quarta-feira, 25 de junho de 2014

Igayara

Capa de março de 1968, desenhada
por Waldyr Igayara
(Fonte: Guia dos Quadrinhos)
Meus caros,
estava hoje à tarde completamente avoado, com a cabeça nas nuvens, quando, por qualquer razão, me veio à mente o nome de Waldyr Igayara. Pensei: "O que terá acontecido ao bom Igayara?"

Explico: Nos idos de 1987, quando eu contava parcos 15 anos e fazia pela segunda vez a oitava série do ginásio, um professor (ou professora, realmente não lembro mais) pediu um trabalho sobre Histórias em Quadrinhos. Fiz dupla com meu colega Gian Francesco (nome cabalístico na minha vida) e aproveitamos ser seu pai um executivo da Editora Abril para pedir uma recomendação. Ele sugeriu Igayara, que era diretor de redação, ou coisa que o valha, do departamento de HQ da empresa de Victor Civita. Lá fomos para o prédio da Editora Abril. Chuto hoje que talvez seja o prédio localizado em Pinheiros, mas não tenho a menor certeza.

O que sei é que Gian levou um gravadorzão, eu levei as fitas e passamos uma tarde agradabilíssima com Igayara. Sua praia era o desenho, começara na Abril como desenhista do Zé Carioca quando a revista foi lançada, em meados dos anos 60, mas nos deu verdadeira aula magna de História das Histórias em Quadrinhos. Falamos de Yellow Kid em diante, passando por Carl Barks até chegar a "Biquinho", personagem criado por Igayara e que era sobrinho do Peninha. Ele fez comentários sobre os grandes desenhistas brasileiros, Daniel Azulay, Walbercy Camargo e até Maurício de Souza, que deixara a Abril há pouco, em transação milionária com a editora Globo.


Com o querido Igayara em seu escritório, na Abril. A propósito,
a data nas fotos é da revelação, três dias depois

































Aqui e ali entravam pessoas para cumprimentá-lo. Percebendo nosso estranhamento, esclareceu: "Hoje é meu aniversário". 53 anos, coincidência total. Igayara foi gentil, didático e teve paciência evangélica com nosso absoluto despreparo. Respondeu com carinho e interesse tanto as perguntas sérias e relativas ao assunto, quanto perfeitas bobagens que improvisamos ali, deslumbrados que estávamos em ver de perto o lugar de onde saíam as revistas que líamos e colecionávamos.

Ao término da entrevista, pegando o gancho da informação que ele mesmo nos dera, de ter sido desenhista dos gibis da Disney, pedimos que desenhasse ali na nossa frente personagens como Zé Carioca, Pateta, Pardal e outros. Ele assentiu, bem humorado. Desenhou (muito bem, por sinal) no meu caderno e autografou. Na despedida nos encaminhou ao estúdio, onde fomos bem recebidos por alguns dos desenhistas da Abril, e ainda ganhamos dois ou três sketches de capas do Tio Patinhas e do Pato Donald que ainda não haviam sido publicadas.

12 de maio de 1987. Dia memorável. A primeira vez que entrevistei alguém.


Talento comprovado: os personagens Disney no meu surrado caderno de ginásio

Um dos desenhos de Igayara, que eu estupidamente rasurei a data,
achando que a data, na foto, era do dia da entrevista

No início da década de 90 Igayara se aposentou e montou uma escola de HQ. Veículo perfeito para a difusão de sua vasta cultura e de seu belo talento.

Somente hoje - brisando, quase 30 anos depois - soube que Waldyr Igayara de Souza se foi em 2002. Tinha apenas 68 anos. Era, já na época, e continua sendo, hoje, uma referência dos quadrinhos brasileiros.

Obrigado, mestre. Por ter dado aos quadrinhos brasileiros páginas de real valor artístico. E pela gentileza com que recebeu e ajudou dois adolescentes.

Obrigado!

terça-feira, 24 de junho de 2014

DÉCIO GRISI - 96 ANOS

Décio em 2013, lendo o primeiro volume da biografia de seu
velho colega de Câmara, Jânio Quadros

Hoje é o aniversário de 96 anos do querido amigo DÉCIO GRISI, último remanescente da legislatura de 1948 da Câmara Municipal de São Paulo - a primeira depois do Estado Novo - na qual foi colega de Jânio.

Décio foi um vereador operoso, trabalhador, lutou pelos interesses dos trabalhadores, dos professores, varejou bairros longínquos promovendo melhoras - esteve na Vila Maria antes do local tornar-se reduto político de Jânio - e cerrava fileiras ao lado de causas beneméritas, que tem conseqüências positivas até os dias de hoje, quase 70 anos depois.

Além disso, Décio é - junto ao saudoso Francisco Ladeira - pedra angular do segundo volume da biografia de Jânio. Seus depoimentos múltiplos, sua memória impecável e sua perene boa vontade são prêmios que nunca esquecerei e pelos quais acalentarei eternamente a mais fervorosa gratidão.

PARABÉNS, QUERIDO MESTRE!
(19/06/2014)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Pedro Bloch e a estréia da "Companhia de Comédias Bibi Ferreira"

Meus caros,
Bibi estreou no teatro profissional em 28 de fevereiro de 1941 na Companhia Teatral de seu pai, com O Inimigo das Mulheres, de Goldoni. Trabalhou com Procópio por três anos até montar sua própria Companhia, que estreou com a peça Sétimo Céu, de Austin Strong, no Teatro Phoenix, no Rio, em 18 de julho de 1944. Direção do francês Georges Morineau, marido da então ainda desconhecida no Brasil, Henriette Morineau.

Na platéia estavam Procópio e o escritor Pedro Bloch, que ainda não explodira com As Mãos de Eurídice mas já era respeitável dramaturgo e jornalista, com coluna na prestigiosa revista Fon Fon.

Eis o que disse o bom Pedro Bloch sobre a estréia da Companhia de Bibi Ferreira na Fon Fon de 29 de julho de 1944:
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FON FON NO TEATRO
Sétimo Céu

Ele se chama Chico. Mais um ruído que um nome. Chico. Trabalha nos esgotos de Paris com um companheiro: o Rato. As ambições de Chico são enormes, entretanto. Ele não passará a vida toda como simples limpador de esgotos, não senhores! Um dia, sabem?, ele será promovido, se Deus quiser. Um dia ele deixará de ser um limpador de esgoto para se elevar acima da ralé: passará à classe privilegiada de... lavador de ruas.

Enquanto trabalhava, ao alto, sobre a sua cabeça, rolava, vertiginosamente, a vida de Paris. Paris!

Chico sonhava. Sonhava com o dia em que pudesse passar diante de Maximiliano Gobin e saudá-lo: “Boa tarde, colega!” E sabem os senhores quem era Maximiliano Gobin, a meta das ambições majestosas de Chico? Um presidente? Um cientista? Um milionário? Nada disso. Maximiliano Gobin era, nada mais, nada menos, que um lavador de ruas. Gobin podia trabalhar à luz do sol, ver Paris, sentir Paris em contato direto e luminoso e não através dos sombrios canos de esgoto.

Duas irmãs, fugidas da casa dos tios, também estão ali, no beco sem saída. Um dia Chico salva Diana, a menor das duas, arrancando-a das mãos de Nana, a maior, que tentava estrangulá-la, porque,  ao serem procuradas pelos tios, Diana contara-lhes toda a triste verdade. Elas já não são mais anjos de pureza. Chico salva Diana. Entretanto um policial aparece e quer levá-la, mas Chico, num de seus generosos impulsos, diz que não se trata de uma mulher vulgar, mas de sua legítima esposa, madame Chico. Para confirmar a mentira são obrigados a ir até a casa de Chico porque senão a polícia é capaz de desconfiar.

A Noite, 18/07/1944

Jacques Boulevard, Boul, é um chofer de taxi. O taxi tem um nome: Eloísa. O taxi herdou-o Boul de um amigo e o nome herdou-o o taxi de uma égua do mesmo nome já falecida. Boul tem uma grande ternura por Eloísa. Trata-a como se fosse um ser humano. E é Boul quem leva Diana e Chico (este agora promovido a lavador de ruas, graças ao Padre Chevillon que lhe deve a vida) até o palácio. Chegam. Um, dois, três, quatro, cinco, seis... sete. Sétimo céu. A vida começa a transcorrer com novas cores. Chico traz um vestido de noiva para Diana e pretende casar-se de verdade.

Mas antes de poderem casar... estoura a guerra. Chico precisa apresentar-se. Realizam então um casamento simbólico, perante Deus, a quem Chico, que é “ateu”, concede uma última oportunidade. Chico parte. Deixa Diana e o sétimo céu. É um rapaz formidável, conforme ele mesmo acentua a cada momento. Até a volta, Chico! Até a volta!

A Noite, 18/07/1944
Mas Chico não volta. Quem volta é Boul que vem contar a história heróica de Eloísa, seu táxi bem amado.

