sábado, 3 de janeiro de 2015

Minestrone Cultural II



















THE OLD WOMAN, no Sesc

Como não viciar no SESC Pinheiros, se eles têm uma das melhores programações de São Paulo?? Ontem foi dia de Bob Wilson, Mikhail Baryshnikov e Willem Dafoe, três artistas que separados já são fantásticos, e juntos, portanto, são o supra-sumo da arte cênica. A peça foi um espetáculo de som e imagem sobre o qual falarei mais em breve. No Teatro Paulo Autran, pouco antes de assistir a peça, vejo a homenagem de Elifas Andreato, a partir da foto promocional do Lear de Paulo (no detalhe). Primeira vez que estive nesse teatro, que leva o nome de nosso maior ator de todos os tempos. Momento de recordar o saudoso Paulo Autran. (27/07/2014)



O OTELO DE VITTORIO GASSMAN

"Forse l'avrei perduta... perché sono NERO"...

Difícil não rir assistindo o Othello de Vittorio Gassman, feito para a RAI em 1957. Embora seja prazeroso ver "O Mouro de Veneza" encenado e falado no idioma do país de onde vêm 90% dos personagens, Gassman é o mais greco-romano dos negros que já vi na minha vida. É o africano de nariz mais afilado e boca mais fina do mundo. Ao contrário de Olivier, cuja maquiagem é uma obra-prima de disfarce e transformação, Gassman é apenas um italiano maquiado.


Soube há pouco que - a exemplo de todo grande ator - ele voltou ao personagem 25 anos depois, no teatro. Foi consertar na maturidade aquilo que jogou ao vento rápido demais na temerária e impetuosa juventude. (22/07/2014)

WHITE NIGHTS

Isabella Rosselini
Ainda sob o efeito da alegria intensa de ter visto Baryshnikov ao vivo e a cores, assistimos este fim de semana "White Nights" (no Brasil "O Sol da Meia-Noite"), único filme pelo qual o mestre bailarino é lembrado. E que delícia rever tudo isso! Que saudade de Gregory Hines, tão talentoso, tão fantástico e morto tão cedo... Helen Mirren linda e brilhante como sempre, as coreografias de Twyla Tharp, a cena antológica da dança ao som gutural e trágico de Visotsky... Que belo filme. E a cena final, na minha opinião uma das melhores da história do cinema: o close no rosto maravilhoso, emocionado e emocionante de Isabella Rosselini. Serei o único que prefere a filha à mãe? (11/08/2014)

CAVALOS CAPRICHOSOS

Voltando a respirar depois das desgraças desta semana, trago mais uma impressão de rever WHITE NIGHTS, com Baryshnikov, Gregory Hines, Helen Mirren e Isabella Rosselini. Trata-se de um dos momentos mais memoráveis filme, quando Baryshnikov grita, chora e dá vazão a todo o seu desespero por liberdade através da dança, para sua ex-namorada, Helen Mirren, ao som de Кони привередливые, Koni priveredlivye ("Cavalos Caprichosos", em tradução livre), do grande Высоцкий Владимир, Vladimir Vysotsky, figura belíssima e controvertida das artes russas, persona non grata do governo ditatorial soviético, e que morreu cinco anos antes do filme ser feito.




Até eu, que não sou em absoluto um conhecedor de dança, em qualquer nível, fiquei maravilhado com a cena. Gênios, todos. (14/08/2014)

JOAN

Que ano terrível!... Agora Joan Rivers... ela é como a Aracy de Almeida, que a maioria nem sabe que foi cantora. Hoje todos só pensam em Joan como apresentadora de um programa de moda em um canal a cabo, cercada de medíocres. Mas ela foi uma grande comediante, lá em cima, no mesmo nível de Carol Burnett e Phyllis Diller.

Era engraçadíssima. Rápida, inteligente, ácida, cruel. Com todos e consigo mesma. Suas routines eram arrasadoras. Não havia quem a vencesse numa discussão. Tão divertido vê-la com Carson, seu maior amigo e incentivador, e depois seu pior e mais ressentido inimigo.

Triste vê-la partir. Pouco depois de Robin Williams... que morreu pouco depois de Jonathan Winters... referências tão fortes de minhas primeiras idas aos Estados Unidos... que pena.

Descanse em paz, ou, como já foi dito com muito acerto, ROAST in peace! (04/09/2014)


Joan no programa de Carson, em 1986


BIBI SINATRA




















É axiomático: talento superlativo e humildade sincera andam juntos. Bibi, depois de 73 anos de carreira, achou por bem testar seu novo espetáculo, no qual canta músicas do repertório de Frank Sinatra, e o fez através de um ensaio aberto. Não precisava. O espetáculo está lindo! Falarei mais dele quando assisti-lo pronto.

A estréia é HOJE, 19 de setembro.

NÃO PERCAM! (19/09/2014)


ORKUT (2004/2014)

Amanhã o ORKUT será deletado. Estou de coração partido. Não o freqüento mais há anos, ele está decadente e esquisito, mas como esquecer toda a diversão que tivemos lá? Como esquecer o terremoto que o orkut provocou na até então incipiente Internet?
















Penso no fechamento do orkut como a falência de uma loja, de uma galeria, de um shopping, de uma boate; aquele lugar que foi o top do top, onde passamos horas e horas de nossa vida e hoje passamos e ele está sempre vazio, os vendedores ali esperando, o lugar é um brinco, mas o público simplesmente não vai mais. Aí um dia ele fecha e sentimos aquela tristeza imensa. Não freqüentávamos mais o local, mas ninguém queria que ele sumisse, porque estava impregnado de milhões de memórias, milhões de gargalhadas, milhões de namoros, de brigas, de discussões, de tertúlias, de amizade, de fotos, de intimidade.

Vou escrever um texto sobre o orkut em breve. Durante um tempo tive mais de 30 comunidades. Praticamente todas de teatro. Participava de todas. Escrevia em todas. Trocas de idéias, informações, cultura, tudo. Vou ter muita saudade. Já tenho.(29/09/2014)

Nos primórdios, ainda em 2004... na minha limitada lista de amigos, Bruna, Fabio, outras pessoas, algumas que nem lembro mais, outras conhecidas da época, e o bom Moisés Miastkwosky, que fez a sacanagem de nos deixar há poucos meses. Que saudade de tudo isso. E que pena que Macluhan não viveu para ver que a Internet tornou concreto e plausível, mais do que nunca, o seu conceito de "aldeia global". Eu na época trabalhava num centro empresarial em que me sentia sozinho no meio de quatro mil pessoas. Estar no orkut, entretanto, era estar com três milhões de conhecidos. Brasileiros, iranianos, argentinos, paquistaneses. Negros, brancos, amarelos, vermelhos, azuis.



