terça-feira, 6 de setembro de 2011

Anna Friel: o desperdício de uma atriz — Parte 4


Gosto do trabalho que fiz nestes últimos filmes. Gosto do meu trabalho em Pushing Daisies. Acho que nos últimos três anos eu melhorei bastante. Tenho estado bem mais concentrada. Encontrei um tipo diferente de confiança e crença em mim mesma. Você é tão bom quanto sua crença; se não tiver isso por si mesmo, ninguém terá por você. 
Anna Friel, 2009

O início da “terceira fase” na carreira de Anna (considerando que a primeira foi com a novelinha Brookside em 93 e a segunda com a peça Closer em 99) não aconteceu, como se poderia imaginar, pelo sucesso conseqüente do ótimo Báthory, que demorou séculos para ser lançado e nunca recebeu a distribuição que merecia. Na verdade, Anna fez parte de um “êxodo de atores ingleses”, que, segundo a própria atriz, “são atraídos por esse maravilhoso estilo de vida” de Hollywood. “Isso e o trabalho. Simplesmente não há trabalho suficiente aqui”, concluiu ela, referindo-se à Inglaterra. Por essa razão aceitou, entre 2005 e 2006, qualquer lixo que viesse em sua direção, como os dois filmes da série Goal, que se não se notabilizavam pela qualidade, pelo menos a tornaram conhecida de uma grande parte do público mais jovem e uma atriz relativamente cotada em testes de elenco, o que se provou de extrema utilidade quando o escritor Bryan Fuller começou a escalar o elenco de sua nova série dramática, Pushing Daisies (literalmente “empurrando margaridas”; expressão que denota alguém que está morto, debaixo da terra, empurrando para a superfície aquilo que tem por cima de seu caixão).

Bryan Fuller
O norte-americano Bryan Fuller nasceu em 1969 e passou boa parte da década de 90 trabalhando como roteirista de diversos seriados de TV. Em 2003 ficou famoso criando a série dramática Dead Like Me, produzida pela MGM para o canal Showtime. A trama era sensacional: uma moça morre mas ao invés de ir para o pós-vida (seja qual for) ela passa a integrar um grupo de pessoas que volta à Terra com nova aparência e identidade para trabalhar como "ceifadores" (grim reapers), coletando a alma daqueles que estão prestes a morrer e guiá-las até que façam sua “passagem”. Seguindo esse mote há implicações de todos os tipos, personagens que compõem o círculo de relações de cada um, as conseqüências da morte de todos nas famílias, etc. Protagonizada por Ellen Muth e Mandy Patinkin, Dead Like Me foi o maior sucesso de audiência que o Showtime teve até aquele momento, e já trazia elementos que mais tarde seriam vistos em Pushing Daisies, não só pela trama voltada à morte e à ressurreição mas no gosto por nomes femininos esquisitos; a protagonista de Dead Like Me, por exemplo, chama-se Georgia Lass (o que por si só já é uma brincadeira, pois dito rapidamente se ouve como Georgialess, que significa “sem Georgia”), mas é chamada pelo nome masculino de “George”, assim como Charlotte, em Pushing Daisies é chamada de “Chuck”, que é um apelido para o nome “Charles”. Georgia também é chamada de “toilet seat girl” (garota do assento da privada) por seus colegas grim reapers, pela maneira bizarra através da qual ela morreu (o assento de uma privada da estação espacial russa Mir caiu em sua cabeça, matando-a), assim como Chuck era tranqüilamente referida como “dead girl” (garota morta) por Emerson Cod.

Apesar da série ter sido aclamada por público e crítica em seu lançamento (e talvez justamente por isso), Bryan Fuller começou a ter brigas violentas com a MGM pelo controle artístico e intelectual de sua série, e acabou deixando a produção de Dead Like Me ainda no 5º episódio da primeira temporada. Uma das idéias que levou com ele quando foi embora era a de um spin off (série nova que se desgruda de uma série que já existe, para desenvolver individualmente a trama de um dos personagens da série original) de Dead Like Me, a partir de um personagem novo que mudaria a vida de George: ninguém menos do que Ned, o fazedor de tortas. É o próprio Fuller quem relata este curioso fato, que poucos sabem:

George ia saber que alguém lhe estava surrupiando as almas e que ela não conseguia controlá-las. Ela então descobriria que havia um sujeito que estava tocando pessoas mortas e trazendo-as de volta à vida, e teria com ele um tipo de relação meio romântica/antagonista. Então ele ia tocá-la, ela voltaria à vida e se reuniria à sua família por alguns episódios. George eventualmente se daria conta de que deixara seu trabalho e que precisava voltar e ser responsável; precisava crescer e fazer aquilo que lhe cabia fazer. O sujeito então a tocaria novamente e ela voltaria a ser uma grim reaper. E ele iria embora e teria sua própria série. Esse era o conceito original.

Barry Sonnenfeld
A saída de Fuller e os conflitos na produção provocaram o cancelamento de Dead Like Me depois de apenas duas temporadas e 29 episódios. O escritor voltou a trabalhar como roteirista e fez algumas tentativas frustradas de vender o novo seriado. Quase três anos se passaram até que uma executiva da Warner demonstrou interesse e permitiu a produção de um piloto de Pushing Daisies. Para dirigi-lo foi chamado o diretor Barry Sonnenfeld (conhecido no cinema por trabalhos como The Addams Family, Get Shorty e Men in Black). Vale contar que o próprio nome do piloto é uma das piadas de Fuller: "Pie-Lette", que fonéticamente se ouve "pilot" e não tem maior sentido, a não ser que pie é "torta" (e lette é "letão" em francês ou alemão).

O elenco principal ficou dividido entre o protagonista Lee Pace, de apenas 29 anos — que já trabalhara com Fuller no efêmero seriado Wonderfalls, criado pelo escritor quando saiu de Dead Like Me — no papel de Ned, Anna no papel de Chuck, Kristin Chenoweth, cantora e atriz da Broadway (onde chegou a ganhar um Tony, em 1999), no papel de Olive Snook e Chi Mcbride, nascido em 1961, mas que só começou a trabalhar como ator aos 30 anos, depois de longos períodos como cantor e compositor da Igreja Adventista de Chicago, onde nasceu, no papel de Emerson Cod.

Uma curiosidade na esclação de Anna foi que a princípio ela se recusou a fazer um clareamento de seus dentes sugerido por seu empresário. "Na verdade fiquei bastante ofendida", disse ela. "Eu escovo muito bem os meus dentes. Todos deram de ombros e disseram que fariam um teste filmado. Quando assisti, não consegui acreditar na minha própria imagem na tela. Não estou brincando, comparados aos dos outros, meus dentes estavam verdes! Fiquei horrivelmente constrangida". Com os dentes da protagonista devidamente clareados (além de um pequeno aparelho corretivo que ela também decidiu usar), passou-se à produção do novo seriado.

Pushing Daisies (2007/2009)

Pushing Daisies começou a tomar forma pelas mãos de Fuller, os diretores de arte Michael Wylie e Michael Weaver — que criaram aquela cenografia fantástica, multi-colorida e simétrica para a cidade imaginária de Coeur de Coeurs — cujo objetivo era transformar a série em uma experiência que nos remetesse à Amèlie Poulain e a Tim Burton; e o compositor Jim Dooley, que também se inspirou no clima de “conto de fadas adulto” da trilha sonora de Yann Tiersen para Amèlie. A ABC aprovou o projeto de Fuller e em maio de 2007 Pushing Daisies recebeu uma encomenda de treze episódios. Junto a Sonnenfeld, escalado para dirigir o piloto e mais dois episódios havia Lawrence Trilling, Adam Kane, Peter O’Fallow, Allan Kroeker e Peter Lauer. Na equipe de roteiristas encabeçada por Fuller estavam Lisa Joy, Peter Ocko, Gretchen J. Berg, Aaron Harberts, Abby Geewanter, Chad Gomez Creasey, Kath Lingerfelter, Scott Nimerfro, Dara Resnick Creasey e Jim D. Gray. Com grande campanha publicitária e curiosidade por parte do público, Pushing Daisies estreou no dia 3 de outubro de 2007. Teve a maior audiência entre as séries que estreavam naquela temporada.

Field Cate, o jovem Ned
A trama gira em torno de Ned (Field Cate), que aos 9 anos de idade presencia o atropelamento e morte de seu cachorro Digby. Triste, ele se aproxima do cão morto e quando encosta sua mão no animal para fazer-lhe um carinho o cachorro ressuscita e sai andando novamente como se nada tivesse acontecido. Em sua casa ressuscita uma mosca com um toque e compreende que tem o extraordinário poder de ressuscitar os mortos. Pouco depois, sua mãe (Tina Gloss) tem um aneurisma cerebral e cai dura em sua frente. Ned não perde tempo e bota em ação seu recém-descoberto dom. A mãe levanta, suspeitando que apenas cochilou e a vida segue. Só que naquele mesmo dia ele descobre duas dolorosas conseqüências de seu dom: na hora de dormir a mãe dá um beijo no filho e morre novamente. Ned a toca diversas vezes mas ela não ressuscita. Ele se dá conta de que o primeiro toque devolve a vida e o segundo mata a pessoa definitivamente, ou seja, ele não pode nunca mais tocar a quem ressuscitou. A segunda conseqüência é que cada pessoa — ou ser vivo — que Ned ressuscita e não toca novamente num prazo de um minuto, provoca a morte aleatória de alguém ou algo. Em uma espécie de compensação cósmica por seu talento, se Ned ressuscita uma pessoa e essa pessoa continua viva depois de um minuto, outra pessoa morre, se for um animal, outro morrerá, e assim por diante.

Ned e Chuck jovens e adultos
Ned percebe isso quando vê o pai de sua vizinha (Josh Randall) morrer sem qualquer razão, momentos após ele ter ressuscitado a mãe. A dupla morte, naquele dia, muda drasticamente o destino de ambos: Ned é posto num internato pelo pai (Jon Eric Price) e a vizinha, de nome Charlotte Charles (Sammi Hanratty) mas chamada por ele de “Chuck” vai viver com as duas tias, Vivian (Ellen Greene) e Lily (Swoosie Kurtz), que formavam a dupla Darling Mermaid Darlings, de nado artístico sincronizado, mas se aposentaram quando Lily foi limpar a areia do gato certa vez, teve um acidente com a areia e acabou ficando cega de um olho. No enterro da mãe de Ned e do pai de Chuck (que até então acreditava ter perdido a mãe no próprio parto) os dois dão seu primeiro beijo e se separam. Nos anos seguintes, Chuck adota o sedentarismo das tias e vive para cuidar delas. Não descuida, entretanto, de sua própria educação e devora centenas de livros, aprende múltiplos idiomas e se torna apicultora. O rapaz, por sua vez, vive uma juventude triste e solitária no internato, tem pouquíssimos amigos, leva incontáveis sustos por ainda não saber lidar com seu dom sobrenatural e depois de alguns anos é abandonado lá pelo pai.


Lee Pace
Procurando se confortar com a lembrança da mãe através da memória olfativa, o garoto começa a fazer tortas no internato, de madrugada. Com o passar do tempo vai aperfeiçoando a técnica culinária e quando deixa o internato ele abre uma loja de tortas, The Pie Hole (“o buraco da torta”, literalmente, mas usado apenas na expressão “shut your pie hole”, em que “pie hole” quer dizer o buraco — a boca — por onde se come a torta). O negócio é lucrativo, especialmente porque Ned (Lee Pace, quando adulto) não precisa de frutas frescas para fazer suas tortas; basta tocar qualquer fruta podre ou mofada e ela volta a ficar madura e perfeita. No Pie Hole ele trabalha junto a Olive Snook (Kristin Chenoweth), uma romântica ex-jockey que tem uma paixão secreta por Ned e não faz idéia de seu dom. A única pessoa que conhece o segredo de Ned é Emerson Cod (Chi Mcbride), o detetive particular que tem um fraco por tricô e por dinheiro. De olho nas recompensas de cada caso solucionado, ele propõe a Ned uma sociedade em que o confeiteiro ressuscita a eventual vítima de assassinato, ela é questionada e tocada novamente por Ned antes que se esgote o prazo fatal de um minuto, e com as informações colhidas (às quais a polícia nunca tem acesso), Emerson resolve o crime, ganha a recompensa e dá uma parte para Ned.

Chi Mcbride
Os dois há tempos vêm realizando essa parceria até o dia em que Emerson leva Ned ao velório de uma mulher assassinada recentemente para questioná-la antes que ela seja enterrada. Aberto o caixão, Ned descobre que a vítima desta vez foi sua antiga vizinha e paixão de infância, Chuck (Anna, quando adulta). A história é de que ela, depois de anos cuidando das tias resolvera partir num cruzeiro marítimo, a fim de ver o mundo que ela só conhecia pelos livros. Concordara, porém, em fazer um favor a uma amiga e levar uma encomenda na bagagem — dois pequenos macacos de cerâmica que pareciam perfeitamente inocentes, mas que na verdade eram de ouro maciço e a cerâmica lhes revestia apenas a superfície — e acabou morta por um criminoso que procurava essa encomenda. Conflitadíssimo, e sem revelar a Emerson que conhece Chuck, Ned diz ao detetive que quer ficar a sós com a moça para questioná-la. Ele ressuscita Chuck, explica o que está acontecendo e avisa que ela tem apenas um minuto. Eles relembram o primeiro beijo que deram 20 anos antes e resolvem que a maneira que ele usará para matá-la definitivamente será outro beijo.

Chuck sendo ressuscitada
Kristin Chenoweth
Só que quando o minuto crucial chega ao fim, Ned não tem coragem de matá-la de vez e ela continua viva, o que provoca a morte de um agente funerário ladrão que trabalhava lá. Ned acaba contando tudo a Emerson, que fica horrorizado mas não tem outra solução senão aceitar, já que o confeiteiro é sua galinha dos ovos de ouro. No meio tempo, Ned leva Chuck para sua casa, reiterando enfaticamente que os dois não podem jamais se tocar ou ela morrerá na hora. No dia seguinte os dois vão até a casa de Chuck, que é para onde a empresa de turismo mandou sua mala, ainda contendo a tal encomenda que provocou seu assassinato e que não fôra encontrada pelo assassino. Ele está à espreita  nos arredores da casa, entretanto, e quando tenta matar Chuck — que se esgueira pela casa atrás da encomenda silenciosamente, para não ser vista pelas tias — é morto a tiros por Lily, que não vê Chuck ali por causa de seu tapa-olho. Chuck e Ned descobrem o ouro por baixo da cerâmica dos macacos, vão morar juntos e fica claro que há um sentimento se renovando entre os dois.


Ellen Greene
Assim termina o primeiro episódio, com a trama de todos os personagens mais ou menos delineada para o que seria a primeira temporada. A crítica não poupou elogios dos mais efusivos. O TV Guide anunciou taxativamente que “a ABC encontrou seu novo Lost”. A New York Magazine disse que o seriado era “engraçado, imaginativo e inteligente”. O site Television Without Pitty foi mais longe, declarando que Pushing Daisies era “um dos programas mais originais, mais genuinamente divertidos da TV”. A revista Time colocou o seriado entre os dez melhores do ano, em quinto lugar. Depois do terceiro episódio, o prestígio do seriado era tal que a ABC se rendeu e encomendou a Bryan Fuller os outros nove episódios que tornariam aquela primeira temporada completa. É onde desgraçadamente entra em cena o azar ocasional de Anna, e o que parece ser a "maldição das duas temporadas" que rondava os seriados de Fuller: com todas as temporadas do horário nobre bem no meio das filmagens e da elaboração dos roteiros, aquele seria o momento perfeito para desencadear uma greve de roteiristas e deixar a televisão e o cinema na pior situação possível. Foi exatamente o que aconteceu.

Swoosie Kurtz
Os dois maiores sindicatos de roteiristas dos Estados Unidos (WGAE — Writers Guild of America East e WGAW — Writers Guild of America West), representantes de quase quinze mil roteiristas de Cinema, TV e Rádio, entraram em greve no dia 5 de novembro, quando haviam sido transmitidos apenas cinco episódios de Pushing Daisies, dos nove que já estavam finalizados até aquele momento. Assim como ocorrera 20 anos antes, nas greves de 1985 e 1988 (que pediam aumento de salários e porcentagem nas vendas de fitas de vídeo), o WGA reclamava que era maior do que nunca a disparidade entre os ganhos dos estúdios e o salário dos roteiristas, e os tubarões do entretenimento mais uma vez vinham ignorando o pagamento de residuais pelo uso de material na Internet, celulares, Tivo, animações, etc., além da porcentagem na monstruosa venda de DVDs, que pela primeira vez na história estava dando mais lucro do que a própria receita das bilheterias.