— Eloísa morreu, declara Boul dramaticamente. Vocês ainda não sabiam? Vou contar-lhes como foi. Minha pobre Eloísa! Aqui está Von Kluch com o maior exército do mundo, marchando através de Compiégne, às portas de Paris. O governo fugira para a nossa bela capital, prestes a ser arrasada. (Boul ia enfileirando, estrategicamente, sabonetes, garrafas e açúcar) Que fez papai Joffre? Não hesitou um momento. Ele sabia o que fazia! Chamou-nos. Todos os taxis de Paris, Conduzimos as nossas reservas. Assim!... Assim!... Assim!... Assim!!! Meu Deus! Que espetáculo! Aqui está Eloísa, bem na frente, correndo como um demônio, com sete soldados dentro e cinco na capota. E foi assim até o final! Heroicamente! Não falhou uma única vez!... Quando atingida por uma granada... capotou... e caiu na estrada... morta! Deus receba sua alma! Eloísa!

Enxugou os olhos com o dorso das mãos ao recordar sua heróica amiga.

Vem o armistício. Todos se alegram, mas Diana tem o coração dilacerado. Chico não voltou. Deus não existe. Chico não voltou! Mas Chico volta. Cego, cansado, doente... mas volta. Volta e abraça ternamente Diana:

— Morte? Tolice! Ri, Chico. Fui atingido por vários estilhaços, mas nada me pode matar. Nunca morrerei. E ainda hei de recuperar a vista. Vocês vão ver. Porque, minha querida Diana, o bom Deus existe. Ele está dentro de nós e nos faz agir e pensar. Agora que estou cego é que vejo tudo! E garanto-lhes que sou um rapaz for... mi... dá... vel!

Bibi em 1942
Esse é o resumo de Sétimo Céu, peça que marcou a estréia da Companhia de Comédias Bibi Ferreira.

Bibi Ferreira, vivendo o papel de Diana, deu-nos uma das mais extraordinárias interpretações já vistas em nossos palcos. Viveu intensamente seu papel, convenceu, emocionou, arrebatou. É uma grande, muito grande artista.

Ferreira Leite, no Boul, mostrou-nos sua envergadura de ator excepcional que é. Na cena em que nos conta a morte heróica de Eloísa chega a comover, profundamente, tal a veracidade e intensidade dramática atingidas.

Ribeiro Martins constituiu uma surpresa, uma grande surpresa, para todos nós. Um artista que, sem uma grande atuação nos palcos, consegue interpretar daquela maneira o papel de Chico, irá certamente muito longe.

Em outros papéis vimos: Álvaro Pinto, Alma Castro, Bittencourt, Edmundo Lopes, Suzana Negri, Pedro Veiga, Jorge Diniz, Salvador Leardini, Linda Hill, Hamilton Ferreira, Fernando Delmar e Maria Izabel, destacando-se o “Rato”, Suzana Negri em “Nana”, Jorge Diniz em “Brissac” e Hamilton Ferreira no “Padre Chevillon”. A peça é de Austin Strong, tradução de Elsie Lessa. A direção foi de Georges Morineau e os cenários, muito bons, de João Maria dos Santos.

O teatro sofreu uma reforma admirável, apresentando um aspecto de Municipal-mirim.

Aida Izquierdo, Bibi e Procópio

Papai Procópio apresentou a nova Companhia:

“Meus senhores e minhas senhoras! Certo sabeis que venho com o coração transbordando de alegria para felicitando-vos felicitar-me a mim mesmo. Não venho falar com a desenvoltura do ator que aplaudis, mas com a carinhosa timidez do pai”.

Procópio está comovido. Não é para menos. No fim do segundo ato, quando o público aclama Bibi, Procópio está chorando.

E creio que foi a maior emoção que o nosso grande ator já sentiu num palco de teatro. Procópio estava no Sétimo Céu. Talvez no oitavo.

“Está inaugurada a filial!”, declarou Procópio no final de seu discurso.

Acho que Procópio não se sentirá ferido em seus brios de grande artista, porque o que eu vou dizer se dirige não ao seu orgulho de ator consagrado, mas à sua carinhosa timidez de pai:


— Procópio. Eu te felicito. A filial é melhor que a matriz.

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terça-feira, 15 de abril de 2014

Minestrone Cultural

BROKEN BLOSSOMS


Acabo de assistir - depois de procrastinar por anos - "Broken Blossoms", de D.W. Griffith (no Brasil, "Lyrio Partido", boa tradução para o filme de 1919 que estreou por aqui três anos depois, em 1922). Um dramalhão para fazer sofrer o mais bem-humorado.

Lilian Gish
Griffith mexia com sutileza de elefante nos dogmas, estereótipos e preconceitos da sociedade americana. Por vezes com resultado desastroso (Ku Klux Klan em "Birth of a Nation"), por vezes simplesmente caricato, algo fiel considerando que o veículo ainda engatinhava, neste retrato pioneiro dos imigrantes chineses na Londres do início do século XX. Hoje ridícula, a performance de Richard Barthelmess como "the yellow man" fez dele um dos atores mais famosos da época.

Mas quem rouba o filme (assim como roubou todos os filmes de que participou) é a inigualável Lillian Gish. Ela é uma pintura. É toda a síntese do cinema mudo; o "rosto". Antes de Garbo, Swanson e qualquer outra. Vê-la no filme acariciando uma boneca é um quadro renascentista. Uma boneca acariciando outra. É impressionante.

Na foto, duas cenas de Gish e a propaganda do filme na estréia carioca, em abril de 1922. (7/3/2014)


A LÓGICA DO COMPADRE


Me deleitando com "A Lógica do Compadre", de Paulo de Tarso Santos, lançado em 1991. Por que me surpreenderia que esse notável brasileiro tivesse também talento para a literatura? Foi do Largo São Francisco para o Congresso (não sem antes ter passado pela Companhia de Cacilda Becker), viajou com Jânio a Cuba, foi prefeito da recém-nascida Brasília, cassado e exilado em 64, voltou e tornou-se secretário da Educação de São Paulo...

Surpreendente mesmo é que esse atilado e competente homem público, de boa cepa, de estirpe há muito extinta, acostumado às cobras criadas de São Paulo e Brasília, guardasse bem conservada dentro dele sua mineirice de Araxá, que revelou nesses contos deliciosos em que desfia suas reminiscências de garoto das alterosas. Com aquela riqueza simples e divertida de causos e personagens, que só os grandes escritores podem levar ao papel.E o prefácio é de outro mineiro: Fernando Morais! (12/3/2014)


DIA MUNDIAL DO TEATRO

Quem diria... o dia 27 de março é mesmo o dia mundial do Teatro. A data é verdadeira, foi instituída em 1961 pelo International Theatre Institute e pela UNESCO.

Sou 50% historiador e 50% ator. Minha cultura, minha vivência e grande parte de minhas alegrias e tristezas vêm dessas duas vertentes. São meu Yin e meu Yang. São os hemisférios do meu cérebro. Essa, a representação mais próxima: o hemisfério lógico pensa que domina, mas na verdade morre de inveja do hemisfério criativo e sensível.

Por uma simples razão: o lado teatral invadiu a seara do vizinho e aprendeu a misturar racional e passional. O lado historiador aumenta de tamanho e substância a cada dia, mas não possui outlet performático. O lado teatral é liberal e democrático. O lado historiador contempla sem poder participar. Os dois são evidentemente complementares, mas um é descontraído e relaxado; o outro é metódico, denso e precisa melhorar sempre. Antípodas. E um não vive sem o outro.

Ser ator é um dom e um privilégio. mas há que saber usar esse dom. Quem não sabe, o recebeu por engano ou é simplesmente burro, vai desperdiçá-lo. Será como o índio citado por Othello, que jogou fora uma pérola mais rica que toda sua tribo.

Quem souber usá-lo terá uma vida infinitamente mais rica de experiências, de amizades, de amor, de sensações, de cultura e conhecimento. Feliz dia do Teatro a todos vocês, que são, como diria Olivier, "my fellow students"!

Na foto, meu rendez vouz com Hamlet no ano passado, dirigido por Natalia Negro, clicado por Tom Pereira e com os valiosos toques de Joaquim Marques, Carolina Villaça, Ana Claudia Oliveira e Janna Giorni. (27/3/2014)


TINTA VIOLETA EXTRA-FINA DE MONTEIRO

Publicado na imprensa carioca em 1871
(Cautela com as falsificações)



(19/01/2015)


LEILA DINIZ, por David Drew Zingg

Sei que a intenção dessa foto de 1971 deve ter sido mostrar algo meigo e voltado para a maternidade, mas poucas vezes em minha vida vi algo tão intensamente erótico e sexual. Obra-prima. David era um grande talento e Leila realmente foi a Marilyn brasileira.




Fonte: www.ims.com.br (15/04/2014)


JÂNIO E O TEATRO

Jânio e Guarnieri
Jânio gostava de Shakespeare pelo que o bardo tinha de poético e não pelo que tinha de teatral. Sendo ele próprio um personagem perfeitamente shakespeariano, dada a gama de emoções que enfrentou em sua vida — da mais deslavada comédia à mais aterradora tragédia — Jânio não cultivava o teatro. A pouquíssimo inspirada “Órfãos de Jânio”, de Millôr, por exemplo, foi levada pessoalmente por José Aparecido a Jânio mas não recebeu do ex-presidente mais que um sorriso amarelo. Porque no fundo a peça não passa de um jogral idiota e maniqueísta cuja idéia original Millôr chupou do “Kennedy’s Children” de Robert Patrick.

