segunda-feira, 18 de abril de 2016
Sobre Ontem
Meus caros,
assisti o karaokê macabro de ontem de cabo a rabo, assim como assisti do início ao fim o impeachment de Collor em 92 (razão pela qual me limito a rir quando vejo a molecada de 18 anos falando pelos cotovelos, cheios de sua não-experiência, usando e abusando de termos como "golpe"). Acompanho de muito perto a política brasileira há 30 anos e simplesmente não conseguiria passar reto por momentos como esse. Vamos a alguns comentários.
1 - Não perderei tempo repisando o ridículo, a ignorância, os maus bofes, enfim, a nojeira de 90% dos deputados em suas declarações de voto. Já conheço o nosso Congresso e sei perfeitamente a merda que é. Eu, aliás, votei em Roberto Freire que nem se elegeu (pegou a 1ª suplência), então sou absolutamente inocente. Mas fico felicíssimo que um povinho mais incauto, que fala muito e sabe nada, que nunca viu uma sessão da Câmara e nem lembra em quem votou, tenha assistido e ficado chocado. Quem sabe assim na próxima eleição vota com um pouquinho mais de cuidado e consciência. Talvez até em alguém decente. São pouquíssimos, mas existem.
2 - Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso já sabia de antemão que o PT cansaria os ouvidos de todo mundo com essa papagaiada lamentável de que a "pedalada fiscal não é crime" e que o "impeachment é golpe". Mas ouvir de dezenas desses idiotas que o impeachment foi articulado por Temer e Cunha "pra parar com as investigações da lava-jato" foi surrealista. O PT sempre adotou a estratégia do assaltante que bate uma carteira e sai gritando "pega ladrão", mas essa foi demais! Sérgio Moro e a Lava-Jato - para o terror do PT - não vêem ideologia ou partidos. A batata de Cunha já está assada. A de Aécio está assando. Hoje foi preso um prefeito cuja esposa é deputada do PSD e votou pelo "sim". Não adianta fazer esse joguinho porque os coxinhas, ao contrário dos mortadelas, não têm interesse em proteger bandidos. Só faltava dizer que o impeachment será feito para blindar o Lula e conduzi-lo à Casa Civil!
3 - Outra das mentiras escrotíssimas desse bando de infames foi a idéia de manter Dilma, entre outras coisas, "pela reforma agrária"! Dilma foi quem menos assentou em 20 anos! Sabe o que diz o MST sobre isso? "O ano de 2015 entra para a história como o ano que não existiu para a Reforma Agrária. Mais 12 meses se passaram e o governo Dilma segue liderando entre os piores nessa pasta". Vejam mais esta: "Pouco mais de duas mil famílias foram assentadas em decretos de 2013, o que demonstra que o governo não enfrenta a concentração de terra, o latifúndio e o agronegócio depredador. O pagamento de juros aos bancos e o superávit primário foram as escolhas do governo Dilma, faltou compromisso com a Reforma Agrária". Ou seja, pedaladas primeiro, reforma agrária nunca! Deu pra entender ou preciso desenhar? E sabem de onde vem essa entrevista? Do site do MST. Procurem no Google. E me poupem do discurso retardado de "imprensa golpista".
4 - Uma dos cavalos de batalha dos petistas é o fato de Cunha ser réu e ter presidido a sessão e, por extensão, a Câmara durante o processo de impeachment (pelo menos enquanto estiver solto). Outro é o fato da pedalada fiscal não ser um procedimento inédito em nossa política (embora no caso de Dilma ele tenha aumentado umas dez mil vezes). Pot kettle, como dizem em inglês. O sujo falando do mal-lavado, o ladrão falando do corrupto. Sabem por que os coxinhas não dão ouvidos a esse argumento? Porque ele tem como conseqüência lógica (e conveniente aos petistas, pra variar) o resultado de que nada é feito e as coisas prosseguem como estão. Em outras palavras, se Cunha é corrupto ele não pode tomar quaisquer medidas em relação ao pedido impetrado pelos três juristas, e punição nenhuma pode ser aplicada à Dilma a menos que se aplique a mesma punição aos presidentes anteriores que também incidiram nesse crime. Repetindo: como convém ao PT, NADA É FEITO.
Os petistas são tão ocos, tão sectários, tão fanáticos, tão incapazes de uma auto-crítica que nem por um segundo condenam o mensalão, o petrolão, Dirceu, Genoíno, Delúbio et caterva, pedaladas, a tentativa de transformar Lula em um ministro de fancaria só para evitar sua prisão ou a debacle de nossa economia. Não vêem seus crimes, mesmo quando confrontados com eles. Mesmo quando é a vida deles que o PT prejudica. Só estão preocupados com seu ódio a Cunha e o desejo psicótico de que ele sofra na pele a mesma justiça que está sendo aplicada aos petistas por "culpa" dele. Graças a Deus essa lógica de presídio não prevaleceu. Ao contrário dos mortadelas, os coxinhas não querem vingança; querem JUSTIÇA. Se para aplicar a punição à Dilma for necessário um “impeachment retroativo” a Lula e FHC, maravilha. Vão em frente. Não conheço um coxinha que se oporá. Se junto ao impeachment, Cunha, Aécio e quem quer que seja caírem na malha fina da PF e forem em cana, ótimo. Os coxinhas vão aplaudir.
E enquanto Cunha for presidente da Câmara, se ele tiver que presidir o processo de impeachment, assim seja. Porque ele pode estar envolvido em corrupção, mas seus problemas são tantos que ele exercerá neste caso uma função meramente de moderador e o impeachment é uma chance concreta de expulsar do poder a ponta-pés essa camarilha imunda que tem atormentado o Brasil nos últimos 14 anos. O brasileiro não pode prescindir disso. Com o mal menor, evita-se o mal gigante. E higienizada a presidência, parte-se para o Congresso. Não é a justiça ideal, mas é o que tem pra hoje. Os parlamentares que cassaram Collor também estavam, em sua maioria, envolvidos em falcatruas. Concluíram o impeachment. E foram cassados no ano seguinte, depois da CPI dos anões do orçamento. Melhor essa justiça do que nenhuma justiça, que é o que preconiza o PT.
5 - A demonização de Michel Temer pelos petistas é uma piada! Já vi postagem questionando a legitimidade do vice para assumir, em caso de impeachment. Uma, de particular cretinice, perguntava "ué, quem votou no Temer?", ou seja, é amnésia ou burrice, mesmo, que faz o petista esquecer convenientemente que se trata de uma chapa vinculada. Quem votou em Dilma, votou no Temer. DUAS VEZES. Espernear depois de SEIS ANOS é o melhor exemplo da retórica, ou melhor, do mimimi petista: quando tudo eram flores, mensalões e petrolões, Temer era um preclaro patriota. Agora que fodeu tudo, ele virou golpista.
6 - A Rede e o PSOL provaram ser aquilo que sempre foram: linhas auxiliares do PT. Marina mais uma vez conseguiu ter 15 posições diferentes sobre um assunto, para acabar, no fim, ao lado de Lula. Ela é a própria personificação da síndrome de Estocolmo. Essa mulher foi agredida, vilipendiada, desmoralizada e destruída por Dilma e pelo PT durante a campanha de 2014. Sofreu uma das piores campanhas de difamação que já vi na minha vida. Uma coisa baixa, soez, asquerosa, imperdoável. Mas ela simplesmente não consegue largar o osso. Que coisa terrível! Como bem disse o Marco Antônio Villa, ela saiu do PT, mas o PT não saiu de dentro dela.
7 - Tive um acesso de riso quando vi o Maluf votando "sim"! Como é importante que o PT e os petistas passem por isso. Como é didático, como é pedagógico. Acostumados a obedecer como cães à doutrinação de um apedeuta imoral como Lula, os petistas abraçam, sem olhar, aqueles a quem até ontem apedrejavam. Lula foi à casa de Maluf pedir sua benção para a eleição desse poste que temos em São Paulo. O PP até ontem era base do governo. Maluf estava na posse deprimente de Lula na Casa Civil. Era apoio certo e juramentado contra o impeachment. E no fim Lula e Dilma foram enrabados pelo voto de Maluf e do PP. Bem feito! Aprendam, petistas: quem dorme com bandidos, acorda cagado.