Enquanto o WGA discutia ferozmente suas reivindicações com a AMPTP (Alliance of Motion Picture and Television Producers), os estúdios, desarvorados e pegos totalmente de surpresa, faziam aquilo que podiam: houve produtores que foram atrás de roteiristas não-sindicalizados, outros contrataram roteiristas canadenses ou ingleses; algumas séries não foram prejudicadas, ou porque eram filmadas fora ou porque, por uma ou outra razão, já estavam finalizadas, e o número de Reality Shows — programas que efetivamente não têm roteiro — triplicou. Mas a grande maioria foi afetada e orçam pelas dezenas as séries cômicas ou dramáticas, de 20 ou 45 minutos, que simplesmente foram obrigadas a encerrar suas temporadas no 9º, 10º, 13º episódio, ou até menos. Pushing Daisies estava de mãos atadas: era série autoral, seus roteiristas eram sindicalizados e não havia como burlar a greve. A única coisa que Bryan Fuller pôde fazer foi reescrever o 9º episódio, adiantando um cliffhanger originalmente escrito para o fim do episódio 22, o último da primeira temporada, em que Ned confessa à Chuck que é responsável pela morte de seu pai.


O golpe foi mortal. O que a greve dos roteiristas fez foi interromper no início de dezembro uma temporada que só terminaria em março de 2008. E com isso mutilou completamente uma história que não era exatamente complexa, mas que envolvia mistérios, revelações, novos personagens e reviravoltas que precisavam desesperadamente de tempo para se desenvolver. No mais, espera-se em geral sete meses entre uma temporada e outra; a greve elevaria esse prazo para quase onze meses, tempo suficiente para esfriar a empolgação do volúvel e raso público de TV norte-americano. Fiando-se na boa audiência dos nove episódios, contudo, a ABC encomendou mais treze para a temporada de 2008/2009. A greve chegou a bom termo em 12 de fevereiro, depois de uma funesta paralisação de 100 dias, e o anúncio das premiações televisivas veio como uma bem necessária injeção de confiança a Pushing Daisies. O seriado foi indicado a doze Emmys (ganhou três: Barry Sonnenfeld por direção de série cômica, Melhor Trilha Sonora para Jim Dooley e Melhor Edição para Stuart Bass) e três Globos de Ouro (não ganhou nenhum mas Anna foi indicada para Melhor Atriz em série cômica), além de Sonnenfeld ter recebido o prêmio de Melhor Diretor do Director’s Guild of America. Tudo consolação pelo que já na época (cerca de três meses antes do início da segunda temporada) parecia ser o prenúncio do inevitável.

Jim Dooley
A temporada de 2008 começou com cheiro de cancelamento. Tempo demais havia passado, a trama fôra criminosamente apressada e os índices de audiência foram decepcionantes desde o início. Lembro-me da frustração de assistir os primeiros episódios sabendo que aquele monte de tramas, só concebível em séries programadas para ter longa duração, não seria jamais apreciado (ou mesmo digerido) pelo público norte-americano. A estadia comprida e amorfa de Olive no convento, a revelação de Lily, a insegurança de Chuck, os irmãos mágicos de Ned, a ressurreição de Charles Charles, a filha de Emerson e a única coisa que realmente me incomodou a introdução de David Arquette, ridículo e sem qualquer talento, no papel do novo interesse amoroso de Olive, substituindo o excelente Raul Espárza (“Alfredo Andarísio”, da primeira temporada), que sumiu sem qualquer explicação. No dia seguinte à transmissão do 6º episódio, 20 de novembro de 2008, Bryan Fuller anunciou que Pushing Daisies havia sido oficialmente cancelada. E o que se seguiu foi um carnaval de idas, voltas, adiamentos e cancelamentos.


Em 17 de dezembro foi ao ar o 10º episódio, dos treze que estavam feitos. Por razões que a própria razão desconhece, a ABC resolveu segurar a transmissão dos três últimos episódios gravados. Primeiro se falou em transmissão exclusiva na Internet, depois aventou-se a possibilidade dos três programas serem disponibilizados apenas na caixa de DVDs da segunda temporada, houve quem falasse num possível arrependimento da ABC e somente em março de 2009, quando os programas já haviam sido transmitidos em países como Turquia e Alemanha, a ABC finalmente os colocou no ar, com grande audiência. Foi um anti-clímax horroroso porque na época em que foram gravados, um ano antes, a esperança era de que a série seguisse em frente e somente cinco ou dez minutos finais do 13º episódio foram refeitos, comunicando, de forma canhestra, que a série terminava ali. Ainda pior foi a sobrevida que se planejou para Pushing Daisies, primeiro com a idéia de um filme (descartada imediatamente, considerando que um longa equivaleria no máximo a dois episódios, custaria bem mais e não explicaria a série), depois um gibi (absurdo completo, já que a melhor coisa de Pushing Daisies era seu elenco e a junção música/imagem), uma animação com música de Jim Dooley e, mais recentemente, uma minissérie.

A vingança final parece ter vindo na celebração do Emmy, em 2009; cancelada, ceifada e aniquilada mesmo sendo um dos maiores sucessos de crítica dos últimos anos, a 2ª temporada de Pushing Daisies foi indicada a mais cinco Emmys. Ganhou quatro: Kristin Chenoweth como Melhor Atriz coadjuvante em série cômica, Robert Blackman e Carol Kunz por Melhor Figurino, Michael Wylie, Ken Creber e Halina Siwolop por Melhor Direção de Arte e Todd A. McIntosh, David Martin DeLeon e Steven Anderson por Melhor Maquiagem. Anna pode não ter ganho nada, mas foi para sua casa com uma indicação ao Globo de Ouro, convites para quatro filmes, uma peça de teatro, protagonizar um episódio da prestigiada série da TV inglesa The Street e nada menos do que seis convites para pilotos de novas séries, sendo que três chegaram a ser divulgados: uma série chamada I, Claudia, “sobre uma advogada convencida de que está destinada a tornar-se a próxima presidente americana e faz tudo para que isso aconteça. Há também Eastwick, baseada no clássico filme de 1987 estrelado por Cher, Susan Sarandon, Michelle Pfeiffer e Jack Nicholson. Seguirá a vida de três mulheres da cidade de Eastwick que ganham novos poderes depois que um enigmático estranho chega à cidade. A terceira oferta na mesa, para Anna, é House Rules, sobre novos políticos abrindo seus caminhos até Washington”. A atriz aceitou fazer os filmes (dos quais o único que acabou engavetado, por alguma razão, foi Angel Makers), a peça, The Street e declinou todos os convites para novas séries, o que se mostrou uma sábia decisão, pois de dois dos seriados nunca mais se ouviu falar, e Eastwick, não passou da metade da primeira temporada.

Pushing Daisies foi mais do que “um conto de fadas policial”, ou “forense”, como o intitulou o release da ABC (“a forensic fairy tale”). Aliás, em termos de oxímoros, os seriados de Bryan Fuller são geralmente chamados de dramedy, como também poderiam ser denominadas “feel-good dramas”, porque era impossível não comover-se, não emocionar-se pelo menos duas vezes em cada episódio. Só a trilha sonora magistral de Jim Dooley era suficiente para amolecer os espíritos mais insensíveis. Lee Pace, com seus quase dois metros, suas sobrancelhas grossas e sua expressão de eterno desamparo fizeram dele um Ned perfeito. Sua tristeza é a tristeza de todos os tímidos do mundo e sua luta para conquistar Chuck é o triunfo do fraco e introvertido contra os fortes e barulhentos. Anna trouxe à Chuck o carisma necessário, o constante bom humor e a vivacidade de espírito que encantam o confeiteiro, são contra-ponto de sua tristeza e esteio emocional da relação dos dois. Amamos vê-la em seu traje de apicultora, deitada no sofá lendo livros, abrindo a geladeira e vendo 20 ou 30 tipos diferentes de queijos e aprendendo a falar idiomas exóticos fluentemente.

A Olive de Kristin Chenoweth é o alívio cômico; loira, com o sorriso de mil dentes, os olhos azuis e o porte minúsculo, ela ficou com as risadas e os interlúdios musicais de Pushing Daisies, mas sempre com o pé no patético, no pungente, no riso que encobre o choro do amor não correspondido. Chi McBride é outro que esconde a vulnerabilidade com imagem oposta. No caso, é o detetive durão que carrega a tristeza de nunca ter visto a filha e torna-se ganancioso, não conseguindo jamais, porém, deixar de ser fundamentalmente justo e bonachão. Swoosie Kurtz é uma Lily amarga e frustrada, e Ellen Greene é uma Vivian frágil e bondosa; os dois papéis cresceriam bastante com o tempo e teriam proporcionado notáveis displays de talento por parte de ambas. E por fim, dentro do elenco principal, é impossível não citar o maravilhoso garoto Field Cate, que interpreta o jovem Ned; suas cenas em flashblack são como um prefácio de cada episódio, no qual ele não diz uma única palavra, mas a tristeza de seus olhos é eloqüente em seu silêncio e comovente em seu abandono.

Pushing Daisies até parecia, por vezes, resvalar no piegas, mas na verdade o que fazia era o melhor da arte, era transformar situações simples em momentos profundamente tocantes e significativos. Como não se emocionar quando Ned abre o caixão de Chuck, prestes a ser enterrado, e ao invés de vê-la desmaiada ou desesperada, ela está sorrindo, como se nada tivesse acontecido? A imagem do jovem Ned no internato, dormindo embalado a uma torta, que não come mas deixa lá porque o aroma lhe traz a lembrança da mãe, Olive cantando Hopelessly Devoted to You e dançando de costas para o faxineiro, que passa a enceradeira e dança no mesmo ritmo, só que com seu mp3 ligado em outra música, Chuck segurando a mão de outro homem de olhos fechados e pensando em Ned, ao som da música de Jim Dooley e etc. Foi brilhante utilizar o Halloween como data na qual Ned expia sua tristeza (de descobrir que o pai constituíra nova família com outra mulher) ajudando Chuck a rever suas tias. A idéia de Chuck com um lençol na cabeça, fantasiada de um fantasminha que não assusta ninguém, batendo na porta das tias e dizendo, com sua voz de adulta, ligeiramente embargada, o trick or treat tradicional, provocando alegria em Vivian e a raríssima comoção de Lily, que há anos não sabiam mais o que era ter crianças pedindo doces no Dia das Bruxas, é um toque de gênio.


Anna e Lee em cena de "Dummy"
Mesmo as tramas mais intrincadas (e que podem ter sido um dos fatores de desestímulo para o telespectador dos Estados Unidos) guardavam momentos que tocavam a perfeição; no 2º episódio (Dummy), por exemplo, sobre o complicadíssimo caso do sujeito que utilizava bonecos para testes de acidentes automobilísticos em seus crimes, houve uma das mais lindas cenas de romance que já tive oportunidade de ver. No fim do episódio, de mãos amarradas, cada um dentro de um saco plástico, presos dentro de um automóvel, Ned e Chuck se olham com aterradora expressão de tristeza. O narrador (Jim Dale) transmite o pensamento de ambos: “And though he couldn’t hear her, Ned suddenly wanted to tell her everything: pet peeves and favorite foods, his fears, his dreams and all the pure joy she had brought into his life”. Mais do que triste, Chuck está decepcionada. Só consegue dizer “son a bitch!” e o narrador observa: “Chuck pondered why it was she always seemed to die just as things started to get good”. Com um olhar da mais apavorante desesperança, de raiva e revolta por seu destino, Chuck murmura apenas “good-bye” e, não tendo mais nada a perder, separados pelo plástico, os dois se beijam como não tinham podido fazer até o momento e como não fariam nunca mais se morressem ali.


Já no 4º episódio (Pidgeon), quem conseguiu arrancar emoção de um momento trivial foi Olive, quando se encontrava no moinho com as tias de Chuck e só aguardava a chegada dela para desmascará-la. Quando Chuck chega, entretanto, segundo conta o narrador, Olive percebe que se afeiçoara às duas ex-nadadoras e que sua vontade de se vingar tinha evaporado: “This was the moment Olive Snook had been waiting for: she need only to open the door to expose Chuck’s deceit to the aunts and The Pie Maker could be hers. It was everything Olive wanted. And yet … [stops and looks at the aunts; her eyes close as all her animosity washes away] she knew that the aunts would be traumatized by the discovery that the late Charlotte Charles was late no more. In that moment, Olive felt that angry fire extinguished in her heart by a light breeze. She had grown fond of Lily and Vivian and could not bring herself to hurt them”. É uma cena linda, como tantas e tantas naqueles nove preciosos episódios iniciais.

Não que a segunda temporada tenha carecido de cenas comoventes; houve algumas — Chuck despejando abelhas mortas sobre Ned e assistindo, maravilhada, aquele enxame de abelhas ressurrectas, ou Chuck jogando um plástico enorme sobre Ned e abraçando-o com toda força, não segurando a emoção e a gratidão de ter Charles Charles novamente vivo, e sobretudo o magnífico ardil de Olive, que utilizando uma escuta, pede a Lily que relembre o dia do nascimento de Chuck como se pudesse contá-lo a ela mesma; Lily reluta mas entra na brincadeira e fala com emoção, diretamente à Chuck, que ouve tudo aos prantos, dentro de um carro, em frente à casa — mas o fantasma do cancelamento já rondava a série e as tramas se amontoaram e se atropelaram, e as cenas individualmente memoráveis foram em menor número.

É triste e melancólico falar hoje sobre Pushing Daisies. Porque era um seriado maravilhoso, um trabalho extraordinariamente bem-feito, que projetou Anna para o mundo e merecia ter recebido melhor acolhida do público, nos Estados Unidos, e contar sua doce e comovente história por alguns anos e talvez algumas centenas de episódios. Com 22, já tem seu lugar na história da televisão.


Land of the Lost (2009)

Passado o furor da ascensão e queda de Pushing Daisies, só restou a Anna o prestígio adquirido com a série, exemplo de trabalho bem cotado e qualificado, que o público americano – afogado em CSIs, hospitais e putarias adolescentes – compreensivelmente não absorveu. No primeiro semestre de 2009 se falou muito das ofertas que Anna teria recebido nos Estados Unidos. Especulações à parte, ela se concentrou em filmes e no teatro.

O primeiro resultado concreto, mesmo, foi o convite recebido por ela para estrelar, junto aos atores Will Ferrel e Danny Macbride, um remake da série televisiva do início dos anos 70, chamado Land of the Lost. A série teve o nome de "O Elo Perdido" no Brasil e eu sinceramente não tenho maior recordação. A história era de um guarda florestal que atravessa sem querer um vetor dimensional com seus dois filhos e vão parar em uma terra estranha, que mistura futurismo com pré-história.

Danny Macbride, Will Ferrel e Anna
O filme de 2009 é dirigido por Brad Silberling, diretor de TV que não tem nada em seu currículo a não ser a versão cinematográfica do gasparzinho ( Casper, em 1995), e City of Angels, melodrama intolerável feito para as meninas suspirarem enquanto Nicholas Cage ajeita seu aplique e faz cara de cachorro pidão para uma canastroníssima Meg Ryan.

O diretor mudou completamente a história do seriado de 1974 e ao invés de um guarda florestal com dois filhos, Rick Marshall (Ferrel) virou um cientista frustrado e ridicularizado que encontra uma assistente que o admira (Anna) e o incentiva a retomar sua pesquisa. No local onde a pesquisa deve ser retomada, os dois encontram um picareta (Macbride) e os três acabam sugados para a tal terra estranha que mistura futurismo com pré-história.

O filme é veículo para o humor Saturday Night Live de Ferrel, e Danny Macbride é meramente um assessório. A Holly Cantrell de Anna é encantadora e adorável, como já era de se esperar.


Não se deve pensar, pela frieza do comentário, que o filme é um horror. Não é nenhuma obra-prima do humor e da ficção científica, evidentemente, mas como entretenimento leve e despretensioso, agrada o suficiente. O problema é que ninguém tem mais saco para ver Anna em trabalhos que não desafiam seu talento, especialmente contracenando com o cromaqui. Em entrevista promocional comentou-se que ela passou “grande parte da filmagem em frente a uma tela verde tentando parecer apavorada pela visão de uma bola de tênis na ponta de uma vara, substituindo um dinossauro que mais tarde foi acrescentado pelas maravilhas da tecnologia moderna”. “No começo é difícil fazer essas cenas com CGI”, disse ela, na mesma entrevista. “Você tem apenas que fazer de conta e imaginar que aquelas criaturas estão lá. É como ser criança novamente”.