O Orkut era uma cidade do interior anabolizada. Todo mundo se conhecia, de um jeito ou de outro. As portas estavam abertas, os álbuns fotográficos tinham doze fotos que podiam ser visualizadas (e roubadas) por qualquer um, as comunidades não tinham tranca, o scrapbook era aberto para escrever e para bisbilhotar, os textos não tinham censura, os compartilhamentos rolavam soltos, aos milhares. A única forma, desastrada e anárquica de justiça estava em uma tal "cadeia" em que ficávamos por algumas horas - e às vezes por alguns dias - por postar excessivamente.

Vou escrever sobre o Orkut em breve, já prometi. Ontem fiz uma pequena varredura no que restava dele, crendo que hoje seria seu último dia. Estava errado. Ele foi fechado de madrugada. O que ficou foi um índice de comunidades que leva dias para se consultar. Há que deixar o orkut descansar em paz, como disse minha amiga Mariana. (30/09/2014)

MAIORIDADE E "TERRA DE NINGUÉM"



















Na foto vemos 21 anos acompanhando a carreira desse extraordinário ator que é Luis Melo. Em 1993, depois da esfrega emocional e física que era interpretar Joaquim, na "Vereda da Salvação" de Jorge Andrade, direção de Antunes. E em 2014, há uma semana, finda a jornada por entre - nas palavras do diretor Roberto Alvim - "os signos complexos e fantasmagóricos" de Harold Pinter em "Terra de Ninguém".

Brilhante em tudo que faz. De Shakespeare a Nelson Rodrigues, de Tchekhov a Tolstoi, até cantando "Recuerdos de Ypacaraí" em drag, rs. Que privilégio poder assistir Melo em todos os seus trabalhos. Obrigado, mestre! (04/11/2014)















Feliz reencontro com o sempre excelente Edwin Luisi, um dos atores preferidos do saudoso Flávio Rangel. Em 1994 no Teatro dos Quatro, no Rio de Janeiro, depois da belíssima encenação de "Meus Prezados Canalhas", de João Uchôa Cavalcanti, direção de Gracindo Jr., verdadeiro tour de force com craques como Othon Bastos, Rogério Fróes e Débora Duarte. E no dia 26 de outubro deste ano, na última apresentação de "Terra de Ninguém", de Harold Pinter, direção de Roberto Alvim.

Que prazer reencontrar Edwin. Agora aguardo a temporada paulista de seu premiado monólogo "Eu sou minha própria mulher", de Doug Wright, direção de Herson Capri e Susana Garcia. (06/11/2014)

THE INTERVIEW

Acabo de assistir o filme de Seth Rogen que causou tanta celeuma, recentemente. A história é simples: O apresentador de um programa sensacionalista (James Franco) e seu diretor frustrado que deseja fazer um programa sério (Seth Rogen) decidem tentar uma entrevista com o ditador da Coréia do Norte, Kim Jung Un, quando descobrem que ele é fã do programa deles. A CIA entra na negociação e pretende usá-los num plano para assassinar o ditador. Só que chegando lá, Franco se afeiçoa ao ditador, que é baladeiro, fã de Katy Perry e de margueritas, enquanto Rogen se apaixona pela assessora de Kim.

Existe o elemento interessante de se ridicularizar abertamente um ditador que está no poder, havendo a possibilidade de uma retaliação (circunstância que me remeteu a Chaplin e Hitler, no magnífico Great Dictator), mas The Interview não passa de uma comédia divertida. Enquanto o filme de Chaplin vai do pastelão ao humor mais requintado, com um roteiro genial, performances modelares, esbanjando cenas antológicas e trazendo no bojo uma mensagem pacifista densa e profunda, o filme de Rogen é apenas um besteirol engenhoso, acima da média, com alguns bons momentos. Longe, porém, muito longe de justificar essa grita toda.

Recomendo. Assiste-se com prazer. (27/12/2014)

ANDY WILLIAMS E TOM JOBIM

Caymmi, Williams e Jobim
Andy Williams (1927/2012) foi um dos maiores cantores norte-americanos da segunda metade do século XX. Estava lá, pau a pau, com Sinatra, Tony Bennet, Sammy Davis Jr., Eddie Fischer e Perry Cuomo. Deu vida à antológica "Moon River" de Mancini. E, entre outras coisas, apresentou seu próprio programa de variedades na TV, de 1962 a 1971.

Muito antes de 1967, quando participou com Ella Fitzgerald do programa de Frank Sinatra, Tom Jobim já aparecera quatro vezes em programas de Andy Williams. Em 64 e 65. São programas divertidos e descontraídos, e Dorival Caymmi chegou a dividir o palco com ambos, em uma dessas ocasiões. Enquanto Sinatra apresentava o "A Man and his Music" de smoking, Williams vestia um suéter, sentava-se tete-a-tete com seu convidado e conversava sem cerimônia. No caso de Jobim e Williams, a intimidade vinha do fato de que os dois chegaram a se apresentar juntos em uma temporada em Lake Tahoe, na época.

Na cena a seguir veremos os dois cantando "Garota de Ipanema" em março de 1965.


Como sou um adorador de Sinatra desde os dez anos, minha opinião é a mais sincera possível: prefiro esta versão do que aquela de 1967, famosa, com Tom e Frank.

Divirtam-se. E que estes dois mestres tragam bons augúrios ao ano que entra. (03/01/2015)

CHICO DE ASSIS




Puta que pariu...

Chico... teria sido egoísta pedir para você ficar só mais um pouco conosco? Mais 5, 10 anos?

Em você, o que mais me marcou não foi a dramaturgia, não foram as direções ou os cursos. Foi tua inteligência atilada, aguda, brilhante. Precisamos tanto dela. Sobretudo neste momento de nulidades absolutas no governo, na arte, na cultura, em toda parte.

O Arena foi realmente a junção de tudo o que se produziu de melhor no teatro brasileiro. José Renato era o administrador. Boal era o cérebro. Guarnieri era o coração. E você era o amálgama dos três. Era todos eles.

E agora só temos o teatro para lembrar de vocês.

Que merda, Chico...

