sexta-feira, 5 de março de 2010

Sobre "Capitu", de Luiz Fernando Carvalho


Quando escrevi para este blog um texto acerca da minissérie Som e Fúria, um jovem amigo me mandou um comentário dizendo: "Espero que Fernando Meirelles leia e entenda de uma vez por todas que TEATRO e CINEMA são duas coisas diferentes". Esse comentário – absolutamente infeliz – prova que meu amigo ou não viu a minissérie ou não compreendeu o que eu escrevi (ou os dois, o que acho mais provável). Som e Fúria não é obra teatral adaptada para o cinema; é obra cinematográfica que fala de teatro. E a despeito dos inúmeros defeitos de roteiro e elenco, é impecável justamente como produção e linguagem. Curiosamente, o lugar onde esse comentário desastrado teria mais sentido é aqui, no texto que ora apresento sobre a micro-série Capitu, que foi ao ar na Globo em dezembro de 2008.

Luiz Fernando Carvalho e Machado de Assis

A intenção do diretor Luiz Fernando Carvalho, de homenagear o centenário da morte de Machado de Assis e ao mesmo tempo levar a literatura brasileira para a televisão, é das mais nobres e acredito que em larga medida tenha alcançado seu objetivo. Sou obrigado a questionar, entretanto, a maneira como isso vem sendo feito. Em conversa com Antunes, há vários anos, ele me disse uma coisa que jamais esqueci, sobre direção teatral: "Não sabe fazer, põe nariz de palhaço". É o que sinto quando assisto qualquer coisa realizada por dois famosos diretores de São Paulo, e as micro-séries de Luiz Fernando Carvalho. O diretor insiste não apenas em aplicar uma linguagem teatral a todos os seus trabalhos, mas em exagerá-la ao máximo, a ponto de transformá-la em circo. O artifício foi utilizado com relativo sucesso em Hoje é dia de Maria, perdeu fôlego na "segunda jornada" da mesma micro-série, ambas em 2005, acabou passando em brancas nuvens em 2007, com a adaptação de A Pedra do Reino, e teve, provavelmente, seu ápice com Capitu.

As caretas de Michel Melamed

O primeiro capítulo foi uma tal confusão de vinhetas, inserções, cenários teatrais, e performances estupidamente caricatas que chegou a cansar depois de 20 minutos. O que se viu foi uma panacéia que misturou videoclipe, o efeito já manjadíssimo no cinema americano de ilustrar referências com imagens de arquivo, alucinações ou devaneios que tomam forma (coisa que até o Monty Python já fazia no início da década de 70), truques e brincadeiras testadas anteriormente na TV por Guel Arraes e João Falcão, e a intercalação da narrativa machadiana com elementos da modernidade como o metrô, o telefone celular e a repetição ad nauseam de uma musiquinha idiota americana chamada "Elephant Gun". Fotografia nota dez. Relevância e, sobretudo, originalidade, nota zero. Uma mistura de Monty Python com o Moulin Rouge de Baz Luhrmann, o Frida de Julie Taymor e sabe-se lá o que mais. A audiência foi de 17 pontos, em horário nobre.

As caretas de Antônio Karnewale

Bentinho (Michel Melamed) já envelhecido aparece para narrar e – lógico – é um clown. Sua maneira de andar é tão falsa que faz lembrar a velhinha surda de Roni Rios na Praça da Alegria, a fala é tremelicosa e exagerada, a maquiagem é pesada, o bigode é pintado e a interpretação é canastrona. Todos, com exceção de Bentinho jovem (César Cardadeiro) e sua mãe (Eliane Giardini), em sua família são clowns. Tudo são caretas, tudo é artificial, tudo é além da conta. Nisso, aliás, perde-se um dos melhores personagens do livro, que é o agregado José Dias, interpretado de forma quase amadora por Antônio Karvewale. Os dois parecem atores de uma peça ginasial. Culpa dos atores? Não. Da direção.

O desperdício de Izabella Bicalho e Thelmo Fernandes

Do lado de Capitu o desastre é menor. O pai, Pádua (Charles Fricks) é clown como Bentinho envelhecido, exagerado e farsesco. Já Capitu (a lindíssima Letícia Persiles) e sua mãe (a maravilhosa Izabella Bicalho) parecem ter se salvado. Num verdadeiro refrigério da motoniveladora circense que esmagou a micro-série, as duas são o que há de melhor, na interpretação natural e espontânea que dão a seus personagens. Izabella por seu talento, infelizmente desperdiçado em uma participação mínima, e Letícia por sua extraordinária e hipnótica beleza. Destaque - também pelo desperdício - é o competente Thelmo Fernandes.

A extraordinária beleza de Letícia Persiles

Minha impressão é de que tanto o artifício de transformar tudo em teatro ou circo, o mais forçado e falso possível, quanto esse disfarce de "atemporalidade", misturando Machado de Assis com o "Iron Man" do Black Sabbath, é, de fato, preguiça. É a mistura do que disse Antunes, sobre não saber fazer, combinado com a preguiça de aprender e correr atrás. O roteiro de Euclydes Marinho é bom e se prestaria a vôos altíssimos em mãos mais experientes e menos preguiçosas.

Por que transformar o Rio do fim do século XIX em uma coxia de teatro, ou em um picadeiro? Porque é mais fácil do que fazer o necessário trabalho de reconstituição da época. Por que transformar Prima Justina em um personagem que chega a perder sua graça por ser excessivamente caricato? Porque é mais fácil do que procurar uma boa atriz que saiba tirar o humor exato de uma interpretação convencional. Por que usar a ridícula "Mercedes Benz" de Janis Joplin para ilustrar um passeio de Capitu e Bentinho? Porque é mais fácil do que pesquisar a música da época, ou usar o "Odeon" de Chiquinha Gonzaga pela undécima vez, como se faz em todos os seriados de época da Globo. Melhor deixar no meio do caminho, sem fazer uma produção ambientada no tempo em que se passa, e sem modernizar de uma vez, trazendo-a para os dias de hoje. Isso não é atemporalidade. Isso é o que se faz nas escolas. Não há tecidos para fazer o figurino, usa-se o papel-crepom. Ninguém vai reparar a diferença, e se alguém perguntar, basta dizer que é "atemporal".

