quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Chaplin e Einstein




O encontro de Chaplin e Einstein já não é mais uma surpresa desde que uma ou outra foto da estréia de City Lights, em 1931, viralizaram. Junto à foto, a indefectível historinha: "What I admire most about your art", teria dito Einstein, "is its universality. You do not say a word, and yet… the world understands you". "It’s true", seria a resposta de Chaplin. "But your fame is even greater The world admires you, when nobody understands you". Pra variar, é pura lenda. Esse diálogo nunca aconteceu. Mais próxima à verdade é a história contada por János Plesch, amigo de Einstein, em suas memórias, publicadas em 1947. Em um passeio por Hollywood, em que ambos eram aplaudidos e saudados pelo público que os reconhecia, o cineasta teria feito este comentário: “They’re cheering us bothyou because nobody understands you, and me because everybody understands me”. Como também se trata de história de segunda mão (János não estava presente quando o comentário foi feito), nunca saberemos se é real.

A simples verdade é que eles tiveram vários encontros e eram, efetivamente, amigos. E para nossa sorte o próprio Chaplin dedicou várias páginas de My Autobiography (1964) à sua amizade com Einstein. Ele fala de encontros com o cientista em três épocas diferentes: no fim da década de 20, na premiére de City Lights e no fim dos anos 30. Conta causos divertidos e alguns fatos bastante curiosos, como a história sobre a invenção da Teoria da Relatividade, que lhe foi narrada por Elsa, prima e segunda esposa de Einstein. Neste post faço a transcrição daquilo que Chaplin diz sobre Einstein em My Autobiography. Trazendo fotos dos dois juntos na première de City Lights.

Divirtam-se.
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Einstein, nos anos 20
Meu primeiro encontro com Einstein deu-se em 1926, quando veio fazer conferências na Califórnia. Para mim, cientistas e filósofos são, no íntimo, grandes românticos que canalizam noutro rumo as suas paixões. Essa idéia calhava bem com a personalidade de Einstein. A sua aparência era a de um típico alemão dos Alpes, no melhor sentido, jovial e acolhedor. Senti que sob os seus modos calmos e afáveis se escondia uma índole profundamente emotiva e que provinha daí a sua extraordinária força intelectual.

Carl Laemmle, da Universal, telefonou-me para dizer que Einstein gostaria de encontrar-se comigo. Fiquei alvoroçado. E encontramo-nos, pois, nos estúdios da Universal, para um almoço a que compareceram o Professor e sua mulher, a sua secretária, Helena Dukas, e o seu professor-assistente, Walter Meyer. A Sra. Einstein falava inglês muito bem, defato melhor do que o marido. Senhora rotunda, com exuberante vitalidade, encantava-a ser a esposa de um grande homem e não fazia o menor esforço para esconder isso; era tocante o seu entusiasmo.

Carl Laemmle
Depois do almoço, enquanto Laemmle nos levava a um giro pelos estúdios, a Sra. Einstein chamou-me à parte e cochichou:

- Por que não convida o Professor a ir à sua casa? Sei que ele gostaria de uma boa prosa sossegada, só entre nós.

Como a Sra. Einstein pediu que fosse uma reunião íntima, convidei apenas dois outros amigos. Ao jantar, contou-me ela a história da manhã em que Einstein concebeu a Teoria da Relatividade. Nesse dia, desceu para o pequeno almoço, metido no robe de chambre, como de hábito, porém não comeu quase nada.

- Pensei que ele estivesse indisposto e perguntei-lhe o que havia. "Querida", respondeu-me, "tive uma idéia maravilhosa!" Bebeu o café, encaminhou-se ao piano e começou a tocar. De ve em quando parava, escrevia uns apontamentos e repetia: "Tive uma idéia maravilhosa, estupenda!" Então eu lhe disse: "Por amor de Deus, explique-me o que é, não me deixe assim em suspenso". E ele: "É coisa difícil, que ainda me vai dar trabalho".

Einstein e a esposa, Elsa
Contou-me que Einstein continuou a tocar piano e a tomar notas por mais uma meia hora, depois subiu para o gabinete, dizendo que não queria ser perturbado, e lá ficou por duas semanas.

- Todos os dias eu lhe mandava as refeições e à noite ele ia andar um pouco, para fazer exercício, porém logo tornava ao trabalho. Até que, afinal, desceu do gabinete, muito pálido. "Aqui está", disse-me, pondo em cima da mesa, com ar de cansaço, duas folhas de papel. E era a sua Teoria da Relatividade.

O Dr. Reynolds [Cecil Reynolds, médico de Chaplin e consultor de alguns filmes em Hollywood], a quem eu convidara essa noite porque tinha umas tinturas de física, perguntou ao Professor, durante o jantar, se ele havia lido Experiment with Time, de Dunne. Einstein negou com a cabeça.

Einstein e Elsa
- É uma teoria interessante sobre dimensões - disse Reynolds com desenvoltura. - É uma coisa assim como... (aí hesitou)... como uma extensão de uma dimensão.

Einstein voltou-se para mim e sussurrou maliciosamente:

- Uma extensão de uma dimensão... was ist das? ("O que é isso?")

Depois disso Reynolds deixou em paz as dimensões e perguntou a Einstein se acreditava em fantasmas. Einstein confessou que nunca vira alma do outro mundo e acrescentou, sorrindo:

- Quando outras doze pessoas presenciarem o mesmo fenômeno a um só tempo, então eu poderei acreditar.