O filme estreou em junho de 2009 nos Estados Unidos e em julho na Inglaterra. Recebeu críticas fracas e não foi o sucesso que se esperava, considerando que Ferrel é até bem famoso nos Estados Unidos. Talvez o timing do lançamento, a promoção (ou sei lá que razões) tenham falhado e o filme foi engolido em pouco tempo. Mas enfim, para a pobre e extraordinária Anna, que já amargou filmes tão piores, é uma experiência até prazerosa. Não obstante, ela defende o filme: “Eu acho que é um excelente filme para as férias. Se você quiser sentar, se desligar e se divertir muito, é perfeito”.

The Street (2009)


A série semanal The Street foi criada em 2006 pelo inglês Jimmy McGovern, que começou sua carreira de roteirista televisivo justamente na novela Brookside, que no início da década de 90 lançaria Anna como atriz. Ele tornou-se famoso em meados da mesma década com a série Cracker, na ITV, sobre um psicólogo criminal interpretado por Robbie Coltrane (o Hagrid dos filmes de Harrt Potter), e teve novo sucesso de crítica e público com The Street. A série tinha episódios de uma hora que contavam histórias dos moradores de uma mesma rua em Manchester. Em geral, as historietas não tinham ligações entre si, exceto pelo fato dos protagonistas serem vizinhos; as tramas se resolviam no mesmo episódio, podendo ou não ter desdobramentos. Também acontecia costumeiramente do protagonista do episódio de uma semana fazer uma rápida participação no episódio seguinte. Embora fosse produto televisivo da melhor qualidade, que contava com um elenco brilhante e recebeu dezenas de prêmios, inclusive o Bafta e o Emmy Internacional, a série foi cancelada devido a seu alto custo no fim da terceira temporada, com o qual a ITV não podia mais arcar. Teve 18 episódios.

Anna com os filhos Jack e Luke
(spoilers) Anna protagonizou o primeiro episódio da terceira temporada, escrito por Jan McVerry e dirigido por Terry Macdonough, e que conta a história de Dee Purnell, mulher abandonada pelo marido com dois filhos pequenos, Jack e Luke (Jordan Hill e Sam Lenthall), e que, não vendo outra opção para poder pagar suas múltiplas dívidas começa a se prostituir nos fins de semana em um bordelico das redondezas. Enfrentando problemas no aquecedor e no encanamento de sua casa, ela contrata o encanador Mark (Daniel Mays), com quem inicia um namoro, sem no entanto revelar-lhe sua ocupação ocasional.

Anna e David Bradley

O namoro progride, Mark, também solteiro, lhe apresenta sua filha, Megan (Chelsea Cowper), eles se dão muito bem e tudo corre às mil maravilhas até que Mark resolve apresentar Dee a seus pais. Por triste ironia do destino, o pai de Mark, Joe (David Bradley, o casmurro Argus Filch dos filmes de Harry Potter, que já trabalhara com Anna mais de dez anos antes na minissérie da BBC, Our Mutual Friend), fôra cliente de Dee, que no prostíbulo atendia pelo nome de “Ruby”. O velho exige que ela termine a relação com o filho, o que ela faz na mesma noite, sem dizer a ele o porquê. Não resiste, entretanto, às súplicas insistentes de Mark e volta com ele dias depois, o que irrita Joe. O velho e Dee se ameaçam mutuamente, ela de contar tudo à Nessa (Bárbara Marten), esposa de Joe, e ele de contar à direção do St. Peter – prestigioso semi-internato onde ela deseja matricular seus filhos – que ela é uma prostituta.


Daniel Mays

É um estupendo trabalho de Anna. Pushing Daisies era um seriado belíssimo mas não lhe dava rios de oportunidades para variar sua interpretação. Com The Street ela foi da fantasia doce e comovente de Chuck à realidade crua e cruel de uma mãe solteira e endividada num subúrbio miserável de Londres. Não bastasse isso, ela ainda tem que se preocupar com o fato de seu filho Jack ser vítima de bullying na escolinha onde estuda, razão pela qual ela faz das tripas coração para que eles sejam bons alunos e consigam o ingresso na aristocrática St. Peter. É um dos melhores papéis de Anna até hoje, e certamente o mais dramático, porque foge dos problemas existenciais de Me Without You, não se passa na antigüidade e não tem elementos sobrenaturais, como Báthory, e a personagem de Anna não é uma drogada histérica como a Denise de Niagara Motel (cuja pobreza do roteiro, aliás, sequer se compara ao excelente texto de The Street).

Expressão pétrea na confissão
A cena em que Dee revela a Mark que é uma prostituta, com a expressão pétrea, dura, ebulindo e se corroendo por dentro, e deixando transparecer apenas os olhos injetados, brilhosos pelas lágrimas, é primorosa. Também é um espetáculo de talento a cena seguinte, em que o rapaz vai confrontá-la no bordel e termina esfregando-lhe na cara uma nota de 20 libras, o acintoso pagamento pelo que eles passaram juntos, que lhe retira o excesso de maquiagem e a fere mais do que qualquer violência física. O texto é enxuto, não há maniqueísmos, exageros, e pelo rosto lindíssimo e borrado de Ruby passam todas as emoções de uma mulher humilhada ao extremo, até que ela volta, como mecanismo de defesa, à mesma expressão de pedra. Triste, patético, pungente. Realmente uma beleza.



A conclusão do episódio poderia tropeçar em todas as armadilhas de pieguice e do politicamente correto. Faz exatamente o contrário. Cansada de ver seu filho apanhar na escola, Dee vai à casa do menino agressor e se engalfinha, a socos, com a mãe dele. No dia de sua entrevista no St. Peter, ela vai com hematomas horrorosos no rosto. Com um filho a cada lado, explica porque está machucada, não mente, e se submete ao julgamento da severíssima banca de admissão. A coordenadora da banca fica horrorizada com a história de bullying contada por Dee, mas longe de se comover e aceitar os garotos pela coragem daquela mãe só e desamparada, afirma que a escola tem um padrão a zelar e não permite alunos que venham envoltos nesse tipo de imbróglio. Dee chora convulsivamente, implorando para que eles não rejeitem a matrícula dos filhos, a coordenadora se mostra impassível, e então percebemos que um dos membros da banca, que se mantivera de cabeça baixa até aquele momento, era o vigário da escola — Iain Mackee — e, desta vez por feliz (e algo bizarra) coincidência, cliente constante da linda e desejável Ruby. Pouco depois, em um amplo salão onde Dee aguarda, triste e desesperada, o veto à matrícula dos filhos, o vigário aparece, constrangido, e diz que se Jesus voltasse à Terra, seria encontrado “entre pecadores como eu”. Ato contínuo, avisa que a matrícula dos garotos foi aprovada. O momento é de suprema alegria para a mãe e os filhos, e o episódio termina com o reencontro e reconciliação de Dee e Mark. Perguntada por ele como conseguiu o ingresso dos garotos em escola tão prestigiosa, há espaço para uma piada particular entre ela e o espectador: “Eu transei com o vigário”. Mark ri, achando que ela está fazendo simples gracejo com a profissão que abandonou logo após a briga dos dois.

Segundo Anna, “graças a Deus eu nunca estive em uma posição como a de Dee. Mas o programa mostra o que uma mãe está preparada a fazer para cuidar de seus filhos e eu me identifico muito com isso. Gracie é a coisa que mais amo no mundo. Tê-la me mudou fundamentalmente como pessoa e como atriz. Realmente coloca o resto da sua vida em perspectiva”.

Na época em que assisti esses episódios de The Street, dias depois de serem transmitidos pela TV inglesa, comentei que minha única restrição a esse trabalho, brilhante sob todos os aspectos, é que não era nem remotamente possível que as putas da periferia de Londres fossem tão lindas. Curioso que como mãe e dona de casa suburbana Anna convence muito bem, mas a tonelada de maquiagem despejada sobre Ruby parece apenas ressaltar sua beleza, ao invés de vulgarizá-la e escondê-la. É uma pena que não seja o cinema o veículo onde a atriz tem chance de mostrar todo esse talento. The Street foi ao ar no dia 20 de julho de 2009 e na semana seguinte, conforme a dinâmica do seriado, ela fez uma aparição relâmpago, no mesmo papel, como vizinha de um soldado que voltou desfigurado do Iraque. Por esse trabalho ela ganhou o prêmio da Royal Television Society, mas infelizmente foi esnobada pelo Emmy internacional e pelo Bafta. Perguntada sobre todos seus projetos cinematográficos feitos em 2009 e lançados em 2010, Anna não deixou a entrevistadora sequer concluir a pergunta; declarou imediatamente: “O único do qual me orgulho é The Street.

Concluído esse projeto, ela ficou livre para embarcar em sua terceira aventura teatral, depois de tantos anos longe dos palcos. O autor escolhido era Truman Capote e a peça, uma adaptação do livro Breakfast at Tiffany’s, o mesmo já celebrizado no celulóide por ninguém menos do que Audrey Hepburn.

Breakfast at Tiffany’s (2009) - CLIQUE AQUI.


You will meet a tall dark stranger (2010)

No camarim de Breakfast at Tiffany’s, uma repórter que entrevistava Anna divisou, no meio dos pertences da atriz, um papelório em cuja capa se lia “WASP”, Woody Allen Summer Project. Era o roteiro de You will meet a tall dark stranger, filme realizado pelo grande autor em 2010, entre Whatever Works, de 2009, e Midnight in Paris, de 2011. Gostaria de saber em que momento Woody descobriu a existência de Anna, ou qual o trabalho, exatamente, que lhe chamou a atenção. Segundo Anna, “Ele me fez um dos maiores elogios que já recebi em toda a minha vida. Eu não podia acreditar”. Tentarei descobrir qual foi, porque ela não revela. “Pensei que devo estar fazendo alguma coisa certa, se alguém como ele está dizendo aquilo”. Allen convidou a atriz para fazer parte do ensemble cast de um de seus magníficos filmes. Sim, porque You will meet a tall dark stranger é um daqueles filmes de Woody em que não há um único protagonista, ou um casal de atores principais (ou até um ménage se considerarmos Vicky, Christina, Barcelona) mas quatro ou cinco, e cada trama tem seus personagens principais e coadjuvantes. Neste caso podemos estabelecer que os protagonistas são quatro, Gemma Jones, Anthony Hopkins, Naomi Watts e Josh Brolin, e que as tramas são duas, a primeira envolvendo o casal formado por Hopkins e Gemma – tendo como coadjuvantes Pauline Collins, Lucy Punch, Roger Ashton-Griffiths e Theo James – e o segundo casal formado pela filha deles, Watts e seu marido Josh Brolin – coadjuvados por Antonio Banderas, Freida Pinto, Ewen Bremmen e Anna.

Woody Allen
Tudo aquilo que se disser a respeito dos filmes escritos e dirigidos por Woody Allen será redundante. Até mesmo a frase anterior é redundante. Na verdade, os rifões sobre a obra desse notável autor são de que ele é uma usina de histórias inteligentes, que ele cria, concatena e conta como ninguém, que atingiu o pináculo do requinte na observação do humor e do drama cotidianos, seus elencos são geralmente impecáveis, seus diálogos são os mais perfeitos do cinema moderno e que não há quem consiga transformar em personagens da telona os personagens da vida real com a sua maestria. Tudo verdade. E considerando que seus filmes saem basicamente da mesma fôrma, é impossível fugir dessas conclusões cada vez que analisamos um de seus trabalhos. Mesmo assim, não me furto ao deleite de fazer um pequeno comentário sobre You will meet a tall dark stranger. A história se passa na Inglaterra, e não há propriamente um mote; o narrador do filme principia parafraseando o famoso solilóquio de Macbeth quando a rainha morre, sobre a vida ser “um conto cheio de som e fúria, e que no fim não significa nada” (Life’s but a walking shadow, a poor player that struts and frets his hour upon the stage and then is heard no more: it is a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing – Ato V, cena VI), e em seguida já somos introduzidos à trama de Helena (Gemma Jones). Vejamos:

Em sentido horário, Anthony Hopkins, Gemma Jones, Antonio Banderas
e Naomi Watts

Ela é casada com Alfie (Hopkins), que “se recusa a envelhecer” e se divorcia dela depois de 40 anos de casamento para viver intensamente o resto de seus dias. Enquanto Helena tenta o suicídio, faz análise e toma anti-depressivos, Alfie vira um rato de academia e começa a namorar uma jovem prostituta, Charmaine (Lucy Punch), que atende a domicílio. Só quem consegue tirar a velha de sua depressão é Cristal (Pauline Collins), uma vigarista que finge prever o futuro e ganha a vida passando a perna nos ingênuos e ignorantes que acreditam nas bobagens que ela diz. No caso de Helena, a falsa adivinha só precisa dizer o que ela quer ouvir, além de servir-lhe doses generosas de whisky. A filha de Alfie e Helena, Sally (Naomi Watts), trabalha em uma galeria de arte cujo dono é Greg (Antonio Banderas) e é casada com Roy (Josh Brolin), que abandonou a medicina para tentar ser escritor, foi elogiado por seu primeiro livro, anos antes, mas desde então não conseguia emplacar outro sucesso. Há dois escrevendo e reescrevendo o mesmo livro, ele fica fascinado com a morena do prédio em frente ao seu, Dia (Freida Pinto) que ele vê de sua janela enquanto ela toca lindamente o Grave Assai, de Luigi Boccherini, ao violão.

Em sentido horário: Freida Pinto, Josh Brolin, Pauline Collins e Anna

(spoilers) Helena confia em todas as idiotices que lhe são ditas por Cristal, passa a viver sua vida segundo elas e atinge a paz de espírito, sobretudo quando a vigarista lhe afirma que ela conhecerá um novo homem. Alfie fica maravilhado na redescoberta do sexo, com a prostituta, e decide se casar com ela na esperança de ter um filho, que substituirá o garoto que teve com Helena, e que morreu jovem. Sally também quer um filho e constituir família, mas não pode porque o marido é um loser, sem dinheiro para sustentá-la, não termina seu livro e pula de bico em bico, um mais subalterno do que o outro. Decepcionada com o casamento, ela se apaixona por Greg, que também é infeliz com sua esposa. Roy, por sua vez, ressente a falta de solidariedade da esposa e começa uma amizade com Dia, que está noiva de um sujeito qualquer mas não impede o flerte descarado que existe entre ela e Roy. A história está criada e concatenada, e os personagens estão devidamente delineados. É onde começa a magia de Allen. Alfie gasta rios de dinheiro para agradar a burra e fútil Charmaine, e descobre aos poucos que a vida em comum de ambos é ridícula e absurda. Helena conhece Jonathan (Roger Ashton-Griffiths), dono de uma livraria de ocultismo que enviuvou recentemente, e os dois se tornam amigos. Sally, que tem entre suas atribuições profissionais apresentar novos artistas a Greg, o leva para conhecer sua amiga pintora, Íris (Anna). A paixão de Sally por Greg aumenta a cada dia mas ela não toma nenhuma iniciativa. Roy lê os originais de um romance escrito por seu amigo Henry (Ewen Bremmen) e fica impressionadíssimo com a qualidade do trabalho. Sua confiança, já combalida por essa leitura, é destruída quando ele submete, finalmente, os originais de seu novo livro à editora e recebe uma resposta negativa.

Banderas e Watts, e abaixo
Hopkins e Lucy Punch

Em seguida vêm os conflitos, as coincidências e a colisão de destinos que Allen domina como o gênio que é. Arruinado financeiramente, Alfie pede a Helena que o receba de volta mas ela, inteiramente subjugada às mentiras de Cristal, se recusa. Jonathan joga água fria nos planos casamenteiros de Helena porque não consegue entrar em nova relação amorosa se não tiver a autorização de sua finada esposa. Em uma sessão espírita em que supostamente invocam o espírito da falecida, Jonathan se amedronta e não pede a ela a autorização. Sally cria coragem para se declarar ao patrão, mas quando vai fazê-lo, descobre, em conversa com Íris, que a amiga começou um affair com Greg logo depois de Sally tê-los apresentado. Ela então decide abrir uma galeria própria com outra amiga e pede um empréstimo à sua mãe, que apóia na hora o projeto. Ao mesmo tempo, Roy e Sally se separam e ele tem a notícia de que houve um terrível acidente automobilístico no qual Henry morreu e um outro amigo dele ficou em coma. No auge do desespero e da falta de qualquer perspectiva profissional ou literária – e aproveitando o fato de que Henry era um homem só, sem família, e reservado sobre suas veleidades de romancista – ele apresenta os originais do amigo à sua editora como tendo sido escritos por ele. A editora aceita o livro imediatamente, cobrindo Roy de elogios, e ele se muda para o apartamento de Dia, que rompe seu noivado, causando toda sorte de problemas à sua família e à do seu ex-noivo, e inicia uma relação com Roy.