A Capitolina madura de Maria Fernanda Cândido

Os exemplos são inúmeros, mas o que mais choca é como a série cresce quando essa bagunça de vinhetas, videoclipes e demais bobagens teatrais e circenses dão lugar à interpretação de verdade. Letícia Persiles e César Cardadeiro se beneficiam com isso de certa forma, mas quem acaba, surpreendentemente, se destacando, é Maria Fernanda Cândido, que trabalha somente nos dois últimos capítulos. Carvalho parece ter se cansado, a essa altura, e deixou que a dramaturgia seguisse seu curso normal, com atores contracenando de verdade, sem clowns, biombos, panos, balés, piruetas e a infinidade inútil de inserções e interrupções dos primeiros capítulos. Com efeito, as melhores cenas são aquelas que envolvem Bentinho e a Capitolina de Maria Fernanda, já madura.

A jovem Capitolina de Letícia Persiles

É uma pena. Os intelectuais de cozinha, as meninas de 16 anos e os fãs do Beirut (banda que canta "Elephant Gun"), do alto de sua excelsa cultura, resolveram culpar a "ignorância do povo brasileiro" pela baixa audiência da micro-série. Estarão certos? Ou será que esse pastiche de Machado de Assis com circo não foi um equívoco palmar, em que se queimou o cartucho precioso de brindar o público televisivo com essa jóia literária? Salva-se a descoberta de Letícia Persiles. Linda já sabemos que é. Resta agora saber se é talentosa. Quem sabe no próximo trabalho tenha espaço e oportunidade para mostrar. O que terá acontecido ao esforço do fim da década de 80 e início da de 90 para se produzir obras-primas como O Primo Basílio ou Desejo? Terá desaparecido, junto ao outrora célebre Padrão Globo de Qualidade, no momento em que Boni deixou a Globo?

quarta-feira, 3 de março de 2010

Sobre "Filhos do Carnaval", de Cao Hamburguer e Elena Soarez


Seguindo a tendência das HBO internacionais de produzir suas próprias minisséries, a filial brasileira também se aventurou na empreitada e em 2005 pariu a deplorável Mandrake, destruindo o personagem criado por Rubem Fonseca. Talvez o raciocínio dos produtores tenha sido de que o público da HBO engoliria passivamente o mesmo lixo que se vê nas novelas todos os dias, então adotaram o expediente global de escalar um péssimo protagonista – Marcos Palmeira – e adorná-lo com erotismo gratuito e um elenco de cobras coadjuvantes que supririam a absoluta falta de talento do ator principal. Não deu certo e a minissérie naufragou pavorosamente. No ano seguinte, aprendida a lição, a HBO voltou à carga, destacando o diretor Cao Hamburguer e a roteirista Elena Soarez para mais uma tentativa.

Felipe Camargo e Jece Valadão

A impressão é que os dois repetiram tudo o que foi feito na primeira minissérie, só que ao contrário. Eles apresentaram uma história original, Filhos do Carnaval, escalaram um grande protagonista, Jece Valadão, e jogaram ilustres desconhecidos na coadjuvância, com a diferença fundamental de que estes coadjuvantes provaram ser extremamente talentosos. O produto, como não podia deixar de ser, quando se une uma ótima história a um elenco competente, é de primeiríssima qualidade.

Jece e Thogun

Filhos do Carnaval conta a história do bicheiro Anésio Gebara (Jece), seu império, que inclui centenas de pontos de jogo do bicho, máquinas de caça-níquel e uma escola de samba, e a relação que tem com os quatro filhos, dois legítimos (Felipe Camargo e Enrique Diaz) e dois bastardos (Thogun e Rodrigo dos Santos). O argumento e o roteiro são excelentes e fogem completamente dos estereótipos intragáveis que se veiculam sobre o Rio, no cinema de hoje: miséria e violência superlativas nos morros ou opulência nababesca e criminosa nos condomínios de luxo. Nada disso. A minissérie de Cao e Elena mostra um Rio sóbrio, verdadeiro, que tem favelas e tem a avenida Atlântica, ricos e pobres têm filhos, têm dores de cabeça e todos fazem uma coisa só, que é sobreviver.

Enrique Diaz, Rodrigo dos Santos, Thogun e Jece

A desgraça, o tráfico e as chacinas dos morros deixam de ser o cartão postal invertido em que se transformou o cinema brasileiro de hoje e dão lugar ao verdadeiro drama, que é familiar, humano, e o Rio é apenas cenário. Os temas são a ganância, a inveja, a lealdade e a deslealdade, a cobiça, a solidariedade, qualidades e defeitos de cada um e assim por diante. Jece é o velho patriarca da contravenção, Anésinho (Camargo) é o filho inconseqüente e preferido, Cláudio (Diaz) é o filho alijado e pequeno-burguês, Nilo (Thogun, fio condutor da trama) é o bastardo conformado e disciplinado e Brown (Santos) é o bastardo irresponsável e eternamente adolescente.

Diaz e Mariana Lima

As sub-tramas são todas críveis, sem maniqueísmo, sem breguice, sem serem piegas. É possível compreender a agonia de Thogun sobre o mistério em torno da morte de sua mãe, como é possível sentir o terror que leva Anésinho ao suicídio no primeiro capítulo, e o desconforto de Cláudio na lida diária com a contravenção que ele mal conhece. Brown é o retrato do adolescente que cresceu à deriva, irresponsável e impune. Sua mãe, o protótipo da mãe ignorante e complacente; Dona Dadá, o exemplo da empregada chata e falastrona; Órfão, o próprio penetra sem eira nem beira. A personalidade de cada um é burilada à perfeição. São críveis porque a um tempo nada se lhes sonega e nada se lhes exagera. E tudo graças ao texto bem amarrado e enxuto, mas sobretudo pelas grandes interpretações.

Felipe Wagner e Jece

Dá um alento especial ao coração ver que Jece Valadão – morto aos 76 anos, meses depois da minissérie ser veiculada – teve um último grande papel para fazer brilhar seu extraordinário e incompreendido talento. Os veteranos Jorge Coutinho (Joel) e Felipe Wagner (Sírio) dominam a tela a cada aparição. Os conhecidos Felipe Camargo e Enrique Diaz estão ótimos. O canalhinha Órfão ganha peso e humor na interpretação de Felipe Martins. Mariana Lima (Ana Cristina), à semelhança do que já disse anteriormente sobre Andréa Beltrão, é outra que depois de mais de uma década de trabalhos amorfos e esquecíveis, começou finalmente a ter um caso de amor com a câmera.

