sábado, 3 de agosto de 2013

Líbero Badaró



Desenho incluído no livro “São Paulo de Outrora”,
de Paulo Cursino de Moura (1943)
A imigração italiana provocou incalculável avanço industrial em São Paulo no fim do século XIX e início do século XX. Quase um século antes dos Matarazzo, dos Lunardelli e dos Crespi, porém, houve um italiano cuja história se confunde não só com a Paulicéia, mas também com nossa imprensa e com a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Seu prenome composto já foi grafado de muitas formas: em um obelisco comemorativo do Doria-Pamphili lemos o latino Janns Bapt.”. Afonso Schmidt se refere a ele como “Gio Batta”, fiando-se no nome dado à rua que o homenageia, em Gênova. Aureliano Leite estende o nome para “Giovanni Battista” (seu provável nome de batismo), Geraldo Sesso parece amalgamar os dois no incompreensível “Giantta”, e a maioria prefere o nome com que ele primeiro se consagrou por aqui: João Baptista. Não faz diferença, porque é seu sobrenome que toda a população de São Paulo conhece: Líbero Badaró.

Nascido em Leighlelia, localidade próxima a Gênova, em 1798, Badaró formou-se em Ciências Naturais e Medicina pelas universidades de Pávia e Turim. Segundo se diz, suas inclinações liberais o puseram em rota de colisão com o governo de sua terra natal e o levaram a sair do país. A razão para ter escolhido o Brasil não está clara, mas chegou ao Rio de Janeiro em 1826. Lá montou clínica e fez contatos com jornalistas e políticos. Dois anos depois desembarcava em São Paulo.

Não é possível continuar, entretanto, sem que se compreenda que a São Paulo daquele tempo — lugar comum dizê-lo, embora neste caso seja a mais cristalina das verdades — era um humilde vilarejo. “Uma cidade obscura e pobre”, nas palavras de Afonso Arinos. Só fora elevada de vila à cidade, aliás, pouco mais de cem anos antes, em 1711. Nesse nublado alvorecer do século XIX, com seus minguados quinze mil habitantes, São Paulo ainda não existia. Era simples artéria de uma província deserta dentro de uma capitania gigantesca que pouco ou nada servia ao Brasil. Essa situação ensaiou discreta melhora quando a família real chegou, em 1808, acelerando, graças à presença dos monarcas, um processo de desenvolvimento que andava estagnado em todo o país; e continuou a melhorar depois de uma visita do Imperador Pedro I à província, em meados de 1822. Ele veio para resolver questões de política regional que envolviam os Andradas (a tal Bernarda de Francisco Ignácio), e quando estava prestes a voltar ao Rio recebeu os ofícios de Portugal que o abespinharam e provocaram o “Independência ou Morte!”. Como se vê, a independência podia ser anseio antigo, mas ela ter sido proclamada na colina do Ipiranga foi inteiramente acidental.

Pedro I
São Paulo entrou definitivamente no mapa. Uma conseqüência direta foi a tentativa de se inaugurar, em solo bandeirante, a imprensa, que ainda engatinhava no Brasil. Fora tentada no Rio de Janeiro em meados do século XVIII por um português chamado Antonio Isidoro da Fonseca, que adquiriu um tipógrafo e chegou a divulgar alguns impressos. Assim que soube da notícia e sem qualquer interesse em que se disseminasse a cultura e a informação por sua colônia, a coroa portuguesa mandou queimar tudo e deportou Fonseca. Só com a chegada de D. João VI, 60 anos depois, inaugurou-se a “Impressão Régia”. Na Paulicéia o processo claudicou e o responsável pela primeira iniciativa foi Antonio Mariano de Azevedo Marques, vulgo “mestrinho”. Paulistano, nascido em 1797, Antonio era um prodígio; autodidata, desde muito novo já ministrava aulas de latim e retórica. Em 1823 publicou O Paulista, jornal manuscrito que teve vida curtíssima. Mas a semente foi plantada. Quatro anos depois, quando nada menos do que oito províncias já possuíam tipografias, o baiano José da Costa Carvalho finalmente instalou a sua em São Paulo e em fevereiro de 1827 publicou aquele que é geralmente considerado o primeiro jornal paulista: o Pharol Paulistano.

Carvalho nasceu em Salvador, em 1796, formou-se advogado pela Universidade de Coimbra em 1819 e veio para São Paulo em 1821 exercer as funções de juiz de fora e de ouvidor. Esteve envolvido nos tumultos políticos que desembocaram na vinda de Pedro I, em 1822. “Ambicioso e jovem”, nas palavras de Pedro Calmon, Carvalho tornou-se redator-chefe do jornal pioneiro, tendo a seu lado o mestrinho Azevedo Marques. Abertamente oposicionista, mas moderado em sua crítica, o Pharol Paulistano passou a congregar a fina flor da “reação liberal à política absolutista de D. Pedro I” (Spencer Vampré, 1924). Seu time de redatores incluiu algumas das maiores cerebrações nacionais: Nicolau de Campos Vergueiro, Manoel Joaquim de Amaral Gurgel, Vicente Pires da Motta, Antonio Manoel de Campos Mello, João da Silva Carrão e Manoel Odorico Mendes. O elenco é notável por duas razões: primeiro porque a maioria ocupava ou ocupou, futuramente, cargos da maior relevância política no senado, nos conselhos, governos e ministérios. E segundo porque praticamente todos estudaram, lecionaram ou se tornaram diretores da embrionária Faculdade de Direito, outra das grandes conseqüências de São Paulo ter passado a existir, com a Independência.


José Fernandes Pinheiro, mais tarde
Visconde de São Leopoldo
A Indicação que deu origem a tudo foi escrita pelo deputado José Feliciano Fernandes Pinheiro, e enviada durante a Assembléia Constituinte, em junho de 1823, mesmo ano em que Mestrinho tentou parir a imprensa paulista. As razões para que se criasse de uma vez uma escola de Ciências Jurídicas e Sociais no Brasil eram óbvias, o país carecia de tudo, ninguém se formava aqui, quem quisesse ser advogado tinha que ir para Coimbra onde brasileiros eram maltratados e segregados, e assim por diante. Mas foi a escolha de São Paulo — feita por Fernandes Pinheiro — e Olinda — aditada dois meses depois pela Comissão de Instrução Pública — para sediarem as escolas, que acirrou o ânimo dos parlamentares. Curioso que Olinda não foi tão discutida, mas desde o início, deputados de outras províncias cobraram a construção das faculdades em locais mais civilizados e influentes, como o Rio ou a Bahia. Fernandes Pinheiro respondia com tranqüilidade, justificando sua opção por São Paulo: “Considerei principalmente a salubridade e amenidade de seu clima, sua feliz posição, a abundância e barateza de todas as precisões e cômodos da vida”. Concluía com frase que hoje causa triste hilariedade: “O Tietê vale bem o Mondego do outro hemisfério”, referindo-se ao rio português que corta Coimbra.

É bem verdade que a Indicação primitiva de Fernandes Pinheiro teria que suportar a dissolução da Assembléia por Pedro I e anos de discussões, na reformulação posterior do Poder Legislativo, até que fosse promulgada a lei de 11 de agosto de 1827, instituindo os cursos jurídicos de São Paulo e Olinda. Mas entre a fundação do Pharol Paulistano, em fevereiro de 27, e o início do curso de Direito no Largo São Francisco, em março de 28, temos basicamente o mesmo rol de personagens, hoje verdadeiro guia de ruas: Vergueiro, Carrão, Amaral Gurgel, Arouche (José Toledo de Arouche Rendon, primeiro diretor da faculdade), e Costa Carvalho. Este último — alternando agora sua atividade jornalística com o cargo de deputado, na côrte — tem papel decisivo, pois foi quem trouxe Líbero Badaró para São Paulo, em julho de 1828.


José de Costa Carvalho
Desde sua chegada o médico dá provas de invulgar formação cultural e disposição para o trabalho, como atesta a carta do diretor Rendon ao ministro do Império, Pedro de Araújo Lima, comunicando a vinda de um professor e cinco estudantes do Rio, “e bem assim um médico italiano, formado em Pávia, de nome João Baptista Badaró, o qual anunciou que estava pronto a ensinar gratuitamente aritmética e geometria, enquanto não vinha o professor daquela cadeira. (...) Não tendo ele casa suficiente, por estar hospedado na casa do deputado Costa Carvalho, se lhe arranjou lugar no mesmo palácio do governo, onde estão outras aulas, com utensílios próprios daquela ciência, que aqui havia do tempo em que se ensinou geometria” (Almeida Nogueira, 1908).