Obrigado por tudo, mestre amado! (03/01/2015)

DANIELA

Vez por outra me pego lembrando dela... tão jovem, tão apaixonante, tão linda. Tornei-me fã incondicional a partir de O Dono do Mundo. Soube de sua morte em Ubatuba, onde passei o reveillon de 92. Foi grande a tristeza.

Hoje seu assassino está livre, gordo e saudável, dando entrevistas.

Que país maldito...











































(26/01/2015)

INEZITA


























Em novembro passado reservei lugar para assistir o Viola, Minha Viola ao vivo. Queria dar um beijo em Inezita e mostrar-lhe seu autógrafo de 1963 no violão do meu pai. Quando a produção me alertou que ela entrava e saía sem contato com o público, desanimei. Mas segui assistindo seu delicioso programa pela televisão, como faço há 30 anos.

Com sua partida, a TV perde seu programa mais tradicional, mais doce e mais brasileiro. E nós perdemos o prazer aconchegante, familiar e caseiro de ter essa mulher adorável, talentosa e elegante em nossas vidas toda semana.

Obrigado, Inezita. Por tudo. (10/03/2015)

"GENTE DE TEATRO", por Oscar Arruda

Deliciosa definição de toda uma geração de atores e atrizes, exatamente como foi publicado na revista "O Malho", de 15/3/1934.



(05/04/2015)

O "HAMLETO", DE JOÃO CAETANO

Que divertidíssimo pastiche de Shakespeare terá o grande João Caetano apresentado com o nome de "Hamleto", em agosto de 1850? Provavelmente uma reprise do que já apresentara desde 1835, ou seja, a tenebrosa versão francesa de Ducis, traduzida por Oliveira Silva. Pouco seria dizer que era uma pálida imitação do original, só conhecido no Brasil a partir de 1871, pela interpretação magistral do italiano Ernesto Rossi.

A título de curiosidade, além de sua esposa Estella Sezefreda, estava com ele nessa companhia o ator Martinho Vasques, irmão do mais tarde célebre Francisco Vasques.



(19/04/2015)

OSCAR 2015

Pequena seleção de textos sobre filmes indicados, escrita entre março e abril de 2015


Boyhood Assisti, finalmente. O título é auto-explicativo: trata-se da odisséia infanto-juvenil de um menino americano, com a diferença de que o filme foi sendo feito ao longo de doze anos, o que mostra o crescimento real do garoto.

Ethaan Hawke e Ellar Coltrane
na premiere do filme
Gostei muito. Não imaginei que fosse possível retirar alguma coisa de tema tão genérico e manjado, mas o cineasta Richard Linklater deu uma aula de simplicidade e competência. Soube manejar os clichês de forma tão enxuta e objetiva que conseguiu tornar interessantes os problemas do garoto, basicamente os mesmos enfrentados por qualquer moleque dessa idade. E o que é mais louvável: sem apelar uma única vez.

Elenco acima da média (o garoto e sua irmã são bons) com destaque para Ethan Hawke, que melhora notavelmente com a idade, e Patricia Arquette, brilhante.

Faria uma ressalva que não chega a ser um defeito; o filme tem duas horas e quarenta e cinco minutos. Eu provavelmente cortaria uma meia hora. Não que o filme se torne maçante - pelo contrário, é um pé de vento - mas duas horas seriam suficientes. Seja como for, assiste-se com o máximo prazer. Recomendo.

J. K. Simmons
Whiplash - Acabo de ver. Gostei da análise que minha amiga Mary fez desse filme, denominado-o um "Karatê Kid em que o Sr. Miagy é malvado". Mas não foi tanto o Karatê Kid que me veio à lembrança com este filme, e sim Shine, sobre David Helfgot, o pianista que perdeu o juízo com o excesso e a severidade de seu treinamento.

O filme trata de Andrew, estudante de bateria em um prestigioso conservatório, e sua relação com o draconiano maestro Fletcher.

Em 90% graças à maravilhosa performance de J. K. Simmons - um ator versátil, eclético, que admiro e que há anos venho torcendo para que receba um papel à altura de seu talento - gostei. O bullying de seu personagem tem método e razão de ser, certa ou errada, e foge do estereótipo do diretor meramente carrasco.

Os interlúdios musicais são meio compridos mas não poderia ser de outra forma em um filme sobre música e músicos.

Recomendo.

Clint e Bradley Cooper
American Snipper - Assisti sem saber quem era Chris Kyle, sem ter feito qualquer busca na internet e só sabendo que existe polêmica envolvendo o personagem (real) e o filme. Vou logo dizendo: gostei bastante. Trata-se da vida do atirador de elite Chris Kyle, apelidado "a lenda" por ter matado mais de 160 pessoas no Iraque. A polêmica vem do fato de que ele é tratado como herói por alguns e como um assassino serial por outros; o filme pende para a simpatia. Deixo o julgamento para o espectador. A mim cabe dizer que é o melhor filme de Clint que assisto em mais de uma década. Million Dollar Baby e Changelling achei apelativos; Flags of our fathers e Letters from Iwo Jima, chatíssimos; Invictus e Gran Torino, bobos e dispensáveis; J. Edgar, um triste desperdício do personagem, e não tive saco de ver Hereafter ou Jersey Boys.

Com American Sniper Clint mostra que está em plena forma e é capaz de fazer um ótimo filme de guerra. Suspense de primeira linha. O elenco está ok. Bradley Cooper é bom mas acho a indicação ao oscar um exagero. Sienna Miller é boa e sem sal como sempre e o resto do elenco de apoio convence. Recomendo.


Krisen Stewart e Julianne Moore
Still Alice - Uma celebrada intelectual atingida por uma forma raríssima de Alzheimer precoce aos 50 anos.

O filme faz uma opção (correta, de certa forma) de se manter às margens do inferno da doença. Ganha por não ser apelativo. Perde por ser edulcorado. Mas Julianne Moore está perfeita como sempre. Seu ano chegou. O oscar é dela.

Birdman & The Imitation Game - Assisti ambos, um atrás do outro, porque já juntavam poeira no meu HD. Birdman era mais ou menos o que eu esperava. A trama não é exatamente um mistério. Diria até que a premissa é meio manjada e que o filme se arrasta um pouco, mas a qualidade de elenco e roteiro é tão excepcional que vale a experiência. É o papel da vida de Michael Keaton, embora seja doloroso vê-lo velho e enrugado. Edward Norton e Naomi Watts estão bem e Emma Stone está ótima. Quem me deixou boquiaberto, porém, foi Lindsay Duncan, a perversa crítica teatral. Suas poucas cenas são estupendas, assim como é tristemente verdadeira sua verrina sobre a dicotomia ator/celebridade. Curioso que o Rotten Tomatoes o classifique como "comédia", já que é um drama do início ao fim. Suponho que a presença de Zach Galifianakis devesse ser o elemento cômico, mas a verdade é que ele está mais perdido que cachorro em mudança.