Nessa época estavam em moda as manifestações psíquicas e os ectoplasmas flutuavam sobre Hollywood como névoas. Muitos astros do cinema promoviam em casa sessões espíritas com fenômenos de levitação e outros mais. Não compareci a nenhuma dessas reuniões, porém Fanny Brice, a famosa comediante, jurou que vira uma mesa levantar-se por is e flutuar pela sala. Perguntei ao Professor se já assistira a coisas dessa ordem. Sorriu vagamente e meneou a cabeça. Também lhe perguntei se a sua teoria da relatividade entrava em choque com a hipótese de Newton. E Einstein:

- Ao contrário; é uma extensão dela.

Fanny Brice
Durante o jantar, disse eu à Sra. Einstein que pretendia ir à Europa logo após o lançamento de meu próximo filme.

- Pois então venha nos ver em Berlim. Mas não moramos numa grande casa. O Professor não é rico; e, se tem à disposição mais de um milhão de dólares, concedidos pela Fundação Rockefeller para seus trabalhos científicos, não tira um centavo desse dinheiro para despesas pessoais.

Quando fui a Berlim, visitei-os em seu pequenino e modesto apartamento. Era desses que se podem ver no Bronx: a sala de estar e a sala de jantar conjugadas numa só peça, com velhos tapetes já gastos. O móvel mais valioso era o negro piano, sobre o qual rabiscou o Professor os primeiros e históricos apontamentos relativos à quarta dimensão. Já várias vezes me perguntei o que teria sido feito desse piano. Talvez se encontre no Smithsonian Institute ou no Metropolitan Museum, se é que os nazistas não o utilizaram como lenha para a lareira.

Quando caiu sobre a Alemanha o terror nazista, os Einsteins buscaram refúgio nos Estados Unidos. A Sra. Einstein conta uma história pitoresca sobre a ignorância do Professor em matéria de dinheiro. A Universidade de Princeton queria tê-lo no seu corpo docente e consultou-o em carta, sobre quanto desejava perceber. Einstein propôs ordenado tão modesto que a direção da Princeton respondeu ponderando que tal quantia não dava para ninguém viver nos Estados Unidos e o Professor precisava ganhar pelo menos o triplo.
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Poster original de City Lights
Nesse meio tempo, Reeves [Alf Reeves, empresário de Chaplin] fechara negócio em Los Angeles para lançar o filme num cinema que acabara de ser construído. Os Einsteins, então naquela cidade, manifestaram o desejo de comparecer à estréia, mas não creio que se dessem conta da aventura em que iam meter-se.

Na noite do lançamento, jantaram em minha casa e depois nós todos fomos ao centro. A rua principal estava entupida de gente, por vários quarteirões. Carros de patrulha e ambulâncias lutavam para abrir caminho na multidão, que havia quebrado as vitrinas de uma loja contígua ao cinema. Com o auxílio de policiais, fomos tocados ao salão. Oh, como detesto essas noites de estréia: a tensão que se padece, a mistura de perfumes, uma atmosfera de almíscar e gás carbônico; é coisa que dá náusea e irrita os nervos.

Era uma bela casa de espetáculo, mas o dono, como outros muitos exibidores desse tempo, bem pouco sabia sobre lançamento de filmes. A projeção começou. Ao aparecerem os títulos e letreiros de apresentação, houve os aplausos habituais de qualquer estréia. Então, afinal, a primeira cena. Meu coração pulou. Era uma cena cômica de uma estátua em inauguração, ao ser arrancado o véu que a encobre. O público principiou a rir! O riso aumentou, em explosões de gargalhadas. Vitória! Começaram a dissipar-se todos os meus temores e dúvidas. Senti vontade de chorar, Durante a projeção de três rolos, todos riam. E, de puro nervosismo e excitação, eu também ria.

Première californiana de City Lights, 1931: "No correr da última cena, notei que Einstein enxugava os olhos, mais uma prova de que os cientistas são incuravelmente sentimentais".

Nisto, a coisa mais incrível aconteceu. De repente, em meio ao riso geral, a projeção foi suspensa! Acenderam-se as luzes e pelo alto-falante uma voz anunciou: "Antes de prosseguirmos com esta maravilhosa comédia, gostaríamos de tomar cinco minutos do vosso tempo a fim de salientar os aperfeiçoamento deste novo e belo cinema". Eu nem podia crer no que ouvira. Fiquei alucinado. Saltei da poltrona e precipitei-me pelo corredor.

- Onde está o cretino deste gerente, este filho de uma cadela?! Eu o mato!

Os espectadores apoiaram-me, batendo com os pés e aplaudindo, enquanto o idiota continuava a gabar as instalações do cinema. Contudo, teve logo que calar-se, porque rebentou a vaia geral. Só depois de projetado mais um rolo de filme é que o riso voltou a generalizar-se. Dadas as circunstâncias, achei que fora um sucesso. No correr da última cena, notei que Einstein enxugava os olhos, mais uma prova de que os cientistas são incuravelmente sentimentais.





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Einstein e seu violino
Em 1937, quando voltaram à California, os Einsteins vieram visitar-me. Depois de me abraçar afetuosamente, o Professor preveniu-me que trouxera três músicos.

- Vamos tocar um pouco para você, depois do jantar.

Nessa noite, Einstein tomou parte na execução de um quarteto de Mozart. Embora sem leveza de técnica e segurança de arcada, tocava deliciadamente, olhos fechados, balançando-se. Os três músicos, que não pareciam muito entusiasmados com a participação do Professor, sugeriram-lhe discretamente um pouco de repouso; enquanto isso, eles sozinhos tocariam alguma coisa. Aquiescendo, Einstein sentou ao nosso lado e pôs-se a ouvir. Mas, depois que os músicos executaram algumas peças, virou-se para mim e perguntou, baixinho:

- Quando é que eu voltarei a tocar?