O mesmo ocorre com Cunha. O PT tem a desfaçatez de reclamar que o pedido de impeachment foi posto em votação por "vingança" do atual presidente da Câmara. Esperavam o quê, exatamente? Roubaram, desviaram, delinqüiram e acharam que poderiam jogar um comparsa na fogueira sem levar fumo?? É evidente que foi vingança! Entre os bandidos há um código muito específico de comportamento. Quando um resolve salvar o seu e acusar o outro, como diria o Capitão Nascimento, "o amor acaba". O que o PT tentou fazer com Cunha foi a velha tática do antigo coronel do nordeste que dizia querer acabar com o coronelato, e o que fazia era mandar matar todos os outros. Só que desta vez o PT se deu mal.
8 - Bolsonaro elogiar Brilhante Ustra em seu discurso foi ignomínia típica de Bolsonaro. Não me surpreende. Assim como incensar Lamarca e Marighella é típico daqueles dinossauros stalinistas que contaminam o PT/PSOL. Aí vem o BBB histérico, vestido de Harry Potter, tenta cuspir em Bolsonaro, acerta outra pessoa e sai correndo. Ao invés de ir ao microfone e dizer calmamente que "só um desgraçado como Bolsonaro poderia elogiar um notório torturador", mantendo a razão e a compostura que o cargo exige, preferiu fazer seu showzinho, dar faniquito e sair do episódio ainda mais queimado que Bolsonaro. Se a Câmara agir como manda o regimento, o BBB perde o mandato por falta de decoro.
Eleitores que puseram esse BBB falastrão e burro no Congresso, aprendam: Bolsonaro é deputado há 25 anos! Sabem por que ele se transformou em "mito" nos últimos cinco anos? Porque desde 2011 tem um imbecil na Câmara que é seu negativo. São verso e anverso da mesma moeda de oportunismo vazio e intolerância. Antípodas siameses.
9 - Considero o meme "Tchau, Querida" uma das melhores coisas de todo este processo, junto ao Pixuleco.
Por enquanto é só.
Bernardo
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quarta-feira, 13 de abril de 2016
Flávio por Flávio
Para Cecília
Sobre ter nascido em Portugal
Eu nasci em Lisboa, sou lisboeta, alfacinha, pois não. Acidentes acontecem. O meu pai estava com um espetáculo, que foi a segunda peça escrita por ele, o Gimba, com a Companhia da Maria Della Costa, eles estrearam aqui no Teatro Maria Della Costa, em São Paulo, e foram convidados a ir a Portugal. Então viajaram de navio pelo Eugênio C, e naquela época você - até hoje, inclusive - não podia embarcar num navio se você estivesse com mais de seis meses de gravidez. Minha mãe já estava de nove, então acho que ela deu uma forjadinha lá no atestado, ela quase não tinha barriga e acabou embarcando. As viagens eram longas então o risco de você nascer no navio... e os navios não tinham estrutura para isso, pra fazer um parto, essa coisa toda, mas eu acabei nascendo uma semana depois que o navio chegou em Portugal, na comarca de São Sebastião da Pedreira, onde fui registrado e tudo, e fui registrado como português. Hoje sou naturalizado brasileiro.
Se eu tivesse nascido no navio seria italiano por causa da bandeira do navio. Já foi uma tontice minha, na verdade, porque naquela época, se você nascesse a bordo de um navio, da linha Costa, por exemplo, que era o Eugênio C da linha Costa, hoje eu teria passagem gratuita e vitalícia em qualquer navio da linha Costa. Dentro da barriga da minha mãe eu não sabia, ou então dei uma de português e fui nascer uma semana depois... (risos) Brincadeira, viu, com meus patrícios, que eu amo Lisboa, amo Portugal, isso já é que nem clássico Corinthians e Palmeiras, tudo mundo se provoca, não tem jeito.
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| Guarnieri e David José em Arena Conta Tiradentes |
Agora, tinha coisas da televisão, né? Por exemplo, eu lembro que quando eu assisti A Muralha, na Excelsior, meu pai fazendo, ele tomava uma flechada, e eu vi meu pai tombando e eu vi sangue, e eu falei "meu pai morreu!" Então pra mim, meu pai tinha morrido, então tiveram que me convencer!
Tem uma história que para mim é a mais genial e quase me custa a vida: eu fui assistir, quando eu era pequeno, um espetáculo do meu pai chamado Arena Conta Tiradentes, e no final do espetáculo, claro, a gente foi lá conversar com todo mundo do elenco, era o David José que fazia o Tiradentes, e eu vi o David lá, muito bem, inteirão, depois de ter sido enforcado, e não deu outra; eu fui pra casa e no dia seguinte, subi em cima de um caixote, amarrei o varal no pescoço e pulei (risos), porque eu achava que não ia acontecer nada. Aí meu pai e minha mãe me tiraram de lá, claro que não apertou, então só deu umas ranhuras, mas fiquei assim, pendurado no varal, não era tão alto, mas pra mim era assim, "pô, se ele pôde por que eu não posso, né?", era uma brincadeira bacana, então são essas histórias que de repente rolam, mas teve várias outras, várias, várias, tem muita coisa engraçada...
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| Flávio, pouco antes de sua estréia profissional |
Eu queria ser médico. Queria ser médico-pediatra, esse era o meu sonho porque eu amo criança, eu adoro criança. Depois eu quis ser piloto de avião, mas também não queria começar por baixo, já queria ser piloto de boeing logo, e depois eu quis ser piloto de automóvel, queria ser de Fórmula 1. E aí você pára pra pensar um dia, na sua vida, que você fala assim: "Qual é a única profissão do mundo em que você pode ser o médico pediatra, o piloto de avião e o piloto da fórmula 1? É a profissão do ator, que você pode ser o que você quiser, sempre". (...) Posso ser o vilão, posso ser o mocinho, posso ser o espadachim, posso ser o romântico, Cyrano de Bergerac, com essa napa que eu tenho, não preciso nem de maquiagem.
Quando a gente resolveu, realmente, ser ator, meu pai se reuniu uma vez comigo e com o Paulinho e apontou também muitas dificuldades, então ele falou assim que é uma profissão onde a concorrência nem sempre é leal, aonde você realmente vai ter momentos em que você vai passar fome SIM, que você vai ter que brigar, que você vai ter que lutar muito, e ele falou "agora, se depois de tudo isso que eu estou colocando vocês ainda persistirem na idéia de serem atores, vocês nasceram para serem atores". Então isso ele compreendia.
Uma coisa que sempre foi muito importante: por mais que a gente se falasse muito e conversasse muito sobre a profissão, sempre, tanto eu quanto o Paulo quanto o meu pai, era cada um na sua área, entendeu? Não tinha essa coisa de interferência, não. O que a gente achasse que era melhor pra gente, ele respeitava e era muito bacana.
Sobre a estréia
Eu freqüentei muito estúdio de televisão, muito bastidor de teatro, e tudo, mas eu comecei na escola fazendo teatro amador, com aula de teatro, mas não era uma coisa que eu falava assim, "ah, vou ser ator". Acabei sendo, acho que meio por acaso, porque veio uma diretora da França que se chamava Therese Thieriot, ela veio dirigir um espetáculo aqui em São Paulo chamado Sonata sem dó pra três executantes, do Marcilio Moraes, e tinha um ator que saiu do espetáculo antes do espetáculo estrear. E a Therese então me fez esse convite, falou assim "você não quer substituir ele, já que a gente não estreou?", eu falei assim "ah, vamos experimentar, vamos ver qual que é". Fiz esse espetáculo, acabei estreando exatamente no Teatro de Arena, onde meu pai estreou, minha estréia acabou sendo lá e foi emocionante, e com esse espetáculo eu ganhei meu primeiro prêmio de ator revelação da APCA, em 1977.