Em sentido horário: Shirley Cruz, Maria Manoella, Roberta Rodrigues e Sabrina Rosa

O show, entretanto, fica quase que exclusivamente a cargo dos desconhecidos Thogun, Rodrigo dos Santos, Shirley Cruz (Glória), Maria Manoella (Bárbara), Roberta Rodrigues (Rosana), Sabrina Rosa (Carlinha) e até mesmo Thiago Queiroz, que faz o menino Cris. Todos brilhantes. Filhos do Carnaval é uma luz no fim do túnel. É Cao Hamburguer e Elena Soarez ensinando nossos cineastas a fazer cinema e a Globo a fazer novelas. É lição de casa para Jayme Monjardim e Daniel Filho. É mostrar violência sem precisar de cabeças rolando e sangue sendo espirrado. É erotismo sem uma única cena de nudez frontal. É o morro pelo morro e Copacabana pelo que é, nem melhor e nem pior. Uma aula de cinema e de televisão.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Sobre "Alô, Alô, Terezinha!", de Nelson Hoineff


O documentário Alô, Alô, Terezinha! de Nelson Hoineff não é sobre a vida de Abelardo Barbosa (1917/1988) ou uma investigação jornalística acerca da criação e produção de seu programa. É uma espécie de colcha de retalhos que pretende traçar um retrato humano do programa e seus participantes. São lembranças ao acaso, tendo como fio condutor as chacretes, artistas, profissionais de bastidor e calouros. O formato atiça a curiosidade do espectador. Mas o espectador que viveu a época, bem entendido. Fora de contexto, minha impressão é que a nova geração deve assistir Alô, Alô, Terezinha! como um documentário sobre alguém desconhecido, nas lembranças de gente mais desconhecida ainda. O que aparentemente seria o mérito do trabalho - dinamizar a narrativa pulando a parte histórica - acaba sendo o preço que se paga pela alienação do jovem, que no máximo saberá quem é Rita Cadillac por seus filmes pornôs.

Não me alongarei. No fim tive duas impressões muito claras. A primeira é de que houve uma vulgarização absoluta das chacretes. Ou melhor; valorizou-se a participação daquelas que têm podres a desfiar ou fofocas de alcova para compartilhar. É evidente que ninguém esperava que 10 ou 20 das mulheres mais lindas, sexys e desejadas da televisão nas décadas de 70 e 80 fossem virgens ou virtuosíssimas, mas eu mesmo assisti Chacrinha desde o fim dos anos 70 até sua morte, passando pela Discoteca, a Buzina e por fim o Cassino, e por mais que fosse apaixonado por todas elas e passasse os sábados (ou domingos e quartas, dependendo da emissora em que ele trabalhou) vidrado na TV admirando-as, sempre considerei seu programa um programa de classe. Era propositalmente esculhambativo e escrachado, mas dentro de um patamar inarredável de bom gosto. As chacretes eram infinitamente mais sensuais do que a tropa de vagabundas que infesta nossa mídia atualmente, e em momento algum vi qualquer apelação, banalização da moral ou desrespeito ao público infanto-juvenil que acompanhava o programa, que era vespertino. Jamais. Infelizmente, o documentário de Nelson Hoineff segue uma linha trash, estupidamente sensacionalista que dá, por vezes, ao público que não assistiu o Chacrinha, a impressão de que seu programa era um grande puteiro dos artistas e dos profissionais envolvidos na produção.

E em segundo, talvez por ser historiador, senti falta de uma abordagem mais histórica, mesmo. O maestro Aloir Mendes, o factótum Russo, Dona Florinda, Gilberto Gil e outros são olimpicamente desperdiçados. São pessoas com memórias e lembranças extraordinárias, sem preço, e que no documentário não passam de figurantes, com participações mínimas e sem qualquer valor. Gastam-se minutos com a blablação e a cantoria de calouros, em sua maioria desinteressantes e ridículos, e uma figura como Boni, que conhecia Chacrinha com a intimidade de poucos, aparece uma única vez durante segundos. Tempo precioso é gasto para que chacretes embarangadas dos anos 70 exponham suas misérias pessoais, como fazer programa ou gostar de bandidos, mas nada se comenta sobre aquelas que eram professoras de dança, universitárias, disciplinadas e dedicadas ao trabalho. Também não me passou desapercebida a quantidade mínima de imagens de arquivo, e sua baixa qualidade. Não é possível que não haja na Bandeirantes e na Globo programas dos anos 80 completos e bem conservados. Até as imagens da Tupi estão melhores.

O documentário sobre Chacrinha e as chacretes ainda precisa ser feito. Não para trazer à tona meia dúzia de chacretes relapsas em sua decadência ou em suas fraquezas, mas para que o povo entenda por que todos os apresentadores antes, durante e depois de Chacrinha tinham dançarinas, e no entanto só as chacretes são conhecidas, por seus nomes e pelo brilho que emprestavam ao programa. E não para expor Chacrinha como um velho sibarita que comandava um cabaré televisivo, mas contando a história do comunicador, do radialista e do homem de televisão que criou o mais maravilhoso programa de entretenimento da história da TV brasileira. Um programa que as emissoras até hoje tentam imitar desesperadamente, sem jamais conseguir recriar a magia emanada por Abelardo Barbosa e suas dançarinas. Um programa que lançava artistas novos, prestigiava os antigos, brincava com o público, zombando a um tempo consigo mesmo e com esse mesmo público, dando pão e circo, sem compromissos, sem preconceitos, sem regras e realizando uma façanha inigualável: a de entreter sem emburrecer.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Seu Chico, Getúlio e a Rádio Record


Francisco Assumpção Ladeira nasceu em 1910. Estudou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco no período que antecedeu o golpe de 1930 até a revolução de 32. Tornou-se procurador da prefeitura em 1935, com Fábio Prado, freqüentou desde essa época o Automóvel Clube e o Jockey Clube. Filiou-se à UDN. Elegeu-se vereador em 1948, na primeira legislatura depois do Estado Novo. Conheceu de vista ou intimamente todos os presidentes brasileiros desde Epitácio Pessôa. Viu Zequinha de Abreu tocar "Tico-Tico no Fubá" ao vivo. Recebeu Ernesto Nazareth em sua casa. Mário de Andrade tem hoje uma rua com seu nome graças a Seu Chico. O Parque do Ibirapuera deixou de ser apenas invernada do Corpo de Bombeiros para virar parque, mesmo, por seu requerimento, quando vereador. Compartilhava feijoadas com Procópio Ferreira no TBC semanalmente. Freqüentava a Pensão Humaitá, de Yan de Almeida Prado, com Prestes Maia. Conviveu com todos os grandes advogados brasileiros do século XX. Deu caronas a Jânio quando este era um pobre vereador...