Assim que os músicos foram embora, a Sra. Einstein, um tanto indignada, garantiu ao marido:

- Você tocou muito melhor do que todos eles!

Mary e Douglas
Noutra noite, os Einsteins vieram novamente jantar em minha casa e convidei Mary Pickford, Douglas Fairbanks, Marion Davies, W. R. Hearst e mais uns dois. Marion Davies sentou-se ao lado de Einstein e a Sra. Einstein à minha direita, com Hearst ao lado. Antes do jantar, tudo parecia ir muito bem; Hearst mostrava-se cordial e Einstein polido. Mas, à mesa, percebi que aos poucos a atmosfera ia ficando gelada; por fim, os dois já nem trocavam uma só palavra. Fiz o possível para animar a conversação, porém ambos permaneciam mudos. Pairava um silêncio de mau prenúncio; vi Hearst com ar carrancudo, baixando os olhos para o pratinho de sobremesa, e Einstein sorrindo, tranqüilamente mergulhado em seus pensamentos.

William Randolph Hearst - que Orson Welles utilizou como base para o personagem do filme Citizen Kane - e Marion Davies,
grandes amigos de Chaplin

Com sua vivacidade habitual, Marion estivera dirigindo brincadeiras a todos, menos a Einstein. Mas, de repente, voltou-se para o Professor e disse, brejeiramente: "Olá!", e passando dois dedos ao redor da cabeça do Professor, a imitar o movimento de uma tesoura:

- Por que não corta o cabelo, hein?

Einstein sorriu e achei que era tempo de irmos tomar café na outra sala.
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Bibliografia:
  • CHAPLIN, Charlie. Minha Vida (cap. 31, tradução de Genolino Amado). Rio de Janeiro, José Olympio, 8ª Edição, 1989.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

"Tristeza? Saudades? Não: Indignação!", por Malga Di Paula

Meus caros,
no dia 29 de janeiro a viúva de Chico Anysio, Malga Di Paula, publicou um texto que muito me impressionou. Não é segredo para ninguém que vários anos antes de morrer Chico já estava ostracizado na emissora onde trabalhava. Tudo começou com a saída de Boni. Sua substituta, Marluce Dias da Silva, era uma executiva de Recursos Humanos e trabalhara no BNDE e na Mesbla antes de ir para a Globo. Não tinha, portanto, a mais mínima experiência com direção artística ou linha de shows. Chico, há trinta anos acostumado à parceria com Boni, que deu ao Brasil os melhores momentos do humor na televisão em todos os tempos, bateu de frente com ela. Na mesma época ele quebrou a mandíbula e se afastou da TV para tratamento. Oficialmente, Marluce declarou que Chico poderia voltar ao trabalho assim que estivesse recuperado. Na prática, a coisa era bem diferente. Segunda esta reportagem da Folha, em 1997:

Ele [Chico] diz ter lido uma entrevista em que Marluce dizia que, assim que ele se recuperasse, voltaria a ter um programa. (...) Segundo o humorista, três meses depois da entrevista, o diretor Daniel Filho o convidou para escrever um programa para as noites de sábado, no formato do "Noites Cariocas", humorístico de sucesso na TV Rio, nos anos 60. "Mandei o roteiro para ele e, em seguida, recebi um telefonema dele dizendo que tinha gostado muito, só que depois não disse mais nada. Um dia recebi um envelope com o roteiro e nenhum bilhete". Anysio disse ter motivos para acreditar que Marluce foi a responsável por isso. "No encontro que tive com ela, deixei claro que não aceitaria ser controlado, faria o programa à minha maneira. Além disso, já escutei muitas vezes do Daniel Filho que ele não manda nada lá, a última palavra é sempre a dela. Não adianta ele gostar".

Chico nunca conseguiu voltar como desejava e como merecia. O dano à sua carreira não foi apenas algo que o magoou profundamente, ajudando a minar sua saúde, mas significou literalmente a morte para muitos daqueles que trabalhavam com ele. Conhecer o fato, porém, pela ótica de quem estava ao lado dele por todo esse período, é muito esclarecedor. E muito, muito triste. A Escolinha foi cancelada três meses antes de completar 50 anos, sem qualquer explicação!... Projetos e mais projetos sendo engavetados ou jogados no lixo?? E isso diante da inanição artística de nossa TV!...

Não há perdão para quem, por quiçá quais picuinhas e questões pessoais, tenha impedido esse nosso gênio maior de espalhar o brilho de sua inteligência superior e de sua criatividade inesgotável.
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Tristeza? Saudades? Não: Indignação!

Hoje foi um daqueles dias que acordei mais sensível, com muita saudades do Chico. Sim, porque a ausência dele é muito forte pra não ser percebida, logo ali, do outro lado da parede da minha casa. Naquele escritório que agora está vazio, onde ele passava longas horas produzindo, escrevendo incríveis projetos que somente eu tive o privilégio de conhecer, pois,  quando acabados, ele me chamava para ler e na maioria das vezes deletava logo em seguida, sim, pois era assim que o Chico se sentia... "Deletado".

Eu almoço tarde e quando vou almoçar, minha empregada está sempre com a TV ligada. Não tarda muito e começa a Escolinha do Professor Raimundo. Eu não consigo almoçar na copa, pois, não consigo assistir a Escolinha.

