domingo, 3 de março de 2019

Oscar 2019




Meus caros,
Este ano não consegui publicar antes da cerimônia o texto completo com as análises sobre todos os indicados. Seja porque não encontrei alguns dos filmes a tempo (como Vice e Mary Poppins returns), seja pelo intenso desinteresse de assistir grande parte deles. Em alguns casos aproveitei para fazer análises comparativas entre os filmes e versões anteriores da mesma história (A Star is Born, Mary Queen of Scots e Christopher Robin) e em outros, não tendo maiores considerações a fazer, mantive os comentários na superfície. Aqui e ali há textos escritos ainda no ano passado, antes de serem anunciadas as indicações.

Pessoalmente, errei praticamente todos os meus palpites. Continuo cometendo o erro de achar que o Oscar premiará por mérito e não por política, e este acabou sendo um ano com as premiações mais políticas de todos os tempos.

Enfim, lá vai.
Há spoilers de todos os tipos, então cuidado.
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4X A STAR IS BORN

Adela Rogers, a mãe biológica
de A Star is Born
Em 1932 a RKO comprou uma história original da conhecida escritora, roteirista e jornalista cinematográfica Adela Rogers St. Johns chamada "The Truth About Hollywood"; é sobre uma garçonete, Mary Evans, que dá um jeito de se apresentar para Max Carey, um diretor de cinema que está sempre bêbado, e consegue dele uma oportunidade de trabalho que a transformará em uma estrela. Há entre o diretor e a garçonete uma relação svengaliana e enquanto Mary se estabelece como uma grande atriz e realiza o casamento de seus sonhos com um milionário por quem é apaixonada, Max se afunda na bebida. Decadente, ele acaba preso e, depois de solto graças à intervenção de Mary, ele se suicida com um tiro no peito. Adela já lançara um pequeno romance em 1923, com o nome "The Skyrocket", mais ou menos sobre o mesmo tema, e agora refundia a história inspirando-se em alguns aspectos da vida da atriz Colleen Moore, cujo marido era alcoólatra, e no diretor Tom Forman, que se matou em 1926, depois de um colapso nervoso.

Produzido por David O. Selznick o filme ganhou o nome de What Price Hollywood? e é um melodrama muito bem feito; puxa para o lado da comédia romântica durante toda a primeira metade e só descamba para a tragédia do meio para o fim. É valorizado imensamente pela presença de Lowell Sherman (Max), em seu penúltimo filme - um magnífico ator que infelizmente morreu apenas dois anos depois, aos 46 anos, vítima de pneumonia - e da linda Constance Bennett (Mary). Soube recentemente que Selznick desejava Clara Bow para o papel de Mary e no vai-e-vem das negociações ela acabou comprometida com outro trabalho. É uma lástima incalculável. Bow era tão linda que Hollywood nunca se deu conta do quanto ela era talentosa, e teria sido perfeita no papel. O filme foi dirigido pelo ainda novato George Cukor, que começara dois anos antes na Paramount e fazia sua estréia na RKO.

What Price Hollywood? não chegou a revolucionar e comenta-se que não deu lucro nas bilheterias. Adela Rogers e Jane Murfin foram indicadas ao Oscar de Melhor Roteiro Original mas perderam para Frances Marion por The Champ. Selznick daria um jeito de ressuscitar o trabalho de Adela pouco depois, por meios não muito corretos.

William Wellman
William Wellman (1896/1975) foi um dos diretores mais prolíficos e versáteis da história de Hollywood. Veterano da 1ª Grande Guerra, dirigiu com maestria o épico Wings, que ganhou o prêmio de Melhor Filme na primeira cerimônia do Oscar, em 1928. Nos dez anos seguintes descobriu talentos como James Cagney e dirigiu alguns dos melhores filmes de Barbara Stanwick. Em 1937, instado por Selznick (agora na United Artists), refundiu a história de What Price Hollywood? e escreveu (junto ao colega Robert Carson) a história de A Star is Born. É sobre a jovem pobre e ambiciosa Esther Blodjett (Janet Gaynor), que tem o sonho de tornar-se atriz. Contrariando a família e tendo a ajuda apenas de sua avó (May Robson), ela consegue o dinheiro para tentar realizar seu sonho em Hollywood. Chegando lá percebe que é apenas mais uma, entre centenas de jovens que tem o mesmo sonho. Nas semanas seguintes ela vê suas requisições para testes serem negadas uma por uma; tornou-se célebre o diálogo com a recepcionista da central de elenco; a moça lhe diz: "Você sabe quais são suas chances? Uma em cem mil", ao que Esther lhe responde: "Mas talvez... eu seja essa uma". Ela conhece o assistente de diretor Danny McGuire (Andy Devine) na pensão onde mora. Eles vão juntos a um espetáculo no Hollywood Bowl e lá presenciam um vexame do ator Normam Maine (Fredric March), que chega bêbado e provoca confusão quando não consegue se acomodar em sua cadeira.

Embora trabalhe como assistente, Danny não tem como encaixar Esther em um filme mas, vendo que a situação financeira dela é periclitante, consegue-lhe um emprego de garçonete em uma festa do estúdio. Ela tenta impressionar os convidados fazendo poses e trejeitos de atrizes famosas mas é ignorada. Quando desiste e está guardando os pratos na cozinha, é abordada por Norman Maine, que se encanta com ela, o que provoca o ciúme encarniçado de sua namorada ocasional, Anita Regis (Elizabeth Jenns). Furiosa com o flerte do ator e a garçonete, ela quebra uma baixela na cabeça de Norman, que cai desacordado, e ela sai correndo para botar a culpa em Esther. Norman, porém, estava fingindo e assim que Anita sai os dois vão embora da festa juntos. O ator descobre então que Esther é uma aspirante à atriz e resolve ajudá-la. Começa ali um relacionamento que aos poucos vai se tornando real e profundo (Wellman descarta toda a trama do milionário por quem Mary se apaixonava e concentra o romance entre o alcoólatra e a novata). Pouco depois surge a necessidade de substituir uma atriz famosa que fora obrigada a abandonar um projeto com Norman e ele sugere Esther ao dono do estúdio, Oliver Niles (Adolphe Menjou). Ele aceita, o filme é feito e Esther - já com o nome hollywoodiano de Vicky Lester - é festejada pelo público. Felizes, Norman e Esther se casam.

March e Gaynor
Vemos em A Star is Born o mesmo mote de What Price Hollywood?: a estrela ascendente vê a outra estrela, que lhe proporcionou seu vôo, entrar em queda livre. Norman, exatamente como Max, é alcoólatra e passou seu período de fastígio enchendo a cara, dando vexames, se desavindo com colegas de estúdio e de imprensa - e neste caso temos uma das principais criações de Wellman: o repórter odioso e canalha Matt Libby (Lionel Stander) - e não cuidando de manter um nível profissional que o credenciasse junto ao público, malgrado suas estrepolias. O resultado é que quando Esther tem seu momento de triunfo, o público escarnece da presença de Norman junto a ela. Ele já não era mais uma estrela bancável ou confiável quando Esther chegou a Hollywood. Agora, então, a parceria de ambos na tela e na vida é considerada uma piada de mau-gosto. E quando Niles lhe informa que ele já não está mais sendo cotado para o protagonista de filmes futuros, Norman dignamente decide se aposentar. É mais um mote, e desta vez original, do filme de Wellman: a vida de uma estrela da Hollywood gloriosa dos anos 20 e 30 depois da aposentadoria. Norman vai tentar de todas as maneiras viver uma vida simples e caseira enquanto sua esposa brilha e é aclamada.

March e Gaynor
Embora ele tente e fique claro, em algumas das cenas mais lindas do filme, que os dois se amam de verdade, o resultado será o pior possível. Incapaz de lidar com seu próprio anonimato, o alcoolismo de Norman vai recrudescer e explodir. Na história de Adela, vemos pelos jornais que Mary recebeu o Oscar e logo depois ela fica sabendo que Max está preso. No filme de Wellman, Norman humilhará sua esposa publicamente na cerimônia do Oscar, na qual Esther é premiada por um de seus filmes. O ator aparecerá bêbado, inconseqüente, subindo ao palco para choramingar seu ostracismo e a ingratidão de seus ex-colegas. Esther tenta acalmá-lo mas ele gesticula, descontrolado, e acaba acertando um golpe no rosto da esposa, para o choque de todos. É uma das cenas mais impactantes e memoráveis do cinema, até aquele momento. Pouco depois ele será detido por alcoolismo e só não irá pra a prisão porque Esther fará um pedido pessoal ao juíz. March era um craque, um dos maiores e melhores atores da época, tinha sólida carreira teatral e deu um banho de interpretação, seguido de perto pela excelente Janet Gaynor. Ambos, por sinal, já tinham sido agraciados com o Oscar na vida real, ela em 1928 (na primeira cerimônia do prêmio) e ele em 1932.

Temos então o terceiro mote do filme: enquanto Mary era uma amiga fiel e devotada, incapaz de deixar seu Svengali passar por dificuldades, Esther é uma esposa amantíssima e tem verdadeiro amor e gratidão por Norman. Não lhe interessa, portanto, se ele está decadente, se jogou sua carreira no lixo ou se a humilhou publicamente. Ela não vai abandoná-lo agora, que ele enfrenta problemas terríveis; pelo contrário, estará junto a ele não importa o que aconteça. Mesmo que para isso seja necessário renunciar à sua própria carreira e dedicar-se única e exclusivamente a ele. E é justamente quando Norman ouve, sem querer, que Esther pretende abrir mão de sua carreira, que ele vai até o mar e voluntariamente se afoga.

"Hello, everybody. This is
Mrs. Norman Maine!
"
Entre outras referências de um filme sobre o outro, o produtor Julius Saxe (Gregory Ratoff) é suavizado e se torna Oliver Niles; a cena do casamento caótico de Mary com Lonny Borden (Neil Hamilton), seu noivo milionário, é adaptada para a cena do funeral de Norman Maine; o pedido de Norman para olhar Esther mais uma vez, dito no primeiro e no último encontro deles, vem do pedido de Max, feito quando ambos se despedem, no fim, e é para ouvir Mary mais uma vez, e não para vê-la. Quanto ao icônico Hello, everybody. This is Mrs. Norman Maine, é invenção de Wellman e seu time de roteiristas, que, aliás, incluía Dorothy Parker. A Star is Born foi sucesso de público e crítica. Recebeu várias indicações ao Oscar - incluindo Ator e Atriz pra March e Gaynor - mas ironicamente, só venceu Roteiro Original (Wellman e Carson), sendo que o roteiro podia ser tudo, menos original. Era uma bela adaptação do trabalho de Adela, provavelmente até superior, mas que por um simples dever de justiça deveria ter trazido o nome da escritora em seus créditos. Segundo algumas fontes, a RKO chegou a estudar a possibilidade de processar a United Artists por direitos autorais mas não levou a idéia adiante. Também é dito por aí que David Selznick ofereceu a direção do filme a George Cukor antes de entregar a incumbência a Wellman, mas Cukor teria declinado o convite devido à semelhança inegável com o roteiro de Adela.

Se isso confere ou não, só Deus sabe, mas não faz rios de sentido, já que o primeiro remake de A Star is Born foi dirigido justamente por Cukor.

Este remake da Warner foi feito em 1954, época áurea dos musicais da Metro. Cukor decidiu transformar A Star is Born não na história de uma atriz, mas de uma cantora que procura seu lugar ao sol, em Hollywood. A princípio a diferença não é tanta, pois quando uma cantora fazia sucesso ela acabava no cinema, de uma forma ou de outra (e isso é assim até hoje, como nos ensina o exemplo de Lady Gaga, que veremos mais à frente). E era possível manter a espinha dorsal, ou seja, ela é descoberta por um ator bêbado e decadente. Para o roteiro, Cukor escalou o experiente Moss Hart; para as músicas ele chamou dois mestres: Harold Arlen e Ira Gershwin; e o casal protagonista foi feito por James Mason (Norman) e Judy Garland (Vicky). O filme começa bem, Esther é parte de um trio vocal que se apresenta em um evento no qual Norman aparece bêbado e sobe ao palco. Ao invés de ficar apavorada ela tenta incorporá-lo ao número, o que alivia a tensão do público e provoca gargalhadas. Original e divertido. Mais tarde, na mesma noite, Norman vai ao bar onde ela tem outra apresentação e temos o melhor momento do filme: Judy está com sua banda e canta "The Man That Got Away", em interpretação antológica, lembrada até hoje.

Judy cantando "The Man That Got Away"

Judy e James Mason
Para mim, infelizmente, o filme poderia ter terminado nessa cena, porque o que vem a seguir são quase três horas da Warner tentando ser a Metro. Vamos por partes: 1) Como já consignei algumas vezes, não considero James Mason competente no papel de galã romântico. Ele era um ótimo ator mas não consigo ver química entre ele e Judy. Há também uma certa suavização no personagem de Matt Libby (Jack Carson), bem menos canalha que Lionel Sanders. E o Oliver Niles de Charles Bickford é insípido e não deixa qualquer lembrança. Pelo lado bom, Danny McGuire se torna um dos músicos que toca com Esther e tem uma boa interpretação de Tommy Noonan. 2) Enquanto o filme de 1937 tem uma hora e cinqüenta e transmite maravilhosamente sua mensagem, esta versão virou um elefante branco de 180 minutos. Tudo é demorado, é longo, é explicado demais. Situações que poderiam ter dois minutos acabam tendo dez. Não é culpa da edição, e sim, de Cukor, que, ao fim e ao cabo, optou por uma história longa e enxundiosa, ao invés de ser objetivo e contundente. 3) Os números musicais são o calcanhar de Aquiles desta versão. "The Man That Got Away" é magnífica. E é também a única música que não pesa, nesse filme. Cukor e Hart decidiram mostrar por meio de canções o sucesso, a alegria e a tristeza de Esther, o que não apenas jogou Norman para um canto, quase como coadjuvante do filme, como representa a grande barriga dessa versão.

