domingo, 7 de fevereiro de 2010

MY FAIR LADY, com Bibi Ferreira e Paulo Autran

























Meus caros, esta é mais uma daquelas gravações inestimáveis em LP que sumiram das lojas há décadas e que provavelmente não chegarão jamais ao cd por conta da estreiteza cultural e artística daqueles que detém os direitos sobre essas pérolas. Estou falando da gravação original de MY FAIR LADY — ou "Minha Querida Lady", tradução curiosa que recebeu de Henrique Pongetti — com Paulo Autran, Bibi Ferreira e Jayme Costa, de 1962.

George Bernard Shaw
Mas antes, um pouco de história, porque
não adianta nada ter a gravação mas não ter idéia do que se está ouvindo.
Inspirado no mito de Pigmalião e Galatéa, o escritor irlandês George Bernard Shaw (1856/1950) escreveu a peça de teatro Pigmalião, em 1913. A inspiração, entretanto, não foi apenas mítica. É público e notório que Shaw criou a personagem Eliza Doolittle pensando na famosa atriz Beatrice Tanner, conhecida como "Mrs. Patrick Campbell" (mesmo depois da morte do marido e já casada com um outro sujeito). Campbell tinha frívolas ambições sociais que atrapalhavam sua carreira profissional e uma dicção afetada quando interpretava os clássicos de Shakespeare. O Professor Henry Higgins, por sua vez, nasceu da convivência de Shaw com vários professores diferentes de fonética, mas em especial com um filólogo chamado Henry Sweet, cujo temperamento não fazia jus a seu nome. Sweet era irritadiço e durante suas palestras, anotava nervosamente os erros e tropeços fonéticos de quem se atrevia a lhe fazer uma pergunta.

Mrs. Patrick Campbell, a primeira Eliza,
em 1914, e Wendy Hiller, a primeira Eliza
a falar inglês no cinema, em 1938
Por alguma razão, a estréia não foi nem na Inglaterra e nem nos Estados Unidos; ela foi traduzida para o alemão por uma amigo de Shaw e estreou em Viena, em outubro de 1913. Só chegou ao West End londrino em março de 1914, no Her Majesty's Theatre, que abrigava a companhia de Herbert Beerbohm Tree. E lá estavam Mrs. Patrick Campbell no papel de Eliza, e Tree no papel de Higgins, dirigidos pelo próprio Bernard Shaw. O mestre irlandês, segundo a lenda, era diretor dos mais temperamentais, e como o casal protagonista também era, não foram raros os dias em que o ensaio foi encerrado com alguém saindo no meio e batendo a porta, indignado.

Em 1938, o produtor romeno Gabriel Pascal levou Pigmalião ao cinema. Bernard Shaw, do alto de seus 82 anos, ficou tão feliz por ver a obra levada às telas pela primeira vez em seu idioma original (as duas versões anteriores eram em holandês e alemão) que não apenas roteirizou o filme como ainda escolheu a protagonista, Wendy Hiller. De quebra, escreveu a cena da festa especialmente para o filme. A direção de Pygmalion ficou a cargo de Anthony Asquith e do ator Leslie Howard, que também interpretou o professor Henry Higgins. O filme foi indicado a quatro Oscars: Melhor Filme, Ator, Atriz e Roteiro Adaptado. Venceu o último, premiando Shaw e os roteiristas Ian Dalrymple, Cecil Lewis e W.P. Lipscomb.

Correio da Manhã, 12/6/1942
Em 1942 foi a vez do Brasil conhecer a obra do mestre irlandês, e não poderia fazê-lo de melhor forma, senão pelas mãos de uma das maiores reformadoras de nosso teatro no século XX: Dulcina de Moraes. Trabalhando incansavelmente na companhia estável que mantinha com seu marido Odilon, ela decidiu montar o texto e entregou a incumbência de traduzi-lo a outro grande batalhador de nossas artes cênicas, e naquela época apenas um valoroso e ascendente teatrólogo: Miroel Silveira.

O interessante desta montagem é que Miroel não se limitou a traduzir o texto, mas também adaptou-o para a realidade brasileira e a ação se passa no Rio de Janeiro. Então a cockney Eliza vira uma simples favelada de nome "Elisa Guarapa" (Dulcina), filha do lixeiro "Alfredo Guarapa" (Aristóteles Pena). Higgins (Odilon) é o professor "Henrique Mascarenhas"; seu amigo, o coronel Pickering (Jorge Diniz) é o "coronel Guimarães", e é divertido o aprofundamento a la Castilho dado por Miroel ao personagem: "Estudioso de línguas, amigo do professor. Nasceu no Pará, mas passou vários anos em Portugal e colônias". E assim por diante. A cereja no bolo era a cenografia do prestigiosíssimo Hipolit Colomb. A peça estreou em 12 de junho de 1942 e teve uma temporada de sucesso.

Dulcina: "Elisa Guarapa"

Em 1956, bebendo na fonte do roteiro escrito para o festejado filme de 1938 — e de certa forma aproveitando que Shaw morrera seis anos antes, já que o irlandês detestava versões musicais de seus trabalhos e não teria jamais permitido a adaptação de Pigmalião — os compositores Alan Jay Lerner (1918/1986), ex-parceiro musical de Kurt Weill e roteirista de An American in Paris, e Frederick Lowe (1901/1988), pianista austríaco virtuoso e compositor desde os anos 20, criaram o musical My Fair Lady, estreado nesse ano em New York. A dupla de protagonistas, que levaria o espetáculo também para Londres dois anos depois, era formada por Rex Harrison (Henry Higgins) e Julie Andrews no papel de Eliza.

Em 1962, cientes do sucesso extraordinário da peça na Broadway, os produtores Oscar Ornstein e Victor Berbara resolveram trazer a peça ao Brasil. Victor traduziu as letras de Alan Lerner e o jornalista Henrique Pongetti traduziu o libreto, também de Lerner. Para a dupla protagonista escalaram Bibi Ferreira e Paulo Autran. Na coadjuvância, atores experientes e competentes como Jayme Costa — velho colega de Procópio desde os anos 20 e ator da infância de Paulo e Bibi — como o pai de Eliza; Suzana Negri, veterana das companhias de Itália Fausta, Dulcina, Procópio e até a de Paulo e Tônia, em My Fair Lady interpretou a mãe de Higgins; e Estellita Bell e Elza Gomes — ambas da antiga companhia de Procópio — nos papéis de Mrs. Pearce e Mrs. Hopkins.



Outros não eram tão veteranos mas já se firmavam como excelentes profissionais, como Sérgio Viotti, no papel de Pickering; Francisco Dantas, no mesmo papel, só que na montagem paulista; Sérgio de Oliveira, que era diretor de cena, mas acabou gravando o papel de Pickering no disco, provavelmente por impedimento dos dois titulares do personagem; Suzy Arruda, que interpretou Mrs. Einsford-Hill no lugar de Estellita, na montagem paulista, e assim por diante.