Me lembro de quando ele começou a falar que em 6 meses o programa completaria 50 anos no ar e ele pretendia fazer uma edição especial em comemoração à data. Faltando apenas 3 meses, ele foi comunicado que a escolinha sairia do ar, sem maiores explicações.

Por mais que ele tentasse saber, nunca ninguém lhe deu satisfação do motivo real do final do programa. Aquilo, foi uma punhalada que nunca parou de sangrar no peito do Chico até o último dia de sua vida.

Me lembro dele tentando ligar para "alguém", pra ter alguma satisfação, pra ter respostas que nunca chegaram. Ele avisou a todos que pôde, que grande parte do elenco morreria de desgosto, pois, não teriam outra oportunidade de trabalho. ele estava certo, muitos deles morreram no ano seguinte. Àquelas pessoas que agora são consideradas "gênios do humor", foram ceifadas no auge da sua maturidade profissional quando tinham o melhor para compartilhar com o público.

Me lembro também das muitas vezes que o Chico se arrumou e saiu de casa com calhamaços de papel, com projetos incríveis para entregar na TV Globo, na esperança de que algum deles fosse ao menos lido. Algo me diz. que ao virar as costas, estes projetos eram simplesmente jogados no lixo, pois, quando ele ligava para saber se tinham gostado "ninguém" sabia onde os papéis estavam.

Não venham me dizer que a Escolinha está no Vídeo Show como uma homenagem. Ela está no ar, porque é boa, porque dá audiência e porque vende.

Chico e Malga
Chico Anysio teria dado muito mais lucro vivo, mas enquanto isso, graças à "maldade de alguém", ele estava em casa, morrendo aos poucos. Chico foi vítima de duas grandes causas. Uma foi o cigarro que matou o seu corpo e a outra foi o "descaso" com seu trabalho, que matou sua alegria de viver.

Então, como assistir a Escolinha agora, com todas estas lembranças que me vêm à cabeça? Prefiro imaginar o Chico estrelando todos aqueles programas que ele escreveu e que foram deletados, mas nunca serão apagados da minha memória. Sei início meio e fim de programas assinados pelo MESTRE, que qualquer TV do mundo daria muito para tê-los.

Dia desses sonhei que onde ele está, havia uma televisão e que ele estava feliz apresentando àqueles programas que ele lia pra mim, então... nada de assistir reprises, prefiro continuar sonhando, sonhando, sonhando...

Malga Di Paula

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Entrevista ao REPENSAR — 13/10/2014


Meus caros,
há poucos meses dei uma entrevista ao programa REPENSAR, da TV Mundo Maior. Já havia assistido algumas entrevistas pelo site da emissora e fiquei prazerosamente impressionado com a maneira como as conversas são conduzidas pela apresentadora, Maria Izilda da Silva Netto. O programa tem uma temática espírita (bem como a emissora, que pertence à Fundação André Luiz), mas o assunto não é tratado de forma panfletária, e sim com o objetivo de ensinar, edificar e esclarecer. Foi justamente isso que mais me estimulou nessa prosa: a possibilidade, que não tivera até este momento, de conversar sobre Jânio deixando um pouco a esfera política e histórica, propriamente, para esmiuçar o ser humano, o cenário em que ele viveu e as implicações de sua existência no universo político brasileiro. Temas como a ciclicidade da história, da reencarnação de idéias, da integração entre política e religião trazem um toque metafísico, interessante e quase nunca divulgado, que só vem acrescentar à discussão. 

Sobre a TV Mundo Maior: "A TV Mundo Maior é uma emissora da FEAL – Fundação Espírita André Luiz. Fundada em 2006, nasceu com a proposta de levar a importante mensagem dos Espíritos para todos, através da TV do terceiro milênio. Desde a sua estreia, a emissora vem aprimorando seus programas e hoje transmite para todo o país 24 horas diárias de programação através de TV via satélite (BrasilSat C2), TV aberta e TV paga em várias cidades no Brasil, além disso no site www.tvmundomaior.com.br é possível acompanhar toda a programação da emissora On-Line e Off-Line.
* Para saber como assistir à TV Mundo Maior, consulte: http://tvmundomaior.com.br/como-assistir/"

Com a apresentadora Maria Izilda da Silva Netto

Na verdade tive, com Maria Izilda, duas conversas: aquela que foi gravada e está dividida em três blocos, e um excelente bate-bola que veio antes, na preparação, quando já ficou claro que nossa troca de idéias tinha material para muitos programas. A apresentadora - jornalista e radialista - é inteligente, articulada, me deu deixas ótimas para desenvolver tópicos que raramente tenho a oportunidade de abordar. 