Judy em um dos números de
"Born in a Trunk"
No meio do filme há um número ("Born in a Trunk") com nada menos do que sete músicas - cenários, atores e coreografias distintas em cada um - para mostrar a um tempo o sucesso e o talento de Esther. É uma seqüência interminável, cara, completamente alheia à história de A Star is Born, e parece uma homenagem aos tempos de Judy na Metro. A cena em que Norman prepara os sanduíches para o jantar é transformada em um número musical ("Someone at Last"); na teoria, entende-se que Esther quisesse animar Norman e para tanto utilizasse uma canção divertida, com palhaçadas e coreografias cômicas. Na prática, arruinou-se a cena mais linda e sentimental da versão de 1937. Aquilo que Gaynor e March fizeram com os olhos, em dois minutos, virou uma número pesado, anárquico, e, fundamentalmente sem graça. Como tudo nessa versão, é DEMAIS. Músicas demais, figurinos demais, opulência demais. 4) Judy Garland tem provavelmente a melhor performance de sua carreira, neste filme. Ou, por outra, ela mostra talento e recursos de uma verdadeira atriz dramática, e não apenas de uma estrela de musicais.

A cena do Oscar
Há, entretanto, duas questões difíceis de engolir: primeiro, Garland foi um das maiores cantoras do século XX e é difícil de acreditar que ainda estivesse quebrando pedras, aos 32 anos. Quando a vemos cantando, ela é uma estrela feita, consumada e consagrada, e não alguém que tem talento mas ninguém descobriu. Janet Gaynor, por exemplo, era uma atriz razoável que nunca se sobressaiu pela beleza. É, portanto, muito mais coerente com o papel de alguém que está sempre no fim da fila, atrás das belezas hollywoodianas mais óbvias. Em poucas palavras, Garland era boa demais para fazer o papel de uma amadora.

Segundo, Cukor decidiu torturá-la pela perfeição e ela ficou over. Esther não sofre a desgraça de Norman com serenidade, carinho e permanente lealdade; ela fica deprimida, atrabiliária, histérica e desvirtua a personagem. Acabamos lembrando da vida real de Garland e de que era ela que de fato tinha problemas com o alcoolismo. O filme sai do romance trágico e resvala desagradavelmente para o melodramático. Também inseriu-se uma fala em que ela diz odiar Norman quando ele tem recaídas e volta a beber. Me parece a própria negação de seu caráter e de sua personalidade. Na minha concepção, a gratidão e a lealdade a Norman eram princípios de tal forma arraigados na alma de Esther que não acredito que ela sequer se permitisse pensar algo assim.

Judy e James Mason

O filme foi indicado a seis Oscars - inclusive Ator e Atriz - mas não ganhou nenhum. Garland perdeu para Grace Kelly (The Country Girl) no que é considerada uma das maiores injustiças do Oscar em todos os tempos. Nem sequer "The Man That Got Away" ganhou Melhor Música, perdendo para a chatinha e profundamente inferior "Three Coins in the Fountain". Para piorar, a Warner não gostou do produto final e cortou meia hora do filme. "Born in a Trunk" foi inteira cortada. Somente na década de 80 o filme foi reconstituído em sua duração original, com o audio completo. Algumas cenas que se perderam definitivamente foram reconstituídas com fotos sobre o audio original. É muito interessante. Mas sinceramente, o estúdio fez muito bem em cortar o que cortou.

A Star is Born ficou 22 anos no vinagre até que Barbra Streisand o ressuscitou. O ano era 1976, todo o glamour de Hollywood era coisa do passado e um time de seis roteiristas liderado por Frank Pierson - que dirige o filme - John Gregory Dunne e Joan Didion repaginou a história. Se Moss Hart colocou um pé na música, Frank Pierson colocou os dois e deixou o cinema de lado. Eram recentes as mortes de artistas como Brian Jones, Hendrix, Joplin e Morrison, e portanto esta versão é sobre o compositor e guitarrista John Norman Howard (Kris Kristofferson), líder de uma banda de rock. Saindo de um show, ele vai a um bar onde Esther está se apresentando com seu trio. John Norman é incomodado por um fã (curiosamente, o jovem Robert Englund, que mais tarde seria Freddy Krueger na famosa série de filmes de terror) que começa a discutir com ele a ponto de atrapalhar o trio. Esther se queixa com John, que se impressiona com ela, lhe dá uma carona mas ela não cai em sua conversa. No dia seguinte, porém, há uma limusine para levar Esther ao local onde John está se apresentando. Ele abandona o show no meio e vai embora com Esther. Ciente de que a moça é cantora e compositora, ele aproveita um evento beneficente dias depois para dar-lhe a chance de cantar em frente a uma platéia. E o resultado é conhecido.

Kristofferson e Streisand
E é nessa irresponsabilidade, em seu comportamento impulsivo, inconseqüente, que percebemos a decadência de John Norman. Como ocorre com 90% do meio artístico, o sucesso e o dinheiro não lhe trouxeram felicidade. Ele bebe demais, interrompe shows, se mete em brigas, confusões, e tudo com o beneplácito de seu assessor particular e faz-tudo, Bobby Ritchie (Gary Busey) e de seu produtor Brian (Paul Mazursky). O produtor seria derivado diretamente de Oliver Niles mas Bobby é mais ambíguo; ele é permissivo e oportunista, não tem maiores preocupações com a saúde ou o bem-estar de John, mas é medularmente profissional e quer que ele cumpra seus compromissos, mesmo que seja só pensando no dinheiro que entrará na conta de ambos. É como se Matt Libby tivesse sido dividido entre Bobby e o radialista canalha (e hilário) Bebe Jesus. E infelizmente desaparece o mitológico tapa em Esther, substituído por um vexame bêbado na cerimônia do Grammy.

Barbra Streisand
O filme é um interessante produto dos anos 70: Kristofferson era jovem, tinha um sorriso simpático e charmoso, e era a personificação do hippie maconheiro de Woodstock. Diz-se por aí que Elvis Presley foi convidado para o papel de John Norman e só não aceitou por decisão do grupo de caipiras que o empresariava na época. Teria sido espetacular assistir Elvis nesse papel. Neil Diamond também chegou a ser cotado mas não pôde. Streisand, por sua vez, é uma Esther bem-humorada, emancipada, pragmática, menos sonhadora que Janet Gaynor e menos dramática que Judy Garland. E muito atraente. O que não tem de beleza tradicional de uma atriz de Hollywood ela sempre supriu com carisma e intenso magnetismo. O romance entre os dois recupera a química do filme original. E Streisand de certa forma corrige algumas falhas do filme de Cukor; ela também odeia John Norman em suas recaídas, mas sentimos em seu olhar o pavor de se separar dele. Como sentimos que a traição de John Norman é um golpe muito maior nele mesmo, e existe um perdão doloroso, uma piedade disfarçada no escândalo que ela faz, quando descobre.

Eu não desgostei do filme. Apenas não consegui me relacionar com as músicas. Streisand é boa; quanto à sua voz e a seu repertório, realmente é necessário ser fã. Enquanto a voz de Garland é um jato grosso e torrencial de lava, a de Streisand assemelha-se a um oboé estridente. Mais uma vez, pelo menos para mim, as músicas foram o calcanhar de Aquiles do filme. Esta versão de A Star is Born recebeu quatro indicações ao Oscar: Direção de Arte, Trilha Sonora, Som e Canção Original para "Evergreen", que a atriz compôs em parceria com o letrista Paul Williams. "Evergreen"
levou o Oscar.

Quarenta anos depois, a franquia foi mais uma vez tirada da naftalina: a versão mais recente é um remake do remake de 1976: roqueiro drogado, alcoólatra e deprimido se apaixona por cantora de bar. Direção de Bradley Cooper e roteiro dele, em colaboração com Eric Roth e Will Fetters, baseado em todos os outros. O nome dele agora é Jack e quando sai do show e vai para um bar, é uma boate drag e a cantora é Ally (Lady Gaga), cantando "La vie en Rose" a plenos pulmões. É uma bela cena e o filme em si é agradável. Eu sinceramente não via mais necessidade de ressuscitar a franquia; tal como é exibida, esta é uma versão atualizada, em HD, do filme de 76, sem o charme do casal protagonista. Bradley Cooper está bem mas sua interpretação é monocórdia, Jack está constantemente bêbado e não há diferentes matizes em sua performance. Mas algumas coisas são propositalmente exageradas, como ele mijar nas calças durante o Grammy, ou se enforcar, ao invés do afogamento das primeiras versões, ou o desastre automobilístico de Kristofferson.

Gaga e Cooper

Criou-se o papel do irmão Bobby, que seria uma mistura do faz-tudo Bobby Ritchie com o produtor Brian, inserindo-se o drama familiar. Sam Elliott agrada bastante, mostrando inusitada sensibilidade em seu papel eterno de durão. Também foi inventado o papel completamente inútil de Lorenzo, pai de Ally, interpretado por Andrew Dice Clay. Quanto à Lady Gaga - me perdoem os fãs - sua performance é simplesmente razoável. Boa, considerando que não é atriz. Só. Não mereceria jamais uma indicação (das oito que o filme recebeu). As músicas e os números musicais são manjados e não memoráveis. O hype em cima desse filme é excessivo e daninho. Os elogios vieram tão hiperbólicos que o público está começando a sacar que se algum Oscar deve ser dado, é pela campanha de marketing.

BOHEMIAN RHAPSODY

O carnaval de elogios melosos e sentimentalóides, e a confusão entre o amor pelo verdadeiro Freddie Mercury e o MÉRITO efetivo do filme, obnubilaram o critério de julgamento do público e da academia. O filme não é ruim, mas está a anos-luz de ser essa maravilha que vemos na imprensa. Rami Malek está suficientemente parecido com Mercury (embora este fosse mais encorpado) mas creio que erra em mostrá-lo como um enfermo de ânimo, quando ele na verdade era apenas tímido em situações em que se sentia oprimido, como entrevistas. A sensação que fica é de que ele era uma pessoa abúlica e incapaz de rir desbragadamente, ou de se divertir, o que não é verdade.

Bohemian Rhapsody é uma cinebiografia sanitizada, asséptica, que traz o beneplácito da família de Mercury. Fosse uma obra honesta e sem compromissos com o politicamente correto, poderia até manter essa espinha dorsal, mas teria descido à promiscuidade e à devassidão que marcaram a vida de Mercury, em seus períodos de depressão e estagnação artística. O sexo livre, excessivo e desprotegido, as festas desregradas e descontroladas, e tudo aquilo que mais tarde atingiu parte daquela primeira geração que sucumbiu diante da AIDS. Não concordo com muitas das críticas feitas pelo movimento LGBT a filmes com temática gay, mas neste caso sou obrigado a concordar que o filme tentou passar ao largo deste importante traço da personalidade de Mercury. Sem falar que terminar o filme no Live Aid foi bonitinho e seguro. Só podemos lamentar, pois o último capítulo da vida de Freddie foi heróica, primorosa e uma ode ao privilégio de estar vivo.

A odisséia de Mercury ainda terá que ser contada. Bohemian Rhapsody tem a profundidade de um filme da Sessão da Tarde.

ROMA

Direção e roteiro de Alfonso Cuarón. O filme é autobiográfico e o título é referência ao bairro da Cidade do México onde se passa a história. É sobre uma mulher que é abandonada pelo marido com seus quatro filhos, e cuja empregada fica grávida de um sujeito qualquer que não quer assumir o filho. Precisei de dois dias para assistir esta bosta do início ao fim. Na tomada inicial - quase cinco minutos de água sendo jogada no chão e refletindo sei lá o quê, enquanto passam créditos que jamais serão lidos - percebi que o filme seria aquilo que eu já imaginava: uma chatice intolerável, esteticamente curiosa, pretensamente artística e completamente vazia. Aquele filme que todo mundo incensa sem nunca ter visto. Os primeiros vinte minutos são só para mostrar a faxineira Cléo fazendo faxina.

O filme tem literalmente todos os vícios, truques e inutilidades que caracterizam essas “obras-primas” de fancaria que provocam orgasmos nos pseudo-intelectuais, e nada mais são do que lixo perfumado por uma campanha publicitária de milhões de dólares: é em preto e branco (mas poderia ser a cores), tem duas horas e quinze minutos (mas poderia ter uma hora e vinte), tem tomadas estupidamente longas de coisas triviais, uma cena cretina de nudez frontal masculina, um sujeito que canta durante um incêndio, quarenta enquadramentos diferentes para uma cena sem qualquer relevância, referências que ninguém entende a coisas que ninguém quer saber, e assim por diante. Nunca um cineasta se esforçou tanto para impressionar leigos, quanto Cuarón, em Roma. Da próxima vez que for homenagear alguém de sua infância, eu rezo para que seja um curta.

VICE

Direção e roteiro de Adam McKay. O filme é sobre uma das figuras mais nefastas da política norte-americana: Dick Cheney. Um zero à esquerda, bêbado e inútil durante a juventude, ele foi cevado na estufa do governo Nixon tendo como mentor outra figura asquerosa, o ex-secretário de defesa Donald Rumsfeld. Cheney foi vice-presidente de George W. Bush, e como este beirava o retardamento mental, o vice acabou sendo, em muitos casos, o presidente de fato. E como tal foi responsável por algumas das medidas mais perversas e desumanas já tomadas por um governante. Ajudou a disseminar a mentira de que havia armas de destruição em massa no Iraque, sancionou prisões absolutamente ilegais dentro e fora dos Estados Unidos, sancionou torturas em Guantânamo, no Iraque e no Afeganistão, e, como presidente da Halliburton - empresa encarregada da reconstrução desses países - quanto mais estrago se fizesse, melhor.

