segunda-feira, 1 de agosto de 2011

As Eleições Municipais de São Paulo em 1928 e 1936 — Parte 2/2


Armando de Salles Oliveira

No dia em que os destinos do povo passarem para as mãos de quem se caprichar em evitar a nefasta ação do partidarismo político; em que ficar bem estabelecida e nítida a distinção entre os interesses gerais e os particulares; em que usufruirmos a suprema ventura de observar o “habeas animam” com a mesma popularidade do “habeas corpus”, e em que, afinal, perante os governantes, os patrícios não se dividirem entre gregos e troianos, aí sim, se iniciará a era do já afamado governo forte. (Marrey Jr., 1936)

O prestígio do Partido Democrático foi inteiramente englobado pelo novo interventor, o engenheiro Armando de Salles Oliveira. Empossado em agosto de 1933, ele era civil e paulista, como vinha sendo solicitado por São Paulo desde o golpe de 30, mas não um civil paulista apagado e desconhecido como Laudo Camargo e nem idoso e sem traquejo para a política atual, como Pedro de Toledo. Salles era jovem, preparado, inteligente, tinha ligações profissionais com o Estadão (ficou à frente do jornal durante a levante de 32), relações pessoais com os principais líderes revolucionários paulistas (era casado com Raquel, irmã de Júlio Mesquita Filho), e possuía malícia e desprendimento necessários para entrar em qualquer tipo de entendimento com um ditador insensível e acanalhado como Getúlio, que lograra, com sua inércia e sua incapacidade de tomar uma decisão, açular um Estado a ponto de jogá-lo em uma luta fratricida que poderia ter sido tranqüilamente evitada. Uma de suas primeiras providências como interventor foi o damage control no PD. O partido estava agonizando e era preciso fazer algo urgentemente. Estando ausentes do cenário eleitoral tanto Marrey quanto os demais descontentes com a Frente Única, Salles astutamente passou uma borracha nas desavenças nascidas dos levantes de 30 e 32 e organizou o Partido Constitucionalista, “uma síntese das aspirações que as duas revoluções defenderam”, para reunir sob uma única sigla os membros do PD, da Ação Nacional Republicana (dissidência do PRP) e da Federação dos Voluntários.

O objetivo primordial, evidentemente, estava nas eleições de outubro de 1934 para a Câmara Federal Ordinária — a função dos eleitos em maio de 33 era exclusivamente a elaboração e promulgação da nova Carta Constitucional. Realizada a missão, eles deixariam o congresso em março de 35, dando lugar aos eleitos em outubro, que exerceriam um mandato de 4 anos — e para as Assembléias Constituintes Estaduais. No dia 24 de fevereiro, quando completaria oito anos, o PD deixou de existir e nasceu o PC, Partido Constitucionalista. Em 16 de julho a Constituição foi promulgada, Getúlio Vargas proclamado “presidente Constitucional” — contra o voto dos perrepistas, que lançaram a candidatura simbólica de Borges de Medeiros — e a Chapa Única dissolvida. O PRP e o agora PC voltaram a ser adversários. Com efeito, a criação do PC foi uma forma de filtrar a população entre aqueles que estavam a favor da reconstitucionalização com Getúlio na presidência, e aqueles que viam aquilo como puro adesismo e exigiam um retorno à normalidade democrática e às eleições livres imediatamente. Sobre os métodos eleitorais utilizados pelos “peceístas”, como passaram a ser chamados os próceres do novo partido, é interessantíssima a descrição do historiador Plínio de Abreu Ramos:

Dissolvida a Chapa Única em julho de 1934, o Partido Constitucionalista usou dos mesmos artifícios de pressão política que o PRP exercera contra seus adversários ao longo de 36 anos de domínio. Armando participou pessoalmente da campanha, percorrendo os principais municípios paulistas, formando diretórios e capturando para o seu partido influentes chefes perrepistas do interior que não tinham condições de sobreviver politicamente sem a assistência cartorial dos favores governamentais. Vários comícios perrepistas foram dissolvidos na Capital, sendo que, em um deles, a polícia interveio precisamente no momento em que discursava o tribuno Ibrahim Nobre. Enquanto o Correio Paulistano, órgão do PRP, tinha sua ação limitada pela censura, O Estado de S. Paulo publicava amplas reportagens devassando todo o passado do PRP. (DHBB, volume IV. FGV, 2001)


Como se vê, bastou um ano de poder em São Paulo para que os Democráticos se corrompessem e passassem a incorrer exatamente nos mesmos vícios do regime anterior. De uma forma ou de outra, antes que os deputados estaduais fossem eleitos, Armando de Salles acabou com a dança das cadeiras que virara a prefeitura de São Paulo e, em 7 de setembro de 1934, nomeou o sobrinho de Antônio Prado, Fábio Prado, para o comando do Executivo paulistano.

Propaganda pra lá de apelativa do PC
para a eleição de 1934

Em 14 de outubro de 1934 vieram as novas eleições legislativas e naquele primeiro momento, o grupo ligado a Salles e à nova ordem política levou a melhor. A Chapa Única, incluindo quadros notáveis do PRP, pulou quase integralmente para o PC e os Constitucionalistas elegeram 22 deputados para os trabalhos ordinários da Câmara Federal, a partir de março de 1935: Abelardo Vergueiro César, Antônio Barros Penteado, Antônio Carlos de Abreu Sodré, Carlos de Moraes Andrade, Carlota Pereira de Queiroz, Cardozo de Mello Netto, António Castilho Alcântara Machado d’Oliveira (autor de Brás, Bexiga e Barra Funda e filho de José Alcântara Machado), Antônio Pereira Lima, Aureliano Leite, Francisco Alves dos Santos Filho, Francisco Oscar Penteado Stevenson, Horácio Laffer, João Alves de Meira Junior, João Rodrigues de Miranda Junior, Joaquim Sampaio Vidal, Justo Rangel Mendes de Moraes, Luiz Barbosa da Gama Cerqueira, Luiz de Toledo Piza Sobrinho, Paulo Nogueira Filho, Ranulfo Pinheiro de Lima, Teotônio Monteiro de Barros e Waldemar Ferreira.

O PRP elegeu apenas doze deputados para essa nova fase da Câmara: Álvaro Teixeira Pinto Filho, Antônio Bias da Costa Bueno, Cid de Castro Prado, Cincinato Braga, Félix Ribas, Heitor Macedo Bittencourt, Henrique Jorge Guedes (que chegou a ser prefeito de São Paulo entre dezembro de 31 e maio de 32, e mesmo assim permanecia no PRP), João Batista Gomes Ferraz, José Alves Palma, Laerte Setúbal, Manoel Hipólito do Rego e Roberto Moreira. Foi o prenúncio de uma derrota ainda maior; aquela que o PRP sofreria na Assembléia Legislativa paulista, onde, pela primeira vez em décadas, deixaria de ser maioria.

O legislativo estadual de São Paulo continha 75 cadeiras, sendo que 15 estavam reservadas para os deputados classistas (inovação que ocorreu a nível nacional e também fez parte do Congresso Constituinte; era uma tentativa capenga e mal planejada de inserir patrões, empregados e demais representantes do operariado, do comércio e da indústria entre os legisladores, e não passou das eleições de 33 e 34). Cinco partidos apresentaram candidatos: o PRP, o PC, o PCB (Partido Comunista Brasileiro), o PSB (Partido Socialista Brasileiro) e a AIB (Ação Integralista Brasileira). Das 60 cadeiras disputadas, o PRP conseguiu apenas 22 contra as 36 do Partido Constitucionalista. O PSB emplacou a eleição de Romeu de Campos Vergal e a AIB elegeu João Carlos Fairbanks, que lançou seu nome tanto para a Constituinte Federal quanto para a Estadual. 

Em sentido horário: Paulo Duarte,
Bento de Abreu Sampaio Vidal, Thiago Masagão e Romão Gomes


Eleitos pelo PC: Alarico Franco Caiuby, Antônio Carlos Pacheco e Silva, Aristides Bastos Machado, Aristides de Macedo Filho, Benedicto Montenegro, Bento de Abreu Sampaio Vidal, Cândido Motta Filho, Carlos de Moraes Barros, Carlos de Souza Nazareth, Cássio da Costa Vidigal, Celso Torquato Junqueira, Clóvis de Paula Ribeiro, Cory Gomes de Amorim, Dante Delmanto, Elias Machado de Almeida, Ernesto de Moraes Leme, Eugenio de Toledo Artigas, Francisco Mesquita, Francisco Vieira, Henrique Neves Lefévre, Henrique Bayma, Joaquim Celidônio Gomes dos Reis Filho, José Augusto de Souza e Silva, Laerte Teixeira Assumpção, Manfredo Antônio da Costa, Maria Thereza Nogueira de Azevedo, Maria Thereza Silveira de Barros Camargo, Mário Pinto Serva, Oscar Cintra Gordinho, Paulo Duarte, Renato Bueno Netto, Romão Gomes, Sylvio de Andrade Coutinho, Thiago Masagão, Valdomiro Silveira (que depois de renunciar a seu mandato de deputado federal constituinte para trabalhar no secretariado de Armando de Salles, ocupou duas secretarias e se candidatou à constituinte estadual, obtendo expressiva vitória) e Valentim Gentil.

Eleitos pelo PRP: Adhemar de Barros, Alberto Americano, Alfredo Ellis Junior, Carlos Cyrillo Junior, Décio Pereira de Queiroz Telles, Diógenes Ribeiro de Lima, Epaminondas Ferreira Lobo, Frederico José Marques, Innocencio de Assis Carvalho, Ismael Torres Christiano, João Baptista Ferreira, José Bastos Cruz, José de Almeida Sampaio Sobrinho, José de Moura Rezende, Luiz Fernandes de Abreu, Luiz Pereira de Campos Vergueiro, Manoel Carlos de Siqueira, Mariano de Oliveira Wendel, Miguel de Abreu Pereira Coutinho, Oscar Thompson, Sebastião de Magalhães Medeiros, Tarcísio Leopoldo e Silva.

Maria Thereza Nogueira de Azevedo
Há figuras dignas de comentários e análises nessa legislatura, inclusive Diógenes Ribeiro de Lima, vereador da canalhíssima legislatura de 1928, e o jovem Adhemar Pereira de Barros, que começou ali sua carreira política. Dentro de um contexto sociológico, porém, não se pode deixar de consignar a eleição das duas Marias Therezas eleitas pelo Partido Constitucionalista, primeiras representantes femininas em um parlamento paulista: Maria Thereza Nogueira de Azevedo e Maria Thereza Silveira de Barros Camargo. Azevedo era representante de Campinas e notabilizou-se pelos serviços prestados à resistência feminina na Revolução de 32. Fundou e secretariou a Associação Cívica Feminina e a União Feminina Paulista, ligadas à campanha da Chapa Única, além de integrar a comissão do monumento a Anchieta e o Conselho Consultivo da Faculdade Paulista de Medicina.