Paulo Autran como Higgins
(Foto de José Carlos Vieira)
Entrevistada pelo Diário Carioca, eis o que disse Bibi, do prazer de fazer esse espetáculo, pouco antes da estréia: "Sobre Minha Querida Lady, cujos ensaios têm sido estafantes, a minha participação na célebre peça me proporciona a maior satisfação artística, porque nela, além de comediante, me vejo harmoniosamente rodeada de canto, de música e de dança".

A revista O Cruzeiro fez uma bela reportagem sobre a montagem do musical:

Paulo Autran e Bibi Ferreira, personagens centrais de Minha Querida Lady, estão inteiramente à vontade nos seus respectivos papéis. Ambos já assistiram a revista no original, em inglês. Paulo a viu em Londres, com Rex Harrison, protagonizando o professor de fonética, e Bibi esteve agora nos Estados Unidos, especialmente para ver de perto a vendedora de flores. Com a apresentação de Minha Querida Lady no Teatro Carlos Gomes, a Praça Tiradentes volta aos seus grandes dias, como a meca das grandes atrações, ponto obrigatório para os turistas. Gregory Kane e Harry Woolever, diretor artístico e coreógrafo, respectivamente, são os únicos estrangeiros contratados pelos produtores de Minha Querida Lady e dirigem uma equipe de mais de 150 pessoas, incluindo artistas, cantores, bailarinos, músicos, pintores, eletricistas, etc.

Jayme Costa: Alfred Doolittle
(Foto de José Carlos Vieira)
Cerca de dez toneladas de carga (cenários, guarda-roupa, adereços, material de contra-regra e equipamento elétrico) vieram dos Estados Unidos para que a montagem do Brasil em nada destoasse da que foi exibida na Broadway, e que foi vista por oito milhões de pessoas, em 2.700 representações. (...) Baseado no talento dos nossos artistas, Gregory Kane, que já dirigiu My Fair Lady em outros países, disse: "A versão brasileira de Minha Querida Lady ultrapassará, em qualidade, muitos dos espetáculos que já vi montados em outras regiões". (O Cruzeiro, 1/9/1962)

Paulo teve um horrendo acidente automobilístico alguns meses depois da estréia de My Fair Lady, sendo substituído, durante grande parte da temporada, pelo ator Edson França. Ficou preso à uma cama por quase um ano. "Havia comprado meu primeiro carro, um fusquinha. Tinha 40 anos e precisei ficar dez meses no hospital, totalmente imobilizado", contou Paulo. "E olha que quebrei o fêmur, clavícula, ombro, todas as costelas de um lado, tudo!" Contaria, também, que durante sua internação, ele leu a obra completa de Guimarães Rosa. Recuperado, voltou à peça e a representou até seu vitorioso encerramento, em 65.

Paulo convalescendo

Somente em 1964 surgiu o filme baseado na peça, produzido por Jack Warner com direção de George Cukor. No papel de Eliza, a Warner trocou Andrews por Audrey Hepburn, por considerar que Hepburn traria um retorno financeiro maior. Foi um equívoco estúpido e grosseiro com Andrews, que acabou contratada por Walt Disney para estrelar em Mary Poppins. Conclusão: Andrews ganhou o oscar por uma bobagem como Mary Poppins e Hepburn não foi sequer indicada pela magnífica versão cinematográfica de My Fair Lady, sem falar que acabou dublada, em seus números musicais, pela cantora Marni Nixon.


My Fair Lady, mesmo tendo sua raiz no hemisfério norte, foi o primeiro grande musical brasileiro. Nunca se havia visto algo tão extraordinário fora dos domínios de Carlos Machado e Walter Pinto. Um acontecimento teatral único e inesquecível, também responsável por impulsionar a carreira de Bibi na direção inarredável e definitiva da música.

Duas observações: 1) No LP a música 10 está indicada como A rua onde ela mora mas creio que há um pequeno equívoco pois na verdade parece ser uma continuação da Gavota de Ascot. Conseqüentemente, verifica-se que a faixa 16, Final, não existe; pelo menos neste LP, o final está na própria música Ao seu olhar me acostumei. Faço ambas as correções no set list. 2) Lamento que a música Show me não tenha entrado na edição final do LP. Creio que na montagem brasileira ela foi referida como A rua onde ela mora (reprise), pois Eliza a canta todo o tempo confrontando o pretendente Freddy. É uma pena. Gostaria muito de ouvir Bibi cantando essa música. E me parece ser realmente o único solo do espetáculo que ficou de fora do LP.

Outro ponto que merece destaque é Jayme Costa, dono de um belo e poderoso barítono, desfiando com absoluta tranqüilidade a famosa Vou me casar em matrimônio (Get me to the church on time), em comparação com Paulo Autran, que admitiu sempre sua total ausência de talento para o canto, suando para atravessar seguramente as estrofes reservadas a Rex Harrison. No fim todos dão um show. Bibi conta que por diversas vezes viu Procópio nos bastidores, assistindo a peça. Um belo dia, orgulhosíssima, saiu do palco e lhe disse: "Que lindo, pai, que você venha me assistir assim, todos os dias. Espero que esteja gostando da minha performance". Procópio respondeu: "Filha, você e o Paulo estão muito bem, mas na verdade eu venho aqui para assistir o Jayme Costa".


Bibi e Marília Pêra, na festa de encerramento de My Fair Lady

No corpo de baile do espetáculo havia uma novata. Fez dois papéis mínimos, sempre de criadas, e participava ativamente dos números de dança. Embora a moça tivesse sangue teatral por parte de pai e mãe - Pêra e Marzullo - foi escalada certamente por indicação de seu pai, o ator Manuel Pêra, colega de Procópio e Dulcina. O nome de sua filha: Marília Pêra.


Interessante lembrar também que não havia a liberalidade de hoje na montagem internacional de musicais que faziam sucesso na Broadway ou no West End londrino. Paulo costumava falar sobre o "álbum de fotos" que receberam dos produtores estrangeiros, contendo o espetáculo inteiro fotografado, a cada segundo, da primeira à última cena, para ser utilizado de forma idêntica pelos atores brasileiros. E assim o fizeram, por contrato.

Enfim, deleitem-se. Esse LP está no silêncio há tempo demais. É mais do que hora de trazê-lo ao lume novamente. Façamos de conta que hoje comemoramos o aniversário de 48 anos de My Fair Lady. E não temos maneira melhor de comemorar que não seja ouvindo as vozes de Paulo, Bibi, Jayme, Sérgio e todos os outros, com a saudade daqueles que se foram, e a alegria de ainda termos entre nós artistas como Bibi Ferreira.

Para fazer o download da gravação original de My Fair Lady, com Bibi, Paulo e Jayme Costa, basta clicar AQUI (link renovado).

