O GOVERNO


Pouco mais de um ano depois de vencer a eleição para prefeito, Jânio se candidatou ao governo. Seus adversários era Adhemar, Prestes Maia - com chances de vitória - e Toledo Piza na lanterna.

Nessa curiosa charge divulgada pela própria campanha de Jânio, os candidatos estão em uma corrida e Prestes Maia aparece agarrado ao pé do prefeito-candidato. E a razão é que os eleitores de Maia não desgostavam de Jânio mas também não achavam justo que ele usasse a prefeitura como trampolim para o governo. Viviam fazendo apelos aos eleitores de Jânio para que elegessem Maia governador e contassem com dois bons políticos no executivo: Maia no governo e Jânio na prefeitura.

Não houve acordo. Jânio foi eleito e Maia se elegeu prefeito em 1961. (18/3/2014)

**********

JÂNIO E PRESTES MAIA


Quando Jânio deixou a prefeitura, em 1954, levou o vice e deixou o cargo nas mãos do presidente da Câmara, William Salém. Convocada nova eleição, já que Jânio não chegara nem à metade de seu mandato, saiu vitorioso o adhemarista Lino de Mattos. Só que Lino era senador e a justiça eleitoral o obrigou a decidir entre um cargo ou outro. Lino não titubeou: ficou com senado, o que nos dá uma interessante dimensão do pouco valor dado ao cargo de prefeito. Subiu à prefeitura o seu vice, Wladimir Toledo Piza.

Terminado o mandato de Piza, os candidatos se apresentaram para a eleição de 1957: Adhemar (como sempre), Prestes Maia e Pedroso Horta, este em candidatura simbólica. Jânio, em gesto não habitual, visto que foram efetivamente poucas as vezes em que se envolveu em campanhas que não fossem suas, vestiu a camisa de Prestes Maia. Correu com ele o município e - contava o saudoso Farabulini Jr. - chegou a deixar um cartaz nos Campos Elíseos dizendo "Saio para enfrentar o cachorro", referindo-se a Adhemar.

Não houve prestígio janista que tirasse essa eleição de Adhemar, que venceu mas foi obrigado a governar, ele na prefeitura, Jânio no governo, pelos três anos seguintes. (18/3/2014)

**********

JÂNIO E ULYSSES


“Ele literato e eu poeta”, diria Jânio sobre Ulysses na década de 80, lembrando o fato de terem sido contemporâneos no Largo São Francisco. “Ele escritor, analisando teses jurídicas e eu decantando Gonçalves Dias”.

“Ulysses era um orador espontâneo, que podia discorrer sobre os mais variados assuntos”, segundo Octavio Augusto Machado de Barros, colega de Jânio, “e às vezes viajava conosco na qualidade de orador”. (Jânio, vol.I, pgs 140-141) (21/03/2014)

**********

JÂNIO E O 22 DE MARÇO


Em 22 de março de 1953 Jânio venceu a eleição do "tostão contra o milhão", derrotando o candidato oficial - apoiado por uma coligação de doze partidos - e tornando-se o primeiro prefeito eleito pelo voto direto desde a eleição de Pires do Rio, em 1928.

A eleição recebeu esse nome pela campanha de Jânio ter sido supostamente franciscana. Com o tempo se viu que não era bem assim. Ele evidentemente não contava nem com um décimo da máquina estatal ou de imprensa que trabalhava de sol a sol para eleger o pouquíssimo conhecido Francisco Antônio Cardoso. Mas tinha alguns financiadores de peso, como Olavo Fontoura e Toledo Piza, e ainda recebeu um dinheirinho por fora dado por Adhemar, que estava brigado com Lucas Garcez e não aprovava o nome de Cardoso.

Há quem diga que Getúlio também contribuiu para a vitória de Jânio, que trazia um getulista de carteirinha, Porphyrio da Paz, na candidatura a vice. Pode ser.

É data festiva para o janismo, há uma escola em São Paulo com esse nome, e Jânio para sempre se referiu a essa vitória como um dos grandes momentos de sua vida.

Acima, a capa de "O Malho" dois meses após a eleição. Já estava claro para o grande cartunista Théo (Djalma Pires Ferreira - baiano que veio cedo para o Rio e se tornou um dos maiores chargistas e caricaturistas do Brasil. Um verdadeiro gênio do desenho), que Jânio trabalhava com o populismo e o carisma, na época utilizados à larga por Vargas e Adhemar. (22/3/2014)

**********

JÂNIO E JK


Quanta verdade nessa charge de Appe (outubro de 1960)... se no Brasil está na moda os bandidos serem absolvidos em plena realização e efervescência de seus delitos, pior ainda quando se passaram décadas de sua morte.

JK está hoje, por N razões, envolto numa névoa de simpatia e saudade. Mas quem teve que pagar pelo açodamento, pela vaidade mórbida, pela corrupção desenfreada, pelo bizarro espetáculo de auto-promoção, pelo delírio megalomaníaco, enfim, pela rematada e absoluta estupidez de se construir em cinco anos uma cidade que deveria ter levado pelo menos quinze, não tem essa simpatia toda. (31/3/2014)

**********

JG, JQ e JK



Tanto se tem falado sobre os 50 anos do golpe de 64... aqui não entraremos em considerações de nenhum tipo sobre o assunto, a não ser para relembrar que os três JOTAS de nossa política foram cassados já em 1964.

Jango se exilou no Uruguai. JK tentou a Frente Ampla com Carlos Lacerda e Jânio acabou confinado por quatro meses em Corumbá, em 68.

Jânio e JK se encontraram algumas vezes na década de 70. A Manchete com Jânio na capa falando sobre os quinze anos da renúncia foi a revista que JK lia quando sofreu o acidente de automóvel que o levou à morte, em 1976.

Na foto, os três JOTAS na posse de Jânio na presidência. (08/04/2014)

**********

JÂNIO E TANCREDO


Hoje, pelo que vi, comemora-se o trigésimo aniversário do comício pelas Diretas Já no Rio, em frente à Candelária. Nada posso publicar sobre o assunto, porque a participação de Jânio nesse processo foi nenhuma. Matutando e meditando a melhor forma de agir dentro do episódio histórico, ele ficou indeciso durante tempo demais e perdeu o bonde das Diretas. Um grande equívoco. Sua ausência nas fotos que juntam Ulysses, Tancredo, Montoro, FHC e todos os líderes da resistência democrática é, como ele próprio diria, "nódoa" em sua história.

Para que a data não passe em branco publico esta foto de Jânio e Tancredo no Guarujá, em 1981, quando ainda se discutia a possível fusão do PP de Tancredo com o PTB de Jânio e Ivete Vargas. (10/04/2014)

**********

JÂNIO E OS CÃES


Não, não os cães com quem ele conviveu durante toda sua vida pública, mas os cães, mesmo, ou, como ele dizia, "nossos irmãos de reino".