Eis a chamada para o programa, que foi originalmente ao ar no dia 3 de novembro do ano passado: "Gravamos mais um Repensar! Você gosta de história? Conversamos com Bernardo Schmidt sobre um personagem que se destacou na história do Brasil: Jânio da Silva Quadros. "Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia" é o primeiro livro de uma série que conta a vida e a trajetória desse que foi um político fascinante e que dividiu opiniões. O Repensar vai ao ar toda terça-feira às 19:30h pela TV Mundo Maior - www.tvmundomaior.com.br"

Abaixo está a entrevista completa, dividida em três blocos, cada um deles com uma resenha explicativa dos assuntos tratados:

1ª Parte

A dificuldade de acesso à História do Brasil — A ciclicidade da História — O porquê de biografar Jânio — Descobrindo Jânio — Conhecerás a verdade e ela te libertará — O fascínio e a dimensão humana depois do estudo do assunto — Todos os matizes da personalidade — Análises e pré-julgamentos — Predestinação, missão e processo evolutivo

 
2ª Parte

Redimensionando a biografia de Jânio — Não deixando para o leigo o trabalho do historiador — A influência de Hélio Silva e o Ciclo de Vargas — O que é palatável para o leigo — Eventos importantes na História do Brasil e de Jânio — Detalhes importantes que passam ao largo — Ciclicidade e reencarnação de conceitos — 29, 59 e 2014 — A repetição até que possamos aprender



3ª Parte

A renúncia do bem pessoal pelo bem da coletividade — O ideário político pelo sofrimento — Pai médico, colecionador de diplomas, pobre — Ideário socialista — A ciência deixará de ser manca, e a religião deixará de ser cega — O Integralismo e o viés de fanatismo — Compreensão racional e entrosada — Uma política mais fraterna, mais igual, mais libertadora — Jânio, Ecologia e o amor pelos animais — O destino de glória



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Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia
Vol I: "Um Moço Bem Velhinho"
de Bernardo Schmidt
Editora O Patativa - 350 pgs ilustradas
R$ 30,00 (Frete incluso para todo o Brasil)

Compre através do e-mail editora.opatativa@gmail.com
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Chico de Assis: "Ninguém morre na Classe Teatral"

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Fotos de Roberto Setton (Arena 50 Anos, 2004)

sábado, 3 de janeiro de 2015

Minestrone Cultural II



















THE OLD WOMAN, no Sesc

Como não viciar no SESC Pinheiros, se eles têm uma das melhores programações de São Paulo?? Ontem foi dia de Bob Wilson, Mikhail Baryshnikov e Willem Dafoe, três artistas que separados já são fantásticos, e juntos, portanto, são o supra-sumo da arte cênica. A peça foi um espetáculo de som e imagem sobre o qual falarei mais em breve. No Teatro Paulo Autran, pouco antes de assistir a peça, vejo a homenagem de Elifas Andreato, a partir da foto promocional do Lear de Paulo (no detalhe). Primeira vez que estive nesse teatro, que leva o nome de nosso maior ator de todos os tempos. Momento de recordar o saudoso Paulo Autran. (27/07/2014)



O OTELO DE VITTORIO GASSMAN

"Forse l'avrei perduta... perché sono NERO"...

Difícil não rir assistindo o Othello de Vittorio Gassman, feito para a RAI em 1957. Embora seja prazeroso ver "O Mouro de Veneza" encenado e falado no idioma do país de onde vêm 90% dos personagens, Gassman é o mais greco-romano dos negros que já vi na minha vida. É o africano de nariz mais afilado e boca mais fina do mundo. Ao contrário de Olivier, cuja maquiagem é uma obra-prima de disfarce e transformação, Gassman é apenas um italiano maquiado.


Soube há pouco que - a exemplo de todo grande ator - ele voltou ao personagem 25 anos depois, no teatro. Foi consertar na maturidade aquilo que jogou ao vento rápido demais na temerária e impetuosa juventude. (22/07/2014)

WHITE NIGHTS

Isabella Rosselini
Ainda sob o efeito da alegria intensa de ter visto Baryshnikov ao vivo e a cores, assistimos este fim de semana "White Nights" (no Brasil "O Sol da Meia-Noite"), único filme pelo qual o mestre bailarino é lembrado. E que delícia rever tudo isso! Que saudade de Gregory Hines, tão talentoso, tão fantástico e morto tão cedo... Helen Mirren linda e brilhante como sempre, as coreografias de Twyla Tharp, a cena antológica da dança ao som gutural e trágico de Visotsky... Que belo filme. E a cena final, na minha opinião uma das melhores da história do cinema: o close no rosto maravilhoso, emocionado e emocionante de Isabella Rosselini. Serei o único que prefere a filha à mãe? (11/08/2014)

CAVALOS CAPRICHOSOS

Voltando a respirar depois das desgraças desta semana, trago mais uma impressão de rever WHITE NIGHTS, com Baryshnikov, Gregory Hines, Helen Mirren e Isabella Rosselini. Trata-se de um dos momentos mais memoráveis filme, quando Baryshnikov grita, chora e dá vazão a todo o seu desespero por liberdade através da dança, para sua ex-namorada, Helen Mirren, ao som de Кони привередливые, Koni priveredlivye ("Cavalos Caprichosos", em tradução livre), do grande Высоцкий Владимир, Vladimir Vysotsky, figura belíssima e controvertida das artes russas, persona non grata do governo ditatorial soviético, e que morreu cinco anos antes do filme ser feito.




Até eu, que não sou em absoluto um conhecedor de dança, em qualquer nível, fiquei maravilhado com a cena. Gênios, todos. (14/08/2014)

JOAN

Que ano terrível!... Agora Joan Rivers... ela é como a Aracy de Almeida, que a maioria nem sabe que foi cantora. Hoje todos só pensam em Joan como apresentadora de um programa de moda em um canal a cabo, cercada de medíocres. Mas ela foi uma grande comediante, lá em cima, no mesmo nível de Carol Burnett e Phyllis Diller.

Era engraçadíssima. Rápida, inteligente, ácida, cruel. Com todos e consigo mesma. Suas routines eram arrasadoras. Não havia quem a vencesse numa discussão. Tão divertido vê-la com Carson, seu maior amigo e incentivador, e depois seu pior e mais ressentido inimigo.