Em sentido horário: Ewen Bremmen,
Roger Ashton-Griffiths, Lucy Punch e Theo James

O desfecho é fantástico. Alfie descobre que Charmaine está tendo um caso com Ray (Theo James), colega dos dois na academia. Confronta o rapaz e leva uma surra. Todo machucado, ainda recebe de Charmaine a notícia de que ela está grávida. A cena é espetacular. Ele pergunta se o filho é dele, ela diz que sim, mas correndo o risco de ser desmentida por um teste de DNA ela indaga: “Quem vai ficar sabendo?”, ao que Alfie responde: “Eu saberei, se for um garoto”, emendando depois de pequena pausa, aniquilado, “se eu decidir fazer um teste de DNA nele”. Sally, seguindo o conselho de sua mãe – que se limitara a repetir o que ouvira de Cristal – se declara a Greg antes de deixar sua galeria. A resposta dele é uma negativa de constrangimento e polidez. Resta-lhe pedir o dinheiro da nova galeria para sua mãe mas Helena agora se recusa a emprestar, porque, segundo ela, Cristal lhe disse que “o alinhamento dos planetas não recomenda transações financeiras no futuro próximo”. Roy, experimentando novamente o sucesso literário e prestes a se casar com Dia, reúne-se com os amigos e – outra cena absolutamente sensacional – comenta a triste fatalidade do acidente que matou Henry. Um dos amigos então o corrige, dizendo que quem morreu foi o outro, e que era Henry quem estava em coma, aliás, melhorando a cada dia. Roy se dá conta que o amigo que lhe comunicou a notícia do acidente estava confuso e chocado ao telefone, e se enganou com os nomes. Roy, portanto, estava gozando de uma fama à qual não só não tinha qualquer direito, como ainda pertencia a um homem que estava vivo e que poderia sair do coma a qualquer hora. O filme termina com Jonathan informando Helena que sua falecida esposa lhe dera o consentimento para que eles se casassem.

Embora sendo fundamentalmente uma história de casais (como praticamente todos os filmes de Allen), You will meet a tall dark stranger seria talvez, primordialmente, sobre o que em inglês se chama “deception”, ou seja, enganação, tapeação. Em uma das cenas iniciais, Roy critica Sally por incentivar os encontros de Helena e Cristal, e afirma que o que a velha precisa é de remédios e não de ilusões, ao que Sally replica: “Não se as ilusões funcionam melhor do que os remédios”. No fim essa frase é repetida pelo narrador, como sendo a moral da história. Só que neste contexto, não há diferença entre “ilusão” e “mentira”, enganação, “deception”. É a pedra angular na relação de Cristal com Helena; nas atitudes do velho Alfie, que se engana imaginando estar vivendo sua segunda juventude e ao mesmo tempo é enganado pela jovem e desfrutável Charmaine; no desespero de Roy, ao apresentar o livro de outra pessoa como sendo dele, e de Dia ao trair seu noivo com escritor; no silêncio de Greg, não por esconder de Sally seu namoro com Íris, mas por escondê-lo de sua própria esposa; na credulidade de Jonathan, que imagina ter realmente recebido do além uma autorização para se casar, e, por fim, nas maluquices de Helena, que transforma sua vida toda em uma enganação, com a diferença de que está tão desequilibrada que acredita piamente em tudo aquilo.

Antonio Banderas, Naomi Watts e Anna
Pauline Collins é a divertida charlatã Coral
A única inocente é Sally, que não mente, não trai, procura seguir seus instintos de forma honesta e cuidadosa, e acaba sendo vítima do declínio mental de sua mãe e de uma vigarista a quem inicialmente deu corda.

Nas palavras do próprio cineasta, ele estava “interessado no conceito de fé em alguma coisa. Parece tão sombrio quando eu o digo, mas precisamos de algumas ilusões para seguir em frente. E as pessoas que conseguem se iludir parecem mais felizes do que as que não conseguem. Conheço pessoas que colocaram sua fé em religião e em adivinhos. Então me ocorreu que esse seria um bom personagem para um filme: uma mulher para quem tudo falhou, e de repente, acontece que uma mulher prevendo seu futuro a ajudou. O problema é que, eventualmente, ela terá um duro despertar”.

Freida Pinto
É mais um dos grandes filmes de Woody Allen – na minha opinião, o melhor, junto a Vicky, Christina, Barcelona, em muitos anos – e, como já foi observado no início, quaisquer elogios serão redundantes. O elenco é de cobras criadas e está bem afinado e entrosado. Ressalto a ressurreição de Pauline Collins, atriz de teatro que teve 15 minutos de fama no cinema há mais de 20 anos, quando foi indicada ao Oscar pela versão cinematográfica da peça Shirley Valentine, e que está muito bem como Cristal. Anthony Hopkins geralmente dispensa comentários, mas nunca é demais dizer que está excelente. Quem me surpreendeu foi Gemma Jones, que dá um banho de interpretação e provoca no espectador uma gama de emoções que vai da comiseração ao ódio. Antonio Banderas esbanja charme e está em seu elemento, envergando os modelitos de Giorgio Armani desenhados especialmente para ele.

Freida Pinto é tão maravilhosa que não precisaria nem ser boa atriz. Ilumina a telona com a força de mil holofotes com um simples close em seu rosto perfeito. Anna tem apenas duas cenas, sendo a segunda a mais importante, porque revela – inteiramente ignorante da paixão de sua amiga pelo patrão – que está tendo um caso com Greg. Ela imprime a seu monólogo toda a vulnerabilidade, toda a fragilidade da mulher apaixonada. Quando fala dos brincos que ganhou de Greg ela parece uma adolescente envergonhada falando do namorado e chega a enrubescer. Um ótimo trabalho. Também ótimas são as reações de Naomi Watts, tanto no choque de saber que sua amiga está namorando Greg, quanto em sua desastrada declaração a Greg, e na terrível humilhação de ser rejeitada. Sobre trabalhar com Allen, Anna declarou que “a direção dele foi fenomenalmente específica e brilhante, e ele foi muito gentil e caloroso. Fiquei impressionadíssima com isso. Ele é maravilhoso para se trabalhar”.


Watts e Anna
No aspecto menos positivo (porque não chega a ser negativo), Lucy Punch é uma boa Charmaine, mas eu pessoalmente gostaria que o papel tivesse ido para uma atriz mais exuberante, mais gostosa. Punch é magra, não tem formas voluptuosas e atraentes; está maquiada e caracterizada como uma puta de esquina, e não uma escorte de nível médio, mais apropriada para um velho rico mas inexperiente com prostitutas, como Alfie. Em todo caso é uma boa atriz. Só recentemente soube que Nicole Kidman já estava escalada para o papel quando teve que abandonar o projeto por conta de seu papel anteriormente agendado em Rabbit Hole. É uma pena. Quanto a Josh Brolin, compreende-se que Allen o tenha colocado em um papel com o qual o público não precisa se afeiçoar, porque Brolin é um sensaborão. Apesar de sua cabeça desproporcionalmente grande e de seu inqualificável corte de cabelo, saído diretamente de uma batedeira, ele não compromete e se desincumbe do papel com alguma competência. Ainda assim, teria sido bom ver um ator com pelo menos um pouco de carisma no papel do azarado Roy.

Naomi Watts está bem em todo o filme, mas senti falta de uma intensidade maior na cena final com a mãe. O roteiro, inclusive, dá a impressão de ter sido escrito para que houvesse esse crescendo, que começa quando, passado o impacto inicial de saber que não receberá o empréstimo por culpa de um veto de Cristal, Sally exclama: “Ela é uma charlatona!” Watts mantém-se num patamar de indignação comedida, mesmo quando passa, a partir daí, a xingar sua mãe de “imbecil”, de “lunática” e de outros mimos. O efeito dramático teria sido bem maior se ela descorçoasse e deixasse fluir livremente naquele momento a decepção e ódio por ver um projeto de vida tido como certo, indo por água abaixo, por culpa da idiota completa, simplória e manipulável na qual se transformara sua mãe.

O filme estreou em 15 de maio de 2010 no Festival de Cannes, em 23 de setembro nos Estados Unidos e só em março de 2011 na Inglaterra. Teve um sucesso moderado e até onde sei não recebeu indicações ao Oscar (injustiça terrível com Gemma Jones), mas é um belíssimo trabalho e merece ser visto.

London Boulevard (2010)


Collin Ferrel
O último lançamento de Anna em 2010 foi London Boulevard. Voltamos, aqui, de certa forma, à situação de Rogue Trader, ou seja, do roteirista que teve grande reconhecimento por um determinado trabalho – neste caso, William Monahan, que roteirizou o exitoso The Departed, dirigido por Scorsese – e que decide apostar suas fichas também na direção. Monahan adaptou e dirigiu London Boulevard, baseando-se em um livro de Ken Bruen sobre um ex-gangster, Harry Mitchell, que acaba de sair da cadeia e decide, por assim dizer, “seguir melhor vida” e abandonar o crime. A premissa é manjada e o diferencial, como se observara no roteiro anterior de Monahan, teria que residir no elenco competente e no desenvolvimento dos personagens, por sinal os únicos méritos de The Departed, já que a história, tanto no filme de Scorsese quanto em London Boulevard, não passa de um display da degradação humana e uma interminável sucessão de desgraças. Mitchell sai da cadeia e é amparado por seu amigo cretino Billy, que não espera nem cinco minutos para envolvê-lo em nova teia de crimes e corrupção liderada pelo gangster Rob Gant. Mitchell reluta e procura levar uma vida normal arranjando um emprego como segurança de Charlotte, uma atriz problemática, enquanto se esforça para proteger a irmã desequilibrada, Briony, que tem compulsão por sexo, drogas e a mistura de bebidas alcoólicas com remédios de tarja preta.

Collin Ferrel com Anna (acima) e Knightley (abaixo)
(spoilers) Em termos da competência do elenco e do desenvolvimento dos personagens, Monahan foi particularmente feliz, com raras exceções. Todos os atores do filme estão bem acima da média. Colin Farrel talvez não tenha estofo para ser o protagonista absoluto, mas é carismático e sua expressão de tormento, com as sobrancelhas eternamente arqueadas, ajuda na composição do atribulado Mitchell e transmite constantemente seu dilema. Na relação que tem com suas duas mulheres – a atriz para quem trabalha, e por quem se apaixona (Keira Knightley), e sua irmã, a quem ama e tenta proteger, sem sucesso (Anna) – há um paradoxo; Anna está ótima como a doente Briony e Monahan acertou em cheio quando optou para que a relação dela com o irmão pendesse para o humor e não para o drama. A necessidade de Briony pelos barbitúricos, que a leva à promiscuidade, seria pesada e desagradável se fosse mostrada de forma séria. Tornando-a tristemente cômica, ridícula em suas maluquices, como masturbar o tocador da gaita de foles fingindo que é a mãe dele (porque “é comum na Escócia”), seduzir o bondoso e ingênuo doutor Raju ou o afetado restauratier Alfons, Anna virou um bem-vindo alívio cômico, coisa que fez uma falta desesperadora no sinistro The Departed.

Ferrel, Anna e Sanjeev Bhaskar
A cena do jantar preparado por Farrel para que a irmã se alimente direito chega a ser divertida, sem embargo das mal-criações de Briony. Impossível não rir com as respostas dela às invectivas do irmão sobre seus maus-hábitos alimentares: “Comer me deixa enjoada”; as caretas de Briony enquanto joga a comida no chão, a discussão sobre a vodca, a resignação carinhosa de Mitchell, até a conclusão, quando ele, referindo-se a uma caveira de plástico onde Briony deposita as cinzas de seu cigarro, lhe diz: “Eu não consigo comer com essa coisa olhando para mim”, ao que ela responde, incomodada, em pérola non-sense: “Junte-se ao clube”. Briony é uma desequilibrada irremissível, indomável e incurável, mas é dócil e bem-humorada, razão pela qual Mitchell evita de forçá-la a qualquer coisa. Pelo contrário, em certas ocasiões não consegue sopitar o riso diante das reações dela, como na cena do cemitério ou naquela em que lhe entrega a passagem de trem para Paris e ela começa a papagaiar, feliz da vida, palavras sem sentido em francês.

Keira Knightley
No caso do affair de Mitchell e Charlotte, contudo, a coisa não convence. Keira Knightley já provou que além de linda é talentosa, mas a química entre o ex-gangster e a atriz com complexo de Howard Hughes é defeituosa, praticamente inexiste. Talvez porque se consuma tarde demais, talvez porque não há clima para paixão no meio de tanta desgraça, ou talvez porque Farrel e Knightley simplesmente falharam em passar isso para a tela. Também acresce o fato de que Knightley está fisicamente caracterizada como uma super model, e não como uma arrojada atriz européia de filmes pseudo-intelectuais (neste aspecto podemos argumentar que a magra e ossuda Knightley não foi a melhor escolha para o papel, que precisaria de uma mulher robusta e sensual, no estilo de Ornella Mutti ou, entre as britânicas, Catherine Zeta Jones).

David Thewlis
Com essa deficiência da atriz protagonista, quem fica com toda a atenção é seu chevalier servant e factótum Jordan, interpretado à perfeição por David Thewlis. Não tendo sido jamais um admirador do trabalho parco e irregular de Thewlis, admito aqui que seu afeminado e depressivo Jordan é uma das melhores coisas do filme. Naturalmente macilento, feio e desengonçado, todos os elementos do fiel empregado de Charlotte lhe caíram como luva, desde a peruquinha ruiva, a mão sempre desmunhecada enquanto fuma, até as túnicas, a ironia e a expressão de tédio. Também couberam ao personagem Jordan as melhores falas de London Boulevard, sobretudo quando descreve Charlotte para Mitchell: “You’ve seen her in films? Getting her kit off. If it wasn’t for Monica Bellucci, she’d be the most raped woman in European cinema. And all before the age of thirty. Of course she’s also very serious about her acting. Apart from not wanting to do it, she’s incredibly serious about her craft”.

Ben Chaplin
Outra excelente surpresa do filme, no mesmo patamar de David Thewlis, é Ben Chaplin no papel do apalermado screw up Billy. Chaplin me faz lembrar um pouco Ethan Hawke, no sentido de que a expressão angelical era a qualidade e o defeito de ambos. Agradavam imensamente em papéis de galãzinhos ingênuos e bons, mas era só o que podiam fazer, até que ficaram mais velhos, perderam a cara de bebê, ganharam rugas e tiveram, finalmente, a oportunidade de quebrar o molde e variar o repertório de personagens. Billy é o screw up arquetípico, mas ganha tonalidades diversas pelo inesperado talento de Chaplin. O sotaque britânico puxadíssimo, hilário, o pânico para lidar com o patrão e para executar as tarefas que lhe são conferidas, a maneira como capitula cada vez que recebe uma negativa de Mitchell, seu desespero quando a relação entre Mitchell e Gant apodrece e se torna um confronto de morte, são aspectos do personagem que não têm qualquer inovação criativa, mas que ganham vida nas mãos do ator.

Ray Winstone
Quanto ao gangster Rob Gant, um psicopata sanguinário, insensível, abusado sexualmente na infância e, como conseqüência, totalmente pervertido, é o tradicional vilão asqueroso e detestável que Ray Winstone tem feito muito bem em basicamente todos os seus filmes, desde o Reeves em Ripley’s Game, passando pelo Mr. French de The Departed, o Sweeney Todd televisivo (não o de Tim Burton) até o Jedburgh de Edge of Darkness, terceira colaboração entre o ator e o roteirista (neste caso com direção de Martin Campbell). Ray Winstone é bom, mas é Ben Chaplin e Ethan Hawke ao contrário; jamais convencerá no papel de um sujeito bom e meigo enquanto não atingir a terceira idade e virar um velhinho bonachão.