Não há como fazer um simples resumo de sua vida e de suas lembranças. Não de alguém que tem em suas lembranças de criança a Revolução Russa e a Gripe Espanhola. São material para vários volumes alentados de memórias. Neste tópico, onde procuro prestar singela homenagem pelo quase centenário deste querido e precioso amigo - primeira de muitas, se Deus quiser - ele fala da Rádio Record, como se diz proverbialmente em inglês, since the day before yesterday, quando a Record sequer pertencia a Paulo Machado de Carvalho. Uma gota no oceano de lembranças de Seu Chico, e no entanto, material que não se encontra praticamente em lugar nenhum. E quando se encontra, não é pela palavra abalizada de quem viveu a época e foi testemunha ocular dos fatos. Conversar com Seu Chico e conversar com Josefo, com Políbio. É conhecer a história de São Paulo e do Brasil em primeira mão.
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O "torrãozinho" a que se refere Seu Chico

Então acontece o seguinte: havia em São Paulo duas estações de rádio. Uma era a Educadora Paulista, e a outra era a Rádio Record. A Educadora Paulista funcionava naquele Palácio das Indústrias, na várzea do Carmo, ali, e tinha um torrãozinho em cima, e começava o programa com a música Rapaziada do Brás. E Rapaziada do Brás era música do Alberto Marino [1902/1967 - a valsa, de 1927, recebeu uma letra composta por seu filho, em 1960]. Onde tinha as Porteiras do Brás, agora é um viaduto que se chama Alberto Marino, e quando ele publicou essa música, que era o intróito do programa da Educadora, ele publicou com o nome de Bertorino Alma, e Bertorino Alma é um anagrama, você aproveita todas as letras de Alberto Marino.

A Rádio Record foi fundada por um camarada chamado Álvaro Liberato de Macedo. Ele tinha uma casa de discos na rua São Bento chamada Casa Record [entre outras coisas, "disco", em inglês], por isso deu esse nome pra estação. Uma casa que vendia vitrolas, discos, gramofones, e havia um funcionário nessa casa, meio-tio meu, chamado Querubim Assumpção, que tocava muito bem violino, tudo isso, sabe? Mas acontece que o Álvaro teve umas encrencas loucas... e separou-se da mulher dele, e depois tinha um desordeiro aqui em São Paulo chamado Joaquim Jaguaribe. Era um desordeiro famoso, e um dia o Álvaro estava num bar na rua Líbero Badaró, e esse desordeiro chegou e disse: 'Eu vou urinar na sua perna'. O Álvaro tirou o revélver e pá!, matou o sujeito. Esse Joaquim Jaguaribe era famoso. Era Joaquim Jaguaribe Lacerda de Abreu.

Aí outro dia o Geraldo Nunes estava fazendo um programa sobre a revolução de 32, e o Paulo Bonfim falou no Jaguaribe, que o Jaguaribe foi soldado em 32, soldado em 32 nada, porque em 1929 eu fui visitar o Álvaro que estava preso, lá no Instituto Paulista, arranjaram um atestado médico e ele ficou preso no hospital... porque eu me dava com ele, e o filho dele, Álvaro Macedo Filho era muito amigo meu, o Alvinho Macedo, que era um sujeito técnico em rádio, e foi um dos que fundaram a estação. De maneira que o Paulo se enganou. Depois me ligou e ficamos uma hora no telefone.

Paulo Machado de Carvalho
 
A casa de discos existia desde 1926, 27, sei lá, e em 28 ele fundou a Rádio Record. Mas com esses dissabores todos, ele resolveu parar a estação. Aí esse meu tio, com o irmão dele, que chamava-se Luís, que era pianista, meio-tio meu também, resolveram que ao invés de parar a estação, iam tomar conta dela e colocá-la no ar. Disseram ao Álvaro, 'o senhor vai lá quando quiser, pra estação não ficar fechada'. Então havia a Rádio Educadora e a Rádio Record em 1928, 29, 30. Em 31, o Paulo Machado de Carvalho [1901/1992] comprou a Record, e passa daí, ao início da estação, e ninguém se lembra que antes de 1931 a estação já existia há 3 ou 4 anos, e nesse tempo, então, eu era estudante de direito, em 1928, 29, que eu entrei na faculdade, eu fui pra estação pra ajudar o Luís, era ele quem tomava conta, lá na praça da República, onde funcionou até a revolução de 32.
 
Toda noite eu ia pra estação, às vezes falava no microfone como speaker, às vezes fazia contratos de publicidade, e nós tocávamos a estação, e quando foi 1930, 1931, mais ou menos, que o Álvaro resolveu vender, nós não tínhamos dinheiro pra comprar. Ele queria vender a estação, mas disse que queria 35 contos, e nós não tínhamos 35 contos. E 35 contos, na ocasião... um automóvel custava uns 10 contos... seriam 100, 120 mil reais, por aí, e o Paulo Machado comprou a estação. Eu conhecia o Paulo porque era muito amigo do Marcelino, irmão dele. O Marcelino era colunista social e escrevia livros sobre comida, bebida e etiqueta.