Triste vê-la partir. Pouco depois de Robin Williams... que morreu pouco depois de Jonathan Winters... referências tão fortes de minhas primeiras idas aos Estados Unidos... que pena.

Descanse em paz, ou, como já foi dito com muito acerto, ROAST in peace! (04/09/2014)


Joan no programa de Carson, em 1986


BIBI SINATRA




















É axiomático: talento superlativo e humildade sincera andam juntos. Bibi, depois de 73 anos de carreira, achou por bem testar seu novo espetáculo, no qual canta músicas do repertório de Frank Sinatra, e o fez através de um ensaio aberto. Não precisava. O espetáculo está lindo! Falarei mais dele quando assisti-lo pronto.

A estréia é HOJE, 19 de setembro.

NÃO PERCAM! (19/09/2014)


ORKUT (2004/2014)

Amanhã o ORKUT será deletado. Estou de coração partido. Não o freqüento mais há anos, ele está decadente e esquisito, mas como esquecer toda a diversão que tivemos lá? Como esquecer o terremoto que o orkut provocou na até então incipiente Internet?
















Penso no fechamento do orkut como a falência de uma loja, de uma galeria, de um shopping, de uma boate; aquele lugar que foi o top do top, onde passamos horas e horas de nossa vida e hoje passamos e ele está sempre vazio, os vendedores ali esperando, o lugar é um brinco, mas o público simplesmente não vai mais. Aí um dia ele fecha e sentimos aquela tristeza imensa. Não freqüentávamos mais o local, mas ninguém queria que ele sumisse, porque estava impregnado de milhões de memórias, milhões de gargalhadas, milhões de namoros, de brigas, de discussões, de tertúlias, de amizade, de fotos, de intimidade.

Vou escrever um texto sobre o orkut em breve. Durante um tempo tive mais de 30 comunidades. Praticamente todas de teatro. Participava de todas. Escrevia em todas. Trocas de idéias, informações, cultura, tudo. Vou ter muita saudade. Já tenho.(29/09/2014)

Nos primórdios, ainda em 2004... na minha limitada lista de amigos, Bruna, Fabio, outras pessoas, algumas que nem lembro mais, outras conhecidas da época, e o bom Moisés Miastkwosky, que fez a sacanagem de nos deixar há poucos meses. Que saudade de tudo isso. E que pena que Macluhan não viveu para ver que a Internet tornou concreto e plausível, mais do que nunca, o seu conceito de "aldeia global". Eu na época trabalhava num centro empresarial em que me sentia sozinho no meio de quatro mil pessoas. Estar no orkut, entretanto, era estar com três milhões de conhecidos. Brasileiros, iranianos, argentinos, paquistaneses. Negros, brancos, amarelos, vermelhos, azuis.



O Orkut era uma cidade do interior anabolizada. Todo mundo se conhecia, de um jeito ou de outro. As portas estavam abertas, os álbuns fotográficos tinham doze fotos que podiam ser visualizadas (e roubadas) por qualquer um, as comunidades não tinham tranca, o scrapbook era aberto para escrever e para bisbilhotar, os textos não tinham censura, os compartilhamentos rolavam soltos, aos milhares. A única forma, desastrada e anárquica de justiça estava em uma tal "cadeia" em que ficávamos por algumas horas - e às vezes por alguns dias - por postar excessivamente.

Vou escrever sobre o Orkut em breve, já prometi. Ontem fiz uma pequena varredura no que restava dele, crendo que hoje seria seu último dia. Estava errado. Ele foi fechado de madrugada. O que ficou foi um índice de comunidades que leva dias para se consultar. Há que deixar o orkut descansar em paz, como disse minha amiga Mariana. (30/09/2014)

MAIORIDADE E "TERRA DE NINGUÉM"



















Na foto vemos 21 anos acompanhando a carreira desse extraordinário ator que é Luis Melo. Em 1993, depois da esfrega emocional e física que era interpretar Joaquim, na "Vereda da Salvação" de Jorge Andrade, direção de Antunes. E em 2014, há uma semana, finda a jornada por entre - nas palavras do diretor Roberto Alvim - "os signos complexos e fantasmagóricos" de Harold Pinter em "Terra de Ninguém".

Brilhante em tudo que faz. De Shakespeare a Nelson Rodrigues, de Tchekhov a Tolstoi, até cantando "Recuerdos de Ypacaraí" em drag, rs. Que privilégio poder assistir Melo em todos os seus trabalhos. Obrigado, mestre! (04/11/2014)















Feliz reencontro com o sempre excelente Edwin Luisi, um dos atores preferidos do saudoso Flávio Rangel. Em 1994 no Teatro dos Quatro, no Rio de Janeiro, depois da belíssima encenação de "Meus Prezados Canalhas", de João Uchôa Cavalcanti, direção de Gracindo Jr., verdadeiro tour de force com craques como Othon Bastos, Rogério Fróes e Débora Duarte. E no dia 26 de outubro deste ano, na última apresentação de "Terra de Ninguém", de Harold Pinter, direção de Roberto Alvim.

Que prazer reencontrar Edwin. Agora aguardo a temporada paulista de seu premiado monólogo "Eu sou minha própria mulher", de Doug Wright, direção de Herson Capri e Susana Garcia. (06/11/2014)

THE INTERVIEW

Acabo de assistir o filme de Seth Rogen que causou tanta celeuma, recentemente. A história é simples: O apresentador de um programa sensacionalista (James Franco) e seu diretor frustrado que deseja fazer um programa sério (Seth Rogen) decidem tentar uma entrevista com o ditador da Coréia do Norte, Kim Jung Un, quando descobrem que ele é fã do programa deles. A CIA entra na negociação e pretende usá-los num plano para assassinar o ditador. Só que chegando lá, Franco se afeiçoa ao ditador, que é baladeiro, fã de Katy Perry e de margueritas, enquanto Rogen se apaixona pela assessora de Kim.