O resto do elenco é todo de extraordinária competência, mesmo tendo pouquíssimas aparições, como é o caso do mendigo Joe, de Alan Williams, o doutor Raju, de Sanjeev Bhaskar, o policial corrupto Bailey, de Eddie Marsan, o infeliz Anthony, de Jonathan Cullen e o mau-caráter Danny, de Stephen Graham. Igualmente, vale destaque a trilha sonora, que misturou certeiramente clássicos do rock como Heart full of soul, dos Yardbirds, com músicas mais modernas como Come see me, do The Pretty Things, deixando a trilha sonora com fumaças de Quentin Tarantino.


Ferrel e Winstone em cena intensa de LB
No que tange ao roteiro, voltamos a Rogue Trader. Parece haver um certo bloqueio no trabalho do roteirista quando ele se dispõe a assumir também a direção do projeto, pela primeira vez. Tal qual ocorreu a James Dearden no filme que trazia Ewan Macgregor e Anna, William Monahan ficou entre o ótimo e o meramente aceitável. A história é bem amarrada e tem personagens marcantes, mas ao mesmo tempo falta alguma coisa, o pathos, a catarse, ou possivelmente o toque de um grande diretor, que é o que fez de The Departed um filme excelente (o mesmo com Fatal Attraction, no caso de Dearden), e não só um horroroso banho de sangue. É seguramente uma das coisas que faltaram à relação de Mitchell e Charlotte, à interessante conversão de Jordan, movido de sua modorrenta existência para a cumplicidade consentida no crime, à crise de consciência de Mitchell, que o leva a não matar o adolescente que assassinou seu amigo Joe, e o fato de Jordan não ter se transformado no justiceiro final, matando o menino e sendo o único a permanecer vivo, desfecho irônico e correto por ser ele o único que desejava morrer e no entanto acabava sobrevivendo para vingar Mitchell. Por outro lado, a ingenuidade com que o big bosnian fucker entra, sem qualquer receio, em uma van de Mitchell, ou a facilidade com que Mitchell invade a residência de Gant – conquanto possam ser falhas do livro, e não do roteiro – atrapalharam um pouco a digestão do final.

Ben Chaplin, excelente surpresa de LB
Até na repercussão London Boulevard se assemelha a Rogue Trader. Ficou engavetado por quase um ano e teve lançamento silencioso em novembro de 2010; agradou modestamente quem chegou a assisti-lo e desapareceu. Nos Estados Unidos o filme ainda aguarda lançamento, razão pela qual o público cinematográfico já teve a chance de ver Edge of Darkness, feito muito posteriormente a LB. Por falar em ironia, este foi o segundo filme em que Anna e Thewlis trabalharam juntos, embora, a exemplo de Timeline, também não contracenassem. E assim como se conheceram em Timeline, se separaram em London Boulevard, depois de sete anos e uma filha juntos. Antes mesmo que o filme chegasse às telas, já ocupavam todos os tablóides ingleses as reportagens mostrando fotografias de Anna com seu jovem companheiro de Breakfast at Tiffany’s, Joseph Cross. Na ocasião ela negou que os dois estivessem tendo um caso, mas como a notícia do fim de seu relacionamento com Thewlis apareceu logo depois, sua negativa caiu no vazio. Mais recentemente ela tem sido vista com o ator galês Rhys Ifans.

Limitless (2011)

Descoberto no filme Yes Man, estrelado por Jim Carrey, Bradley Cooper ficou famoso logo depois com a divertida e despretensiosa comédia Se Beber Não Case. Ao que parece, o sucesso de público e crítica deu ao ator autonomia suficiente para escolher alguns de seus projetos seguintes. Limitless é baseado no livro The Dark Fields, de Alan Glynn, teve roteiro de Leslie Dixon, direção de Neil Burger — que se notabilizou por dirigir e roteirizar os filmes The Illusionist, de 2006 (a partir do conto de Steven Millhauser), com Edward Norton e Paul Giamatti, e The Lucky Ones, de 2008, com Rachel McAdams e Tim Robbins — e quem assina a produção executiva, junto a Jason Felts, é o próprio Cooper. A idéia de Alan Glynn é das mais engenhosas: uma pílula que contém droga capaz de ativar 100% da capacidade cerebral e as conseqüências da ingestão descontrolada de tal pílula por determinados indivíduos. No filme, Bradley Cooper é Eddie Morra, perfeito loser que vê sua vida desabar aos poucos, não tem qualquer talento excepcional mas há meses recebeu adiantamento para escrever um livro e até o momento não escreveu um parágrafo sequer. Veste-se como um mendigo, vive num pardieiro e só consegue seguir em frente porque tem o apoio moral (e sobretudo financeiro) da namorada Lindy (Abbie Cornish). Só que o filme começa justamente com um encontro entre os dois em que Lindy termina o namoro.

Cooper e Johnny Whitworth
Arrasado, Eddie perambula pelas ruas e encontra sem querer o seu ex-cunhado traficante, Vernon (Johnny Whitworth). O encontro fortuito, aliás, dá ensejo para uma das frases mais cômicas do filme, pensada por Eddie: “Of all the useless relationships, better forgotten than put away in moth balls, is there any more useless than... the ex-brother-in-law?Os dois vão a um bar e põem a conversa em dia. Perguntado sobre a irmã Melissa (Anna), a ex-mulher que Eddie não vê há dez anos, Vernon conta que ela hoje tem dois filhos, foi abandonada pelo segundo marido e mora em um subúrbio qualquer. Eddie confessa que está em um atoleiro criativo e que não consegue nem começar seu livro. Vernon então lhe dá uma pílula que, segundo ele, o ajudaria a derrubar esse bloqueio. O loser considera a princípio o espanto que lhe causou saber que sua ex-esposa está tão decadente, já que era esperta, “mais esperta do que qualquer um à sua volta”, e em seguida, na certeza de que as coisas não poderiam piorar, toma inadvertidamente a pílula, que não sabe nem ao certo o que é. O resultado é instantâneo. Ao invés de alterar os sentidos, as emoções e as reações, a tal pílula organiza os pensamentos de Eddie, colocando-os em perfeita ordem cognitiva e funcionando como um banco infinito de dados com acesso imediato e inequívoco. Nas palavras do próprio Eddie, “I wasn’t high, wasn’t wired, just clear. I knew what I needed to do and how to do it”.

A primeira mulher, linda, inteligente, e atualmente uma fracassada como Eddie
A dança das letras do NZT
(spoilers) Quando acaba o efeito dessa primeira pílula tomada por Eddie — graças à qual ele praticamente reorganiza sua vida e escreve metade do livro que havia prometido à editora — ele vai atrás de Vernon para pedir-lhe mais. O traficante o recebe com uma ferida no rosto, o que demonstra que estava sendo perseguido. Pede a Eddie que vá buscar suas roupas na tinturaria e compre um café da manhã para os dois. Quando o escritor retorna com o café e as roupas, percebe que enquanto esteve fora, inimigos de Vernon entraram na casa e o mataram. Eddie chama a polícia mas revira a casa antes que eles cheguem e encontra o que os assassinos de Vernon não conseguiram: a reserva particular que o traficante guardava da droga, que explicou chamar-se NZT, antes de ser morto. De lambuja, Eddie leva ainda algum dinheiro que o traficante escondia e sua caderneta de clientes. Novamente sob o efeito da droga, ele explora todo o leque de vantagens associado ao consumo diário do NZT: termina o livro em quatro dias, aprende a tocar piano em três, domina jogos de cartas, torna-se fluente em vários idiomas, é capaz de debater todo e qualquer assunto, desde política até economia, música e literatura, e esse conhecimento o insere num exclusivo círculo de amizades, com quem viaja e se diverte. E numa dessas viagens ele resolve entrar de cabeça no mundo dos negócios, utilizando todo o gigantesco conhecimento que advém da ingestão do NZT.

Em sentido horário: Cooper, Andrew Howard, DeNiro e Abbie Cornish

Só que ele tem pouco capital. Eddie foi capaz de multiplicar por dez o dinheiro que levara da casa de Vernon, mas aquilo ainda não era o suficiente para que ele existisse dentro do restrito universo das altas transações monetárias. Absolutamente seguro do sucesso de seus empreendimentos, sob efeito do NZT e cheio de renovada confiança, proveniente da reconciliação com sua namorada, ele se envolve com um perigoso agiota (Andrew Howard), que lhe empresta 100 mil dólares. Com esse dinheiro e a ajuda do parceiro Kevin Doyle (Darren Goldstein), profissional caxias e já enfronhado no mercado financeiro, Eddie transforma “12 mil dólares em 2.3 milhões” em dez dias e chama a atenção do mega-empresário Carl Van Loon (Robert De Niro), que se interessa pelo talento do desconhecido rapaz. É quando as coisas começam a desandar. Na ânsia de aprender mais e mais rápido, Eddie duplica a dose diária de NZT e começa a ter brancos e lacunas de memória, que o impedem de recordar porções inteiras do dia anterior, que podem chegar até a 18 horas. Assustado com a suspeita de ter matado uma mulher em um desses períodos que não retém na memória, ele pára de tomar a droga. As reações são funestas. Ele fica em péssimo estado físico e vai piorando com incrível rapidez.

Na esperança de descobrir quais são os efeitos e as conseqüências do vício em NZT, Eddie liga para os clientes de Vernon. Tem a desagradável surpresa de constatar que quase todos estão mortos ou em estado gravíssimo, em vias de morrer. Em meio a esse transe de abstinência e angústia pela descoberta dos efeitos colaterais da droga, Eddie se encontra com a ex-mulher, que vinha evitando de encontrá-lo, mas diante da súbita e inaudita popularidade do ex-marido loser no mundo dos negócios, ela desconfia que havia a mão de seu finado irmão nisso tudo, e vai até Eddie para alertá-lo. Aliás, é só olhar Melissa (Anna) e compreendemos imediatamente o porquê dela evitar o ex-marido. Mostrada em flashback como uma mulher linda, charmosa e inteligente, o que restou dela é o bagaço. Melissa explica a Eddie que foi consumidora de NZT dois anos antes mas que havia parado, com medo de morrer, a exemplo do que vinha correndo a outros clientes de Vernon. Desde então ficara seqüelada, incapaz de manter a concentração por mais de dez minutos, sofrendo com isso problemas terríveis em sua vida profissional. Ela aconselha Eddie a não parar com a droga de uma hora para outra, pois a abstinência pode matá-lo; sugere que ele pare aos poucos. E ainda acena com a possibilidade alvissareira de que nas pílulas mais novas tenham sido corrigidos esses efeitos horrendos da produção inicial.

Anna e Cooper
DeNiro, Cooper, Richard Bekins
e Tomas Arana

Eddie segue o conselho da ex-mulher e volta ao NZT. Com o tempo vai aprendendo a driblar os clarões e os brancos. Descobre aquilo que deve fazer para que a droga não tenha um efeito negativo. Come nas horas certas, toma uma dose fixa, sem excedê-la. etc. Equacionado o problema dos efeitos colaterais, são duas as dores de cabeça que Eddie terá até o fim do filme: em primeiro lugar, quando o agiota vai cobrar a dívida de 100 mil dólares, descobre acidentalmente a pílula de NZT em poder de Eddie. Toma a pílula, fica maravilhado com o efeito e começa a perturbá-lo e a ameaçá-lo, pedindo mais. A segunda dor de cabeça vem com a posição profissional adquirida pelo ex-loser, trabalhando agora com um tubarão como Carl Van Loon. No meio do acordo gigantesco de fusão que fica a seu encargo, Eddie descobre que o rival de Van Loon na transação, Hank Attwood (Richard Bekins), era um dos principais clientes de Vernon, está morrendo de abstinência e seu fiel capanga (Tomas Arana) — seguramente o homem que matou Vernon — já percebeu que Eddie tem um suprimento de pílulas e não poupará esforços ou monstruosidades para pôr as mãos nele.

Anna aparece rapidamente em flashbacks e tem a cena junto a Bradley Cooper, em que lhe explica o mal feito pelo NZT. Confesso que quando assisti o filme pela primeira vez fiquei triste que ela não recebesse o papel que coube à bonita e insulsa Abbie Cornish. Já na segunda vez mudei de idéia. O papel de Melissa é bem melhor. No flashback Anna pode ser linda e charmosa, coisa que é naturalmente e sem qualquer esforço. Já na cena que ocorre no presente, esta é a primeira vez em que ela faz o papel de uma mulher realmente feiosa e embarangada. Em Báthory ela chega a ser mostrada na decadência de uma velhice infeliz. Mas não é uma baranga; é uma mulher de 50 anos que sofreu muito. Já em Limitless, Anna está caracterizada especificamente como uma mulher jovem e devastada pelo uso do NZT. Aparece com uma tenebrosa peruca que parece uma vassoura de piaçaba e está terrivelmente envelhecida. Não há um pingo de humor ou caricatura em seu retrato da pobre Melissa. Ela chega a comover quando lembra que, sob o efeito da droga, I read Brian Green’s “The elegant universe”, in 45 minutes, and I understood it. Seus maravilhosos olhos verdes — mostrados como nunca nessa cor, saltando da tela, verdejantes, mesmo — brilham na recordação de sua extraordinária capacidade de trabalho, que tanta inveja provocou a seu patrão e que por fim a assustou diante do que poderia ser a conseqüência daquela insana atividade mental. É mais um curto e excelente trabalho de Anna.


Efeitos surrealistas do NZT

Não há muito que possa ser dito sobre o elenco, pois o filme é feito apenas para Cooper brilhar. Ele tem cara de fuinha mas é carismático e brincar consigo mesmo em Se Beber Não Case foi um grande acerto. Ele faz um estilo de galã divertido e meio abobado que não irrita o público masculino. Está muito bem no papel de Eddie Morra. Abbie Cornish, como já disse aqui, é linda e sem sal. Seu papel também não é nada que exija uma grande atriz. O mesmo pode ser dito sobre o Van Loon de De Niro. É um papel quadrado e poderia ter sido feito por qualquer ator mais velho. Evidentemente ganha em intensidade e dramaticidade na interpretação de um grande ator como De Niro. Quanto ao filme, propriamente, é entretenimento de primeira, impressiona bastante pela história e pela maneira como são mostrados os efeitos da droga. Aquele zoom que atravessa a cidade inteira, a imagem clareando, com cores fortes, ou a forma retalhada, quadriculada com que Eddie enxerga a mulher com quem transa no cúmulo de sua piração de NZT, são sensacionais.

O problema de vê-lo duas ou três vezes é que a boa impressão inicial dá lugar ao olhar detalhista e analítico. Começamos a reparar, uma a uma, as “implausibilidades” de um roteiro que mexe com situações sobrenaturais, transcendentais, etc. Vêm as perguntas: se Vernom já era um traficante mixuruca, por que ele próprio não se viciou, ciente do efeito inicial da droga, e se destruiu como ocorreu com a irmã? Por que Eddie procurou um agiota? No filme ele diz que transformou os últimos 800 dólares de Vernom em 2 mil. No dia seguinte, em 7 mil e 500. É natural imaginar que em menos de uma semana já teria transformado isso em 100 mil dólares, sobretudo com suas recém-descobertas habilidades para o jogo, sem precisar apelar para um criminoso, perigosíssimo e sem o menor escrúpulo. Outra questão é o porquê do químico do laboratório, responsável pela produção de uma nova dose de NZT não ter tomado o remédio. Por que o capanga de Atwood limitou-se a ajudar Eddie a recuperar as pílulas com o advogado e não quis nenhuma para ele? Por que o próprio De Niro, que comprou o laboratório no fim do filme, não o tomou? E assim por diante...