Abaixo, o texto da contra-capa do LP e a lista de músicas.
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Avant-Première a 21 de agosto, um dia antes da estréia oficial

Existem três coisas importantes no "carnet" de todo turista que visita New York pela primeira vez: ver a Estátua da Liberdade, subir ao Empire State Building e, já há vários anos, assistir MY FAIR LADY. Durante mais de seis anos consecutivos foi necessário, às vezes, esperar oito meses para conseguir entradas que permitissem uma boa localização no Mark Hellinger Theater, local das representações de MY FAIR LADY.

Jayme, Bibi e Paulo

E o que é MY FAIR LADY? Adaptada de "Pygmalion", a famosa obra de Bernard Shaw, MY FAIR LADY é a peça teatral que quebrou todos os recordes de bilheteria, atingindo mais de dez milhões de dólares nos seus primeiros três anos de exibição, e daí subindo sempre e sempre, cada vez mais. Com texto de Alan Jay Lerner e música de Frederick Lowe, MY FAIR LADY leva as plateías num crescendo de alegria e satisfação graças ao deslumbramento provocado por todas as suas cenas.

No Brasil, graças ao arrojo de seus produtores, Oscar Ornstein e Victor Berbara, MY FAIR LADY - ou Minha Querida Lady, como aqui se chamou - vem tendo o maior sucesso, tanto de crítica quanto por parte do público, supremo juiz de todas as realizações artísticas. Esse público não tem poupado aplausos entusiásticos não só à interpretação de Bibi Ferreira, Paulo Autran e Jayme Costa, como também a todo o resto do elenco, composto por mais de 100 figuras, entre artistas e técnicos. Eis aqui como se expressaram alguns de nossos críticos sobre Minha Querida Lady:

"Ide ver MY FAIR LADY, porque sairás de lá com o coração mais jovem, mais alegre, mais otimista". Marcos André, O Globo.

"My Fair Lady é um belo, um magnífico espetáculo!" Luíza Barreto Leite, Jornal do Comércio.

"MY FAIR LADY é o grande lançamento do ano, sendo também, a primeira vez que o espectador carioca assiste a um musical de grande categoria!" Carlos Peres, Tribuna da Imprensa.

Edson França, Bibi e Jayme

"Minha Querida Lady é desses espetáculos que enchem os olhos, alegram o coração, divertem e encantam!" Eneida, Diário de Notícias.

"As platéias aplaudem de pé o sucesso de MY FAIR LADY - um desafio que o artista brasileiro venceu!" Ibrahim Sued, O Globo.

"Pela primeira vez, desde que vou a teatro no Brasil, vejo um espetáculo musicado com ritmo e tempo sem quebras de interesse". Paulo Francis, Última Hora.

"Em certos quadros de MY FAIR LADY o público começa a bater palmas e os artistas esperam que eles terminem para poderem representar!" Haroldo Damásio, Jornal dos Sports.

"MY FAIR LADY é inesquecível!" Jacinto de Thormes, Última Hora.

"Minha Querida Lady é uma peça musical para ver e rever!" Accioly Netto, O Cruzeiro.

Sérgio Viotti, Sérgio de Oliveira (creio), substituindo Jayme Costa, Bibi e Paulo

A gravação de todos os números musicais de Minha Querida Lady, ora apresentada ao nosso público, nada fica a dever a todas as outras gravações da mesma obra feitas nos diversos países do mundo em que ela já se apresentou. Interpretada pelos mesmos artistas que a consagraram no palco, tornará, por certo, ainda mais familiares suas canções que, dentro em breve, estarão na boca de todo nosso público, constituindo-se num dos mais autênticos sucessos em disco dos últimos tempos.

Bibi Ferreira e Paulo Autran em MINHA QUERIDA LADY (My Fair Lady)

Adaptada da obra "Pigmalião", de Bernard Shaw
Libreto de Alan Jay Lerner
Músicas de Frederick Lowe
Tradução do texto - Henrique Pongetti
Tradução das Letras - Victor Berbara
Orquestrações de Robert Russel Bennet e Phil Lang
Maestro - Alexandre Gnatalli

1 - Abertura (Orquestra)
2 - Por que não podem os ingleses aprender? (Paulo Autran)
3 - Tão feliz (Bibi Ferreira e Côro)
4 - Bocadinho Só (Jayme Costa, Telcy Peres, Alexandre Belucci e Côro)
5 - Sou um homem bem comum (Paulo Autran)
6 - Já verás, mestre Higgins (Bibi Ferreira)
7 - O rei de Roma ruma a Madrid (Paulo Autran, Bibi Ferreira e Sérgio de Oliveira)
8 - Eu dançaria assim (Bibi Ferreira, Lísia Demôro, Therezinha Mendes e Estellita Bell)
9 - Gavota de Ascot (Côro)
10 - Gavota de Ascot II (Côro)
11 - A rua onde ela mora (Hélio Paiva)
12 - Valsa da embaixada (Orquestra)
13 - Vitória (Paulo Autran, Sérgio de Oliveira, Estellita Bell e Côro)
14 - Vou me casar em matrimônio (Jayme Costa e Côro)
15 - Sem você (Bibi Ferreira e Paulo Autran)
16 - Ao seu olhar me acostumei (Paulo Autran)
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Ver também: 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

"A Semente", de Guarnieri


Logo após o sucesso retumbante e avassalador de Eles não usam Black-Tie, no Teatro de Arena, em 58, Guarnieri foi contatado por Sandro Polloni, sobrinho de Itália Fausta e dono de uma prestigiosa companhia teatral com sua mulher, a belíssima atriz Maria Della Costa. Sandro queria que o dramaturgo escrevesse uma peça para Maria, a ser encenada pela companhia do casal. Guarnieri, com apenas 24 anos, estava maravilhado com o sucesso atingido por sua peça de estréia, mas também não sopitava uma certa claustrofobia, decorrente do espaço mínimo oferecido pelo teatrinho da Teodoro Bayma. Assim, foi com prazer que ele aceitou a encomenda de Sandro, e escreveu Gimba, ambientada numa favela carioca. O projeto lhe dava a oportunidade não só de escrever para o palco italiano, com grandes cenários, mas de colocar 30, 40 atores em cena.

Flávio Rangel e Guarnieri, a bordo do navio que os levou à turnê européia de Gimba

Nas palavras do próprio Guarnieri, em depoimento à Funarte, em 76: "Eu já queria mostrar a favela do Rio, mesmo, aquela favelona que eu tinha visto, um negócio mais aberto, mais amplo. (...) Que o espetáculo tivesse espaço em torno dele. Que tivesse massas, e que eu hoje ainda acho que é o grande espetáculo. O grande espetáculo popular é as massas, mesmo. Esse, sim. E o Gimba foi essa necessidade. E quando eu vi o espetáculo montado, realmente senti que era grandão, que era bom, mesmo".

Gimba estreou em 17 de abril de 1959, no Teatro Maria Della Costa. Na direção, um mestre tão precoce quanto Guarna, e um amigo para toda vida: Flávio Rangel. Mas de Gimba falaremos em outra ocasião. O que nos importa aqui é situar a obra do autor no tempo, para que todos entendam como surgiu sua terceira peça, uma obra-prima chamada A Semente.