Getúlio Vargas

Eu era a favor do Getúlio, tanto que nessa ocasião que eu estava na Record, em 1929, houve um dia em que eu fiz uma propaganda do Getúlio, e no dia segunte apareceu lá na Record o delegado de ordem política, Laudelino de Abreu [1894/1962]. E o Laudelino disse 'Ô moço, aqui não se faz propaganda de gaúcho nenhum, não. E a estação está fechada!' Fechou a estação durante três dias. Depois disso nós procuramos o Laudelino e pedimos pra ele abrir a estação, dar licença para nós, que não faríamos mais propaganda para o Getúlio. Esse Laudelino morava aqui na rua Turiassú, e depois da revolução empastelaram a casa dele.

Três dias antes de terminar a revolução houve uma chamada dos reservistas, e eu já era reservista, porque freqüentei o Tiro da faculdade de Direito, que se chamava "Escola de Instrução Militar 52". Tinha uma sala de armas chefiada pelo tenente Pessoa Cavalcanti, que depois se tornou um general conhecido, parece que era José Pessoa Cavalcanti [não encontrei registro de Pessoa Cavalcanti - 1885/1959 - no Largo São Francisco], mas acontece que desses reservistas, publicaram o nome de alguns, e o meu nome foi publicado juntamente com o Luís Eulálio Vidigal, mas nós não chegamos a nos apresentar, porque três ou quatro dias depois, a revolução acabou. Quando o João Alberto Lins e Barros foi interventor, o pessoal da faculdade de Direito o combateu muito. Até houve um desafio qualquer, e ele disse que se os estudantes fossem procurá-lo, encontrariam a ele 'na retranca de uma metralhadora'. E justamente aquela parte da faculdade de Direito que era privada, passou a se chamar 'sala da retranca'.

Eu era da oposição. Era veladamente do Partido Democrático, meu tio Laerte Teixeira Assumpção foi um dos fundadores do PD, e eu ouvia em casa, o meu pessoal todo era contra o PRP, que era o partido da situação, o partido do Júlio Prestes, Partido Republicano Paulista, e depois, passados dois anos mais ou menos, houve a revolução de 32, que nada mais foi do que uma revanche dos paulistas. Quando os gaúchos vieram em 30 e quiseram amarrar os cavalos, no Rio de Janeiro, no obelisco, e em São Paulo andaram batendo esporas no viaduto do Chá, isso revoltou muito o brio dos paulistas, e a revolução foi uma vingança contra o regime do Vargas. Esse negócio de constituição, e tal, tinha razão de ser evidentemente, mas no fim foi tudo revanche.

João Pernambuco

Na Record, então, eu tive ocasião de conhecer muitas pessoas interessantes. Me lembro um dia que chegou o João Pernambuco [1883/1947], autor do Luar do Sertão, a música era do João Pernbambuco, letra do Catulo Cearense, e depois tem uma música dele, muito interessante, que é pra violão, que chama-se Sinos e Carrilhões. E o Pernambuco chegou lá, e fui conversar com ele. Parece que estou vendo ele. Era um homem do meu tamanho, talvez um pouquinho maior do que eu, e tocava violão com o violão aqui, sabe? [como se fosse um contrabaixo]

Seu Chico imita a maneira que João Pernambuco tocava seu violão

Nessa ocasião ele já tinha 50, 60 anos. E assim outros músicos que conheci por lá. Eu lembro do [tenor] Arnaldo Pescuma [1903/1968], me lembro de um trio chamado 'Beraldini, Corazza e Torres' [não encontrei referência, mas o 'Corazza' pode ser do violoncelista Calixto Corazza], que era um trio de violino, piano e violoncelo, que durante a semana tocava na Casa de Chá do Mappin, ali na praça do Patriarca. Eu era advogado da prefeitura, que funcionava lá na Líbero [Badaró, 377, no térreo do Palacete Prates], mas às quatro da tarde eu saía, e ia pro Mappin tomar um chá, e ouvia aquela música suave do trio lá... eram duas casas que serviam chá, a Casa Alemã, na rua Direita, e o Mappin, compreendeu?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

ALÔ, DOLLY!, com Bibi Ferreira e Paulo Fortes


Meus caros,
o escritor americano Thornton Wilder (1897/1975) se baseou em duas comédias do século 19 (uma austríaca e outra inglesa) para escrever a peça The Merchant of Yonkers, em 1938. Levada ao palco em Nova York, foi um desastre.

Passados 17 anos, o renomado diretor inglês Tyrone Guthrie (1900/1971) expressou o desejo de revisitar o texto fracassado de Thornton. Ao invés de simplesmente adaptar o texto original para impedir novo fracasso, o autor resolveu reescrever a peça, indo beber na fonte original dos textos do século 19: a Aululária de Plauto e o Avarento de Molière. E desse novo trabalho surgiu The Matchmaker (A Casamenteira). O personagem da alcoviteira Dolly Levi é filha legítima da Frosine de Molière, assim como Harpagon seria o alterego de Horace Vandergelder.

Ruth Gordon foi a primeira Dolly, e a peça teve bastante sucesso em sua estréia, em 1955. A peça virou um filme com Shirley Booth e Paul Ford em 1958.


Em 1964, Thornton exorcizaria de uma vez por todas o doloroso fracasso de 1938: The Matchmaker foi transformada em musical, com libreto de Michael Stewart (1924/1987) e música e letras de Jerry Herman (1931). Rebatizada de Hello, Dolly!, a peça tornou-se um sucesso fulminante na Broadway. Mas não sem percalços. Inicialmente, Ethel Merman e Mary Martin foram cooptadas para o papel de Dolly. Ambas recusaram (embora tenham acabado interpretando a personagem em montagens posteriores). Na quarta ou quinta tentativa, o produtor David Merrick chamou a excelente Carol Channing (que por sinal tem exatamente a mesma idade de Bibi). A atriz realizou um trabalho extraordinário e o espetáculo abocanhou nada menos do que DEZ tonys (o oscar do teatro).

Bibi e Ginger Rogers

Foi nesse momento que o espetáculo chamou a atenção dos produtores de Bibi, no Brasil. Não só a atriz vinha imbuída de uma aura de sucesso absoluto com a montagem de My Fair Lady, mas o próprio espetáculo de Herman e Stewart vinha se provando um blockbuster sem precedentes pelo mundo todo.

A produção, desta vez, recaiu apenas sobre Victor Berbara, que já produzira o My Fair Lady de Bibi e Paulo Autran. A tradução do libreto e das músicas ficou a cargo de Haroldo Barbosa, o próprio Berbara e o escritor Max Nunes.