Maria Thereza de Barros Camargo

Já Barros Camargo, natural de Piracicaba, era um exemplo raríssimo de mulher emancipada, e não era aquela a sua primeira experiência com política. Viúva do empresário limeirense Trajano de Barros Camargo, que morreu prematuramente, aos 40 anos, em 1930, Maria Thereza assumiu todos os negócios do marido, como empresas em Santos e Limeira, e uma fazenda em Brotas. Em Limeira, contudo, ela concentrava suas atividades. Fundou a Associação Cívica Feminina daquele município, e se destacou no esforço de guerra, prestando grandes serviços à Assistência às Famílias dos Voluntários, ao Curso de Enfermagem e ao Hospital do Sangue de Limeira. A recompensa por essa larga folha de serviços prestados ao município e ao Estado veio em 1933, quando Armando de Salles, em gesto pioneiríssimo, a nomeou prefeita de Limeira por alguns meses. Com efeito, Maria Thereza foi a primeira mulher a assumir uma prefeitura no Estado de São Paulo, e uma das três ou quatro primeiras no Brasil inteiro. Eis o que se diz sobre Maria Thereza em publicação do PC:

Construindo escolas, abrindo e melhorando estradas, dirigindo severamente as finanças municipais, empreendendo melhoramentos de toda sorte, dona Maria Thereza Silveira de Barros Camargo aparece como verdadeira técnica em problemas municipais e urbanísticos, surpreendendo mesmo aqueles que já lhe conhecem o valor. (...) É uma figura singularmente ativa e eficiente de mulher moderna que, se apropriando daqueles valores de cultura e ação que em nosso país pertencem mais freqüentemente aos homens, conservou as suas excelsas qualidades feminis de dedicação e de bondade, fineza de espírito e de sentimentos. (Campos, Calazans de (org.). Candidatos do Partido Constitucionalista. São Paulo, PC, 1934)
 
A Assembléia Constituinte de São Paulo iniciou seus trabalhos em abril de 1935. No dia 11 Armando de Salles foi eleito “governador constitucional” (derrotando Altino Arantes, lançado pelo PRP) e na disputa pelas duas vagas ao Senado Federal (que na época eram votadas e eleitas pelos deputados estaduais), Paulo de Moraes Barros e Alcântara Machado levaram a melhor sobre os candidatos do PRP, Oscar Rodrigues Alves e Mário Tavares. A Constituição Paulista foi promulgada em 9 de julho de 1935. Terminada sua elaboração, não houve um segundo pleito para a Assembléia Ordinária, que acabou composta pelos próprios constituintes. A nível nacional, os comunistas deram seu grande passo em falso com a Intentona de novembro. Prestes, o PCB e toda a ANL foram para a ilegalidade e Vargas decretou Estado de Sítio.

Em sentido horário: Alcântara Machado, seu filho António de Alcântara Machado, Almeirindo Meyer Gonçalves e Oscar Cintra Gordinho

Passados quatro anos desde o golpe de 1930, o quadro político se alterara substancialmente. Os Democráticos e atuais Constitucionalistas sentiram o gosto do poder e preferiram acreditar cegamente que Getúlio tivesse, de fato, alguma pretensão democrática em seu futuro. Os perrepistas, por sua vez, utilizavam o mote dos mandatos “constitucionais”, outorgados pela Constituinte, para atacar o “adesismo” dos Constitucionalistas e a morosidade do retorno à democracia. O problema é que as tais “clivagens” ideológicas de que fala ocasionalmente a socióloga Regina Sampaio estavam funcionando a todo vapor, então já não era mais tão fácil saber quem era contra o quê, quem perdera e quem vencera no golpe, e nem a quem realmente pertencia o poder. Compreendia-se, por exemplo, que os modernistas António de Alcântara Machado e Cândido Motta Filho se desgarrassem da orientação perrepista de seus célebres pais, mas que o velho Alcântara Machado, ou um notório conservador como Bento Abreu de Sampaio Vidal estivessem no PC, era no mínimo curioso. Também não se sabia ao certo o que um plutocrata como Oscar Cintra Gordinho — rejeitado em todas as listas de possíveis sucessores de Waldomiro de Lima — estava fazendo no meio dos constitucionalistas. Verdade seja dita, era Democrático de primeira hora. Estranho, mesmo, foi o PC ter permitido que Almeirindo Meyer Gonçalves — também vereador da legislatura eleita em 30 de outubro de 1928 — se candidatasse a deputado estadual pela legenda constitucionalista.

Todas essas semelhanças e diferenças foram amplificadas imensamente assim que começaram a ser delineadas as duas candidaturas presidenciais. Mas antes disso, a Lei Orgânica dos Municípios estabeleceu que no domingo, dia 15 de março de 1936, o povo do Estado de São Paulo elegeria prefeitos e vereadores. Na Capital e em São José dos Campos haveria apenas eleições legislativas; a escolha dos prefeitos continuaria sendo de provimento exclusivo dos governadores.

Marrey Jr.

Era hora de ressuscitar Marrey, que há pouco mais de três anos estava quieto em seu canto, na Vila Mariana, assistindo tudo calado e vivendo na mesma pobreza honrada e franciscana em que viveu sempre. Assim que o pleito foi anunciado, o PRP passou por cima de mágoas e antigas diferenças, e aproveitou o rompimento de Marrey com seus companheiros do PD, para, sem qualquer cerimônia, convidá-lo a disputar uma cadeira na Câmara Municipal pela legenda que ele combateu tão duramente. À primeira vista pareceria uma aberração, mas quando constatamos o caso de Almeirindo Meyer Gonçalves na eleição estadual, ou de outras figurinhas carimbadas da legislatura de 1928, como Alexandre Albuquerque, que estava agora na chapa que concorria à vereança pelo PC, ou até mesmo de Rubião Meira, que assim como Marrey, fizera o caminho contrário, do PD para o PRP, verificamos que o jogo político agora era outro. Quantos Democráticos e Constitucionalistas não estavam se arrastando, dóceis e genuflexos pelas atenções de Vargas, e quantos perrepistas não se aboletaram na Chapa Única e depois no PC, utilizando a revolução de 32 como pretexto, abjurando ao que pregaram sua vida toda, somente para poderem permanecer politicamente vivos?

Marrey aceitou o convite e concorreu pelo PRP. O resto da chapa foi constituído dos seguintes nomes: Abrahão Ribeiro, Achilles Bloch da Silva, Alayde Borba, Synésio Rocha (que permaneceu no PRP e tentava voltar à Câmara), Francisco Patti, José Eiras Mairy, Carlos Pinto Alves, Fontes Junior, Leonardo Pinto, Múcio Faria, Franco de Abreu, Sylvio Margarido, Gilberto Sampaio, Orlando de Almeida Prado (ex-vereador e deputado estadual pré-1930), Luiz Tenório de Brito, Reynaldo Smith de Vasconcelos, Gaspar Ricardo e Rubião Meira.


Pelo PC concorreram, nessa eleição, Francisco Machado de Campos (vereador pelo PRP na legislatura de 1925 e prefeito de São Paulo nomeado por Laudo Camargo, de julho a novembro de 1931), Thomaz Lessa, Nicolau Marques Schmidt, Luiz Augusto Pereira de Queiroz, Antônio S. de Freitas, José Cerquinho de Assumpção, Alcides Chagas da Costa, Thiago Masagão Filho, Miguel Capalbo, Modesto Naclério Homem Netto, José da Costa Machado, Antônio Vicente de Azevedo, Mário Ottoni Rezende, José Ferreira da Rocha Filho, Zózimo de Abreu, Samuel Augusto de Toledo, Alexandre Albuquerque, Antônio de Queiroz Telles, Laurentino de Azevedo e Adhemar de Moraes. Entre os Constitucionalistas, a notícia do convite perrepista a Marrey foi recebida com incredulidade. Durante a reunião do partido que homologou a chapa de candidatos ao pleito municipal, um dos repórteres presentes escutou esta conversa entre dois próceres infelizmente não identificados, que descrevem Marrey com perfeição:

Um deles, virando-se para o seu companheiro de outro bairro, conversam sobre os elementos que compõem a chapa apresentada pelo Partido Republicano Paulista. E, por nada, quer acreditar que o Sr. Marrey Junior faça parte da chapa da oposição. “Em todo o caso”, disse ele a seu colega, “tome muito cuidado com o Marrey... ele é maneiroso e tem prestígio. É macaco velho, sabe manobrar o eleitorado”. (Diário da Noite, 2/3/36)

Sobre a constituição da chapa do PC, Prudente de Moraes Netto declarou, otimista: “A chapa do Partido Constitucionalista é um repositório das mais sublimes forças morais e intelectuais de nossa gloriosa terra. Com esses nomes venceremos, o que equivale dizer que São Paulo vai vencer mais uma vez”.

Nem tanto. Ou melhor, podia até ser, mas isso não significava que a bancada peceísta pensava em uníssono, ou que, mais cedo ou mais tarde, o PC não pagaria um preço por ter escancarado suas portas a coligações com inimigos de véspera para as eleições de outubro de 1934. Nessa época, que coincidiu com o triste falecimento, em 19 de fevereiro de 1936, do bom Gama Cerqueira, figura de proa entre os Democráticos e Constitucionalistas, surgiu formalmente uma dissidência do PC comandada pelo velho Alcântara Machado, que entrara em atrito com o Diretório Estadual do partido.

Alarico Caiuby e Cory Amorim
Era, porém, a mera manifestação pública do desacordo entre o grupo de Alcântara e determinados elementos; o apoio irrestrito a Armando de Salles continuaria até segunda ordem. Só que quando foram anunciados os candidatos do PRP, PC, AIB e PSB, apareceu uma quinta chapa, chamada “Coligação por São Paulo”, segunda dissidência constitucionalista que tinha à frente, entre outros, deputados estaduais eleitos pelo PC, como Alarico Caiuby e Cory Amorim. O primeiro era ex-perrepista e chegou a ser vereador na legislatura de 1925. O segundo vinha de um tal Partido Nacionalista de São Paulo, espécie de embrião do PDC, que contava com o futuro cacique pedecista Manuel Vítor entre seus quadros. Amorim foi candidato à Constituinte pelo PN mas perdeu a eleição.

Reunidos em assembléia, os membros da Coligação lançaram uma chapa com nomes desconhecidos e um manifesto que não teve qualquer repercussão. O documento, vazado em termos agressivos, mistura claramente ódio de perrepistas destronados e mágoa de Democráticos alijados. Era um manifesto de ressentimento político e hoje está inteiramente esquecido, mas relendo-o pelo que é, um simples comentário da situação do município pós-golpe de 30, o que se vê é uma análise brilhante, visionária, de inesperada clarividência sobre a grosseira pletora de equívocos revolucionários cometidos em São Paulo:

A Coligação por São Paulo aparece no momento em que se vai ferir o mais importante pleito eleitoral do país, que é o que organiza definitivamente a administração municipal. Sabedor do que esse pleito representa, na entrosagem (sic) de todas as atividades nacionais, a Coligação quer ser e vai ser uma partícula da interpretação do anseio geral, nesta hora de sombras e de subversão de valores. E inicia a sua atividade por onde devia começar, na defesa da cidade de São Paulo que, na loucura revolucionária destes últimos anos, se arruína a olhos vistos, transformando-se em quartel mestre de todos os desatinos políticos e administrativos.

Precioso é o comentário em que os dissidentes se dizem forçados a agir, “pela atitude precoce dos atuais regeneradores, abrasados por ambições políticas e pelo espetáculo desalentador de nossa cidade, anarquizada, desfigurada e empobrecida pelo entrechoque de prefeitos fabricados pela ditadura, ou indicados para preparar o apossamento das instituições pelos que se arvoraram em donos da revolução de 30”, prova irrefutável de que mesmo em tal conjuntura provocava espanto e indignação o troca-troca oportunista e criminoso de prefeitos de São Paulo no alvorecer do golpe.

Também exemplar é o trecho seguinte em que se enumeram os problemas de São Paulo, e, já naquela época, se fala do município que “de há muito oferece os mais graves e complexos problemas de uma metrópole, porém, com um desenvolvimento desmedido e irregular, sem plano algum”:

a) Sem conforto; b) sem pronto socorro médico; c) sem tranqüilidade; d) sem trânsito organizado; e) sem calçamento necessário; f) sem iluminação adequada; g) sem serviço de água e esgotos na atura de suas necessidades; h) sem divertimentos públicos; i) sem área ajardinada proporcional à sua população; j) sem defesa higiênica para as habitações, pois que: 1) possui bairros distantes em absoluto abandono, quase que isolados da vida urbana; 2) possui um sistema de construções infiscalizáveis (sic), proporcionando a criação de habitações coletivas que destroem a vida do operário e das populações pobres; 3) tem péssimo serviço de distribuição de gêneros alimentícios, com ausência de postos de socorro aos necessitados e às populações ribeirinhas do Tietê.