Por um tempo, como se vê, Badaró hospedou-se com Costa Carvalho e depois no Palácio do Governo (localizado no Pátio do Colégio), até fixar residência na rua São José. A via foi aberta entre 1786 e 1788, por José Raymundo Chichorro da Gama Lobo, governador interino da capitania entre as gestões de Francisco da Cunha Menezes (1782/1786) e Bernardo José de Lorena (1788/1797). Ia da confluência entre o Largo São Francisco (onde então havia só o convento e a igreja dos franciscanos) e o Largo do Capim (encontro das ruas São Francisco e Ouvidor) até o Largo São Bento, paralela pelo lado direito à rua São Bento, e pelo lado esquerdo ao vale onde passava o rio Anhangabaú. Era cortada pela rua Direita e pelo Largo do Acú (hoje a continuação da São João depois de atravessar o vale). Badaró estabeleceu-se em uma pequena casa térrea próxima ao início da rua, de frente para ladeira de Santo Antônio (hoje Dr. Falcão). Durante um ano ministrou aulas de geometria, classificou plantas, utilizando seu conhecimento de botânica e clinicou, “aplicando sangrias e experimentando os sudoríficos brasileiros, visitando solícito a clientela, montado no indefectível cavalo branco de que os nossos esculápios de outrora faziam gáudio” (Cursino de Moura, 1943).  



















Em 1829 o médico mergulha de cabeça no jornalismo. Funda, com Luis Monteiro d’Ornellas, sob os auspícios (e provavelmente o patrocínio) de Costa Carvalho, o Observador Constitucional, segundo jornal produzido em São Paulo e folha oposicionista bem mais agressiva do que o Pharol, em cujas oficinas era impresso. Imagina-se que, não podendo enfiar o dedo na ferida por estar investido de cargo que o obrigava à hipocrisia das boas relações políticas, Carvalho tenha incentivado o amigo politizado e corajoso à lide jornalística (Monteiro d’Ornellas colaborou só até meados do ano seguinte). O primeiro número do Observador saiu em 23 de outubro de 1829 e passou, a partir de então, a vergastar — às vezes com humor, às vezes com acidez — quaisquer desmandos que visse pela frente, desde a política conservadora de Pedro I até problemas mais provincianos. Uma estupenda blague do jornal foi a publicação, em julho de 1830, de uma propaganda em letras garrafais anunciando a encenação de duas peças na Casa da Ópera, único teatro da cidade, localizado ao lado do Palácio do Governo: O cabido escolhendo um prebendado e Os badalos fugidos e um Tenente-General pedindo uma guarda para eles.



















O título da primeira peça é impagável: vagara a função de tesoureiro da catedral de São Paulo e coube ao bispo da Diocese, Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade — que ocupava interinamente, como em várias outras ocasiões, o governo da província — escolher entre dois candidatos: Joaquim José Carlos de Carvalho, apoiado por Líbero Badaró, e Antonio Paes de Camargo, apoiado pelo bispo. O cabido (conselho de cônegos) escolheu Camargo para receber a prebenda (renda eclesiástica, mas que figurativamente pode significar uma sinecura, função em que se trabalha pouco e se ganha muito).

Número do Observador Constitucional
Quanto à segunda peça, faz alusão direta a um, entre tantos fatos que levaram o velho Arouche de Toledo Rendon a se arrepender pelo curto resto de sua vida (tinha 74 anos, morreria quatro anos depois) de ter aceito a direção da Faculdade de Direito: o furto dos badalos do sino da igreja de São Francisco por estudantes, obrigando o diretor a solicitar um segurança noturno para a igreja e a faculdade, a fim de evitar novos furtos.

Qualquer pessoa minimamente informada compreenderia se tratar de uma palhaçada de Badaró, pilheriando fatos recentes, não só pelo ridículo dos títulos mas pelo simples fato de que a Casa da Ópera não estava só caindo aos pedaços, mas também alugada a um comerciante espanhol que a utilizava para outros fins. Pedro I, porém, na total desorientação que marcou os meses anteriores à sua abdicação, baixou decreto a 21 de julho proibindo a encenação das peças. Coube ao bispo entender-se com Carneiro de Campos, Marquês de Caravellas, novo responsável pela pasta do Império. Nas palavras azedas e preconceituosas do clérigo ao ministro, em carta de 12 agosto, já se nota o fundo desprezo que o nome do italiano inspirava aos governantes:

O bispo Manoel
Sou por ora de parecer que o anúncio do Observador não foi senão um improviso de seu redator, que é um italiano de nome Badaró, que em 1828 para aqui mandou o deputado Dr. Costa Carvalho, e entrou nesta cidade com o título de grande médico; mas esse crédito em breve tempo desapareceu. Depois, não tendo ainda chegado o professor de Geometria, ele se ofereceu para ensinar esta ciência gratuitamente; eu lh’o permiti e franqueei uma aula nos baixos da Casa do Governo. De fato ensinou perto de um ano, com a desgraça de que nenhum dos seus discípulos aproveitou.

Um vômito de bile desse bispo que ninguém mais lembra. Em frontal contradita, baseando-se no depoimento dos “coevos”, como se dizia na época, Almeida Nogueira afirma que Badaró, “além de instruído, era bondoso e tratava com carinho os seus discípulos. Estes estimavam-no, chasqueavam com ele e chamavam-lhe o Botas, por usar de calçado muito grosso e ter um pisar pesado e estrepitoso”. Segue o bispo em sua verrina:


O velho José Arouche
de Toledo Rendon
Por fim, não se verificando nele o verso latino Dat Galenus opes, etc.,* passou por acesso a redator daquela folha, que tem extração pelos continuados ataques e chincalhações (sic) às autoridades e pelas correspondências das intrigas, de que é cheia, sendo estas as matérias que a gente miúda lê com apetite, ao menos por ser o que pode entender(Almeida Nogueira, 1908) * Dat Galenus opes, dat Justinianus honores, sed Moses sacco cogitur ire pedes. "Dá Galeno a riqueza, dá Justiniano as honras, mas Moisés vai a pé pedindo esmola". (Robert Burton, filósofo e clérigo inglês — 1577/1640)

Mais uma vez, ao contrário do que diz esse bispo puxa-saco, Badaró nunca deixou a medicina e seguia utilizando-a de forma benemerente. Prova disso é a carta que mandou à Câmara Municipal de São Paulo em 21 de outubro de 1830, mostrando que sabia quando era o momento para a pugna política e quando era hora de baixar as armas, “persuadido de que os prejuízos do vulgo cessam em face de uma autoridade paternal, e tão respeitável, como a da Câmara Municipal”. Mostrava também sensibilidade e preocupação com as tenebrosas epidemias de varíola que ainda eram tristemente comuns em São Paulo: “Tenho a honra de remeter a Vossas Senhorias dezenove lâminas de ótimo pus vacínico, por mim coligido nesta cidade, a fim de que Vossas Senhorias as façam distribuir pelas diferentes vilas, que mais necessitarem. Pode a Câmara contar que eu não me descuidarei, e continuarei a coleção de pus; portanto, se, por ventura, precisar para o futuro ainda algumas lâminas, terei a honra de lh’as apresentar” (Jacyntho Ribeiro, 1899).

Sobre isso, fala com muita propriedade o douto Spencer Vampré, autor de estupenda obra sobre a Faculdade de Direito: “Reflita-se que Jenner, o inventor da vacina, falecera há sete anos, em 1823; que a sua descoberta encontrava tenazes opositores (...) e poder-se-á aquilatar da cultura e da iniciativa do médico italiano” (Spencer Vampré, 1924).