As coreografias originais de Gower Champion, também diretor do espetáculo na Broadway, foram supervisionadas no Brasil por Lowell Purvis. Durante o período de ensaios, Bibi deu um jeito de viajar a Nova York para trocar idéias com a grande Ginger Rogers, que assumiu o papel de Dolly quando Carol Channing saiu da peça.

Bibi e Paulo Fortes

Alô, Dolly! estreou em março de 1966, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. Bibi encarnou Dolly e contracenou com Paulo Fortes - o maior barítono brasileiro do século 20, e com quem Bibi dizia ter aprendido tudo sobre o canto lírico - Augusto César Vanucci (que pouco antes de morrer dirigiu o Bibi in Concert especial para a Globo, em 91), Lisia Demôro (que vinha de fazer My fair Lady com Bibi), Hilton Prado, Marli Tavares e grande elenco, de onde se destacava o mestre Milton Carneiro, responsável pelas maiores gargalhadas e aplausos em cena aberta de toda a peça. É um verdadeiro tour de force. Em My Fair Lady é seguro dizer que havia pouquíssimo espaço para qualquer um brilhar, a não ser Bibi e Paulo Autran, e, num segundo plano, Jayme Costa e Hélio Paiva. Em Dolly!, Hilton Prado, e sobretudo Lísia Demôro brilham intensamente com suas vozes de tenor e soprano.

Paulo Autran visita Bibi no camarim de "Alô, Dolly!"

Mas merece destaque o comentário do jornalista Paulo Salgado sobre Paulo Fortes (1923/1997), pois nos dá a medida exata do patamar de respeito em que todos tinham esse nosso maravilhoso artista: "Não havia, no nosso mundo teatral, outro artista que pudesse viver com tanta correção Horatio Vandergelder a não ser o barítono Paulo Fortes. Só podemos expressar nossa admiração ao belo trabalho do grande intérprete de Falstaff dizendo: Obrigado, Paulo Fortes, continue a dar ao teatro musicado este seu grande talento histriônico e esta belíssima voz! Paulo Fortes, depois de ter conquistado o público de ópera e de televisão, vai tomar de assalto as platéias dos musicais. É bom ver um artista de tanta classe no tradicional Teatro João Caetano". (Revista Querida, abril de 1966)

Não sei ao certo quanto durou a temporada de Dolly! mas ela ultrapassou as 300 apresentações. O sucesso, ou melhor, a longevidade de My Fair Lady não foi repetida, talvez porque a temática excessivamente americana da peça perdesse um pouco a graça no Brasil, ou porque o objetivo não fosse esticar a temporada por anos, como foi o caso do musical de Lerner e Lowe. O certo é que a recepção foi a melhor possível. Sobre Bibi, eis o que disse o mesmo Paulo Salgado: "Fazemos questão de iniciar este nosso comentário prestando uma homenagem toda especial a esta grande atriz, que soube ser, com graça, leveza, com acerto e alegria, a deliciosa personagem criada originalmente por Thornton Wilder e musicada por Jerry Herman. Raramente temos visto uma atriz comunicar tão rapidamente seu personagem à platéia como Bibi nessa peça".

Depois de Dolly!, Bibi ficou seis anos longe dos palcos, para onde só voltou em 1972 com Paulo Autran, em Homem de la Mancha. Durante esse período dirigiu alguns espetáculos, mas trabalhou quase que exclusivamente em televisão.

Barbra Streisand, no filme Hello, Dolly!

O sucesso financeiro das sucessivas montagens do musical nos teatros e a venda posterior dos direitos para o cinema fizeram do velho Thornton Wilder um homem rico e ele viveu feliz e tranqüilo seus últimos 15 anos de vida. O musical virou filme em 1969, pelas mãos do mestre Gene Kelly. A produção milionária estrelada por Barbra Streisand decepcionou crítica e público e foi um fracasso financeiro. Uma das críticas, além do que teria sido uma direção pouco inspirada de Gene Kelly, se assemelha muito ao que aconteceu com o filme de My Fair Lady, em que uma atriz de teatro (Julie Andrews) foi substituída por alguém supostamente mais rentável em termos cinematográficos (Audrey Hepburn). Neste caso, Carol Channing foi substituída por Barbra Streisand. Mais um erro abismal. Streisand tinha 27 anos na época; era, portanto, absurdamente jovem para o papel de Dolly. Como se isso não bastasse, ambas já haviam concorrido, uma com a outra, pelo tony de melhor atriz, Channing por Dolly! e Streisand por Funny Girl. Channing levou a estatueta para casa. O feito se repetiu por vias tortas: o filme de Gene Kelly foi indicado a sete oscars; Streisand foi ignorada.

Outra crítica é a de que as músicas de Jerry Herman ironicamente funcionavam melhor com uma atriz cômica em que não se exigiam grandes vôos canoros - como Carol Channing - do que com uma boa cantora distante da personalidade da personagem, que era o caso de Streisand.

A crítica não se adequaria à situação brasileira, pois Bibi tinha todos os atributos para o papel, desde o talento vocal e cômico até o physique du role, mas, de fato, por vezes eu tenho a impressão de que esse papel não exige muito da voz de Bibi, e que são poucas as oportunidades que ela teve para realmente mostrar toda sua potência como cantora. Pode ser que ela tenha aceito o papel justamente para exercitar sua veia cômica, saindo da "ingênua-ignorante" diretamente para a "cortesã-aposentada", como a imprensa da época caracterizou Eliza e Dolly.

Uma curiosidade é que a música Na marcha da vida, a passar (Before the parade passes by) anos mais tarde se tornou a música de abertura do extinto programa de Jô Soares, Viva o Gordo.

Mas enfim, vamos ao privilégio de ouvir Bibi, Paulo Fortes e grande elenco clicando AQUI (link renovado). No disco há um aviso, hoje hilário, dizendo que a gravação "foi cientificamente planejada de modo a apresentar a mais alta qualidade de reprodução, qualquer que seja o fonógrafo usado, novo ou velho". De fato, o som está bem limpo e se ouve com muito prazer. Mas o melhor ficou para o fim, quando o consumidor é tratado por "Vossa Senhoria": "Em resumo, V. S. pode comprar este disco sem o mais leve receio de que ele venha a tornar-se obsoleto no futuro".