Em um parágrafo a tal coligação conseguiu ferir pontos delicadíssimos da administração paulistana, que até hoje são insolúveis, como a falta de hospitais, de saneamento básico e áreas verdes. Mais do que isso, cita os “bairros distantes em absoluto abandono, quase que isolados da vida urbana”, grande flagelo das zonas Sul e Leste, e ainda põe a descoberto o então nascente problema das favelas, “construções infiscalizáveis, proporcionando a criação de habitações coletivas que destroem a vida do operário e das populações pobres”. E continua, cada vez mais brilhante, culpando o “aparelho administrativo luxuoso mas deficiente”, responsável pelo fato de que a “cidade que está crescendo, de maneira alarmante num teor de vida insuportável”. E não fica só nas acusações. Passa, a seguir, a suas propostas:

Revendo, cuidadosamente, as loucuras destes últimos anos, que foram distribuídas fartamente, pela ausência de responsabilidade dos governos municipais e estaduais da ditadura, não pouparemos esforços para salvar a cidade, que foi uma das glórias do continente, de uma decadência irremediável e definitiva, propondo:

a) Uma política fiscal que redunde em beneficio da comunidade; b) uma política administrativa, que restaure a dignidade do funcionário e consiga, ao mesmo tempo, a eficiência da função; c) uma política urbana, dentro de um plano previamente traçado, tendo em conta as zonas da cidade, os bairros industriais, comerciais, proletários e residenciais; retificação do Tietê, construção do aeroporto; criação de novos playgrounds, etc.; d) uma política social capaz de animar o ensino municipal, a criação da assistência à infância, o amparo a todos os necessitados, construções de casas baratas e higiênicas, meios de transporte fáceis e a bom preço para escolares, proletários e professores; de postos de socorro nos bairros distantes.

Não queremos fazer tudo isso, de um momento para o outro. Somos realistas. Conhecemos os fatos e os homens. Para agir, agiremos com rigor, dentro dessa consciência e dentro desse programa. Assumimos uma grande responsabilidade, o que vale dizer que assumimos uma atitude que exige sacrifício e tenacidade.

É pena que a Coligação por São Paulo não tenha empolgado ninguém, porque, pelo menos na teoria, foi a demonstração mais lúcida e objetiva de conhecimento dos problemas citadinos em muitos anos. Dias antes da eleição se misturavam matérias pagas anunciando homenagens e reuniões da Coligação por São Paulo, com avisos apócrifos como este, que, sob o título “Somente nos parlamentos se fará sentir a ação dos dissidentes”, afirmava que “os dissidentes só passarão a agir eficientemente, quando do início dos trabalhos parlamentares, no Senado, na Câmara Federal e na Assembléia Legislativa”, desautorizando a Coligação por São Paulo e evidenciando que a dissidência vinha de cima e sequer entraria em assuntos municipais. Se era de responsabilidade da verdadeira dissidência, encabeçada por Alcântara Machado, não se pode dizer ao certo, mas o último parágrafo é explosivo: “Até lá, os dissidentes ficarão assistindo de palanque a luta entre peceístas e perrepistas”.

Olga Benário
O público brasileiro estava mais preocupado com outros assuntos que antecederam o pleito, como por exemplo a prisão, na madrugada do dia 5 de março, de Luiz Carlos Prestes no casebre que dividia com Olga Benário no nº 279 da rua Honório, no bairro carioca do Meyer. Os jornais noticiaram amplamente o ocorrido, referindo-se inicialmente à presença de uma “moça loira, secretária do capitão Prestes”, depois a “Olga Meirelles”, mulher de Prestes e, quem diria, “irmã do tenente Syllo Meirelles”, responsável pela intentona no Recife. Ainda houve espaço para uma “Olga Bergne” e “Maria Bregner”. O desconhecimento sobre a identidade da mulher de Prestes, “bastante moça e de boa aparência”, durou quase dois meses. Só em 30 de abril o nome “Olga Benário”, sua verdadeira identidade, foi finalmente divulgada, bem como sua lista de antecedentes no comunismo alemão. Seja como for, a prisão do casal foi a manchete do dia 5 de março e os jornais imprimiram 4 ou 5 edições diferentes, conforme as notícias vinham chegando.


Interessante que em lugar nenhum, verificando o que publicou a imprensa de São Paulo naquele dia, encontrei o tal “Não atirem! Ele está desarmado!” — gesto de heroísmo algo piegas e desastrado com o qual Olga teria defendido Prestes, jogando-se à frente dele no momento de sua prisão — que parece ter sido criado por Ruth Werner, primeira biógrafa de Olga (“Na frente do homem que deveriam matar, apareceu de repente uma mulher de braços abertos, protegendo-o. Olhava firme para os soldados. (...) Ela não gritava, não chorava. Calma e sem dizer uma palavra, simplesmente não permitia que ninguém tocasse em Prestes”) e descaradamente transformado em romance épico por Fernando Morais (“uma mulher alta pula na frente de Prestes, protegendo-o com seu corpo e dá um berro para os soldados. Não era um pedido de clemência, mas uma ordem dada por Olga: Não atirem! Ele está desarmado”). Segundo a imprensa, nada disso aconteceu. Quando se deu conta que a polícia estava lá, Prestes tentou fugir pelos fundos mas foi interceptado. A partir daí, não apresentou a menor resistência. Dizem alguns repórteres que Olga, ao contrário do que consta nas numerosas licenças poéticas e criativas de Fernando Morais, incitou Prestes a resistir, o que ele, prudentemente, teria evitado.

Três dias antes do pleito temos mais uma ocorrência que merece ser relembrada, só que fora da esfera política: pouco depois do meio-dia daquele 12 de março, um pequeno avião caiu dentro de uma casa, na então sossegada e residencial rua da Consolação. O avião partira do Aeroclube de São Paulo (que aliás, era presidido pelo deputado constitucionalista Eugênio de Toledo Artigas) e sobrevoava o Jardim América quando o piloto Anésio de Amaral Filho se deu conta de que o motor de seu Morane-130 estava falhando, uma “pane-seca”, no jargão aeroviário. A altura de 300 metros em que voavam ele e Natalino Carif, aluno do Aeroclube, e a pouca velocidade impediam a chegada deles ao Campo de Marte, razão pela qual foi necessário improvisar. Tendo pela frente as aristocráticas residências da rua da Consolação, o piloto escolheu aquela que tivesse as árvores de copas mais amplas e densas — a do nº 198 — porque “as árvores, na maior parte das vezes, amortecendo a queda do aparelho”, segundo Anésio, “se tornam aconselháveis como recurso dos aviadores”. Anésio, piloto experiente, “possuidor de um grande sangue frio”, falou ao Diário da Noite sobre as precauções que tomou e narra o momento decisivo:

Eugênio de Toledo Artigas,
deputado estadual do PC
e presidente do Aeroclube de São Paulo

Cortei imediatamente o contato do motor, tirei os óculos dos olhos, avisando o outro aviador para fazer o mesmo e planando o aparelho, fui aterrissando com calma e o melhor possível. O aparelho, quase em linha reta e a uns 20 metros de altura, encontrou três árvores, cujos galhos foram cortados com a queda, o que amorteceu a marcha do aparelho, que logo em seguida capotou. Após o choque, que não foi pequeno, verificou-se um princípio de incêndio, que se propagou logo às asas do aparelho, mas que não chegou a nos atingir, pois que procuramos safar-nos quanto antes. (12/3/36, 3ª edição)

O avião se espatifou, se incendiou, e dele saíram ilesos os dois tripulantes. Natalino Carif teve lesões leves no braço direito. Foi socorrido, por sinal, pelo próprio dono da casa.

No domingo, 15 de março de 1936, por fim, 130 mil eleitores do município foram às urnas para eleger os 20 vereadores que comporiam a 1ª Legislatura desde a cassação da Câmara, em 1930. Conferidos os primeiros resultados, veio a coincidência de que a AIB, em pleno delírio verde, com seus tresloucados sygmas e anauês, elegeu justamente um aviador, o renomado piloto João Ribeiro de Barros, natural de Jaú, famoso por ter realizado o primeiro vôo no Atlântico Sul, em 1927, a bordo de um aviãozinho velho e combalido.


Miguel Capalbo e Thomaz Lessa

A Coligação por São Paulo caiu no vazio e os socialistas, aniquilados por tabela pela malfadada intentona comunista, não contabilizaram nem 900 votos juntando todos os seus candidatos. Os peceístas esperavam uma reprise da apoteose constitucionalista ocorrida nas eleições legislativas de outubro de 34, em que o partido acabou definitivamente com a supremacia perrepista. O que aconteceu, todavia, foi o confronto entre uma situação e uma oposição que, na melhor das hipóteses, eram áreas cinzentas onde só se destacava mesmo a ambição pelo poder, de um ou outro grupo. Contados os votos, o PC conseguiu uma maioria suadíssima, de 11 vereadores contra 8 perrepistas e 1 integralista. Foram eleitos pelo Partido Constitucionalista: Alcides Chagas da Costa, Alexandre Albuquerque, Antônio Cândido Vicente de Azevedo, Antônio de Queiroz Telles, Francisco Machado de Campos, José Cerquinho de Assumpção, José Ferreira da Rocha Filho, Luiz Augusto Pereira de Queiroz, Miguel Paulo Capalbo, Thiago Masagão Filho e Thomaz Lessa.

Orlando Almeida Prado e Smith de Vasconcelos
O PRP trouxe à Câmara: Abrahão Ribeiro, Achilles Bloch da Silva, Gaspar Ricardo Junior, Marrey, Luiz Tenório de Britto, Orlando de Almeida Prado, Reynaldo Smith de Vasconcelos e Sylvio Margarido.

A prova de que o PC encontrava-se em uma situação de descrédito junto ao povo da Capital foi a eleição de Marrey, vereador mais votado da Legislatura, com quase 4.500 votos. A vitória tinha o sabor de uma tardia vingança sobre o partido pelo qual ele tanto lutara e que tão mal o tratara. Só que dentro de um esquema piramidal de importância política — como deixou claro o informe apócrifo sobre a dissidência peceísta — o Legislativo Municipal não valia nada, então a vitória de Marrey foi ignorada.

O aviador João Ribeiro de Barros

Também ignorada foi a instalação da Câmara Municipal, que fez sua discreta sessão inaugural no dia 9 de julho de 1936, sem a presença de Armando de Salles. Presidiu os trabalhos o juiz Oswaldo Pinto do Amaral e compareceram Carlos Mendonça (representando Salles), Laerte Teixeira Assumpção, presidente da Assembléia Legislativa, o prefeito Fábio Prado e o general Almério Moura, comandante do II Exército.

A solenidade não careceu de um incidente cômico. Chegada a hora de dar posse aos vereadores, Pinto do Amaral chamou-os, um por um, à Mesa Diretora para ouvir o compromisso de posse e dizer, protocolarmente, “assim o prometo”. Todos o fizeram de forma regular, menos o integralista Ribeiro de Barros, que disse: “Em nome de Deus, Anauê”, provocando gargalhadas e palmas. A pedido de Amaral, Ribeiro de Barros então disse o “assim o prometo” e a sessão prosseguiu.

João Ribeiro de Barros,
o aviador de Jaú
Por alguma razão, Ribeiro de Barros renunciou dias depois, passando o mandato para seu suplente, José Alves Ferreira Cyrillo, filho de ninguém menos do que o cacique perrepista Cyrillo Junior. Na 1ª Sessão Ordinária, no dia 13, já eleito presidente da Câmara o peceísta Francisco Machado de Campos, José Cyrillo foi convocado para tomar posse em lugar de Ribeiro de Barros. Adentrou o recinto sob aplausos, acompanhado por uma comissão especial, e ao invés de prestar o juramento tradicional dos vereadores, tomou seu assento e verberou: “Ao Chefe Nacional, diante da vida e diante da morte, três anauês!”, no que foi acompanhado de vários “anauês” dos integralistas presentes nas galerias. Incidente idêntico se verificou quando João Fairbanks tomou posse na Assembléia, em 34. Ambos concordaram, a seguir, em prestar o juramento tradicional.