Filmado no primeiro semestre de 2010, Limitless teve lançamento mundial em março de 2011 e foi um grande sucesso de bilheteria.
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Com esse filme, chegamos até o presente momento na carreira de Anna. Já estão concluídos e em vias de estrear projetos como Neverland, Treasure Guards, e Angel Makers, este último um projeto de 2009 que por alguma razão continua inédito. Depois de Pushing Daisies ela não parou e seus filmes têm melhorado bastante. O público que admira essa grande atriz torce para que seus trabalhos sejam de qualidade sempre equivalente a seu talento, dando a ela a chance de performances cada vez melhores e mais memoráveis. É o que ela merece. E quem sabe no futuro escreverei um artigo que não fale do “desperdício de uma atriz”, mas da “consagração” dessa mesma atriz. Anna, porém, não se amofina com as escolhas eventualmente erradas de sua carreira. Reconhecendo que hoje escolhe seus trabalhos com muito mais critério do que no passado, ela não deixa de fazer a ressalva:

Eu nunca menosprezaria o sucesso. Me sinto muito sortuda de estar simplesmente trabalhando. Freqüentemente penso “não se atreva nem por um segundo a reclamar pelo que recebeu! Você deve sentir humildade e gratidão por tudo que tem!” Eu quero apreciar o que está acontecendo enquanto o estou fazendo. Se ficamos olhando sempre para o futuro e pensando “o que vem a seguir?”, perderemos coisas maravilhosas no presente.
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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

As Eleições Municipais de São Paulo em 1928 e 1936 — Parte 1/2


Antônio da Silva Prado

O 30 de outubro, vivido em São Paulo em 1928, era página inapagável no livro da consciência de qualquer homem de bem. Fôra a subversão total da moralidade pública.
(Paulo Nogueira Filho, 1958)

O Executivo e o Legislativo paulistanos têm uma história no mínimo irregular durante a primeira metade do século XX. A Lei Municipal nº 374, de 29 de novembro de 1898, reorganizou o Poder Executivo e criou o cargo de “Prefeito Municipal”, escolhido pelos vereadores entre os membros da própria Edilidade, com mandato de um ano. O primeiro foi Antônio da Silva Prado, reeleito pela Câmara nove vezes. Em 1907, a Lei Estadual nº 1.103 instituiu eleições diretas para a prefeitura, aumentando o mandato para três anos, o que o igualava ao mandato dos vereadores. O eleito foi o próprio Silva Prado, que permaneceu na prefeitura até janeiro de 1911. Em outubro de 1910, entretanto, baixou-se a Lei Estadual nº 1.211, que restabeleceu as eleições indiretas e diminuiu novamente para um único ano o mandato do prefeito. Os vereadores elegeram Raymundo da Silva Duprat — dito “Barão de Duprat”, graças ao título que recebeu do Papa Pio X em 1907 — reeleito sucessivamente até janeiro de 1914, quando foi sucedido por Washington Luís. Só que o Paulista de Macaé não foi eleito para o costumeiro mandato anual porque em dezembro de 1913 veio uma nova Lei Estadual, de nº 1.392, que reinstituiu o triênio para o mandato do prefeito.

Provavelmente exausto com esse vai-e-vem de leis, Washington aproveitou que seu amigo Altino Arantes tomara posse no governo de São Paulo em maio de 1916, e insistiu com ele para que as eleições executivas municipais voltassem a ser diretas. Altino concordou e a Lei Estadual nº 1.501, de 30 de setembro de 1916 pôs fim nas mudanças sucessivas, instituindo eleições diretas para a prefeitura, com mandato de três anos. Outra sugestão de Washington acatada por Altino na mesma lei foi a de que não houvesse mais necessidade do candidato a prefeito ser vereador, podendo disputar a eleição qualquer um que morasse em São Paulo há mais de um ano, sendo eleitor inscrito. No pleito de outubro do mesmo ano, para o triênio seguinte, Washington foi o vencedor. Era candidato único. Exerceu o cargo até 1919, quando se tornou governador. Seu vice, Álvaro Gomes da Rocha Azevedo — mais conhecido hoje como “Ministro Rocha Azevedo”, por seu cargo no Tribunal de Contas do Estado — completou os últimos quatro meses do mandato.

Altino Arantes e Washington Luís
Apesar do voto popular, a máquina perrepista continuou trabalhando sem parar, e durante a década de 20, São Paulo teve apenas dois prefeitos: Firmiano de Moraes Pinto, eleito em 1919 e 1922, e José Pires do Rio, eleito em 1925 e 1928. Com o golpe de 1930, São Paulo despencou da previsível gangorra perrepista para um grotesco festival de nulidades promovido pelo governo ditatorial, com raríssimas exceções. Em 32 anos, o município tivera cinco prefeitos e uma rápida interinidade; já nos primeiros quatro anos da ditadura getulista, a capital do Estado teve que engolir nada menos do que 11 prefeitos diferentes. A palhaçada foi interrompida com a nomeação de Fábio da Silva Prado — sobrinho do primeiro prefeito de São Paulo — em setembro de 1934, e as coisas voltaram aos eixos com o seu sucessor, Francisco Prestes Maia, nomeado em maio de 38, para um mandato que só terminaria sete anos depois, com a queda de Vargas. São Paulo veria eleições diretas para prefeito somente em 1953, 25 anos depois da eleição de Pires do Rio. O eleito, depois desse imenso hiato: o mato-grossense Jânio da Silva Quadros.

A Câmara, por sua vez, percorreu doze triênios amorfos de eterna e fraudulenta predominância do PRP desde sua reinstalação em 1892, em plena República, até o pleito de outubro de 1928. As eleições a bico de pena, mortos votando e urnas trocadas à luz do dia ocupavam todo o cenário eleitoral, mas concentravam-se geralmente nas eleições presidenciais, como as que elegeram Hermes, Epitácio e Arthur Bernardes. Nas três eleições, no entanto, tivemos elementos oriundos das mesmas hostes partidárias ou políticas se confrontando. Com o advento de uma dissidência do partido governista, açulada pelas revoltas de 22 e 24, e que acabou transformando-se no Partido Democrático, fundado em 1926, novas lideranças estaduais e municipais começaram a surgir, novas mentalidades, novos objetivos, representando pedra cada vez maior no sapato perrepista e transferindo definitivamente a fraude, da metrópole para o campanário. Fechadas todas as Casas Legislativas com a ascensão de Vargas e os golpistas da Aliança Liberal, a Câmara teve um curto interregno democrático de março de 36 até a decretação do Estado Novo, em novembro de 37, e só retornaria à legalidade exatos dez anos depois, no pleito de novembro de 1947, que foi, aliás, o ponto de partida da carreira política de nenhum outro senão o mesmo mato-grossense, Jânio da Silva Quadros.

Mas este modesto artigo, não fala de Jânio e sim dessas duas eleições municipais — a de 1928 e a de 1936 — hoje esquecidas, obumbradas pelas ocorrências anteriores e posteriores. Um personagem, contudo, participa como protagonista nos dois pleitos: o advogado e parlamentar José Adriano Marrey Junior.

 
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Marrey Jr., pouco depois de formado
Marrey era mineiro de Itamarandiba e nasceu em 7 de agosto de 1885. Seu pai foi chefe do Partido Liberal Mineiro e mais tarde presidente da Câmara Municipal de Teóphilo Ottoni por muitos anos. Curiosamente, foi para não imiscuir-se em política, por saber o quanto seu pai sofrera nos sucessivos cargos que exerceu, que Marrey saiu de Minas, ainda garoto. Não adiantou. Em São Paulo militou no jornalismo acadêmico, formou-se com louvor pelo Largo São Francisco na turma de 1906, e não sendo nomeado promotor de nenhuma comarca pela inimizade que lhe votava Washington Luís, então Secretário de Justiça e Segurança Pública do governo de Jorge Tibiriçá — segundo diria Marrey, em tom jocoso, no futuro — dedicou-se exclusivamente à advocacia. E foi advogando a anulação da eleição de um Juiz de Paz no distrito paulistano de Santa Efigênia que acabou eleito para esse mesmo cargo, no início da década de 10. Em 1913 veio a primeira eleição para vereador. Três anos depois se reelegeu.

Marrey em 1919
Escorado na fama que granjeou pelo denodado trabalho na edilidade, e prestigiado pelo chefe perrepista Olavo Egydio, Marrey se elegeu deputado estadual pelo 1º Distrito, em 1919 (naquele tempo o Estado era dividido eleitoralmente em 10 distritos). Permaneceu na Assembléia Legislativa por três triênios, mas no fim do segundo cansou-se do domínio absolutista do PRP e começou a articular a fundação de um novo partido, que fizesse oposição àquele situacionismo eterno. A idéia foi de encontro às aspirações de outros políticos, como o velho ex-prefeito de São Paulo, Antônio Prado, e o professor Waldemar Martins Ferreira, da Faculdade de Direito. Juntando os três grupos, que incluíam ex-monarquistas como Francisco Morato e Luiz Augusto de Queiroz Aranha, ex-perrepistas como Prado, Marrey e Paulo de Moraes Barros, advogados como Prudente de Moraes Netto e Cardozo de Mello Netto, e latifundiários como Paulo Nogueira Filho, entre outros, surgiu o Partido Democrático, fundado no dia 24 de fevereiro de 1926 na Chácara do Carvalho, vivenda de Antônio Prado, que mantinha o vigor e o idealismo para orientar aquele corajoso grupo de resistentes.

Caricatura de Antônio Prado


Em termos programáticos, o PD não representava nenhum tipo de revolução ideológica. Pugnava apenas “pela reforma eleitoral, no sentido de garantir a liberdade de voto, reclamando para isso o voto secreto e medidas asseguradoras do alistamento, do escrutínio, da apuração e do reconhecimento” e demais reivindicações pontuais relacionadas à indústria e à lavoura (sobretudo o café) que vinham de encontro àquilo que o PRP já preconizara desde sempre. A diferença — e razão de ser do PD e de qualquer oposição — é que o Brasil vivia uma mentira democrática com o PRP. Havia uma alteração saudável de governantes mas os candidatos vitoriosos raramente contavam com o sufrágio ou o apoio legítimo do povo, e no Congresso as questões se resolviam pelo simples acordo entre a maioria, que era indefectivelmente perrepista. Outra proposição do PD era lutar “pela independência econômica da magistratura nacional e pelo estabelecimento de uma organização judiciária em que a nomeação dos juizes e a composição dos tribunais independa, completamente de outro qualquer poder político”, o que, como sempre, em tese é belíssimo, mas provoca risos hoje, quando lembramos do que aconteceu com a justiça nos tenebrosos 15 anos passados sob a escuridão getulista.

A magnífica propaganda colorida
do Partido Democrático, desenhada
por Belmonte

O primeiro teste eleitoral do PD aconteceu na eleição para o Congresso, que se realizaria exatamente um ano depois, em 24 de fevereiro de 1927. Modestamente, o partido apresentou quatro candidatos a deputado federal: Marrey, Morato, Moraes Barros e Luiz Aranha, e um candidato ao senado: Luiz Barbosa da Gama Cerqueira. Eis o que conta Paulo Nogueira Filho sobre aquela eleição: “Em meio da peleja evidenciara-se que o alvo mais visado pelo adversário era Marrey Junior. A princípio, a atrabiliária direção do perrepismo paulistano não acreditara na eficiência da nossa incipiente organização. Quando, porém, lhe chegaram aos ouvidos os ecos dos sucessos que os nossos tribunos alcançavam na praça pública e o efeito que os primeiros cartazes coloridos de propaganda política produziram, resolveu reagir à sua moda. Dentre as providências que os chefes ordenaram a seus sequazes, figurou a de impedir a afixação de nossos cartazes. Não conheciam nossos adversários o ânimo e a decisão que nos levavam à luta”. (Ideais e Lutas de um Burguês Progressista, José Olympio, 1965). Marrey não era o alvo principal à toa; Antônio Prado e Moraes Barros foram perrepistas a vida inteira mas o primeiro estava com 86 anos e o segundo com 61, portanto em fim de carreira. Marrey tinha 42 anos, estava no auge de seu prestígio popular e de seu relevo eleitoral, e aquilo indignava o PRP, partido onde o mineiro nasceu, politicamente. Mas a retaliação não ficou somente na proibição dos cartazes; no Ipiranga houve um confronto armado que deixou o saldo de um morto e vários feridos.


Propagandas coloridas do Partido Democrático


Realmente, considerando que era uma agremiação nova, o PD exibia estrutura partidária invejável. No dia do pleito o partido contava com um numeroso grupo de fiscais, mesários, olheiros e inclusive uma força bruta para o caso da “capangada” governista partir para a violência, o que era perfeitamente comum nas eleições da época. Não foi necessário; embora houvesse a costumeira fraude, o PRP foi pego de surpresa e não conseguiu evitar a brilhante eleição de três, dos quatro candidatos a federal: Marrey, Francisco Morato e Paulo de Moraes Barros. O trio — sobretudo Marrey, pela oratória privilegiada e explosiva — passou a verberar sem descanso, na tribuna do Palácio Tiradentes, os desmandos da política perrepista. O PD se nacionalizou, recebeu milhares de adesões e virou trincheira de todas as oposições isoladas pelo país. Em 27 de abril morreu o governador paulista Carlos de Campos, cerca de um ano antes do término de seu mandato. Eleições foram convocadas para junho do mesmo ano e durante alguns dias, a empolgação contagiou os Democráticos. Porém, em convenção, o partido decidiu não concorrer, pela simples razão de que Júlio Prestes já havia sido escolhido por Washington Luís e o PD ainda não tinha dinheiro suficiente em caixa para bancar uma eleição estadual perdida. (Mesmo com essa resolução, o Democrático Domingos Rubião Meira recebeu alguns votos no dia da eleição, que vinham de eleitores que se recusavam a sufragar Júlio Prestes e não desejavam se abster de votar).

Zoroastro Gouvêia
Em 24 de fevereiro de 1928 houve novo teste, desta vez para a renovação da Assembléia Legislativa (que ainda era bicameral, consistido em câmara dos deputados e senado estadual), e o PD se sentiu confiante para submeter uma chapa mais numerosa de candidatos. O PRP, por sua vez, continuava desarvorado com o crescimento vertiginoso do partido oposicionista. Desferido o pleito, uma grande vitória: passando novamente por cima do aparato fraudulento do PRP, os Democráticos elegeram seis deputados estaduais, o que equivalia a 1/10 do número de parlamentares. Eram eles: Luiz Barbosa da Gama Cerqueira e Antônio Feliciano pelo 1º distrito, Luiz Aranha pelo 6º, Vicente Dias Pinheiro pelo 7º, Pedro Krahenbul pelo 8º e Zoroastro de Gouvêia pelo 10º. Podia parecer pouco, mas na verdade tratava-se de triunfo inaudito para um país que eleitoralmente vivia há décadas o regime do cabresto, de norte a sul. Como se não bastasse, um dos braços do PCB, o Bloco Operário Camponês absteve-se de apresentar candidatos próprios e hipotecou apoio aos Democráticos naquela eleição. O PRP acordou. Subestimara o poder dos Democráticos a nível federal e estadual. Era preciso contê-los no município, e como isso não era possível numa disputa justa e limpa, métodos bem mais agressivos seriam adotados.

O prefeito e os vereadores eleitos em outubro de 1925 estavam chegando ao final daquele triênio. Novas eleições para a prefeitura e para a 13ª legislatura da Câmara ocorreriam no dia 30 de outubro de 1928. Animados com o êxito da refrega estadual de fevereiro, os Democráticos articularam suas chapas municipais e consultaram suas bases sobre o candidato ideal para o Executivo paulistano. Advogado competente e abnegado, edil combativo e honesto, tribuno de brilho e eloqüência invejáveis tanto na Assembléia Legislativa quanto na Câmara Federal, Marrey foi o escolhido. Dez foram os candidatos do partido à Edilidade: Prudente de Moraes Netto, Plínio de Queiroz, Bertho Condé, Manfredo Antônio da Costa, Nicolau de Moraes Barros, Carlos de Moraes Andrade, Fábio Camargo Aranha, Waldemar Ferreira, Henrique de Sousa Queiroz e Fonseca Telles.

Os perrepistas apresentaram — praxe da época — 16 candidatos, o número exato de vereadores que compunham a Câmara: Ulysses de Lima Coutinho, João Baptista Leme do Prado, Luiz Antônio Pereira da Fonseca, Antônio Simões Carvalho, Diógenes Ribeiro de Lima, Synésio Rocha, Nestor Alberto de Macedo, Manoel Pereira Netto, Nestor de Barros, Joaquim Álvaro Pereira Leite, Almeirindo Meyer Gonçalves, Goffredo da Silva Telles, Austin de Almeida Nobre, José Vieira Couto Magalhães, Daniel Cardoso e Alexandre Albuquerque, alguns estreando na política, outros pleiteando a reeleição e outros, ainda, voltando à Câmara depois de alguns anos.

José Pires do Rio candidatou-se à reeleição. Esse paulista de Guaratinguetá, nascido em 26 de novembro de 1880, é um exemplo, entre tantos naquela conturbada contextura política, de como a batalha pela perpetuação no poder era capaz de prejudicar a atuação administrativa de um excelente profissional como ele. Pires se formou em Engenharia e em Farmácia em Ouro Preto, trabalhou na obra dos portos do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, lecionou hidráulica na Escola Politécnica da Bahia e foi inspetor federal nas estradas de ferro Madeira-Mamoré e Belém-Bragança (DHBB, volume V. FGV, 2001). Pela operosidade e pelos bons serviços demonstrados nessas múltiplas atividades, foi nomeado ministro de Viação e Obras Públicas do governo de Epitácio, em 1919. Destacou-se no ministério por obras voltadas a conter a seca no nordeste, construiu a ponte sobre o rio Paraná e promoveu uma expansão inédita nos Correios e Telégrafos do Estado de São Paulo. No último ano daquele quatriênio presidencial, Pires ainda exerceu interinamente uma segunda pasta, a da Agricultura, Indústria e Comércio. Findo o mandato de Epitácio, Pires voltou para São Paulo e se candidatou a deputado federal, cargo que exerceu até outubro de 1925, quando candidatou-se a prefeito.