A nova - e genial - geração de dramaturgos: Jorge Andrade, Guarnieri e Dias Gomes

Depois de apresentar Gimba no Brasil, Guarnieri, Sandro Polloni e Flávio Rangel (recém-nomeado diretor artístico do TBC) levaram o espetáculo para a Europa. Entre tapas, beijos, um elenco gigantesco e cenários maiores ainda, além de toda a intempestividade de três espíritos anárquicos e indomáveis, a peça fez uma excursão vitoriosa e inesquecível por diversos países. A volta ao Brasil, em maio de 60, foi agridoce. O sucesso de Gimba era comentado a torto e a direito, o teatro brasileiro passava por um de seus momentos mais criativos, com o ressurgimento do Arena, de dramaturgos como Guarnieri e Jorge Andrade, diretores como Flávio e Boal, e no entanto a situação financeira das companhias ia de mal a pior. Franco Zampari anunciava para quem quisesse ouvir que o TBC, com um sucesso atrás do outro, não conseguia arcar com suas despesas, e estava prestes a fechar as portas. Para se ter uma idéia da situação, nesse mesmo ano de 60, Flávio Rangel dirigiu no TBC a primeira montagem da obra-prima de Dias Gomes, O Pagador de Promessas. A peça foi imediatamente aclamada, sucesso de crítica e público, um marco do teatro brasileiro equivalente à Black-Tie, e mesmo assim o máximo que conseguiam era pagar o espetáculo, não sobrando qualquer dinheiro.

Paralelamente, ia amadurecendo na cabeça de Guarnieri a idéia de sua terceira peça. Em entrevistas, ele dizia apenas que seria uma peça sobre operários, encerrando o ciclo iniciado com Black-Tie. Mas a coisa era bem mais profunda. Ninguém sequer imaginava que o que estava em preparo era o primeiro texto do teatro brasileiro a tratar escancaradamente da relação entre a cúpula do Partido Comunista e seus militantes, durante uma greve operária. Mais do que isso: a amizade surgida entre diretor e autor, em Gimba, fez com que Flávio Rangel convidasse Guarnieri a montar a peça não no engajadíssimo Teatro de Arena, mas no burguesíssimo TBC. José Rubens Siqueira, biógrafo de Flávio Rangel, definiu perfeitamente a situação: "Abordar a questão social brasileira com O Pagador de Promessas significou uma abertura considerável, mas falar de comunismo no templo do teatro burguês era de uma ousadia sem precedentes".

Políticamente, o Brasil vivia o fim do governo JK, pródigo em obras faraônicas e engolfado no otimismo causado pela vitória na copa de 58. O PCB, em um de seus raros períodos de legalidade, encontrava-se como sempre desarvorado e sem perspectiva de chegar ao menos próximo ao poder, já que o candidato do governo à sucessão de JK era o Marechal Lott, militar da velha guarda, e seu opositor era o imprevisível Jânio Quadros, desafeto pessoal de Prestes. No cenário internacional, o Partidão também levara pouco antes um golpe duríssimo, com a exposição, por parte de Krutshev, de todos os desmandos e monstruosidades cometidas durante a ditadura de Stalin na URSS. Uma coisa era certa, entretanto: em outubro de 60, enquanto as urnas davam uma vitória esmagadora a Jânio, Guarnieri jogava todas as suas anotações e impressões num liqüidificador, e em três dias A Semente era dada à luz.

Flávio Rangel e o TBC enfrentavam problemas financeiros e ideológicos. Os financeiros foram equalizados quando o então governador Carvalho Pinto cedeu - depois de violentíssima briga no meio teatral - uma subvenção de 8 milhões de cruzeiros à Companhia, com os quais dívidas foram pagas e o pontapé inicial se deu na produção de A Semente, no início de 61. Mas eram os problemas ideológicos que dariam dor de cabeça ao grupo até horas antes de abrir o pano. Naquela época, toda e qualquer peça profissional tinha que ser submetida à censura. O TBC não era exceção, e um texto de A Semente foi mandado para a divisão de diversões públicas da secretaria de Segurança de São Paulo. Dias se passaram e nada. A estréia do espetáculo foi marcada para 28 de abril de 1961.

O atraso no veredito da comissão fez com que Flávio fosse à Brasília tratar diretamente com Jânio a liberação da peça. Jânio, quase 20 anos mais velho que Guarna, admirava o jovem dramaturgo e ator, fôra espectador atento e entusiástico de Black-Tie, quando governador de São Paulo, dera-lhe pessoalmente o prêmio de melhor dramaturgo de 1958, e Flávio julgou não ser difícil conseguir o aval do agora presidente. Na capital, foi tratado como um príncipe por Jânio e seu secretário particular, José Aparecido, que era respeitado e estimado pela classe artística. Ficou lá dois dias e voltou tranqüilo para São Paulo, com a promessa de que Carvalho Pinto já falara com seu secretário de segurança pública, Virgílio Lopes da Silva, e a peça seria liberada. Logo, é de se imaginar o choque de Flávio quando soube que o Diário Oficial do Estado de São Paulo, em sua edição de 26 de abril, trazia o parecer da comissão de censores, proibindo a peça!

O parecer, que vinha da comissão de censura da divisão de diversões públicas e do DOPS, era assinado por um substituto de Virgílio Lopes. O documento é patético e é impossível não rir de seu conteúdo, hoje em dia. Em seu primeiro parágrafo diz que "após serena e desapaixonada apreciação da peça A Semente, de autoria do teatrólogo Gianfrancesco Guarnieri, forçoso é concluir que o seu texto invariavelmente constitui claro e audacioso incitamento à subversão da ordem pública, objetivando solapar em suas bases a estrutura do regime democrático vigente no país". O substituto segue, dando mais razões para a proibição, como o linguajar do "mais rasteiro calão" de algumas cenas, "alusões deprimentes às autoridades públicas e religiosas", e ainda faz um apelo a Guarnieri - a quem elogia como "um espírito culto" e de "vivaz inteligência" - no sentido que ele escreva peças "que proporcionem ao espectador a apreciação das contingências da vida", mas que estas não estejam contaminadas com "a inquietude contagiante e destrutiva com que procurou vestir a alma de seus personagens".

Outra verdadeira pérola de raquitismo mental é o telegrama imediatamente enviado pelo corpo docente do colégio de freiras Sacre-Coeur de Marie - de muitos que foram mandados, no mesmo teor - parabenizando os censores pela decisão: "O Corpo Docente do Colégio Sacre-Coeur Marie congratula-se vossência louvável ato proibindo a peça A Semente perigosa costumes a nossa juventude".