Coberto pelo prestígio de uma votação consagradora, Marrey fez um longo discurso em desagravo próprio naquela sessão. Figura máxima daquele legislativo, que já ocupara tantas vezes, não se ouvia nem uma mosca quando o mineiro assomou à tribuna. Começou enaltecendo o gesto dos perrepistas, oferecendo-lhe legenda depois de terem se odiado por quase uma década:

Sr. Presidente, congratulo-me com o povo desta cidade pelo auspicioso acontecimento que foi a instalação da Câmara Municipal. Eleito pelo maior número dos seus sufrágios, em significativa demonstração de apreço pessoal e de aplausos a uma sincera e ilibada conduta política, volto a exercer o elevado cargo de vereador, a que já dei honroso desempenho. O Partido Republicano Paulista, num gesto de invulgar elegância, que tanto me sensibilizou, convidou-me para integrar sua representação nesta Casa. Com liberdade de pensamento e de ação que a nobre Comissão Diretora me facultou, para aqui entrei bem compenetrado da obrigação imposta pelo mandato e aqui estou desejoso de que possíveis divergências partidárias, não consigam atirar a inferior plana os interesses coletivos nem macular a grandeza da nossa missão.

A seguir um comentário necessário sobre os vira-casacas, os neo-democráticos e uma pincelada sobre o temor comunista, que grassava por culpa da intentona de 35:

Desde o findar da grande guerra mundial de 1914, que as lutas políticas, na Europa ou na América, não se limitam ao antagonismo entre o novo e o velho regime. Entre nós, contudo, erroneamente, não se tem dado outra feição à resultante da revolução de 1930. Os homens do poder, não admitem os homens do passado, a não ser quando esses se enfileiram no seu séquito. Os que aderem são isentos de culpa e pena e assanham-se, juntamente com os novos, contra antigos companheiros de jornada, no triste espetáculo que são as campanhas políticas que primam pela ausência de idéias e pelo excesso de injúrias. Não é dessa espécie, porém, que assinala a história constitucional dos povos que sofreram o grande cataclismo. Aqui, já os estadistas se convenceram de que a luta decisiva do após guerra é a que vem sendo travada entre a democracia e o sovietismo.

Na seqüência uma paulada violentíssima no fisiologismo evidente de que padeciam os atuais donos do poder, na maioria ex-companheiros de Marrey:

Ouve-se, hoje, contudo, generalizado apelo em prol da democracia. Proclama-se, entretanto, a democracia mas não se a exercita. O êxito da democracia não está simplesmente no exercício do sufrágio eleitoral, por força de lei que garanta o recebimento livre do voto, a sua regular e rigorosa apuração, mas não impede as manobras com as quais se coarcta a liberdade moral do eleitor. O mal brasileiro não é, todavia, de natureza eleitoral. O mal de que o povo se queixa está na ação do partidarismo político, infiltrado na administração, corrompendo-a, obrigando governos, os mais intencionalmente dispostos a acertar, os mais intencionalmente honestos, a deixar de ser governos pela lei para se tornarem governos de “fiats” arbitrários. São os partidos políticos denominados, pelo próprio chefe e alto representante de um deles, “partidos trampolins do poder, partidos agências de colocação”, explorando o voto, abusando da rudimentar instrução e educação do meio, que contribuem para o mal nacional. Desses partidos não saem estadistas. Prevalecem, no seu seio, os verdadeiros agenciadores de empregos, os que não alcançam a realidade das cousas nem se apercebem da fatalidade dos movimentos sociais.

Uma palavra sábia sobre a corrupção daqueles que chegam ao poder, e um comentário muito esclarecedor sobre a índole do povo paulista:

Costa Rego
Preconiza o senador Costa Rego [imagino que seja o alagoano Pedro da Costa Rego] o rejuvenescimento do regime pela renovação das fórmulas e seleção dos indivíduos. A seleção dos indivíduos, sim, mas numa escola de bons exemplos, de rigoroso culto à Justiça. E no dia em que os destinos do povo passarem para as mãos de quem se caprichar em evitar a nefasta ação do partidarismo político; em que ficar bem estabelecida e nítida a distinção entre os interesses gerais e os particulares; em que usufruirmos a suprema ventura de observar o “habeas anima” com a mesma popularidade do “habeas corpus”, e em que, afinal, perante os governantes, os patrícios não se dividirem entre gregos e troianos, aí sim, se iniciará a era do já afamado governo forte, o regime subsistirá, não haverá quartel para os que, enveredando por caminhos tortuosos, apelem para a força, para idéias exóticas ou subversivas da ordem pública. A massa popular é dócil e bem-intencionada. O povo contenta-se com os mais comezinhos atos de justiça. O de São Paulo aí está dando arras desses sentimentos, vibrante ainda de entusiasmo na recordação do período em que, acudindo aos pregões políticos desavisados, se multiplicou nos mais empolgantes lances de sacrifício e abnegação.

No bojo de seu pronunciamento, um grito de autonomia para o município, idéia que norteou o pensamento político e ação parlamentar de Marrey desde sempre: “A célula da democracia reside na autonomia do município. (...) É no município autônomo que se encontram as raízes da civilização moderna, as fontes vivificadoras do espírito humano e os centros da liberdade constitucional”. Um dos maiores erros do golpe de 30, segundo Marrey, era justamente pregar a autonomia no texto constitucional, mas adotar atitude diversa na prática. O vício se agigantava, ampliando-se “a tutela do Estado sobre o município”:

Satisfazia-se, ainda mal-disfarçada tendência centralizadora, mais tarde francamente dominadora nos congressos constituintes da República e do Estado. Feriu-se o sistema em que a unidade original e primária é a comuna, base do governo livre. Autonomia corresponde à descentralização. Constituiu motivo para uma das mais sérias campanhas políticas ao tempo da velha República. Coloquei-me à frente dos que se batiam pela autonomia do nosso município, centralizei a campanha, e, hoje, em face dos preceitos constitucionais que nos regem, reputo contrária aos princípios fundamentais à faculdade já aludida, concedida e adotada em São Paulo.

Curioso como Marrey isenta o PRP desse vício, por não ter sido jamais a autonomia uma reivindicação perrepista. Assim, o erro devia ser inteiramente debitado aos Constitucionalistas que exigiam o direito a voto, mas não pensaram da mesma forma em relação à Capital de São Paulo, quando redigiram a Carta de 9 de julho de 1935:

Uma vez só, entretanto, não se levantaram em prol da autonomia do município da Capital, nem mesmo para explicação da mudança de pensar por que passaram os que a defendiam. A proposta para que o Prefeito fosse nomeado pelo Governador é preceito da Constituição de 9 de julho de 1935. O Partido Republicano Paulista, coerentemente, com ela não se preocupou. A idéia que, entretanto, movimentara a opinião pública e provocara candentes artigos de indignada oposição, em defesa da autonomia municipal, constituíra ilusória promessa oposicionista. Vencedores, senhores da situação, os que em seu nome, combateram a reforma constitucional [de 1929, que acabou com as eleições municipais na Capital] e posteriormente tomaram parte na elaboração da Constituição de 9 de julho, esqueceram-na após a vitória. Um operoso e talentoso constituinte [que ainda não sei quem é mas descobrirei e darei o nome, oportunamente], aliás, funcionário municipal, timbrou-se em mostrar-se peremptoriamente contrário ao princípio com o qual estivera anteriormente de pleno acordo. Não contente com o que lera, ou porque não lhe parecera bastante claro o texto, pretendeu que da Constituição ficasse insofismavelmente constando que o Prefeito desta linda, progressista e acolhedora cidade, fosse de especial confiança do Sr. Governador...

Além de retirar dos paulistanos o direito de eleger seu prefeito, a Constituição encolhera os poderes do Legislativo Municipal ao ponto de que a Câmara era virtualmente supérflua:

 A legislação ordinária e posterior, meteu-nos até em posição de incomoda subalternidade ao delegado do governo do Estado. Refiro-me à Lei Orgânica dos Municípios, em certos passos contrária à Constituição, em outros concentrando poderes de tal monta em mãos do Prefeito que, em rigor, em grande parte, inutiliza a ação da Câmara. (...) Deu-se ao Prefeito o direito de absorver a função dos vereadores. Um prefeito audacioso e autoritário dispensará a colaboração da Câmara, porque ao seu critério, ao seu exclusivo critério, ficará a urgência dos casos; do seu critério dependerão os imprevistos...

Para terminar, depois de “esclarecido o meu ponto de vista e patente o meu protesto, inócuo, mas demonstrativo da minha coerência”, Marrey aproveitou que Armando de Salles mandara sua mensagem anual à Assembléia Legislativa exatamente no dia da instalação solene da Câmara, para responder ao interventor, e agora governador constitucional:

Armando de Salles Oliveira
Há quatro anos, amargando com o paulista a dor que nos ocasionou a luta, gloriosa pelo que de sublime lhe deu a cooperação popular, mas malfadada pela imprudência com que a deflagraram os políticos, eu disse que São Paulo estava em condições de fazer operar o milagre da reconstrução do Brasil. (...) Ontem eu apelava para os paulistas para que continuassem a ser  cavalheiros e generosos, orgulhosos de sadio orgulho, da sua força, da sua organização, para a conquista do Brasil. Ambos, eu e o Sr. Governador, andamos convictos de que não é possível traírem-se os bandeirantes nos seus sentimentos. Apenas, uma diferença entre nossas situações e que também me causa satisfação, servindo de advertência: hoje o Sr. Governador está recebendo flores que a S. Excia. trazem os que o acompanham e vivem do seu alto prestígio, flores em que se transformaram as pedras que, ‘estarrecidos’, eles me atiraram...

O Trocadero, onde funcionou a Câmara de 36/37
Marrey não pôde prosseguir, abafado pela explosão de aplausos e “vivas” que recebeu da bancada do Partido Republicano. Essa Legislatura também não prosseguiu. Durou ainda menos do que a 13ª, eleita em 1928. Programado para abrigar a Câmara, o Palácio Trocadero, que se localizava atrás do Teatro Municipal, passou por uma grande reforma, instalando-se a Sala das Sessões, a portaria, o Arquivo, a copa, a Sala dos Vereadores e a Sala da Presidência no térreo. No primeiro andar foram colocadas arquibancadas para o público, a Sala das Comissões e o gabinete do Diretor Geral e do secretário. Houve até concorrência pública para a contratação de uma empresa que se propusesse a construir as arquibancadas dentro de um orçamento de 30 contos. A reforma ficou pronta pouco menos de um mês antes do início dos trabalhos. Tudo à toa; a Câmara foi cassada 14 meses depois, em 10 de novembro de 1937, quando Getúlio deu mais um golpe na democracia e decretou o Estado Novo. Exemplo das tenebrosas “clivagens” do PC foi o destino de seus componentes. Enquanto Armando de Salles, que renunciou ao mandato para fazer campanha de sua candidatura à presidência, foi preso e exilado, Cardozo de Mello Netto, interventor que o sucedeu e um dos fundadores do Partido Democrático, jurou lealdade ao dantesco Estado Novo e permaneceu na interventoria até abril.



Epílogo

Armando de Salles ficou exilado durante 7 anos. Voltou ao Brasil em abril de 1945, em plena restauração democrática e partidária. Gravemente enfermo, viveu o suficiente para ser o patrono da União Democrática Nacional, UDN. Para esse partido foram os Democráticos da primeira leva, como Antônio Carlos de Abreu Sodré, Waldemar Ferreira, Carlos Moraes Andrade e Paulo Nogueira Filho.