Curioso que o assunto esteja tão em voga hoje. Nunca houve político que amasse mais os cães, sobretudo os vira-latas, do que Jânio. Desde a juventude. Amava-os, admirava-os, viveu cercado deles. (11/04/2014)

**********

JÂNIO E COVAS


Charge sobre a orientação janista de Mário Covas em sua candidatura
a prefeito de Santos em 1961

Neste 21 de abril Mário Covas faria 84 anos. Poucas pessoas sabem que foi Jânio quem o levou para a política. Conta Clóvis Rossi: "Foi Jânio, aliás, quem puxou Covas, então engenheiro da Prefeitura de Santos, para a política. Necessitava de uma jovem e promissora liderança e encontrou-a em Covas, a quem Saulo Ramos, fiel escudeiro do então presidente, convenceu a disputar a Prefeitura. Perdeu".

A admiração prosseguiu. Quando Jânio foi confinado pelo governo Costa e Silva, um dos deputados que estava no Guarujá junto ao ex-presidente no momento de sua prisão era Mário Covas. No futuro os dois terçariam armas algumas vezes, já adversários. Mas disso falarei em outro momento.

Na foto vemos reunião política em Santos, provavelmente em 1962, na qual reconhecemos em pé Esmeraldo Tarquínio e José Alves Parada (presidente do Clube Atlético Vila Henedina) e sentados um primeiro à esquerda que não reconheço, Mário Covas, Jânio, Faria Lima e Paulo de Tarso Santos. (21/04/2014)

**********

JÂNIO E SHAKESPEARE


Como deixar o mais shakespeariano de nossos presidentes de fora, no dia em que se comemoram os 450 anos de William Shakespeare? Aquele que citou Hamlet em seu discurso de paraninfo para os alunos do Dante?

"Com dez anos de idade ele me pôs nos ombros e me levou para Stratford Upon Avon, me mostrando o que era o gênio de Shakespeare", conta Tutu. Na foto, Jânio e Edwin Booth, este no papel de Hamlet. (23/04/2014)

**********

Jânio em pose mefistofélica (c.1960) (26/04/2014)




























**********

Na segunda prefeitura, procurando a São Paulo de sua juventude. (30/04/2014)

**********

1º de maio. Feriado... (30/04/2014)

**********

JÂNIO E O FUTEBOL


Jânio não dava a mínima para o futebol. Não foi um bom esportista na juventude (e nem em qualquer outra época) e não torcia para time nenhum. Anos depois de ingressar na política inventou que era um corintiano fanático, mas quem o conhecia sabia que isso não passava de conversa.

Sem querer via-se envolvido em questões futebolísticas; em 49 esteve no olho do furacão do famigerado projeto dos esportes, que pretendeu transformar parte do parque do Ibirapuera em um aglomerado de estádios; no ano seguinte ainda ocupava o cargo de vereador na copa brasileira de 50; em 53 e 54 seu companheiro de chapa foi Porphyrio da Paz, figura de proa do SPFC, do qual era fundador; e na foto, de 1960, recebe uma comissão de jogadores e profissionais do esporte que inclui Gersio Passadore, Belini, Djalma Santos, Gilmar Neves, João Havelange e o deputado Mendonça Falcão. (03/05/2014)

**********

ADHEMAR, NOVELLI E PAULO LAURO


Eis os políticos que Jânio encontrou em São Paulo quando se elegeu vereador, em fins de 1947: à esquerda, o "Leão de São Manoel" (embora nascido em Piracicaba), Adhemar de Barros, que voltava ao governo pelo voto direto depois de uma malfadada passagem pela Interventoria. No centro, seu vice, o ituano Novelli Jr., eleito pelo prestígio de seu sogro, o presidente da República Eurico Gaspar Dutra. E à direita, o prefeito nomeado por Adhemar para governar a capital (que ficou sem autonomia para eleger seu prefeito de 1928 a 1953): Paulo Lauro, advogado de Descalvado e primeiro prefeito negro de São Paulo.

O Volume II de "JÂNIO - VIDA E MORTE DO HOMEM DA RENÚNCIA" vem aí... (06/05/2014)

**********

JÂNIO E LACERDA


O corvo e a vassoura... começaram se amando, depois se odiaram, depois se amaram de novo, depois se odiaram, depois quase voltaram a se amar de novo...

Jânio diria, em 1982: "Na verdade foi ele quem provocou o 25 de agosto"... (20/05/2014)

**********

JÂNIO E ADHEMAR HÁ 60 ANOS


A eleição para o governo de São Paulo em 1954. Adhemar queria voltar para seu terceiro mandato, depois de brigar com seu pupilo Lucas Garcez. Jânio acabava de chegar à prefeitura mas percebeu que seu cacife eleitoral o levaria mais longe.

Por fora corria Prestes Maia e na lanterna vinha o ressentido Toledo Piza, que brigara com Jânio.

Jânio venceu.

ISSO foi uma eleição. (22/05/2014)

**********

JÂNIO, TIME E FATOS & FOTOS


Jânio não foi o primeiro político brasileiro a estampar a capa da Time. Antes dele vieram Júlio Prestes, Vargas, Café Filho, JK e até Oswaldo Aranha.

Mas a capa de Jânio, de 30 de junho de 1961, parece ser a mais conhecida e lembrada. A revista contratou Cândido Portinari, que pintou o retrato do então presidente a partir de uma famosa foto. A mesma que dois meses depois estampou a Fatos e Fotos que noticiou a renúncia de Jânio. (24/05/2014)

**********

DONA CLARICE


Clarice Quadros Dalledonne é prima de Jânio em primeiro grau, filha do irmão de Gabriel, Miguel Quadros, e irmã de meu querido e saudoso Seu Glaucus. O filho de seu Glaucus, Miguel, presenteou a tia com um exemplar do livro sobre Jânio, no qual ela figura como personagem, participante que foi, assim como Glaucus e seu irmão mais velho, Jacyr, de tantos episódios na vida do primo. E fez comentários repassados em generosidade que muito me orgulham, e me fazem admirar ainda mais essa testemunha ocular de tantos fatos importantes de nossa história:

"Recebi na quinta feira 28.mar.2013, a visita dos meus sobrinhos Miguel Quadros Neto e esposa, que presentearam a mim e ao meu caçula Fernando Quadros Dalledonne, com exemplares da biografia oficial do meu primo Jânio Quadros, ex Presidente da República. Um trabalho riquíssimo em informações fiéis à história, elaborado pelo pesquisador e historiador Bernardo Schmidt. Agradeço a todos vocês de coração. Um beijão".

