segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia - Vol. 1 - "Um Moço Bem Velhinho"

         A Biografia Definitiva de Jânio - Parte I

O leitor deste livro, fruto de treze anos de pesquisas, acompanha a descrição envolvente, magnética, da juventude de Jânio, como nunca antes havia sido feita. (...) Quem quiser, a partir de agora, conhecer a fundo a vida de Jânio da Silva Quadros e a sua época, os seus contemporâneos, precisará ler o livro de Bernardo, sob a pena, se não fizer isto, de se tornar omisso, lacunoso, mal informado.

Fernando Jorge

Acompanhei atentamente os dez últimos anos de vida de Jânio. Desde sua derrota na eleição de 1982 para o governo de São Paulo, quando ficou atrás de Montoro e Reinaldo de Barros, passando por sua inexplicável indecisão em 84, período em que o Brasil inteiro se uniu pelas Diretas-Já e em seguida por Tancredo; sua brilhante eleição no ano seguinte, derrotando um super-confiante Fernando Henrique Cardoso, sua atuação na sucessão de Montoro, em 86, na qual prometeu apoio a Quércia, Ermírio e Maluf, não apoiando nenhum; seus três anos de mandato, sua complicada sucessão, em 88, dividindo-se entre Leiva e Maluf, abrindo caminho para Erundina; sua quase candidatura em 89, o começo do fim com os constantes AVCs, a despedida da política, o apoio a Maluf e a Aureliano, e mais tarde a Collor, no segundo turno; o declínio progressivo em 90, o apoio final a Fleury e a morte de Dona Eloá.

Daí em diante sentiu que a vela de sua vida – como ele mesmo dizia – “bruxuleava”. Era um espectro, uma sombra esmaecida e distante do que fora um dia. Aqui e ali os jornais davam notícias de suas repetidas internações. Foi desaparecendo. Jânio já não existia mais. Sua morte, em fevereiro de 1992, só veio encerrar de vez aquilo que terminou com a morte de sua esposa.

Em 1991, a professora Vera Chaia lançou em livro sua tese de doutorado sobre a “liderança política” do mato-grossense (A Liderança Política de Jânio Quadros – 1947/1990. Ibitinga, Humanidades, 1991), analisando a atuação do político pelos diferentes cargos públicos que ocupou. Vera chegou a contatar a assessoria de Jânio para um possível encontro; o ex-presidente não era refratário a conversar com estudantes (sobretudo se fossem mulheres) e dera, no passado, uma proveitosa entrevista a Miriam Limoeiro Cardoso, que preparava uma tese comparada sobre a economia nos governos de Jânio e Juscelino (Ideologia do desenvolvimento – Brasil: JK/JQ. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2ª ed. 1978). Como a pesquisa de Vera ocorreu entre o fim do mandato na prefeitura e os primeiros problemas de saúde, o pedido foi negado. 


Seu trabalho de pesquisa, não obstante, é de alta qualidade e contou com os depoimentos de alguns janistas históricos, como J. B. Vianna de Moraes e Jair Carvalho Monteiro, assessores da segunda prefeitura de Jânio, como Alex Freua e Wilson Pereira, e até de um célebre contemporâneo de faculdade e de política, Ulysses Guimarães. Presa, porém, ao tema que escolheu e às limitações de um trabalho acadêmico, Vera não chegou a escrever um livro compreensivo e definitivo sobre o ex-presidente. Lamenta-se, por sinal, que não tenha partido para uma iniciativa de maior fôlego, considerando que na época em que realizou sua pesquisa, muitos dos maiores amigos, colegas e correligionários de Jânio ainda estavam vivos e bem. É a mesma sensação de oportunidade perdida que se tem ao compulsar o trabalho acadêmico de Regina Sampaio sobre Adhemar e seu partido (Adhemar de Barros e o PSP. São Paulo, Global Editora, 1982), cuja lista de depoentes inclui notáveis protagonistas da história, como Lucas Nogueira Garcez, Conceição da Costa Neves, Paulo Lauro, Erlindo Salzano e Mário Beni.