Mas Jânio lutou pelo teatro e pelos artistas de teatro. Quando vereador batalhou pela devolução dos teatros Colombo e São Paulo (há muito extintos) à prefeitura, depois de anos sendo sangrados e explorados por empresários inescrupulosos. Promoveu reformas no Teatro Municipal em duas de suas gestões e na última prefeitura foram construídos os teatros Cacilda Becker e Alfredo Mesquita. Além disso, quando se tratava de verdadeiro talento, Jânio reconhecia com prazer. E assim foi em 1958, quando fez questão de entregar pessoalmente o prêmio de Melhor Dramaturgo do Ano a Gianfrancesco Guarnieri, pela obra-prima “Eles não usam Black-Tie”. Na foto vemos Jânio e Guarnieri no Teatro de Arena, após uma apresentação de Black-Tie. Guarnieri, por sinal, ainda traz a indumentária do filho fura-greve, Tião. (28/3/2014)


AZUL RESPLENDOR



Assistir a inauguração do VII Festival Ibero-Americano de Teatro, no Memorial da América Latina, foi um prazer multi-facetado, poliédrico. Revejo o amigo Luiz Amorim, que há tempos não encontrava pelos teatros da vida; o bom Avelima, coringa de nossa cultura e responsável por essa beleza de festival; David Leroy, a quem devo há quase dez anos a foto que tirei dele com Guarnieri no SESC do Carmo; e assisti "Azul Resplendor", de Eduardo Adrianzén, com direção de Élcio Nogueira Seixas e Renato Borghi. Essa foi a peça que Eva Wilma escolheu para festejar seus 60 anos de carreira.

O interessante é que ao longo destes quase 25 anos de peregrinação teatral, por razões que a própria razão desconhece, eu nunca tinha visto Vivinha representando. Tive o prazer de encontrá-la por aí várias vezes, conversei com ela, assisti uma palestra esplêndida que ela deu junto ao saudoso José Renato no Teatro dos Arcos em 2005, mas suas peças, sabe-se lá por quê, eu perdi uma por uma. Hoje isto foi finalmente remediado. Assisti Eva no seu elemento, atuando, emocionando, fazendo rir e chorar, espalhando seu talento pela "Praça da Sombra, Lona Principal" do Memorial da América Latina, e como se isso não bastasse, seu leading man é meu querido Renato Borghi.

Eva está linda, em plena forma, cheia de vigor em seus inacreditáveis 80 anos. E Renato está brilhante como sempre, sendo o titã de nosso teatro que é desde o Oficina. Vê-los juntos é ouro puro. Renato explicando que cuidou de sua mãe até os 108 anos, Eva zombando com a maior crueldade de seu Banquo, Renato levando o público à gargalhada somente por responder que "sim, eu sei cozinhar", Eva exigindo as luzes acesas para quando fizessem amor, tudo provocou empatia e cumplicidade. Não vou descrever o que todos devem assistir assim que possível. Eva e Renato são, pura e simplesmente, a razão primordial pela qual vamos ao teatro.

O VII Festival Ibero-Americano de Teatro de São Paulo, no Memorial da América Latina, está imperdível. Este foi só o começo, e haverá grandes atrações todos os dias, até o fim desta semana.

Parabéns, Avelima! (23/04/2014)


SOBRE A VIRADA CULTURAL

Meus caros,
fico chateado de ver a cobertura que sites como o UOL dão à Virada Cultural. Todo ano é a mesma coisa e este não foi exceção: "não sei quantos feridos", "não sei quantos presos", "arrastões e assaltos", "brigas e gente drogada e bêbada".

Que necessidade mais mórbida de noticiar sempre o pior, o desagradável, o que deu errado!...

Vou à Virada Cultural há sete anos e nunca me aconteceu rigorosamente NADA. Fui a shows em dezenas de palcos, desde Cauby e Gal até Paul Diano. Vi dança e thrash metal no Anhangabaú, vi teatro na Roosevelt, vi tecneira no Largo São Francisco, luta livre na Sé, Roberto Luna no Arouche, Sérgio Ricardo no Municipal, Zimbo Trio na São João. Entrei em botecos, comi nas barracas, peguei ônibus e metrô de madrugada, amanheci na São Luis.

Pessoas usando drogas, trombadinhas e gente bêbada eu encontro na esquina da minha casa. Por que eu ficaria horrorizado com isso na Virada? Agora, palcos onde maconha é a tônica da apresentação, não vou. Palcos onde cachaça está rolando desde músicos até público, não vou. Palcos onde a música (ou algo que o valha) é de desgraça e de incitação à violência, não vou. A Virada para mim é como a televisão. Vou assistir coisas boas. Merda eu simplesmente não vejo.

Podia haver mais polícia? Podia. Sempre pode, porque sabemos que meia dúzia de nóias é suficiente para acabar com a alegria de mil pessoas. Mas o único princípio de tumulto que presenciei foi resolvido pela polícia presente em questão de segundos. Não tenho queixas para a ação dos policiais. Só elogios.

Guilherme Arantes na Líbero Badaró: sempre maravilhoso

Vi gente reclamando do nível das apresentações. Eu não entendo isso. Na Líbero Badaró estava o Guilherme Arantes. Maravilhoso como sempre. Na Júlio Prestes estavam a Baby Consuelo de noite e o Pepeu Gomes de dia. Na minha concepção, dois dos nossos melhores artistas. O Balé da Cidade de São Paulo deu um show de arrepiar no Anhangabaú! Na Sala São Paulo assisti uma das melhores coisas que já vi ultimamente, que é a Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo. E na Luz não estavam Monarco, Almir Guineto e Nelson Sargento? Na General Osório não estavam o Tobias da Vai-Vai e o Osvaldinho da Cuíca?

Mariana Aydar
E para que não digam que só falo dos mais antigos, estavam lá Mariana Aydar, Marcelo Jeneci, Teatro Mágico, Tulipa Ruiz, Vanessa da Mata e uma linda homenagem ao amado Jair Rodrigues, protagonizada pelo Jairzinho, a Luciana Melo e o Simoninha. Shows legais, de gente boa, de música de qualidade.

Vi gente reclamando que a Valeska Popozuda se apresentou. Alguém foi obrigado a assistir? No mesmo horário meu amigo Avelima me informa que havia músicos excelentes no Parque da Luz, e eu estava no SESC Vila Mariana tentando ver o querido mestre Luis Melo (cheguei atrasado e não consegui entrada). Era só ir até lá. A gastronomia estava espalhada pelo centro. Havia teatro no Pátio do Colégio, circo na Roosevelt, DJs, tudo. A Virada tem dezenas de artistas se apresentando ao mesmo tempo por toda a cidade, é um evento eclético, variado e universal. É só procurar.


Lado negativo: acabaram com o palco dos pianos na Dom José Gaspar. Tanta porcaria que pode ser suprimida da Virada, e tiram justamente o refrigério cultural, onde sentávamos de madrugada, relaxando e tomando um café. Absurdo e estupidez.


Mas isso não é nada. A Virada Cultural é um evento magnífico. Quem se queixa todo ano deveria botar sua CHATICE de lado e ir assistir. (19/05/2014)


ABIGAIL MAIA E O ORVALHO DA BELEZA



Ao distinto farmacêutico Umbelino Lopes, ofereço este retrato como prova de amizade e gratidão por ter encontrado a 8ª maravilha do mundo que é o Orvalho da Beleza, cujo uso constante operou-se de tal forma em mim, que consegui uma cútis macia e puramente aveludada, com o uso apenas de dois frascos. Além disso, faço uso constante desse preparado sublime, abandonando por completo todos os outros similares, que ficam a perder de vista diante do maravilhoso "Orvalho da Beleza".

São Paulo, 23/11/1914
Sua admiradora atriz
Abigail Maia

(Revista Correio da Semana, 30/11/1914) (29/05/2014)

O LEAR DE TINO CARRARO


Direção absolutamente magnífica de Giorgio Strehler. Entendo, por fim, por que Paulo Autran queria tanto Strehler para dirigir seu Lear. Mas o velho mago italiano, parceiro de Brecht e Beckett, fez tantas exigências (segundo depoimento do próprio Paulo) que o convite acabou cancelado. Strehler morreu no ano seguinte ao Lear de Paulo, então o mais provável é que sua saúde também não estivesse 100%.


Na foto estão Tino e o "Matto" de Otavia Piccolo. É uma montagem de 1972 que transborda o talento criativo de Strehler. Estudos há dezenas, tudo é dito sobre o assunto, "Strehler se baseou em fulano, beltrano e ciclano", "Meyerhold", "Brecht", "clown" e não sei mais quem. A mim importa apenas que é uma beleza de concepção e direção. (18/6/2014)

RIVALDO



BIBI, CARMEN E DULCE DAMASCENO DE BRITO


Dulce Damasceno de Brito
Meus caros,
em 1952, dono do mais vasto império jornalístico do país, incluindo centenas de jornais, rádios e a recém-criada TV Tupi, Assis Chateaubriand mandou a jovem jornalista Dulce Damasceno de Brito aos Estados Unidos com a missão de registrar tudo que fosse relativo a Hollywood e o cinema, para a revista "O Cruzeiro". Ela foi, gostou e lá ficou durante 16 anos.