"Estou relembrando as passagens da vida do meu primo Jânio, muitas delas vivenciadas por também por mim. Uma leitura que é a verdadeira "máquina do tempo". Obrigado ao Historiador Bernardo Schmidt pelo excelente trabalho, e ao meu sobrinho Miguel Quadros Neto por ter me presenteado com um exemplar com dedicatória escrita pelo autor. Já está catalogada no setor das obras especiais da minha biblioteca".

"Muito prezado Bernardo Schmidt, foi ótima a sua entrevista na edição de ontem do Programa do Jô por conta do livro sobre a trajetória do meu primo e ex Presidente da República, Jânio Quadros. Tive a honra e orgulho de acompanhá-la com o meu exemplar em mãos, a mim presenteado pelos meus queridos sobrinhos Miguel Quadros Neto e esposa, dedicado e autografado por você. Dei boas risadas com as histórias que vocês contaram. Fiquei agradecida também sobre a forma carinhosa ao narrar as experiências e dificuldades vividas pelo meu saudoso tio Gabriel e o seu consultório médico localizado na "zona nobre" de São Paulo. Vou aguardar com ansiedade as próximas publicações das suas pesquisas. Desejo-lhe muita saúde e paz. Bjs".

Dona Clarice, mais uma vez lhe agradeço a gentileza e a generosidade com as quais a senhora sempre me distingue. Falei do Gabriel mas gostaria de ter falado muito mais, sobretudo do bom Miguel, seu pai, e de tantas outras coisas. Mas haverá oportunidade, se Deus quiser. E nos veremos em breve quando for à Curitiba. Um grande beijo.

"Que bom que você tem planos de vir à Curitiba. Será um prazer recebê-lo. Assim terei a oportunidade de manifestar pessoalmente a minha admiração pelo seu excelente trabalho".
_______________________________________________________

Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia
Vol I: "Um Moço Bem Velhinho"
Bernardo Schmidt
Editora O Patativa
350 pgs ilustradas
R$ 30,00 (Frete incluso para todo o Brasil)

Compre através do e-mail editora.opatativa@gmail.com
______________________________________

Ver também:
______________________________________

domingo, 16 de agosto de 2015

Amigo Adorno

Vicente Adorno
No dia 10 de dezembro de 2013 alguém entra na minha linha do tempo e escreve: "Bernardo, muito legal o seu blog". Era Vicente Adorno, a quem eu não conhecia. Agradeci, nos adicionamos e fui fuçar seu perfil, onde encontrei jóia trás jóia de deleite cultural e sensorial.


Éramos irmãos espirituais e acabávamos de descobrir. Gostos semelhantes, temperamentos parecidos, a mesma empolgação e entusiasmo com a música, o cinema e o teatro... No dia 24 de dezembro, ou seja, duas semanas depois dele me abordar para comentar o meu blog, estou voltando de metrô não sei de onde, e em dada estação entra no trem um sujeito como eu, óculos, bermudão, camiseta, um livro debaixo do braço e se senta próximo. Olho bem para ele, penso, olho de novo... e não deu outra:

- Vicente??
O sujeito vira pra mim:
- Oi?

Era Vicente! Reconheci-o pelas fotos do Face! Não bastasse que nossas afinidades o atraíssem para meu blog, o cosmos ainda preparou, como presente de Natal, um encontro absolutamente acidental e improvável. Rimos como crianças da coincidência, nos abraçamos, proseamos o caminho todo como velhos amigos que já éramos e nos prometemos novos encontros para breve. Deu-me seus telefones. Mandei-lhe um torpedo festejando nosso encontro e observando como este mundo é pequeno... Sua resposta: "De fato o mundo é pequeno, o ser humano é que é grande rs rs rs rs"...

No meio tempo o Face foi nossa trincheira. Era Vicente publicando aquelas músicas clássicas lindas, era eu recordando-o de peças que ele assistiu em Londres ainda na década de 80, era ele falando de Descalvado, era eu perguntando a ele sobre filmes, era ele publicando números musicais antológicos, era eu publicando trecho de "Vênus" com Peter O'Toole e Leslie Philips, atores que ele, é evidente - e para minha suprema inveja - já vira no teatro! Era coisa que nos unia: a utilização da Internet para usufruir da cultura gigantesca, verdadeiramente monstruosa que ela disponibiliza, e à qual não tínhamos acesso em décadas anteriores.

Certa vez publiquei Marilyn Mulvey cantando "Meine lippen sie kussen so heiß", de Franz Léhar. Citei Vicente no post. Ele ouviu e trouxe sua linda erudição: "Danke, Bernardo! Também adoro essa ária... porém a gravação dela de que mais gosto é a de Elisabeth Schwarzkopf, para mim insuperável no chamado repertório leve vienense. No CD Elisabeth Schwarzkopf singt Lieder aus Operetten ela canta deliciosamente essa maravilha e também outra ária esplêndida, Ich schenk mein Herz (da opereta Die Dubarry, de Karl Millöcker) que aparece numa cena muito reveladora do belíssimo filme Mephisto. Esse CD da imortal Schwarzkopf é absolutamente irresistível."

O Amleto de Vittorio Gassman
Da Alemanha para a Itália, publico em dado momento um comentário sobre o "Amleto" de Vittorio Gassman, que acabara de assistir. Vicente, legítimo oriundi, vibrou e enriqueceu dez vezes minha modesta postagem:

Bernardo, não vi mas já gostei rs rs rs. Onde estão essas maravilhas? No Youtube? Você se lembra de uma sequência absolutamente hilária entre Gassman e seu grande amigo, o também muito talentoso Gigi Proietti, no filme "O casamento", de Robert Altman? Gassman conta em sua autobiografia "Un bel avvenire dietro le spalle" que Altman deu total liberdade aos dois, eles improvisaram à vontade e, como pedia a situação do filme, atiraram um contra o outro as piores ofensas possíveis e imagináveis que existem no idioma italiano. No fim, os dois quase morreram de rir de si mesmos e dos personagens. Mas a maioria dos presentes ao estúdio não sacou nada, porque muito poucos entendiam italiano. Essa sequência é pra mim a melhor do filme, de que gosto muito. É um dos melhores do Altman pra mim, junto com "Assassinato em Gosford Park" -- aqui no Brasil, "assassinado" por legendas cretinas rs rs rs rs.

Gassman e Proietti no filme citado por Vicente
Silvio Poggi Nunes entra na dança: "Gassman fazendo um estereótipo de Da Vinci, em Il Arcidiavolo, e ainda com Mickey Rooney de escada, o máximo". Vicente arremata: "Eu trouxe o DVD de L'arcidiavolo da Itália, é uma tremenda gozação. Mais um triunfo da dupla Gassman-Ettore Scola. Falar nisso, quem ainda não viu o último Scola, Estranho chamar-se Federico, homenagem dele a Fellini, tem de ir correndo".