The Imitation Game é diversão garantida. Drama dinâmico e empolgante, com direito a surpresas e reviravoltas. Com um detalhe considerável: a história é real. Alan Turing existiu e minha geração só não aprendeu sobre ele na escola porque o homossexualismo era crime na Inglaterra até 1967 e ele foi convenientemente varrido para debaixo do tapete. Ao contrário de Birdman, o que vale aqui é a vida do protagonista e só se sobressai, de fato, a performance de Benedict Cumberbatch. Keira Knightley está apagada e seu papel poderia ter sido interpretado por qualquer atriz inglesa. Recomendo, embora tenha a sensação de que um diretor mais tarimbado teria feito algo bem melhor e mais profundo, da odisséia de Turing. 
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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Sete músicas de "Bibi Vive Amália", 2001


Bibi Ferreira vive Amália Rodrigues
Meus caros,
aqui vão dois trechos do espetáculo "Bibi Vive Amália", apresentado em 2001 no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. Nele, nossa amada Bibi Ferreira comemorou seus 60 anos de carreira encarnando a suprema fadista, e cantando sucessos como "Fadinho Serrano", "Quando eu era pequenina", "Ai Mouraria" e "Perseguição". Participação do afamado violonista português Carlos Gonçalves, que acompanhou Amália por mais de 30 anos.


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Um segundo trecho de "Bibi Vive Amália", no qual Bibi Ferreira canta sucessos como "Uma Casa Portuguesa", "Tudo Isto é Fado" e "Foi Deus". Participação do afamado violonista português Carlos Gonçalves, que acompanhou Amália por mais de 30 anos.

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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Um exemplo chamado Michael J. Fox

Fui fã de Michael J. Fox durante toda a década de 80. O canadense, que nasceu em 1961 mas teve sempre cara de garoto não foi apenas o protagonista de uma trilogia maravilhosa que encantou toda uma geração, Back to the Future, mas também trabalhou ou namorou (em alguns casos, ambos) com todas as atrizes por quem tive paixões violentíssimas na época, como Justine Bateman, Nancy Mckeon, Elisabeth Shue, Helen Slater, Annabella Sciorra, Phoebe Cates, Julie Warner... Na telona Fox viveu todas as minhas fantasias adolescentes. Na telinha encarnava o perfeito alter ego para um nerd como eu: o braniac Alex Keaton, no sitcom Family Ties. O seriado era a quintessência da pieguice e caía em todas as armadilhas do sentimentalismo barato. Fox, porém, foi sempre tão carismático que nem mesmo os múltiplos defeitos de seu preconceituoso e reacionário Alex conseguiram afastá-lo da bem-querença do público. O personagem era de um garoto culto e de QI acima da média, e que era ao mesmo tempo um cretino arrogante e atrapalhado, mas Fox o interpretava de maneira tão suave, tão cool, tão charmosa na simplicidade com que destratava e fazia pouco das pessoas, que era impossível não gostar dele. No âmbito pessoal se portava discretamente e jamais teve sua vida exposta em cores sensacionalistas na imprensa. Era tão normal que chegava a ser raro.

Fox em Bright Lights Big City, 1988
Como ator me impressionou uma única vez: em Bright Lights Big City, último filme do diretor James Bridges. Arrebentando a pauladas todo e qualquer estereótipo de bom moço, Fox interpreta um publicitário mauricinho viciado em cocaína, nos estertores da dor de corno provocada pelo abandono de sua ex-mulher. Uma performance digna, pelo menos, de uma indicação ao Oscar. Mas com toda sua fama e toda sorte na carreira, Fox carregava um estigma duplo: ser o herói de uma trilogia adolescente e protagonista de um seriado bobinho que ficou no ar durante sete anos. Na panelinha de Hollywood ele teria que envelhecer, engordar, emagrecer, fazer papel de aidético, deficiente mental ou participar de mais uns três ou quatro filmes do mesmo teor dramático e performático para que os membros da academia começassem a considerá-lo. Ele preferiu o caminho mais simples: voltou à TV em 1996 com o seriado Spin City, no qual interpretava o assessor do prefeito de Nova York. É a essa altura que entro no tema deste artigo.

Fox e Barry Bostwick em Spin City
Vezes houve, quando assisti aquele seriado (que não me cativou, e até hoje não o assisti inteiro), que me irritei com o jeito estranhamente tenso com que Fox atuava. Ele vivia fidgety, não parava quieto. Achava isso um maneirismo tosco e equivocado do ator, e não compreendia como ninguém lhe dizia nada. Em 1998, eu e o resto do mundo compreendemos, finalmente: ele sofria do Mal de Parkinson e sua incapacidade de parar quieto nada mais era do que um dos efeitos mais insidiosos da doença. Nunca esqueço seu colega de elenco Richard Kind, se penitenciando publicamente por ter criticado Fox e suas numerosas licenças durante as gravações de Spin City, que ele inicialmente achou que eram fruto do estrelismo do ator, e que só naquele momento verificava ser uma moléstia grave. No ano 2000, completado o centésimo episódio, ele deixou a série e no mesmo ano fundou The Michael J. Fox Foundation for Parkinson’s Research. Também não o esqueço em entrevista dada na mesma época, comentando o quanto tinha sido difícil gravar os últimos episódios do seriado, com a saúde tão debilitada.

No senado, 1999
Desde então ele vem se dedicando à fundação, a seu tratamento e a trabalhos esporádicos no cinema e na TV. Há momentos de humor, como a história que contou a David Letterman, anos atrás, sobre ter cogitado dar o nome de "PD Cure" à fundação, utilizando a abreviatura de "Parkinson's Disease", mas que lido em inglês também pode soar como "pedicure". Mas há momentos extremamente fortes, como a ocasião em que leu no senado norte-americano um manifesto solicitando maior investimento do governo nas pesquisas pela cura da doença, e o fez sem tomar qualquer remédio, tremendo convulsivamente enquanto lia o discurso. Fosse como fosse, Fox se desvestiu de sua fama hollywoodiana e virou porta-voz da necessidade de se encontrar uma cura para o Parkinson. O carinho pelo ator e os filmes inesquecíveis de nossa juventude se transformaram na mais profunda admiração pelo trabalho hercúleo, dolorido e corajoso que ele passou a encetar em nome de uma pesquisa que precisava de sólido subsídio governamental e privado.