Tudo que eu faço na minha vida é com paixão. Eu só faço, realmente, aquilo que eu acredito. Primeiro que representar é minha vida, é minha vida. Eu acho que eu não seria nada e ninguém se não fosse a minha arte, se não fosse representar seja em que veículo for, seja no teatro, no cinema, na televisão, o meu ofício é esse, o meu ofício é representar, e representar, pra mim, só com paixão.
Sobre a cobrança do sobrenome
Já fui, já fui muito mais, e não só pela mídia mas também pelo público, era uma coisa muito engraçada. Porque quando eu estreei no Arena, e isso eu me lembro realmente como se fosse ontem, e olha que foi 77, eu estava chegando no teatro e ouvi duas senhoras conversando, e ouvi uma dizendo assim: "O pai é maravilhoso, vamos ver como se sai o filho". Isso foi uma coisa que eu ouvi muitas vezes, e era uma bobagem, porque você comparar o trabalho do meu pai com o meu, que estava apenas começando, não tinha sentido nenhum, como acho que ainda não tem hoje em dia, porque se eu chegar um dia no dedinho mindinho do meu pai eu já vou ser o maior ator do Brasil, porque realmente pra mim ele era extraordinário. Então essa cobrança existia bastante, no começo, sim, e pior do que essa, foi quando o meu irmão - porque nós estreamos praticamente juntos, eu e o Paulo, e existia também uma comparação muito grande entre a gente, entre eu e o Paulo, e uma competição que não existia entre a gente, parecia que as pessoas queriam estimular que a gente competisse, o que também era outra bobagem.
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| Paulo, Flávio e Guarnieri, 1980 (Blog Revista Amiga e Novelas) |
Mas isso há muitos anos atrás, coisa que nunca existiu, realmente coisa que nunca existiu, o Paulo é o meu grande incentivador, o meu irmão é a paixão da minha vida, mesmo, é um cara que nunca competiu comigo e que jamais vai competir, e eu jamais com ele, e isso era ridículo, mas eram coisas que aconteciam. (...) O Paulo é a minha referência, hoje, e é meu irmão mais novo. É minha referência, minha vida. Meu irmão é minha vida! Dou minha vida pela dele.
Sobre Os Adolescentes
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| Julia Lemmertz, Flávio e Tássia Camargo |
Os Adolescentes foi a primeira vez em que a televisão tratou de assuntos que eram considerados tabu, porque eram cinco adolescentes com vários problemas, então você tinha o menor infrator, você tinha a Julinha Lemmertz, foi a estréia dela, fazendo a Bia, que engravidava, você tinha a Majô, que era a Tássia Camargo, que se apaixonava pelo professor da faculdade, se apaixonava pelo homem mais velho, e eu que fazia o Caíto, que era um jovem homossexual. Então foi a primeira vez que a novela tratou de uma forma séria a questão do homossexualismo, sem esse caricato que as pessoas fazem hoje, não era uma "bichinha", era um homossexual. E foi a primeira vez que a televisão tratou isso de forma séria, a novela no início era da Ivany Ribeiro, que depois largou a novela porque a censura começou a cair de pau em cima e ela não tinha mais condições de escrever, porque eles realmente não deixavam ela colocar nada. Uma novela muito boa. Quem assumiu depois a autoria foi o Jorge Andrade.
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| Márcia de Windsor |
Eu tenho que contar uma porque era uma pessoa que eu amava muito, que era Márcia de Windsor, que fez a novela Ninho da Serpente comigo, fazia minha mãe, e eu só conto isso porque na verdade, quando você está fazendo uma novela, você mais convive com essas pessoas do que com a tua própria família. Então durante o tempo da novela, pô, Márcia era uma pessoa que eu almoçava junto, jantava junto, porque a gente trabalhava o dia inteiro junto, e faltavam três dias pra acabar as nossas gravações do Ninho da Serpente, eu indo pra Bandeirantes gravar, no táxi, e eu ouvi a notícia no rádio, de que a Márcia tinha falecido. Isso pra mim foi terrível inclusive porque as minhas últimas cenas seriam com ela, e aí eu tive que gravar sozinho, tipo, dizendo como se a gente tivesse mudado, já conseguido sair daquela casa, que era o ninho da serpente, tudo, e eu tinha que dizer várias vezes assim "não, o lugar que a mamãe está agora está muito melhor, é um lugar muito mais gostoso", e era difícil, era difícil dizer isso porque eu sabia que a Márcia estava num lugar muito melhor e muito gostoso, mas não estava mais perto da gente.
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| Flávio e Nice Marinelli |
O filme era Janete, um filme do Chico Botelho, que eu fazia um trapezista e o palhaço do circo, era um filme com a Nice Marinelli fazendo Janete, com a saudosa Lilian Lemmertz fazendo uma diretora do presídio feminino, que era fantástico o trabalho da Lilian, Luis Armando Queirós, Cláudio Mamberti, um elenco show de bola, show de bola. E eu passei um tempão da minha vida naquele circo, e era um circo assim... simples, realmente um circo simples, e tudo, mas foi muito gostoso, muito gostoso. Agora um frio, um frio de rachar, nesse circo. E foi neste filme que eu comecei com a desgraça da minha vida: foi aí que eu comecei a fumar. Com 21 anos de idade, olha que besteira! Por que a gente quando é velho comete burrice? Eu não entendo isso.
Você sabe que tinha nesse circo uma macaca chamada Emanuelle, se eu não me engano era o nome dessa macaca, e ela pra não atrapalhar as filmagens ela ficava dentro da jaulinha dela, lá. E uma coisa que era muito legal de fazer, é que como ela sabia dar laço em sapato, era muito bacana porque você desamarrava o sapato, colocava na jaulinha, botava na frente dela, pedia, e ela dava o lacinho. E eu fiz isso acho que umas dez vezes. Umas dez vezes. E aí o Chico me chamou pra filmar. Quando ele me chamou pra filmar eu virei e me estabaquei no chão. Mas me estabaquei legal! Ela ficou irritada que eu estava pedindo muito pra ela dar o laço, que ela desamarrou o meu outro pé e uniu os dois tênis. Ela começou a dar um montão de nó, pra justamente prender os meus dois tênis. No que eu virei eu tropecei e caí. E ela ria - depois fala que o macaco não pensa - mas ela ria, mas ela ria demais, e batia palma...
Sobre as leis de incentivo
Eu acho que são leis, primeiro, que ninguém entende, já começa por aí. Acho que são leis absolutamente complicadas, acho que essas leis deviam ser muito mais simples, e aquela coisa, eu acho que a gente tem que procurar ver, porque são sempre os mesmos, né? (risos)... uma coisa que acontece é que são sempre os mesmos, são sempre os mesmos, e, por exemplo, você tem projetos fantásticos às vezes que não são aprovados e você não sabe por quê, entendeu? Então eu acho que tinha que ter uma agilidade, principalmente na lei Rouanet, tinha que ter uma agilidade, porque às vezes você já tem o cara que está interessado em te dar o dinheiro, e você não tem a lei, então o cara não pode te apoiar porque você ainda não tem a tua lei aprovada, e tudo. Então acho que nesses casos, quando você já tem onde captar, você já tem como captar, deveria ter uma agilidade maior, de você só chegar com o projeto lá, eles já aprovarem teu projeto pra você poder captar. Agora, eu acho que tem que simplificar essas leis, eu acho que essas leis têm que ser um pouco mais simplificadas porque até as pessoas que trabalham com isso hoje não entendem, é que nem as leis brasileiras, né, você tem várias interpretações, tem vários buracos, acaba complicando tudo.