Mckay adotou uma narrativa leve e jocosa, provavelmente com o fito de suavizar uma história que frequentes vezes beira o grotesco. O expediente funciona mas o filme poderia ser mais sério e mais profundo. Embora Cheney seja uma figura ridícula, o mal que fez à humanidade não deveria ser mitigado pelo humor. O elenco é irregular e isso também atrapalha; Sam Rockwell é um bom ator mas seu George W. é caricato demais e isso dá um ar incômodo de paródia ao filme. Amy Adams está perdida e a maquiagem para envelhecê-la não convence. Nenhum dos dois merece a indicação a Melhor Coadjuvante. Quem mereceria essa indicação e não a recebeu é Steve Carrell, sempre ótimo e muito bom no papel de Rumsfeld. E quanto a Christian Bale, é sobejamente conhecida a sua capacidade de mudar fisicamente, de papel para papel. Neste caso, contudo, fiquei surpreso por esperar mais. O roteiro é raso, então a mudança de Cheney me pareceu mais externa do que interna. Mesmo assim, é um trabalho notável.

Recomendo.

CAN YOU EVER FORGIVE ME?

A escritora Lee Israel chegou a ver um ou outro de seus livros - perfis de grandes artistas (como Kate Hepburn) - na lista de mais vendidos do NY Times, nos anos 70. Antipática e desagradável, ela não dava entrevistas e não sabia promover seus livros, o que acabou atrapalhando-a quando mergulhou, anos depois, em um período de esterilidade criativa. Ela pretendia escrever a biografia de Fanny Brice, antiga atriz de vaudeville, mas sua agente a desencorajou, alegando falta de interesse do público de então (início da década de 90) pela personagem. Desesperada para poder pagar suas contas ela vende uma carta manuscrita que recebera de Hepburn. Em outra ocasião encontra acidentalmente duas cartas de Brice em um livro que consultava em uma biblioteca. Vende a primeira e insere um PS jocoso na segunda, o que lhe aumenta imensamente o valor oferecido. Descobre então que existe um mercado bastante movimentado e lucrativo para esse tipo de memorabilia. Também descobre que adulterar ou mesmo forjar completamente essas cartas é relativamente simples, dada a dificuldade de se verificar a autenticidade delas.

Melissa McCarthy finalmente recebeu um papel à altura de seu talento. Não é mais um papel de gordinha sexy ou a gordinha engraçada e atrapalhada, e sim o papel de uma mulher de 51 anos, alcoólatra, lésbica, feia e sem qualquer atrativo. Lee era a frustração e a infelicidade em pessoa, e McCarthy está perfeita em sua composição. Ela tem cenas que vão do moderadamente engraçado ao dramático, ao trágico e ao patético. E o faz muito bem. Admito que o assunto me fala ao coração e é dolorosa a cena em que a gananciosa e estúpida agente de Lee (a brilhante Jane Curtin) ridiculariza sua pesquisa sobre Fanny Brice. É drama vivido por muitos biógrafos.

Richard E. Grant e Melissa McCarthy

Richard E. Grant também está excepcional como o devasso e divertido Jack Hock, comparsa voluntário de Lee. Marielle Heller, a diretora, começou sua carreira como atriz e conseguiu alguma notoriedade dirigindo o filme The Diary of a teenage girl (2015). Desta vez foi bem mais longe: Can You Ever Forgive Me? foi indicado a três Oscars: Melhor Atriz para Melissa McCarthy, Ator Coadjuvante para Richard E. Grant e Roteiro Adaptado para Nicole Holofcener e Jeff Whitty (baseado no livro da própria Lee). Se este não fosse o ano de Glenn Close, eu torceria por Melissa.

Excelente. Recomendo.

AT ETERNITY'S GATE

Em novembro do ano passado, quando escrevi sobre Lust for Life (1956) e Loving Vincent (2017) - os dois mais importantes filmes sobre Van Gogh - não tinha nem idéia de que exatamente na mesma época estava entrando em cartaz, nos Estados Unidos, At Eternity's Gate, também sobre o pintor. O filme tem direção de Julian Schnabel e foi escrito por Jean-Claude Carrière, Louise Kugelberg e o próprio Schnabel. A história começa em Arles, dois anos antes da morte de Van Gogh, quando ele sonhava com a criação de uma espécie de república de artistas e recebe a tumultuada e tumultuosa visita de Gauguin, que acabaria por lhe custar a orelha. Passa-se com celeridade pelo período no hospício de Saint-Rémy e temos o fim em Auvers-sur-Oise.

É um belo trabalho, embora complementar, no sentido de que quem não conhece a vida do pintor, deve começar por Lust for Life, e na seqüência voltar ao filme de Julian Schnabel. O filme é contemplativo, lento (mas não cansativo) e quase sempre em linguagem POV, mostrando o mundo pela visão feérica e desequilibrada de Van Gogh (Willen Dafoe). Os pensamentos do pintor, seus desabafos, suas concepções de vida e suas suspeitas sobre estar perdendo o juízo, certamente constantes de sua correspondência com o irmão, dividem-se em algumas cenas cruciais, como suas conversas com a Madame Ginoux (a linda e sumida Emmanuelle Seigner), com o Dr. Felix Ray (Vladimir Consigny), o padre do hospício (Mads Mikkelsen) e o irmão Théo (Rupert Friend). Já as desavenças entre ele e Gauguin (Oscar Isaac) são menos histéricas e mais mentais, mais psicológicas e trazem alguns dos melhores momentos do filme.

Dafoe interpreta Van Gogh
Gauguin se explica articuladamente a respeito de sua partida, observando que ambos tem temperamentos incompatíveis, e que naquela cidadezinha miserável e ingrata - que pouco depois faria um abaixo-assinado para que Van Gogh não pudesse mais morar lá - you're surrounded by stupid, wicked, ignorant people. Os conceitos de Gauguin sobre a tão propalada "rapidez" com que Van Gogh pintava são emitidos em conversas, e não aos gritos, em eterna discussão, como no caso do filme de 1956. É interessante, para quem nunca se aprofundou na obra do pintor (meu caso), saber que Gauguin achava que o amigo utilizava tinta demais, empelotando a superfície da tela e por isso seus quadros pareciam "esculturas". Se formos analisar, essa é uma das grandes qualidades de Van Gogh, e razão pela qual seus quadros tem um elemento tri-dimensional tão poderoso, e que se prestou tão bem para a composição de um filme como Loving Vincent.

Willen Dafoe está perfeito no papel do pintor. É a última pessoa em quem eu pensaria para interpretar Van Gogh, mas a verdade é que seu rosto magro, escaveirado, marcado pelo tempo, funciona perfeitamente na personificação do pintor, cuja decadência física foi acentuada pelas desgraças sucessivas. Vale ressaltar que o pintor morreu com 37 anos. Dafoe está com 64. E seu trabalho é exemplar. Sua indicação ao Oscar - a quarta - é merecida mas não creio que, na competição, ele vá conseguir derrubar os favoritos, que são Rami Malek e Christian Bale. Essa é a única indicação do filme.

Recomendo.

GREEN BOOK

Um boa incursão de Peter Farrelly pelos filmes sérios. Ele dirige e assina o roteiro, junto a Nick Vallelonga e Brian Currie. História real sobre italiano bronco e racista precisa de dinheiro e aceita ser motorista, segurança e faz-tudo de um renomado e extravagante pianista negro em sua turnê pelos Estados Unidos. No caminho se tornará amigo do pianista e descobrirá como o racismo é odioso. É um filme leve. Sou fã de Viggo Mortensen mas não entendi a sua escolha para um papel tão cheio de clichês italianos como o de Tony Lip. Ele não está natural e seu italianês-nova-iorquino é exagerado demais e parece uma imitação de personagens dos filmes de Coppola e Scorsese. Mahershala Ali está muito bem no papel do dândi e pianista Don Shirlei. Mas não o suficiente para uma indicação. Indicado aos Oscars de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Edição.

THE WIFE

Direção do sueco Björn Runge (naquele que parece ser seu primeiro filme internacional, e roteiro de Jane Anderson a partir do livro de Meg Wolitzer.

Filme sobre mulher que se torna ghost writer do marido, levando-o à fama e ao reconhecimento. Ele, ao invés de ser humilde e agradecido, é mimado e infiel. Quando ele é convidado a receber o prêmio Nobel de literatura ela finalmente não consegue mais viver sem o reconhecimento do trabalho de sua vida. Uma produção magra e quadrada do qual se sobressai única e exclusivamente a performance de Glenn Close. E como ela já foi indicada sete vezes e na maioria dessas ocasiões ela perdeu para uma atriz completamente inferior, é possível que a academia pare de uma vez com essa punheta e dê a ela o Oscar que ela merece há quarenta anos. Mas ficará aquele gosto amargo de saber que ela venceu por uma performance simplesmente ok, sem qualquer dificuldade. De uma forma ou de outra, ela merece.

MARY POPPINS RETURNS

Mary Poppins nunca foi meu filme favorito de Julie Andrews ou da Disney. Achei-o longo e chato. As cenas se arrastam, os números musicais são lentos e burocráticos e as músicas, com raríssimas exceções, são bobas demais, simples demais e não me empolgaram. Mary Poppins é a Maria de Noviça Rebelde só que em versão meio trash, meio militar e meio psicotrópica. Uma espécie de babá do mal, mas com bom coração. O que ficou para mim, do filme, foi o bate-bola redondíssimo de Andrews e o querido Dick Van Dike. Fiquei curioso quando soube que o filme teria um reboot com Emily Blunt e me deu imenso prazer verificar, pelos trailers, que Van Dike teria uma participação. Mas o resultado final foi decepcionante. A trama agora gira em torno de Michael Banks, o menino do primeiro filme. Ele (Ben Whishaw) ficou viúvo, tem três filhos, fez um empréstimo no banco onde seu pai trabalhava (e onde ele próprio acabou indo trabalhar), não conseguiu pagar esse empréstimo e agora está prestes a perder a casa onde morou sua vida inteira. A irmã Jane (Emily Mortimer) seguiu a vida de ativismo da mãe mas é injustamente relegada a segundo plano.

A Mary de Blunt
(Spoilers) Se supõe que talvez uns 25 anos tenham se passado, na história, mas Poppins (Blunt) volta jovem e bonita. Já que todo mundo envelheceu, teria sido perfeitamente normal trazer Andrews como Mary, ou Blunt como filha de Andrews (Soube mais tarde que Andrews foi convidada para o cameo da vendedora de balões, no fim, mas não aceitou. Lamento). Também não concordei muito com a personalidade desta Mary; Andrews era severa de uma maneira cômica, uma coisa professoral, meio reprimida; Blunt é cínica, ridiculariza as crianças e faz lembrar um pouco o Willy Wonka de Gene Wilder; só que Wonka lidava com crianças idiotas e mimadas. Aqui o cinismo por vezes arrogante de Mary está meio off, em relação ao personagem original. Assim como sua disposição para se divertir; novamente, a Mary de Andrews fazia drama e dava sermões antes de se entregar à diversão; a Mary de Blunt não perde tempo e faz o que tem vontade.

Mas o pior foi o que fizeram com Bert, o amado personagem de Van Dike. Eu estava aguardando com lágrimas nos olhos o momento em que se ouviriam os primeiros acordes de Chim chimney chim chim cheree e o agora mais velho e menos ágil, mas igualmente engraçado e adorável Bert entraria cantando. E ao invés disso Van Dike foi jogado no papel sem graça do banqueiro e seu Bert foi substituído pelo insosso Jack, interpretado pelo compositor Lin-Manuel Miranda, que está longe de poder competir com Van Dike. Sim, competir. Porque é ingênuo pensar que quem assiste este reboot não está comparando-o, a cada frame, com a versão de 1964. E Miranda é muito fraco; Blunt se sustenta facilmente pelos números musicais com o charme e a extraordinária beleza; já os números de Miranda são uma tortura.

Enfim, uma decepção.

BlacKkKlansman - Gostei. Há tempos Spike Lee perdeu a capacidade de traduzir artisticamente o seu engajamento. Ao invés de melhorá-lo, a maturidade mostrou que o poço estava seco. BlacKkKlansman redime as duas últimas décadas de Spike Lee. Não que seja extraordinário, mas equilibra com leveza o engajamento, o drama e, principalmente, o humor. Não sei se merecia seis indicações e também não creio que o trabalho de Adam Driver - bom - seja tão notável para que receba uma indicação. Mas no Oscar tudo é possível.

The Ballad of Buster Scruggs - Roteiro e direção dos irmãos Ethan e Joel Coen. O filme contém seis pequenas histórias que se passam no velho oeste. Sei lá... são duas horas e treze minutos... a primeira foi boa... a segunda foi pointless... na terceira ou quarta história eu já estava de saco cheio. Embora eu tenha gostado moderadamente de um ou outro filme deles nos últimos vinte anos, não consigo ver graça nos irmãos Coen. Considero-os insanamente super-estimados.

If Beale Street Could Talk - Muito bom. Barry Jenkins é Spike Lee sem a panfletagem. O filme é baseado no livro de James Baldwin e fala sobre a vida de um rapaz acusado injustamente de estupro, e preso logo depois de seu casamento, deixando a esposa grávida. É um doloroso libelo contra o racismo. Sem ser maniqueísta, há cenas que assustam, revoltam e ensinam. E tudo isso com o trabalho competente do elenco, do qual se sobressai Regina King.