Na verdade ele ficou obsoleto não pela qualidade da gravação, mas pela obsolescência do conteúdo. Dolly é leve e agradável, mas não é My Fair Lady. É, contudo, diversão garantida. O disco, em si, não está nenhuma maravilha e apresenta um ou dois pulos, que, graças a Deus, mal são notados. Portanto divirtam-se.

Abaixo, o texto da contra-capa do LP e a lista de músicas.
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O que é ALÔ, DOLLY!

Sucesso internacional como nunca havia ocorrido com outra comédia musical, está há 28 no St. James Theater, onde já deu mais de 1000 funções, todas com lotação esgotada, superando de longe os recordes anteriores de bilheteria. Prevê-se, dado o volume de suas vendas antecipadas, que ALÔ, DOLLY! estará na Broadway pelo menos até junho de 1971, o que jamais foi obtido por outro espetáculo do gênero. Se considerarmos que existem mais duas companhias exibindo ALÔ, DOLLY! pelo interior do país (uma com sua criadora original, Carol Channing, e a outra com Betty Grable), podemos então atentar para a verdadeira extensão deste extraordinário êxito. Em Londres, onde estreou no dia 5 de dezembro, com Mary Martin, ALÔ, DOLLY! já tem uma venda antecipada que lhe garante um mínimo de 4 anos em cartaz. Em Melbourne, Austrália, já está em cena há 18 meses. Em Tóquio, onde nenhuma outra comédia musical havia feito sucesso anteriormente, é, hoje, a grande “coqueluche”, havendo no Japão nada menos de 10 gravações da sua canção-tema ALÔ, DOLLY!. Esta canção, aliás, já é a música mais gravada no mundo inteiro em todos os tempos, com mais de 1000 versões diferentes, inclusive uma em russo, o que já lhe deu uma venda de mais de 3 milhões de discos.

E qual a razão de todo esse sucesso? Antes de mais nada é porque ALÔ, DOLLY! é uma peça feliz e que faz a todos – artistas e público – muito felizes. À saída do St. James Theater, em Nova York, uma espectadora disse à outra: “Não vou mais ao meu psicanalista. Assistirei ALÔ, DOLLY! uma vez por semana e economizarei mais da metade do dinheiro da consulta”. Assim é ALÔ, DOLLY!: um espetáculo único capaz de trazer felicidade e alegria a crianças e adultos. Sua história é singela e romântica, acessível a todas as platéias do mundo, que a entendem e assimilam em um instante, passando dela a participar como se fossem seus personagens.

Sua música é toda ela maravilhosamente bela. Uma verdadeira “feérie” de sons e ritmos que não se limitam apenas à sua canção-tema, mas a todos os outros números musicais igualmente lindos. Seus cenários e guarda-roupa são inesquecíveis. A cenografia, aliás, é de Oliver Smith (o mesmo de My Fair Lady) que aqui se superou em todos os aspectos técnicos, bastando que se diga que em ALÔ, DOLLY! a cortina não se fecha uma única vez, sendo todas as 23 mutações de seus belíssimos cenários feitas inteiramente à vista do público, por um complicado e eficiente sistema de trilhos e manobras de cabos de aço, aqui recriados pelo talento invulgar de nosso grande cenotécnico Luciano Trigo. Esse sistema foi idealizado para ALÔ, DOLLY! e jamais foi utilizado para outro espetáculo.

Seu corpo de baile, graças a uma coreografia moderna de Gower Champion, reproduzida no Brasil por Lowell Purvis, especialmente contratado para esse fim, proporciona ao público um brinde extra com números musicais inesquecíveis, como o famoso “Galope dos Garções”. Tudo isso tem feito com que ALÔ, DOLLY! seja considerada a melhor comédia musical da Broadway moderna, única e legítima sucessora da gloriosa tradição de My Fair Lady.

Bibi Ferreira e Paulo Fortes em ALÔ, DOLLY!

Libreto de Michael Stewart
Música e Letras de Jerry Herman
Baseada em "A Casamenteira", de Thornton Wilder
Tradução de Haroldo Barbosa, Victor Berbara e Max Nunes
Arranjos vocais de Shepard Coleman
Orquestrações de Philip J. Lang
Direção Musical de Carlos Monteiro de Souza

1 - Abertura (Overture) - Orquestra
2 - Ponho a mãozinha aqui - Bibi Ferreira e Elenco
3 - Tem que ser aquela - Paulo Fortes e Elenco
4 - Ponha uma roupa de domingo - Hilton Prado - Augusto Cesar - Bibi Ferreira
5 - Meu chapéu enfeitarei de fitas - Lisia Demôro
6 - Marche, marche, marche - Bibi Ferreira - Lisia Demôro - Marli Tavares
7 - Dançando - Bibi Ferreira - Hilton Prado - Augusto Cesar - Lisia Demôro
8 - Na marcha da vida, a passar - Bibi Ferreira e Elenco
9 - Elegância - Lisia Demôro - Hilton Prado - Marli Tavares - Augusto Cesar
10 - Alô, Dolly! - Bibi Ferreira e Elenco
11 - Apenas um momento - Hilton Prado - Lisia Demôro e Elenco
12 - Adeus, querida - Bibi Ferreira
13 - Final - Bibi Ferreira-Paulo Fortes e Elenco

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

"O Avarento", com Procópio Ferreira



Meus caros,
sempre soube que Procópio havia protagonizado mais de uma montagem da peça O Avarento de Moliere, ao longo dos anos, mas nunca sequer me passou pela cabeça a possibilidade de haver uma gravação oficial dessa peça.

Pois para nosso supremo privilégio e alegria, há.

Por iniciativa de Orlando Miranda, em parceria com a Phillips e direção técnica de Allan Lima e Pedro Veiga, um dos espetáculos da temporada de 1969 - última em que Procópio viveu Harpagon, desta vez com direção do francês Henri Doublier (1926/2004) - foi gravado ao vivo, no Teatro Princesa Isabel, no Rio.