Quadro de 1945, de autoria de Nair Opromola
Interessante que Badaró tratasse com tanto carinho a Câmara Municipal. É, no mínimo, indicativo de que ele fazia uma distinção clara entre os diferentes ramos do poder. A partir de abril de 1830, por exemplo, sua artilharia pesada esteve constantemente voltada para o ouvidor da província, que seria algo próximo do secretário estadual de Segurança de hoje. Tratava-se, à época, do advogado e médico Cândido Ladislau Japi-Assú de Figueiredo e Mello, baiano nascido em 1799. Sendo Badaró liberal e libertário, era natural que se insurgisse contra os abusos de Japi-Assú, que agia como um xerife da coroa, na província. Referia-se a ele como “caligulazinho” no Observador, e não lhe dava trégua. Em setembro, ecos da Revolução dos Três Dias, que depôs Carlos X provocaram grande euforia entre a juventude brasileira, sobretudo aquela que freqüentava a Faculdade de Direito. Em parecer da Câmara dos Deputados, citado por Octavio Tarqüínio, falou-se em “luminárias, bandas de música e mais demonstrações de alegria praticadas pelos habitantes de São Paulo pelo derrubamento do governo tirano e anti-constitucional da França”.

Não suportando ver o povo feliz, e associando o júbilo pela queda do tirano de lá ao que seria um movimento subversivo com vistas a depor o imperador daqui, que por sinal também já era visto como um tirano — “e um tirano estrangeiro”, como observou Tarqüínio — Japi-Assú mandou processar alguns dos estudantes de Direito envolvidos nas manifestações. Líbero Badaró assumiu in limine a defesa dos processados, pelas páginas do Observador. O fim se aproximava. Na noite de sábado, 20 de novembro de 1830, Japi-Assú jogava cartas em sua casa com alguns alunos e professores da Faculdade de Direito. Em meio à conversa sobre a situação do país e os ataques do Observador, Japi-Assú resmungou, como se falasse consigo mesmo: “Não tardará muito a que pague Badaró as injúrias que têm vomitado”.

Badaró, por Tancredo do Amaral
Cotejando as inúmeras versões que existem para contar a morte de Badaró, eis o que provavelmente aconteceu:

Não muito longe dali, na rua São José, o italiano voltava para sua casa depois de um dia normal de trabalho. Aquela noite, segundo se diz, estava claríssima, razão pela qual os lampiões não estavam sequer acesos. Dois sujeitos escondiam-se nos desvãos da rua, onde hoje seria a esquina da Líbero Badaró com a Praça da República. Fingiam-se de bêbados para não atrair suspeitas e balbuciavam bobagens aos transeuntes. O problema é que determinado transeunte reconheceu um dos bêbados, que era o alemão Henrique Stock, e lhe respondeu: “Stock, vá cozinhar a bebedeira em casa. Não é decente curti-la aqui na rua”, e seguiu andando. Stock e seu comparsa se calaram imediatamente. Pouco depois veio o italiano. Assim que passou, Stock saiu do escuro e o chamou:

— O senhor é o jornalista e doutor Líbero Badaró?
— Sou.
— Sr. Dr. Badaró, quero que Vossa Senhoria ponha na sua folha o ouvidor Japi-Assú, que me lesou em um negócio de farinha de trigo.
Cansado, Badaró replicou:
— Amigo, é um pouco tarde para tratarmos disso. Venha depois de amanhã, segunda-feira, e então arranjaremos.
— Pois virei.
— Bem, então boa noite.
O outro sicário então saiu do escuro, tirou uma arma debaixo da japona e disse:
— A correspondência contra o Dr. Japi-Assú é esta!

Aquarela de Hércules Florence (1804/1879) de Badaró moribundo. É a única imagem do italiano. Todos os desenhos e pinturas de Badaró vêm desta aquarela.

Atirou uma vez no estômago de Badaró, que caiu, agonizando. O tiro atraiu quem estava por perto e assim que o italiano foi reconhecido, a rua São José virou um pandemônio. Um dos primeiros a acudi-lo foi o estudante Emiliano Fagundes Varella (filho do professor Luiz Nicolau Fagundes Varella e pai do poeta Fagundes Varella). Uma multidão se aglomerou em volta de Badaró e nas ruas adjacentes, enquanto era chamado às pressas o médico Joaquim Antonio Pinto, para tentar salvar o colega. Badaró foi carregado para sua casa e esse médico, junto a outros que iam chegando, examinaram o italiano, que estava lúcido, mas cujo estado terminal era irreversível. Ciente de que ia morrer, disse: “Morre um liberal, mas não morre a liberdade”. Morreu no domingo, 21 de novembro. Segundo o necrológio algo exagerado do Observador Constitucional de 26 de novembro, cinco mil pessoas (ou seja, um terço da população citadina), oitocentas delas brandindo tochas, estiveram no enterro de Badaró.

Retrato post-mortem de Badaró,
com a frase que o eternizou

Como sucede com aqueles sobre quem só se faz um levantamento biográfico várias décadas após seu desaparecimento (os primeiros relatos mais ou menos detalhados sobre a vida de Badaró começam a aparecer quase cinqüenta anos depois de sua morte, em O assassínio de João Baptista Badaró, de J. A. Pinto Junior — filho do médico que primeiro tratou do italiano — em 1876, nos Apontamentos Históricos, Geográficos, Estatísticos e Noticiosos da Província de São Paulo de Azevedo Marques — sobrinho de Mestrinho — em 1879, e em Alguns apontamentos biográficos de Líbero Badaró, de Argemiro da Silveira, em 1890), toda essa parte final levanta controvérsias. Há quem fale de dois, três e até quatro alemães. Os nomes vão de Stock e Storck até Stockler. A celebérrima frase de Badaró, que eternizou sua existência e transformou-se em lema democrático e humanista, também tem variações. O Pharol Paulistano do dia 23 consignou que Badaró dissera “não importa, morre um homem livre mas fica a liberdade”. No dia 26 foi o redator do Observador Constitucional, em texto cheio de emoção e indignação, que afirmou ter ouvido dos lábios do próprio Badaró a frase textual, “morre um liberal, mas não morre a liberdade”.

Farol Paulistano, 23/11/1830

Observador Constitucional, 26/11/1830
  

A defesa de Cândido Japi-Assú. O ex-ouvidor
foi absolvido por falta de provas
O que se sabe é que no dia seguinte ao atentado houve manifestações generalizadas de revolta, e os próprios cidadãos foram atrás dos bandidos, junto à polícia. Alguns suspeitos foram detidos e Henrique Stock foi preso na casa de ninguém menos do que Candido Japi-Assú. O ouvidor não estava lá; apavorado, sabendo que já se espalhara com a força de uma endemia o boato de que o mandante fora ele, Japi-Assú se acoitou na residência do Comandante das Armas, Carlos Maria de Oliva. Stock e Japi-Assú foram indiciados pelo assassinato de Líbero Badaró. Temendo que o ouvidor fosse linchado, autoridades de São Paulo e da corte concordaram que ele fosse julgado no Rio. No ano seguinte, Stock foi condenado à forca e Japi-Assú foi absolvido por falta de provas. Morreu esquecido, em 1861.

Houve quem imputasse a Pedro I a autoria intelectual do crime, o que não deixa de ser uma maldade com o imperador, que podia ser um estróina, mas não era um assassino. A morte de Badaró, por sinal, contribuiu para o desgaste total de seu reinado e em uma de suas últimas viagens como Imperador, a Ouro Preto, em fevereiro de 1831, houve constrangimento quando se ouviu o acintoso dobrar de sinos em exéquias a Líbero Badaró. Desgostoso, Pedro I abdicou ao trono dois meses depois, em 7 de abril.

Passadas duas décadas, muito se falou sobre a possibilidade de um desastroso erro judicial, que teria mandado à forca o alemão mas deixado livre o homem que efetivamente puxou o gatilho. Essa história surgiu quando várias pessoas declararam ter conhecido um velho mendigo, em Santos, que confessou, pouco antes de morrer, ter matado Líbero Badaró para agradar os governantes e obter ascensão em sua carreira militar, o que evidentemente não ocorreu.

Epílogo

José Feliciano Fernandes Pinheiro, Visconde de São Leopoldo, morreu em 1847, aos 73 anos. Muitos foram os serviços que esse eminente brasileiro prestou à pátria (inclusive a fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1838), mas foi sua Indicação de 14 de junho de 1823, responsável pela criação dos cursos jurídicos em São Paulo e Olinda, “o ato que reputo o mais glorioso de minha carreira política, e que me penetrou do mais íntimo júbilo, que pode sentir o homem público no exercício de suas funções” (Vampré, 1924).

O Observador Constitucional encerrou suas atividades em 1832. Não havia razão para sua existência sem seu fundador. O Pharol fechou no ano seguinte. A tipografia foi comprada pelo governo e continuou imprimindo jornais por muitos anos.