A Quiet Place - Thriller decente dirigido por John Krasinski e valorizadíssimo pela presença de sua esposa Emily Blunt. Monstros atacam quando escutam algum tipo de som, então é necessário estar sempre em silêncio. Pensei que Bird Box já tinha começado a dar cria quando lembrei que BB estreou em novembro e A Quiet Place estreou em março do ano passado. Por outro lado, o livro com a história de Bird Box surgiu em 2014, então talvez o livro tenha inspirado o filme de Krasinski, que inspirou a realização do filme sobre BB. Ou talvez seja tudo uma coincidência. Indicado a Melhor Edição de Som. 

Black Panther - Pronto. Um filme de super-herói foi indicado a Melhor Filme. Parabéns.

2X MARY, QUEEN OF SCOTS

Henrique com Jane Seymour e o filho Edward

Depois de infernizar a vida de tantas mulheres, Henrique VIII conseguiu o que queria: teve um filho homem, Edward, com sua terceira esposa, Jane Seymour. O destino, porém, se vingou de Henrique; Edward virou rei com nove anos e morreu com quinze, sem ter jamais governado, efetivamente. Após a sua morte, a coroa foi para sua verdadeira dona: Mary, a filha que Henrique teve com sua primeira mulher, Catarina de Aragão. Mas a saúde desse povo era um terror e ela também só reinou por cinco anos, morrendo em 1558, aos 42 anos. Ascende, então, ao trono a filha de Henrique com Ana Bolena, Elizabeth.

A coroação de Elizabeth I
Além da consolidação do protestantismo, da permanente oposição dos católicos e as batalhas ocasionais com a Escócia, Elizabeth teve que enfrentar um problema constante: a pecha de bastarda. Pela lei católica, nem Ana Bolena e nem qualquer outra das mulheres de Henrique foi sua esposa. Somente Catarina de Aragão. Logo, em termos de linha sucessória, havia alguém mais próximo do trono do que Elizabeth: sua prima em segundo grau, Mary Stuart. Ela era filha de James V, rei da Escócia, e neta de Margaret Tudor, irmã de Henrique, o que a deixava na invejável posição de herdeira dos tronos inglês e escocês, e unificadora das famílias Stewart (que ela afrancesou para Stuart) e Tudor. O próprio Henrique sabia disso e tentara de qualquer jeito oficializar o casamento de seu filho Edward e sua sobrinha-neta Mary (que ainda eram bebês) pelo Tratado de Greenwich, mas a sua morte, as batalhas religiosas e o medo de que Mary fosse assassinada fizeram com que ela fosse levada à França quando tinha apenas cinco anos. Ela passou lá toda sua infância e aos dezesseis anos se casou com o Dauphin, que no ano seguinte perdeu o pai e se tornou o Rei Francis II.

Mary, em "luto branco"
Mas, pra variar, ele também não primava pela boa saúde e morreu apenas dois anos depois, deixando sua mãe, Caterina de Medici no trono da França. No mesmo ano morreu Marie de Guise, mãe de Mary, que atuava como regente na Escócia, desde a morte de seu marido. O trono foi assumido provisoriamente por um filho bastardo de James V, portanto meio-irmão de Mary, que governou até que ela viesse da França, em 1561. E é nesse momento que começa o filme Mary Queen of Scots, dirigido pela iniciante Josie Rourke e roteirizado por Beau Willimon, com base no livro "Queen of Scots: The True Life of Mary Stuart", escrito por John Guy.

Sem ser nenhuma obra-prima e, sobretudo, sem ter grandes compromissos com a acuidade histórica, o filme é bom. É história misturada com ficção, como não pode deixar de ser, em se tratando de algo que remonta ao século XVI e vem de fontes mirradas e diretamente antagônicas; Mary era católica em um momento em que tanto a Inglaterra quanto a Escócia abraçavam fanaticamente o protestantismo.

Logo, seus poucos biógrafos se dividem entre calvinistas e huguenotes que a odiavam e a consideravam uma herege monstruosa e desavergonhada, e católicos fervorosos que a admiravam incondicionalmente e escreveram panegíricos sobre sua existência. Mais uma vez, nunca saberemos.

O público caiu de pau sobre o filme por algumas razões específicas: 1) Mary (Saoirse Ronan, boa como sempre mas assustadoramente magra) fala com acentuado sotaque escocês. 2) A diretora achou por bem jogar um osso à patrulha da diversidade e escalou um ator negro (o também sempre competente Adrian Lester) para o papel de Lord Randolph, o emissário de Elizabeth na Escócia, e uma atriz de origem chinesa (Gemma Chan) para o papel da palaciana inglesa Bess Hardwick. 3) Da mesma forma, a diretora decidiu agradar o movimento LGBT inserindo um romance homossexual entre o Lord Darnley (Jack Lowden), segundo marido de Mary, e o músico da côrte e confidente da rainha, David Rizzio (Ismael Cruz Cordova). 4) Por fim, o clímax do filme é um encontro entre Elizabeth (Margot Robbie, competente mas não ideal para o papel) e Mary, no qual elas discutem e lavam a roupa suja. Encontro que nunca aconteceu.

A Mary de Saoirse Ronan
Das quatro queixas, apenas as duas primeiras procedem: 1) Tendo vivido na França dos cinco aos dezenove anos, o mais provável é que o inglês de Mary fosse claudicante e ela falasse com um fortíssimo sotaque francês. Entretanto, comenta-se que ela dominava pelo menos quatro idiomas, então não é impossível que tenha treinado seu inglês durante a vida, ou preservado o sotaque. É pouquíssimo provável, mas não é impossível. 2) Realmente, é uma licença poética do outro mundo achar que havia negros e orientais na côrte elizabetana. Kenneth Brannagh saiu ileso disso quando escalou Denzel Washington e Keanu Reeves para seu Much ado about nothing (que se passa na Itália), ou ambientou o seu As You Like it no Japão (sendo que a ação se passa na França), com um casal protagonista que incluía um negro e uma loira de olho azul, por uma razão muito simples: são obras de ficção. Shakespeare. Já no caso de Mary e Elizazbeth, embora exista um determinado grau de tolerância para idéias ou invenções do diretor, há também um limite, e grande parte do público achou que a diretora simplesmente lançou mão de uma jogada de marketing.

No caso das duas outras queixas, entramos em um precedente interessante que o público atual ignora: o filme Mary, Queen of Scots, dirigido por Charles Jarrott com roteiro original de John Hale, lançado no fim de 1971. Foi precisamente a dupla Jarrott/Hale que dois anos antes trouxera Henrique VIII à ordem do dia com o magnífico Anne of the Thousand Days, a partir da peça escrita por Maxwell Anderson. Em 1970 Hale foi convidado pela BBC para escrever o roteiro do primeiro capítulo de Elizabeth R, minissérie sobre a vida da rainha, em seis partes (cada uma com um roteirista e um diretor diferente). A protagonista foi a ótima Glenda Jackson, premiada com um Emmy pelo seu trabalho. O sucesso da série foi tal que Jarott e Hale filmaram nesse mesmo ano de 71 o filme sobre Mary. Glenda foi chamada para reprisar seu papel de Elizabeth e o papel-título foi para Vanessa Redgrave. Os dois filmes são obras autorais independentes mas guardam algumas semelhanças notáveis que nos dão a entender que Josie Rourke e Beau Willimon se inspiraram bastante no trabalho de Jarrott e John Hale.

Não conheço uma única evidência histórica para o homossexualismo de David Rizzio e o Lord Darnley. Pelo contrário; imagina-se que a conspiração para matar Rizzio tenha surgido justamente dos boatos de que ele, como confidente e secretário de Mary, fosse de fato o pai da criança que ela estava esperando. E no entanto essa trama está inteira no filme de Jarrott (não sei se Hale a criou ou se inspirou em algum relato para escrevê-la) e Josie Rourke deu apenas um copy/paste na coisa toda. As cenas que envolvem Rizzio e Darnley são até parecidas com aquelas feitas brilhantemente por Ian Holm (Rizzio) e Timothy Dalton (Danley) no filme de 1971. O mesmo se pode dizer da cena do assassinato de Darnley.

A Mary de Vanessa Redgrave
Quanto ao encontro das duas rainhas, não é nenhuma novidade e remonta à peça de Schiller, escrita no ano de 1800. Jarrot e Hale deram sua própria versão e agora Josie Rourke fez a sua. Não entendi o porquê de tanta revolta. Jogando-se em um liquidificador as cartas trocadas por ambas e alguns relatos contemporâneos, tem-se uma idéia razoável do que elas pensavam, uma da outra. Não chega a ser uma aberração, portanto, que se crie uma cena com as duas. Voltamos ao que foi dito acima: trata-se de uma mistura de história com ficção. Quem estiver tão indignado com essa junção deve assistir um documentário. A título de curiosidade, na cena do filme de Rourke, Elizabeth humilha-se para Mary, tirando sua peruca e mostrando que estava praticamente careca; na vida real, aconteceu um fato bizarro algo semelhante depois da decapitação de Mary. O carrasco foi erguer a cabeça da rainha morta pelo cabelo para exibi-la ao público e gritar God Save the Queen, e quando puxou o cabelo veio só a peruca e a cabeça ficou, revelando que os anos de cárcere privado haviam sido funestos para Mary.

Glenda Jackson (Elizabeth) e Vanessa (Mary) durante a gravação
da cena do encontro das rainhas

A Elizabeth de Margot Robbie
No mais, temos o Lord Bothwell, o terceiro marido de Mary; uma fonte antiga afirma que ele violentou Mary e a obrigou a casar-se com ele. Outra desmente categoricamente essa versão. Então no filme de Jarrott, Bothwell (Nigel Davenport) é um guerreiro nobre e o grande amor de Mary; já na versão de Rourke (interpretado por Martin Compston) ele é um reles guarda-costa, bronco e acanalhado. James, o meio-irmão de Mary, é maquiavélico e insensível no filme de 71 (interpretado por Patrick McGoohan), e fraco e influenciável na versão atual (interpretado por James McArdle). A Elizabeh de Glenda é durona e determinada enquanto Margot Robbie instila-lhe uma certa doçura e vulnerabilidade, o que também horrorizou o público mais apegado à história. E nos dois filmes Mary tem os olhos azuis, quando historicamente seus olhos eram castanhos.

Considero superior o filme de 1971 (indicado a cinco Oscars, incluindo Melhor Atriz para Vanessa; não levou nenhum) mas não sou tão rápido em desmerecer o trabalho de Rourke (indicado por Maquiagem e Figurino) pelas falhas apontadas. Ele merece ser visto.

* Mary Queen of Scots concorre aos prêmios de Melhor Figurino e Melhor Maquiagem.

THE FAVOURITE

Ano prolífico para a Casa de Stuart. Além de Mary Queen of Scots, temos também The Favourite, sobre a rainha Anne (1665/1714), trineta de Mary e a última Stuart. A direção é do grego Yorgos Lanthimos (que ficou conhecido pelo estranhíssimo The Lobster, de 2015) e roteiro de Deborah Davis e Tony McNamara. No filme a rainha (Olivia Colman) é viúva, perdeu a saúde por conta de dezessete gravidezes mal-sucedidas, sofre de violentos ataques de Gota e, sendo uma mulher cretina e ignorante, é dominada pessoal e politicamente por sua amiga e camareira Sarah Churchill (Rachel Weisz), esposa do Lord Marlborough (Mark Gatiss), que na época liderava as forças inglesas na Guerra da Sucessão Espanhola. A intimidade das duas é de cama, mesa banho. Chamam-se por apelidos jocosos, a rainha é Mrs. Morley, Sarah é Mrs. Freeman. Anne não aprecia a intromissão excessiva de Sarah em assuntos políticos, como também se ressente da honestidade brutal e até cruel de sua companheira. Não prescinde de sua amizade e de sua presença na côrte, porém. Isso até que chega à côrte uma prima de Sarah, Abigail Hill (Emma Stone), cujo pai perdera tudo no jogo, levando a família à miséria.

Rachel Weisz (Sarah) e Olivia Colman (Anne)

Abigail pede humildemente um emprego à prima, que lhe concede a mais subalterna das posições, em meio à criadagem. Mas Abigail era inteligente e na primeira oportunidade se infiltrou nos aposentos da rainha, que dormia, e lhe aplicou um remédio à base de ervas para aliviar as queimações da Gota. Sarah a pega em flagrante e manda açoitá-la. A rainha, entretanto, comenta que o remédio lhe fizera bem; Sarah muda de idéia e dá à prima um emprego como sua assistente. As duas se tornam amigas, mas sem maior intimidade ou confiança. Aos poucos Abigail vai se dando conta de como a rainha é manipulada por Sarah e começa aí uma batalha sem tréguas entre as primas, pelo favoritismo da rainha.

Olivia (Anne) e Emma Stone (Abigail)

A rainha Anne
A história é quase que integralmente uma criação de Deborah Davis e Tony McNamara. Na realidade: 1) o conflito político-partidário é muito maior do que o filme demonstra e provocara anos antes o esfriamento da amizade entre Sarah e Anne. 2) Abigail não caiu de pára-quedas no palácio. Quando soube da desgraça da família de sua prima, Sarah lhe ofereceu o emprego de camareira, seja por caridade ou por vergonha. 3) Abigail e Harley também eram primos. As cenas em que Harley maltrata ou bate em Abigail não são reais. 4) Durante grande parte do que acontece no filme, o marido de Anne - o obeso e medíocre George da Dinamarca - estava vivo. Ele morreu em 1708, quando Abigail já estava no palácio. 5) O ciúme de Sarah não se deve tanto à amizade de sua prima com a rainha, quanto ao medo de estar perdendo sua influência política junto à Anne. 6) Não há nenhum indício histórico de que Anne e Sarah fossem lésbicas. O que se sabe ao certo é que em algum momento depois de morto o marido de Anne, Sarah mostrou a ela um epigrama escrito por um foliculário whig que sugeria sarcasticamente uma relação íntima entre a rainha e Abigail. O fato não teve qualquer repercussão e só serviu para aniquilar de vez a velha amizade das duas.