Ele nunca parou de trabalhar, mesmo nos períodos agudos da doença. Fez participações em inúmeros seriados e em 2013 protagonizou seu terceiro sitcom, "The Michael J. Fox Show", sobre um âncora de telejornal que acaba de ser diagnosticado com Parkinson. O projeto teve vida curta mas serviu especificamente para que o público se conscientizasse cada vez mais sobre a doença. Considerado pelo New York Times the most credible voice on Parkinson’s research in the world, Michael entrou há poucos dias para o Hall of Fame dos "Heróis da Saúde" de uma organização norte-americana chamada WebMD. Ele agradeceu em entrevista à jornalista Robin Roberts e conquanto não pudesse estar presente ao evento que o homenageou, ele mandou uma mensagem ao público.

Fox foi meu ídolo de juventude. Por tudo que era como ator. E hoje, trinta anos depois, continua sendo meu ídolo. Por tudo que é como ser humano.

Eis o texto da WebMD sobre Fox, e os videos no qual fala sobre a doença:

Michael J. Fox
Hall of Fame Health Hero

When WebMD set out to present its very first Hall of Fame Health Hero award, the choice was not difficult. For the past 16 years, Michael J. Fox has been a tireless advocate for Parkinson's disease awareness and research. He launched one of the world's leading Parkinson's foundations, which has raised millions of dollars to help wipe out this devastating disease. We deeply admire Mr. Fox's significant contributions as an activist, philanthropist, and "honorary scientist" in raising awareness and supporting expanded research for Parkinson's disease. We wish to highlight the work he and the foundation have done to support patients and families living with the disease and to successfully develop and manage a groundbreaking approach to biomedical research.

Fox learned he had Parkinson's in 1991, when he was just 30 years old and at the height of his acting career. He'd recently finished a successful run as Alex P. Keaton in the popular sitcom Family Ties and had starred in three Back to the Future movies. In 1998, Fox revealed his condition to the public. Two years later, he stepped down from his role on the Fox network series Spin City to devote his time to Parkinson's advocacy.

Later that same year he launched the Michael J. Fox Foundation for Parkinson's Research, which the New York Times has since called "the most credible voice on Parkinson's research in the world." Thanks in large part to Fox's unwavering dedication to the cause, his organization has raised more than $450 million to fund Parkinson's research. The foundation has also supported the development of groundbreaking treatments, working with pharmaceutical companies to develop new drug compounds, and to speed these new therapies to market through clinical trials.

Over the years, Fox has provided hope -- and help -- to millions of Americans with Parkinson's disease and other neurological conditions. Despite living with a chronic illness, he has remained ever positive. As he wrote in his memoir, Always Looking Up: The Adventures of an Incurable Optimist: "For everything this disease has taken, something with greater value has been given -- sometimes just a marker that points me in a new direction that I might not otherwise have traveled."

For all of these reasons, Michael J. Fox is the true embodiment of a WebMD Health Hero and deserving of our inaugural Hall of Fame Health Heroes award.







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The Michael J. Fox Foundation for Parkinson’s Research:
https://www.michaeljfox.org/

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Robin Williams, em sua última entrevista a Johnny Carson


Robin Williams e Johnny Carson, 21/05/1992

Meus caros,
aos poucos vou digerindo a perda desse artista maravilhoso, que tanto marcou minha vida. O que trago hoje é uma das mais doces memórias que tenho de Robin Williams.

Em 1992 o apresentador Johnny Carson se aposentou após 30 anos de uma carreira gloriosa à frente do mais importante e prestigioso programa de entrevistas da TV americana. Eu estive nos Estados Unidos no início daquele ano e assisti o começo de sua despedida. Gravei muitas das entrevistas finais de artistas como Chevy Chase, Michael J. Fox, Sean Connery e tantos outros. Em maio eu já estava de volta ao Brasil, minha mãe ficou e se encarregou de gravar a derradeira semana de Carson.

No último programa com entrevistas, efetivamente - o programa final foi de melhores momentos dos 30 anos - Carson fez questão de receber duas pessoas: Robin Williams e Bette Middler.


"Sit on down and we'll give you a piña colonic"
Robin, aos 40 anos, estava no ápice de sua carreira. Embora divulgando um de seus raros fracassos (o filme "Toys", de Barry Levinson), a máquina estava em 220, a engrenagem fervia, azeitada, a metralhadora atirava sem parar e ele foi aquela usina atômica de improviso, de inteligência e de humor.

Os assuntos em voga eram o quebra-quebra por Los Angeles pela absolvição dos policiais que haviam espancado Rodney King; a eleição presidencial norte-americana, que ainda trazia pré-candidatos como Paul Tsongas, Jerry Brown e o impagável Ross Perot, além de Bill Clinton, que na ocasião era considerado carta fora do baralho; e as maluquices habituais de Williams. Lágrimas de riso com sua imitação de George Bush (pai) a partir de John Wayne, a hilária rendição de Reagan em seu rancho, o Rain Man Dan Quayle, o Nixon por trás de Perot, o talk-show "In your rear" que entrevistaria Madre Teresa e Ruta Lee, e tudo que pudesse ser processado e transformado em palhaçada no seu poderoso triturador do cotidiano, naquele início de década de 90.

Assisti essa fita de video com a última semana de Carson - sobretudo os encontros com Mel Brooks e Richard Harris, além desse, de Robin - até decorá-la. Rever a entrevista de Robin no Youtube, recentemente, depois de tantos anos, me emocionou muito. Estou começando a assimilar essa despedida tão horrivelmente prematura.

Que saudade de Carson, de Robin, do bom Ed Macmahon. Que bom ter estado lá naquele momento. Que bom ter apreciado o talento desse ser humano inigualável que foi Robin Willliams.

Bernardo

 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

"À Saudosa Memória de Dirce", de Gabriel Quadros


Dirce e sua mãe, Leonor
Há pouco mais de um mês morreu Tutu, a filha de Jânio. Conhecida a vida inteira por “Tutu” — apelido que ganhou do pai ainda na infância — as pessoas acabaram não atinando para a significação de seu verdadeiro nome, que era Dirce Maria do Valle Quadros. Batizando a filha com o nome “Dirce”, Jânio homenageava sua irmã, morta aos 16 anos. O “Maria” foi acrescentado por Eloá, mas Tutu não gostava desse segundo nome, e tampouco fazia segredo disso.