Da Itália para o Japão, comento, em 10 de junho de 2014, que muito me impressionara o Hamlet de Tatsuya Fujiwara, encenado em 2003 e que o tornara o Hamlet mais jovem do teatro japonês. Vicente entra para agregar, como sempre: "Tremenda pesquisa! Parabéns! Vc viu o Hamlet russo, de 64, com tradução de Boris Pasternak, direção de Grigori Kozintsev e Iosif Shapiro, e com Innokenty Smoktunovsky como Hamlet? É dos mais bonitos que já vi. De lambuja, trilha sonora do gênio Dimitri Shostakovitch". Respondo que sim e que inclusive escrevera a respeito desse filme em um de meus artigos sobre Hamlet. Vicente leu o artigo inteiro (um artigo enorme, que assusta qualquer um) e me presenteou com esta pérola de sua bondade:

Tatsuya Fujiwara
Bernardo, li tudo de cabo a rabo, com imenso prazer. Até pensei como seria interessante se minha Grande Mestra Mrs. Stevens (que nos deu um curso maravihoso sobre Shakespeare na FFLCH-USP no início dos anos 1970) pudesse ler as tuas análises desses filmes. Parabéns pelo esplêndido e minucioso trabalho. É uma alegria enorme ver coisas assim. Grande abraço e tks very much.

Agradeço-lhe com a humildade do aluno: "Eu que te agradeço, Vicente. Comentários como o teu são o estímulo para continuar escrevendo essas análises, que são realmente despretensiosas. E se a Internet tem algo de maravilhoso é ter universalizado montagens de Shakespeare que de outra forma estariam perdidas em cinematecas e arquivos empoeirados por aí". O que a Internet tem de maravilhoso, realmente, é a convivência com pessoas iluminadas como Vicente.

O Hamlet de Maximilian Schell
Ainda em Hamlet, publico, um dia: "A duras penas consigo o Hamlet alemão raríssimo de Maximilian Schell, lançado em 1961, e a cópia não apenas vem dublada em inglês, como ainda vem com uma tradução simultânea em RUSSO! E o que é pior: é costume entre os russos, assistir assim os filmes. Não com a dublagem tradicional sincronizada, mas com o som original audível e a tradução em cima. É simplesmente bizarro". Vicente despeja inteligência e bom-humor em minha reclamação:

Très, très bizarre, caro Bernardo! Mas não tão raro assim. Tenho uma versão esplêndida em DVD do "Don Giovanni", de Mozart, dirigida por Joseph Losey, que tem legendas dos versos de Lorenzo Da Ponte em não sei quantas línguas... menos em ITALIANO, idioma em que a ópera é cantada! E um DVD de de "Alta sociedade", com legendas em inglês de todos os diálogos, menos dos versos das deliciosas canções de Cole Porter usadas no filme. E por aí afora. Os "detentores" da cultura neste mundo já deveriam ter sido substituídos há muito tempo por pessoas menos ignorantes e menos insensíveis.

No dia 31 de dezembro de 2013 publico uma brincadeira sobre antiga boate paulistana chamada Hugo: "Acabo de saber que no reveillon de 1950 para 51 Lucienne Boyer está na boate HUGO (nome dos mais sugestivos para um local onde se enche a cara a noite toda), lá na Xavier de Toledo, e estou à pampa de ouvi-la cantando Parlez-moi d'amour". Da Itália para a França, prato cheio para Vicente: "Vraiment le nom idéal pour une place où on va toujours se souler et écouter Lucienne Boyer kkkkkkkkk. Bonne Année!"...

Chaplin e Groucho Marx, observados
por Danny Kaye
Ele podia ser sério, também. Comentando uma foto do encontro entre Chaplin e Groucho Marx, quando o inglês foi aos Estados Unidos receber um Oscar honorário, em 72, aproveito para fazer um jabá de meu artigo sobre a perseguição sofrida por Chaplin, e sua conseqüente expulsão dos EUA, no fim dos anos 40 e início dos 50. Vicente comentou:

Esplêndida a matéria sobre Chaplin, Bernardo! Os americanos pediram perdão a Chaplin com a concessão de um Oscar especial a ele em 1972 e, claro, a permissão pra voltar a pisar em território americano. Antes tarde do que nunca... mas essas concessões tardias só demonstram o quanto somos enganados por ondas de preconceitos, como foi o caso de tantos americanos que queriam "ver a caveira" de Chaplin. O pior é que, mesmo diante desse e de tantos outros exemplos da estupidez dos preconceitos, eles continuam por aí, cada vez mais fortes, nas mais diferentes formas, como atualmente nos infames ditames do "politicamente correto" e outras bobagens. A frase de Schopenhauer -- "A única coisa que pode nos dar uma ideia concreta do infinito é a estupidez humana" -- continua mais atual do que nunca.

Guétary, Gene e Oscar Levant
Hollywood, entre tantas outras coisas, era sua seara. Em abril de 2014 postei "By Strauss", cantado por George Guétary no filme An American in Paris e comentei que "o filme tem tantos momentos clássicos e magníficos que esta pérola acabou se perdendo no meio das outras. Vamos relembrá-la. O vibrato incomparável de Georges Guétary, o carisma fluvial de Gene Kelly e Oscar Levant... que beleza". Foi a bola levantada para Vicente cortar:

Com a requintada produção de Arthur Freed (o "homem que sabia reunir talentos") e a direção leve, segura e com aquele "olho pictórico" fenomenal que era a marca registrada de Vincente Minnelli, esse filme teve 8 indicações ao Oscar e levou 6, num tempo em que ainda dava para levar esse prêmio a sério. É desses filmes que melhora ainda mais cada vez que a gente o revê. Filmes que quase ninguém sabe mais fazer.

E não parou por aí:

Este teu post me fez ouvir de novo o Brothers Gershwin Songbook, que Ella Fitzgerald gravou em 1959 com arranjos e regência de Nelson Riddle. É um dos maiores e mais perfeitos tesouros artísticos já gravados em disco, difícil imaginar que um dia vai aparecer coisa igual (melhor, impossível). E tem pra descarregar na internet. Ella Fitzgerald interpreta essa canção "By Strauss" com uma letra ainda mais engraçada, em que o autor, Ira Gershwin, faz gozações com o autor da melodia, seu irmão George, e outros grandes do teatro musical: Irving Berlin, Jerome Kern, Cole Porter... O pequenino no tamanho e imenso no talento Ira Gershwin é um dos maiores letristas de todos os tempos, pelas doses certas de humor, ironia e lirismo que caracterizavam sua produção.

Em post de 1º de junho de 2014, divulgando meu blog com a antiga coluna musical de J. Pereira para os Diários Associados, no qual o jornalista falava sobre a gênese dos discos infantis, Vicente permitiu-se regressar à Descalvado de sua infância:

Bernardo, meus irmãos e eu "ensandecíamos" quando meu pai chegava à nossa casa no interior, em Descalvado, depois de uma viagem a S.Paulo. Ele sempre trazia discos (ainda de 78 r.p.m até o fim dos anos 50), com o incrível repertório de clássicos infantis e congêneres da Continental, em particular as maravilhas "perpetradas" pelo grande Braguinha (João de Barro) e seu bando de supercompetentes. Por que esses tesouros nunca foram lançados em CD, que eu saiba? Mais uma vez, eita país sem memória etc.