Conheci a boa Dulce e pretendo em breve escrever um artigo sobre ela, que se foi em injusto esquecimento no ano de 2008. No momento trago apenas a carta de recomendação que Dulce levou do Brasil. Escrita por Bibi Ferreira e destinada à Carmen Miranda. É exemplo belo e eloqüente da generosidade de Bibi. Vem de um dos preciosos livros de Dulce, O ABC de Carmen Miranda:
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Bibi e Carmen

Campinas, Estado de São Paulo, 14/3/1952

Querida Carmen:

Quisera escrever-lhe uma longa carta contando-lhe minha alegria em rever Aurora e seus filhos e esposo, mas hoje vai uma cartinha mais egoísta e também mais curta, pois tem esta a intenção de apresentar-lhe minha maior amiga, Dulce D. Brito, que fora disto é uma grande jornalista e vai aos Estados Unidos trabalhar pela nossa imprensa representando nossa melhor revista, "O Cruzeiro".

Ela não tem muita "panca" de jornalista - é muito jovem e muito "jeune fille", mas apenas peço-lhe o seguinte: creia nela, acredite em Dulce. É uma excelente e inteligente moça e mais do que você possa supor, vai precisar de você, pois você também é excelente e inteligente, o maior expoente brasileiro mundial, que não poderá deixar de dar um "welcome to U.S.A." a esta garota também "notável".

Sua sempre, sempre
Bibi

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sábado, 5 de abril de 2014

Entrevista ao EM CARTAZ — 03/04/2014


Meus caros,
tenho dado aqui e ali entrevistas sobre o livro do Jânio, desde seu lançamento no ano passado. Todas, sem exceção, têm sido proveitosas e agradáveis. Mas ante-ontem, 3 de abril, acredito que dei uma das melhores, no programa “Em Cartaz - Agenda Cultural na TV”, comandado por Atilio Bari.

Fui apresentado a ele pelo nosso irmão comum Flávio Guarnieri, ambos acabavam de trabalhar juntos na vitoriosa temporada de Eu te amo meu Brasil (direção e texto de Bari), mas essa apresentação foi mera formalidade; conheço Bari, de fato, há quase quinze anos, que é o tempo em que venho acompanhando o “Em Cartaz” pela TV Aberta (canal 9 da NET, 72 da TVA). Trata-se, sem qualquer favor, do espaço cultural mais democrático de nossa televisão. Aquele primeiro contato ao vivo e a cores, ocorrido há pouco, só veio patentear a identidade de propósitos e a amizade que liga inevitavelmente aqueles que cultivam e cultuam a difusão cultural e artística.

Referi-me recentemente ao Bari como “promotor cultural, jornalista, dramaturgo, historiador e mais um punhado de coisas”. A descrição é justa. Ele é fundador do grupo Theatralha & Cia., através do qual produziu dezenas de espetáculos. Entre os textos que escreveu estão O Pequeno Imperador (laureado com o prêmio Mambembe), Lilavati – Uma Aventura das Índias (Mambembe e também prêmio no Concurso de Dramaturgia Vladimir Maiakovski”), Frankenstinho, Ai Caçarola, Eu te amo meu Brasil, O Homem que Calculava (este atualmente em remontagem imperdível, no Ruth Escobar aos sábados), e outros. Na TV Cultura integrou a equipe que produziu o Senta que lá vem comédia, criou os programas Agendinha e Baú de Histórias, foi co-idealizador da série Direções e dirigiu as séries Antunes Filho em Preto e Branco e Grande Teatro em Preto e Branco.

"Selfie" desavergonhado: Atilio Bari, Flávio Guarnieri e Bernardo Schmidt

Com Atilio Bari, durante a entrevista
Tem seis livros publicados pela Scipione: 10 que valem 30!, A samambaia, o vira-lata e o blufiano, Barriga e Minhoca, marinheiros de Cabral, Bem-me-quer, mal-me-quer!, O tesouro do pirata Pão-duro, e O gato do teatro, este último premiado diversas vezes e sobre o qual escreverei uma resenha em breve.

Bari é um promotor cultural completo. Em nossa prosa demonstrou total domínio do assunto, tinha o livro anotado e decupado, e me deu as deixas perfeitas para uma entrevista dinâmica, divertida e cheia de informações. De quebra ainda pude contar com o Flávio “à ilharga”, como diria o Jânio, para espraiar a conversa, da política para o teatro. Foi um grande prazer. Assistam, divirtam-se e compartilhem.

Bernardo
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Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia
Vol I: "Um Moço Bem Velhinho"
de Bernardo Schmidt
Editora O Patativa - 350 pgs ilustradas
R$ 30,00 (Frete incluso para todo o Brasil)

Compre através do e-mail editora.opatativa@gmail.com
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sábado, 25 de janeiro de 2014

Iconografia dos Prefeitos de São Paulo na República Velha


Antônio Prado, primeiro prefeito
da República Velha
Meus caros,
a Internet é o que fazemos dela. A frase parece manjada mas é verdadeira. Em minha pesquisa sobre Jânio ou qualquer outra cansei-me de ouvir perguntas do tipo “você já procurou o que tem no Google?”

Já. Aliás, não só procurei como me dei conta há muito tempo que no Google estará aquilo que EU colocar. Na maior parte do tempo não tem nada, e quando tem, é superficial. Serve para quem precisa fazer uma provinha de múltipla escolha amanhã. Mas não é, em absoluto, material confiável de pesquisa. Publica-se hoje um texto raso e sem qualquer aprofundamento, e o compartilhamento é tão rápido que em questão de dias esse texto pode estar em milhares de sites ao mesmo tempo, embora contenha equívocos de nomes, datas e locais.

Como já disse antes, essa preguiça de fazer a pesquisa inédita transformou o Google em uma fonte que se esteriliza rapidamente pela repetição indiscriminada de erros. Para “roubartilhar”  neologismo maravilhoso!  há milhões de pessoas. Para contribuir com material inédito e corrigir o que está errado, há um punhado de pessoas. No caso de fotos, que é o que tratamos aqui, é igual: o site A publica uma fotinho de fulano. O site B copia e publica a foto menor ainda. Vem o C, aumenta e pixeliza a foto, e republica. No fim temos dezenas de repetições de uma única foto que não estava sequer em alta resolução quando foi postada.

A única - e péssima - foto que existe de
Raymundo Duprat na Internet



Políticos e figuras maiores de nosso governo desde colônia, império, até república: prefiro não dizer o quanto estamos atrasados nisso. É deprimente. No hemisfério norte, em geral, a memória política e histórica está conservada. Os detentores de arquivos foram inteligentes e não deixaram personagem que tivesse algum relevo sem retrato que pudesse identificá-lo na net. Quando escrevo um artigo em que preciso me valer de sites internacionais para identificar alguém, fico absolutamente tranquilo pela certeza de que encontrarei na hora. Quando a busca é de um brasileiro, há duas alternativas: não há, ou há uma foto, em geral de baixa qualidade, repetida trinta vezes.

Caricaturas dos anos 1900, dez e vinte sobre a mesma foto de Antônio Prado

Neste post procuro dar minha contribuição para a memória iconográfica de nossos prefeitos durante a República Velha. E acrescentando informações e detalhes que estão faltando por aí, ou que têm aparecido com equívocos. Não há nenhum exagero em dizer que estes homens fizeram São Paulo. São os pais de São Paulo, junto a Fábio Prado, Prestes Maia e Faria Lima. Deixaram sua marca no DNA do município, são todos nomes de ruas, avenidas, praças e até municípios, e no entanto são completamente desconhecidos. Nunca foram estudados, raramente são citados e são pouquíssimas as pessoas que viram em algum momento imagens deles.

Vamos mudar isso agora.

Divirtam-se.
Bernardo Schmidt
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ANTÔNIO DA SILVA PRADO (1899/1911)

Antônio Prado na época em que foi prefeito de São Paulo

Primeiro, um pouco de história: A Lei Municipal nº 374, de 29 de novembro de 1898, reorganizou o Poder Executivo e criou o cargo de “Prefeito Municipal”, escolhido pelos vereadores entre os membros da própria Edilidade, com mandato de um ano. O primeiro foi Antônio da Silva Prado, reeleito pela Câmara nove vezes. Em 1907, a Lei Estadual nº 1.103 instituiu eleições diretas para a prefeitura, aumentando o mandato para três anos, o que o igualava ao mandato dos vereadores. O eleito foi o próprio Silva Prado, que permaneceu na prefeitura até janeiro de 1911.

Na caneta — considerando que iniciou seu mandato em 7 de janeiro de 1899 e saiu da prefeitura em 15 de janeiro de 1911 — Prado foi prefeito por doze anos e uma semana. Foi o homem que permaneceu mais tempo na prefeitura em toda a história. É acompanhado de perto por Prestes Maia (11 anos em dois mandatos) mas ultrapassa todos.

Antônio Prado, na época da fundação do Partido Democrático
Antônio da Silva Prado — ou “Conselheiro Antônio Prado”, como ficou conhecido, pelo cargo que ocupou durante os últimos quatro anos do Império — nasceu em São Paulo, em 25 de fevereiro de 1840. Advogado da turma de 1861, no Largo São Francisco, sua biografia é uma das mais ricas e cheias de acontecimentos da segunda metade do século XIX e dos primeiros 20 anos do século XX. Como este post é de mero resgate iconográfico não entrarei em detalhes nos múltiplos cargos que ocupou, a imensa participação no comércio e na indústria, o pioneirismo em tudo e o que significou para a urbanização da cidade de São Paulo.