Guarnieri e Flávio foram até Virgílio e pediram a ele que tornasse sem efeito o parecer do substituto, com base no aval de Jânio. Virgílio, pisando em ovos, argumentou que não poderia simplesmente desautorizar uma ordem de seu substituto. Mas ofereceu uma solução: a peça seria apresentada para uma comissão de intelectuais formada por membros da imprensa, das artes, da edilidade, da igreja, do rabinato, etc. - procedimento idêntico, aliás, a que foi submetida a peça Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, no ano anterior - e a decisão dessa comissão seria pesada junto ao parecer da censura. Na madrugada de 26 para 27 de abril, o espetáculo foi encenado no TBC, para uma comissão que contava 7 pessoas. Terminada a apresentação, a comissão se reuniu naquela madrugada mesmo, e às 4 da manhã decidiu, por 5 votos a 2, pela liberação da peça. Mas, tal qual uma votação que envolve o Senado e a Câmara, a liberação dos intelectuais - que já continha alguns cortes mínimos que Guarna fizera de bom grado para apressar o processo - teve que ser, por sua vez, analisado pela censura. Para essa análise, foram nomeados três censores. E era sempre nesses "censores biônicos" que morava o perigo. No livro de Sérgio Roveri, Guarnieri discorre sobre a cretinice desses censores:

"Nós corríamos um risco absurdo, porque eles não exigiam que as cenas fossem refeitas ou reescritas. Eles exigiam que elas fossem cortadas do espetáculo, cenas inteiras. Os cortes eram feitos de acordo com os critérios do censor, o que era um grande absurdo. O censor... meu Deus, qual era a legitimidade deste censor? (...) Os anais da censura trazem cada imbecilidade, cada coisa horrorosa. Na Semente, por exemplo, eles exigiram que fossem cortadas algumas cenas que eles consideravam ofensivas. E sabe qual era uma das mais ofensivas para eles? Uma seqüência em que um personagem coloca a cabeça na barriga de uma mulher grávida para ouvir o nenê chutando. [Guarna alude a uma cena do casal de personagens João e Alice, feitos por ele mesmo e Nilda Maria] (...) O que há de ofensivo nisso? Pois eles cortaram."

Na tarde do dia 27, o martelo foi batido: Virgílio Lopes da Silva - de quem Guarnieri lembraria como um homem que foi "corajoso e nos ofereceu cobertura e solidariedade" - liberava a peça, mas apenas para a temporada do TBC, e mais lugar nenhum do Brasil. E a estréia veio, finalmente, no dia seguinte. A Semente era tão grandioso quanto Gimba, na medida do que Guarna desejava, em termos de amplidão cênica e humana, e daquilo que Flávio fazia melhor, ou seja, um espetáculo cinematográfico ao vivo, sobre um palco. Desde o começo dos ensaios, o cenógrafo Cyro Del Nero trabalhou A Semente como sendo "uma idéia ao ar livre". Não alcanço exatamente o significado da idéia de Cyro, mas o certo é que seu trabalho foi nada menos do que extraordinário. Ele vinha de haver trabalhado na Europa como assistente de cenografia de Wieland Wagner, um dos maiores cenógrafos de ópera de todos os tempos. Em depoimento a José Rubens Siqueira, Cyro conta como concebeu o cenário de A Semente: "Então eu cheguei com tudo isso aqui no Brasil. Me dão A Semente. Movimento operário, reivindicações... Operístico, operístico! Botei um cubo no meio, dentro do qual se passavam dois pisos, desciam coisas que cortavam o palco em fatias, sabe?" No programa da peça, Cyro já havia descrito seu trabalho de maneira bastante poética: "Talvez tenhamos conseguido o arcaísmo de se conservar o mistério apenas entre atores e cenário; cenário veste ator, sem confidências com o público, fatias e planos não consideram o espectador uma quarta parede, mas lhe dão uma visão de pássaro mental".

Em artigo publicado no Estadão, um dia antes da estréia, em meio às gestões para liberação do texto, Flávio foi bem menos lírico e deu detalhes impressionantes:

"A Semente é tecnicamente dificílima: 22 seqüências espalhadas por 10 cenários, que vão e voltam. Além de outras tranqüilidades tais como uma passeata, um vôo, uma pancadaria, um amor profundo, um velório, uma praça (com igreja), uma moça grávida e outra que quer ficar, um depósito de lixo, operários trabalhando com máquinas, uma pequena canção, um côro, muita gente em cena [40 pessoas] e o fascinante personagem de Agileu, síntese da massa. Aí eu preferi fazer um filme: não foi possível".

Flávio realizaria poucos anos depois, com a produção de Gimba, o sonho de levar um de seus grandes espetáculos para o cinema. Mas a experiência foi malfadada e de sucesso limitadíssimo. O talento pujante de Flávio, bem como suas veleidades cinematográficas, tinham um lugar certo, que era o palco de um teatro.

Ao cenário somava-se o belo elenco de A Semente. No papel de Agileu, o grande Leonardo Vilar, que vinha de três performances aclamadíssimas no TBC: Pedreira das Almas, de Jorge Andrade (peça que seria informalmente "a semente" de A Semente), Panorama Visto da Ponte, de Arthur Miller e O Pagador de Promessas, de Dias Gomes. No papel de Rosa, esposa de Agileu, Cleyde Yáconis, que junto com seu então marido Stênio Garcia - o militante Jofre - já haviam participado de O Pagador de Promessas, ambos emprestados da Companhia de Cacilda Becker. Além de ator, Stênio fazia também as vezes de assistente de Flávio Rangel. Cipriano, outro militante companheiro de Agileu e Jofre foi feito pelo jovem Juca de Oliveira, em início de carreira. No papel de Justina, amiga de Rosa, estava Nathália Timberg, que protagonizara O Pagador de Promessas junto a Léo Vilar (no filme de Anselmo Duarte, o papel feito por Nathália foi para Glória Menezes). Flávio Migliaccio, companheiro de Guarna desde os primórdios, no Arena, também estava no elenco, no papel de um operário.

A peça foi um sucesso de público e de crítica, mas nem por isso a igreja católica interrompeu sua grita contrária. O próprio Cardeal Motta, emitiu aviso proibindo os "fiéis cristãos" de assistir o espetáculo "sacrílego, demolidor da honestidade dos costumes e subversor da ordem democrática". Outro que não teria ficado muito satisfeito com a peça era o próprio Prestes. Mas A Semente não chegou a ser boicotada pelo partidão. O máximo que Prestes fez, depois de assistir a peça, foi cumprimentar Guarna e avisar-lhe que comunista não batia em mulher, referindo-se à cena em que Agileu estapeia Rosa.

A reação mais idiota, contudo, veio da direita extremista, reacionária, que não permitia uma peça sobre o partido comunista, mesmo quando ela expusesse os maiores pecados do partido. Esse movimento chegou a cogitar a montagem de uma paródia à Semente chamado "O Caroço", que não chegou a se efetivar. A história de "O Caroço" é hilária e pode ser conhecida AQUI.

A Semente ficou em cartaz com casa lotada até agosto de 61, o que correspondia a uma temporada de grande sucesso, naquela época. O único lugar onde ela foi apresentada, além do TBC, foi no Sindicato dos Ferroviários de São Roque.