Imperio Argentina
Vicente transformou postagens diárias em um absoluto prazer. Em outra ocasião publiquei uma foto em que aparecia, jovem e linda, a antiga cantora Imperio Argentina, com o título jocoso de "mais uma para a momentosa série Mulheres que viveram nos anos 20 e 30, por quem tenho uma atração perfeitamente insalubre". Vicente comentou, impagável: "Insalubre nada... Eu também tenho! kkkkk"...

Em fevereiro de 2015, em meio ao furor causado pela versão cinematográfica do ridículo "50 Tons de Cinza" Vicente postou um comentário que fiz questão de compartilhar. Escrevi em minha linha do tempo: "Comentário brilhante do amigo Vicente Adorno":

P.T. (olha as iniciais!) Barnum, empresário do ramo circense, fundador do Barnum & Bailey, circo a que deu o epíteto de "O maior espetáculo da Terra" -- sim, o circo dele é que aparece no filme homônimo de Cecil B. DeMille -- dizia: "Ninguém nunca perdeu dinheiro subestimando a inteligência do público" e "Nunca dê uma chance decente a um otário". Assim ele explicava por que basta criar uma boa publicidade e apresentar um produto bem vagabundo que vai ter muita gente que vai engolir. É o caso desse tal de"Cinquenta tons de cinza", que está batendo recordes de bilheteria. Vi-o, entre bocejos e gargalhadas, numa cópia que já circula pela internet. É daquele tipo de filme que, como diz meu sábio amigo e guru cinematográfico Antonio Mendes Americano, "é tão ruim que é ótimo", por tornar-se involuntariamente cômico. Vai entender...

O bom humor constante de Vicente...

No Inbox a prosa seguia. Recomendações culturais de parte à parte... ainda ontem me marcava em uma de suas deliciosas postagens musicais...

Mais do que tudo, ele era um cavalheiro impecável. Exemplar. Como pouquíssimos que conheci. Tinha por ele admiração e respeito. Um homem que pairava sobre os adjetivos... inteligente, elegante, educado, gentil, doce, lhano, bem-humorado... pessoas como Vicente fazem a vida valer a pena. Melhoram nossa existência com sua personalidade tolerante e positiva. São cada vez mais raros. Mais difíceis de encontrar. Contam-se nos dedos da mão...

Sinto tristeza e amargura em pensar que ele foi retirado de nosso convívio com apenas 67 anos. Merecia viver muito mais. E nós, privilegiados compartilhadores de sua amizade, merecíamos o prêmio maravilhoso de sua convivência, de seu carinho, de sua sabedoria por muito mais.

Vá com Deus, amigo querido e admirável.
Venceste de lavada a batalha da vida. Com a fibra dos guerreiros e a classe dos mestres.
Obrigado por TUDO!

Bernardo Schmidt
_________________________________________

Do que me lembro dele? Do sorriso. Vai com Deus, as portas do céu estarão
abertas pra ti... (Sophia Camargo)

terça-feira, 7 de julho de 2015

Minestrone Cultural III

WILDE SALOMÉ

Em sentido horário, Pacino, Jessica Chastain,
Oscar Wilde e Roxane Hart
Fiquei quatro anos caçando este filme. Pacino não gosta de dirigir e quando o faz, é porque o projeto é teatral e está muito próximo a seu coração. Foi assim com "Looking for Richard", de 96, misturando documentário, teatro e cinema sobre o Ricardo III de Shakespeare. Foi a Strattford, conversou com doutores no assunto, discutiu cada cena, cada personagem, tinha uma equipe divertida e um belíssimo elenco (excetuando Winona Rider, bela fisicamente mas fraquíssima como Lady Anne). Pode-se dizer que acabou realizando uma obra prima praticamente sem querer.

Quinze anos depois foi a Salomé de Oscar Wilde que reacendeu sua veia de diretor. Desta vez não somente pela excelência da peça mas porque Pacino estava em temporada com uma leitura dramática do texto e resolveu documentá-la. Em suas palavras, trabalhava em uma peça, um filme e um documentário ao mesmo tempo.

"Wilde Salomé", porém, não é "Looking for Richard". Assisti o filme ontem e vou revê-lo ainda algumas vezes, mas minha primeira impressão não foi a melhor. Os elementos estão quase todos lá, Pacino foi à Irlanda e à Inglaterra, conversou com o neto de Wilde, estudiosos de sua obra incluindo o grande Gore Vidal (em uma de suas últimas aparições), mas a coisa não acontece. Ao contrário de Ricardo, no qual Pacino alcançou uma combinação perfeita de peça/documentário, ele parece ter se perdido neste processo. As interpolações são excessivas, em momentos equivocados e suas múltiplas queixas sobre a pressa com que tudo tem que ser feito tem cara de ensaiadas. "Looking for Richard" foi uma delícia de se ver porque conseguia juntar a tragédia da peça com o humor do documentário. Era engraçado e instrutivo, além de um verdadeiro deleite teatral. "Wilde Salomé" não tem graça. Ultrapassa negativamente a linha do documentário e vira o making of de um documentário. A última coisa que se valoriza, no fim das contas é o texto.

Jessica Chastain
É minha segunda restrição: não gostei particularmente nem de sua interpretação de Herodes e nem da Salomé de Jessica Chastain. Pacino é genial mas a exemplo do que aconteceu com grandes atores como Richard Burton, George C. Scott e até mesmo Olivier, ele é hoje um poço de tiques e cacoetes dele mesmo. Seu tetrarca abobalhado e com voz de vovô não tem nada a ver com o que eu esperava e não se coaduna com o texto limpo e escorreito de Wilde. Kevin Anderson é insípido e inodoro como João Batista; Roxanne Hart é brilhante e lamenta-se que sua Herodias seja engolida pelos outros personagens. Quanto a Jessica Chastain, é uma ótima atriz e quaisquer defeitos de sua interpretação - inclusive a famosa dança da personagem, que deveria ser catártica e para mim foi decepcionante - devem ser debitados à direção falha de Pacino.

Mesmo assim recomendo. Estamos falando de Pacino e Wilde. São bons até quando não são ótimos. (31/05/2015)

Edit de 21/06/2022: Revi algumas vezes "Wilde Salomé" e minha opinião segue sendo a mesma, sem alterações. O que posso acrescentar é que encontrei aquela que acredito ser a razão principal para Pacino ter perdido a mão, nesse trabalho: a ausência de seu amigo e braço-direito em "Looking for Richard", Frederic Kimball. O ator, que morreu em 2008 aos 75 anos, era uma espécie de contra-ponto e complemento intelectual e cômico ao trabalho performático de Pacino, e sem ele - seus comentários, seu humor e sua cultura - o trabalho perdeu duas de suas quatro pernas.