Dirce da Silva Quadros nasceu em 22 de maio de 1918, em Curitiba, para onde seus pais se mudaram depois de um período de quatro anos no Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul). Jânio e sua irmã viveram toda a infância e pré-adolescência no Paraná. Estudaram em diversos educandários, por conta das constantes mudanças do pai nos anos 20, e com o golpe de 1930, vieram para São Paulo. Gabriel Quadros — pai de Jânio e Dirce — era filiado ao Partido Republicano Paranaense e membro da equipe do governador Affonso Alves de Camargo. Com a ascensão de Getúlio, Gabriel preferiu sair do Paraná e tentar a sorte no Estado onde o Partido Republicano era mais forte.

Jânio e Dirce, circa 1933
Dirce infelizmente nasceu com um problema cardíaco e sua saúde requeria atenção redobrada. Os dois irmãos eram unidos, brincavam juntos, se divertiam juntos e ela levava uma vida tão normal quanto possível, mas a fragilidade de seu organismo não conseguiu impedir que ela contraísse a tuberculose, a moléstia mais temida e disseminada da época. E também a mais rápida. Gabriel, que era médico, fez tudo que era humanamente possível para salvar a filha, inclusive interná-la em Campos do Jordão. Não adiantou. Sem a penicilina, e demais remédios surgidos nos anos seguintes, não havia como curar doença tão insidiosa e cruel. Dirce morreu em 24 de novembro de 1934, aos 16 anos. Jânio ficou devastado. Ainda mais devastado ficou Gabriel. A morte da jovem foi um divisor de águas na vida do médico e em sua relação com a esposa e com o filho. Em depoimento longo e exclusivo, Tutu falou com clareza sobre a morte da tia, que ela não chegou a conhecer, mas cujo nome herdou:

A mãe favorecia a ele e o pai favorecia a ela. Quando ela morreu, enquanto o Jânio e minha avó Leonor ficaram muito mais unidos, ele começou a ter problemas sérios com o pai. Depois disso, eles nunca mais se entenderam. Tinha amor entre eles, mas não havia mais nenhum entendimento. E o pai sofreu muito com a morte da filha. Muito. Tinha fotografias da tia Dircinha por todo lado, acendia velas, e eu acho que de uma certa forma ele nunca se recuperou da perda da filha. Que é o que costuma acontecer aos homens que perdem filhas. Meu avô Gabriel perdeu muito do encanto pela vida, o gênio dele se alterou muito, a tolerância, a paciência, a irritabilidade aumentou. (JÂNIO, pgs 104,105)

Gabriel, na década de 50
Gabriel era jornalista diletante desde a faculdade, no fim dos anos 10. Em quase todas as cidades onde viveu, tratou logo de se familiarizar e se infiltrar na imprensa local. Em São Paulo não foi diferente, e em 1933 vamos encontrá-lo como colaborador fixo de um pequeno diário chamado “Correio de S. Paulo”, de inspiração perrepista. Como sempre ocorreu nessa sua área de atuação, ele escrevia desde a crônica social até o comentário sobre política externa.

Em 26 de maio de 1936, em que se completava um ano e meio da morte de Dirce — e quatro dias depois do que seria seu aniversário de 18 anos — Gabriel escreveu sobre dois livros recém-lançados em sua coluna semanal (um sobre obstetrícia e outro sobre religião) e aproveitou parte da coluna social para publicar uma pequena homenagem póstuma à sua filha. Gabriel não escrevia bem. Era prolixo e rebuscado. Colecionava palavras difíceis e declinações oblíquas. Defeitos, aliás, que transmitiu ao filho, e que este cuidadosamente desbastou, corrigiu, depurou, ampliou e posteriormente transformou em arte.

Mas seu artigo sobre a filha é inspirado e tocante, porque traz o selo legítimo da tristeza e da saudade.
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À SAUDOSA MEMÓRIA DE DIRCE

Faz hoje precisamente um ano e meio que o gélido sudário da morte te envolve em suas diáfanas vestes e te roubou ao carinho dos teus pais!

A nossa casa é agora um sepulcro lacrado pelo sinete da saudade.

O teu róseo quarto, querida, continua vazio, chora em cada canto uma saudade, geme em cada saudade uma agonia.

As flores que plantaste e regaste com tuas mãozinhas de fada, desfolharam pétala por pétala e rolando n'um queixume triste se foram ao léu, nas asas do vento...

Tua mãe é a mesma — essa mater dolorosa que, n’uma caudal de pranto, procura no céu, nas noites plenilúnias, ver luzir o teu rosto na mais bela estrela coruscante.

Teu irmão, no vácuo do lar antes em festa, sente a ausência da companheira de infância.

O teu velho pai é esse rosto contrafeito, que ri em espasmos de dor, é como a harpa de cordas partidas que dedilha a saudade sem harmonia de acordes.

Desconheço alguém mais invejoso que a morte: ela quer só para si e nos rouba tudo o que é puro e bom.

Minha Dirce querida!

Teu pai viverá ainda rindo, essa louca comédia da vida, sob os grilhões da saudade até que a justiça de Deus o chame aos braços teus na eternidade infinita.

Até lá, continuarei com tua mãe a procurar no céu os teus lindos olhos no luzir das estrelas...

GABRIEL QUADROS
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Bibliografia

  • SCHMIDT, Bernardo. Jânio 
    — Vida e Morte do Homem da Renúncia. São Paulo, O Patativa, 2013.
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Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia
Vol I: "Um Moço Bem Velhinho"
Bernardo Schmidt
Editora O Patativa
350 pgs ilustradas
R$ 30,00 (Frete incluso para todo o Brasil)

Compre através do e-mail editora.opatativa@gmail.com
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Ver também:

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domingo, 5 de outubro de 2014

Hora da Definição














Meus votos, no domingo, dia 5 de outubro, serão para AÉCIO NEVES, GERALDO ALCKMIN e JOSÉ SERRA.

1 - Aécio foi deputado federal por quatro mandatos, governador de Minas durante oito anos e é atualmente senador. Tem a política no sangue (é neto de Tancredo) e é de longe o melhor e mais experiente candidato.