Apoios, tem vários. A gente chega no teatro, eu me apóio às vezes numa cadeira, às vezes eu me apóio numa coluna (risos), apoio a gente tem, onde se apoiar, vários. Agora, apoio financeiro, nothing, nothing, nothing. Nada. Você tem hoje leis que possibilitam o empresário a chegar e investir o seu dinheiro. Aí você tem, por exemplo - não tô desmerecendo ninguém, muito pelo contrário, gosto muito dela - mas você tem por exemplo, Cláudia Leite, que consegue aprovar o seu projeto na lei Rouanet, por seis milhões de reais. Entendeu? E obviamente que a Cláudia Leite tem muito mais cacife de conseguir captar esses seis milhões de reais, do que eu, por exemplo. Por quê? Porque ela tem uma visibilidade, no show dela, de trinta, quarenta mil pessoas por dia, então o cara que vai patrocinar, ele vai patrocinar o show da Cláudia Leite, porque ele vai ter a marca dele visível por trinta mil pessoas, coisa que eu não faço em um ano de teatro. Então eu acho que se não existir uma divisão realmente muito clara na própria lei Rouanet, "patrocínio pra show é uma coisa, patrocínio pra teatro é outra"... porque são veículos totalmente diferentes, gente, não dá pra colocar tudo no mesmo saco.
Também tem que se ver o seguinte: "é patrocínio da empresa tal". Na verdade é patrocínio do governo, se você for pensar; o patrocínio é do governo. Porque a empresa tal está te dando aquele dinheiro mas está descontando aquele dinheiro do seu imposto de renda, então a empresa não está te dando nada, e ainda por cima está veiculando a marca dela. Então a empresa está ganhando do governo, e está ganhando de você. Entendeu? E aí, fica parecendo, quando você chega numa empresa, que você está lá com o pires na mão, e falando assim "ai, por favor", tal. Não, querido. O interesse é mais deles do que meu.
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| Flávio e Othon Bastos em "Mortos sem Sepultura" |
Agora, o que eu gostaria de verdade, é que o teatro no Brasil fosse respeitado a tal ponto que a gente não precisasse de leis; que a gente pudesse viver, realmente, da bilheteria, que a gente pudesse viver do nosso trabalho, como a gente vivia alguns anos atrás. Porque a gente não ia atrás de patrocínio pra tudo, não. A gente tinha alguns apoiadores e só. E você conseguia pagar o teatro, você conseguia pagar o teu elenco, com bilheteria. O espetáculo era de terça a domingo, fiz várias vezes, duas sessões no sábado e duas no domingo, e o teatro lotado. Eu fiz um espetáculo chamado Mortos sem sepultura, do Jean Paul Sartre, no Maria Della Costa, que era abarrotado de terça a domingo, com sessão no sábado às oito e dez e meia da noite, e no domingo às seis e às nove, e ainda fazia um infantil, com uma sessão no sábado e duas sessões do infantil no domingo, também, fazia quatro sessões no domingo.
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| Flávio como o "Gato de Botas", direção de Paolino Raffanti, 2013 |
Eu adoro trabalhar com criança porque eu sou alucinado por criança, né? É o público mais sincero que você tem, porque criança quando não gosta, não gosta. E quando gosta, gosta mesmo. E vem e tira foto, e dá beijo, e te abraça, é muito legal, é muito gostoso. Enquanto ator de teatro, eu encaro da mesma forma que o teatro adulto. Eu acho que o profissionalismo é o mesmo, a seriedade é a mesma e eu acho até que às vezes você trabalhar pra crianças é uma responsabilidade muito maior. Eu acho que muitas vezes, aqui no Brasil, o teatro infantil foi tratado como uma arte menor. Entendeu? Então se montava qualquer coisa, se monta qualquer cenário, ah, não, "pecinha". Primeiro que falou "pecinha" eu já fico pau da vida, entendeu? Não é "pecinha", não, que "pecinha"? E você fazer teatro infantil é uma responsabilidade muito grande porque você está formando inclusive o público do teatro adulto de amanhã. Você está incutindo o gosto na criança, pelo teatro. (...) Então você tem que ter produções de qualidade, sim, pra que essa pessoa tenha gosto, e fale assim "nossa, teatro é isso? Eu vou sempre ao teatro". Agora, se ela entra e vê uma produção de nada, entendeu, uma coisa ruim, que não encante, ela vai chegar e falar "teatro é isso? Nunca mais vou ao teatro!"
E criança é sincera pra caramba. Eu vi um espetáculo uma vez, que eu não lembro qual que era, não vou lembrar agora, mas tinha uma fadinha que ela falava assim pra criança, (faz voz fina, de boneca) "nhe nhe nhe, e eu tô indo lá na casinha", não sei quê, o molequinho virou e falou assim, "ô mãe, ela tá pensando que eu sou o quê, débil mental?" (risos), entendeu? Por que que você tem que falar com criança desta forma, esse tatibitati, não tem necessidade, entendeu? Criança ouve, criança é inteligente, criança é esperta, entendeu, você não precisa falar assim.
Sobre Cultura
Eu vou dizer que existe a boa vontade, eu seria leviano se falasse que não existe uma boa vontade em relação a essas coisas. O meu pai foi secretário municipal de Cultura há muito tempo, e é complicado, é uma coisa complicada, eu acho, inclusive, que foi a época em que o meu pai foi mais infeliz porque não é às vezes da vontade de quem está no cargo, o problema é o que rodeia, é a máquina, é a corja, são aqueles que não querem que o negócio vá pra frente, entendeu, os perpetuados do poder, esses são perigosos, esses são perigosos, são aqueles que não vão sair nunca do cargo. Então a boa vontade existe, os atores têm ido à Brasília, têm conversado, eu acho que estão procurando movimentar mais esse tipo de coisa. Eu acho que enquanto realmente não houver uma compreensão, mesmo, e uma união entre os poderes e quem exerce a arte no Brasil, a coisa vai ficar meio parada.
Outra coisa: a gente fala muito em cultura. Fala que o brasileiro é um povo que não tem cultura. O problema do brasileiro é que ele tem FOME, o problema do brasileiro é que ele não tem SAÚDE. Esse é o problema do brasileiro, de maneira geral. O problema do brasileiro é que ele trabalha dez, doze horas por dia, e ganha um salário que é uma miséria. Você quer que este povo tenha cultura? Como? Não há um incentivo, realmente, não há uma coisa de estimular as pessoas.
Agora, em contra-partida, isso eu também falo, e aí eu acho que seja um pouco de falta de cultura, mesmo, que é o seguinte: os cinemas estão lotados. Com ingressos muito mais caros do que os de teatro. Porque o povo fala assim: "O teatro é caro". Querido, tem cinema aí cobrando pra você assistir um filme 3D, 60 reais! Entendeu? O ingresso, por exemplo, do nosso infantil, é metade disso, sendo que a meia é um quarto disso, e aí fala que teatro é caro? Eu também não entendo. Então eu falo, os cinemas estão lotados. É falta do hábito, mesmo. É falta de hábito de ir ao teatro. Agora esses, que você fala, que pegam ônibus, não sei o quê, e tudo, é perfeitamente compreensível. Ele não tem dinheiro pra comer! Esse não vai nem no cinema. Esse vê, lá, mal e mal uma televisãosinha que ele tem ali, porque todo mundo tem televisão, e mal servido pra caramba, porque a televisão, também, hoje em dia, pelo amor de Deus...
Sobre a carreira
Ter corpão pode fazer sucesso, eu quero ver é manter. Porque o corpão um dia acaba, não é assim. Eu quero ver manter. Abrir portas é muito fácil. Manter as portas abertas é complicado. Aí, meu amor, vai ser com talento, e com talento MESMO. Eu sou de uma época em que a classe teatral, a chamada classe teatral realmente eram os grandes nomes de teatro, né, Sérgio Britto, Lima Duarte, meu pai, Laura Cardoso, é só fera. É só fera! Hoje em dia eu nem discuto essa história de BBB, nem discuto, porque pra mim atriz é uma coisa, celebridade é outra, celebridade instantânea. (...) Então eu nem discuto essa bobagem. O grande erro é: os atores hoje entram em escolas de teatro achando que eles vão sair dessa escola e vão estrelar a próxima novela da Rede Globo, no horário das oito. Isso é uma mentira. Isto não é assim, isso não é assim. Então qual é o conselho que eu dou pra quem está começando? Estude. Mas estude, leia teatro, procure um curso de teatro sério, sério, nós temos vários aqui. O Teatro Escola Célia Helena, por exemplo, é um que eu aposto, porque é que nem uma faculdade, é realmente uma escola onde você aprende tudo, então procure uma boa escola de teatro, ou faça faculdade, faça EAD, agora, leia, leia muito texto de teatro, e comece com humildade. Porque você tem que decidir: ou você quer ser ator e atriz, ou você quer ser conhecido e dar autógrafo; são coisas absolutamente diferentes, então se prepare para ser ator, atriz.