Os perrepistas mais velhos não sobreviveram o Estado Novo ou já estavam aposentados quando Vargas foi deposto. Os que estavam vivos e politicamente ativos se dividiram entre o PSD, a UDN e o pequeno PR, Partido Republicano (fundado por Arthur Bernardes). As clivagens atingiram seu ponto máximo, que é quando desaparecem as diferenças: além de ter sido fundado por Vargas, o PSD misturava, em seus quadros, perrepistas históricos como Altino Arantes e Macedo Soares, roçando ombros com Dutra — ministro da Guerra de Getúlio quando foi decretado o Estado Novo — e Filinto Müller — torturador e carrasco durante a ditadura. Já na UDN, os fundadores do PD se tornaram colegas de perrepistas como Orlando de Almeida Prado e ninguém menos do que o velho Júlio Prestes - considerado o grande culpado pelas desgraças do pleito de 1928 - que chegou a fazer parte da Comissão Diretora da UDN pouco antes de sua morte.

Marrey Junior tentou ingressar na UDN em 1945 mas teve seu pedido indeferido por Antônio Carlos de Abreu Sodré. Fundou o Partido Popular Sindicalista com Miguel Reale, em 46, mas logo em seguida fundiu o PPS com o Partido Agrário Nacional de Mário Rolim Telles e o Partido Social Progressista de João Café Filho, do qual fazia parte Adhemar de Barros, que também teve a porta da UDN fechada em sua cara. Surgiu o PSP (mantendo o nome dado por Café Filho), que num primeiro momento acabou abrigando Marrey, Paulo Nogueira Filho (incompatibilizado com Waldemar Ferreira) e um setor amplamente fisiológico do velho PRP, que incluía nomes como Diógenes Ribeiro de Lima e César Lacerda de Vergueiro. Pouco depois Marrey se decepcionou com a corrupção de Adhemar e terminou sua carreira política no PTB, também fundado por Getúlio. Morreu em 1965.

O primeiro presidente eleito depois do golpe de 1930 foi Eurico Dutra. Morreu em 1974.
Getúlio Vargas foi eleito democraticamente em 1950, sucedendo Dutra. Se suicidou em 1954.

Washington Luís viveu para retornar ao Brasil, em 1947, depois de 17 anos de exílio, e assistir o suicídio de seu algoz, em 1954. Morreu em 1957, aos 88 anos.
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Bibliografia:
  • Annaes da Câmara Municipal de São Paulo. 1936 (1º anno da 1ª legislatura). São Paulo, Heitor Cunha & Cia.
  • ABREU, Alzira Alves de & outros. Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro pós 1930. Rio de Janeiro, Editora FGV, 2ª ed. 2001.
  • CALIMAN, Auro Augusto. Legislativo Paulista – Parlamentares 1835-1998. São Paulo, Imprensa Oficial, 1998.
  • CAMPOS, Calazans de (org.). Candidatos do Partido Constitucionalista. São Paulo, PC, 1934.
  • MORAIS, Fernando. Olga. A vida de Olga Benário Prestes, judia comunista entregue a Hitler pelo governo Vargas. São Paulo, 14ª ed., Alfa-Omega, 1987.
  • SILVA, Hélio. 1933: A Crise do Tenentismo. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968.
  • _____. 1934: A Constituinte. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1969.
  • WERNER, Ruth. Olga Benário. A história de uma mulher corajosa. São Paulo, Alfa-Omega, 1989.
  • Diário da Noite

terça-feira, 19 de julho de 2011

"Água da Fonte" e "As Sandálias de Cristo", de Fernando Jorge

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Perdoe-me o leitor pelo fato de, mesmo numa tese sentimental, não conseguir deixar de lado o amor pela erudição. Mas que fazer? Sou um livresco, um cerebral. Entre um belo livro, fartamente ilustrado, e uma adorável paisagem, prefiro o primeiro. Gosto não se discute...
(Fernando Jorge, 1959)

No segundo lustro da década de 50, com quatro livros em seu currículo — Notas sobre o Aleijadinho (1951), O Orvalho (1953), Vidas de Grandes Pintores do Brasil (1954) e As Mãos na Ciência, na História e na Arte (1958) — Fernando Jorge foi contratado pelo editor do jornal A Gazeta, Américo Bologna, para escrever uma crônica semanal no velho periódico fundado por Cásper Líbero. Surgiu a coluna “Croniqueta Ilustrada”, que Fernando utilizou, durante alguns anos desse primeiro decênio de sua carreira, para mostrar “crônicas e prosas várias, muitas rabiscadas ao léu dos acontecimentos”. O formato era, sim, o da crônica, mas o autor transcendeu esse molde. A “crônica” é considerada a narração histórica em tempo real, o próprio noticiário de uma publicação diária. Os textos da primeira fase de Fernando na Gazeta rompem a barreira da crônica e se aproximam do ensaio. Mais do que comentários literários, políticos, artísticos ou sociais, são estudos sobre temas de toda e qualquer origem, encimados por uma notícia que serve como ponto de partida para o desenvolvimento desses estudos. A reação do público foi muito positiva, Fernando recebeu cartas com elogios, comentários, de vez em quando críticas, e inclusive perguntas pessoais, consultas sentimentais, dúvidas escolares, e assim por diante.

O editor José de Barros Martins

Em 1959 o cronista entrou em acordo com José de Barros Martins, dono da prestigiada editora Martins (que publicava, entre outros, a obra de Jorge Amado), para o lançamento de uma coletânea de crônicas publicadas na “Croniqueta Ilustrada” da Gazeta. O nome escolhido para o livro foi “Água da Fonte” e a capa ficou a cargo de Darcy Penteado. Um dia Fernando perguntou a Darcy o que representava, exatamente aquele desenho, estilizado e quase abstrato. O renomado artista plástico respondeu: “É um fauno tocando uma avena. Achei a leitura do seu livro tão agradável e sedutora que me veio à cabeça o ritual com que aquelas divindades campestres da mitologia grega seduziam as ninfas, tocando suas flautas e seguindo-as com seus pés caprinos, pelos bosques”. O elogio do sensível artista comoveu Fernando. E por que esse título? O autor esclarece no frontispício: “Pelo motivo destas páginas terem brotado das minhas nascentes culturais. (...) Espírito introspectivo, pouco sociável, extravasei nestas páginas meus solilóquios literários. Sim, esta é também água da minha fonte”.

Darcy Penteado
Quem diria, porém, que esse nome já começaria a lhe dar problemas antes mesmo do livro ser publicado. Em meio ao processo de revisão e formatação dos originais, um dos executivos da gráfica “Revista dos Tribunais”, que trabalhava sempre com a Martins, chamou Fernando e lhe avisou que o escritor maranhense Josué Montello acabava de entregar um livro seu para ser impresso por lá, e que solicitava a Fernando a troca do nome de sua coletânea de crônicas, pois pretendia usar o título Água da Fonte no seu próprio livro de ensaios. Fernando deu de ombros e avisou que não trocaria coisa nenhuma porque submetera seus originais antes de Josué. O vaidosíssimo maranhense, arrasado, crente que Fernando mudaria o nome imediatamente, apenas pela honra de lhe fazer um favor, teve que se conformar em rebatizar seu livro, que acabou intitulado Caminhos da Fonte.

Josué Montello

É muito interessante estudar a fundo este Fernando que se encontrava no verdor dos 20 anos quando escreveu estas crônicas. Suas características são claras, tanto nas qualidades quanto nos defeitos. Entre os últimos, há um gongorismo indisfarçável e indisfarçado, provavelmente herança de sua passagem pela verbosa Academia de Letras da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. O convívio diário e horário do jovem cronista com a poesia o deixou empanzinado e ele precisava digerir, processar e fazer desaguar tanta influência. Sendo a poesia um ramo da literatura que o próprio Fernando se proibiu de explorar criativamente, por não ousar competir com o pai na seara da qual este era mestre absoluto, a crônica foi a válvula de escape. As frases gongóricas e rebuscadas lhe jorram pelos dedos. Para o novel escritor, os pássaros não cantavam no céu azul ensolarado, eles “lançavam, com seus gorjeios, pérolas raras e ressoantes no firmamento cor de opala, aquecido pelos beijos do sol”. Eva não tinha lábios doces, vermelhos e macios, ela possuía uma “boca ambrosíaca, de lábios nacarados, feitos com a polpa veludínea das romãs”. Os olhos do retirante não estavam injetados e marejados pelo sol que brilhava violento no céu azul do fim de tarde; eles, “febricitantes pelo excesso de luz, ardiam em delíquio, estriados de fibrilhas sangüíneas”, e “o firmamento, cerúleo, de tons flavos, escarlates, dardejava nas suas carcaças trôpegas, flechas incandescentes” (crítica semelhante seria feita no futuro por Ruy Castro ao inusitado 15 Contos, de Jânio).

Fernando, na juventude
Possível é que tais adornos poéticos — a exemplo do que Fernando diz em crônica a respeito de Cruz e Sousa, poeta por vezes acusado de gongorismo — sejam “acréscimos de Beleza”, mas o caso é que aos poucos o cronista foi apaziguando seu estro e adequando-se ao formato da crônica, o que não o impediria, mais à frente, conforme veremos, de queixar-se pela ausência da poesia nas manifestações mais comezinhas de pensamento. É só o que se pode identificar como um defeito, propriamente. Seu então devotado catolicismo, por exemplo, funciona inteiramente a favor de sua pena. Anda lado a lado com o escritor, o pesquisador e o historiador. Sua apologia ao papa Pio XII, em “O Papa e o Materialismo”, como indica o título da crônica, é sobre alguns dos pontos de vista daquele papa e um pequeno estudo sobre as boas ações. A “Conversa com São Nicolau” é uma deliciosa fantasia sobre a fé e a humildade, escrita durante o período das festas de fim de ano. Graças a Deus, Fernando não cai jamais na esparrela da carolice. Pelo contrário; será vítima dela, pouco depois de Água da Fonte, quando lançar seu livro sobre Bilac. Este, por sinal, já está nas cogitações do jovem Fernando, que na crônica “São Paulo dentro do Brasil” reserva um parágrafo para falar do “poeta fluminense tão conhecido e amado por todos que se inebriam com a embriagante melodia dos símbolos”.

Olavo Bilac

Objetivamente, as 30 crônicas de Água da Fonte são a afirmação literária de um “moço velhinho”, como se denominava Jânio em sua lira acadêmica. Fernando tinha vinte e poucos anos, e no entanto vivera em meio aos livros, entre os velhos, e com os livros velhos desde tão tenra idade, que vez por outra revela achaques de um ancião, dizendo coisas como “refestelei-me na velha e carinhosa cadeira de balanço”, como se recém-saído do Largo, da convivência com os colegas, às voltas com as namoradas, freqüentando a noite febril e intensa da São Paulo dos anos 50, fosse algum aposentado que via o tempo passar em uma “velha e carinhosa cadeira de balanço”. Não obstante, dedica nada menos do que quatro crônicas ao envelhecimento e à morte. Essa riqueza existencial do jovem petropolitano, radicado na Paulicéia, que fala com tanta inteligência e perspicácia sobre conceitos subjetivos como a Felicidade, a Saudade, a Solidariedade, a Mentira e a Alegria revela antes sua velhice anímica. Como poderia ele, tão novo, expender conceito tão rico e meditado sobre a felicidade?

Nós, mortais, temos em geral inteligência estreita para compreendermos os momentos ligeiros de ventura. Sempre martirizados pelo demônio da insatisfação, sempre sequiosos por um ideal inatingível, não percebemos, muitas ocasiões, a visita discreta da felicidade. É necessário que o pálido sofrimento das asas negras e garras mais aduncas que as das harpias, venha crucificar nossa alma com seus cravos aguçados. Só liberto do ergástulo caliginoso, onde curtiu longas agonias, o ex-prisioneiro poderá deslumbrar-se contemplando o rolar dos astros e a luz transfiguradora do Tabor...