Existe o elemento interessante de se ridicularizar abertamente um ditador que está no poder, havendo a possibilidade de uma retaliação (circunstância que me remeteu a Chaplin e Hitler, no magnífico Great Dictator), mas The Interview não passa de uma comédia divertida. Enquanto o filme de Chaplin vai do pastelão ao humor mais requintado, com um roteiro genial, performances modelares, esbanjando cenas antológicas e trazendo no bojo uma mensagem pacifista densa e profunda, o filme de Rogen é apenas um besteirol engenhoso, acima da média, com alguns bons momentos. Longe, porém, muito longe de justificar essa grita toda.

Recomendo. Assiste-se com prazer. (27/12/2014)

ANDY WILLIAMS E TOM JOBIM

Caymmi, Williams e Jobim
Andy Williams (1927/2012) foi um dos maiores cantores norte-americanos da segunda metade do século XX. Estava lá, pau a pau, com Sinatra, Tony Bennet, Sammy Davis Jr., Eddie Fischer e Perry Cuomo. Deu vida à antológica "Moon River" de Mancini. E, entre outras coisas, apresentou seu próprio programa de variedades na TV, de 1962 a 1971.

Muito antes de 1967, quando participou com Ella Fitzgerald do programa de Frank Sinatra, Tom Jobim já aparecera quatro vezes em programas de Andy Williams. Em 64 e 65. São programas divertidos e descontraídos, e Dorival Caymmi chegou a dividir o palco com ambos, em uma dessas ocasiões. Enquanto Sinatra apresentava o "A Man and his Music" de smoking, Williams vestia um suéter, sentava-se tete-a-tete com seu convidado e conversava sem cerimônia. No caso de Jobim e Williams, a intimidade vinha do fato de que os dois chegaram a se apresentar juntos em uma temporada em Lake Tahoe, na época.

Na cena a seguir veremos os dois cantando "Garota de Ipanema" em março de 1965.


Como sou um adorador de Sinatra desde os dez anos, minha opinião é a mais sincera possível: prefiro esta versão do que aquela de 1967, famosa, com Tom e Frank.

Divirtam-se. E que estes dois mestres tragam bons augúrios ao ano que entra. (03/01/2015)

CHICO DE ASSIS




Puta que pariu...

Chico... teria sido egoísta pedir para você ficar só mais um pouco conosco? Mais 5, 10 anos?

Em você, o que mais me marcou não foi a dramaturgia, não foram as direções ou os cursos. Foi tua inteligência atilada, aguda, brilhante. Precisamos tanto dela. Sobretudo neste momento de nulidades absolutas no governo, na arte, na cultura, em toda parte.

O Arena foi realmente a junção de tudo o que se produziu de melhor no teatro brasileiro. José Renato era o administrador. Boal era o cérebro. Guarnieri era o coração. E você era o amálgama dos três. Era todos eles.

E agora só temos o teatro para lembrar de vocês.

Que merda, Chico...

Obrigado por tudo, mestre amado! (03/01/2015)

DANIELA

Vez por outra me pego lembrando dela... tão jovem, tão apaixonante, tão linda. Tornei-me fã incondicional a partir de O Dono do Mundo. Soube de sua morte em Ubatuba, onde passei o reveillon de 92. Foi grande a tristeza.

Hoje seu assassino está livre, gordo e saudável, dando entrevistas.

Que país maldito...











































(26/01/2015)

INEZITA


























Em novembro passado reservei lugar para assistir o Viola, Minha Viola ao vivo. Queria dar um beijo em Inezita e mostrar-lhe seu autógrafo de 1963 no violão do meu pai. Quando a produção me alertou que ela entrava e saía sem contato com o público, desanimei. Mas segui assistindo seu delicioso programa pela televisão, como faço há 30 anos.

Com sua partida, a TV perde seu programa mais tradicional, mais doce e mais brasileiro. E nós perdemos o prazer aconchegante, familiar e caseiro de ter essa mulher adorável, talentosa e elegante em nossas vidas toda semana.

Obrigado, Inezita. Por tudo. (10/03/2015)

"GENTE DE TEATRO", por Oscar Arruda

Deliciosa definição de toda uma geração de atores e atrizes, exatamente como foi publicado na revista "O Malho", de 15/3/1934.



(05/04/2015)

O "HAMLETO", DE JOÃO CAETANO

Que divertidíssimo pastiche de Shakespeare terá o grande João Caetano apresentado com o nome de "Hamleto", em agosto de 1850? Provavelmente uma reprise do que já apresentara desde 1835, ou seja, a tenebrosa versão francesa de Ducis, traduzida por Oliveira Silva. Pouco seria dizer que era uma pálida imitação do original, só conhecido no Brasil a partir de 1871, pela interpretação magistral do italiano Ernesto Rossi.

A título de curiosidade, além de sua esposa Estella Sezefreda, estava com ele nessa companhia o ator Martinho Vasques, irmão do mais tarde célebre Francisco Vasques.