O MACBETH DE PAUL SCOFIELD (1966)

Paul Scofield no papel de Macbeth
São muitos os Macbeths cinematográficos que já vi, em vários idiomas; no teatro também tive a oportunidade de assistir algumas montagens extraordinárias, mas no primeiro lugar, junto ao Macbeth do querido mestre Luis Melo, está a versão radiofônica que descobri há pouco, do grande Paul Scofield. Trata-se de uma performance para a BBC em 1966, que vinha no rescaldo da montagem teatral de Scofield, um ou dois anos antes.

É uma aula magna. Sempre admirei Scofield e sua famosa contenção, sua internalização quase psicótica de sentimentos e emoções, embora fazendo uma ressalva aqui e outra ali desse método. Neste Macbeth, Scofield atinge o equilíbrio perfeito entre comedimento e força performática. Me ocorre, enquanto escrevo isto, que Scofield parece ter depurado e melhorado o método declamativo de Gielgud. Mantém-se um pouco o antigo tremelique da voz, mas suavizando-o e substituindo-o por uma intensidade trágica.

É uma beleza. Ouçam e deleitem-se. (23/05/2015)




GLORIA SWANSON POR EDWARD STEICHEN


Enquanto Mary Pickford casava com Douglas Fairbanks formando o casal mais poderoso do cinema, e ainda dava um jeito de continuar personificando a "Namoradinha da América" por sua beleza saudável e natural, GLORIA SWANSON atacava por outra frente: era a inatingível. Classuda, elegante, sofisticada. Ícone da moda. Musa de Cecil B. DeMille e de Erich Von Stroheim. A esposa cara, que só um milionário ou um membro da realeza européia poderia bancar. Esse era o folclore, essa era sua estampa.

Na verdade era apenas uma garota baixinha (1 metro e 55) de Chicago, que soube usar como ninguém seus atributos. O que sempre me encantou em Gloria foi sua beleza real, pulsante. Não chegava a ser o vulcão de sensualidade de Theda Bara, mas também estava longe de ser a estátua de gelo que era Garbo. Tinha uma beleza extraordinária, que podia intimidar, mas ao mesmo tempo era descontraída, cativante, gostosa. Seu sorriso era charmoso e atraente. Seu olhar era sexy. Uma combinação maravilhosa. Diga-se de passagem, casou-se, no auge da fama, com um membro da realeza: Henry de La Falaise, Marquês de La Coudraye foi o terceiro de seus seis maridos.

De 1918, quando participou de seu primeiro longa, até 1933, quando foi efetivamente engolida pelo cinema falado, ela fez 44 filmes. Aqui e ali fez participações. Em 1950 teve uma volta espetacular no antológico Sunset Boulevard, de Billy Wilder. Soube quando subir, soube quando parar, lançou suas memórias (Swanson on Swanson) em 1980 e morreu com status de lenda, três anos depois, aos 84 anos.

As fotos deste artigo são de 1924, e foram tiradas pelo luxemburguês Éduard Jean Steichen, ou, como era chamado nos Estados Unidos, para onde foi ainda criança, Edward Jean Steichen (1879/1973), fotógrafo e artista polivalente que eternizou muitas das divas do cinema mudo. As imagens de Gloria sob o véu bordado são uma aula magna de fotografia, muitas vezes copiada e jamais superada.

Gloria Josephine Mae Swanson completaria hoje 116 anos. (27/03/2015)




Foto menos conhecida, de um ensaio de 1927


INTERSTELLAR

Assisti "Interstellar", finalmente.

Me mantive distante de toda a (grande, aparentemente) polêmica cercando esse trabalho de Christopher Nolan. Soube que gerou críticas calorosas, tanto pró quanto contra, mas não li. Apertei "play" desarmado. Prefiro não fazer grandes comentários, porque tudo será spoiler para quem não viu. Mas recomendo que as pessoas procurem ver a mensagem filosófica, emocional e sentimental por trás da ficção científica. Alguns dos conceitos de individualidade, de inevitabilidade e até mesmo de simples amor entre os seres humanos, contidos em falas de  Anne Hathaway, Matt Damon e David Gyasi, são profundíssimos.

No mais, Nolan adora um "brain teaser" como ninguém, e "Interstellar" é um manancial deles. Mas - como bem observou uma crítica que só li agora, depois de ver o filme - em "Inception" ele criou as regras e fez o que quis com elas. Em "Interstellar" ele se manteve "science bound".

Lembrei-me, evidentemente, do 2001 de Kubrick, do "Contact", de Robert Zemekis, até do mais recente "Gravity", de Alfonso Cuarón... enfim, só uma palavra define o filme: ESPETACULAR.

Recomendo. (26/06/2015)

CLOUDS OF SILS MARIA

Mais um filme que descubro sem querer em um site de torrent. Fazia tempo que não assistia nada com a maravilhosa Juliette Binoche, e este "Clouds of Sils Maria", escrito e dirigido por Olivier Assayas me deixou curioso. Assisti e foi uma surpresa muito agradável.

A história, delicada e intimista, e ao mesmo tempo pessoal e profunda, está dividida em três capítulos, e gira em torno da reação de uma grande atriz de teatro e cinema - Maria (Binoche) - diante da morte de seu mentor, a convivência com sua secretária - Valentine (Kristen Stewart) - e a montagem de uma peça que ela já encenara 20 anos antes, só que agora no papel de uma personagem mais velha.

Binoche é perfeita (como sempre) na humanidade vulnerável e comovente que empresta a seu personagem, mesmo nos momentos mais comezinhos. Melhora com o tempo. Continua intensamente apaixonante. Sua química com Kristen Stewart funciona e são deliciosas as cenas de ambas, sobretudo as cômicas. Stewart, aliás, foi largamente elogiada por esse papel. Não exageremos. Ela está ok, simplesmente, e graças a Deus está aos poucos enterrando aquela porcaria de trilogia de vampiros através da qual ela se tornou popular.

Filme contemplativo e reflexivo.

Recomendo muito. (29/06/2015)

ANNA KARENINA (2012)

Terceira colaboração de Keira Knightley com o diretor Joe Wright, depois do magnífico "Atonement" e do lamentavelmente fraco "Pride and Prejudice". Não vou me alongar. Apenas três comentários, antes de declarar enfaticamente que "recomendo":

1 - Há dezenas de versões do livro de Tolstoi por aí. Esta traz o diferencial no roteiro - do sempre competente Tom Stoppard - e uma cenografia originalíssima (Seamus McGarvey) que utiliza um teatro como base de praticamente todos os cenários. Funcionou muito bem.