Sarah Churchill
Vale ressaltar também que Anne passou para a história como uma mulher burra e despreparada para seu cargo por uma razão muito simples: Sarah (1660/1744) viveu trinta anos além de Anne e dois anos antes de sua própria morte ela lançou suas memórias - "An account of the conduct of the Dowager Duchess of Marlborough" - dando vazão a todo seu ressentimento e deixando um retrato nada lisonjeiro de sua velha amiga para a posteridade. Somente no século XX os pesquisadores compreenderam que Sarah não passava de uma burguesa intriguenta e inútil, e suas memórias não tinham qualquer valor a não ser para incensar quem ela gostava e enxovalhar quem em algum momento a desagradou. Sem ser uma estadista, não tendo traquejo político e não gozando de boa saúde, Anne fez o que pôde durante os doze anos de seu reinado; interessava-se pelos assuntos de Estado, ajudou a Inglaterra a se tornar uma potência militar ainda mais respeitada, foi mecenas das artes, condecorou Isaac Newton e hoje é considerada uma rainha responsável pelo progresso de seu reino.

Abigail Hill
O elenco é espetacular. É um verdadeiro tour de force entre Olivia Colman (Anne), Emma Stone (Abigail) e Rachel Weisz (Sarah). O talento de Weisz é conhecido e ela é uma Sarah perfeitamente charmosa e detestável; Stone não é a escolha ideal para a personagem, já que não é inglesa, mas está ótima como sempre, e Colman, que está há quase vinte anos relegada a papéis menores na televisão, dá um verdadeiro show de talento. Todas as suas cenas são excepcionais. O roteiro é brilhante, cáustico e põe a descoberto sem maiores sutilezas a sordidez de uma côrte de áulicos e cafajestes. A cinematografia, com o permanente widescreen é inesperada sacada de mestre, assim como a trilha incidental, compassada e repetitiva, que cria um clima e um ambiente perfeitos de tensão. Uma beleza de filme. Ao contrário da maioria dos outros concorrentes, merece cada uma de suas dez indicações.

Rachel Weisz, Olivia Colman e Emma Stone


EFEITOS ESPECIAIS

2x CHRISTOPHER ROBIN

Não fazia idéia de quem era Christopher Robin, personagem-título do filme de Marc Foster, indicado ao Oscar de Efeitos Especiais. E na busca pelo filme acabei trombando em uma produção de 2017 chamada Goodbye, Christopher Robin. A presença de Margot Robbie me chamou a atenção e resolvi assisti-lo também. E valeu a pena, porque são produções inteiramente diferentes. Para quem (como eu) não sabe, Christopher Robin é a criança que faz parte da turma de Winnie-the-Pooh (o Ursinho Puff), personagens criados pelo inglês A. A. Milne. O escritor se inspirou no próprio filho, Cristopher, para criar o personagem.

A idéia da criança que interage com animais, seres imaginários ou sobrenaturais, e perde essa capacidade quando se torna adulta, não é exatamente nova, mas Christopher Robin - como bem observou a seção de Trivia do IMDB - é, em tudo e por tudo, um reboot de Hook (1991), dirigido por Spielberg, sobre o Peter Pan que cresceu, casou, perdeu sua capacidade de sonhar e se divertir, ignora a esposa e o filho e de repente aparece um personagem da sua infância que o leva de volta ao mundo do faz-de-conta que o obriga a rever seus conceitos e a valorizar aquilo que realmente importa na vida. No filme em questão, Christopher (Ewan McGregor) cresceu, lutou na segunda guerra, voltou, se casou com Evelyn (Hayley Atwell), tem uma filha, Madeline (Bronte Carmichael), e trabalha de sol a sol em uma empresa que produz malas e maletas de couro.

Pooh e Ewan
Ele é um marido insensível, um pai ausente e seu patrão (Mark Gatiss) está prestes a fechar o setor do qual Christopher é responsável, para cortar gastos. Dá ao funcionário o fim de semana para que crie um plano que diminua os custos, se quiser manter o departamento. É o fim de semana que Christopher planejara viajar com a mulher e a filha para sua casa de campo; ele cancela a viagem - partindo o coração das duas, como sempre - e tenta criar um plano de contenção de gastos. É quando, do nada, ele cruza com Winnie-the-Pooh em um parque, em Londres, e o leva para casa. Winnie está preocupado porque se perdeu de seus amigos (Eeyore, Tigger, e etc.). Christopher tenta se livrar dele mas é tal a bagunça que o urso faz em sua casa que ele resolve levá-lo de volta para a floresta, próximo à casa de campo onde estão sua mulher e sua filha. E lá ele terá uma série de experiências que o fará reavaliar sua vida.

Goodbye, Christopher Robin, dirigido por Simon Curtis é a história real da relação entre o autor Alan Alexander Milne (Domhnall Gleeson), sua esposa Daphne (Margot Robbie) e o filho de ambos, Christopher Robin (Will Tilston, possivelmente o menino mais fofo que já vi em toda a minha vida). O escritor era veterano da primeira guerra e os traumas o levam a deixar a atribulada e barulhenta Londres por uma casa de campo em Sussex, onde pretendia utilizar a tranqüilidade e o tempo livre para escrever um livro que condenasse a guerra e incentivasse a paz. A mudança provoca um estresse em seu casamento, já que a esposa tem fumaças de nova-rica, adora uma festa e, afinal de contas, aqueles eram os "crazy twenties". Ela abandona o marido e o filho temporariamente com a babá (Kelly Macdonald) que mora com eles e sem querer acaba criando algo que não existia: uma aproximação entre pai e filho. Eles passam juntos o tempo todo, andando, brincando, e Milne começa a divisar a possibilidade de transformar as brincadeiras do filho com seus animais de pelúcia, em meio á natureza, em histórias infantis. E assim nasce Winnie-the-Pooh.

Domhnall Gleeson (Alan Milne), Will Tilston (Christopher Robin) e Pooh

O extraordinário sucesso financeiro dos livros de contos com Winnie e Christopher Robin traz Daphne de volta, como por milagre, e o garoto se torna uma celebridade. Mas tanto Milne - preocupado com a criação de novos contos - quanto Daphne - preocupada que o dinheiro continue entrando, torrencial - esquecem daquilo que é mais importante: Christopher tem apenas oito anos, é uma criança que precisa dos pais, e só quem realmente pensa em seu bem estar é a babá Olive. E a partir daí veremos as sérias conseqüências que a associação de seu verdadeiro nome com o do personagem mais famoso da Inglaterra, naquele momento, trarão ao jovem Christopher.

Alan Milne, Christopher e Pooh
Os dois filmes são bons mas a produção de Foster é, de certa forma, mais uma das aventuras de Winnie-the-Pooh. É uma fantasia bonita e agradável com um excelente trabalho do elenco e um ótima animação dos animais e dos bichos de pelúcia, malgrado, como já se viu, a nenhuma originalidade de seu roteiro. O filme de Simon Curtis, por outro lado, traz uma abordagem real e dramática do que foi a vida de Christopher Robin. (spoilers a seguir) Ele deplorou os livros que o trazem como protagonista a vida inteira, se afastou dos pais, não teve nada a ver com as produções da Disney que ressuscitaram Winnie na década de 60, e só aceitou algum dinheiro da fortuna que o personagem rendia e ainda rende, para poder cuidar de sua própria filha, que nasceu com paralisia cerebral. Robin morreu em 1996 mas deixou seu desabafo consignado em alguns livros de memórias que certamente formam a espinha dorsal do roteiro escrito para esse filme por Frank Cottrell Boyce e Simon Vaughan. Não por coincidência, o primeiro deles, "The Enchanted Places", é dedicado á babá Olive (fim dos spoilers).

Recomendo os dois, mas sugiro que Goodbye, Christopher Robin (2017) seja visto primeiro.

FIRST MAN

Filme sobre os anos que antecederam a missão espacial Apollo 11 (na qual o homem pisou em solo lunar) seguindo a vida de Neil Armstrong.

A julgar pelo filme e pela interpretação preguiçosa de Ryan Gosling, Neil era um homem chato, abúlico e traumatizado pela morte da filha. O contrário de Buzz Aldrin (Corey Stoll), bem-humorado ao extremo, tocando as raias da inconveniência. Buzz, por sinal (que está vivo, com 88 anos), é mostrado como um reles ambicioso que pouco se importava com a morte de seus colegas e só estava aguardando a sua vez de participar nas missões espaciais. Se é uma análise justa, não faço idéia.

O filme é bom, historia com inteligência os eventos que desembocaram na Apollo 11 mas a meu ver é extremamente mais longo do que seria necessário. E Ryan Gosling também nunca me convenceu e ainda passará muito tempo até que eu compreenda o porquê de alguém tão limitado estar no "A List" de Hollywood.

Claire Foy

Pelo lado positivo, Claire Foy está estupenda como Jan, a esposa de Neil. Não conhecia essa atriz porque nunca assisti The Crown, mas fiquei prazerosamente surpreso com sua performance. O filme deve receber indicações ao Oscar; espero que uma seja para Claire.

Recomendo.

Ready Player One - Muito bom. Num mar de tecnologia vazia e de franquias de microondas, Spielberg volta em grande forma, num de seus melhores filmes dos últimos anos, e ensina a fazer cinema e entretenimento. O roteiro é de Zak Penn e Ernest Cline, baseado no livro de Ernest. História dinâmica, divertida e emocionante, e um elenco acima da média liderado pela maravilhosa Olivia Cooke. Recomendo.

Avengers: Infinity War - Bom. Nem sei mais qual é um e qual é outro, mas bom.

Solo: a Star Wars Story - Não vi e não verei. Acho que ninguém viu.


ANIMAÇÃO

Mirai no Mirai - É a história do menino Kun, cujos pais acabaram de ter uma filha - Mirai - e devotam a ela toda sua atenção. Isso causa crises enormes de ciúme no garoto, que a cada ataque histérico é transportado para o mundo de sua imaginação, onde não há barreiras de espaço e tempo. Lá ele vai interagir com a Mirai do futuro, já adolesente, com seu avô na juventude, com a personificação humana de seu cachorro, com sua mãe quando era criança, e assim por diante. E a cada um desses contatos ele vai aprendendo a lidar com as inevitabilidades da vida. Já assisti algumas coisas de Mamoru Hosoda (conhecido inicialmente por ter dirigido a adaptação televisiva do célebre mangá "Samurai Champloo"); gostei particularmente de Ookami kodomo no Ame to Yuki ("Crianças Lobo") mas não se pode dizer que sou fã dele. A simples verdade é que Miyasaki aumentou de tal forma a qualidade desses desenhos, que não é qualquer coisa que me impressiona, hoje em dia. Mirai é bom mas me cansou um pouco. E o personagem Kun está longe de ter a graça e o carisma das meninas criadas pelo Ghibli. Mas vale conferir.

Isle of Dogs - Quando estoura uma epidemia de gripe canina na cidade de Megasaki, o governante (que ama gatos e odeia cães) manda matar um médico que descobre a cura para a doença e passa uma lei que obriga todos os cães infectados a serem enviados para uma ilha, onde eventualmente morrerão de fome. Só que uma das crianças que ficou sem seu cachorro resolve ir até a ilha resgatá-lo. Pelo lado positivo, trata-se de um filme visualmente interessante, considerando que não se trata de CGI e sim de stop-motion. É só o que tenho a dizer de bom. E pelo lado ruim, não consigo ver graça em cães falando articuladamente, com vozes humanas. Me parece uma subversão horrorosa da natureza divina dos cães, que é divina justamente porque está distante da natureza humana, sobretudo dos adultos. Então ouvir um cachorro com a voz de Edward Norton dizendo “I miss my master” é no mínimo estranho. Isle of Dogs não me emocionou, não me fez rir e não me causou nada.

Spider-Man: Into the Spider-Verse - Empresário se sente responsável pela morte da mulher e do filho e constrói um colisor de hádrons para tentar encontrá-los ainda vivos em outras dimensões. Só que a utilização equivocada do colisor abre um portal que mistura as dimensões e acaba reunindo cinco pessoas (incluindo um porquinho) que foram mordidas por aranhas radioativas e tem diferentes super poderes. Eles se unem para destruir o colisor e retornar a suas dimensões. É uma bela animação e teria sido melhor ainda se tivesse sido feita em formato de filme. Gostei. Acho que a nota 8.6 do IMDB é ridiculamente alta e evidentemente não merecida, mas gostei. E isso é muito, se levarmos em conta o quanto eu já estou de saco cheio de filmes de super herói.

Incredibles 2 e Ralph Breaks the Internet - Tecnicamente impecáveis. E completamente esquecíveis.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Minestrone Cultural XV


O PATATIVA

Mais textos deste blog sendo usados em teses de mestrado e doutorado. Neste caso, da UFU e da UFMG. O ego agradece.