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| Bibi Ferreira e Flávio, 2014 |
Sobre casamento
Eu fui casado dez anos, foi o meu único casamento, eu casei até muito tarde, porque realmente eu queria ter muita certeza de que era a mulher com quem eu queria me casar, mesmo. Infelizmente não deu certo, né, quando a gente casa é pra vida toda, e às vezes não dá certo... aliás, "não dá certo", não, deu certo, durante dez anos, eu fui extremamente feliz e tenho certeza de que fiz a ela muito feliz também. (...) Um relacionamento, pra mim, pra dar certo, tem três palavrinhas que são fundamentais: cumplicidade, verdade, confiança. Se você não tiver essas três, você não consegue ter amor. Porque o amor, pra mim, vem de uma base da amizade, mesmo. Você tem que ser amigo, antes de mais nada. Tanto é que hoje nós estamos separados e eu não deixei de ser amigo da minha ex-mulher. Nunca. Eu jamais vou virar inimigo da mulher que me fez mais feliz neste mundo.
Sobre o pai
Tem coisas engraçadas, né, porque do que eu me lembro, realmente, quando era pequeno, era muito mais aquela coisa de escola. As pessoas, quando sabiam que eu era filho do Guarnieri, nossa, as pessoas falavam maravilhas, maravilhas do meu pai, "nossa, que homem fantástico!", e não sei o quê, e pra mim, eu entrei, realmente, eu acho que num processo meio de endeusamento, mesmo, sabe, era a coisa do mito, né, era a coisa do ídolo, então era complicado porque o ídolo não tem defeitos, né? O ídolo não tem defeito nenhum então o meu pai, pra mim, não tinha defeito nenhum, era Deus no céu, meu pai na Terra e ponto final. E aí, conforme os anos vão passando você vai percebendo que reconhecer defeitos não é deixar de amar, muito pelo contrário, é amar muito mais, é amar respeitando muito mais, reconhecendo defeitos e qualidades.
É a pessoa talvez que tenha me apresentado esse mundo de magia, de coisas fantásticas, essa profissão que eu amo tanto. (...) O maior orgulho do mundo, de ser filho de Gianfrancesco Guarnieri. Não só como dramaturgo, não só como grande ator que foi, como grande diretor, grande produtor, mas sobretudo como grande homem, como pai, como amigo, pela postura política, pela sua determinação, pelo brasileiro de verdade que era, porque ele era italiano mas vivia no Brasil e sempre lutou pelo povo brasileiro, então é o maior orgulho ser o filho deste homem, que sempre lutou com o coração. Faz muita falta, muita falta. (...) O que extraí dele? O caráter. Eu acho que o caráter. O caráter, realmente... a humildade, a seriedade e a dedicação. Eu acho que eu extraí muito mais coisas do homem Guarnieri do que o ator Guarnieri.
Sobre a mãe
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| Paulo, Cecilia e Flávio, 2015 |
Minha mãe é jornalista até hoje, só de Estadão foram mais de 36 anos, foi da Política Internacional, Política Nacional, foi editora daquela coluna São Paulo Reclama, ela praticamente criou aquela coluna. (...) Minha mãe sempre foi uma super mãe, uma pessoa das mais generosas que eu conheço, de uma generosidade extrema, mesmo, é uma pessoa que tem três, te dá dois, fica com um, minha mãe é bárbara, é minha grande amiga, minha grande companheira. (...) Te amo, mãe, não dá pra dizer mais nada além disso. Te amo, te amo. É o mínimo que posso te dizer, mas acho que resume tudo. Te amo.
Sobre ambos
É uma mistura dos dois, porque acho que os dois me deram a mesma base. Primeiro é uma coisa que eu aprendi: não minta. A mentira é imperdoável. Eles sempre falaram isso: se você fez tal coisa e eu perguntar, "foi você?", diga que foi, porque o castigo vai ser menor. Porque se eu descobrir que além de tudo foi você, e você mentiu, vai ser pior. E os dois me deixaram esse espírito de luta, essa crença no ser humano, essa coisa de sempre acreditar que o mundo pode ser melhor, sempre acreditar no melhor, e humildade. Meu pai era uma das pessoas mais humildes que eu já conheci na minha vida. Então humildade, verdade, sinceridade, transparência foram as maiores lições. Se tivesse os dois aqui na minha frente - e na frente da minha mãe eu posso ainda estar, graças a Deus, eu tenho a minha mãe aí - eu não teria nada pra dizer além de "eu amo vocês". Nada. Eu acho que é tudo, obrigado, obrigado, obrigado, eu amo vocês, eu te amo, meu pai, onde você estiver, eu te amo, minha mãe.
Sobre Eu te amo meu Brasil
O Eu te amo meu Brasil conta a história do Brasil do ponto de vista de um narrador que lembra dele quando criança. Então desde a fundação de Brasília até o movimento Vem Pra Rua, nos dias de hoje, passando ali por Jango, Jânio, Bossa Nova, e é uma História do Brasil que as pessoas normalmente não conhecem, né? (...) E eu faço esse narrador e faço também o garoto. (...) Eu sou o Tuco, numa comédia musical do Atilio Bari, texto e direção dele, com um elenco maravilhoso, com a Sabrina Lavelle, Maira Cardoso, Lúcio Dicetaro e o Wagner Vaz, muito gostoso fazer, estou amando fazer esse Tuco, é um espetáculo que faz um relato dos 50 últimos anos do Brasil, de uma forma gostosa, lúdica, claro, tem os momentos barra pesada que o Brasil passou, que foi a época da ditadura, e tudo mais, mas tudo de uma forma bem legal, divertida e emocionante, é um espetáculo feito para você rir, chorar, se emocionar, cantar junto, eu acho que é um espetáculo muito gostoso.
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Eu sei que pra mim jamais vai existir um sonho impossível. Pra mim, tudo que é sonho, é possível. E eu, como um ser apaixonado que eu sou, eu sou um ser movido a paixão, e sempre fui movido a paixão, continuo acreditando no amor, continuo acreditando no próximo, continuo acreditando no mundo, no meu país, e continuo dizendo: sonhar é bom, sonhar é possível. Impossible dream? Never.
Flávio Guarnieri (1959/2016)
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Fontes:
UPTV- Programa ABC Talentos com Liliana Gonçalves (17/08/15)
https://www.youtube.com/watch?v=IzNrOxmyebU
ENCONTRO KAZUAL FLAVIO GUARNIERI - (Abril 2013)
https://www.youtube.com/watch?v=-jpk8hCxEAc
Bate-Papo com Cristina Pinho - JustTV - 18/03/13
https://www.youtube.com/watch?v=ezMG39VrN5w
Flavio Guarnieri - Programa Objetos e Memórias
https://www.youtube.com/watch?v=Zmx02hrw5vQ
Todo Seu - Visão Especial - Dan Rosseto e Flávio Guarnieri - 05/08/2014
https://www.youtube.com/watch?v=iJrkgTGo6PQ
Fotos: Arquivo Flávio Guarnieri, Cecilia Thompson e Bernardo Schmidt
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Paulo Guarnieri
sábado, 9 de abril de 2016
Flávio Guarnieri e Black-Tie, Inédito
| Flávio, em ensaio de "Black-Tie", (6/5/2011) |
tive o prazer de acompanhar boa parte dos ensaios e do processo de montagem de "Eles não usam Black-Tie", que Flávio Guarnieri encenou com direção de Dan Rosseto, em maio e junho de 2011, no MUBE, em São Paulo. Depois de um video que preparei em questão de horas sobre uma leitura da peça no Teatro de Arena, em celebração ao centenário de Lélia Abramo, e que teve entre elenco e produção a mais positiva das reações, combinei com Flávio que filmaria tudo que pudesse e mais tarde prepararia um documentário sobre a montagem. Colhi depoimentos de quase todos os participantes. Faltaram alguns que deixei para um segundo momento. Infelizmente, obstáculos de todos os tipos impediram que eu levasse adiante o projeto. Minha saúde (para se ter uma idéia, assisti a estréia e me internei para uma operação no dia seguinte), o casamento dele, sua própria saúde, nossos pepinos profissionais, viagens e tudo que se possa imaginar.
