domingo, 1 de fevereiro de 2015

"Tristeza? Saudades? Não: Indignação!", por Malga Di Paula

Meus caros,
no dia 29 de janeiro a viúva de Chico Anysio, Malga Di Paula, publicou um texto que muito me impressionou. Não é segredo para ninguém que vários anos antes de morrer Chico já estava ostracizado na emissora onde trabalhava. Tudo começou com a saída de Boni. Sua substituta, Marluce Dias da Silva, era uma executiva de Recursos Humanos e trabalhara no BNDE e na Mesbla antes de ir para a Globo. Não tinha, portanto, a mais mínima experiência com direção artística ou linha de shows. Chico, há trinta anos acostumado à parceria com Boni, que deu ao Brasil os melhores momentos do humor na televisão em todos os tempos, bateu de frente com ela. Na mesma época ele quebrou a mandíbula e se afastou da TV para tratamento. Oficialmente, Marluce declarou que Chico poderia voltar ao trabalho assim que estivesse recuperado. Na prática, a coisa era bem diferente. Segunda esta reportagem da Folha, em 1997:

Ele [Chico] diz ter lido uma entrevista em que Marluce dizia que, assim que ele se recuperasse, voltaria a ter um programa. (...) Segundo o humorista, três meses depois da entrevista, o diretor Daniel Filho o convidou para escrever um programa para as noites de sábado, no formato do "Noites Cariocas", humorístico de sucesso na TV Rio, nos anos 60. "Mandei o roteiro para ele e, em seguida, recebi um telefonema dele dizendo que tinha gostado muito, só que depois não disse mais nada. Um dia recebi um envelope com o roteiro e nenhum bilhete". Anysio disse ter motivos para acreditar que Marluce foi a responsável por isso. "No encontro que tive com ela, deixei claro que não aceitaria ser controlado, faria o programa à minha maneira. Além disso, já escutei muitas vezes do Daniel Filho que ele não manda nada lá, a última palavra é sempre a dela. Não adianta ele gostar".

Chico nunca conseguiu voltar como desejava e como merecia. O dano à sua carreira não foi apenas algo que o magoou profundamente, ajudando a minar sua saúde, mas significou literalmente a morte para muitos daqueles que trabalhavam com ele. Conhecer o fato, porém, pela ótica de quem estava ao lado dele por todo esse período, é muito esclarecedor. E muito, muito triste. A Escolinha foi cancelada três meses antes de completar 50 anos, sem qualquer explicação!... Projetos e mais projetos sendo engavetados ou jogados no lixo?? E isso diante da inanição artística de nossa TV!...

Não há perdão para quem, por quiçá quais picuinhas e questões pessoais, tenha impedido esse nosso gênio maior de espalhar o brilho de sua inteligência superior e de sua criatividade inesgotável.
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Tristeza? Saudades? Não: Indignação!

Hoje foi um daqueles dias que acordei mais sensível, com muita saudades do Chico. Sim, porque a ausência dele é muito forte pra não ser percebida, logo ali, do outro lado da parede da minha casa. Naquele escritório que agora está vazio, onde ele passava longas horas produzindo, escrevendo incríveis projetos que somente eu tive o privilégio de conhecer, pois,  quando acabados, ele me chamava para ler e na maioria das vezes deletava logo em seguida, sim, pois era assim que o Chico se sentia... "Deletado".

Eu almoço tarde e quando vou almoçar, minha empregada está sempre com a TV ligada. Não tarda muito e começa a Escolinha do Professor Raimundo. Eu não consigo almoçar na copa, pois, não consigo assistir a Escolinha.

Me lembro de quando ele começou a falar que em 6 meses o programa completaria 50 anos no ar e ele pretendia fazer uma edição especial em comemoração à data. Faltando apenas 3 meses, ele foi comunicado que a escolinha sairia do ar, sem maiores explicações.

Por mais que ele tentasse saber, nunca ninguém lhe deu satisfação do motivo real do final do programa. Aquilo, foi uma punhalada que nunca parou de sangrar no peito do Chico até o último dia de sua vida.

Me lembro dele tentando ligar para "alguém", pra ter alguma satisfação, pra ter respostas que nunca chegaram. Ele avisou a todos que pôde, que grande parte do elenco morreria de desgosto, pois, não teriam outra oportunidade de trabalho. ele estava certo, muitos deles morreram no ano seguinte. Àquelas pessoas que agora são consideradas "gênios do humor", foram ceifadas no auge da sua maturidade profissional quando tinham o melhor para compartilhar com o público.

Me lembro também das muitas vezes que o Chico se arrumou e saiu de casa com calhamaços de papel, com projetos incríveis para entregar na TV Globo, na esperança de que algum deles fosse ao menos lido. Algo me diz. que ao virar as costas, estes projetos eram simplesmente jogados no lixo, pois, quando ele ligava para saber se tinham gostado "ninguém" sabia onde os papéis estavam.

Não venham me dizer que a Escolinha está no Vídeo Show como uma homenagem. Ela está no ar, porque é boa, porque dá audiência e porque vende.

Chico e Malga
Chico Anysio teria dado muito mais lucro vivo, mas enquanto isso, graças à "maldade de alguém", ele estava em casa, morrendo aos poucos. Chico foi vítima de duas grandes causas. Uma foi o cigarro que matou o seu corpo e a outra foi o "descaso" com seu trabalho, que matou sua alegria de viver.

Então, como assistir a Escolinha agora, com todas estas lembranças que me vêm à cabeça? Prefiro imaginar o Chico estrelando todos aqueles programas que ele escreveu e que foram deletados, mas nunca serão apagados da minha memória. Sei início meio e fim de programas assinados pelo MESTRE, que qualquer TV do mundo daria muito para tê-los.

Dia desses sonhei que onde ele está, havia uma televisão e que ele estava feliz apresentando àqueles programas que ele lia pra mim, então... nada de assistir reprises, prefiro continuar sonhando, sonhando, sonhando...

Malga Di Paula

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