O mestrinho Antonio Mariano de Azevedo Marques, da primeira turma da Faculdade de Direito, abandonou o curso depois de um ou dois anos porque, assim como Lincoln, aprendera sozinho a ciência do Direito. Sua saúde frágil não o impediu de ser advogado, juiz de paz, vereador, deputado provincial e membro do conselho do governo. Em 1839 foi secretário no governo de Manoel Machado Nunes e em 1842 no governo do amigo Costa Carvalho. Mudou-se para o Rio por motivos de saúde e lá trabalhou no ministério da Justiça, do Império e na secretaria de estadual dos Negócios do Império. Morreu aos 47 anos, em 1844.

Costa Carvalho, três anos antes de sua morte
Costa Carvalho foi uma das grandes figuras da primeira metade do século XIX. Foi vereador (quando juiz de fora), deputado provincial e geral. Fez parte da Regência Permanente quando Pedro I renunciou, dirigiu a Faculdade de Direito em 1836 e governou São Paulo durante a Revolução Liberal de 1842. Organizou os gabinetes de 1848 e de 1852. Barão e Visconde, ele morreu Marquês de Monte Alegre, em 1860.

Finda a monarquia, em 1889, os republicanos lembraram da luta pioneira de Líbero Badaró. A rua São José foi rebatizada com o nome do médico e mártir italiano, e seus restos mortais foram trasladados da igreja de Nossa Senhora do Carmo para o cemitério da Consolação. O nome ilustre, tão representativo e simbólico para o movimento liberal não impediu, todavia, que na rua que o homenageava se concentrasse a prostituição, no fim do século XIX e início do século XX. É divertidíssima a descrição dramática e pomposa de Paulo Cursino de Moura, em 1943, quando comenta que a rua “outrora (...) desnudou-se, grotesca e imoralmente, aos olhos dos paulistas, como uma chaga no coração da cidade, arrepiando os cabelos de matronas pudicas e sendo objeto de recriminações de pais austeros ante a licenciosidade dos filhos-família”. Segundo Cursino, a rua Líbero Badaró era “uma viela escusa, com paralelepípedos soltos e cheiro nauseabundo”, enfim, “o receptáculo da miséria moral paulistana”.

“Mais tarde”, continua Cursino, “o senso moral dos nossos dirigentes removeu o vício para outro lugar, e como do esterco nasce a linda flor dos trópicos, da escória de uma viela baixa surgiu a magnificência de uma realização modelar na planta cadastral da cidade”. Cursino se refere, aí, às administrações municipais sucessivas de Antônio Prado, do Barão de Duprat e de Washington Luís, que empreenderam extraordinária obra de urbanização naquela área e transformaram a Líbero Badaró em uma das ruas mais importantes do centro.

O padre José Marciano Gomes Baptista era calouro do Largo São Francisco quando Badaró foi assassinado. Ele escreveu um soneto, que bem representa a dor, a revolta e a saudade que ficaram desse jornalista pioneiro, operoso e desassombrado, no espírito dos estudantes e cidadãos paulistanos, paulistas e brasileiros:

Seja-te leve a terra, ó grande, ó justo!
Corajoso escritor, da pátria esteio,
Outrora ela te viu, sem vil receio,
Regar da liberdade o tronco augusto.

P’rigos venceste, subjugaste o susto,
Ao despotismo audaz puseste um freio,
Viste de bênçãos mil, de glórias cheio,
Triunfar a razão, mas não sem custo.

Ah! Se podem soar na eternidade
Os tristes ecos de magoado pranto,
Que em nós excita funeral saudade;

Atende, lá do empíreo sacrossanto,
À dor pungente, à lúgubre ansiedade,
Do Brasil, que, em perder-te, perdeu tanto!

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Bibliografia

  • CALMON, Pedro. História do Brasil (Vol. V). São Paulo, José Olympio, 1959.
  • LEITE, Aureliano. A História de São Paulo. São Paulo, Martins, 1944.
  • MARTINS, Ana & BARBUY, Heloisa. Arcadas — História da Faculdade de Direito do Largo São Francisco (1827/1997). São Paulo, Alternativa, 1998.
  • MOURA, Paulo Cursino de. São Paulo de Outrora. São Paulo, Martins, 1943.
  • NOGUEIRA, J. L. de Almeida. A Academia de São Paulo — Tradições e Reminiscências (Vol. III, IV e V). São Paulo, 1908.
  • RIBEIRO, José Jacyntho. Chronologia Paulistana (Vol. II). São Paulo, Diário Oficial, 1899.
  • SCHMIDT, Afonso. São Paulo de Meus Amores. São Paulo, Círculo do Livro, 1954.
  • SEMERARO, Cláudia Marino (org.) – História da Tipografia no Brasil – São Paulo, MASP, 1979.
  • SESSO JR., Geraldo. Retratos da Velha São Paulo. São Paulo, Maltese, 1987.
  • SOUZA, Octavio Tarqüínio de. Diogo Antônio Feijó. São Paulo, José Olympio, 1960.
  • TOLEDO, Lafayette. Imprensa Paulista (1827/1896). São Paulo, IHGSP, 1898.
  • VAMPRÉ, Spencer. Memórias para a História da Academia de São Paulo (Vol. I). São Paulo, Saraiva, 1924.


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Jô Soares entrevista Bernardo Schmidt sobre Jânio Quadros


Terça-feira, 4 de junho de 2013. Um dia como vários que tenho vivido, inesquecíveis, desde o lançamento do primeiro volume de minha biografia de Jânio Quadros. Desta vez me tocou roçar ombros com Jô Soares em seu programa de entrevistas que já vai entrando de rijo pela segunda década sem sinais de fadiga. Jô, que assisto desde o Planeta dos Homens, apresentado por ele na década de 70 junto a Paulo Silvino, Miele e Agildo Ribeiro, esse mesmo Agildo maravilhoso que por conta de seu imensurável talento — e a arrepiante e impagável história do biliquê — acabou tornando-se, com a maior justiça, o grande homenageado de nossa conversa.

Jô, cujo Viva o Gordo assisti religiosamente todas as segundas por anos a fio, aprendendo ali (e com Chico Anysio, evidentemente) quem eram esses titãs do humor teatral e televisivo que a memória brasileira cruelmente esqueceu, como Milton Carneiro, Luiz Delfino, Henriqueta Brieba, Paulo Celestino, Ema D’Ávilla...

Jô, no dia 4 de junho
Assisti várias vezes a gravação do extinto Jô Soares Onze e Meia, nos estúdios que o SBT mantinha no Sumaré. Lá pude ver o gordo entrevistando personagens tão díspares como Fernando Henrique, Guilherme Arantes, o Ira, Florinda Bulcão, Luiza Erundina, Magic Paula, a saudosa Hebe... o câmera “Eddie Murphy”, o contra-regra e “pai de santo” Tião... cheguei a colher um depoimento com o próprio Jô em seu camarim, para um trabalho escolar que fiz na época (e que trarei a vocês um dia, quando conseguir, enfim, transformar em DVD as centenas de fitas de vídeo que entulham meus armários).

Com Jô nos estúdios do Sumaré, em 1991
No novo século, desde sua volta para a Globo, não surgira ensejo para presenciar in loco a gravação de seu programa. E eis que acabei fazendo-o não na qualidade de espectador, mas de entrevistado. Logo após o talentoso e divertido Nando Cunha (o proverbial tough act to follow). Não há mais o que dizer, a não ser que assistam o vídeo, cujo link vai abaixo, mas admito que fiquei impressionado ao ver Jô falando sobre Jânio com tal admiração, já que tenho fresca na lembrança a apresentação de Viva o Gordo — que trazia montagens de Hans Donner fundindo o humorista em outras imagens, mostrando-o em cenas cômicas com celebridades do mundo inteiro — onde Jô fazia troça com o ex-presidente, trazendo-lhe uma bandeja com copos de whisky. Sinal dos tempos. Jô, seguramente, como tantos outros brasileiros, soube o que era o governo com Jânio, sem Jânio e com aqueles que tanto o atacavam, e que hoje ocupam o poder, servem ao poder e, sobretudo, se servem do poder.