Jânio dava a impressão de ser um “moço velhinho” mais no sofrimento do que em qualquer outra área. Fernando é o jovem de alma velha. Seu corpo está no presente mas sua alma está com os mestres que ele admirou e de cuja fonte bebeu na infância e na adolescência. Taine, Victor Hugo, Göethe, Napoleão, Tolstói, Epicuro e demais romancistas, filósofos, poetas ou estadistas de diversas nacionalidades são nomes que vemos em mais de uma ocasião nas crônicas de Fernando, embasando e alicerçando sua belíssima cultura.

Victor Hugo
O que não quer dizer que perdesse o contato com as questões prementes de sua época. Não. Água da Fonte é crítica social, até mais do que crônica literária. Fala de inflação, de fome, de analfabetismo e de carestia. Seu texto “O Fim Inglório dos Ditadores”, inspirado na então recente deposição do general venezuelano Perez Jimenez é excelente documentário sobre o clima político da época e traça paralelo inestimável entre o pensamento de Hitler, “o vândalo do nacional-socialismo”, e a influência que não soube absorver de Nietzsche, “filósofo de um amoralismo que inúmeras vezes chega às raias da demência”. O estudo representa uma espécie de gênese do que viria a ser a magnífica introdução escrita por Fernando para sua biografia de Getúlio, 30 anos depois, onde é feita uma comparação minuciosa e inédita entre a vida do homúnculo de São Borja e os preceitos do livro O Príncipe, de Maquiavel. Em relação a Getúlio, a quem Fernando deve ter começado a pesquisar já naquele tempo, há um juízo breve: “Esse brasileiro que vivia rasgando constituições morreu amortalhado nas pregas hieráticas e nobres de uma Constituição”. A conclusão da crônica é um de seus lemas desde então:

A única ditadura que um homem deve aceitar, de bom grado, é a do Espírito. Em vez do cesarismo de um Hitler e de um Mussolini só podemos acatar a autoridade de um Göethe e de um Dante. O domínio dos primeiros foi efêmero, por ter sido material. O domínio dos segundos é eterno, por ser espiritual.

Cruz e Sousa

Dois exemplos de crítica social aliada ao resgate histórico são os textos “Aspectos Inéditos de Cruz e Sousa” e “Uma Feição Inédita de Júlio Ribeiro”. Dois grandes talentos, dois escritores atacados pela tísica, e, por fim, dois expoentes das letras nacionais que morreram na mais deplorável miséria. A primeira crônica nos arrepia enumerando as incontáveis adversidades contra as quais lutou esse extraordinário poeta, que não só viveu em franciscana pobreza, fustigado pela tuberculose, mas foi também uma vítima do racismo. O segundo é curioso porque traz a análise de um polemista feita por outro. Mas Júlio Ribeiro, autor do discutido “A Carne”, era, nas palavras de Fernando, “um nevropata”. Suas polêmicas não eram movidas pelo humor e pela cultura, como as de Fernando; Júlio era bilioso, era daqueles que não se importava em descer ao inferno, desde que levasse junto a vítima de sua mal-querença. “Assim como não sei perdoar, não sei também ceder”, era um dos motes desse abrasivo e vitriólico escritor, que não por coincidência, morreu sem um vintém, esquecido por todos. A conclusão dos dois textos poderia ser encontrada no fim de uma terceira crônica, “Fome, Flagelo Universal”, em que Fernando fala que “milhares de brasileiros assassinados por ela, morrem subnutridos, desidratados, tuberculosos”, e ainda aponta o dedo certeiro para os “males insidiosos” do país, que já naquela época eram “a Politicagem, Imprevidência Social, Impatriotismo, Desordem”.

Júlio Ribeiro
É particularmente prazeroso verificar que desde aquela época Fernando não era como os cronistas tradicionais, que manifestavam sua discordância envolvendo-a em plumas, lantejoulas, salamaleques e demais frescuras para não ferir os melindres de fulano ou beltrano. Fernando demonstra discernimento político e independência intelectual para criticar como bem entende aquilo que lhe parece injusto ou absurdo. Prova disso é a verdadeira autópsia que faz do governo de JK (que mais tarde se tornaria seu amigo e confidente), e aquele que é possivelmente o comentário mais brilhante que já se fez sobre a construção de Brasília, em “Vicente de Carvalho, o Inimigo do Mar”:

Enquanto o norte é assolado por cruel seca, o presidente da República preocupa-se em construir Brasília. O Sr. Juscelino Kubitschek é semelhante ao homem que tem uma casa em ruínas. Sua residência está caindo aos pedaços, as paredes se acham esburacadas, com o reboco se fragmentando. As torneiras não funcionam, o soalho se encontra com os tacos soltos, as telhas se quebraram, as vigas e o travejamento ameaçam, de um minuto para o outro, desabar... No entanto, o proprietário desta moradia tatibitate, pernibamba, em vez de consertar o próprio lar, vai preocupar-se em adquirir uma luxuosa casa de campo e abarrotá-la de alfaias, tapeçarias, bibelots, mármores, bronzes... Em matéria de disparates levamos a vitória, positivamente...

Juscelino Kubitschek

O cronista continua, sem embargo, um otimista incurável. Em “O Homem Célebre e a Multidão”, texto esclarecido e bem fundamentado sobre a relação entre líderes políticos e a massa, ele cita quatro definições de um professor para esse amorfo agrupamento humano. As duas primeiras caem como luva no grosso de nosso povo:

1 – A multidão casual, que se define como associação fortuita e extremamente frouxa de pessoas que se agregam para presenciar um acontecimento qualquer que lhes fere a atenção.
2 – A multidão convencional, semelhante ao primeiro tipo, com a única diferença de que seus membros se sujeitam a certas regras, como os espectadores de um jogo desportivo.

Fernando Jorge, porém, faz questão de afirmar que “o brasileiro, pelo menos, é um povo bom, inteligente, que tem evoluído sob o ponto de vista cultural. Se as nossas massas não se acham altamente politizadas, como acontece nos Estados Unidos e na Inglaterra, é porque a Cultura e a Experiência ainda se encontram em processo de sedimentação dentro do nosso organismo social”. Ingenuidade pura, ou otimismo arraigado no imo do bom cronista. O povo brasileiro é completamente inculto e não tem o mais ínfimo traço de politização. E haverá no mundo povo mais frouxo e mais submisso do que o nosso, que assistiu inerte a todos os movimentos militares do século XX sem mover uma palha? Poderíamos talvez excetuar a revolução de 32 (que se iniciou – não vamos esquecer – do descontentamento de uma elite política alijada do poder), resistências localizadas e de vida curtíssima durante as ditaduras de 37 e 64, e quiçá o movimento das Diretas-Já, esse sim, em sua maior parte, um movimento popular. Fora isso o que temos é a “associação fortuita”, “a multidão convencional”, agrupamentos de desocupados e ignorantes que ouviram cantar o galo e não sabem onde, como a “marcha da família”, ou uma molecada burguesa e cretina que desejava aparecer na TV, no ridículo e circense movimento dos “caras pintadas”.

Vargas
Há que convir, entretanto, que Fernando Jorge não estava sozinho nessa crença. O suicídio de Vargas, a deposição de Carlos Luz e, pouco depois, a eleição de Jânio e a adoção de uma política externa moderna e independente deram, por assim dizer, uma sensação de que o povo brasileiro progredira em sua mentalidade política. Em 1962, Franklin de Oliveira, em seu Revolução e Contra-Revolução no Brasil (Civilização Brasileira, 1962) parece fazer coro com Fernando, quando traz ao lume esta pérola de ingenuidade: “Só são irracionais as massas sem nível ideológico. Não é hoje o caso do brasileiro. Já ultrapassamos as fases sebastianistas. O país pede hoje ação consciente. Exige pensamento formulado com exata clareza e precisa substância”. E dois anos depois o país mergulhava na penumbra do golpe de 64, que durou 20 anos. É o próprio Fernando que recoloca a discussão nos eixos, afirmando, mais à frente, com invejável clarividência que “as multidões se extasiam com homens enérgicos e arrogantes. Talvez semelhante simpatia se explique devido à ausência, nas massas, de uma personalidade firme e definida. Elas são, pode-se dizer, abúlicas”.

Em “Ruy: Antítese do Homem Tropical”, Fernando não se dá o trabalho de dissecar a personalidade esquizofrenicamente honesta do iluminado baiano, objeto de veneração de toda a nacionalidade na primeira metade do século XX, e retratado em dezenas de estudos; ao invés disso, o cronista dá o pontapé inicial nas pesquisas biográficas que o consagrariam nas décadas de 60 e 70 e apresenta uma tese original sobre a tão decantada “Águia de Haia”. Em fecundo trabalho comparativo, analisando os esforços e os estilos de diferentes biógrafos desde Plutarco, e concentrando-se no que teria sido a deficiência perene dos biógrafos de Ruy — o abuso do panegírico, a inexistência de um perfil psicológico e a falta de um aprofundamento sociológico sobre o meio onde o baiano cresceu e se aculturou — Fernando revela que o grande jurisconsulto andava no contra-fluxo de seus contemporâneos:

Inteligência atilada e organizadora, [Ruy] percebeu os inúmeros antagonismos da nossa sociedade: a economia agrária e pastoril em conflito com a cultura européia, ou melhor, francesa. O patriarca e o bacharel. O pequeno proprietário e o senhor de engenho. O pernambucano e o mascate, O choque da cultura negra e indígena. O contraste entre o senhor e o escravo. Daí se poderia explicar, sob o ponto de vista filosófico e psicológico, o anseio de Ruy por uma vida simétrica, coerente, que desmentisse a nossa conhecida mobilidade, a nossa inteligência mais brilhante que analítica, os nossos súbitos entusiasmos e os nossos ainda mais rápidos desânimos...

Ruy Barbosa

Mais à frente Fernando escancara as diferenças medulares de Ruy e seus semelhantes, na Política, no Direito e na Literatura:

A existência de Ruy foi marcada por um aticismo bem estranhável num filho dos trópicos. Ela apresenta seguimento lógico, linhas rígidas de uma vontade quase espartana. Dir-se-ia que ele se esforçou, sempre, em ser vertical, destruir o conceito generalizado a respeito da dispersividade do homem brasileiro. Para tanto basta contemplar a trajetória equilibrada, rítmica, de sua carreira, de objetivos claramente definidos desde o início.

É tese que mereceria ser levada adiante por um biógrafo de Ruy, quiçá o próprio Fernando ou mesmo seu pai, Salomão Jorge, célebre cultor do legado ruísta, pois como salienta Fernando, na mesma crônica, “ainda não surgiu, infelizmente, um grande biógrafo do grande brasileiro”. E por falar em Fernando e Salomão, é também em Água da Fonte, mais especificamente na crônica “Carta a Antonio Pousada”, que nasce — ou é posta às claras para o público — a inimizade entre Fernando Jorge e o escritor cearense Raimundo Magalhães Jr.

A crônica se origina de uma carta do romancista português Antonio Pousada à coluna de Fernando, onde o lusitano queixava-se da falta de interesse dos editores com sua obra, que já fôra, no passado, exaltada por Monteiro Lobato. Fernando elogia Pousada, procura tranqüilizar o escritor, explicando que o assédio das editoras não é indicativo absoluto de sucesso e que os livros do português vinham sendo bem vendidos, malgrado a ausência de um contrato editorial, o que significa que o povo leitor tinha interesse em seus trabalhos. Pousada, porém, deve ter sido vítima de um comentário desairoso de Raimundo Magalhães em sua coluna no Diário Carioca porque, à certa altura, Fernando dispara, falando diretamente ao português:

Acredito, sinceramente, na sua vocação literária. Sei que um foliculário cearense resmungou, com azedume, que a sua literatura é só artificialismo, mais nada. Não existe nela, segundo ele, nenhuma sinceridade, tudo é ficção. Mas os leitores de seus livros autobiográficos sabem quanto isso é mentira, quanta humanidade, quanto sofrimento, evolam-se das páginas da novela de sua vida.