Prado, na juventude
Basta dizer que foi jornalista, vereador, deputado provincial, deputado geral, senador, ministro de duas ou três pastas e conselheiro do Império. Se bateu pela abolição da escravatura, promoveu a imigração, fundando colônias no Espírito Santo, no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, foi co-fundador da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, do serviço de telégrafos, do Jockey Clube, do Automóvel Clube e do Balneário do Guarujá. 

Monarquista convicto, Prado se elegeu para a Constituinte de 1891 mas não compareceu às sessões e foi para a Europa. Só voltou quando lhe foi dada a missão de governar o município. Sobre sua passagem pela prefeitura seria necessário um livro extenso e meticuloso. O que se diz é que ao tomar posse, "cuidou imediatamente de vencer as dificuldades financeiras da Câmara, fez revisão das contribuições e das taxas, empregou todos os meios legais para prover de recursos o tesouro do município e organizar os serviços locais indispensáveis. A arrecadação das rendas ficou regularizada, a capital do Estado compreendeu, perfeitamente, o valor de uma administração honestíssima, votada inteiramente ao seu engrandecimento material, beleza arquitetônica, arborização das ruas, ajardinamento, limpeza pública, etc." (Diário Nacional, 24/4/29)

E isso sem mencionar que foi em sua gestão que se construiu o Teatro Municipal.

O encontro de dois titãs da abolição, em 1906: Joaquim Nabuco e Antônio Prado,
em foto de Augusto Malta para a Fon Fon, publicada em 4/5/29

Prado não se deixou abater pela velhice; com 86 anos viu surgir em seu palacete, sob seus auspícios e sua inspiração, o Partido Democrático, que ia sacudir a política brasileira pelas décadas seguintes.

Informações sobre Prado são superficiais na net, e não me surpreende. Ele pertence à classe dos políticos que viveram tanto que acabaram desestimulando possíveis biógrafos (caso de Borges de Medeiros, Wenceslau e alguns outros), e embora sua vida política tenha sido polivalente, São Paulo era seu palco principal de operações e infelizmente os políticos da esfera municipal (e estadual também, diga-se de passagem) têm sido olimpicamente ignorados pelos historiadores. Um exemplo interessante é que o site da Assembléia Legislativa traz provavelmente o melhor esboço biográfico do conselheiro em toda a Internet. E no entanto erra tanto na data de seu nascimento (13/6/1840) quanto de sua morte (24/4/1929).

Em relação a fotos, Prado foi até muito fotografado para a época, mas as fotos estão em coleções privadas, jornais e livros antigos, e a coisa se repete: o compartilhamento descontrolado da mesma foto minúscula, ou fotos fora de contexto. Veremos a foto dele jovem, em 1888 ilustrando qualquer coisa referente a ele, mesmo artigos sobre sua passagem pela prefeitura.

Prado, em uma de suas últimas fotos

Quando sua saúde se deteriorou Antônio Prado foi para o Rio. Seu filho era então prefeito do Distrito Federal e talvez a maior parte de sua família estivesse lá. Seu estado geral se agravou em meados de abril de 1929 e ele morreu às 12:40h do dia 23.


RAYMUNDO DA SILVA DUPRAT, o “Barão de Duprat” (1911/1914)

Raymundo da Silva Duprat, o Barão Duprat

O caso de Duprat é diferente. Além de completamente esquecido, as fotos dele por aí são da pior qualidade. Até a editora Abril, que imaginamos ter um acervo magnífico, publicou outro dia um artigo sobre antigos prefeitos e usou uma foto de péssima qualidade para ilustrar o trecho sobre Duprat. E é a fotinho que roda a Internet.

Ele nasceu em Recife, Pernambuco, em 11 de dezembro de 1863 e fez o tradicional trajeto do nordestino rumo ao sudeste. Passou pelo Rio, fez escala em Santos e acabou em São Paulo, onde entrou para o comércio. Em 1882 vamos encontrar registros de um Raymundo Duprat trabalhando no elenco do ator Simões e se apresentando em teatros como o São José, em São Paulo, e o Santa Izabel, no Rio. Será possível que é ele? O católico fervoroso e devoto teria tido seu namoro efêmero com Thalia?


O certo é que se estabeleceu em São Paulo na última década do século XIX como contador da Companhia Industrial de São Paulo e membro da diretoria da Associação Comercial. Em 1902 adquiriu uma tipografia e transformou-a na então conhecida Tipografia e Papelaria Duprat & Cia., em sociedade com seu irmão.

Duprat, eleito três vezes para a prefeitura, em
mandatos sucessivos de um ano
Com o comércio e a imprensa a seu alcance, foi eleito para a Câmara em 1905, 1908 e 1911. Em outubro de 1910 foi decretada a Lei Estadual nº 1.211, que restabeleceu as eleições indiretas e diminuiu novamente para um único ano o mandato do prefeito. Os vereadores elegeram Duprat — dito “Barão de Duprat”, graças ao título de nobreza que o Papa Pio X resolveu, sabe-se lá por que razões, distribuir a alguns industriais brasileiros, em 1907 — e o reelegeram sucessivamente até janeiro de 1914.

Duprat parecia ser aquela figura de gabinete, simpática mas muito formal, e de contato raro com o povo. Estava entre o bancário e o banqueiro. Não era protagonista, mas geralmente era o fiel da balança, por isso tinha prestígio político e comercial. Na prefeitura o que se diz comumente é que fez um excelente trabalho levando adiante os projetos deixados em andamento por Antônio Prado, entre eles o viaduto Santa Ifigênia. Mas teria sido responsável, nos três anos de seu mandato, pelo “jardim da Praça Buenos Aires e início da construção do Parque da Avenida Paulista, do Parque do Anhangabaú, alargamento da rua Líbero Badaró e abertura da grande avenida São João” (Correio Paulistano, 18/5/26).

Partidário de Albuquerque Lins, que apoiou sua candidatura, Duprat deve ter pisado em calos poderosos dentro de seu próprio partido, o PRP (o único que elegia ou deixava de eleger prefeitos, naquela época) porque setores da imprensa o chicoteavam de forma inclemente: “Barão Duprat é um nome execrado e abominado por todo paulista de bom senso, pois S. Excia. até hoje nada fez em favor do município, como prefeito”, dizia uma revistinha chamada O Pirralho, pouco antes de Duprat deixar a prefeitura. Duprat é chamado de “inepto administrador, míope prefeito e boçal barão papalino”, além de “indivíduo que a vesga politicagem de 1910 transformou, da noite para o dia, de caixeiro de papelaria em prefeito municipal”. Só que O Pirralho deixou antever sua inclinação política, pois revela-se satisfeito com a ascensão de Washington Luís à prefeitura, sucedendo Duprat: “Felizmente, será eleito Washington Luís. É desnecessário que repitamos que o ilustre remodelador da Força Pública será o mesmo trabalhador incansável, reformando e embelezando a nossa capital, desgraçadamente vítima das garras aduncas dos cavadores ignóbeis, membros da caterva do Sr. Duprat”.

Maldade desse grupo que fazia política com o fígado, e injustiça flagrante com o esforçado e distinto Duprat. E talvez até ateste a seu favor que naquela época de tanto apadrinhamento, ele tenha sido prefeito por apenas três anos, quando Pires do Rio ficou quatro, os outros ficaram seis e Prado ficou doze. Foi o único, desde a criação do cargo, até o fim da República Velha.

Duprat foi eleito vereador novamente em 1914, 1917, 1920 e 1923. Foi presidente da Câmara Municipal de 1914 a 1924. Para sua honra e de seus filhos, embora fosse um barão e tivesse galgado os degraus do sucesso político e comercial, ele morreu pobre, em 17 de maio de 1926.


Disse Gilberto Vidigal, na ocasião, em nome da União de Funcionários Municipais de São Paulo, que uma coroa de flores não era suficiente para "materializar a gratidão e o sentimento de imperecível lembrança que vivem no íntimo de nós, os que convivemos com ele e dele recebemos provas de inconfundível bondade. Há de perdurar, por largo tempo, em meio de nós, a imagem do Barão Raymundo Duprat, cujo espírito, assaz leve, vencerá glorioso as caminhadas etéreas do além, já que foi, na terra, com pertinaz constância, o modelo de quem ambicionou a felicidade alheia, procurando o bem, e realizando, como melhor podia, a Justiça e a Bondade" (Correio Paulistano, 19/5/26).


WASHINGTON LUÍS (1914/1920)


O grande “Paulista de Macaé” — apelido que Washington Luís recebeu por fazer política a vida inteira em São Paulo embora tivesse nascido em Macaé, no Rio, em 26 de outubro de 1869 — era um homem vaidoso, e com o tempo perdeu a feiúra de adolescente e se tornou maduro e charmoso. O queixo enorme foi se ajeitando por baixo do cavanhaque e ele foi pegando gosto pela câmera. E como sua carreira esteve sempre em curva ascensional (até a interrupção abrupta do golpe de 30), foi dos políticos mais fotografados de seu tempo.

Washington Luís, no início do século XX

Washington se formou no Largo São Francisco em 1891 e depois de uma rápida passagem por Barra Mansa foi para Batatais, no interior de São Paulo. Ali começou sua carreira política, como vereador e intendente. Revolucionou o pequeno município, diz seu biógrafo Célio Debes. Em 1904 elegeu-se deputado estadual por São Paulo, em 1906 foi para a secretaria de Justiça e da Segurança Pública, recém-criada, que englobava os serviços legais, prisionais e de segurança em todo o Estado. Lá permanece intocável até 1912, quando se elege deputado estadual e termina o mandato de Júlio Mesquita. Em fevereiro de 1913 se reelege para a Assembléia. Foi o próprio Washington que relatou a Lei estadual nº 1.392, que transformou novamente em triênio o mandato dos prefeitos.