Morto Jânio em 92, por toda a década seguinte foram poucos os livros que apareceram para jogar alguma luz sobre a lendária figura do ex-presidente. Em 1996 vieram três de uma só vez: A Renúncia de Jânio (Rio de Janeiro, Revan, 1996), o tão esperado “livro-confissão” que Carlos Castello Branco só permitiu que lançassem após seu falecimento, e que pouco ou nada esclareceu. Foi escrito no primeiro lustro da década de 60 e tem o mérito único de trazer a visão do próprio Castelinho acerca de todo o episódio da renúncia, sem no entanto explicá-lo, que era o que todos esperavam. Também decepcionante é Jânio Quadros – Memorial à história do Brasil (São Paulo, Rideel, 1996), coleção caótica de artigos de e sobre Jânio, cujo ponto alto é o texto de recordações do neto do ex-presidente. O melhor deles é o terceiro, justamente o que não se pretende nem analítico e nem biográfico: Viagem com o Presidente Eleito (Rio de Janeiro, Mauad, 1996), de Joel Silveira, no qual o saudoso jornalista consigna, com talento e graça, as recordações da viagem que fez com Jânio logo após a eleição de outubro de 1960.

A eles podemos acrescer trabalhos pequenos mas bem-intencionados como os de Marcone Formiga (Jânio – Herói ou bandido? Brasília, Dom Quixote, 1992) e Arnaldo Lacombe (Jânio Quadros – A Renúncia e os Governos Militares. São Paulo, Legenda, 1998), livros de escopo mais amplo como o Testemunho Político, do jornalista Murilo Melo Filho (Rio de Janeiro, Bloch, 1997), fantasias bem-humoradas como Uma vassoura na história do Brasil, de Cleiber de Andrade (Belo Horizonte, Consórcio Mineiro de Comunicação, 1998), até as “Memórias”, que podem ser mais ou menos reveladoras, de Roberto Campos (A lanterna na popa. Rio de Janeiro, Topbooks, 2ª ed. 1994), Abreu Sodré (No Espelho do Tempo – Meio Século de Política. São Paulo, Best Seller, 1995), Júlio de Sá Bierrenbach (1954/1964 – Uma década política. Rio de Janeiro, Domínio Público, 1996), Mário Martins (Valeu a Pena. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996), Toledo Piza (Por quem morreu Getúlio Vargas. Rio de Janeiro, Ampersand, 1998) e poucos outros.

Foi a essa altura, no fim daquela década que se iniciou com as mortes de Jânio e de Ulysses, que comecei a estranhar a inexistência de um trabalho longo e detalhado sobre o presidente que renunciou. Por que um personagem tão fascinante, com um vida tão rica, tão cheia de fatos interessantes, misteriosos, emocionantes e anacrônicos, estaria relegado ao esquecimento? O general Castello Branco foi objeto das ótimas biografias complementares de Luiz Vianna e Foster Dulles; JK deixou vários volumes de memórias, além de ter sua infância e juventude esquadrinhada com a competência e a erudição tradicionais de Francisco de Assis Barbosa; até Costa e Silva mereceu um estudo bastante respeitável, da autoria de Jayme Portella. Para o “homem da vassoura”, entretanto, só havia lugar nos anedotários, no folclore, na área humorística da história. Percebi aos poucos que a escassez de estudos profundos sobre a vida de Jânio não era apenas fruto da preguiça dos historiadores, mas de uma rematada má-vontade com sua figura política.


Jânio não estava sendo só ignorado na escolha de personagens históricos a serem biografados; o pouco que se contava de sua história vinha sempre eivado do ressentimento de seus adversários e do desprezo da geração que o sucedeu. E a maioria dos escritores (jornalistas ou sociólogas, visto que a rigor, nenhum historiador se debruçara, ainda, sobre a vida de Jânio) que ocasionalmente falava do ex-presidente não conseguia transcender sua própria orientação política e carregava para seus textos um teor vingativo. No fito de punir o mato-grossense pelas eventuais posições mais reacionárias tomadas durante sua vida pública, ou por simples antipatia pessoal, ignoram-no ou perpetuam-no em livro com a imagem de palhaço, de alcoólatra ou de reles desequilibrado mental, sem ressaltar suas múltiplas qualidades. Essa injustiça não provoca danos somente ao estabelecimento da história do mato-grossense, mas ao estudo de nossa história republicana. Embora nascido no Mato Grosso, Jânio é o político mais representativo e importante de São Paulo na segunda metade do século XX. A partir do estudo de sua vida, contudo, é possível mapear os momentos mais marcantes de todo esse último século.