Em determinado momento da peça, um dos dirigentes zomba de Agileu, chamando-o de visionário, por julgar que aquele era o momento de desencadear uma greve na fábrica onde trabalhava. Embora Guarna tenha sido sempre o extrato de seus personagens socialistas, naquilo que eles têm de melhor e mais equilibrado, o visionário era ele. Porque os métodos repressivos tanto da direita quanto da esquerda podem ser secularmente os mesmos, mas raramente uma pessoa conseguiu captar e demonstrar com tanta inteligência os desmandos de uma estrutura que valoriza a idéia sobre o indivíduo, em contraponto às injustiças de um sistema que só visa o lucro em detrimento ao ser humano. Um desnudamento da esquerda e uma autópsia na direita. E tudo isso numa época em que o Brasil parecia viver a calmaria da democracia, quando na verdade, durante os 5 anos do governo JK, todos os vícios capitalistas possíveis haviam sido cometidos e varridos para debaixo do tapete. E enquanto Brasília era exibida para o mundo como uma maravilha moderna, a classe operária que a construiu não tinha permissão de viver ali, e era varrida para debaixo desse mesmo tapete, ou seja, para os favelões que cercavam a capital e que hoje se transformaram em cidades-satélite. E Guarna podia não concordar em ser considerado "visionário", por sua modéstia, mas com certeza estava atento a seu povo, conforme disse a Sérgio Roveri:

Isso se deu porque eu era um observador, só isso. Mas não um observador neutro, que diz apenas: eu vou observar e ponto. Não, eu tinha um conhecimento, aquilo era a minha vida. Eu ia fuçar mesmo para ver como eram as coisas, como eram os movimentos estudantis, dos trabalhadores, dos camponeses. (...) Eu escrevia minhas peças a partir de todas essas observações, que não eram observações plásticas, mas de alguém que punha mesmo a mão na massa. (...) Acho que minhas peças seguiam um movimento histórico, elas acompanhavam a realidade da época, e até desembocavam em algum lugar. Só que não vejo nenhum delas como um exercício de futurologia. Eu nunca tive talento para descrever o futuro distante, O que eu conhecia era a visão do homem brasileiro, que era objeto da minha preocupação.

Em entrevista ao próprio Flávio Rangel na Funarte, em 1976, Guarna diria que A Semente é, das peças que escreveu, sua favorita.

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sobre "O Avarento", com Paulo Autran


Em novembro de 2006, uma amiga minha me pediu um texto sobre O Avarento, com Paulo Autran, que estava na época em cartaz no Teatro Cultura Artística, em São Paulo. Como se tratava de publicação de baixíssima tiragem, sem qualquer repercussão, não perdi meu tempo com ser sincero, e escrevi um texto quadrado, sem maior profundidade. Por e-mail cheguei a dizer a essa amiga jornalista: "Eu poderia ter falado sobre o que achei da performance dos atores, individualmente, mas tenho uma série de críticas a fazer (achei o elenco fraquíssimo), então deixei quieto. Mesmo porque, tenho a impressão de que você quer um texto rápido, chapa branca, mesmo, e se eu começar a criticar, ele vai ficar enorme". Pelo jeito, nós dois estávamos enganados; a revista não quis publicar o artigo porque achou que ele não era suficientemente crítico. Em todo caso, eis o texto, de 19 de novembro de 2006:
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Avareza pouca é bobagem

A lenda do velho pão-duro que esconde sua fortuna vem provavelmente de Menandro, comediógrafo grego precursor da "nova comédia", no terceiro século A.C. Nessa fonte bebeu o romano Plauto, para compor a comédia latina Aulularia (ou A Comédia da Marmita), quase 2 séculos depois. Em 1668 o texto de Plauto recebeu roupagem nova e definitiva através da pena privilegiadíssima de Molière, que o transformou em O Avarento, encenado com ininterrupto sucesso desde então (Nesse ciclo irregular de atualizações e adaptações entrou até Ariano Suassuna, utilizando os dois textos como espinha dorsal de seu brejeiro O Santo e a Porca, de 1957).

O clássico de Molière já teve montagens brasileiras encabeçadas por atores como Procópio Ferreira, que a remontou diversas vezes, sempre com grande sucesso, Abílio Pereira de Almeida, em tímida performance no curto período em que foi ator, antes de se dedicar integralmente a escrever peças, Jorge Dória, brilhante, levando a platéia às lágrimas de riso da primeira à última cena, e até Cacá Rosset, em (desastrosa) montagem do Ornitorrinco. Agora chegou a vez de Paulo Autran, geralmente considerado nosso maior ator, encarnar Harpagon, o magnífico sovina esculpido pelo gênio francês. Aos 84 anos, Paulo estrela sua 90ª peça de forma jovial, cômica e vibrante.

A trama gira em torno de Harpagon, um velho viúvo que esconde sua fortuna em uma caixa, enterrada no jardim de sua casa. Enquanto todos procuram viver suas vidas normalmente, gozando do amor e da felicidade que o dinheiro não traz, Harpagon está sempre desconfiado de que vai ser roubado pelos empregados ou até mesmo pelos dois filhos, que lhe devotam amor e carinho verdadeiros, porém em vão, pois para ele só o que importa é o dinheiro.


O termo "avarento", que a princípio significaria apenas "aquele não dá", que "não é generoso", ganha novo significado semântico com o texto de Molière. Introduz a figura do homem que não é apenas miserável com os outros, mas consigo mesmo. Ele não desfruta dos benefícios que poderiam advir da riqueza, porque seu apego é com o próprio dinheiro. Com a idéia de tê-lo, e não com a idéia daquilo que ele pode proporcionar. Vive como um mendigo, regateia os gastos mais comezinhos, priva-se dos prazeres mais ínfimos, despreza a caridade, foge de quaisquer assuntos ligados a gastos ou finanças e sua mente é voltada exclusivamente para a proteção desse dinheiro. Aumentá-lo, se possível. Subtraí-lo, jamais.

Os filhos de Harpagon, Cleanto e Elisa, são jovens e apaixonados, e como na maioria dos textos de Molière, seus casos amorosos têm complicações que só serão superadas através de ardis e de maquinações que vão dando o estofo cômico e dramatúrgico à peça. Cleanto secretamente ama Mariana, a quem Harpagon decidiu desposar. Elisa, por sua vez, foi prometida por Harpagon a Anselmo, um velho rico, mas na verdade ama Valério, que é simplesmente um criado e portanto está longe do casamento por interesse que Harpagon planeja para ela. Entram em cena Frosina e Flecha, respectivamente a governanta e o faz-tudo de Harpagon. Divertidos, inteligentes e com uma pitada de maldade, ambos vão procurando resolver os problemas dos filhos de Harpagon, resolvendo seus próprios problemas financeiros no meio do caminho. E no fim há uma grande surpresa que amarra a trama.