Incentivado por Bernardino de Campos, Washington se candidatou a prefeito na eleição municipal de 30 de outubro de 1913, disputada em regime distrital e de colégio eleitoral, e venceu o adversário Oscar Porto. Tomou posse em 15 de janeiro de 1914. Com a Lei estadual posterior nº 1.501, de 1916, as eleições municipais voltaram a ser diretas, para um mandato de três anos, e os prefeitos não precisavam mais ser escolhidos somente entre os vereadores. Washington se reelegeu e administrou o município até meados de 1919, quando se candidatou a governador, ou, como se dizia à época, presidente do Estado.


No comando do município, Washington cristalizou a impressão que já vinha deixando por todos os cargos que ocupava: era um grande administrador. Na prefeitura, levou adiante os ambiciosos planos de reurbanização do Anhangabaú começados por Prado e seguidos por Duprat, mas concentrou-se primeiramente no saneamento das finanças. O município estava no vermelho e não diminuindo sensivelmente essa dívida, não havia possibilidade de continuar. Ele criou as feiras-livres, conhecidas como “mercados francos”, o que permitiu que toda sorte de gêneros alimentícios chegasse sem intermediários e a um preço bem mais baixo à mesa do consumidor. Também foi o primeiro a trabalhar por aqui o conceito de casas populares.

Washington e sua esposa Sophia a caminho dos funerais de Bernardino de Campos, grande propagandista dos méritos do Paulista de Macaé, e que faleceu em janeiro de 1915, pouco antes deste completar um ano no cargo de prefeito

Altino Arantes costumava dizer que foi vergastado, em sua passagem pelo governo do Estado — paralela à de Washington na prefeitura — com a praga dos cinco “G”: guerra, geada, greve, gafanhotos e gripe. Na esfera citadina não se pode dizer que o prefeito tenha sofrido qualquer conseqüência com a deflagração da guerra mundial, a geada em algumas regiões do Estado ou da (terrível) praga de gafanhotos que assolava o interior paulista. Mas foi, ombro a ombro com o governador, negociar com os grevistas de julho de 1917, que só aceitavam dialogar com eles e não com os patrões, e teve possivelmente a maior de suas provações como prefeito no combate à gripe que pegou nossa medicina medieval e carniceira de surpresa e matou centenas de milhares de pessoas, sendo dez mil pessoas na cidade de São Paulo.

Como prefeito ele também deu início ao magnífico trabalho de resgate da memória política do município e do Estado. Lançou em livro suas conferências de 1903 sobre o assunto no IHGSP — A Capitania de São Paulo — e ordenou a decifração e publicação das atas da câmara de 1555 a 1826. Sobre essa extraordinária iniciativa de Washington, eis o que disse o erudito Affonso de Taunay: “Ao assumir o governo da cidade, dedicadamente se empenha em salvar da irremediável ruína a coleção de documentos pela qual se reconstitui a vida dos paulistanos desde os anos da fundação. Mais algum tempo e nada restaria de semelhante acervo! Está ele hoje salvo. Já fez o Dr. Washington imprimir mais de doze mil páginas de documentos municipais. E São Paulo, caso único no Brasil, pode orgulhosamente mostrar às mais velhas cidades do país a série quase ininterrupta das decisões de suas municipalidades. Foi um serviço de extraordinária benemerência que ao nome do seu inspirador há de dar mais relevo, aos olhos dos estudiosos do nosso passado”. (Correio Paulistano, 21/10/18)

Também foi de iniciativa do prefeito Washington a criação de um brasão de armas para o muicípio. Verificando que São Paulo não o possuía, instituiu um concurso para a escolha do melhor projeto e desse concurso saiu vitorioso o desenho de José Wasth Rodrigues em colaboração com o poeta Guilherme de Almeida. É nele que vemos a célebre inscrição Non Ducor Duco, que quer dizer "Não sou conduzido, conduzo".

Washington se elegeu governador e deixou a prefeitura em 15 de agosto de 1919. Quem cumpriu o resto de seu mandato na prefeitura foi seu vice, Rocha Azevedo. O Paulista de Macaé governou até 1924, foi eleito presidente, deposto pelo golpe de 30, exilado, voltou ao Brasil em 47 e morreu em 4 de agosto de 1957, aos 88 anos.

ÁLVARO GOMES DA ROCHA AZEVEDO (1919/1920)


Com Álvaro Gomes da Rocha Azevedo entramos de cabeça na necessidade imperiosa de um resgate iconográfico. Seu verbete na Wikipédia tem três linhas. A melhor fonte para Rocha Azevedo na Internet é o site Dicionário de Ruas, que possui um apanhado razoável de informações, embora não traga fotos. Não há, até onde sei, uma única foto desse eminente político na web, e nem em livros contemporâneos. É até oportuno que ele esteja citado com alguma profundidade no dicionário de ruas, porque é seu nome de rua, “alameda Ministro Rocha Azevedo”, a única referência que a posteridade guardou dele.

Rocha Azevedo (centro) e Cardoso Ribeiro (à dir.), respectivamente secretários da Fazenda e da Justiça de Washington Luís, nos funerais de Ruy Barbosa, em abril de 23

Rocha Azevedo nasceu no município mineiro de Campanha, em 26 de janeiro de 1864. Veio para São Paulo com 14 anos, formou-se pelo Largo São Francisco em dezembro de 1888 e, republicano desde sempre, comemorou o advento do novo regime em Mocóca, onde advogava nessa época. Lá foi juiz municipal, juiz de órfãos, juiz de Direito, juiz substituto em Jundiaí, juiz de Direito em Caconde e no início de 1893 veio para a Capital advogar. Foi vereador nas legislaturas de 1905, 1908, 1914, 1917 e 1920. Foi figura perene na Comissão de Constituição e Justiça e vice-presidente da Câmara de 1915 a 1920 consecutivamente. Em abril de 1919 o vice-prefeito João Maurício de Sampaio Vianna renunciou ao cargo e Azevedo foi escolhido para substituí-lo. Meses depois, quando Washington Luís renunciou à prefeitura para assumir o governo, a prefeitura foi para Azevedo, que governou de 16 de agosto de 1919 a 15 de abril de 1920.


Caricatura de Rocha Azevedo da época em que
 era Secretário da Fazenda de Washington Luís
(O Malho, 4/8/23)

O triênio legislativo de 1920 a 1923 Azevedo não cumpriu porque Washington Luís, agora governador, o convidou para compor seu secretariado. No quatriênio do Paulista de Macaé á frente do Estado, Azevedo ocupou as pastas da Fazenda e da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Por seus inúmeros serviços como secretário de governo, Washington Luís o nomeou, em 8 de abril de 1924, ministro do Tribunal de Contas do Estado. Tomou posse em 6 de maio do mesmo ano.

Não há obras significativas que possam ser identificadas com os oito meses de Rocha Azevedo na prefeitura, cuja repartição já funcionava, graças a Washington Luís, no prédio de nº 307 da Líbero Badaró. Não obstante, Rocha Azevedo era uma pessoa respeitada e bem-quista em São Paulo. Era genro do fundador da Paulista, Joaquim Eugênio de Lima. Morreu cercado da família e dos amigos, em 30 de outubro de 1942.

FIRMIANO DE MORAES PINTO (1920/1926)

Firmiano de Moraes Pinto

Firmiano Pinto é o caso mais grave desta lista. É nome de rua no Belém, nome de vila no Ipiranga, busto de Luiz Morrone na Praça Buenos Aires, teve quase 40 anos de vida pública e ninguém hoje tem a mais remota idéia de quem seja. Não há uma única foto sua em lugar nenhum. Seu verbete no dicionário de ruas tem quatro linhas inúteis. Na Wikipédia, uma linha. E foi prefeito durante seis anos. Sete, se contarmos que chegou a ser intendente em 1894, antes da criação do cargo de prefeito! É daquelas figuras que, sem embargo do nome, do prestígio e da carreira, a história simplesmente engoliu.

Por que será? Firmiano esteve à frente da prefeitura durante os festejos do centenário da independência, durante a revolução de Isidoro, em 1924, durante o tenebroso governo do “poltrão de Viçosa”, Arthur Bernardes. É certo que em termos nacionais a prefeitura pouco significava, politicamente, mas mesmo assim, é de São Paulo que estamos falando. Talvez ele tenha passado seus dois mandatos descascando pepinos partidários, já que era figura de relevo no PRP e não lhe tenha sobrado tempo para grandes realizações. Pode ter feito tantos inimigos que seus méritos foram cuidadosamente escondidos depois do golpe de 30. Ou talvez tenha se preocupado com a manutenção do que já havia ao invés de construir ainda mais.