Ao longo dos anos sempre comentamos a necessidade de retomar o documentário. Era iniciativa que nos empolgava e nos divertia, mas sempre havia contratempos. Deixávamos para depois. O destino veio e nos deu uma lição dolorosa. Com a morte inesperada e prematura desse meu irmão, o projeto não deixa de existir, mas muda sensivelmente, já que eu pretendia pegar diversos outros depoimentos dele.
Com o material que tenho, pequeno mas precioso, e o qual não examinava há cinco anos, montei - de ontem para hoje, ainda premido pela tristeza e pelo choque - um pequeno promo do que poderá vir a ser o documentário sobre a montagem de Flávio e Dan Rosseto.
Participam: Flávio Guarnieri, Sônia Loureiro, Flávio Dias D'Oliveira, Lia Antunes, Leila Bass, Osvâneo Ferreira, André Luis da Silva e cenas de Greta Antoine, Paulo Gabriel e Rodrigo Duarte.
No momento, porém, ele é mais uma homenagem ao Flávio, cuja amizade, dedicação, esforço, tenacidade e carinho pela vida tanto nos farão falta.
ASSISTAM.
Bernardo
quarta-feira, 30 de março de 2016
Bibi Ferreira e sua recusa no Sion
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| Correio da Manhã, 27/2/1929 |
Eis o que aconteceu: Em meados de fevereiro de 1929, Procópio procurou o Sion — colégio de freiras francesas fundado no início do século passado — para que Bibi, com seis anos, iniciasse o primário. A primeira conversa foi entre Aída e uma freira do colégio; falaram sobre o uniforme e outros detalhes além de um pagamento inicial pela matrícula. Antes que um novo encontro pudesse ser marcado, a escola mandou avisar por telefone que uma carta chegaria pelo correio. Antecipando-se à carta, Procópio foi à escola e recebeu a notícia de que a matrícula de Bibi fora indeferida pela madre superiora — uma tal de Marie Gaetan, que mal chegara ao Brasil — por ela ser "filha de artistas teatrais".
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| A Noite. 26/2/1929 |
As famílias que têm suas filhas no colégio das Irmãs de Sion — que não podem sofrer o contágio de minha filha, cheia de inocência e de pureza — freqüentam o meu teatro, aplaudem o pai de Bibi! Não era natural, pois, se revoltarem contra a convivência de suas filhas com minha garotinha que não está em idade de ensinar maus costumes, e não os têm.
Mais sério, cuidou de traçar uma linha entre seu teatro e aquele a que denominou de "brejeiro", provavelmente o que continha nudez e apologia à boêmia:
Eu professo uma arte honesta e tenho feito nas peças que represento a propaganda dos sãos princípios sociais. Não divulgo o chamado "teatro brejeiro". Não aceito, por isso, a equiparação do artista honesto ao lázaro moral, cuja sânie progride mais do que a material. Em nome de um programa que constitui uma ofensa, foi fechada a porta de um estabelecimento orientado por servas do Senhor à minha filha, que é dócil e boa. Não hei de, por causa deste incidente, atirar Bibi à ignorância. É bem possível que para não ver reproduzido o indeferimento, seja forçado a mandar Bibi educar-se no estrangeiro. (Correio da Manhã, 27/2/1929)
No dia 23 Procópio foi à sede do jornal A Manhã, fundado quatro anos antes por seu amigo Mário Rodrigues. Mário, porém, deixara o jornal no ano anterior para fundar A Crítica e quem estava ocupando o cargo de redator-chefe naquele momento era o anarquista e socialista Agripino Nazareth. Procópio contou-lhe a história toda. Saiu de lá e foi para a redação de A Crítica. As reações não se fizeram esperar e foram muitas, e das mais variadas origens. A "Casa dos Artistas" foi uma das primeiras a verberar sua revolta:
Irmãs de Sion, originárias da gloriosa França - a terra liberal por excelência, capital da Inteligência e irradiadora da Arte — procedestes menos como filhas de Cristo, do que como remanescentes de uma burguesia enfatuada, inculta, prenhe de preconceitos irritantes, intoleráveis no Brasil, que vos agasalha. (...) A Casa dos Artistas (...) não vê com bons olhos o vosso ato, contrário a todos os princípios cristãos, contrários ainda aos princípios constitucionais do nosso país, que não admitem classes, nem privilégios tão irritantes, provindos de quem, por todos os motivos, deveria dispensar melhor atenção aos que lhe dispensam deferências especiais. (...) Depois da sempiterna cena do Morro das Oliveiras, é de esperar tudo mais entre os homens... e reanimar um velho preconceito por trinta dinheiros e sem figueira é humano, demasiadamente humano... (A Manhã, 24/2/1929)
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| Agripino Nazareth Foto: "Anarquistas e comunistas no Brasil", de John Foster Dulles |
Ele bateu às portas do Sion, com a pequenina pela mão; bateu e disseram-lhe que ali não havia lugar para a filha de um comediante. E naquela repulsa como que se fazia ressurgir, depois de séculos e séculos de evolução da própria igreja, o horror beato pelos saltimbancos, pelos histriões, pelos cômicos, por todos quantos refletem no teatro, a beleza e a infâmia da vida de cá de fora. O horror antigo ou a hipocrisia de todos os tempos. Porque as meninas do Sion, como hoje fazem as suas mamães, poderão mais tarde admirar Procópio, aplaudir Procópio. Mas não poderão ter ao seu lado, no mesmo colégio, companheira de estudo e de brinquedos infantis, a filha do ator que as fará rir, mais tarde sem as maldições da igreja. (...) A culpa é de Procópio, que antes de Sion, deveria ter batido às portas do Vaticano, para pleitear um título de conde, O conde Procópio... Depois disso ele poderia ser ator, poderia ser até açambarcador de gêneros de primeira necessidade, e, portanto, concorrer para que as criancinhas sofressem fome, que o Colégio Sion lhe abriria as portas. Lá não estão muitos netos de ferozes negreiros e outros tantos filhos dos que enriqueceram sobre a sangueira da Grande Guerra?... (A Manhã, 26/2/1929)
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| A Crítica, 24/2/1929 |
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| A Manhã, 27/2/1929 |
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| Armando Gonzaga Foto: www.armandogonzaga.com.br |
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| A Manhã, 8/3/1929 |
Temeu V. Maternidade, ou temeu que temessem os pais das vossas educandas, que essa bela criança de seis anos apenas, pudesse trazer no sangue o vírus mau do teatro, ou escondido nas pequenas dobras do seu corpinho gentil, o miasma infeccioso dos bastidores, esses antros onde julga V. Maternidade que Satanaz impera em contínuas bacanais. Como sois ingênua, minha irmã! Sois mesmo mais que ingênua, sois ridícula! (...) Bibi, minha irmã, é uma criança pura e inocente e boa. Tão inocente e pura que até o diabo respeita, mas que V. Maternidade não soube respeitar, lançando sobre ela na vossa freirática ignorância um anátema doloroso, que mais tarde, com a maturidade do seu intelecto, a fará sofrer e revoltar-se. E dizer que o Cristo sofreu tanto para criar uma religião de bondade e de doçura, para que essa mesma religião pouco a pouco vá perdendo terreno, pelas leviandades e ignorância dos seus sectários!