Terça-feira, 4 de junho de 2013
O belo estúdio de Jô na Berrini

Antes de encerrar, duas curiosidades e dois esclarecimentos. Primeiro as curiosidades: Jô contou a história de sua desavença com Jânio e a troca de cartas que se seguiu, desembocando em uma chuva de pétalas de rosa de parte à parte. Fausto Silva tem uma história idêntica com o ex-presidente, que contarei em um dos volumes futuros. E o guitarrista Marcinho Eiras, que está substituindo o Tomate — recuperando-se de uma grave crise pulmonar — foi o grande animador do público, na espera antes do início da gravação. Sua rendição do tema do joguinho “Mario Bros”, utilizando suas guitarras como pianos (marca registrada do guitarrista, trazendo ecos de Stanley Jordan), foi muito divertida.

Linda foto tirada por Natália Negro no momento em que Jô exibia a célebre imagem de Jânio com os pés cruzados, que valeu a Erno Schneider, do JB, o prêmio Esso de jornalismo

Os esclarecimentos, àqueles que já me perguntaram, e àqueles que ainda têm a dúvida: quando cumprimentei Jô, naquela caminhada até nos sentarmos, agradeci a ele pela imitação de Jânio, ressaltando que até hoje, depois de 15 anos pesquisando o velho, infelizmente não aprendi a imitá-lo. E o que o Bira desejava dizer mas Jô não deixou é que o ritual do “lava-pau”, na Bahia, era referido como “lavar o cabo João”. Ouro puro. Memórias para todo o sempre. Agradeço à belíssima produção do Jô, de gentileza fidalga desde o motorista até o produtor-executivo. E também à Natalia e o Alexandre, indispensáveis, sem os quais o dia não teria sido tão delicioso.

Divirtam-se.
Bernardo Schmidt

Assista abaixo a entrevista de Bernardo Schmidt a Jô Soares:



Jô Soares entrevista Bernardo Schmidt sobre Jânio Quadros from Bernardo Schmidt on Vimeo.
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sábado, 20 de abril de 2013

Entrevista à TV CÂMARA de São Paulo — 19/04/2013

Meus caros,
dei recentemente uma entrevista à TV Câmara sobre o primeiro volume da biografia de Jânio Quadros, que lancei este ano. Vários assuntos foram abordados e tive inclusive a chance de comentar alguns vídeos de entrevistas de Jânio, inseridos na conversa.

Alguns desses assuntos foram a fama de Jânio, de ser um político “folclórico”, e suas diferenças em relação aos políticos da época. Falamos da impulsividade, notório defeito seu, e de sua humildade em reconhecer equívocos, qualidade que sempre lhe foi reconhecida. Entre outras coisas, lembramos Jânio borrifando inseticida na cadeira do prefeito, na qual se sentara dias antes Fernando Henrique, o alcoolismo, o carisma, seu estilo de governar e as múltiplas dificuldades que enfrentou junto ao congresso, quando exerceu a presidência.

Falamos também sobre o depoimento exclusivo de Tutu e sobre a necessidade fundamental de escrever um livro que não sofra dos mesmos defeitos de 99% dos livros escritos sobre Jânio: falta de credibilidade ou falta de conteúdo.

Eis a apresentação feita pela TV Câmara:

O JORNAL DA CÂMARA PRIMEIRA EDIÇÃO recebe hoje o historiador e jornalista Bernardo Schmidt, estudioso e biógrafo do ex-presidente Jânio da Silva Quadros. Ele é também pesquisador de política e teatro. A biografia de Jânio é o primeiro livro dele. Escrever sobre o polêmico, inventivo e excêntrico ex-presidente despertou tanto a energia do historiador que ele já traça as linhas para o segundo volume sobre a vida do “homem da Vila Maria”, na zona norte da cidade. O segundo volume tratará da passagem de Jânio pela Câmara Municipal na primeira legislatura depois de encerrado o Estado Novo.
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Assista abaixo a entrevista:

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Menotti Del Picchia fala de Edoardo Di Guarnieri


Edoardo Di Guarnieri

Para Cecília, Flávio e Cacau

Dizer que tanto em Gianfrancesco Guarnieri quanto em Oduvaldo Vianna Filho “o talento corria nas veias” é redundância, só que enquanto Vianinha matava um leão por dia para sair da sombra de seu polivalente pai, dramaturgo, roteirista e diretor de teatro e de cinema desde os anos 20, Guarnieri não adentrou a seara de seu pai, que era a música clássica. Seara, aliás, que já era de seu avô Antônio, violinista maestro.

Edoardo Di Guarnieri nasceu em Veneza, em 18 de abril de 1899. Sua carreira musical começou com o estudo de violoncelo, no conservatório da cidade. Diplomado com loas, ganhou uma bolsa para prosseguir o aprendizado na celebérrima Schola Cantorum, de Paris (onde seu pai também estudara) e lá teve professores como Vincent D’Indy e Gian Francesco Malipiero. Tomou gosto pela música de câmara e, de volta à Veneza, fundou o quarteto de cordas I Vitoriale, com o qual viajou por toda Europa, alcançando sucesso e renome. No fim dos anos 20 ampliou seus horizontes profissionais partindo para a regência de ópera e orquestra sinfônica. Influência paterna: Antônio era consagrado maestro do Scala de Milão. Demonstrando talento invulgar, logo estava regendo temporadas líricas por todo o país. Apresentou-se em Milão, Veneza, Florença, Roma, Turim, e como já fizera antes, nas principais capitais do continente. O Scala, por sinal, acabou sendo divisor de águas para Edoardo, porque lá conheceu uma famosa harpista de Pádua, Elsa Martinenghi – quase um ano mais velha que ele, nascida em 27 de maio de 1898 – com quem se casou no primeiro lustro dos anos 30. Foram morar em Veneza, mas por compromissos profissionais de ambos em Milão, essa é a cidade em que nasceu o filho único do casal, que recebeu o bombástico nome de Gianfrancesco Sigfrido Benedetto Martinenghi Di Guarnieri.

Os Guarnieri estavam felizes e realizados, mas havia um grande problema: Benito Mussolini e o regime fascista, que contaminava a Itália. Como tantos artistas e intelectuais dos mais variados matizes culturais, Edoardo não tinha inclinações comunistas mas era um democrata de corpo e alma e deplorava qualquer tipo de repressão. Segundo Gianfrancesco, o filho único cujos depoimentos sobre o pai permeiam este texto, “a Itália estava rachada entre fascistas e anti-fascistas, isso sim. É claro que os anti-fascistas se aproximavam mais do que hoje conhecemos como esquerda. (...) Embora meu pai não tivesse nenhum posicionamento político, era muito consciente, sempre foi um homem que não se sujeitava a nenhuma espécie de autoritarismo. Então sua carreira sofreu muito naquele período justamente quando eu nasci”.

Começaram os boicotes e as perseguições. Bem-relacionada e menos visada, Elsa recebeu como um presente dos céus o convite da Rádio Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, para se apresentar no país que se mostrava uma belíssima alternativa ao casal em apuros. O Brasil também vivia uma ditadura, iniciada em 30, mas passava pela farsa do “período constitucional”, que dava a impressão de que aos poucos o país voltaria à normalidade democrática. Em 1935, quando o pequeno Gianfrancesco contava apenas um ano de idade, Elsa arrumou as malas e veio para o Brasil, deixando marido e filho na espera de boas novas. “Assim que chegou ao Rio de Janeiro”, conta Gianfrancesco, “ela estabeleceu muitos vínculos de amizade com os músicos cariocas. Tornou-se amiga íntima da cantora Gabriella Besanzoni Lage, que promovia algumas temporadas líricas na cidade”. E foi através de Gabriella – que na verdade era italiana como Elsa e estava no Brasil desde os anos 20, quando se casou com o milionário Henrique Lage – que a esposa de Edorado pôde, ao cabo de um ano, enviar ao governo italiano um pedido protocolar para que seu marido fosse contratado como regente da S. A. Teatro Lírico Brasileiro, sediada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, tendo Gabriella como estrela. Pediu também a transferência permanente dos Guarnieri para o Brasil. Como salienta Gianfrancesco, não se pode dizer que o alto escalão fascista tenha lamentado a partida do trio:

Para o governo italiano, era ótimo mandar embora do país todas as pessoas que fossem de esquerda. (...) Quando o convite formal para que meu pai viesse reger uma orquestra no Brasil finalmente chegou à Itália, o governo de Mussolini rapidamente autorizou a saída dele do país. Assim, seis meses após a partida da minha mãe, eu e meu pai embarcávamos no navio Conte Grande com destino ao Rio de Janeiro. Cheguei com dois anos e meio.