José Pires do Rio
No Executivo paulistano fez um ótimo trabalho, construiu o Mercado Municipal, “as pontes artísticas do rio Tamanduateí”, a Ladeira do Carmo e assim por diante. Foi Pires do Rio que deu o pontapé inicial no processo de modernização da Capital, contratando o engenheiro e arquiteto amparense Prestes Maia para que este elaborasse o célebre “Plano de Avenidas”, peça urbanística que recebeu elogios do engenheiro francês Alfred Agaché, teve aclamação internacional no IV Congresso Pan Americano de Arquitetura e seria, anos mais tarde, uma espécie de manual de todos os prefeitos de São Paulo. Pires era um grande administrador e nada havia que pudesse desaboná-lo no aspecto ético e moral. Infelizmente, porém, ele era peça da engrenagem perrepista, delegado de Júlio Prestes no município e sua permanência na prefeitura significava a continuidade de um sistema de fraudes e mentiras eleitorais que o PD pretendia aniquilar. Escoimando-se o viés político, a disputa entre Marrey e Pires do Rio era benéfica e saudável, porque representava o embate entre dois políticos da melhor qualidade.


Em meio à apresentação das chapas do PRP e do PD, salta aos olhos o destaque dado pela Folha da Manhã ao candidato único do Bloco Operário Camponês:

Everardo Dias

Entre os partidos que concorrem às eleições de hoje, um há, novo e vibrante, o Bloco Operário Camponês, ramificado pelo Rio, Santos e Pernambuco. (...) Entre os muitos candidatos à Vereança da Câmara paulista, um apareceu, apresentado pelo Bloco Operário Camponês, que vale sozinho por um programa: Everardo Dias.

O nome deste candidato soa, nos meios operários de São Paulo, como o de um clarim que nunca se calou, fosse formidável a refrega ou tenacíssima a pugna. Pela pena, no livro, no jornal; pela palavra, nos comícios e nas confabulações; pelo exemplo, nas truculências da polícia, nas prisões do país, nos desterros até, sempre encarnou a figura mais ardorosa dos ideais socialistas no Brasil. Apesar de brasileiro, teve que abandonar forçosamente a pátria. Apesar de cidadão, na plena função dos direitos que as leis garantem a todos, nunca pôde manifestar livremente as suas idéias, sem que logo os cárceres não se abrissem para tragá-lo.

O Bloco Operário Camponês, apresentando-o como o seu candidato, nada mais faz do que dar um testemunho público de aprovação aos seus atos, à sua vida toda, elegendo-o para ser, na Câmara Municipal, a voz que falará pelas suas aspirações. (...) Dadas as grandes probabilidades de que dispõe aqui e em Santos, é de esperar-se que o nome do Sr. Everardo Dias seja consagrado nas urnas, hoje, ele que sempre foi a grande vítima de quantos quiseram espezinhar os ideais do mundo operário paulista. (30/10/1928)

Clero, burguesia e militarismo, os inimigos do proletário, em "A Plebe", 1927

Para ser exato, Everardo não era brasileiro. Ele nasceu na Espanha, em 1885, e chegou ao Brasil dois anos depois. O resto da apresentação é a mais absoluta expressão da verdade. Com 17 anos Everardo já era redator de O Livre Pensador, jornal anti-clerical. Nos anos seguintes expôs com brilho e coragem suas idéias anarquistas em jornais do operariado, ou de orientação anarquista como A Plebe e Spartacus. Por culpa desses artigos foi preso em outubro de 1920, depois de uma malfadada tentativa de greve geral em Santos. Passou o inferno. Ficou dois dias nu em uma solitária imunda e minúscula, ao fim dos quais o levaram para um pátio e lhe aplicaram 25 chicotadas nas costas. De Santos foi levado ao Rio e, aproveitando-se de que ele era espanhol, e outros anarquistas também vinham de lá, de Portugal e demais países europeus, a Polícia os meteu no porão de um navio e tentou deportá-los, não fazendo qualquer diferença o fato de Everardo ser casado com uma brasileira e pai de seis filhas também nascidas em solo nacional. Um habeas-corpus foi impetrado a favor dele, e denegado dias depois. O navio aportou na Ilha da Madeira, em Lisboa, em Vigo, Le Havre e Rotterdan, onde vários dos anarquistas deportados foram sendo deixados. Everardo não chegou a sair do navio e começou a pensar no que seria o inverno europeu lá dentro, com as vestimentas exíguas que lhe deram. Pouco depois, em dezembro, veio a notícia de que o governo revertera sua deportação e em janeiro de 1921 ele voltou ao Brasil. Nem por isso — ou provavelmente por causa disso — sua vida deixou de ser uma luta constante.

Arthur Bernardes

Prosseguiu na mesma lida, foi aos pouco abandonando a anarquia e abraçando o comunismo (uma vez que o Partido Socialista ainda era inócuo e incipiente), e em fins de 1923 auxiliou, com comunicados clandestinos, os partidários de Isidoro Dias Lopes, que já começavam a articular o movimento revolucionário que seria deflagrado em julho do ano seguinte. Com a derrota do levante, Everardo se escondeu no Rio, mas não se furtou de dar sua contribuição à insurreição naval que vinha sendo planejada por lá. Depois de imprimir manifestos favoráveis a esse movimento, foi novamente preso e mandado com sete outros para o presídio da Ilha Rasa. Vivia-se o governo de terror de Arthur Bernardes  e meses depois, sem ter sido sequer interrogado, o removeram para outro presídio, na Ilha das Flores. Já estava há mais de um ano e meio preso quando o transferiram, junto a extenso grupo de comunistas e anarquistas, para um inferno chamado “Centro Agrícola Clevelândia”, no meio do Oiapoque, na fronteira com a Guiana Francesa. Não há muito que dizer sobre esse lugar, a não ser que era um campo de concentração com o acréscimo de insetos e doenças tropicais. Calcula-se que centenas de presos — políticos e não-políticos — tenham morrido na Clevelândia durante o governo de Arthur Bernardes. Everardo e os prisioneiros anarquistas que sobreviveram à Clevelândia só foram soltos nos primeiros meses de 1927, quando Washington Luís ocupou a curul presidencial no lugar de Bernardes, que passou a ser chamado, desde então, pelos comunistas e anarquistas, de “o tarado de Viçosa”.

Propagandado BOC carioca em 1928, que elegeu Minervino de Oliveira para a Câmara do Distrito Federal

Era nessas condições, depois de passar anos em “lôbregos presídios” e nas “mais infectas bastilhas” que Everardo virou o candidato único do BOC. Sabia não ter chance de vitória, mas marcava presença. Por outro lado, Washington Luís não parecia terrivelmente disposto a soltar as rédeas da repressão aos comunistas. Em primeiro lugar não quis anistiar os presos políticos das revoltas militares ocorridas nos últimos anos. Em segundo lugar, sancionou a chamada “Lei Celerada”, do deputado perrepista Aníbal de Toledo (com a discordância manifesta de Marrey, no Congresso), que além de tornar inafiançáveis crimes como proibir por meio de constrangimentos ou ameaças os trabalhadores que não desejavam aderir a uma greve (este, o item mais equilibrado da lei), ainda concedia ao governo o direito de fechar quaisquer instituições — desde jornais até partidos, passando por sindicatos, centros e entidades — que fossem considerados subversivos ou atentatórios à segurança pública. O PCB entrou em uma fase de “semi-legalidade” e não perdeu tempo em apodar o Paulista de Macaé como alguém “mil vezes pior” do que Arthur Bernardes porque, com efeito, a lei perpetuava aquilo que o “tarado de Viçosa” só conseguira com o estado permanente de sítio. (Dulles, John Foster. Anarquistas e Comunistas no Brasil. Nova Fronteira, 1977)

Bernardes e Washington Luís

Quando se fala, hoje em dia, no “voto de cabresto”, em “eleições a bico de pena”, em “urnas roubadas à luz do dia”, fica a sensação de um passado romântico e ingênuo, apaziguado pela distância, no tempo. Imaginamos imediatamente aqueles bandidos de terno, gravata e chapéu, posando para fotos ao lado dos policiais, como era a praxe, antigamente. A verdade não era nem um pouco romântica ou ingênua. O interior de São Paulo em nada diferia do pior sertão nordestino, em termos de coronelato e das iniqüidades cometidas pelos chefes políticos locais. Bandos de sicários ficavam armados nas ruas e estradas para impedir a tiros a aproximação de eleitores da oposição. Ou então coagiam esses mesmos eleitores ao “voto descoberto”, obrigando-os a votar nos senhores feudais de cada região. E se nada disso funcionasse, mapas, votos e urnas eram alterados sem qualquer cerimônia, finda a votação. Havia mortes em dia de eleição, seqüestros, intimidações, revistas vexaminosas, prisões, invasões noturnas a domicílios particulares, espancamentos, e tudo com a chancela do Poder Público.

Francisco Morato
Em outubro de 1928 a fraude ocupou grande parte do interior paulista, mas basta dar um exemplo significativo: Francisco Morato e Paulo de Moraes Barros não eram apenas deputados federais; guardavam a coincidência de serem, também, ambos, piracicabanos. Sabendo que o delegado de Piracicaba era um canalha a soldo do PRP, os dois passaram a semana anterior à eleição tratando de destacar um delegado auxiliar da Força Pública da Capital para garantir a lisura do pleito em Piracicaba. Conseguiram o delegado Laudelino de Abreu, que chegou à cidade no dia 25. Satisfeitos, Morato e Barros emitiram o seguinte comunicado ao eleitorado citadino: “Com a chegada da nova autoridade policial, Dr. Laudelino de Abreu, voltou a tranqüilidade à população piracicabana. As eleições correrão dentro da ordem e da lei”. Eis que, como por encanto, no dia 28 Laudelino foi convocado imediatamente a voltar para a Capital. O PRP local aproveitou para emitir um boletim próprio avisando que Abreu não era mais delegado auxiliar e que Piracicaba permanecia sob “ativa vigilância” do mesmo delegado acanalhado de sempre. Furiosos, Morato e Barros passaram o dia 28 tentando falar com Júlio Prestes, para exigir a volta de Abreu. Receberam, por fim, o comunicado lacônico de que o governador não pretendia providenciar a volta de Abreu à Piracicaba.

No dia 29, véspera da eleição, os dois deputados federais, inteiramente impotentes diante daquele absurdo, não tiveram mais o que fazer a não ser emitir novo comunicado ao povo piracicabano, exortando-os a não participar da eleição, porque “estamos absolutamente sem garantias para exercer amanhã o direito do voto”, e “se levássemos o cumprimento do nosso dever às últimas conseqüências, teríamos amanhã uma hecatombe de sangue”. No fim do comunicado, assinado pelos dois deputados federais e mais sete membros do diretório estadual do PD, o dedo é apontado sem ambages para aquele que os Democráticos julgavam culpado: “As violências continuam. É preciso que o Brasil inteiro tenha conhecimento desse grande crime contra o regime democrático. O primeiro responsável é o Dr. Júlio Prestes, que com estas façanhas pretende preparar sua ascensão à presidência da República”. (Diário da Noite, 30/10/28, 1ª edição). Detalhe: o chefe político perrepista de Piracicaba era ninguém menos do que o ínclito João Sampaio, genro de Prudente de Moraes, respeitado por gregos e troianos, de quem se esperava atitude diversa daquela que caracterizava seu partido, e que, com sua omissão, provocou decepção profunda nos Democráticos.

Júlio Prestes
Na Capital as patifarias variavam, de bairro para bairro. Em 28, especificamente, o Bom Retiro deu um espetáculo de vergonha e cabresto. Dois chefes perrepistas — Múcio Costa e um tal “Major Molinaro” — disputavam o eleitorado das redondezas e naquele pleito Molinaro levou a melhor. Chegou antes com sua camarilha e se instalou no colégio Marechal Deodoro, local escolhido para a votação. Proibiu qualquer pessoa de entrar na escola antes do início dos trabalhos. Com essa ordem, acabaram barrados na entrada deputados federais como Batista Luzardo e fiscais Democráticos como Paulo Nogueira. Quando soube que Sylvio de Campos, também deputado federal (do PRP, enquanto Luzardo formava com os Libertadores de Assis Brasil, atualmente coligados ao PD), estava dentro da escola, o gaúcho mandou-lhe um recado avisando que fôra barrado. A resposta de Campos (que aparentemente muito pouco guardava da honradez de seu pai, Bernardino) foi seca: ele que esperasse até que as portas fossem abertas para a votação. Luzardo só conseguiu entrar porque por ali passava o “Delegado de Segurança Social”, Ibrahim Nobre, que lhe permitiu a entrada. Nobre, por sinal, passou o dia fazendo vista grossa aos absurdos cometidos pelo Major Molinaro e em nada se assemelhava ao que mais tarde se tornou: o destemido paulistano e grande orador da Revolução de 32.

Batista Luzardo

A presença de fiscais como Luzardo e Nogueira Filho era uma formalidade completamente inútil. No fim do dia, terminada a votação, a imprensa toda viu e documentou Molinaro distribuindo dinheiro à farta aos motoristas que levariam os eleitores do PRP de volta às suas casas. Somente naquele bairro havia mais de 50 automóveis para essa tarefa, e alguns desses eleitores podiam até ser legítimos, mas em sua maioria eram os chamados “fósforos”, ou seja, pessoas arrebanhadas em qualquer lugar, de qualquer procedência, inclusive estrangeiros, proibidos de votar, e que depositavam suas cédulas nas urnas sem apresentar “nem o mais desvalioso documento”. A fraude era total. Dentro das salas, mais uma vez sob o nariz de dezenas de repórteres, mesários perrepistas abriram as urnas e começaram a rasgar as cédulas, uma por uma. No fim daquele ritual surrealista, o livro de atas era embrulhado e levado pelo presidente. Em outras seções as cédulas eram rasgadas e o resultado escrito em uma lousa. Números curiosos, Pires do Rio, 1.973 votos, Marrey, 16... e assim por diante. (Diário da Noite, 30/10/28, 2ª edição) Interessante é que a imprensa — com exceção do perrepista Correio Paulistano — descreveu esse esbulho com os mais ínfimos detalhes. As manchetes falavam abertamente da desonestidade na apuração, “a votação correu bem, mas na hora da apuração... o PRP acabou de enlamear-se nas mais indecentes fraudes de que há memória em São Paulo”, que “nunca houve fraudes tamanhas e tão cínicas”, que em São Paulo “os escândalos eleitorais são a norma constante” e daí para baixo. Era uma qualidade paradoxal de Washington Luís. A fraude poderia “campear infrene”, como diria Jânio, mas a imprensa nunca seria proibida de noticiá-la, como de fato, nunca foi, até o último dia em que esteve no Catete o Paulista de Macaé.


Diógenes de Lima e Goffredo da Silva Telles
O resultado foi previsível. Pires do Rio teve 25.700 votos, contra míseros 8.500 de Marrey, e foi reconduzido à prefeitura para seu segundo mandato. Dos 16 candidatos a vereador do PRP, TODOS foram eleitos. Aos democráticos restava continuar reclamando e a Câmara Municipal, que iniciou seus trabalhos em 5 de janeiro de 29, foi obrigada a analisar, já na segunda sessão preparatória, em 14 de janeiro, a contestação impetrada por Bertho Condé, Waldemar Ferreira, Carlos de Moraes Andrade e Manfredo Costa. Os democráticos mostravam à saciedade absoluta o roubo de que haviam sido vítimas, com o acréscimo de 700 a 800 votos em urnas de seções onde só votavam 80 ou 100 pessoas, em favor dos republicanos João Baptista Leme do Prado, Synésio Rocha, Daniel Cardoso e Alexandre de Albuquerque. Luiz Fonseca, presidente da Câmara, submeteu a contestação a duas comissões de verificação, o que até daria a impressão de que ele realmente desejava apurar alguma coisa, se a Câmara não fosse toda perrepista, estando Synésio Rocha na primeira comissão e Leme do Prado na segunda.