COLETTE (2018)

Achei curioso que Glenn Close tenha sido indicada para o Globo de Ouro pelo filme "The Wife" e nem um pio foi dado sobre "Colette", com Keira Knightley. Não é desdouro nenhum à magnífica Glenn Close, a quem que considero a melhor atriz norte-americana viva, mas ao fato de que são dois filmes basicamente sobre o mesmo assunto: uma mulher que trabalha como ghost-writer do marido, fazendo dele um escritor consagrado. Com uma simples diferença: a história de Colette é real. É a história da escritora francesa Sidonie Gabrielle Colette (1873/1954), que começou escrevendo livrinhos picantes sobre a adolescente Claudine (para agradar a clientela vulgar e ignorante do marido), que se transformaram em verdadeira coqueluche na Paris do início do século XX. Mais tarde, livre do marido inútil e perdulário - a quem deixou por outra mulher - e escrevendo sob seu próprio nome, ela se tornou a escritora mais famosa da França, além de um ícone da liberdade sexual.

O filme é interessante e dinâmico. Keira Knightley está bem, assim como Dominic West e todo o elenco. Mas em se tratando de uma escritora tão célebre e socialmente tão avançada e progressista, eu desejaria que o trabalho tivesse sido mais profundo. Tal como é contada, a história dá uma sensação de que foi tudo preto no branco, se encaixou perfeitamente e acabou. E não foi assim. A vida de Colette foi muito mais complexa e interessante. Um roteiro menos raso e pelo menos meia hora a mais de filme teriam feito a diferença. Mas é entretenimento de primeira.

Recomendo, sobretudo nestes tempos de efervescência LGBT.

PS: Roberta, começou a temporada 2019 de prêmios cinematográficos, rs. (6/12/2018)

2x LIZZIE

A história real da norte-americana Lizzie Borden, que no fim do século XIX foi acusada de assassinar o pai e a madrasta a machadadas já foi retratada por Hollywood algumas vezes. Há duas versões mais conhecidas: a de 1975 feita para TV, dirigida por Paul Wendkos e estrelada pela linda e saudosa Elizabeth Montgomery, e uma versão que acaba de ser lançada no cinema, produzida e estrelada por Chloë Sevigny com direção de Craig William Macneill.

Também são duas as maneiras que existem de se realizar um filme sobre Lizzie (e sobre qualquer fato verídico): tomando por base a documentação existente e utilizando uma licença poética aqui e ali; ou pura e simplesmente ignorando tudo isso e enveredando pela ficção. Ambas são válidas, e a segunda tem grande potencial artístico quando se trata de um personagem que já está distante no tempo. O problema é que Lizzie não está tão distante assim e ainda que existam lacunas abismais sobre o duplo assassinato e seja, efetivamente, um caso não resolvido, os autos do inquérito e a cobertura da imprensa são copiosos e o espectador curioso vai saber quando o roteiro estiver invadindo o terreno da invencionice.

Kristen: Bridget
Conseqüentemente, são duas as formas de analisar esses filmes: leva-se em conta a fidelidade àquilo que é real e comprovado ou passa-se o largo disso e a análise se limita ao mérito artístico. Os dois filmes sobre Lizzie se enquadram perfeitamente nessa dicotomia. "Lizzie", de 2018, roteirizado por Bryce Kass, traz como fio condutor da trama o suposto romance de Lizzie com a empregada Bridget, que no filme é interpretada por Kristen Stewart. Lizzie tem uma vida infeliz; está com 32 anos e é solteira, epilética, é desprezada pela madrasta (Fiona Shaw) e seu pai (Jamey Sheridan, como sempre um ótimo bully) é um canalha insensível e abusivo. Como se isso não bastasse, por questões de segurança o velho planeja transferir a herança dele e de sua finada esposa para o ex-cunhado (Denis O'Hare), o que deixaria Lizzie e sua irmã Emma (Kim Dickens) inteiramente dependentes de um tio mau caráter com quem elas não tem qualquer relação. Bridget, por sua vez, é uma pobre imigrante irlandesa que trabalha de sol a sol e é estuprada pelo patrão todas a noites. Unidas pela desgraça, as duas se apaixonam, começam a ter um caso secreto e Lizzie a convence a tomar parte no plano de assassinar o pai e a madrasta.


Chloë Sevigny e Kristen Stewart estão excelentes. O elenco é bom, a produção é de primeira e artisticamente é um ótimo filme. Já em termos de veracidade, ele não tem qualquer valor. É uma obra quase que estritamente de ficção. O roteirista se baseou no livro de Evan Hunter, que - surpresa! - é um ROMANCE. Chama-se "Lizzie, a NOVEL". Lizzie era solteira e epilética mas os principais acontecimentos, a começar por seu romance com Bridget, seguindo pelo odioso vilão no qual é transformado o tio John, os estupros de Bridget, e etc., são invenção do escritor e do roteirista. Para quem não conhece e nem quer conhecer a história real de Lizzie, vale a pena. Mas se houver interesse em um relato minimamente fiel ao que de fato aconteceu no fatídico 4 de agosto de 1892, é melhor assistir "The Legend of Lizzie Borden", lançado em 1975.

O filme estrelado por Elizabeth Montgomery é uma produção da emissora ABC e teve orçamento bem mais modesto. O trunfo do filme era trazer Montgomery, que estava tentando se livrar da imagem de Feiticeira com filmes arrojados e bem feitos, e vinha se firmando como uma ótima atriz dramática. O roteirista William Bast tomou pouquíssimas liberdades e se manteve bem próximo à realidade dos fatos: Malgrado a avareza patológica do velho Andrew Borden (Fritz Weaver), a família era rica e pertencia à alta sociedade de Fall River, Massachusetts; Lizzie era mimada, prepotente e jamais teria um caso com a empregada (Fionnula Flanagan). Primeiro porque não existe uma única prova ou mesmo suspeita de que fosse lésbica (uma completa invenção de Evan Hunter), e segundo porque ela não era simpática e agradável com a criadagem, como faz crer o filme de 2018. Andrew Borden, em compensação, é mostrado como um tarado sexual, cujas perversões vão da necrofilia (um de seus comércios era de confecção de caixões e embalsamamento) à uma atração horrivelmente imprópria por Lizzie. Tudo, evidentemente, com o pudor e a decência que exigiam os filmes veiculados em TV aberta, na década de 70.

Montgomery: muito boa
Ausente o episódio fictício do romance lésbico, "The Legend of Lizzie Borden" tem a vantagem de se concentrar bem mais no inquérito e no julgamento de Lizzie. Ficamos sabendo que houve mais de uma suspeita de envenenamento na residência dos Borden; que a polícia foi de uma incompetência ímpar em todo esse processo; que Lizzie era dada à prática de pequenos furtos em sua casa e em lojas; que ela incinerou um vestido no fogão da cozinha nos dias subseqüentes ao crime; e, mais importante, que ela recebeu doses de morfina todos os dias para acalmar os nervos, desde o assassinato até o fim do julgamento. Quando a promotoria acusou Lizzie de múltiplas contradições no depoimento dado durante o inquérito, a defesa alegou, com êxito, que isso era efeito colateral do consumo de morfina. Houve quem levantasse a hipótese, tempos depois, de que a prescrição equivocada de morfina poderia ter provocado em Lizzie um surto de Fuga Dissociativa, o que transformaria o assassinato, no máximo, em homicídio culposo.

No filme de 2018 a prisão preventiva de Lizzie parece a de um preso político sendo jogado em um buraco sem ventilação. Nada mais distante da realidade; o julgamento de Lizzie se tornou ponto de honra do recém-nascido feminismo e atraiu tanta atenção que seu advogado de defesa não foi nenhum outro senão o ex-governador de Massachusetts, George Robinson (Don Porter).

Recomendo os dois filmes. O primeiro é fiel aos fatos. O segundo é uma boa ficção. (14/12/2018)

ISOLDA BOURDOT

Isolda e Roberto, em 2018

Morreu Isolda, com apenas 61 anos.

Ela compôs "Outra Vez" quando tinha 20 ANOS. A música tornou-se seu "signature piece" e sucesso eterno na voz de Roberto, a partir de 1977.

Na minha concepção "Outra Vez" é uma das melhores canções de amor do cancioneiro brasileiro em todos os tempos. Está no mesmo panteão das obras-primas de Tom, Vinícius, Lyra, Dolores, Chico, Caetano, Gil, Roberto, Erasmo, Moraes Moreira, e poucos outros.

Esse LP de Roberto, especificamente, tem um valor sentimental imenso para minha família. Foi lançado, como sempre, no Natal de 1977. A primeira música é "Amigo", outro sucesso eterno, que Roberto compôs para Erasmo. Meu tio (afetivo) aproveitou a canção e presenteou meu pai com esse disco, junto a uma dedicatória linda e inesquecível, celebrando a magnífica amizade dos dois por 40 anos.

Minha mãe gostava do disco. Ela e meu pai acompanharam Roberto de perto desde a época da Jovem Guarda, cujo programa assistiram várias vezes ao vivo no Teatro da Record. Mas quando meu pai morreu inesperadamente, poucos meses depois do lançamento desse LP, a música "Outra Vez" assumiu um significado real, brutal e doloroso para ela.

Essa música foi, de certa forma, banida, em nossa casa. Eu, que amava o dico, tinha que ouvi-lo praticamente escondido. Porque sabia que essa música era um gatilho para todas as lembranças do mundo.Vi minha mãe chorar ao ouvir "Outra Vez" por décadas seguidas.



Era a sensibilidade inigualável de Isolda.
Do fundo do meu ateísmo rezarei uma prece de gratidão a ela, hoje, por ter nos dado esse diamante de sentimento que é "Outra Vez". (18/12/2018)

LOVE & MERCY (2014)

Não sabia da existência deste ótimo filme sobre a grande batalha de Brian Wilson por sua sanidade mental. Pior: como nunca tive predileção maior pelos Beach Boys, a única coisa que eu sabia é que Brian teve um breakdown homérico, no estilo de Arnaldo Batista. Mas estava alheio ao fato de que teve um pai invejoso e canalha; que compôs obras-primas quando se cansou de escrever as bobagens que levaram os Beach Boys à fama; e que mais tarde esteve sob a tutela médica e legal de um médico cafajeste e depravado, que o transformou em um receptáculo de remédios controlados e quase o levou à morte.

Lembro-me vagamente de suas primeiras entrevistas depois do longo e tenebroso inverno de anos e anos que passou, tendo Gene Landy como guardião legal. Ele parecia um autômato. Os remédios para sua mal-diagnosticada esquizofrenia haviam devastado sua mente. O filme acompanha em flashback a curva descendente de sua sanidade - mostrando o processo criativo dos últimos discos de Brian com os Beach Boys - ao mesmo tempo em que o mostra maduro, tendo que lidar com o parasita que se instalou de mala e cuia em sua vida, aproveitando-se do distanciamento de Brian com seus irmãos e filhas. Paul Dano e Joan Cusak interpretam Brian muito bem, nas diferentes épocas. Elizabeth Banks está ótima como a gentil e compreensiva Melinda, e Paul Giamatti dá um show de talento e de canalhice.

Recomendo. (29/12/2018)

ETTY


Etty Fraser... tão amada, tão querida, tão gentil, tão generosa...

Quem, da classe teatral não conheceu Etty por todos os teatros de São Paulo, vendendo os broches com as musas da comédia e da tragédia, em uma campanha pioneira e exitosa do F.A.C.T., Fundo de Assistência à Classe Teatral, de arrecadação de fundos para os artistas com HIV? Quem de nós comprou aqueles broches pelo menos uma vez? Ou dez? Tenho um dourado, outro prateado, um menor, um maior...

Ela já era uma artista consagrada e respeitada, fizera parte da fase áurea do Oficina, participara de novelas antológicas como Beto Rockfeller, era nome de proa de nosso meio artístico (até programa de culinária ela teve) e e ao invés de deitar sobre esse louros e não fazer nada, ela trabalhou incansavelmente por seus colegas. Mesmo quando perdeu seu marido, o ator Chico Martins (figura tão adorável quanto Etty), ela sequer fez uma pausa em seu trabalho com o F.A.C.T.

Além de seu talento e sua perene gentileza, não esqueço seu humor e sua gargalhada impagável.

Etty passou a vida sorrindo. E é sorrindo, com a máxima gratidão, que ela deve ser sempre lembrada.

(Foto de 2003) (3/1/2019)

MINI-MARATONA DE FILMES LANÇADOS EM 2018

WILDLIFE (2018)

Antes de assistir "Love & Mercy", há poucos dias, eu não sabia nem quem era Paul Dano, mesmo que o rapaz seja ator coadjuvante de vários filmes de nomeada, como "Sangue Negro", "Little Miss Sunshine" e "12 anos de escravidão". E acabo de descobrir que em janeiro deste ano foi exibido em Sundance o seu filme de estréia como diretor, "Wildlife", roteiro do próprio Dano baseado no romance de Richard Ford. Passa-se no início da década de 60 e é sobre um casal - Jerry (Jake Gyllenhaal) e Jeanette (Carey Mulligan) - que tem um filho de catorze anos, Joe (Ed Oxenbould). Jerry é um idealista, orgulhoso e ingênuo, e seu fracasso profissional fará com que ele aceite um trabalho junto aos bombeiros que lutam contra os incêndios anuais que ocorrem nas florestas daquela região. Isso significa que ganhará pouco e ainda ficará longe da família. Jeanette não aprova a ida do marido e a separação temporária de ambos, juntamente às decisões que serão tomadas a partir de então por ela, terão que ser absorvidas e compreendidas pelo filho adolescente.