E por aí o público vai constantemente às gargalhadas, com o hilário encontro do sexagenário Harpagon com a adolescente Mariana, a bajulação de Valério, que faz tudo para cair nas graças de Harpagon, as lamentações de Cleanto, as lorotas de Frosina e os atrevimentos de Flecha, consciência coletiva e o único que diz as verdades que Harpagon precisa ouvir. Paulo nos dá um Harpagon com intenso respeito pelo texto de Molière. Enquanto Dória sempre passeou pelos textos do gênio francês, utilizando-os para dar vazão à sua inigualável comicidade e a seu talento magistral de improvisar, Paulo optou por seguir a linha de Procópio, ou seja, a de arrancar gargalhadas coerentes. Nada é forçado, nada é gratuito, nada é caco.

Paulo, como o Sr. Jourdain de "O Burguês Fidalgo"

É teatro de primeiríssima qualidade, onde vemos nosso primeiro ator brilhando universalmente, numa representação que agradaria em qualquer lugar do mundo. Ator experimentado em Molière, a quem já representou em traduções que vão de Stanislaw Ponte Preta - no escrachado O Burguês Figaldo, com direção de Ademar Guerra - a Guilherme de Almeida - no Tartufo, onde interpretou o personagem-título e a mãe de Orgon, Pernella - Paulo encontra aqui o equilíbrio absoluto de texto e performance, no que contou com a aquiescência do diretor, Felipe Hirsh.

A cenografia de Daniela Thomas consiste num painel de caixas de madeira, simples e intrigantes ao mesmo tempo. Todos os personagens estão "encaixotados" no início da peça, como bonecos de porcelana, presos na rotina alucinante de Harpagon, já que a vida de todos ali acaba influenciada pela gana do Avarento. Os caixotes representam um mundo que não é cíclico e remetem ao aprisionamento dos valores verdadeiramente importantes a uma vida sem sentido, que termina no próximo ângulo. (Este parágrafo é o único no qual preservei as observações que minha amiga fizera anteriormente; não é meu)

No programa da peça, Paulo põe em xeque uma questão: Você se vê no lugar do Avarento, ou apenas lembra que conhece alguém como aquele personagem? E de fato é isso que ocorre; as pessoas jamais se enxergam na pele daquele a quem a crítica é dirigida. A carapuça nunca serve a ninguém a não ser a terceiros.

O Avarento é duplamente clássico: no texto inspiradíssimo de Molière e na interpretação de Paulo Autran, que é uma aula magna para todos aqueles que desejam se enveredar pela seara teatral, ou que simplesmente desejam assistir um bom espetáculo. Paulo é, como bem observou Antônio Abujamra, uma "universidade aberta".
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Hoje, passados alguns anos, posso dizer, sem me alongar muito, que O Avarento padeceu do mesmo mal que basicamente todas as grandes montagens de Paulo nos últimos anos: ausência de direção ou um péssimo elenco de apoio. Foi assim com A Tempestade, cuja direção era nula, foi assim com o Rei Lear, cujo elenco coadjuvante era tenebroso, e só não foi assim com as outras que vieram durante e depois porque foram espetáculos menores, com 3 ou 4 pessoas. No Avarento, Paulo brilhou sozinho. Foi um Harpagon maravilhoso, e algo de seu brilho refletiu em Elias Andreato e Cláudia Missura. Acabou. O resto do elenco, assim como a direção, inexistia. Loas à cenografia de Daniela Thomas, que foi boa.

Mas não havia segredo nenhum de que quem estava no teatro, estava lá para ver Paulo, e nisso ninguém se decepcionou. Paulo brindou aquele público com um canto do cisne vigoroso, e, com efeito, sua performance mais possante e energética em muitos anos. Muito mais energética, curiosamente, do que o seu Lear, 10 anos antes. E, embora seja lamentável que ele não tivesse a seu lado os titãs que merecia, vê-lo no palco sempre foi uma experiência inigualável.
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Bibi Ferreira e o plebiscito de 1963


Meus caros, acredito que o título tenha sido no mínimo enigmático para muitos. Vamos aos fatos:

Na foto, João Goulart

Em 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros renunciou à presidência da República. Assustados com a tendência esquerdizante de seu vice, João Goulart, substituto constitucional de Jânio, os paranóicos ministros militares pressionaram o Congresso a aprovar às pressas um ato adicional que limitasse os poderes do presidente, a fim de que ele não pudesse sair da linha política conservadora que as Forças Armadas preconizavam. A solução foi a Emenda Constitucional n°4, aprovada em 2 de setembro, e que instituiu o Parlamentarismo no Brasil. Dessa forma, o Congresso não responderia mais diretamente ao presidente, e sim a um primeiro-ministro que o próprio Congresso indicaria.


Tancredo e Jango

No dia 7 de setembro João Goulart assumiu a presidência com Tancredo Neves à ilharga, como primeiro-ministro. Ficou estabelecido que em janeiro de 65 haveria um plebiscito popular para a manutenção ou não do novo sistema de governo. O gabinete de Tancredo manteve-se caoticamente até junho de 62, quando finalmente caiu.

Em 10 de julho tornou-se primeiro-ministro o gaúcho Francisco Brochado da Rocha. Sua plataforma consistia basicamente em aprovar a antecipação do plebiscito para dezembro de 62. Não conseguindo, renunciou e foi substituído pelo baiano Hermes Lima. Embora tivesse renunciado, Brochado acabou logrando a antecipação do plebiscito, não para dezembro de 62, mas para o dia 6 de janeiro de 1963. A experiência parlamentarista mostrava sinais de fracasso e muito mais do que limitar o presidente, o que a emenda constitucional fez foi dar carta branca ao Congresso, o que no Brasil nunca foi a coisa mais prudente. Além disso, o Congresso era em tudo e por tudo um congresso presidencialista, e não foram raras as vezes em que Goulart interferiu em reuniões do gabinete de ministros, passando por cima do primeiro-ministro.
Bibi Ferreira

A classe artística mobilizou-se para que o parlamentarismo fosse derrotado no plebiscito. O sistema apenas descentralizava o poder central e criava uma série de caciques que desejava governar com o mesmo poder. Acredito que ao fim e ao cabo, o que os artistas desejavam era que Jango governasse do jeito que lhe aprouvesse, para o bem ou para o mal. Decisão semelhante ocorreu em 90, quando um novo plebiscito jogou nas mãos do povo a decisão entre república e monarquia, e parlamentarismo e presidencialismo. Contra todos os prognósticos (e desta vez os artistas cerraram fileiras ardorosamente ao lado do parlamentarismo), o povo derrotou a monarquia e o parlamentarismo com estrépito, mandando mensagem claríssima de que o problema nunca foi o sistema, e sim os políticos.