Waldemar Ferreira e Manfredo Costa

Lapidar foi o comentário de Francisco Morato no plenário da Câmara Federal, dias depois: “Mente-se com o pensamento, com as ações e com a própria mentira. Comparável à selvageria de que foi vítima o Estado de São Paulo, só há uma coisa, a desfaçatez com que se vem negar aquilo que se passou”. Estava adivinhando o que vinha a seguir. Alexandre Marcondes — “que vivia num pileque deslascado”, nas palavras do saudoso Assumpção Ladeira — encarregou-se de ser o porta-voz dos espíritos de porco no Congresso, e declarou que “o recente declínio do prestígio do PD e sua derrota, em São Paulo, foram decorrências de vários e graves erros políticos”. Para Marcondes, a não-participação do PD no pleito, em Piracicaba, “se destinava apenas a ocultar a derrota”. Na Câmara Municipal as justificativas são nojentas. Comentando as contestações Democráticas, o recém-eleito advogado e jornalista Couto de Magalhães declarou que “se realizava, mais uma vez, a velha fábula de Fedro, porque, apesar do alarido da imprensa do Partido Democrático, ela não passava, em última análise, de um camundongo. Camundongo, realmente, Sr. Presidente, porque a contestação se limita a meras conjecturas, a fatos de somenos importância, peculiares a todos os pleitos animados”. Mais à frente declara, impávido, que “este Estado continua a ser, incontestavelmente, o leader da Federação, pelo respeito escrupuloso dos princípios cardeais da democracia, pelo respeito do direito do voto, e, em suma, pelo respeito de todas as liberdades”.


É de causar espécie que os historiadores não dêem a importância devida ao pleito municipal ocorrido em 30 de outubro de 1928, porque me parece um momento definitivo para o regime. A sorte da República Velha foi selada nesse dia. Fraudes ocorreram desde sempre e a oposição não via nenhum político do PRP com bons olhos, mas Washington Luís era infinitamente mais bem conceituado e respeitado do que Arthur Bernardes e se houve uma última oportunidade da situação demonstrar boa vontade para com a oposição, teria sido essa eleição. A oportunidade, entretanto, foi grosseiramente desperdiçada pelo presidente, e principalmente pelo seu aliado paulista e virtual candidato ao Catete, Júlio Prestes. Na minha concepção, quando se iniciam as démarches para a deposição de Washington Luís após a morte de João Pessôa, se em algum momento os Democráticos foram atormentados por um questionamento moral a respeito da atitude que pretendiam tomar — ou seja, dar à Aliança Liberal o apoio indispensável de São Paulo ao golpe — bastava rememorar esse dia sinistro, que Paulo Nogueira Filho com muita razão batizou de “Bacanal da Fraude”. Nogueira, em seu extenso e extraordinário livro de memórias, foi o único a analisar com a profundidade necessária os acontecimentos daquele dia 30 de outubro e seus desdobramentos:

O que tornou mais monstruoso o conjunto de crimes cometidos nesse dia foi a escandalosa premeditação, o despudor com que foi planificado e a insensibilidade moral com que o executaram. Nem o mais treinado batalhão policial poderia ter agido com maior disciplina quanto a legião de perrepistas, fraudadores eleitorais, o fizeram nesse dia. Foi um assombro!

Paulo Nogueira Filho
Sobre Júlio Prestes, filho do velho Fernando Prestes, que já fôra governador de São Paulo no tempo de Prudente de Moraes, o mesmo comentário que se fez sempre sobre 90% dos grandes políticos da República Velha: moralmente honesto, mas sedento de poder:

O presidente [estadual] Júlio Prestes era um moço inteligente, de relativa cultura e de certo magnetismo pessoal. Nunca fôra negocista, nem “tocaieiro”, ao que se sabia. Boêmio, de coração bem formado, expandia-se tão-só em rodas de amigos seguros. Sua ambição, os vendavais do destino se incumbiram de aguçá-la. Biológica e socialmente, era oligarca e autocrata, com as maiores aptidões para traduzir em atos a vontade da ala ortodoxa, misoneísta e reacionária de sua grei. Com dificuldade, em certas circunstâncias punha a máscara de um liberal. Justiça lhe seja feita, não sabia ser hipócrita. Homem de seu meio, soube-lhe ser fiel.

A conclusão é perfeita:

A jornada de 30 de outubro, se foi um opróbrio para o povo de São Paulo, constituiu um mal irreparável na carreira política do Sr. Júlio Prestes e exerceu influência decisiva em seu destino e no de sua grei. (...) Diante dos excessos ocorridos, o mal estava feito: a conivência do Presidente de São Paulo com os fraudadores tornara-se de tal forma evidente que não havia mais negar os fatos ou escondê-los à vista do Brasil inteiro.

A derrota de Marrey no pleito municipal foi só o começo. Os Democráticos perderam o apoio e a orientação do velho Antônio Prado, que morreu no ano seguinte, aos 89 anos. Para piorar, em 1º de março de 1930, além de escolher entre Júlio Prestes e Getúlio Vargas, o povo também iria votar para vice-presidente, a renovação da Câmara Federal e 1/3 do senado. Marrey se candidatou  à  reeleição de seu mandato como deputado federal, e apesar de maciça votação, teve seus números fraudados e não se reelegeu.

Houve um arremedo de vingança nisso tudo: o segundo mandato de Pires do Rio e a mamata dos vereadores duraram pouco. Prefeito e Câmara usufruíram de seus cargos por 22 meses, ao fim dos quais foram cassados pelo golpe de 30. Seria preciso uma insurreição dos paulistas, as promulgações de uma nova Constituição Federal em 16 de julho de 1934 e de uma nova Constituição Estadual em 9 de julho de 1935 para que eleições legislativas municipais fossem novamente convocadas.

Marrey foi um revolucionário de primeira hora e participou intensamente das articulações da Aliança Liberal. Vitorioso o golpe de outubro, condenou com veemência a preterição de Francisco Morato na escolha do primeiro interventor paulista, mas permaneceu fiel ao movimento discricionário. Em sua mente, como na mente de tantos outros, o país caminhava para a redemocratização, livre da orgia perrepista. Mal sabia ele que Getúlio e os aliancistas não pretendiam acabar com a fraude, e sim apenas trocá-la de lado. O mineiro acabou sendo o grande artífice na malfadada triangulação com Getúlio e Pedro de Toledo, quando se discutiu a reformulação do secretariado estadual, última tentativa de apaziguamento de São Paulo, antes da revolução constitucionalista. Lutou sozinho contra a formação da Frente Única, que considerou manobra oportunista do PRP para ressurgir triunfante de seu aniquilamento, e foi medularmente contrário à idéia do levante armado. Deu plena ciência disso a Francisco Morato, com quem manteve correspondência constante depois dos horrendos acontecimentos de 23 e 24 de maio de 32. Não encontrando apoio na maioria de seus próceres, resignou-se e escreveu junto a Vicente Rao, Henrique Bayma, Vicente Pinheiro e Cardozo de Mello Netto o anteprojeto do programa do PD que seria implantado caso o governo de Getúlio fosse deposto pelo movimento constitucionalista, documento assinado em 10 de junho. Com a deflagração do conflito, em 9 de julho, manteve-se eqüidistante, amargurado com o que sabia ser fadado ao fracasso. Instado a manifestar-se, algumas vezes, limitou-se a pronunciamentos patrióticos, exaltando a juventude paulista e o futuro.

Em 17 de outubro, o Partido Democrático se reuniu pela primeira vez em São Paulo depois de findo o combate. Marrey não compareceu mas enviou uma longa mensagem com sua interpretação de tudo que ocorrera naquele ano, lida por José Augusto Costa. Na essência do documento, Marrey debitou o malogro das negociações entre Getúlio e Pedro de Toledo à ingerência descabida do PRP, que a seu ver, era o partido que representava tudo contra o qual o PD se insurgira em 30, e que devia aceitar, quando muito, uma participação minoritária no secretariado paulista. Sem declinar nomes, deixou patente sua insatisfação e sua incompatibilidade com o procedimento do grupo de Júlio Mesquita Filho, que advogava sem rebuços a solução pelas armas, o que Marrey julgava um absurdo total e um holocausto inútil de centenas de paulistas em uma batalha perdida desde o início. Lembrou que a eleição para a constituinte já estava marcada, que Getúlio finalmente dava sinais de cooperação diante da revolta de São Paulo, e disse com todas as letras: “Sabia, igualmente, que a revolução, em verdade, não tinha outra causa que não a aspiração de mando dos que a promoveram”.

Em 19 de outubro, o texto estampou quase duas páginas inteiras do Diário da Noite. Foi a gota d’água. No dia seguinte Marrey deixou o partido, levando consigo um pequeno contingente de democráticos. O gaúcho Waldomiro Lima, interventor da vez, começou a temer pelo seu cargo, pois Marrey era Democrático e revolucionário desde o princípio, e seu estremecimento com as hostes constitucionalistas o transformava em candidato perfeito de Getúlio à interventoria paulista, naquele momento conturbado. Waldomiro aproveitou uma onda ocasional de prisões políticas no Rio e em São Paulo e prendeu Marrey em dezembro de 32, garantindo mais dez meses como interventor. A prisão durou pouco, mas Marrey permaneceu fora do radar político de 33 a 35.

As eleições para a Constituinte estavam marcadas para maio de 1933. No início do ano, visando representação sólida e coesa durante a elaboração da nova Carta, Democráticos e perrepistas entraram em acordo e lançaram uma Chapa Única, congregando gregos e troianos para concorrer ao pleito de 3 de maio.

O plano parecia salutar; em tese as mágoas eram postas de lado pelo bem de São Paulo, o Brasil estava indo às urnas livre da fraude pela primeira vez em décadas, participavam das eleições múltiplos partidos, como o comunista, o socialista e o integralista, mas o resultado da eleição mostrou que longe de fortalecer o PD, a Revolução de 32 desgastou o partido. Vargas chegara ao poder com a ajuda dos Democráticos há três longos anos, impingindo humilhações aos paulistas e não dando qualquer sinal de que pretendia fazer o país retornar à normalidade democrática. A própria permanência, no comando de São Paulo, de um milico velho e incompetente como Waldomiro Lima — parente de Vargas — que só fez se desentender com todas as lideranças paulistas em sua interminável interventoria, era a demonstração clara e inconcussa disso. A situação anterior podia não primar pela verdade eleitoral, mas também não era uma ditadura inflexível que aboletava estranhos, parentes e apaniguados nos governos estaduais. Conclusão: o povo brasileiro se deu conta de que substituíra um regime contaminado por outro irremediavelmente podre, e começou a ter saudades do primeiro.

Em sentido horário, Carlos Moraes Andrade, Cardozo de Mello Netto, Antônio Carlos de Abreu Sodré e Henrique Bayma 

A apuração dos votos deixou isso meridianamente claro. Dos 17 deputados constituintes eleitos pela Chapa Única, somente TRÊS eram Democráticos legítimos, e sequer foram os mais votados: Carlos de Moraes Andrade, Cardozo de Mello Netto e Antônio Carlos de Abreu Sodré. Henrique Bayma acabou sendo o quarto, mas era suplente e só assomou à Câmara porque Jorge Americano — perrepista — renunciou pouco depois de iniciados os trabalhos. Mesmo descontando Jorge Americano, o PRP levou oito deputados para a Câmara: José Carlos de Macedo Soares, Abelardo Vergueiro César, Rafael de Abreu Sampaio Vidal, Cincinato Braga, Mário Whately, Manoel Hipólito do Rego, José de Alcântara Machado d’Oliveira e Oscar Rodrigues Alves.

Carlota Pereira de Queiroz
Vale um registro especial a eleição da paulistana Carlota Pereira de Queiroz, a primeira mulher a pisar num parlamento brasileiro. Ela nasceu em 1892, trabalhou desde cedo como inspetora de diversos educandários, começou a cursar medicina na Faculdade de São Paulo e no início dos anos 20 transferiu o curso para o Rio. Lá, teve aulas com Miguel Couto e colou grau em 1926, apresentando a tese Estudos sobre o Câncer. Fundou e dirigiu clínicas pediátricas em São Paulo e Rio, e em 1929 foi mandada para a Europa pelo governo paulista, a fim de estudar a Dietética Infantil. Esteve na Suíça, França e Alemanha fazendo cursos de aperfeiçoamento e trabalhando com médicos célebres como Widal, Abrami, Aubertin, Sergent, Roussy, Umber, Pende, Artmann e outros. Respeitadíssima, teve atuação notável durante a Revolução Constitucionalista, dirigindo órgãos como a “Oficina de Costura da Cruz Vermelha” e o “Departamento de Assistência aos Feridos”. Em novembro de 32 fez parte da comissão que foi ao Hospital Central do Exército, no Rio, para buscar os últimos prisioneiros constitucionalistas que ainda estavam internados. Foi a única representante das mulheres na Constituinte de 1934. (Campos, Calazans de (org.). Candidatos do Partido Constitucionalista. PC, 1934)

A foto clássica de Carlota, de branco, no meio dos homens, na Constituinte de 34. A seu lado esquerdo está Antônio Carlos de Abreu Sodré, em sua frente está Cardozo de Mello Netto e ao
lado esquerdo de Cardozo está o fantasmagórico Macedo Soares (foto do Blog Tataguaçú)

Berta Lutz em 1925
A bióloga e advogada — e também paulistana — Berta Lutz (filha de Adolfo Lutz) esteve no Congresso naquela legislatura, mas concorreu apenas para a Câmara Ordinária em outubro de 1934, pelo Partido Autonomista do Distrito Federal. Ficou com a primeira suplência, entretanto, e só foi diplomada graças à morte do titular, Cândido Pessôa.

Quanto ao restante da Chapa Única, contava com alguns participantes ativos da Revolução de 32, o que não quer dizer que tivessem qualquer coisa a ver com o PD, já que, àquela altura, a restauração da democracia e a expulsão dos prepostos de Vargas eram anelo tanto de Democráticos quanto de perrepistas. Antônio Barros Penteado e José Ulpiano de Sousa estavam estreando na política e não possuíam qualquer passado partidário. Plínio Corrêia de Oliveira — o deputado mais votado de São Paulo — flertara inicialmente com o recém-nascido Integralismo de Plínio Salgado e acabou eleito pelo seu sólido prestígio junto à Liga Eleitoral Católica.

E por fim, José de Almeida Camargo — filho do ex-interventor Laudo Camargo — é outro que só chegou ao Palácio Tiradentes porque Valdomiro Silveira — apartidário — foi guindado à Secretaria de Educação de Armando de Salles, razão pela qual abdicou ao cargo.

A coisa ia mais longe: Zoroastro Gouvêia, eleito deputado estadual pelo PD em fevereiro de 1928, rompeu com o partido tempos depois e migrou para o Partido Socialista Brasileiro — nascido de inspiração tenentista — pelo qual se candidatou e venceu. Não venceu sozinho, aliás; foi para o Rio com mais dois deputados socialistas, Frederico de Lacerda Werneck e Guaracy Silveira. Em apartes ou pronunciamentos, Zoroastro não tinha o menor pejo de referir-se a seus ex-companheiros de partido como “os plutocratas da Chapa Única”. Para completar a representação de São Paulo naquela Constituinte, havia dois deputados de um efêmero “Partido da Lavoura”, arremedo de agremiação fundado por Waldomiro de Lima com o fito de criar sustentação parlamentar para sua interventoria: Lino de Moraes Leme (mais tarde professor de Jânio no Largo São Francisco) e Antônio Covello.

Uma das maluquices de Waldomiro de Lima para popularizar seu nome e permanecer no cargo de Interventor foi a remodelação do Diário Oficial, transformando-o em Jornal do Estado, nos moldes de um jornal comercial normal, com a diferença de que tecia loas a ele próprio todos os dias. Quando Armando de Salles tomou posse, acabou com a farra e reinstituiu o velho Diário Oficial
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Bibliografia:

  • Annaes da Câmara Municipal de São Paulo. 1929 (1º anno da 13ª legislatura) organizados pelos tachygraphos Gustavo Milliet e Ruy Bloem. São Paulo, Typ. E Papelaria Formosa, Gianotti & Losasso.
  • ABREU, Alzira Alves de & outros. Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro pós 1930. Rio de Janeiro, Editora FGV, 2ª ed. 2001.
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  • DULLES, John W. F. Anarquistas e Comunistas no Brasil. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1977.
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  • _____. 1934: A Constituinte. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1969.
  • Folha da Manhã
  • Diário da Noite
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