Firmiano, em pé, entre Joaquim Guimarães Natal
(de terno claro) e Zeferino de Faria
Encontrei na Fon Fon fotos suas inaugurando o monumento “Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo”, de Amadeu Zani, em 1925. Só que esse monumento foi planejado por Prado, licitado por Duprat e foi Washington quem recebeu o bronze, o granito e demais materiais. O monumento demorou 16 anos para ficar pronto por pura burocracia e, a rigor, Firmiano não fez mais do que inaugurá-lo. Eis o que dele diz o livro São Paulo e Seus Homens no Centenário, de 1922. É uma biografia concisa que, por sinal, nada fala sobre seu mandato pelo 8º distrito na última legislatura da assembléia provincial, de 1888 a 1889, até a proclamação da República:

O Dr. Firmiano Pinto, filho de Itú, onde nasceu a 4 de maio de 1861, começou em 1880 a sua carreira pública, no cargo de amanuense da secretaria do Governo. Foi escolhido no ano seguinte para o cargo de secretário da Polícia, e, em 1886, nomeado Juiz Municipal e de Órfãos de Limeira. Eleito vereador à Câmara Municipal de São Paulo em 1894, ocupou, o mesmo ano, o cargo de intendente daquela Capital. Em 1895, o 1º distrito confiou-lhe um mandato de deputado à Câmara Federal, do qual se desempenhou brilhantemente. Foi secretário de Estado dos Negócio da Fazenda e Agricultura do governo do Dr. Campos Salles, e mais tarde, da Agricultura com o Dr. Peixoto Gomide.

Voltou em 1898 à Câmara Federal, reeleito pelo 1º distrito, onde soube, pela soma de virtudes que ainda hoje o singularizam na vida política de São Paulo, conquistar as mais radicadas e justas simpatias. Foi comissário do Estado de São Paulo na França e Suíça em 1912. Nos períodos intermediários das suas funções administrativas e políticas tem-se dedicado à lavoura.

Em junho de 1925, lendo o discurso de inauguração do monumento de Amadeu Zani. À esq., o governador Carlos de Campos

O último parágrafo não deixa de ser irônico, considerando como se conduziam as eleições naquela época:

Eleito pela primeira vez prefeito desta Capital em 1920, o Dr. Firmiano Pinto de tão bela maneira vem dirigindo o nosso município que não causará estranheza alguma aos que lhe acompanham a trajetória administrativa a sua reeleição para o elevado posto a que em boa hora foi chamado pela vontade inteligente e divinatória dos paulistas.

Firmiano de Moraes Pinto — bisneto do prefeito — atento a esse desmazelo da história com os representantes do executivo paulistano na República Velha, teve a gentileza de me enviar uma foto de seu bisavô e um rico apanhado de fatos referentes à sua vida. Agradeço o gesto abnegado e benemérito, que ajudará historiadores de hoje e do futuro no trabalho de preservação da memória de nosso município e será, como este artigo inteiro, a única fonte confiável de informações sobre esse enigmático prefeito que se perdeu nas gretas da posteridade:


Firmiano de Moraes Pinto nasceu em Itú a 4 de Maio 1861, filho de Antonio José Pinto e D. Francisca Emilia de Moraes, sendo o caçula dos 10 irmãos. Estudou em escolas públicas em São Paulo, tendo sido um de seus mestres o Padre Chico, Monsenhor Francisco de Paulo Rodrigues (1840-1915), fundador da cadeira 11 da Academia Paulista de Letras. Formou-se em Direito em 1882, pela Faculdade de Direito de São Paulo e logo depois de diplomar-se foi Secretário da Polícia do então Presidente da Província de São Paulo, Francisco Carvalho Soares Brandão. Iniciou sua vida profissional exercendo o cargo de Juiz Municipal na Cidade de Limeira, marcando sua magistratura pelo fato de haver sido o primeiro juiz do Brasil a colocar em execução a Lei Áurea, libertando todos os escravos de seu município. Após a Proclamação da República foi atraído para a vida política do país, estimulado por amigos devido à sua atuação como juiz e por sua forte convicção republicana. Esteve na Intendência Municipal de São Paulo, foi Secretário estadual da Agricultura e da Fazenda, além de Deputado Federal.

Convidado diretamente pelo Dr. Washington Luís Pereira de Souza para ser seu sucessor na Prefeitura da Capital, foi eleito com sugestiva votação e candidatando-se a reeleição, vitoriou-se por esmagadora maioria. (...) Desenvolveu a área urbanizada da Penha, que se limitava a colina, através do loteamento de antigas propriedades rurais que deram origem a Vilas Esperança, Matilde, Guilhermina, Guaiuva, etc. Para homenagear seu amigo e mais prestigioso engenheiro arquiteto da época, deu o nome de Praça Ramos de Azevedo ao largo da Esplanada do Teatro Municipal, devendo-se ainda a ele, com apoio a colônia italiana, o monumento da Carlos Gomes, erigido ao lado do Teatro, esculpido pelo genovês Luigi Brizzolara e fundido no nosso Liceu de Artes e Ofícios, com exceção das apresentações da Musica e Poesia que são de mármore Carrara. O Teatro, o monumento e o ajardinamento do Parque do Anhangabaú faziam parte do projeto paisagístico elaborado por Bouvard em 1911. Colocou novamente a disposição da população a musicalidade do famoso órgão da Igreja de São Bento.

O outro marco de sua administração foi o Parque Dom Pedro II, destinado a abrigar o Parque das Indústrias. As obras tinham sido iniciadas em 1918 mas o projeto foi paralisado em virtude da epidemia de gripe que assolou a cidade, tendo sido retomado e concluído em sua gestão como Prefeito. (...) Autorizou a compra do terreno pertencente aos padres pensionistas para construir o Cemitério São Paulo. Em 1920, viabilizou junto a empresa loteadora do Jardim América, Companhia City — City of São Paulo Improvements and Freehold Land Company Limited, através de permuta, a expansão da área do Clube Athletico Paulistano até a Rua Argentina. Estimulou em 1921 o loteamento do Jardim Europa, que de início chamava-se “Chácara Japão” e igualmente a Vila Olímpia, pelo Coronel Luis Pinto Ferraz como desdobramento da Chácara Itaim, que pertenceu ao General Brigadeiro José Vieira Couto de Magalhães.

Derrubou o famoso chamado quarteirão dos quatro cantos para abrigar a Praça que leva o nome do título de José Bonifácio de Andrada e Silva, a “Praça do Patriarca”. Renovou o contrato de iluminação com a Light e introduziu na cidade os bondes vermelhos apelidados pela população de “Camarões”. Criou e desenvolveu o projeto da construção do Mercado Municipal no Parque Dom Pedro II, em substituição ao antigo projeto não desenvolvido para construir o entreposto na várzea do Carmo. Como Prefeito da Cidade de São Paulo incentivou e colaborou com a Semana de Arte Moderna cedendo Teatro Municipal para que o evento assim se realizasse.


De todas suas atuações como Prefeito de São Paulo a que mais se destacou foi como Herói da Revolução de 1924, tendo sido o único governante a permanecer em seu posto na cidade invadida pelos revoltosos liderados pelo General Isidoro Lopes. Nos 23 dias que perdurou a revolução, o Prefeito Firmiano de Moraes Pinto defendeu a Cidade de São Paulo e sua população de modo implacável, atuando como líder na formação de inúmeros movimentos, bem como na estruturação de várias Comissões de Emergência, entre outras: Abastecimento, Saúde e Transportes. Apoiado pela solidariedade de toda a população e com a doação de recursos das figuras mais ilustres e poderosas da cidade, conseguiu, apesar dos prejuízos, manter a ordem e a tranqüilidade da Cidade. Ao final da revolução foi acusado pelo Governo Federal de cúmplice do General Isidoro por sua bravura de enfrenta-lo frente a frente de maneira civilizada e corajosa. Firmiano de Moraes Pinto defendeu-se das acusações que lhes foram imputadas com grande brilho, através do advogado Dr. Francisco Antonio de Almeida Morato (1868-1948), e seu recurso ao Supremo Tribunal foi julgado como ação benemérita por Sentença do Supremo Tribunal. Foi este o seu mais alto premio: o real reconhecimento da população, elegendo-o Deputado Federal para o período de 1926 até 1930.


Em seu governo ainda teve dissabores com os rumorosos casos do asfalto e da telefônica. Mesmo doente e abatido viajou dia e noite para chegar a tempo à reunião de opor-se ao veto a um ato que lhe pareceu lesivo aos interesses dos munícipes. Em sua gestão, foi comemorado condignamente o Primeiro Centenário da Independência do Brasil, sendo anfitrião das espetaculares festas comemorativas, recebendo o Presidente da Republica, Epitácio Pessoa, o Rei Alberto da Bélgica, a Rainha Elizabeth entre outras pessoas ilustres. Para tal centralizou as obras urbanísticas na inauguração do Movimento do Ipiranga, de autoria do escultor Ettore Ximenor.


Tendo sido amante das atividades hípicas, apoiou a construção da Sociedade Hípica Paulista, no antigo Sitio Capão, na quadra formada pelas ruas Teodoro Sampaio, Pedroso de Moraes, Arthur de Azevedo e Mourato Coelho. Ingressou no quadro associativo do Jockey Club de São Paulo pouco depois de sua fundação tornando-se grande criador e proprietário. Foi diretor e presidente do Jockey Club de São Paulo de 1922 a 1925, portanto acumulando esta atividade com a de Prefeito da Capital. Foi no seu mandato presidencial na ocasião das comemorações do Centenário da Independência que instituiu o Grande Premio São Paulo e iniciou estudos para a construção de um outro hipódromo, maior e mais adequado ao nível internacional. Era freqüentador assíduo do Hipódromo da Mooca, onde era possível encontra-lo junto ao seu amigo inseparável, o ex-presidente da Republica, Washington Luis, ambos sempre ao lado de suas mulheres que salientavam-se por sua elegância.