Jake está muito bem em papel relativamente quadrado, e quem brilha sem restrições é Carey, absolutamente perfeita em transmitir os anseios e angústias da esposa/mãe de trinta anos, transbordando sua sexualidade reprimida, e frustrada com sua vida tediosa e suburbana. É plenamente oscarizável. Ed Oxenbould faz um bom trabalho mas estava com dezesseis quando interpretou Joe e não é preciso ser um gênio para compreender que entre um menino de 14 e um de 16 existe um abismo. É, sem embargo, uma belíssima estréia de Paul Dano na direção.

THE OLD MAN & THE GUN (2018)

Filme baseado na história real do ladrão Forrest Tucker (1920/2004), que passou a vida cometendo furtos e assaltando bancos, e depois realizando fugas espetaculares das prisões para onde era mandado. Dirigido e roteirizado por David Lowery (a partir de um artigo de David Grann), a produção se concentra nos últimos anos de Tucker, sua relação com os parceiros de crime Teddy (Danny Glover) e Waller (Tom Waits) e uma mulher que conhece acidentalmente depois de um assalto (Sissy Spacek).

Mais do que qualquer outra coisa, este filme é uma homenagem a Robert Redford. É aquele filme que se permite desvestir, por fim, o mito, o grande diretor, o inigualável galã, o lendário Sundance Kid, e mostrá-lo, ainda que com sutileza e carinho, na vulnerabilidade de seus inacreditáveis 82 anos. E para não levar a coisa longe demais, ele o faz encarnando um ladrão que era conhecido pela simpatia e pela educação. Redford não é Tucker. É o Redford de sempre, na melhor tradição dos astros da primeira metade do século passado. E não poderia estar em melhor companhia do que com Sissy Spacek. Ela está simplesmente maravilhosa.

Me permito uma colocação quiçá polêmica: o papel do delegado que o persegue é feito por Casey Afleck. Não vou entrar nos méritos de seu trabalho, até porque o considero um ator razoável. Mas ele está sendo acusado de assédio sexual por duas mulheres. Em um ano em que o #metoo foi tão intenso e tão avassalador, me pergunto se não haveria em Hollywood pelo menos 500 outros atores para esse papel. Mas enfim, apesar disso, recomendo.

WHERE HANDS TOUCH (2018)

Baseada em fatos reais, é a história da relação entre uma garota negra alemã e um rapaz ariano. No começo eu pensei que ia ser apenas mais um romancezinho meloso de segunda guerra, coberto dos clichês de sempre, mas é mais profundo do que isso. A perseguição àqueles que foram chamados de "bastardos da Renânia" (Rheinland) - filhos e filhas de mulheres alemãs com soldados negros franceses lotados nessa região que cerca o Reno durante a ocupação francesa depois da primeira guerra mundial - foi tão implacável quanto aos judeus.

Não é um super-produção e está longe de ser um épico, mas é um filme pequeno e bem-feito. Lamenta-se que o roteiro não seja melhor. Amandla Stenberg e George MacKay fazem um bom trabalho e são convincentes como o casal inter-racial amoroso na Alemanha nazista. Abbie Cornish não está mal, embora seu sotaque seja artificial e ela pareça uma albina. Recomendo pela presença de Amandla, a menininha do Hunger Games que agora está com 20 anos.

TIME FREAK (2018)

Em 2011 o diretor e roteirista Andrew Bowler foi indicado ao Oscar de melhor curta pelo filme “Time Freak”. Não assisti mas imagino que a premissa seja exatamente a mesma do longa lançado este ano com o mesmo nome, por Andrew. Stillman (Asa Butterfield) é um nerd super dotado em física e quando vê seu relacionamento com a linda Debbie (Sophie Turner) soçobrar, ele constrói uma máquina do tempo que lhe permite reviver e corrigir as situações que minaram sua relação. E é evidente que haverá um preço para cada evento alterado.

Eu adorei. É uma comédia romântica adolescente e há que assistir desarmado, sem esperar teoremas, paradoxos e explicações lógicas. É só diversão. O elenco está afinado e Evan (Skyler Gisondo), o melhor amigo de Stillman, realiza a proeza de ser engraçado e carismático, e não um idiota insuportável como ocorre em 99% das comédias norte-americanas. E ajuda bastante o fato de que Sophie Turner, no papel de Debbie, é Doppelgänger da Marilia. (3/1/2019)

BAD TIMES AT THE EL ROYALE (2018) - Inesperadamente EXCELENTE. Assisti única e exclusivamente pela presença de Jeff Bridges e acabei brindado com um visceral coquetel tarantinesco. A história é envolvente, divertida, bizarra e imprevisível; e o elenco não poderia ser melhor.

Recomendo. (19/12/2018)

BANDERSNATCH (2018) - Mistura anárquica de Groundhog Day (1993) com The Butterfly Effect (2004) com Edge of Tomorrow (2014), e o recheio do velho Você decide, que passava na Globo na década de 90.

Me perdoem por ser a voz da dissensão, mas o Black Mirror tem 40 minutos, e 40 minutos é exatamente o quanto ele deve ter. Bandersnatch é intoleravelmente longo e chato. (30/12/2019)

MINI-MARATONA ALEATÓRIA DE ANIMAÇÕES

ANOMALISA (2015)

Eu coloquei Charlie Kauffman no vinagre há alguns anos, desde o super-estimado e super-soporífero "Sinédoque, Nova York" (2008). A obra do escritor, inicialmente original e inteligente, transicionara rapidamente para absurda e pretensiosa. Sobre "Sinédoque", basta dizer que foram feitos comentários do tipo "ser uma decepção é um elogio"... No momento em que ser chamado de "incompreensível" ou "ruim" começa a ser uma qualidade, é porque o autor se perdeu em sua própria maluquice. Não por coincidência, Kauffman ficou seis anos sem trabalhar depois disso. Em 2014 ele roteirizou e dirigiu um filme para TV. E em 2015 veio "Anomalisa".

É um filme completamente adulto e a princípio imaginei que a decisão de realizá-lo como animação, ao invés de um filme normal, seria mais uma das idiossincrasias de Kauffman. Não é. A idéia, tal como foi concebida, funciona melhor dessa forma. Não darei spoilers: Michael Stone é um guru do atendimento ao cliente e essa é a grande contradição de sua vida; enquanto aperfeiçoou todas as técnicas de agradar clientes, ele é infeliz em suas interações humanas e trata suas próprias relações de forma mecânica e insensível. O filme mostra o que acontece quando ele vai a uma viagem de negócios e conhece uma mulher capaz de quebrar esse ciclo de mesmice.

Espetacular. Jennifer Jason Leigh, no papel de Lisa, está magnífica. Concorreu ao Oscar e ao Globo de Ouro mas perdeu para "Divertida Mente".

MA VIE DE COURGETTE (2016)

Baseado no romance de Gilles Paris, com direção de Claude Barras. Ícaro, cujo apelido é Courgette (Abobrinha) mata a mãe alcoólatra por acidente e acaba em um orfanato, onde fará amizades com outras crianças que também tiveram experiências traumáticas com a família. Ele chegará, aos poucos, a termos com as tristezas que atravessou.

Por ser uma animação e ter nas crianças o seu público-alvo, o filme trata suas tragédias de forma muito leve e carrega uma mensagem fundamental de esperança. É uma linda animação e concorreu ao Oscar e ao Globo de Ouro, entre pesos-pesados como "Moana" e "Kubo and the Two Strings". Perdeu em ambos para "Zootopia".

LE PETIT PRINCE (2015)

1 - Fiquei impressionado quando encontrei esta animação porque nunca tinha sequer ouvido falar dela. Imagino que isso se deva ao fato de que a distribuição mundial está sendo feita pela Netflix, então o filme acabou alijado dos grandes prêmios de Hollywood (posso estar enganado). Infelizmente não encontrei o audio original, sempre preferível. O audio norte-americano, porém, é bom e não compromete.

2 - Não se trata literalmente da história de Antoine de Saint-Exupéry, mas de uma adaptação de Irena Brignull e Bob Persichetti (direção de Mark Osborne) sobre uma garotinha excessivamente organizada, de vida quadrada e metódica. Em meio ao tédio de sua rotina ela conhece o vizinho, um velho aviador que lhe conta, de forma colorida, divertida e lúdica, a história de seu encontro, anos antes, com o Pequeno Príncipe. E isso virará do avesso a vida da menina.

Recomendo.

BALLERINA (2016)

No fim do século XIX duas crianças - Felicie e Victor - fogem de um orfanato e vão a Paris para realizar seus sonhos: o dela de ser bailarina e o dele de se tornar inventor. Por meio de um ardil em que se faz passar por uma menina rica com a ajuda de uma ex-bailarina, Felicie consegue um teste para O Quebra-Nozes, na Ópera de Paris. Mas ela terá que se disciplinar, treinar e enfrentar várias dificuldades para seu sonho virar realidade.

Sem ser nenhuma obra-prima, Ballerina é um ótimo passatempo e entretenimento de primeira, sobretudo para aficionados de dança. Recomendo. (13/1/2019)

PONYO x SONG OF THE SEA


"Selkies" existem na mitologia irlandesa-escocesa e são focas que viram seres humanos à noite. Seria a versão celta-gaélica do mito da sereia. O diretor irlandês Tomm Moore utilizou-se dessa fábula e de um sortido de histórias de sua própria infância para roteirizar e dirigir "Song of the Sea". A selkie Bronach se casa com o humano Connor e eles tem um filho humano. Já a filha Saoirse é um híbrido e tem uma missão a cumprir. Não darei spoilers porque quem não assistiu deve fazê-lo o quanto antes.

Mas não me furto de comentar a influência rematada e óbvia da magnífica Ponyo, de Miyazaki na Saoirse de Moore. Não só na elaboração da personagem mas em toda a história. É Miyazaki fazendo escola, como sempre. Em litros de lágrimas, entretanto, o japonês ainda leva pronunciada vantagem.

Recomendo. (15/1/2019)

SUSPIRIA (1977 e 2018)

Segundo entrevista citada no IMDB, foi Daria Nicolodi que teve a idéia e a concepção toda de “Suspiria” (1977), a partir de uma história contada por sua vó, que teve aulas em um conservatório europeu onde os professores, além de artes, também praticavam a magia negra. Transmitiu a idéia ao marido e cineasta Dario Argento, ambos escreveram o roteiro do filme e a direção ficou a cargo de Argento: a norte-americana Suzy Bannion (Jessica Harper) vai estudar dança em um conservatório em Friburgo, na Alemanha. Fatos estranhos ocorrem desde o primeiro dia; uma mulher é assassinada, esfaqueada e enforcada, outra tem uma queda antológica em uma espécie de piscina de arame farpado, uma praga de larvas é encontrada na escola, um pianista cego é assassinado e devorado pelo seu próprio cão-guia, e por fim a norte-americana descobre que em uma ala secreta da mansão havia um verdadeiro sabá de adoração da Mater Suspiriorum, um bruxa vetusta que controlava toda essa maldade.

O filme - hoje um clássico - é uma sinfonia psicodélica de cores e de terror gráfico e psicológico como poucas vezes se vira, antes. Na tentativa de repetir o sucesso de “Suspiria”, Argento decidiu aumentar a história sozinho: a Mater Suspiriorum então tornou-se apenas uma de três irmãs macabras que pretendiam dominar o mundo. As outras eram a Mater Lachrymarum e a Mater Tenebrarum. Em 1980 veio a continuação de “Suspiria”, sugestivamente intitulada “Inferno”. O filme começa com uma moça lendo um livro chamado As Três Mães, onde explicava-se que além da Mater de Friburgo, ainda havia outras duas, vivendo em mansões em Roma e Nova York. A moça descobre que o prédio onde mora, em NY, é precisamente o endereço da Mater Tenebrarum, que se torna o tema do filme. Assustada, ela escreve para seu irmão, em Roma, a fim de que ele venha encontrá-la e ambos investiguem o caso juntos. É quando a seqüência habitual de desgraças começa a acontecer.

“Inferno”, por diversas razões - sobretudo o raquitismo do roteiro e o péssimo Leigh McCloskey - é muito inferior a “Suspiria” e esteve longe de repetir seu sucesso. Fãs de Argento, porém, ficaram satisfeitos e começaram a esperar pela terceira e última parte, que versaria sobre a Mater Lachrymarum e encerraria a trilogia. Argento fez o público esperar nada menos do que 27 anos pela conclusão. “La terza madre” foi lançado em 2007 e é protagonizado por Asia Argento, a filha de Argento e Nicolodi, que contava apenas dois anos quando “Suspiria” chegou aos cinemas. O filme é um desastre. Uma bobagem que se inicia com uma urna que é aberta e começa a provocar assassinatos e toda a sorte de desgraças. Mas é tudo tão idiota e tão amadorístico que causa tristeza; os filmes de Argento sempre tiveram um estilo meio B, meio alternativo, mas o que vemos aqui é apenas ruim. A Mater Lachrymarum, tão esperada, é uma modelo qualquer, semi-nua, com maquiagem preta ao redor dos olhos. Um grande anti-clímax. Mesmo trazendo a sempre boa Asia Argento. Com “La terza madre” o diretor destruiu sua própria franquia.