Dilma é o zero à esquerda que já conhecemos bem. Nunca exerceu um único cargo eletivo. Brizolista, ocupou secretarias municipais e estaduais no Rio Grande do Sul sem deixar qualquer lembrança; no ministério das Minas e Energia de Lula ficou conhecida como "a ministra do apagão"; na Casa Civil entrou para acobertar as bandidagens de José Dirceu, e deixou como sucessora uma laranja chamada Erenice Guerra, que também acabou defenestrada por corrupção. Ignorante e despreparada, Dilma tem, como grande marca de sua presidência, as declarações cretinas, a volta da inflação e a corrupção desenfreada nos ministérios e autarquias. Lamento por aqueles que ainda consideram votar numa criatura tão equivocada.

Marina Silva foi vereadora em Rio Branco, deputada estadual pelo Acre e ministra do Meio Ambiente de Lula. Atualmente é senadora. Ela é infinitamente melhor, mais preparada, mais culta, mais inteligente, de melhor caráter e melhor temperamento do que Dilma (ao contrário do que diz o latido dos petralhas, sempre sectários e fanáticos). Se tivesse saído do PT quando estourou o escândalo do mensalão, e não três anos depois, seria minha primeira opção. Como só saiu do PT porque o partido aparentemente não a cogitou para a disputa, é minha segunda opção.

2 - Geraldo Alckmin foi vereador e prefeito em Pindamonhangaba, deputado estadual, deputado federal constituinte, vice-governador por seis anos, governador interino por dois, e governador efetivo por dois mandatos (é candidato a um terceiro mandato). Como disse em outro post, não obstante seus defeitos, e ele tem vários, é o melhor entre os candidatos. É covardia compará-lo aos concorrentes.

Padilha é uma nulidade na mesma linha de Dilma e Haddad, candidatos que Lula tira de seu bolso e joga, como um peixe, para ser engolido pelas focas amestradas que representam a militância do PT e uma triste parcela do eleitorado. Padilha foi ministro da Saúde de Dilma e é conhecido unicamente pelo tenebroso projeto que despejou milhares de médicos cubanos no Brasil. Graças a Deus que São Paulo Estado não é São Paulo Capital, e a votação de Padilha será tão humilhante quanto sua passagem pelo ministério da Saúde.

Paulo Skaf é um empresário de talento, presidiu a Fiesp e botou na cabeça que quer ser governador. Deveria ter aprendido com Antônio Ermírio que em rio de piranha, tubarão é almoço. Péssimo político, foi candidato em 2010 pelo Partido Socialista, o que chega a ser uma piada, e agora veio queimar seu filme de vez no PMDB. Deve ficar na Fiesp, que é seu lugar.

3 - José Serra foi secretário estadual, deputado federal constituinte, ministro do Planejamento e da Saúde durante o governo FHC, prefeito, senador e governador de São Paulo. É um excelente administrador e tem como calcanhar de Aquiles o fato de não ter uma única centelha de carisma. Mas enquanto esta eleição for para o senado e não para Mister Congeniality, meu voto é do Serra.

Eduardo Suplicy é um excelente figura. Gosto dele, conheço-o pessoalmente, é pessoa acessível e gentil. Mas há limite para tudo, e o fato de Suplicy teimar em permanecer no PT, mesmo sendo públicas, notórias e escancaradas as provas de que se trata de um partido corrupto, de cima a baixo e de baixo para cima, não mostra mais lealdade, e sim, cumplicidade, conivência. Como dizia Ulysses Guimarães, não basta não roubar; é preciso também NÃO DEIXAR ROUBAR. E ficando no PT, Suplicy pode até não corromper, mas está fazendo vista grossa para a corrupção de seus colegas. É uma pena.
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Estes são os meus candidatos para esta eleição: Aécio, Geraldo e Serra.

O PT teve sua chance. E a jogou no lixo, junto à sua reputação e à nossa, aqui e no exterior. Chega.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Último debate presidencial



Meus caros,
Este último debate foi tudo que os outros debates deveriam ter sido. Sendo a última oportunidade do mano a mano, Dilma, Aécio e Marina pararam de se estapear com luvas de veludo e foram pro quebra pau de uma vez; Eduardo Jorge nos divertiu como sempre, aquele pastor Everaldo superou-se em sua inutilidade e a dupla Debi e Lóide  Luciana Genro e Levy Fidélix  fizeram suas macaquices habituais. Só que pela primeira vez senti que o vencedor foi Aécio. Vamos lá:

1 - Aécio foi exemplar. Demonstrou, descontraído e tranqüilo, estar anos luz à frente de seus concorrentes. Transbordou segurança, preparo, e até bom humor para responder as acusações de Marina ou a blablação intolerável de Luciana Genro. Homenageou FHC de forma elegante e justa  coisa que aquele tonto do Serra nunca fez, prejudicando-se profundamente por conta disso  e metralhou Dilma do início ao fim, conciso, objetivo e contundente. Lamento que não tenha sido tão incisivo e cortante desde o primeiro debate. Teria ultrapassado Marina tempos atrás.

Seu único erro, por sinal, foi fustigar Marina. Deveria tê-la tratado com urbanidade e simpatia, compreendendo que o mal comum é o PT, mas seus marqueteiros dormiram no ponto. A esta altura, o acordo para o segundo turno, seja qual for o resultado, já deveria estar pronto e engatilhado.

2 - Dilma já não é boa em debates, mas hoje estava particularmente ruim. Suas limitações, a confusão mental e a conseqüente gagueira foram cruéis. Recebeu inerme as pauladas de Aécio e parece não ter encontrado forças para repisar, pela undécima vez, as mesmas respostas idiotas com que responde a tudo, culpando o governo anterior, desde a campanha de 2010. O ponto alto de sua baixeza foi dizer que criou mecanismos de combate à corrupção. Pelo contrário. Seu partido criou mecanismos de incentivo à corrupção e da celebração vexaminosa e repulsiva de seus bandidos condenados.

É impressionante. Só no Brasil, mesmo, tem gente tão imbecil que consegue votar numa pessoa que está moralmente liquidada. Os eleitores de Dilma são, em sua obstinação burra e fanática, os mesmos que pretendiam eleger Maluf mais uma vez.

3 - Marina, assim como Dilma, estava cansada, esgotada e rouca. E deixou o melhor para o fim. Eu, desde a homologação de sua candidatura, vinha reclamando a necessidade dela parar de lamber PT e PSDB, e assumir de uma vez uma postura de repúdio total ao atual governo. Fez isso hoje, último dia da propaganda eleitoral e último debate. Alfinetou Dilma por não ter jamais exercido um cargo eletivo antes de se tornar presidente. Como diz o inglês, "too little, too late". Marina deveria ser a terceira via e o máximo que conseguiu foi ser uma espécie de versão dietética da Dilma.