Raimundo Magalhães Jr.
O “foliculário cearense” não era nenhum outro senão R. Magalhães Jr. O jornalista e biógrafo tinha facilidade para escrever e acabava de lançar aquele que é convencionalmente considerado seu melhor livro, a biografia de Deodoro em dois volumes. Mas também tinha fama de ser leviano, injusto, inconseqüente, precipitado em seus julgamentos, e, no jargão literário, “usar muita cola e tesoura”, ou seja, citar indiscriminadamente, encher o texto de aspas e, na maioria das vezes, sem dar crédito às fontes. E isso só piorava quando além de tudo eram fontes que não mereciam confiança, vezo que desmoralizou Magalhães nas décadas de 60 e 70, quando lançou seus desastradíssimos trabalhos sobre Ruy Barbosa e Machado de Assis. Por essa razão, tanto Fernando quanto seu pai não nutriam qualquer admiração pelo cearense, que teve contendas individuais com ambos, pouco depois. Mas Fernando não se importava. A bem da verdade, não dava a mínima. Era jovem, trabalhava naquilo que gostava, namorava uma moça boa com quem ia se casar e constituir família. E tinha os livros: “Apesar de tamanhas misérias ainda existe neste planeta, por felicidade, muita coisa bela, superior, capaz de sublimar a vida, como as artes, as letras, as ciências. Sim, basta abrir esses volumes e, imediato, virão palestrar com minha pessoa, Dante, Cervantes, Aristóteles, Göethe, Shakespeare, todos os sublimes espíritos feitos de raios de luar e revérberos de aurora, todos esses máximos arquitetos da humanidade espiritual”.

Em 1964 veio novo livro reunindo as crônicas de sua coluna semanal: As Sandálias de Cristo. De 1959, quando foi editado Água da Fonte, até a data da publicação de Sandálias, Fernando lançou sua biografia de Olavo Bilac e conheceu o outro lado da fama; se as Notas sobre Aleijadinho lhe proporcionaram um Jabuti e o reconhecimento de seus pares, Vida e Poesia de Olavo Bilac, com prefácio de Menotti Del Picchia, despejou sobre ele o sucesso de vendas, o prestígio literário e... a inveja de seus confrades. O “foliculário cearense” Raimundo Magalhães Jr. teve sua própria iniciativa de biografar Bilac abortada pelo trabalho de Fernando e promoveu violenta campanha contra ele, pela imprensa e nos meios literários, sobretudo na Academia Brasileira de Letras. Fernando passou os anos de 63 e 64 no olho do furacão das reações despertadas contra e a favor de seu livro. O resultado é que Vida e Poesia de Olavo Bilac tranfrormou-se na primeira biografia best-seller e provocou defesas memoráveis de luminares como Agrippino Grieco, Manuel Bandeira, Nestor de Holanda, Geir Campos e o poeta português Campos de Figueiredo, entre outros. Em meio a isso o autor encontrou tempo para escrever as crônicas que acabaram enfeixadas no volume da editora de Bruno Buccini.

Cardeal Motta
Um dos argumentos utilizados pelos opositores da biografia de Bilac escrita por Fernando era o de que o livro valorizava demais as pândegas do poeta, suas escapadas amorosas, suas boêmias junto aos amigos e tudo aquilo que, no juízo daquele bando de carolas e “moraleiros” idiotas, poderia macular a pureza nefelibata do aedo de “Ouvir Estrelas”. Terá sido por isso que o livro de Fernando foi batizado com o nome da crônica onde fala justamente de um par de sandálias hoje guardadas em uma igreja alemã, e que supostamente pertenceram a Jesus Cristo? O prefácio também parece escudo contra qualquer ataque de viés religioso, de vez que foi escrito por ninguém menos do que o Cardeal Motta, então arcebispo de São Paulo. Seja como for, o livro traz 60 crônicas. Ao contrário de Água da Fonte, coletânea de artigos, mais meticulosos e detalhados, Sandálias de Cristo traz crônicas curtas e objetivas. Perfeitas para o executivo que está almoçando, o aluno no recreio, o operário no ônibus, o transeunte no banco da praça. São leitura prazerosa, “pés-de vento”, aulas compactas sobre os mais variados assuntos, sempre com o selo inconfundível de erudição e competência de Fernando.

Caricatura, na época de "Sandálias de Cristo"

Na orelha do livro, o jornalista Hélio Siqueira cita uma opinião sobre Fernando emitida anteriormente por Sérgio Milliet, onde este comenta que o escritor “faz crônica séria e culta sem contudo se desviar para o ensaio”. Não alcanço a restrição de Milliet. Passar da crônica para o ensaio não é um “desvio”, e sim o mero desenvolvimento do tema, a amplificação do que se conclui através das pesquisas. Fernando fez isso em Água da Fonte, mas não em Sandálias de Cristo. Aqui vemos crônicas, no sentido exato do termo. Mais à frente Hélio comenta que “Fernando Jorge tece um rendilhado de comentários amenos, servidos por citações oportunas e ilustrativas”, “sem o menor traço de pedantismo ou de veleidades a enciclopedista”. Aqui o comentário de Siqueira sabe à resposta daquilo que provavelmente se dizia à boca pequena contra os escritos de Fernando (e também de seu pai, Salomão Jorge, que não se furtava de escrever artigos corrigindo os equívocos desta ou daquela enciclopédia). Me parece o embrião do que é hoje a inversão de valores, pela qual o burro é incensado e o culto é considerado pretensioso. Nunca houve alguém mais modesto e menos pedante do que Fernando Jorge, mas o saber enciclopédico é uma de suas maiores características. Não vejo a possibilidade de se criticar um livro, um ensaio ou uma crônica de Fernando porque neles o escritor faz transbordar sua gigantesca cultura. Especialmente quando se trata de Fernando, cujo maravilhoso talento de escritor faz com que esse manancial de informações seja absorvido de forma suave, imperceptível ao leitor.

Com o mestre, em uma das reentrâncias
de sua biblioteca
Talvez pela campanha que tanto Fernando quanto seu livro sobre Bilac foram vítimas por parte de ressentidos como Raimundo Magalhães, Sandálias de Cristo dá por vezes a impressão de ser menos um estudo histórico-sociológico e mais um comentário humano. Como já fizera em Água da Fonte, o autor utiliza a história e a observação de fatos contemporâneos e do cotidiano para a melhor compreensão de suas implicações na vida e no comportamento do homem. Mas ao contrário do primeiro livro, onde as análises são mais filosóficas, aqui as crônicas têm tom de desabafo, de protesto velado contra a mesquinhez, a pobreza de espírito, a intolerância e demais sentimentos menores. Por qual outra razão Fernando discorreria com tanto vigor sobre a generosidade, criando diamantes como este: “Quanta gente é generosa com aquilo que não tem! Mas na hora do desprendimento, da filantropia, quando se pede o mínimo sacrifício em prol de uma ação meritória, a boa vontade desaparece, evapora-se como fumaça, restando apenas os despojos inúteis das palavras vãs...”. E que mais o levaria a escrever “A Paixão pelo Dinheiro” — lado B de “Chuva de Dinheiro”, sobre a ganância, em Água da Fonte — parindo jóias da mesma forja e descrevendo aqueles ratos que vivem para amealhar o vil metal: “Certos tipos são como os telefones automáticos. Se tiramos o receptor do gancho, sem introduzir em seguida o dinheiro no orifício competente, o aparelho permanece silencioso, inativo. Podemos berrar, espernear, sacudi-lo, que nada adiantará...”.

Casado desde 1959 com uma grande mulher, e conhecedor, agora, da felicidade doméstica e sentimental, Fernando também dedica ao sexo feminino palavras e análises que não se encontravam em Água da Fonte. Em “Os Inimigos do Casamento” ele consigna desde logo sua recém-adquirida experiência, afirmando que “o matrimônio é um estado de alma. Só obtém sucesso quando o coração se aquieta, entra em remanso, como as ondas que após se quebrarem em vagalhões, ficam tranqüilas e desfalecentes no colo tépido das praias...”. Em “A Mulher, esta Incompreendida”, declara que, para ele, a mulher “não oferece enigma algum”. Sua tese é clara: esses “curiosos espécimes do gênero humano” não são mais do que aquilo que provocam nos homens. Se rejeitam seus pretendentes, são consideradas perversas e nocivas. Se aceitam a investida, são dóceis e bondosas. “A mulher”, diz Fernando, sabiamente, “em noventa por cento dos casos, é boa ou má segundo as reações psicológicas dos homens. O mistério da mulher não está nela: acha-se em nós”. O autor se afasta dos epigramistas misóginos da Careta e de outras revistas e livros que leu em sua infância e juventude, e professa um credo moderno, progressista, mais coerente com sua época. Sobre o casamento, propriamente, ele se estende com desenvoltura, em “Como Certas Mulheres, Sem Querer, Matam os Seus Maridos”, apesar de acusar um certo machismo, preconizando que a mulher deve ter esta ou aquela qualidade, sem mencionar a urgência do homem possuí-las na mesma medida:

O casamento, por mais feliz que seja, precisa ser uma escola de paciência. O seu êxito, que consiste numa perene e mútua satisfação, num entrosamento isócrono [que ocorre ao mesmo tempo] de anseios e vontades, depende de diminutas concessões. Por tal motivo, antes de tudo, o belo sexo necessita possuir, em doses suficientes, algumas virtudes básicas, como a tolerância, a modéstia e o bom humor, as quais devem, estar aliadas à resignação e à coragem.

Fernando é humano. Tropeça levemente aqui e ali; se assume ares proféticos em “A Evolução da Ciência”, brincando com a facilidade dos transplantes de órgãos no futuro — hoje uma realidade — é implacável com a cinqüentenária Ethel Vickery, que cometeu a temeridade de vencer um desfile de beleza na Inglaterra, conforme se vê na crônica “A Crueldade de Vovó”. O texto, bem-humorado e desprovido de qualquer intenção doutrinária, é um pito do escritor na “linda matrona” que teria acabado com os sonhos de um punhado de mocinhas, ávidas pela faixa de miss e o prêmio em dinheiro. Mas em meio à jocosidade há uma fresta por onde se divisa uma real, embora moderada, condenação à vaidade daquela senhora. Conceitos de Fernando como “qualquer concurso de beleza, tal um jogo de boxe, uma partida de futebol, pressupõe uma competição entre jovens. A flor pertence à primavera e a Beleza só engrinalda os flamantes cabelos de ouro da Juventude”, ou “a natureza distribui de maneira sábia os seus dons, propiciando energia ao jovem e experiência ao ancião”, ou ainda “a beleza da velhice (...) é uma reminiscência, chama que ainda bruxuleia, prestes a apagar-se ante a primeira rajada de vento forte” lembram a reprimenda de Hamlet à sua mãe — “You cannot call it love, for at your age the heyday in the blood is tame, it’s humble, and waits upon the judgment” (Ato III, Cena IV) — foram ultrapassados pela revolução sexual que aconteceria no fim dos anos 60 e encontram-se hoje obsoletos. A propósito de Shakespeare, teria sido oportuno, à época, corrigir o mestre na brilhante crônica “O que é o Ciúme?”, explicando que, conquanto seja dedução perfeitamente pertinente, o uxoricídio de Herodes não foi a base do gênio dramaturgo para a criação de Othello, que vem do conto de Cinthio, Un Capitano Moro.