Aramis Millarch

O projeto era praticamente inédito no Brasil. Como bem observou o jornalista paranaense Aramis Millarch (1943/1992), em artigo da década de 70, "uma faixa do mercado fonográfico brasileiro ainda praticamente inexplorado é a dos discos-documentários de espetáculos que não sejam propriamente musicais. Nos Estados Unidos e, principalmente na Europa, é comum encontrar-se álbuns duplos, triplos e até em caixas, com 5 ou 8 elepes, com registros completos dos maiores espetáculos teatrais. No Brasil, pode-se contar nos dedos as experiências feitas, e entre elas está a gravação de alguns diálogos da montagem O Avarento de Molière, feita em 1969 por Orlando Miranda/Pedro Veiga, com Procópio Ferreira na frente do elenco".

O competente e saudoso Aramis exagerou um pouco em dizer que trata-se da gravação de "alguns diálogos" da peça. Não. O LP de 69 evidentemente não traz a peça inteira, pois para isso seriam necessários dois LPs e o projeto se tornaria perigoso em termos comerciais. Mas temos 1 hora de espetáculo e embora sintamos profundamente não ter o espetáculo na íntegra, esses cortes são sutis, muito bem feitos e não afetam em nada a compreensão do texto. Onde Aramis acertou em cheio foi no ineditismo do projeto, já que musicais brasileiros, como Arena Conta Zumbi, ou trazidos de fora e vertidos para o português, como My Fair Lady, foram lançados e se tornaram best-sellers. Em se tratando de pura dramaturgia, porém, o terreno era deserto.


Elenco e equipe de produção de O Avarento. Em pé atrás, o produtor Orlando Miranda, Pedro Veiga, Alvim Barbosa e Nilson Rezende. Sentados, na terceira fila, Celso Cardoso e Jorge Chaia. Sentados, na segunda fila, Pernambuco de Oliveira, Thaís Portinho, Érico de Freitas, Luís Carlos Laborda
e Nelson Mariani. Sentados, na primeira fila, Olavo Saldanha, Maria Lúcia Dahl,
Procópio, Isolda Cresta, Cecile Demay e Henri Doublier

Abaixo vcs verão a ficha técnica e o texto contido no LP do espetáculo, então não é necessário que eu me alongue nas explicações. Só não me furto de externar meu prazer em haver encontrado esta jóia rara, na qual podemos ouvir Procópio no auge de sua maturidade artística pairando sobre a prosa de Molière, sua voz repassada em 50 anos de tabagismo e ainda assim, poderosíssima. Interessante também é reparar que a dicção de Procópio ainda contém ecos da pronúncia aportuguesada, tão em voga nos anos 20. E o prazer é redobrado quando aparece uma oportunidade como esta, de compartilhar esse material com tantos e tantos que não poderiam nunca ter acesso a este material, de outra forma.

Portanto deleitem-se com o grande Procópio Ferreira em um de seus mais memoráveis papéis, o Harpagon no O Avarento de Molière, ao vivo em 1969, clicando AQUI.
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Nesta foto e na seguinte, Procópio em montagens anteriores de O Avarento

Uma peça de teatro com 300 anos de existência e que continua atual, despertando o interesse do espectador da primeira à última cena, é sem dúvida uma obra-prima.Assim é O AVARENTO, assim são todas as produções do gênio que se chamava Molière.

Um ator que durante mais de 50 anos mantém viva a sua presença no palco, que busca sempre o aprimoramento, que mantém (chegado ao ponto mais alto de sua carreira) a mesma noção de disciplina, os mesmos princípios de respeito ao público e ao Teatro é, sem dúvida, uma notável personalidade artística. Assim é Procópio Ferreira.

O Teatro Princesa Isabel teve a felicidade de reunir Molière e Procópio nesta sua apresentação de O AVARENTO, conseguindo ainda, na busca pela maior autenticidade possível do espetáculo, o concurso do diretor francês Henri Doublier, profundo conhecedor da obra molieresca.

A montagem do espetáculo, nos moldes em que a produzimos, mostra - já que entusiasticamente aceita pelo público - a verdade da afirmativa que consignamos em nosso programa: "É necessário partir para produções que conservem os elementos tradicionais do teatro - qualidade de texto, interpretação cuidada, direção digna e ausência de compromissos ou engajamentos como elementos atrativos. É necessário não violentar, não agredir, não ofender".

A gravação ao vivo, feita na própria sala de espetáculos em uma sessão normal, manteve o calor da representação, permitindo àqueles que tenham a oportunidade de ouví-la, a sensação da própria presença no momento da representação.

A versão do Teatro Princesa Isabel teve sua estréia nacional em Brasília, sob os auspícios da Fundação Cultural do Distrito Federal, e a estréia do Rio de Janeiro, no mês seguinte, com os mesmos elementos que participam da atual gravação.


O Harpagon de Procópio, na montagem de 1969

O registro em disco de espetáculos como O AVARENTO representa um serviço inestimável ao Teatro e - vale dizer - à cultura do Brasil. Poder conservar para o futuro o grande sucesso do momento presente é um privilégio que traz para nós, produtores do Princesa Isabel, júbilo e reconhecimento ilimitados. A Phillips demonstra, com esta iniciativa, confiança no interesse do público por assuntos e eventos de elevada significação artística. A presente gravação é, no Brasil, um ato de pioneirismo. Nosso desejo é que se transforme, no mais curto prazo, em rotina.

Pedro Veiga

O AVARENTO, de Molière, com Procópio Ferreira

Harpagon - Procópio Ferreira
Frosine - Isolda Cresta
Mariana - Maria Lúcia Dahl
Valério - Alvim Barbosa
Elisa - Thaís Portinho
Cleanto - Érico de Freitas
Anselmo - Jorge Chaia
La Flèche - Celso Cardoso
Mestre Simão/Bridavoine - Luís Carlos Laborda
Mestre Jacques - Paulo Padilha
La Mertuche/Comissário - Nelson Mariani
Cláudio - Nilson Rezende

Cenário: Pernambuco de Oliveira
Figurinos: Olavo Saldanha
Asistente: Cecile Demay
Direção: Henri Doublier
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Ver também:

MY FAIR LADY, com Bibi Ferreira e Paulo Autran

ALÔ, DOLLY!, com Bibi Ferreira e Paulo Fortes

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