Bibi
Na época do governo Jango, o rádio ainda consistia em arma poderosíssima para as campanhas políticas, e os jingles eram capazes de vencer uma eleição. Para o plebiscito de 6 de janeiro de 1963, Bibi foi chamada para encabeçar uma das principais peças publicitárias do presidencialismo. Com pouco mais de 3 minutos, o jingle é feito nos moldes de um programa de rádio, com o apresentador, a estrela - Bibi - e os convidados especiais (Elizeth Cardoso, Ivon Cury, Isaurinha Garcia e Jorge Goulart), que cantam a mesma marchinha da campanha eleitoral de Jango para a vice-presidência, em 1960, trocando, apenas, a letra pelo novo mote, ou seja, a derrota do parlamentarismo. Esta é a transcrição:

Locutor – Aqui está a maior atriz do teatro nacional, Bibi Ferreira!

Bibi – Ao lado dos trabalhadores, dos estudantes, dos homens de empresa, dos funcionários, dos profissionais liberais, dos homens do campo, das donas de casa, também estarão nas urnas, dia 6 de janeiro, os grandes artistas do rádio e da televisão. Aqui está uma das mais queridas cantoras do Brasil: Elizeth Cardoso, a Divina. Canta, Elizeth!

Elizeth – (canta) Meu povo, está na hora de acabar a confusão, toda a nação vai responder que não. O ato adicional está indo mal, todo o meu povo, com razão, vai responder que não, não e não.

Bibi – E aparece Minas Gerais no grande show do plebiscito. Surge Ivon Cury! Astro de primeira grandeza, trazendo o apoio dos artistas das Alterosas. Ivon Cury!

Ivon – (canta) Nós vamos acabar com a confusão, é a nossa vez, no dia 6, ahhh, vamos dizer que não. O parlamentarismo não tem jeito nem razão, no dia 6 vamos dizer que não, não e não.

Bibi – Ouçam a seguir a notável cantora paulista Isaurinha Garcia, orgulho de São Paulo e do Brasil.

Isaurinha – (canta) O dia 6 vai ser a nossa vez, toda a nação, com o lápis na mão vai responder que não. Está na sua mão, do plebiscito a decisão, com o lápis na mão vamos dizer que não, não e não.

Bibi – Igual ao senhor e igual à senhora, eu também irei às urnas dia 6, o dia do não, e em sua seção eleitoral, prestigiando o plebiscito, estará também o famoso cantor Jorge Goulart, uma das mais bonitas vozes do Brasil.


Jorge – (canta) Nós vamos acabar com a confusão, é a nossa vez, no dia 6, vamos dizer que não. O parlamentarismo não tem jeito nem razão, no dia 6 vamos dizer que não, não e não.

Locutor – Na sua cédula está escrito:

Bibi – Concorda com o ato adicional que instituiu o parlamentarismo?

Locutor – Não.

Locutor – Então faça um X no quadrinho do não.

Locutor – Dia 6 é a sua vez.

Bibi – Compareça e marque:

Locutor – Não!

Locutor – Não!

Bibi – Não!
Locutor – Não!

Locutor – Não!

Bibi – Não!

Coro – Meu povo a decisão agora está em sua mão, no dia 6 vamos dizer que não. O ato adicional só aumentou a confusão, com o lápis na mão, vamos dizer que não, não e não.

Pode-se dizer que Bibi e a classe artística estavam do lado certo, porque no dia 6 de janeiro o parlamentarismo foi fragorosamente derrotado, com 9.457.448 votos pela volta do presidencialismo, contra 2.073.582 pela manutenção do regime de primeiros-ministros.

Divirtam-se assistindo esta clássica e rara propaganda política:


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site oficial de Bibi Ferreira, composto e dirigido por Ângela Glavam, é parada obrigatória para todos os admiradores de nossa maior atriz.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Preciosidade: A Temporada de Bibi Ferreira em 1949


Meus caros, pretendia postar isto aqui no ano passado, para comemorar os 60 anos daquela temporada, mas vai agora, com pequeno atraso, inaugurando as postagens de 2010.

Entre abril e junho de 1949 Bibi e sua companhia estiveram em São Paulo apresentando três espetáculos: Senhora, adaptação do romance de José de Alencar por Hélio Ribeiro de Souza (carro-chefe da temporada, que estreou no Teatro Regina, no Rio de Janeiro, em janeiro daquele ano), Diabinho de Saias, (Dear Ruth, peça do americano Norman Krasha com tradução de Raymundo Magalhães Jr.), e Minhas Queridas Esposas, rara incursão de Bibi pela dramaturgia.

Em meio à pesquisa que venho empreendendo há tempos para meu livro sobre Jânio Quadros, encontrei acidentalmente este material preciosíssimo, que consiste na campanha publicitária das três peças. São anúncios que vêm em formato de desenhos ou fotos de Bibi, mas o que é realmente curioso é que não se repete jamais um comercial. Vemos a contagem regressiva para a estréia de Diabinho de Saias ou Minhas Queridas esposas, com clichês, figuras ou textos sempre diferentes.

Senhora tinha "mais de trinta artistas, entre os quais Bibi, Rodolfo Arena, Belmira de Almeida e Jardel Filho, com onze cenários feitos por sete palcos giratórios, trabalho de Paulo Elkins, brasileiro que havia feito muito sucesso na Europa e os elogiadíssimos figurinos de Sofia Magno de Carvalho". A crítica Ana Maria Mendonça, do Correio da Manhã,  não deixou passar em branco "a novidade dos palcos giratórios. Além de possuir as vantagens de auxiliar o ritmo da peça e de não prolongar demasiadamente os intervalos, produziu um efeito interessante: pode-se ver os artistas se movimentarem de uma sala para outra, enquanto o palco gira". (Bibi Ferreira, uma vida no palco


Um primor da publicidade nos anos 40 e um belíssimo mergulho no universo das companhias teatrais, numa época em que tínhamos, ao mesmo tempo em cartaz, aqui em São Paulo, Cacilda no TBC, Maria Della Costa em seu teatro, e Bibi no Teatro Santana.


Divirtam-se, salvem, divulguem. E dêem crédito a este blog, se lembrarem.



Abaixo, um lembrete sobre Diabinho de Saias, no Diário da Noite de 24 de maio de 1949:


Sobre a interpretação de Bibi em Diabinho de Saias, eis o que disse Paschoal Carlos Magno no Correio da Manhã: "Como atriz, é das que sabem ouvir, como se estivesse ouvindo de verdade o personagem a quem se dirige ou com ela conversa. Sua Miriam fica, por força dos detalhes com que a enriquece, mais simpática do que realmente é". (Bibi Ferreira, uma vida no palco)

A seguir, a contagem regressiva diária para o fim da temporada de Diabinho de Saias e a estréia de Minhas Queridas Esposas:




Em meio às propagandas, o aviso sobre uma festa teatral dada em homenagem à Bibi na antiga Boite Estoril:


E por fim, a estréia de Minhas Queridas Esposas, na sexta-feira, 10 de junho de 1949.

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O site oficial de Bibi Ferreira, composto e dirigido por Ângela Glavam, é parada obrigatória para todos os admiradores de nossa maior atriz.
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