Nisso Carlos se equivocou. Bibi não apenas não se revoltou com o fato, como o viu, ao longo dos anos, com bom humor e a indiferença que uma proibição tão imbecil mereceu. Mas logo em seguida o ator fez comentários lapidares, falando verdades que todos conheciam e poucos externavam, em relação ao ensino do Sion. Disse que teria recomendado a Procópio o colégio de seus próprios filhos, "onde se lhes ministra uma eficiente instrução, sem o alarde do vosso, de onde saem ignorância dourada, bonecas de luxo com pouca instrução mas imbuídas de muitos hábitos de luxo e de riqueza, que se tornam contraproducentes e desastrosos na vida real, porque nem sempre essas moças encontram rapazes ricos para casar". (A Manhã, 28/2/1929)
Foi eloqüente o protesto do poeta Castello Branco de Almeida, e tocou em cheio num aspecto dessa polêmica que, como se viu, vinha revoltando a muitos: o viés financeiro, comercial na atitude da freira, rejeitando a matrícula de Bibi por medo de melindrar pais metidos a beatos e santarrões:
Pesa sobre a alma da superiora do Colégio Sion o crime sem igual de haver envenenado um coração de criança e ferido um homem no que ele tem de mais nobre, de mais puro e de mais santo: o amor de pai! (...) Religião e negócio ao mesmo tempo: é o que é! Cristo, um dia, expulsou os vendilhões do templo; (...) postas as coisas no pé em que estão, que aconteceria hoje, se Ele voltasse? O seu primeiro ato, estou certo, seria expulsar os novos vendilhões, aqueles mesmos a quem confiou a Casa de seu Pai! Mas não há de voltar! Podeis mercadejar à vontade! Como toda mercadoria se adultera, podeis adulterar à vontade a palavra de Cristo, que é toda a vossa mercadoria! Vós, freiras de Sion, vendeis ENSINO RELIGIOSO: a vossa parte na rendosa mercancia. Explorai, pois, o vosso comércio! (A Manhã, 1/3/1929)
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| A Manhã, 3/3/1929 |
A "Mesa Executiva da Classe dos Atores Brasileiros", que, suponho, seja a pré-história do Sindicato dos Atores, vociferou seu protesto pela imprensa, enviando memorandos à Liga de Defesa Nacional, à Sociedade dos Homens de Cor e ao Centro Acadêmico Nacionalista. À Liga, o protesto ultrapassa a moralidade e entra na inconstitucionalidade na atitude das freiras, que sequer eram brasileiras:
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| A Manhã, 1/3/1929 |
À Sociedade dos Homens de Cor o comentário é sentimental e procura desagravar os negros, tão horrível e publicamente segregados pelas freiras:
O gesto nascido por parte de uma suposta filha de Cristo que, recusando uma criança, procurou generalizar esse mesmo gesto, ofendendo toda uma classe e humilhando, da mesma forma, os seres, quando estes sejam produtos de raças diferentes, é por demais aviltante e de primitiva intransigência. De há muito, o próprio Homem, crescendo em cultura e procurando a harmonia das espécies, baniu da terra, em virtude de conquistas fadigosas à procura da democratização dos povos, o antipático e desumano preconceito da cor. (...) Aqui impera a expressão coletiva da gênese racial, no afã criador de fazermos da nossa gente e das nossas coisas, a radiosa realidade de um país acima de quaisquer pruridos aristocráticos, como aqueles em tão má hora emitidos pelo falso catecismo de uma representante religiosa. (...) É uma ofensa direta e mesquinha ao produto humano de duas raças. (A Manhã, 3/3/1929)
Desnecessário dizer que Mário Rodrigues — jornalista agressivo, de têmpera violenta — ficou histérico com a injustiça absurda perpetrada pelo Sion. No dia 28 de fevereiro já estampou na primeira página de seu jornal a manchete: "Em Paris, um piedoso padre acolhe, ampara e educa as meninas dos Music-Halls, esse sim, é que está mais perto d'Aquele que disse 'Vinde a Mim os pequeninos', e não madre Marie Gaetan, a desencantada da beleza da vida, a cortesã da fortuna, da fidalguia e do burguesismo!"
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| A Crítica, 2/3/1929 |
Recusando o ingresso da filhinha de Procópio Ferreira no colégio que dirige, sob o pretexto alegado, não teria a estrangeira malquista atentado contra as nossas leis? Ela feriu uma classe laboriosa, fulminando-a através de um desprezo mesquinho. (...) Não se compreende, pois, que um instituto de gente estranha se desmande ao ponto de inscrever nos seus estatutos a tremenda escusa miserável, cuja vilta recai, primeiro, sobre a nossa legislação, acoimada de impudica e indigna de respeito. Que lástima!... Há aqui um pomposo Conselho Superior do Ensino, a que se devem achar subordinados tais estabelecimentos. Perguntamos-lhe se não atenta no achincalhe subversivo de madame Gaetan. Desta madre curtida de fel (...).
Em seguida, o racismo, que lhe traz à memória a figura da "Mãe Preta", amas de leite de nove entre dez brancos, à época:
O Sion não recebe também as "brunes". Adstrito a preconceitos irredutíveis, o mercantilismo das cortesãs da aristocracia, idólatras do sangue azul, não admite a caldeação de raças. Cabelos louros, olhos verdes, pele de roseclér... É uma injúria silvante ao nosso povo, que, sem a miséria dourada das árvores genealógicas de sociedades decadentes, gafadas de depravações seculares, se forma dessa forte mistura, na qual se fundiu o tipo do meio aborígene. Ó figura excelsa, legendária, sublime de abnegação, de Mãe Preta!, dizei às inimigas do sacrifício que nasceste, afortunadamente, para a fecundidade e para o desprendimento; que nunca rejeitaste o peito farto de leite e doçura a um pequenino, filho de ator ou filho de fidalgo. (...) Mãe Preta, os teus filhos, ou os filhos dos teus filhos, não entram no Colégio Sion... Parabéns! Assim, eles não perderão, ali, o sentimento da Pátria, ultrajada por hóspedes sem cautela; nem perderão a oportunidade de aprender contigo o que tantos aprendemos: o amor da humanidade. (...) Mãe Preta, inculta e agreste, quanto és melhor que essa madame Gaetan, a priora das desigualdades sociais! (A Crítica, 2/3/1929)
Até Getúlio Vargas — ainda presidente do Rio Grande do Sul e testando as águas para ver se aceitava o convite do velho Antônio Carlos, para se candidatar à presidência — entrou na jogada, respondendo ao telegrama que Procópio lhe enviara contando o ocorrido. Disse o futuro ditador (e autor, diga-se, a bem da verdade, de uma lei, quando deputado, que iniciava o processo de regulamentação da profissão do ator), cheio de solidariedade: "Lamento ocorrência a que vos referis em vosso telegrama e reafirmo, com prazer, a consideração que sempre me inspirou a classe teatral. Cordiais saudações, (a) Getúlio Vargas". (A Crítica, 5/3/1929)
Mário Rodrigues chegou a sugerir a Procópio um expediente utilizado em situações extremas, ou seja, a publicação em seu jornal de fotos das amantes de alguns dos pais com filhas no Sion. O ator, inteiramente alheio ao terrorismo contido na atividade diária de jornalistas abrasivos como Mário, agradeceu mas declinou a proposta. O pai de Nelson Rodrigues entendeu mas não largou o osso. Durante algumas semanas ele aporrinhou a bolorenta madame Gaetan, descobrindo podres da freira que incluíam desde propriedades degradadas até multas que não haviam sido pagas.