Edoardo desembarcou no Brasil com a fama relativa que granjeara na Europa e tornou-se amigo de figuras proeminentes da música e da elite cultural. Entre elas, Heitor Villa-Lobos. Em entrevista de 1949 ao Diário da Noite, Edoardo revelaria que sua admiração pelo brasileiro era anterior à sua saída da Itália: “Conheci Villa-Lobos, como compositor, muitos anos antes de eu vir para o Brasil. Suas obras eram muito mais conhecidas na Europa do que na sua pátria. Eu, que vivi na França e Itália, conheci o Brasil através da música desse grande compositor, isto durante a primeira grande guerra”. O italiano, que em 49 já era um dos dois ou três mais respeitados maestros do Brasil, não regateia elogios ao mestre brasileiro, e exalta a profissão de fé humanista que ambos compartilhavam:

A arte neste momento passa por um período mecânico, do qual o humanismo está completamente ausente. Neste momento, Villa-Lobos tem a coragem de não aderir a essa tendência e de fazer aquilo que é realmente arte, no sentido humano. Instintivamente, Villa-Lobos sente o momento histórico que está vivendo, e faz a exaltação de todos os anseios do homem em suas magníficas peças. É por isso que eu qualifico Villa-Lobos um dos pouquíssimos compositores cujo nome, devido a essa sua arte profundamente humana, se perpetuará. Realmente, Villa-Lobos é um dos maiores compositores contemporâneos. Sinto por ele profunda admiração. (Diário da Noite, 5/8/49)

Edoardo pesquisou a fundo nossa música e seu interesse transcendeu o aspecto artístico e penetrou no social, como era de sua índole. Diz Gianfrancesco: “Quando vim com meu pai, em 1936, ele teve um trabalho muito grande, tanto para a organização de orquestras como na defesa do músico brasileiro, do compositor nacional. Ele sempre se interessou muito pelos problemas dos músicos e da música no Brasil. Foi um grande batalhador”. Teve início ali a influência de um binômio fundamental na vida futura do filho: o amor pela arte e a consciência social. Mas naquele primeiro momento o que fazia a alegria do garoto Gianfrancesco era brincar com os pincéis da mãe, que pintava quando não estava ocupada com a harpa. Só que a brincadeira do garoto nada tinha a ver com pintura: “Havia um aparelho de rádio sempre sintonizado na Rádio Ministério da Educação, que mantinha uma programação de óperas. Eles transmitiam óperas completas e minha principal diversão na época era reger aquelas óperas elo rádio, usando como batuta um dos pincéis da minha mãe. Eu regia o rádio, mas na minha cabeça, sabe o que havia? Uma orquestra inteira!”

A ópera foi, efetivamente, o veículo que introduziu Gianfrancesco ao mundo da expressão artística:

Eu tinha uns três anos e meio quando meus pais começaram a me levar à ópera. Sempre nas matinês, porque à noite a entrada de crianças era proibida. (...) Eu ficava de pé, escondido no meio da orquestra, porque não podia assistir da platéia, era muito pequeno. Então eu ficava no meio dos músicos, em cima dum tamborete... Assisti o ciclo de Wagner inteirinho. E olhe que assistir Wagner de pé não é mole, não. E eu gostei demais. Tenho grande influência da ópera. Ópera foi uma coisa que me marcou muito. (...) Fui conduzido ao teatro através da expressão lírica que foi a ópera, uma coisa que muito me impressionou. (...) Era uma coisa maravilhosa, eu ficava encantado. As óperas se estendiam por horas e horas e eu ficava ali, quieto e fascinado. Acho que a grande influência na minha carreira foi a ópera. Na época eu não compreendia muito bem, mas sentia que já havia ali uma dramaturgia, eu sabia que havia uma história com começo, meio e fim.

Folha da Noite, 23/10/48
À parte toda essa fascinação, vale registro um comentário de Gianfrancesco que nos leva ao cerne do temperamento abrasivo e exigente de Edoardo: “Ele se cuspia no espelho. (...) Eu vi meu pai, depois de um concerto, no camarim, se olhando por uns dois minutos ao espelho. Em seguida, cuspir na imagem e berrar: ‘Che merda! Che merda! Che merda!!!’ (risos)”

Também é interessante verificar até que ponto o fascismo feriu a alma de Edoardo; ele, que quase tivera um ataque apoplético quando viu, pouco depois de chegar ao Brasil, a marcha de um grupo de integralistas – que macaquearam não só a ideologia fascista mas seu patético uniforme verde – naturalizou-se brasileiro em 1941 e tomou uma atitude de inusitada coragem, com o ingresso brasileiro no segundo conflito mundial, no ano seguinte:

Quando o Brasil resolveu entrar na Segunda Guerra Mundial, ele escreveu uma carta para o Getúlio Vargas, dizendo que estava disposto a pegar em armas para combater os alemães e italianos. Alguns dias depois recebeu um comunicado vindo das Forças Expedicionárias Brasileiras, que agradecia sua iniciativa, mas afirmava que não era o caso dele se alistar. Ele não foi para a guerra, mas começou a se envolver em política aqui mesmo. Melhor dizendo, em uma batalha pessoal da qual não se afastaria até seu último dia de vida. Havia naquela época, no Rio de Janeiro, uma base pequena ligada ao Partido Comunista que se empenhava em fazer pichações. Ele se uniu a este grupo e, após os concertos do Municipal, ainda vestindo a casaca de regente, saía para pichar os muros da cidade.

Edoardo na regência, Souza Lima no
Piano da PRA-6 da Rádio Gazeta
Dispensado honrosamente de servir no front italiano junto à FEB, Edoardo não recusou as ofertas que recebeu, na ocasião, de reger temporadas líricas tanto no OSSODRE (Orquestra Sinfónica del Sodre) de Montevidéu quanto no Teatro Colón, de Buenos Aires, o que fez durante os dois últimos anos da segunda guerra.

A rotina do casal Martinenghi Di Guarnieri – corrida e constante – torna plenamente compreensível o sentimento do filho Gianfrancesco, que anos depois diria que “não tive uma educação muito rigorosa mas também não fui paparicado. Tive quase tudo, mas nem sempre carinho”. Elsa e Edoardo não podiam parar. Trabalhavam para sobreviver. “Eles não me forçavam absolutamente a nada e procuravam sempre me satisfazer. Porém o trabalho exigia demais deles, então eu não tinha um convívio diário. Às vezes eu passava dias sem vê-los; eram ensaios, apresentações”...

Terminada a ditadura getulista, as ofertas profissionais no Rio escassearam. “Meus pais, durante algum tempo, ficaram fazendo ponte-aérea Rio-São Paulo, aqueles aviões da Panair, que eram terríveis”, conta Gianfrancesco. No fim dos anos 40 o casal foi definitivamente para a Paulicéia. “Meu pai já regia alguns concertos no Teatro Municipal de São Paulo e também os Concertos Dominicais da Rádio Gazeta”. O filho foi modesto; entre 1948 e 1950, Edoardo tornou-se diretor artístico da ALBA – Artistas Líricos Brasileiros Associados – criada sob os auspícios da primeira dama do Estado, Leonor Mendes de Barros – passou a fazer parte do corpo estável de maestros do Municipal e além dos tais “concertos dominicais” havia o “Roteiro Coral e Sinfônico”, “Noite na Ópera”, “Grandes Concertos” e o que aparecesse pela frente. Edoardo virou uma espécie de pau pra toda obra na popularíssima “orquestra PRA-6”, da Gazeta. No início de 1950 estava no ar pela emissora praticamente cinco dias por semana, fosse na “Cortina Lírica”, no “Soirée de Gala”, na “Sala de Concerto Schwartzmann”, nos programas patrocinados pelo Banco Francisco Amato e assim por diante.

 

Março de 1950 foi um mês fundamental. Primeiro porque o Departamento Municipal de Cultura, que estivera às moscas durante os primeiros três anos do governo estadual de Adhemar – que era quem fazia e desfazia na cidade e no Estado – mas agora engrenara sob a direção de José de Barros Martins, promoveu uma verdadeira maratona de concertos e sinfonias de Beethoven a ser realizada no Municipal, inteiramente sob a regência de Edoardo, acompanhado pela orquestra do teatro e tendo como solista o alemão naturalizado brasileiro Fritz Jank (1910/1970). O evento teve início no dia 3 e foi um sucesso retumbante.