2 - Sei que houve críticos condenando o que seria o uso excessivo de alegorias visuais em contraponto a um vazio sentimental. Discordo. Wright soube usar a alegoria na medida certa, de forma equilibrada, não transformando o filme em uma bagunça de som e imagens (pecado cometido por Baz Luhrman e, no Brasil, por Luiz Fernando de Carvalho) e criando cenas cheias de sensibilidade e notável beleza.

3 - Considero essa, senão a melhor, uma das melhores performances de Keira Knightley em todos os tempos. E acabo de ver na internet que ela não foi indicada a NADA por esse filme! Essa produção toda, diga-se de passagem, foi vergonhosamente esnobada pelo Oscar (venceu figurino, o que não qualifica nem como prêmio de consolação) mas Keira, pelo menos, merecia uma indicação ao Oscar ou ao Globo de Ouro.

Recomendo. (09/07/2015)

MUCH ADO ABOUT NOTHING (2012)

Não faz nem quinze dias que assisti um "Cymbeline" cinematográfico do qual jamais ouvira falar, e eis que me aparece um "Much Ado About Nothing" que também passou em brancas nuvens. Ao contrário de "Cymbeline", porém, cujo filme (até onde eu sei) é pioneiro, esta é a segunda versão em celulóide para a comédia romântica de Shakespeare sobre Benedik, Beatrice, Claudio e Hero.

E isso foi um problema, pelo menos para mim. Malgrado seus defeitos, sou fã de carteirinha da versão de Kenneth Branagh e não houve um único momento em que não comparei a presente versão, dirigida por Joss Whedon, com o filme de 1993. Whedon modernizou a trama, o que geralmente não atrapalha, mas neste caso prejudica o núcleo de Dogberry; ele funciona no original porque compreende-se perfeitamente como parte do elemento humorístico que um grupo de imbecis represente a lei em Messina do século XV, mas se torna fake em uma cidade qualquer dos Estados Unidos de hoje. Outra inovação que não engoli foi o preto-e-branco. "Much Ado About Nothing" é uma das poucas comédias do Bardo que efetivamente tem graça e além disso há leveza, diversão, romance, cenas de festas, músicas originais. Isso tudo pede cor, brilho, sol, uma fotografia agradável e luminosa. O preto-e-branco botou isso a perder.

Amy Acker: uma maravilhosa Beatrice
O elenco é jovem e composto na maioria de atores da TV norte-americana. São todos razoáveis sem serem ótimos. Reed Diamond foi um Don Pedro aceitável, assim como o Dogberry de Nathan Fillion e o Don John de Sean Maher. Lamentei o corte impiedoso de Antonio, irmão de Leonato, e gostei da Conrade de Riki Lindhome, transformada, de comparsa masculino de John no texto shakespeariano, em sua namorada. O destaque, mesmo, vai integralmente para Amy Acker, que eu sequer conhecia (porque nunca assisti os seriados dos quais ela participa de vez em quando) e que foi uma excelente Beatrice.

É um esforço honesto, mas, sinceramente, quem quiser conhecer essa adorável comédia de Shakespeare, deve assistir a versão de Kenneth Branagh. (08/07/2015)

PROOF

Com apenas dez anos de atraso, assisti "Proof", adaptação da peça de David Auburn - sobre a filha de um gênio da matemática que teve que colocar sua vida em segundo plano para cuidar do pai - roteirizada pelo próprio Auburn e dirigida por John Madden. Curiosamente, o mesmo tempo em que não vejo um trabalho verdadeiramente bom de Gwyneth Paltrow, minha undisputed muse do fim dos anos 90 e início do novo século. Pepper Potts, da franquia do "Homem de Ferro", única coisa que tem feito nos últimos anos , é tão insulsa que chega a me dar urticária.

"Proof", é talvez a melhor coisa que Gwyneth já fez. E se não for a melhor, contém todos os elementos e razões pelos quais ela se tornou musa. Ela acerta em cheio no tom da personagem: triste sem ser chata, problemática sem ser insuportável, profunda sem ser densa, no limiar entre a depressão e o desequilíbrio. Todas as nuances, as mais sutis, de angústia, perturbação, isolamento e frustração de Catherine foram reveladas com maestria por Gwyneth. Não há um pingo de falsidade. É uma performance madura, burilada, própria de uma atriz experiente, e mais do que isso, experimentada no teatro (o que nem creio que seja o caso dela).






















Um trabalho maravilhoso que, pra variar, foi inteiramente ignorado pelo Oscar. Jake Gyllenhaal, Anthony Hopkins e Hope Davis estão todos muito bem, mas Gwyneth é o vértice. Fiz as pazes com ela. Voltou a ser minha musa. Não undisputed, porque Anna Friel é soberana, mas musa, nonetheless.

Foi indicada a um Globo de Ouro. E nem isso ganhou.

Recomendo. (18/07/2015)

CIENTOLOGIA

Tom Cruise, em evento da Cientologia
Qualquer pessoa minimamente inteligente saberá que a cientologia é uma das piores farsas surgidas nos últimos 100 anos. Ela mistura a palhaçada dos mórmons com o radicalismo dos nazistas e a ganância dos políticos, jogando no mesmo liquidificador amplas quantidades de insanidade e toda a burrice fundamental do ser humano.

Baseado no livro de Lawrence Wright e entrevistando dezenas de ex-membros da seita, o documentário "Going Clear: Scientology and the Prison of Belief" vai fundo na investigação e não perdoa ninguém. Destrói com sólida documentação o criador da seita, L. Ron Hubbard e seu herdeiro, David Miscavige. Impossível não assistir com absoluta estupefação os segmentos que falam dos dois cientólogos mais famosos do mundo: John Travolta e Tom Cruise.

O documentário provoca três sentimentos: fascínio, medo e vergonha alheia.

Recomendo. (03/07/2015)

LUIZ GUIMARÃES JUNIOR

Um dos episódios na série de artigos que venho publicando sobre a temporada de Ernesto Rossi no Brasil, em 1871, foi a doação generosa e abnegada do grande ator para a construção de uma escola na antiga "Freguesia de São José", que hoje corresponde ao centro do Rio, onde se localiza a Câmara dos Vereadores.

Elogiando o belo gesto de Rossi, Guimarães Jr. escreveu, entre outras coisas, estas palavras, no Diário do Rio de Janeiro. São lapidares: (27/06/2015)

















VINCENT PRICE ROASTS BETTE DAVIS (LEGENDADO)

Neste lendário "The Dean Martin Roasts" de 1973, Bette Davis é fritada por seu amigo Vincent Price. Haviam trabalhado juntos em "Meu Reino por um Amor", de 1939, quando Bette já era uma estrela e Vincent ainda galgava os degraus da fama, e voltariam a se encontrar somente em 1987, no último filme de Bette, "As Baleias de Agosto".