Firmiano de Moraes Pinto faleceu aos 77 anos em 1938, deixando a viúva Cândida Botelho de Moraes Pinto, filha dos Condes do Pinhal, Antonio Carlos e Anna Carolina de Arruda Botelho, e os filhos Cândida Botelho de Moraes Pinto, casada com Guilherme Prates, Sarah Botelho de Moraes Pinto, casada com Edgard da Rocha Conceição, Maria Carlota Botelho de Moraes Pinto, casada com Sylvio de Andrade Coutinho, Antonio de Moraes Pinto, casado com Izabel Ferreira Cerquinho, Alberto de Moraes Pinto, casado com Helena Monteiro Soares e Firmiano de Moraes Pinto Filho casado com Zelina Monteiro Soares. O casal Firmiano e Candida de Moraes Pinto ainda tiveram as filhas Francisca Emilia e Carolina de Moraes Pinto, falecidas ainda infantes.

A Cidade de São Paulo ofereceu o tributo ao benemérito Prefeito e ao também honrado chefe de Família com a herma de 3 metros executada pelo laureado escultor João Baptista Ferri. Tamanha é gratidão da cidade de São Paulo por todos os seus feitos que ele foi homenageado com uma festa na comemoração de seu centenário, em 4 de maio de 1961, imortalizando com a herma executada pelo artista italiano Luiz Morrone e erigida na tradicional Praça Buenos Aires no bairro de Higienópolis.

Firmiano Pinto voltou para a Câmara Federal depois de sair da prefeitura. O golpe de 30, porém, veio encerrar também a carreira de Firmiano, como de praticamente todos os seus colegas de geração, com raras exceções. Ele morreu às 15:45h do dia 8 de fevereiro de 1938.

JOSÉ PIRES DO RIO (1926/1930)

José Pires do Rio

Esse era vinho de outra pipa. O último prefeito de São Paulo na República Velha estava no mesmo nível de Prado e Washington. Talvez até superior. Era notável como inteligência, como político, realizador e administrador. Já tracei aqui o perfil biográfico de Pires do Rio, então vou resumir: ele nasceu em Guaratinguetá, interior de São Paulo, em 26 de novembro de 1880. Formou-se em Engenharia e Farmácia em Ouro Preto, trabalhou na obra dos portos do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, lecionou hidráulica na Escola Politécnica da Bahia e foi inspetor federal nas estradas de ferro Madeira-Mamoré e Belém-Bragança. Exerceu o ministério de Viação e Obras Públicas de Epitácio, em 1919, onde realizou obras contra a seca no nordeste, construiu a ponte sobre o rio Paraná e promoveu expansão nos Correios e Telégrafos do Estado de São Paulo. No último ano daquele quatriênio presidencial, Pires exerceu interinamente a pasta da Agricultura, Indústria e Comércio. Findo o mandato de Epitácio, voltou para São Paulo e se candidatou a deputado federal, cargo que exerceu até outubro de 1925, quando candidatou-se a prefeito.

Pires do Rio por Belmonte (O Malho, 26-3-27)
Ocorreu entre o presidente Washington Luís e o prefeito Pires do Rio o que ocorreu na década de 50 entre JK na presidência e Jânio Quadros no governo; uma parceria que fez o Estado avançar décadas no setor rodoviário. Se Washington era o “presidente estradeiro”, encontrou em Pires o “prefeito estradeiro”. Eis o que diz elucidativo artigo do Correio Paulistano em 23 de maio de 1937, sobre o assunto:

Por ventura a metrópole poderá olvidar as notáveis realizações levadas a cabo por esse ilustre engenheiro paulista? O Sr. Pires do Rio deve ser considerado como uma dos maiores governadores que temos tido. S. Excia. encarou, de frente, o problema do calçamento. Cuidou de todas as saídas da cidade, a da Lapa, na estrada para Campinas; de São Miguel, na saída para o Rio de Janeiro; a do Ipiranga, no caminho para Santos; a do Jabaquara, etc. Depois das rodovias, voltou suas vistas para a pavimentação, beneficiando quase todos os bairros da cidade. A revolução de 30 encontrou Pires do Rio já cuidando do centro urbano: já estavam prontas as ruas Direita e XV de Novembro. Em começo a rua da Liberdade... E o Mercado Municipal? E a abertura da avenida Anhangabaú, hoje 9 de Julho? E a conclusão das obras da avenida São João? E os trabalhos preliminares da retificação do Tietê? E a ampliação dos serviços de higiene e limpeza pública? É preciso não olvidar, embora gratidão não seja virtude obrigatória...

Caricatura de Figueroa em O Malho de 8/2/1930, para comemorar o segundo mandato de Pires do Rio. Na legenda original se lê: "O Sr. Pires do Rio tem, como administrador, três qualidades preciosas: é honesto, é trabalhador e é inteligente. Homem de espírito, de cultura e de educação, não lhe é difícil, portanto, impor-se aos olhos dos seus contemporâneos como uma das figuras mais expressivas do Brasil Novo. Assim, torna-se muito justa a homenagem que, na página deste número, o nosso cronista em São Paulo presta ao grande prefeito".

Poderia citar também as pontes artísticas do Tamanduateí, a Ladeira do Carmo e assim por diante. Mas focalizo o comentário sobre a avenida 9 de Julho: a colaboração entre Pires do Rio e o engenheiro e arquiteto Francisco Prestes Maia — que trabalhava na secretaria de Viação — foi outra daquelas parcerias que estão no DNA de São Paulo. Há o “Plano de Avenidas”, que Maia elaborou naquela época, e cerne de tudo que esse grande amparense faria a partir do momento em que ele próprio chegasse à prefeitura, em 1938. Mas se há algo pelo qual Pires do Rio deve receber imediatamente um crédito que não recebeu nunca, é pela paternidade do Parque do Ibirapuera. Muito se fala de Manequinho Lopes, Fábio Prado e até meu amado e saudoso Assumpção Ladeira, que foi quem apresentou o requerimento, em 48, que colocou o projeto nos trilhos, mas a verdade é que esse parque tem um único pai, e se chama José Pires do Rio. Em relatório apresentado pela prefeitura em 1926 ele já dizia:

Os terrenos da Várzea de Santo Amaro que formam a Invernada dos Bombeiros e a antiga Chácara de Ibirapuera, pertencem ao Estado e ao município. Situados na planície que começa no sopé da colina da avenida Paulista, e fica entre o fim da rua Brigadeiro Luiz Antônio, a Estrada de Santo Amaro, o córrego Uberaba, à cuja margem esquerda fica Indianópolis, limitados por Vila Clementino e Vila Mariana, esses terrenos da Invernada dos Bombeiros e da Chácara Ibirapuera se prestam, admiravelmente, à construção de um imenso jardim ou parque, com área igual à do Hyde Park de Londres, igual à metade do Bois de Bologne, de Paris. A menos de dez minutos de bonde da Liberdade ou de Higienópolis, na vizinhança de Vila Mariana e do Jardim América, temos essa grande extensão de terreno público e vazio de construções. Impunha-se a iniciativa de um vasto parque, útil à higiene da população urbana. (Bandeiras de Brecheret, 1985)

O governador Júlio Prestes e o prefeito José Pires do Rio, dezembro de 1927

Haveria mais a dizer sobre a obra de Pires. Ele, assim como todos, de certa forma, está a merecer o trabalho de pesquisa que o recoloque em seu patamar de importância para o município, o Estado e o país. Mas por enquanto é o suficiente.

Pires do Rio foi o único dos prefeitos da República Velha a assumir um cargo público depois do golpe de 30: ele foi ministro da Fazenda do governo transicional de José Linhares. Também escrevia uma coluna para o Jornal do Brasil e estava em Nova Delhi, na Índia, quando foi fulminado por um mal súbito. Morreu em 23 de julho de 1950.
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Bibliografia
  • Careta
  • A Cigarra
  • Fon Fon
  • A Lua
  • O Malho
  • O Pirralho
  • Revista da Semana
  • Correio Paulistano
  • Diário Nacional
  • BATISTA, Marta Rossetti. Bandeiras de Brecheret. São Paulo, DPH, 1985.
  • DEBES, Célio. Washington Luís (1869/1924). São Paulo, IMESP, 1994.
  • Vários. São Paulo e seus homens no Centenário. São Paulo, Tipographia Piratininga, 1922
  • Agradecimento a Firmiano de Moraes Pinto, IV
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Atualização em 02/09/2017 - Quando publiquei este artigo, há três anos e meio, disse logo no início, sobre procurar qualquer coisa no Google, que "não só procurei como me dei conta há muito tempo que no Google estará aquilo que EU colocar". Disse também que "para 'roubartilhar' há milhões de pessoas. Para contribuir com material inédito e corrigir o que está errado, há um punhado de pessoas".

Que triste constatar o quão certo eu estava! As fotos e textos deste artigo foram vampirizados por inúmeros sites e até mesmo por uma revista. Conto em dois ou três dedos aqueles que deram algum crédito ao blog ou às publicações do início do século passado, de onde tirei essas fotos e as informações coligidas para escrever o texto.

Que triste.
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