Pau pra toda obra... Edoardo estava no ar praticamente todas as noites pela Gazeta...

Fritz Jank
E segundo porque no dia 10, o recém-empossado prefeito Linneu Prestes desengavetou e sancionou o Projeto de Lei 39 – 49, apresentado um ano antes pelo vereador Miguel Franchini, que instituía de uma vez por todas a Orquestra Sinfônica Municipal, o que significava dobrar o subsídio destinado à orquestra, aumentar os salários dos 90 músicos que a compunham e efetivar esses mesmos músicos, que até o momento trabalhavam por contrato e podiam ser dispensados de uma hora para outra.

A vitória era completa para Edoardo, porque além de ver melhorar a situação de seus colegas, a chamada “Lei Franchini” nomeou cinco diretores efetivos para a orquestra: João de Souza Lima, Mozart Camargo Guarnieri, Armando Belardi, Zacarias Autuori e o próprio Edoardo. Na sexta-feira, 24 de março, Edoardo subiu ao palco do Municipal para reger duas peças de Beethoven: a abertura de Coriolano, o Concerto n°3, op. 37 em dó menor e a 6ª Sinfonia, chamada “Pastoral”, com Jank e a Orquestra Sinfônica Municipal.

Na platéia, o escritor modernista Menotti Del Picchia (1892/1988), que na época era colunista do jornal A Gazeta e escrevia sobre teatro, literatura e demais assuntos ligados à arte. Embevecido com o que presenciou naquela noite, o célebre homem de letras eternizou suas impressões em uma coluna que trazemos ao lume depois de 63 anos.
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O REGENTE

Especial para A GAZETA, por MENOTTI DEL PICCHIA, da Academia Brasileira de Letras

Os músicos entraram com seus instrumentos, sentaram-se junto das estantes semeando de manchas pretas e de violentas cintilações de metal sob os focos das luzes o palco enorme. Uma inquietação de estranhos besouros serrando com seus ferrões pedaços de madeira agita o bando: são os violinistas que movem os arcos afinando os instrumentos. Uns músicos voltam as páginas da partitura e os caracóis metálicos dos trombones e das trompas se engancham nos smokings negros como anéis de serpentes de prata em troncos requeimados. Sons desarmônicos – miados de gatos, urros cavos de leões em grutas, pios de pássaros de par com pigarrear de gargantas gripadas – colore de uma pitoresca mistura acústica o ambiente onde a platéia, como um grande monstro, respira e tosse, aguardando com ânsia reprimida o início do concerto.

Baixam as luzes do recinto. Entra o regente!

Essa entrada é sempre espetacular. Lembra a aparição do toureiro que vai trabalhar a fulva fera. A fera é a platéia, que ele terá que dominar, entreter, bandarilhar com emoções e ferir mortalmente com os finais patéticos. Ele sabe qual a responsabilidade da batalha. Entra preocupado, com as maxilas apertadas, o que faz franzir seus lábios como se sorrisse forçadamente. É alto, magro, elegante. A casaca de abas compridas esvoaça ao seu passo nervoso e rápido, e ele lembra uma longa “tesoura” negra, dessas que mexem as duas móbeis penas da cauda quando pousam num beiral. As palmas explodem. E ele é o dominador! Voltou-se, do seu estrado para a platéia, tem a fronte pensativa, larga, onde a luz de um farolete aceso bem no alto da cena se desintegra, polarizando ali halo como se fora a fosforescente expressão do seu pensamento.

O bando dos músicos ficou como que congelado nos seus bancos. Estão todos eles imóveis, estatuados com seus instrumentos em posição de dar início à sinfonia. Todos os violinistas têm o violino sob o queixo, a mão a segurar o arco e todos os arcos juntos fazem um desenho simétrico, a dar a impressão de que aqueles músicos foram fabricados em série. Atrás, as colunas coríntias dos braços altos dos contrabaixos. Mais para trás, ainda, o bombo, os pratos, as timbales, os trombones, as trompas. Tudo está pronto. No silêncio que se fez, se ouviria o tic-tac de um reloginho de pulso.

Atenção! O regente ergue a batuta. Parece um mágico levantando sua varinha de condão e que vai realizar um prodígio. Todos estão suspensos – músicos e platéia – naquela varinha. Uma ânsia anelante está no ar, as respirações param. Subitamente, como um estrondo, a orquestra rompe, triunfal, a sinfonia.

Começa o milagre. O regente, com a máscara de quem está em transe mediúnico, transfigura-se. Está longe, no mundo maravilhoso das harmonias. Não se sabe se aquele rosto convulso, cataléptico, sofre ou goza: há uma ausência nele como se a alma lhe houvesse passado toda para as mãos, para os dedos nervosos, sensíveis como antenas, inquietas como borboletas. Eles começam a plasmar a música, a modelá-la como se fossem dedos de escultor e os sons material dócil e plástico, moldável aos seus movimentos. Pega essa massa acústica e afina-a num fio longo, torcido numa espiral luminosa, como se se tratasse de um pingo de vidro mole, desses que os mestres vidreiros de Murano filigranam em arabescos encantadores. Bruscamente lhe dá corpo, torna-a espessa, imponente, poderosa e elétrica, como o bojo negro de uma nuvem de tempestade. A varinha mágica continua a realizar prodígios. O regente multiplica-se em gestos, se estorce como um faquir em espasmos, agride a orquestra com gestos violentos de espadachim que quer atravessar algo com sua espada, ou se acalma, beatífico, embolado por um ritmo celeste, na ondulação lírica de um pianíssimo... Coisas prodigiosas nascem desses sons: flores, Campinas, pastores tocando cornamusas, amantes se beijando entre moitas de violetas, nuvens se estriando em céus irisados, gotas de chuva pingando das copas, águas de riachos cantando entre rebanhos belantes... A Pastoral de Beethoven!

Menotti Del Picchia
Aí está no que pensei vendo o grande regente Edoardo de Guarnieri nos dar uma das suas magistrais edições de Beethoven, tendo como companheiros de aventura o meu caro amigo Fritz Jank e a querida Orquestra Sinfônica, hoje oficializada, com cinco maestros, como se fosse uma composição de oitenta vagões com cinco máquinas puxando. No Brasil é assim: oito ou oitenta!
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Gianfrancesco e seu pai Edoardo
Pelos dez anos seguintes Edoardo viveu o fastígio de sua profissão. Preparou e regeu as primeiras apresentações mundiais das óperas como Izaht e A Menina das Nuvens, de Villa-Lobos, e Maria Petrowna, de João Gomes de Araújo. Depois de mais de 15 anos voltou a trabalhar na Europa, regeu na Polônia, na Tchecoslováquia e realizou extensa agenda de apresentações na União Soviética. Dirigiu Renata Tebaldi, Fedora Barbieri, Tito Schipa, Bidu Sayão, músicos como Arnaldo Estrella, Anna Stella Sehie e Rostropovich. Recebeu o prêmio das Associações de Críticos Teatrais de São Paulo e Rio inúmeras vezes, deu aula de música e além de maestro do Municipal, tornou-se assessor técnico do Departamento de Cultura. No meio de tudo isso, o filho único saiu sorrateiramente de sua asa e virou ator. Pouco depois escreveu uma peça – Eles não usam Black-Tie, em 58 – e emplacou um sucesso que o levou ao olimpo do teatro brasileiro. O pai acompanhou de perto o namoro do menino com a dramaturgia, desde a infância, quando chegou até a ser expulso de uma escola por escrever um texto que os padrecos do educandário consideraram subversivo, mas não havia nada que o preparasse para o que aconteceria com seu filho. Eis o que ficou na lembrança de Gianfrancesco, anos quase 50 anos depois:


Miriam Mehler e
Gianfrancesco Guarnieri
em cena de Eles não usam Black-Tie

Meus pais ficaram muito orgulhosos com o sucesso da peça. Meu pai, principalmente, com quem eu compartilhava um objetivo de vida: o de lutar contra as injustiças sociais. Ele gostava do que eu fazia, bem antes do Black-Tie, até o teatro do colégio no Rio, das pecinhas que eu escrevia por lá. Meu pai sabia que, de alguma maneira, ele tinha me tirado da música, mas não sabia que rumo minha vida tomaria. Quando ele viu o êxito da montagem, é como se dissesse que eu estava preparado para fazer outras coisas. No fundo, acho que ele sentia um orgulho tamanho do Black-Tie que é como se a peça tivesse sido escrita por ele.