(19/04/2015)

OSCAR 2015

Pequena seleção de textos sobre filmes indicados, escrita entre março e abril de 2015


Boyhood Assisti, finalmente. O título é auto-explicativo: trata-se da odisséia infanto-juvenil de um menino americano, com a diferença de que o filme foi sendo feito ao longo de doze anos, o que mostra o crescimento real do garoto.

Ethaan Hawke e Ellar Coltrane
na premiere do filme
Gostei muito. Não imaginei que fosse possível retirar alguma coisa de tema tão genérico e manjado, mas o cineasta Richard Linklater deu uma aula de simplicidade e competência. Soube manejar os clichês de forma tão enxuta e objetiva que conseguiu tornar interessantes os problemas do garoto, basicamente os mesmos enfrentados por qualquer moleque dessa idade. E o que é mais louvável: sem apelar uma única vez.

Elenco acima da média (o garoto e sua irmã são bons) com destaque para Ethan Hawke, que melhora notavelmente com a idade, e Patricia Arquette, brilhante.

Faria uma ressalva que não chega a ser um defeito; o filme tem duas horas e quarenta e cinco minutos. Eu provavelmente cortaria uma meia hora. Não que o filme se torne maçante - pelo contrário, é um pé de vento - mas duas horas seriam suficientes. Seja como for, assiste-se com o máximo prazer. Recomendo.

J. K. Simmons
Whiplash - Acabo de ver. Gostei da análise que minha amiga Mary fez desse filme, denominado-o um "Karatê Kid em que o Sr. Miagy é malvado". Mas não foi tanto o Karatê Kid que me veio à lembrança com este filme, e sim Shine, sobre David Helfgot, o pianista que perdeu o juízo com o excesso e a severidade de seu treinamento.

O filme trata de Andrew, estudante de bateria em um prestigioso conservatório, e sua relação com o draconiano maestro Fletcher.

Em 90% graças à maravilhosa performance de J. K. Simmons - um ator versátil, eclético, que admiro e que há anos venho torcendo para que receba um papel à altura de seu talento - gostei. O bullying de seu personagem tem método e razão de ser, certa ou errada, e foge do estereótipo do diretor meramente carrasco.

Os interlúdios musicais são meio compridos mas não poderia ser de outra forma em um filme sobre música e músicos.

Recomendo.

Clint e Bradley Cooper
American Snipper - Assisti sem saber quem era Chris Kyle, sem ter feito qualquer busca na internet e só sabendo que existe polêmica envolvendo o personagem (real) e o filme. Vou logo dizendo: gostei bastante. Trata-se da vida do atirador de elite Chris Kyle, apelidado "a lenda" por ter matado mais de 160 pessoas no Iraque. A polêmica vem do fato de que ele é tratado como herói por alguns e como um assassino serial por outros; o filme pende para a simpatia. Deixo o julgamento para o espectador. A mim cabe dizer que é o melhor filme de Clint que assisto em mais de uma década. Million Dollar Baby e Changelling achei apelativos; Flags of our fathers e Letters from Iwo Jima, chatíssimos; Invictus e Gran Torino, bobos e dispensáveis; J. Edgar, um triste desperdício do personagem, e não tive saco de ver Hereafter ou Jersey Boys.

Com American Sniper Clint mostra que está em plena forma e é capaz de fazer um ótimo filme de guerra. Suspense de primeira linha. O elenco está ok. Bradley Cooper é bom mas acho a indicação ao oscar um exagero. Sienna Miller é boa e sem sal como sempre e o resto do elenco de apoio convence. Recomendo.


Krisen Stewart e Julianne Moore
Still Alice - Uma celebrada intelectual atingida por uma forma raríssima de Alzheimer precoce aos 50 anos.

O filme faz uma opção (correta, de certa forma) de se manter às margens do inferno da doença. Ganha por não ser apelativo. Perde por ser edulcorado. Mas Julianne Moore está perfeita como sempre. Seu ano chegou. O oscar é dela.

Birdman & The Imitation Game - Assisti ambos, um atrás do outro, porque já juntavam poeira no meu HD. Birdman era mais ou menos o que eu esperava. A trama não é exatamente um mistério. Diria até que a premissa é meio manjada e que o filme se arrasta um pouco, mas a qualidade de elenco e roteiro é tão excepcional que vale a experiência. É o papel da vida de Michael Keaton, embora seja doloroso vê-lo velho e enrugado. Edward Norton e Naomi Watts estão bem e Emma Stone está ótima. Quem me deixou boquiaberto, porém, foi Lindsay Duncan, a perversa crítica teatral. Suas poucas cenas são estupendas, assim como é tristemente verdadeira sua verrina sobre a dicotomia ator/celebridade. Curioso que o Rotten Tomatoes o classifique como "comédia", já que é um drama do início ao fim. Suponho que a presença de Zach Galifianakis devesse ser o elemento cômico, mas a verdade é que ele está mais perdido que cachorro em mudança.


The Imitation Game é diversão garantida. Drama dinâmico e empolgante, com direito a surpresas e reviravoltas. Com um detalhe considerável: a história é real. Alan Turing existiu e minha geração só não aprendeu sobre ele na escola porque o homossexualismo era crime na Inglaterra até 1967 e ele foi convenientemente varrido para debaixo do tapete. Ao contrário de Birdman, o que vale aqui é a vida do protagonista e só se sobressai, de fato, a performance de Benedict Cumberbatch. Keira Knightley está apagada e seu papel poderia ter sido interpretado por qualquer atriz inglesa. Recomendo, embora tenha a sensação de que um diretor mais tarimbado teria feito algo bem melhor e mais profundo, da odisséia de Turing. 
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