4 - Luciana Genro tem 43 anos, aparência de 53 e mentalidade de 16. Seus ataques histéricos, onde atira para todos os lados, e sua defesa de movimentos corroídos pela corrupção, como o MST, são tão cínicos, tão oportunistas  sobretudo considerando que ela é filha de um proeminente político petista e nunca soube o que é pobreza  que ela se transformou em tudo aquilo que mais abomina: virou um Jair Bolsonaro de saias. Ele é militarista, agride quem não concorda com ele e vive em pé de guerra com os gays; ela prega um comunismo falido desde os anos 50, agride tudo e todos e sua única agenda é a dos gays. São igualmente reacionários. Que bom que Aécio lhe disse, em alto e bom som, que ela não está preparada para ser candidata à presidência.

E graças a Deus que com o fim da campanha não teremos mais que ouvir sua logorréia interminável de protesto, de revolta, de rebeldia sem causa, enfim, de pentelhice.

Vamos à eleição. E oxalá Aécio vá para os segundo turno.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Homenagem a Chico de Assis no Teatro de Arena



Meus caros,
ontem o Teatro de Arena sediou o lançamento dos dois volumes do Teatro Seleto de Chico de Assis. Nada mais justo, nada mais louvável, nada mais merecido.

Todos os luminares do Arena transcenderam o cubículo da Teodoro Bayma: Zé Renato foi para o Teatro Nacional de Comédia e para o Teatro dos Arcos, Guarnieri partiu para a TV e para o Teatro de Ocasião e Boal criou o Teatro do Oprimido.

Chico transcendeu sem sair. Tornou-se corpo e alma do Seminário de Dramaturgia ministrado no próprio Arena. De todos os velhos integrantes e criadores do grupo, ele foi o único que ficou. E seus trabalhos têm dado frutos permanentes. Os dois volumes da Funarte são apanhado oportuno, mas já se faz a necessidade - premente e comentada ontem - de um terceiro volume, e se possível um quarto e um quinto.


Chico e Ary Toledo
O lançamento foi também a reunião de velhos amigos. E não poderia ser de outra forma, sendo Chico um remanescente do Arena, grupo que sempre valorizou as relações humanas, as amizades, as parcerias, o coleguismo. Não tem preço reencontrar meu bom João Ribeiro, ator e professor de teatro, que vi pela última vez em 2005, na palestra de Zé Renato e Eva Wilma no Teatro dos Arcos. David Leroy, como já disse antes, é amigo de sempre, dos teatros da vida. Falei dele há pouco no texto sobre Gurnieri no SESC do Carmo. E para mostrar sua dedicação aos amigos e ao bom teatro, veio do Rio - onde está atualmente em temporada com "Elza e Fred" - somente para prestigiar o grande Chico.


Encontro com esse notável estudioso
de nossa MPB, Zuza Homem de Mello

O prazer só faz aumentar. Paulo Hesse não é só ator que aplaudo há anos e anos, mas soube ontem que foi um dos primeiros professores de João Ribeiro. O talento de Evill Rebouças conheço desde a Sociedade Lítero-Dramática Gastão Tojeiro e foi muito bom rever esse querido amigo. Outro que citei no texto sobre Guarnieri, e que tive o supremo prazer de rever e de abraçar foi o admirável Zuza Homem de Mello. É nosso maior estudioso e autor de obras absolutamente fundamentais sobre MPB. E lá estavam Oswaldo Mendes (prefaciador do livro), Walter Negrão, Mário Masetti, Dulce Muniz, Bebeto Castilho, irmão do saudoso Carlos Castilho, diretor musical do Arena Conta Zumbiem aparição raríssima. Só gente boa.

Ary em "A Criação do Mundo Segundo Ary Toledo", no Arena, em 1966

E o que posso dizer de Ary Toledo? Há anos acalento o desejo de conhecê-lo; fui entretido por seu humor a vida toda e ontem, finalmente, pude abraçá-lo e agradecer por ter trazido mais risos e mais humor para nossas vidas.

Esse humorista fantástico - pouca gente sabe - começou no Arena, em cuja porta bateu, humildemente, pedindo qualquer emprego, apenas para poder fazer parte de tudo aquilo... Ofereceram-lhe o emprego de faxineiro. Ele contaria a história brincando, no futuro, destacando que sua resposta foi: "Ha, ha, haaa... ceito". "Meu primeiro emprego foi bilheteiro, faxineiro e contra-regra do Teatro de Arena", diria ele, tempos depois, acrescentando que sua pobreza era tal que não lhe restava alternativa senão dormir no próprio teatro. Anos tiveram que passar até que ele começasse a construir sua carreira. 

Foi uma noite linda, inesquecível, que, como não podia deixar de ser, se transformou em uma grande homenagem ao Chico. Eis o que disse o mestre hoje, sobre a festa:



Estou pensando que ontem a noite no Teatro de Arena,eu passei por momentos inesquecíveis. Grupos de teatro com peças minhas; amigos, muitos amigos reunidos para festejar meus dois livros de peças teatrais. Eu gostei mais da festa do que de ter que autografar os livros. Mas é impossível não amar ver a nossa obra em livro. Revi gente que não via há tempo, encontrei gente que me conhecia e eu ainda não conhecia. Alguns momentos me emocionaram muito. O Tadeu DiPietro dizendo o monólogo do ator que escrevi para o meu amigo Lima Duarte - que aliás não apareceu - foi algo que se amarrou na minha emoção. Minha ex-aluninha desde pequenininha, a Helena Arida, com o tio dela, o Nabil, dizendo trechos de peças minhas. Ela agora uma mulher bonita mas que para mim sempre será uma criança. Vou ter que escrever isso aqui em capítulos por que não posso esquecer de nada.

Teve gente que chegou um pouco mais tarde e não conseguiu entrar por que o Arena esteve mesmo lotado. Diria que abarrotado. Graças ao bom Deus. Mas pra quem não foi e quem não conseguiu entrar vai haver outra noite de autógrafos no Clube Paulistano, no mês de outubro. Eu aviso. Senti falta de gente que não foi mas preciso saber por que não foram, para poder mandar meus anátemas. Enfim foi a noite das minhas noites!

Chico é duplamente um mestre. Mestre dramaturgo e, como muito bem observou sua aluna Eliana Iglesias, um mestre da vida.

Abaixo, o memorável agradecimento de Chico:

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