Price, mais conhecido por seus magníficos filmes de terror, dá um show de humor! Em sua resposta Bette devolve as piadas de Vincent e acaba sobrando para Howard Cosell.

Saudade de todos eles! (05/07/2015)



GEORGE C. SCOTT E JACK LEMMON

Em 1997 William Friedkin dirigiu um remake televisivo do famoso "12 angry men", de Sidney Lumet, realizado em 1957 a partir da peça de Reginald Rose sobre o julgamento de um menor infrator. Nos papéis de Henry Fonda e Lee J. Cobb estavam, respectivamente, Jack Lemmon e George C. Scott. Com todos os defeitos da nova versão (sobretudo algumas escolhas bizarras de elenco, como o inqualificável Tony Danza), a performance de Lemmon e Scott - dois dos melhores atores americanos de todos os tempos - foi elogiadíssima. Scott, que estava esquecido e irritara a indústria cinematográfica eternamente rejeitando seu Oscar por "Patton", encaçapou o Globo de Ouro, o Emmy e foi indicado ao SAG. Era como se Hollywood estivesse tentando se desculpar com o ator através das premiações televisivas.

Ou talvez estivessem se dando conta de que o grande ator estava morrendo. Era preciso correr. Seja para premiá-lo, seja para dar-lhe bons papéis, dos quais tivera pouquíssimos nos últimos quinze anos. Provavelmente por conta disso, da boa relação de amizade entre George e Jack, em 1998, quando surgiu a idéia de se produzir outro remake televisivo, desta vez de "Inherit the Wind", dirigido em 1960 por Stanley Kramer, o diretor Daniel Petrie chamou os dois. A peça de Jerome Lawrence e Robert Edwin Lee se baseia em um processo real ocorrido no início do século passado, e George reprisou o papel de Frederic March, enquanto Jack interpretou o personagem criado por Spencer Tracy.

Em 1996 Scott montou "Inherit the Wind" no papel de
Drummond, que no filme de 1998 foi para Jack Lemmon. No
teatro, o papel de Brady foi para o não menos maravilhoso
Charles Durning
É uma delícia de filme. Não só porque se trata de uma produção bonita e bem cuidada do canal Showtime, mas porque é um genuíno prazer assistir atores maravilhosos como George e Jack contracenando. Em entrevista da época em que o filme foi ao ar, em maio de 99, Jack contou que não se continha de admiração ao ver George atuando. Assistia-o em cena como se estivesse na platéia.

George morreu quatro meses depois. "Inherit the Wind" foi seu canto do cisne.

Procurei esse filme durante anos na Internet e nunca encontrei. Outro dia tentei novamente e o encontrei no Youtube! Que sorte extraordinária. E parece que o upload foi de um brasileiro, porque ele possui legendas opcionais.

Recomendo a todos, especialmente àqueles que apreciam e sentem saudade do impecável trabalho de George C. Scott e Jack Lemmon. (07/06/2015)

George e Jack em "Inherit the Wind"
https://www.youtube.com/watch?v=NYCfo4hVolQ

83 ANOS DE PETER O'TOOLE


Programa quádruplo (começado há alguns dias) para comemorar os 83 anos que o maravilhoso Peter O'Toole completaria hoje.

O primeiro filme que assisti era uma daquelas lacunas absolutamente imperdoáveis na reputação de qualquer cinéfilo que se preze: a obra-prima de David Lean, "Lawrence of Arabia". Por razões que a própria razão desconhece, eu ainda não havia parado para apreciar corretamente as quase 4 horas do filme de 1962 que catapultou O'Toole para o status de estrela hollywoodiana de primeira grandeza. Assisti finalmente. Não há espaço ou conveniência para comentar aqui algo que tem que ser visto e estudado minuciosamente. Mas é magnífico. Tudo é perfeito. Desde a escolha do personagem, o excêntrico e extraordinário Thomas Lawrence (figura singular que mereceria dois ou três filmes além desse), a performance de O'Toole, até o trabalho impecável de Lean, o elenco inigualável que traz Omar Sharif, Anthony Quinn, Alec Guiness, Anthony Quayle e José Ferrer, a trilha sonora e tudo mais. Certamente um dos melhores filmes de todos os tempos.

Na seqüência assisti outro filme que me provocava curiosidade mas que nunca tivera o ensejo de ver: "Lord Jim", de 1965, direção de Richard Brooks, baseado no livro de Joseph Conrad sobre o marinheiro James "Jim" Burke e sua luta constante para manter-se em uma linha reta de correção moral. Aquilo que Lawrence tem de grandioso, "Lord Jim" tem de sutil. É uma história triste, mas mostrada de forma bela e delicada. As locações no sul da Ásia são fantásticas e é competentíssimo o elenco que inclui titãs como James Mason, Curd Jürgens, Eli Wallach, Paul Lukas e a linda Daliah Lavi. Recomendo. E assim como todos os filmes desta lista, recomendo para aqueles que tem saudade de filmes que podiam até ter ação, mas não se furtavam de contar uma história.

Os dois últimos eram inteiramente desconhecidos para mim. E foram gratíssimas surpresas. "The Night of the Generals", de 1967, baseado no romance de Hans Hellmut Kirst, foi o penúltimo filme do diretor ucraniano Anatole Litvak.

A história é engenhosíssima e mistura uma investigação por assassinatos sexuais com a Operação Valquíria, uma das últimas (e mal-sucedidas) conspirações alemãs para eliminar Hitler. O'Toole é um dos três generais alemães na lista de suspeitos pelos assassinatos. Ele não poderia ser mais perfeito para o papel. Era alto, esguio, olhos azuis e embora tivesse o cabelo castanho, passava tranqüilamente por loiro. Hitler teria um orgasmo se pudesse contemplar o "arianismo" de O'Toole. O filme marca o primeiro reencontro da dupla que protagonizou o Lawrence da Arábia, O'Toole e Omar Sharif, e ainda traz os grandes Donald Pleasence, Tom Courtenay, Phillipe Noiret (do afamado "Cinema Paradiso"), e Christopher Plummer em coadjuvância de luxo.

Por fim, "Murphy's War", de 1971, direção de Peter Yates, sobre um soldado irlandês que vê seu navio ser afundado e toda a tripulação aniquilada por um submarino alemão no fim da segunda guerra, e seu desejo patológico de vingança. Totalmente sem querer acabei assistindo mais um trabalho de O'Toole com Noiret, sendo que em "Murphy's War" ele também contracena com sua então esposa, a atriz Sian Phillips. É o menos brilhante dos quatro filmes, o sotaque irlandês de Murphy vem e vai, mas tem seqüências de tirar o fôlego e aquela tensão que só Yates sabia criar.



(02/08/2015)
_________________________________

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...