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| Aporrinhando madame Gaetan: Mário Rodrigues publica notícias e desmandos do Sion todos os dias para vingar a afronta à Bibi e ao amigo Procópio |
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| Anna César Vieira |
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| A Manhã, 24/2/1929 |
A NOTA TEATRAL
Abigail Ferreira, Bibi, como a chamam, quantos a conhecem, é uma encantadora criancinha de seis ou sete anos e cheia de inteligência.
É inocente como todas as meninas de sua idade.
Bibi alia aos seus encantos, à sua ingenuidade e à sua inteligência, uma verdadeira alma de artista. Bibi dança com a graça dos artistas profissionais; baila músicas clássicas, lembrando as estrelas da arte coreográfica; em bailados de fantasia, dá a impressão, quando se exibe em cena, de uma pluma agitada pela brisa. Mas não é só. A pequenina Bibi declama, como se fosse gente grande, mas gente grande animada pelo fogo sagrado da arte, versos dos nossos maiores poetas. Bibi também representa, às vezes, em comédias do Trianon, papéis de crianças.
Bibi, com todas essas qualidades, é o grande orgulho de seu pai, o ator Procópio Ferreira. E não deve ser pecado, perante o catolicismo, terem orgulho os pais de meninas como Bibi.
As crianças privilegiadas como Bibi devem ser eleitas de Deus. São anjos que baixaram à terra. E serão vultos notáveis entre os homens, espíritos criadores, gênios, se Deus continuar a protegê-las.
Eleita de Deus, que tanto a beneficiou, Bibi não o é das irmãs de Sion!
Essas religiosas, revelando uma crueldade sem nome, em contradição com o verdadeiro espírito católico não aceitaram como aluna no colégio que dirigem a inocente Bibi.
Por quê?
Bibi é filha de um ator. E para as santas irmãs de Sion as filhas dos atores, mesmo eleitas de deus, são encarnação de demônios.
Deveriam ser queimadas vivas.
Que pena no século XX não haver a Santa Inquisição.
M. D.
Não foi o único. Em seguida saiu em defesa de Bibi o maior crítico teatral e cinematográfico da primeira metade do século XX, Mário Nunes, que também escreveu sua carta à Bibi na revista Frou Frou, da qual era diretor. E o fez com a elegância e com a inteligência que o caracterizavam:
| Frou Frou, mar/29 |
Teus sete anos, Bibi, são a tua maior ventura, pelo que há neles de inocência e de ignorância de quanto de mal existe neste mundo, mas como pode muito bem ser que tivesses ficado triste com o gesto infeliz e antipático da Madre Priora do Colégio de Sion, que não te quer entre as alunas do pio estabelecimento de educação e ensino, apresso-me em te escrever este bilhetinho.
Tua mãezinha, Bibi, já te terá falado da passagem, pela Terra, de um homem muito bom, chamado Jesus, que tais coisas disse e tais coisas fez que foi tido por Filho de Deus. Fundou uma religião nova, apoiada na ternura e no perdão. Amava as crianças e se alguém as afastava, por julgá-las importunas, protestava, dizendo: deixai vir a mim os pequeninos... Era misericordioso para com os pecadores. Protegeu, certa vez, na praça pública, uma pobre mulher que ia ser apedrejada, conforme o costume daquele tempo, porque se comportava mal.
Abria os braços aos que necessitavam do seu amparo, e estes não eram nem os bons, nem os justos...
A Madre Priora do Colégio de Sion não te quer entre as suas educandas porque és a filhinha querida de um ator. No entanto, a gente de teatro é uma invenção da igreja que, há quinhentos anos, fazia representar "mistérios", vidas de santos.
A Madre Priora sabe diso e afasta de si até as criaturinhas inocentes, como tu, Bibi, por ser teu pai aor, e fá-lo e nome de Jesus e da Igreja!
Não te lamentes, Bibi, porque a única que deve ser lamentada é essa Madre Priora.
Com todo o seu ar de santidade, envolta no seu hábito a desfiar as contas do rosário, é uma herética, porquanto, ainda que ser ator fosse um negro crime, não seria esse o procedimento de Jesus. E pretender que Ele fizesse pagar o crime dos pais, é o mesmo que blasfemar...
Tem pena, Bibi, dessa pobre pecadora, e, à noite, de joelhos na tua caminha, reza, reza com fervor a Jesus, o doce amigo das criancinhas, pedindo que não desampare a Madre Priora do Colégio Sion, perdoando-lhe sua cegueira e seus eros...
E beija-te a mãozinha o
MÁRIO NUNES
Quando a polêmica já estava no fim, surgiu o artista plástico mineiro e amigo de Procópio, José Maria dos Reis Júnior, transbordando indignação. Num artigo intitulado "Carta aberta à filha do ator Procópio Ferreira" (que não transcrevo na íntegra pelo tamanho, mas está publicada, abaixo) ele faz longa e inteligente análise de toda situação e seus desdobramentos:
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| A Crítica, 19/3/1929 |
Respeito às prédicas do Rabi? Em toda parte, menos ali — que o fato da tua recusa bem o demonstra. Aquele, jamais, em circunstância alguma distinguiu categorias sociais, pois pregava a igualdade humana, de uma maneira tão nobre, tão alevantada que até o diviniza aos olhos dos leigos, que somente por essa forma lhe compreendem a ação. Para Ele o homem é sempre o mesmo —
recamado de ouro ou revestido de pústulas — se a sua consciência for limpa, se o seu espírito for claro. E se, porventura, particularizava simpatias, seriam sempre para os miseráveis, para os desprotegidos das venturas terrestres.
(...) Nada mais revoltante que uma casa de ensino, dizendo-se cristã, reverenciar, com um desplante cínico, os melindres fictícios da sociedade — negando-se a receber, para amoldar seu caráter e iluminar sua inteligência, uma criança como tu o és, pela simples alegação de que és filha de artista! (...) Que juízo se poderá formar de uma preceptora que recusa ministrar ensino e conselhos, que, na sua acanhada compreensão, são os únicos capazes de bem formar as consciências, a uma inocente que a ela se recorre e cuja vida, segundo ela mesmo, está na iminência de ser transviada? (...) Em todo o caso, Bibi, por isso ou por aquilo, só tens a agradecer-lhe esse gesto que te evitou contrair costumes tão hipócritas e contra os quais toda a intelectualidade se bate. (...) Assim sendo, criaturinha amiga, só tenho a felicitar-te por não teres sido aceita no Colégio de Sion e garantir-te que o estigma reverteu a quem te não aceitou. Isso é o que queria dizer-te.
A "descortesia cruel e ímpia" da tal Madre Superiora — criatura suja e fedida por dentro e por fora — teve um efeito colateral positivo: assim que a polêmica se espalhou, várias escolas, religiosas ou não, se prontificaram a oferecer matrícula à Bibi. Procópio ficou gratíssimo e optou prudentemente por uma escola que não tivesse inspiração religiosa ou cristã; matriculou Bibi na Anglo-American School, em Botafogo, escola fundada por uma educadora inglesa dez anos antes. Bibi teve a melhor educação que uma criança poderia ter, consolidando seu bom caráter, sua inteligência, sua cultura ampla e diversificada, sua personalidade encantadora e benfazeja, e desenvolvendo seus múltiplos talentos. E o Sion adquiriu a fama de uma escola burguesa, segregadora, hipócrita, preconceituosa e racista. Uma mácula eterna.
VEJA TAMBÉM:
Bibi Ferreira — JUBILEU DE DIAMANTE (1/4)
Bibi Ferreira — JUBILEU DE DIAMANTE (2/4)
Bibi Ferreira — JUBILEU DE DIAMANTE (3/4)
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BIBLIOGRAFIA
- A Crítica
- A Manhã
- A Noite
- Correio da Manhã
- Fon Fon
- Frou Frou
- Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional
- BARCELOS, Jalusa. Procópio Ferreira, o Mágico da Expressão. Rio de Janeiro, Funarte, 1999.
- DULLES, John Foster. Anarquistas e Comunistas no Brasil. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1977.
- FERREIRA, Procópio. Procópio Ferreira apresenta Procópio. Rio de Janeiro, Rocco, 2000.
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