Não é exagero dizer que o golpe de 64 foi mortal para Edoardo. Não só porque ia contra tudo que ele acreditava e era a verdadeira negação de um sacerdócio democrático e humanista que ele e o filho haviam abraçado fervorosamente, mas porque consistia na reprise odiosa de um estado ditatorial que o fez abandonar seu país, que ele encontrou em pleno vapor no Brasil (embora aplacado momentaneamente pela participação brasileira junto aos aliados) e que agora tentava se reinstalar. Era o recomeço de um pesadelo de perseguições e ameaças. Gianfrancesco fugiu para a Bolívia com Juca de Oliveira. Voltou quando ouviu, numa rádio de La Paz, que o pai fora preso e levado ao DOPS. A prisão ocorreu mesmo, mas durou apenas algumas horas. Pai e filho não tiveram outra alternativa senão continuar trabalhando. O desgosto, contudo, de ver o Brasil mergulhar novamente nas trevas de uma ditadura, minou a saúde do velho maestro.

Regina Duarte e Gianfrancesco em
"O Terceiro Pecado"
Em 25 maio de 1968, Edoardo foi ao Municipal para presidir uma banca que examinaria candidatos ao preenchimento de algumas vagas na orquestra sinfônica, em especial a do maestro russo Leon Kanievsky, que teria de se ausentar do país. Era tarefa a que Edoardo se entregava com afinco e dedicação, pois gostava de incentivar os novos músicos e homenagear os mais velhos, seus contemporâneos e companheiros que iam deixando a orquestra. Ao subir as escadarias do teatro, sofreu um aneurisma e caiu. Foi imediatamente acudido por pessoas próximas e levado ao pronto-socorro municipal, no Pátio do Colégio. Não resistiu. Morreu momentos depois. Completara 69 anos pouco mais de um mês antes. Sucedeu, então, a mais agridoce das coincidências; seu filho Gianfrancesco, na época, protagonizava com Regina Duarte a novela O Terceiro Pecado, de Ivani Ribeiro, na qual fazia o papel do Professor Alexandre, que era, na verdade, o mensageiro da morte. Ele recebeu a notícia em meio a uma gravação e não teve tempo de se trocar. O resultado é que não só foi paramentado de mensageiro da morte ao pronto-socorro, como ainda precisou, por um desencontro qualquer da funerária, dirigir o féretro até a Biblioteca Municipal, em cujo saguão o corpo de Edoardo foi velado, por todo aquele sábado. Na década de 90 Gianfrancesco contou ao programa Vídeo Show, com um sorriso de saudade, os olhares de pânico e estupefação que provocou em transeuntes que não reconheciam a ele, mas ao personagem, dentro do automóvel fúnebre.


Mozart Camargo Guarnieri
Edoardo deve ter sido um piadista incorrigível, porque essa não foi a única das situações de inesperada hilariedade provocadas por sua morte. Eis mais um fato, este pela primeira vez contado ao público paulista: por uma ironia do destino, Edoardo Di Guarnieri e Mozart Camargo Guarnieri tinham o mesmo sobrenome, basicamente a mesma formação artística, eram maestros, estabeleceram suas carreiras nos anos 30 e trabalhavam nos mesmos lugares, ou seja, os teatros municipais de São Paulo e Rio. Natural, portanto, que o público julgasse que eram aparentados, o que não o eram. Havia, porém, a mais sólida das amizades entre o veneziano Edoardo e taubateano Mozart. Em novembro de 1962, por exemplo, o governo carioca promoveu a divertida reunião dos Guarnieri na récita única da ópera Um Homem Só, que teve música de Camargo Guarnieri, libreto de Gianfrancesco Guarnieri e regência de Edoardo Di Guarnieri. Só quem estava lá (como Cecilia Thompson, na época esposa de Gianfrancesco), sabe a confusão em que estava o público, certo de que via uma ópera composta pelo pai, escrita pelo sobrinho e regida pelo primo, e variações de toda sorte. A questão é que quando morreu Edoardo, o lendário Correio da Manhã carioca – fundado em 1901 por Edmundo Bittencourt e que contara, um dia, com totens como Ruy Barbosa em seu time de redatores – já no triste processo de decadência que levaria à sua extinção, seis anos depois, não teve dúvidas e matou Camargo Guarnieri!

O esplêndido quiproquó com os Guarnieri: o Correio da Manhã anuncia a morte de Camargo Guarnieri, e o próprio segura uma das alças do caixão de seu amigo Edoardo...

Em sua edição de 26 de maio o jornal noticiou a morte de Camargo Guarnieri, com direito à biografia e tudo mais. O público carioca, além da tristeza pelo passamento do competente maestro e compositor, deve ter perguntado por que cargas d’água o taubateano seria enterrado em Guarulhos. Mas o susto mesmo teria vindo se morassem na Paulicéia e pudessem ler o Diário de S. Paulo do dia 28, que mostrou a saída do caixão do saguão da Biblioteca Municipal para o cemitério de Guarulhos – cidade onde Edoardo residia há alguns anos – tendo a primeira de suas alças carregadas por ninguém menos do que o “defunto” Camargo Guarnieri, que para o bem da música e do Brasil, viveu bem e saudável até 1993. Já do Correio da Manhã não veio sequer uma errata, dias depois.

Gianfrancesco vela o pai (Diário Popular, 26/5/68)
Em sessão da Câmara Municipal de São Paulo, de 4 de junho de 1968, o vereador Benedicto Rocha, do MDB, fez um bonito elogio de Edoardo, e concluiu, dizendo:

A sua vida e a sua obra serão exemplos a estimular e a orientar os novos artistas. Elas valem por grandes serviços prestados à cultura nacional que terão continuidade, não apenas nos seus exemplos, mas nas atividades artísticas de seu filho, o jovem teatrólogo Gianfrancesco Guarnieri, que de seu pai herdou não somente a vocação, mas um grande e devotado espírito público.

A Sérgio Roveri Gianfrancesco foi taxativo: “Meu pai morreu um pouco de tristeza. Ele não agüentava ver a repressão que se instalou após o golpe militar de 64. Minha mãe se deixou levar quatro anos mais tarde, é como se tivesse optado por ir aos poucos”.

Sobre os pais de Gianfrancesco, eis o que disse Roveri, na introdução do livro que contém sua longa conversa com ele:

Artistas renomados, libertários e inimigos de qualquer regime que fizesse vistas grossas às desigualdades sociais, Edoardo e Elsa exerceram uma influência arrebatadora sobre a vida e a dramaturgia de Guarnieri. Transmitiram a ele não só o amor pela arte – primeiro a música, e depois o teatro – mas também uma semente de inquietação social, uma obsessão quase que genética pela defesa das liberdades individuais.

No encerramento, nada de apologias. Não era o estilo de Edoardo. Deixemos o próprio encerrar, com palavras que transbordam sua filosofia de vida e tudo aquilo no que ele sempre acreditou:

A música não deve atingir apenas a um pequeno grupo de iniciados. Sendo uma linguagem que evolui, inspira-se ela na vida dos homens. Deve falar a todos das alegrias, das dores, das angústias, enfim, de tudo o que diz respeito à sensibilidade humana e à realidade do período histórico na qual é transmitida, proporcionando beleza, serenidade, amor e o otimismo tão necessário à humanidade que luta, que sofre, que se debate. Obtém, assim, a música, o que é fundamental para todos os homens: paz e serenidade. (Diário de S. Paulo, 26/5/68)
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BIBLIOGRAFIA:

  • Khoury, Simon. Atrás da Máscara 1 – Segredos Pessoais e Profissionais dos Grandes Atores Brasileiros. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1984.
  • Roveri, Sérgio. Gianfrancesco Guarnieri. Um Grito Solto no Ar. São Paulo, Imprensa Oficial, 2004.
  • Correio da Manhã
  • Diário da Noite
  • Diário Popular
  • Folha da Noite
  • O Estado de S. Paulo
  • Última Hora
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Ver também:

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