Em “Uma História do Pioneirismo Paulista”, Fernando comenta que o escritor Francisco Marins, no início de sua carreira, como jornalista em Botucatu, contribuía com “narrativas ainda um pouco ingênuas e algo romanescas, que revelavam, entretanto, um prosador correto e agradável”. O mesmo juízo pode ser feito sobre Fernando naquela ocasião, quando, aos 36 anos, lamentava o ocaso da poesia. Chegam a comover súplicas como esta contida na crônica “João XXIII e os Cegos”:

Sonhem, construam imagens. Quando o sol se erguer do horizonte não digam simplesmente: o sol nasce. Sejam românticos, parnasianos, simbolistas. Declarem, por exemplo:
— O sol nasce como a juba dourada de um leão que vai, aos poucos, crescendo de sanha.
Se descreverem a capital da Grécia a uma amigo, depois de visitá-la, não se acanhem de observar:
— No crepúsculo Atenas parece coroada de violetas.
O mundo precisa de Poesia. E digam o que quiserem, o homem sempre será um animal romântico.

Outra forma de divulgação artística que embalou a juventude de Fernando e que agora entrava em irremediável declínio era a conferência literária. Sobre o assunto, em “Conferências e Conferencistas”, o autor regurgita as pérolas habituais: “O primeiro dever do conferencista é agradar. E para isto convém não ser muito pesado. Se o leitor vai realizar uma palestra não procure mostrar-se profundo em demasia, erudito em excesso. Aquele que esgota, nestas circunstâncias, um assunto, acaba esgotando, via de regra, o auditório”. A conclusão, porém, é melancólica: “Ah, quem me dera, depois de ser vítima dos falastrões, dos semeadores de torpor, escutar Rivarol, cujas palavras mágicas, segundo Chênedollé, pareciam cair em reflexos cintilantes, à semelhança de irisadas e aurifulgentes pedrarias!”

Bilac, em sarau literário que embalou os jovens da geração de Salomão Jorge

Em “A Decadência da Conversação”, de título auto-explicativo — mas que também poderia se chamar “O Lamento do Intelectual” — o início é plangente: “Tenho observado com mágoa que a palestra, um dos mais benéficos exercícios mentais, já não é cultivada como outrora, quando conversar a respeito de qualquer assunto era uma arte encantadora”. O que vem a seguir é lapidar, nos mostra por que fomos reduzidos à “pátria do perfil”, dos resumos, das análises perfunctórias, superficiais, que acabaram com a conversa e vão aos poucos acabando com historiadores como o próprio Fernando:

Tecer argumentos sutis em torno de um livro, de um caso em evidência? Oh, não, seria muito cansativo! Bastam uns comentários ligeiros... O jornal se incumbe de dar opinião. Para quê conversar se podemos nos distrair folheando uma revista, assistindo um programa de cinema ou de televisão? Eis porque a arte de palestrar é uma arte moribunda. O século XX a desprezou para conceder atenção ao industrialismo, achando que uma reunião de economistas é mais útil que um diálogo a propósito da estética de Ruskin. (...) Com efeito, que palestras vazias, anêmicas, sem substância! O único remédio, à falta de bons interlocutores, é mergulhar nos bons livros. Pelo menos os “mestres mudos” apresentam uma vantagem: não dizem tolices.

Poesia concreta
No campo da crítica literária, sobram pauladas para o então ainda jovem Concretismo, “ou melhor”, segundo Fernando, “Concretinismo”. Na crônica “Poesia não é Charada” ele recepciona de braços abertos as novas idéias, o modernismo, “necessário porque traz oxigênio revigorante às manifestações superiores do espírito”. Mas não engole a tal linguagem “verbivocovisual” criada por Décio Pignatari e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos: “Sabe o leitor o que é isto? É uma das mais perfeitas bobagens do planeta, o retrocesso puro e simples à linguagem gutural do homem das cavernas, quando o nosso peludo antepassado, muito idêntico aos símios, se exprimia através de sons confusos, inarticulados”. Era demais, realmente, pedir que Fernando (ou Salomão Jorge), amante da poesia tradicional, um “bilaquiano” por excelência, se enamorasse dos joguinhos de palavras que constituíram a efêmera poesia concreta. Mas os comentários de Fernando sobre o assunto, como este: “Querem ser originais, revolucionários, e acabam sendo grotescos”, ou este: “O que falta, à quase totalidade deles, é talento e cultura”, são de uma atualidade tão formidável que parecem escritos sobre o rap, o funk, e outras aberrações que vêm nulificando a música brasileira nos últimos anos.

Da mesma forma, quando Fernando diz, em “O Canibalismo”, que “tudo que é estranho, original, embora bárbaro, desperta uma curiosidade mórbida no homem civilizado. (...) Os nossos nervos anestesiados, a nossa vida prosaica, monótona, sempre invariável, acabam nos fatigando. Queremos, então, uma válvula de escape. Emoções primitivas, arrasadoras. Eis o motivo por que sobrevive, nesta época de tantas conquistas e progressos espirituais, o amor às lutas de boxe, aos filmes de gangsters e de far west. (...) Quanto mais tiros houver, na tela, quanto mais assassinatos ele presenciar, maior prazer experimentará. É que o troglodita, o canibal, tipos sorrateiros, teimam em acompanhá-lo, relutam em abandonar a sua alma”, poderia estar tanto justificando o sucesso inaudito de filmes cuja tônica é a violência gratuita — naquela época o ingênuo faroeste, hoje filmes como Assassinos por Natureza e Clube da Luta — como explicando o porquê da audiência maciça que têm há anos os programas de baixaria, de mondo cane, dos Big Brothers, das apresentadoras ordinárias e desclassificadas e toda a porcaria televisiva.

Santos Dumont

Há dois aspectos curiosos em Sandálias de Cristo. O primeiro já se viu em Água da Fonte com Bilac, ou seja, a menção de personagens que fascinaram Fernando desde sempre, e aqui se repete com Paulo Setúbal e Santos Dumont, eternizados em biografias do próprio escritor. No caso do último, é interessante o comentário alusivo ao brasileiro e aos irmãos Wright, de que “até hoje, continuam as discussões apaixonadas em torno do real descobridor da navegação aérea”, já que foi a biografia de Fernando, lançada em 1971, que esclareceu definitivamente essa dúvida de tantos anos, à qual os norte-americanos insistiam em se aferrar. E o segundo é o “resíduo pseudo-literário” daquilo que Fernando fixou na lembrança possivelmente sem querer, por sua constante convivência com a obra de escritores do passado, e que mais tarde seria mote para algumas de suas melhores esculhambações. Assim, é divertido ler as crônicas sobre o nariz (“Cada um é Dono do seu Nariz”) e os papagaios (“O Papagaio na História e na Literatura”), porque são textos gostosos, informativos, despretensiosos, mas remetem instantaneamente às conferências proferidas por Alberto Faria em 1925, na Academia Brasileira de Letras — “Nariz e Narizes” e “O Galo Através dos Séculos” — magistralmente aniquiladas por Fernando em sua obra-prima, A Academia do Fardão e da Confusão.

Também remonta àquele tempo o início do sacerdócio de Fernando na função que herdou do pai, de bedel da literatura e da língua portuguesa, tanto na correção de textos nacionais como na tradução de obras estrangeiras e na identificação de plágios. Há, ao todo, seis crônicas sobre o assunto, três para corrigir textos, dois para corrigir traduções e um para falar sobre o plágio. Em meio a seu “Outros Apontamentos de Leitura” ele quase se desculpa, dizendo esperar “que ninguém me julgue um mestre-escola embravecido, de palmatória em punho, sempre disposto a colocar de castigo, num canto da sala de aulas, os seus inocentes e amedrontados estudantes”, mas a verdade é que esses “apontamentos” são preciosos. Quiçá em menor intensidade quando corrigem efêmeras publicações de outros países, tão pródigos em equívocos de todos os tipos sobre o Brasil, mas verdadeiramente importantes na medida em que procuram dirimir os erros que vêm há décadas se disseminando nos livros de história política ou literária. É o caso do tal “segundo império”, a que aludem inúmeros professores, e que, a rigor, não existiu jamais, sendo a denominação correta “segundo reinado”. Burrice análoga a caracterizar-se o Brasil pós-1889 de “Primeira República”, a pós-1930 de “Segunda República”, e a pós-1945 de “Terceira República”, quando houve apenas uma, que dura até hoje, e que, incidentalmente, foi denominada “República Velha” antes de 1930.

Humberto de Campos
Outra observação que é menos um puxão de orelha do que um serviço aos pósteros, é a correção a Humberto de Campos, que em seu livro Fatos e Feitos afirma ser A Moreninha o primeiro romance brasileiro. Fernando põe a história de volta nos trilhos, explicando com documentação rica e fidedigna que o primeiro romance nacional é, de fato, As Aventuras de Diófanes, da escritora Teresa Margarida da Silva e Orta, editado em 1752, quase um século antes do romance de Joaquim Manuel de Macedo. No ramo das traduções há uma dupla correção; Fernando colheu um erro nas Memórias de Tolstói, que diz ser espanhol o escritor francês Lesage. Mas não fica só nisso; aproveita para externar seu estranhamento: “O que não compreendo, entretanto, é como Raquel de Queiroz, que traduziu para o editor José Olympio as memórias do genial russo, tenha deixado de comentar, em nota ao pé da página, um semelhante lapso”.

Por fim, impossível não aprender com inigualável prazer, diante de períodos como este:

O indianismo melancólico, romântico de Gonçalves Dias, lembra o inconsolável Chateaubriand, do mesmo modo que os romances de Alencar possuem o lirismo do solitário de Saint-Malo e o poder descritivo de James Fenimore Cooper. No amargor, tédio e pessimismo de Álvares de Azevedo, sentimos a “dúvida desesperadora” de Byron. Em Castro Alves, na sonoridade de seus versos, na grandiloqüência das suas metáforas, deparamos a força verbal de Hugo. Machado de Assis imita Sterne no Brás Cubas e Júlio Ribeiro adota os processos naturalistas de Zola, enquanto Coelho Neto queria ser grego e Tobias Barreto, alemão...

Que fazer com Fernando? Criticá-lo, prendê-lo ou açoitá-lo porque com 30 anos já demonstrava essa combinação tão rara de erudição com excelência no manuseio da pena? Vamos condená-lo pela magnífica crônica “Livros Brasileiros de Viagens”, em que desenha painel conciso e analítico das obras escritas por brasileiros célebres em suas andanças pelo exterior? Ou faremos como Euclides de Castro Carvalho, ex-deputado estadual do PSP, que foi, furibundo, bater às portas da Gazeta para reclamar com Américo Bologna que seu próprio (e mediocríssimo) livro de viagens não havia sido incluído na lista de Fernando? E o que dizer da extraordinária lista coligida pelo autor, em “Amor à Burocracia”, dando nome às dezenas de poetas e escritores que só não pereceram de inanição porque conseguiram um emprego público, que em nada lhes acrescentava à carreira, à obra ou ao espírito, e no entanto pagava seus vícios e a alimentação deles e de suas famílias?

Água da Fonte e Sandálias de Cristo são livros de apelo eterno. Quantos expoentes de nossas letras não renegaram seus trabalhos primogênitos? As crônicas de Fernando para a Gazeta (e ocasionalmente para o Jornal de Notícias) são exemplo raro de esforços da juventude que o literato pode compulsar, na maturidade e se orgulhar. Permanecerão entre nós daqui a 100 anos. Sua sinceridade intelectual e literária, o amor pelos livros e pela cultura, a necessidade altruísta de compartilhar o conhecimento, todas esses traços da personalidade de Fernando jamais se alteraram.



“A Parvolândia”, segundo Fernando Jorge, “é uma terra imensa, sem limites, super-povoada, a maior, talvez, do universo”. Mas nos escritos do mestre petropolitano, temos a fábrica da resistência, uma trincheira que ele não cessa de fortificar, um porto seguro para todos aqueles que não podem viver sem o convívio e o cultivo maravilhoso e excelso dos livros.
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