Sabe-se lá por que razão, no ano passado o diretor italiano Lucas Guadagnino resolveu requentar “Suspiria”, utilizando alguns elementos da história da Três Mães. Infelizmente, o que poderia ser uma bela e moderna recauchutagem do giallo de Argento, virou um filme chatérrimo e pretensioso. Características, aliás, do único filme pelo qual Guadagnino é conhecido: o romancezinho babaca e medíocre “Call me by your name”. A superioridade do filme de 1977 começa por um detalhe muito simples: ele tem uma hora e trinta e oito minutos, ao passo de que o remake tem duas horas e trinta e dois minutos. Toda a simplicidade do terror kitsch de Argento vira uma panacéia político-psicológica intolerável, no remake. Suzy é Dakota Johnson e ela consegue uma vaga no conservatório onde terá aulas com Madame Blanc, interpretada por Tilda Swinton. Mas além de uma pilha de referências à política alemã do fim da década de 70 o diretor ainda encasquetou de meter uma subtrama relativa à segunda guerra, então temos um velho psicólogo que sonha em reencontrar sua mulher, desaparecida em 1944. O psicólogo também é Tilda Swinton, com uma tonelada de maquiagem, verdadeiro ladrão de cena sem qualquer razão de ser, já que seu papel como um todo poderia ser eliminado. A única coisa interessante é que sua mulher, Anke, é interpretada por Jessica Harper, em aparição sentimental que homenageia o “Suspiria” original.

Plasticamente o filme tem cara de cortina de ferro. Há uma espécie de ferrugem da decadência comunista no conservatório e em demais locações, que cairia muito bem ao filme, se a história não tivesse sido tão contaminada pela pretensão de parecer complexa e politizada. É tudo tão chato e demorado que quando chegamos ao clímax, o leitmotif das três mães, e mais especificamente da Mater Suspiriorum, praticamente se perdeu. E o máximo que se consegue é uma conclusão tão ruim quanto o fim de “La terza madre”.

Um desperdício. Para quem ainda não viu, recomendo o primeiro
“Suspiria”.  (23/1/2019)

THE CROWN

Foi de tal forma positiva a impressão deixada por Claire Foy quando assisti o insosso First Man, que resolvi assistir outros trabalhos dela. Acabei chegando a The Crown, série da Netflix que a popularizou no mundo inteiro. São duas temporadas que dramatizam o reinado de Elizabeth II a partir de seu casamento, em 1947 (até 1963, no fim da segunda temporada). Gostei bastante. A produção é fantástica. O elenco é superlativo e não tenho adjetivos suficientes para qualificar o trabalho de Claire, embora não haja licença poética neste mundo que permita a comparação entre a lindíssima Claire e a simpática Elizabeth, de beleza insípida e inodora. Neste caso a escalação de Vanessa Kirby, no papel da hellraiser Margaret, foi mais feliz. E temos ainda a curiosa circunstância do jovem Philip ser efetivamente mais bonito que o ator que o interpreta, o esquisito Matt Smith, que parece estar usando uma máscara. Mas vamos a alguns comentários pontuais:

1 - Considerando que o (bom) roteiro de Peter Morgan tem alguma relevância histórica, é chocante verificar a superficialidade dos problemas enfrentados pela rainha. Com exceção do grande nevoeiro de 1952 e a crise do Canal de Suez em 1956 - nos quais ela se limitou a apoiar o Primeiro Ministro, fosse Churchill (John Lithgow) ou Anthony Eden (Jeremy Norham) - a única coisa com a qual Elizabeth se preocupou no meio tempo foram questiúnculas protocolares da realeza, picuinhas familiares e a idiotice fundamental de seu marido. Uma terrível demonstração de que os detratores da monarquia estavam certos: a rainha só estava lá para resolver problemas que não existiriam caso a monarquia sumisse. E nisso, anos foram gastos para que se resolvesse o imbróglio matrimonial da pobre Margaret; a situação de David, o tio sibarita que abdicou ao trono; as aulas de vôo de Philip e outras minudências sem qualquer importância para o povo britânico. É ponto positivo da série, que não faz segredo disso e nos apresenta o trono de forma imparcial, com seus defeitos e qualidades.

Claire Foy
2 - A série me deu a oportunidade de conhecer melhor a atual família real britânica, mesmo sabendo que aqui e ali fatos foram romanceados, exponencializados ou sanitizados para efeito dramático (e pela paz entre a realeza e o departamento jurídico da Netflix). Não obstante, o retrato parece fiel. Elizabeth é candidamente exposta como uma mulher ignorante, que desde criança foi basicamente adestrada como um cavalo de corrida para uma única função, ficando alheia a todas as outras. Isso vai assombrá-la no futuro, quando se sente diminuída diante de intelectuais, homens de letras e representantes de outros governos (o que não deixa de nos trazer uma ponta de orgulho por Dom Pedro II, considerado mundialmente o mais erudito de todos os monarcas do século XIX). Margaret é de fato a irmã linda e rebelde, dona dos predicados artísticos e performáticos necessários para ser a rainha, ao contrário de sua tímida e retraída irmã. Causa raiva observar a insensibilidade com que Elizabeth rompe promessas e volta atrás em sua palavra para decidir o destino de sua irmã, valendo-se de um respeito chocho e medroso a cânones embolorados que poderiam ter sido abolidos já naquela época.

Claire e Elizabeth

Margaret (Vanessa Kirby)
Philip, considerado eternamente aquele apêndice incômodo e dispensável da rainha - e que já fora retratado como um velho escroto e de maus-bofes pelo ator James Cromwell no filme "The Queen", de 2006 - aparece com as mesmas cores, só que mais jovem. O Duque de Edimburgo, tal qual a série o apresenta, nunca soube ou compreendeu qual era o papel do consorte, e quando entendeu, finalmente, não o aceitou. Incapaz de brilhar por qualquer coisa que não fosse sua linhagem, de granjear o respeito da realeza e de transcender sua função de "procriador real", ele arranca a fórceps da rainha um título de "príncipe". No mais, passa os anos espalhando sua inutilidade e dando problemas à Elizabeth, não como marido mas como um filho burguesinho e tresloucado. Suas infidelidades, suas reclamações intermináveis, seu despreparo ou deslumbramento em ocasiões formais do trono, sua obstinação em fazer o filho Charles estudar na mesma escola onde ele próprio estudou e foi vítima de bullyings de todos os tipos, ou suas tropelias com o amigo Mike Parker, tudo é razão para desprezarmos Philip. Nem mesmo seu passado de tristezas provoca qualquer simpatia. Os episódios, aliás, que se concentram em sua infância - conquanto muito bem feitos - são supérfluos. No fim somos obrigados a concordar com a vã e preconceituosa rainha mãe (Victoria Hamilton, ótima), sobre a péssima escolha de marido feita por Elizabeth.

David (Alex Jennings)
Fogo pesado é reservado para David, o Duque de Windsor (Alex Jennings), que sucedeu o Rei George V e reinou durante o ano de 1936 até sua abdicação, em dezembro, quando passou o trono ao irmão, pai de Elizabeth. No imaginário popular cristalizou-se a imagem de um homem que renunciou em nome do amor que sentia por Wallis Simpson (Lia Williams), uma norte-americana divorciada duas vezes. A série deixará bem claro que ele podia até amar a volúvel Wallis - uma reles cortesã - mas sua abdicação esteve muito mais próxima da covardia do que do heroísmo romântico que se propagou. A série não o mostra como um personagem sofrido, incompreendido e que abriu mão de todas as honrarias possíveis para poder se dedicar ao casamento, mas como um dândi decadente, afrescalhado e vagabundo. Um grã-finozinho venenoso, prepotente e metido à besta, que torcia o nariz para a realeza que o pariu mas não se furtava de sustentar sua vadiagem parisiense com uma mesada vergonhosa que vinha do palácio de Buckingham. O golpe de misericórdia chega quando ele volta à Inglaterra, em busca de alguma sinecura bem-remunerada e a rainha o põe para correr a pontapés, esfregando-lhe na cara sua associação indecorosa e sórdida com os nazistas durante a segunda guerra, mesmo depois de já ter abdicado.

Lithgow e Foy no SAG Awards de 2017,
de onde ambos saíram vencedores
3 - John Lithgow é um ótimo ator e admiro sua carreira há quase 40 anos. O que tenho a dizer de sua performance como Churchill - premiada com um Emmy, aliás - é que ele conseguiu criar seu próprio Churchill, como uma espécie de entidade independente do original. Ele não tem a mais ínfima semelhança com Churchill, a idade que o personagem exige nesse período, aquele rosto característico de bebê alcoólatra, mas por alguma razão está mais próximo do velho Primeiro Ministro do que estiveram os inúmeros atores que o interpretaram nestes últimos anos, entre eles, verdadeiros titãs como Brian Cox e Gary Oldman. É uma bela performance. Já Michael C. Hall e Jodi Balfour estão tristemente equivocados nos papéis de John e Jackie Kennedy. Michael até caprichou no bizarro sotaque de Boston, mas Jodi está mais para uma princesa hawaiana do que para Jackie, uma branquela sem graça e inexplicavelmente festejada pela realeza britânica.

Há outras coisas a comentar mas não me ocorrem no momento. Lamento saber que a terceira temporada mostrará os personagens mais velhos e Claire será substituída. Meu coração está imaturamente partido. (23/1/2019)

WOLF HALL (2015)

Seguindo a lista de trabalhos de Claire Foy cheguei agora à "Wolf Hall" (2015), minissérie de seis capítulos da BBC baseada em dois dos romances de Hilary Mantel, "Wolf Hall" e "Bring Up the Bodies". Trata do período em que Henrique VIII foi casado com Ana Bolena, visto sob a ótica de Thomas Cromwell. Existem dois trabalhos definitivos sobre esse tema, que são os filmes "A Man for All Seasons" (1966) e "Anne of a Thousand Days" (1969). O primeiro traz Leo Mackern em uma interpretação de Cromwell que é praticamente insuperável. Isso sem mencionar o Henrique espetacular de Robert Shaw e o Thomas More exemplar de Paul Scofield. O segundo tem uma Ana Bolena perfeita em Genevieve Bujold, além do Henrique de Richard Burton e a comovente Catarina de Irene Papas. A minissérie opta - corretamente - em não referenciar nem de longe tais obras-primas e desenvolve um mote até então não explorado: a participação de Thomas Cromwell em todo o episódio.

Rylance e Foy
Ele era conselheiro do Cardeal Wolsey e acabou sendo absorvido por Henrique quando o cardeal falhou em conseguir o apoio do papa para o divórcio do rei e caiu em desgraça. Mark Rylance faz um Cromwell inteiramente oposto ao de Mackern; este era um poço de energia e parecia um porco do mato, agressivo e acanalhado, com sua voz potente e os olhos estrábicos e ofuscantes (pelo fato, aliás, de que um dos olhos de Mackern era de vidro). Era abertamente o vilão que orquestrou o ocaso de Thomas More. Rylance é um Cromwell ofídio, reptiliano, lerdo e meticuloso como um crocodilo. Ao contrário de Mackern, que transbordava recursos teatrais, Rylance é absolutamente contido e utiliza seu extraordinário leque de expressões faciais para transmitir toda e qualquer intenção, com raríssimas alterações de voz. E é menos óbvio em sua vilania. Ou, por outra, é apenas um entre uma côrte de vilões, sob o comando de um rei vilão. Um trabalho admirável e que provavelmente o credenciou para "Bridge of Spies", de Spielberg.

Claire Foy

Existe um elemento de licença poética que deve ser notado: sendo uma minissérie sobre Cromwell, os autores acharam por bem diminuir seus mal-feitos (além de estender sobre ele o manto da comiseração, mostrando a morte, no mesmo dia, de sua esposa e suas duas filhas, vítimas de uma praga), transferir para outros (como Norfolk) maldades realizadas por ele, e transformar Ana Bolena na verdadeira vilã. Considerando que as fontes primárias sobre Ana são poucas e contraditórias, que Henrique era um imaturo e um desequilibrado cuja única preocupação era ter um filho homem, e que o julgamento que levou Ana à morte foi uma farsa asquerosa que mancha a história da Inglaterra, a personagem vinha sendo tratada com relativa simpatia, pelo cinema. Merle Oberon comoveu com sua beleza e seu sofrimento, no velho clássico "The Private Life of Henry VIII" (1933), e Genevieve Bujold interpretou uma mulher forte, voluntariosa e inteligente, que no fim acaba sendo vítima de um destino que não pôde conter, por ser incapaz de dar um filho a Henrique; Wolf Hall mudou isso. Claire Foy - sempre excelente - é uma putinha mimada, perversa e calculista. Gaba-se de ter "criado" Thomas Cromwell - ou "Cremuell", como ela jocosamente se refere a ele, com sotaque francês - instiga agressivamente a morte de quaisquer amigos de Henrique que se oponham a seu casamento, tem um verdadeiro orgasmo quando fica sabendo que Catarina morreu e flerta tranqüilamente com os homens de seu séquito.

Merle Oberon e Geneviéve Bujold no papel de Bolena

Entretanto, o pequeno discurso que fez antes de ser decapitada - e uma de suas poucas falas efetivamente comprovadas e reais - foi tão eloqüente, tão generoso e tão correto que a história tem tido problemas em colocá-la num pelourinho por falsidade e oportunismo. E neste caso a Bolena de Genevieve estaria mais próxima à realidade. Nunca saberemos.

No caso de "Wolf Hall", o que temos é uma minissérie de produção imbatível e de um elenco quase ideal. Digo "quase" porque não considerei ideal o trabalho de Damian Lewis (Henrique) ou de Joanne Whalley (Catarina). Bons, mas não excepcionais como o resto. E minha única ressalva seria sobre o ritmo excessivamente lento. A importância de Cromwell é muito aumentada e no fim veremos a história de "Anne of a Thousand Days" esticada por seis episódios de uma hora. Melhor seria que a minissérie englobasse esse período e fosse até a morte de Cromwell, que caiu em desgraça com o rei apenas quatro anos depois, quando foi responsável pela desastrada orquestração do casamento com Anne of Cleeves, quarta esposa de Henrique (logo depois de Jane Seymour). Talvez os produtores pretendessem transformar a minissérie em uma série, de fato, mas tal não ocorreu.

Recomendo.

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