O tio de Jânio, Miguel Quadros, participou da campanha civilista de Ruy Barbosa em 1909; Gabriel Quadros (pai de Jânio) foi estudante da primeira turma de agronomia da Universidade do Paraná, reduzida a ¼ pela gripe espanhola; foi ligado pessoal e profissionalmente a Affonso Alves de Camargo e teve que sair do Paraná com a família, em direção a São Paulo durante o golpe de 1930 por ter ligações históricas com o PR paranaense. Fugiu da polícia de João Alberto Lins de Barros no Paraná e fugiu novamente em 31, já em São Paulo, rumo a Cândido Mota. Durante a Revolução de 32, Gabriel pertenceu ao MMDC no posto de tenente-médico (o mesmo de Adhemar e Juscelino); Jânio estava na tradicionalíssima Faculdade de Direito do Largo São Francisco durante a intentona comunista de 35, o golpe do Estado Novo e o putsch integralista de 38. Era simpatizante do PRP e da candidatura de José Américo, caso ela tivesse ocorrido. Estava no último ano do curso quando estourou a grande guerra; empregou em seu escritório um nissei que perdera seu trabalho em virtude da animosidade com o Japão; ele próprio começou a trabalhar no prestigioso Dante Alighieri, que cuidadosamente ocultava sua origem italiana sob o nome temporário de “Colégio Visconde de São Leopoldo”.

Com o fim da ditadura getulista Jânio se integra instantaneamente ao novo movimento político que começa a tomar forma; tem duas experiências partidárias (UDN e PPS) em 1945, entregando-se de corpo e alma à campanha de Eduardo Gomes. Assiste – frustrado por estar do lado de fora – a Constituinte e as eleições estaduais de janeiro de 1947. Candidata-se, finalmente, pelo PDC à Câmara Municipal de São Paulo, em uma das mais conturbadas eleições municipais de todos os tempos, e inicia sua vida pública. Estava ligeiramente atrasado em relação aos políticos com quem roçaria ombros ou terçaria armas durante as décadas de 50 e 60: Adhemar já fora deputado estadual, interventor, e ocupava o governo de São Paulo pela segunda vez; Juscelino chefiara a Casa Civil da interventoria de Benedito Valadares, fora nomeado prefeito de Belo Horizonte e exercia pela segunda vez o mandato de deputado federal. Carvalho Pinto, economista e advogado, já era considerado um papa das finanças municipais a partir da prefeitura de Abrahão Ribeiro. Carlos Lacerda, três anos mais velho que Jânio e filho de um dos mais proeminentes políticos da República Velha, tem no início de sua vida pública um detalhe dos mais interessantes: flertara com o comunismo, fincara o pé no jornalismo e em janeiro de 1947 se elegeu vereador pelo Rio de Janeiro. Apenas onze meses depois, em 16 de dezembro, renunciou a seu mandato, reclamando da falta de autonomia do Distrito Federal e acoimando a Câmara de “dispendiosa inutilidade”. Teria Jânio – que por essa época já era vereador diplomado, a poucos dias da posse – tomado conhecimento da atitude de seu colega carioca?

Nesta investigação inédita sobre a juventude de Jânio, e o caminho trilhado por ele para se tornar o maior fenômeno da política brasileira no século XX (bem como os próximos volumes, que cobrirão detalhadamente a existência do mato-grossense até sua morte), mais de 600 livros foram consultados, milhares de edições de jornais de oito décadas diferentes, documentação até hoje desconhecida e entrevistas com mais de 130 pessoas. Foi, portanto, fundamental ter começado a pesquisa ainda em 1998, porque as experiências do ex-presidente na infância e na juventude, detalhadas neste primeiro volume, só poderiam ser contadas, ou confirmadas e enriquecidas, por testemunhas oculares, esses depoentes preciosos, basilares que tive a sorte de encontrar, cheios de disposição, na faixa dos 80 e 90 anos. Desnecessário dizer: 90% deles não haviam sido procurados jamais para falar sobre Jânio. E a partir deles é que se desenrola toda a trama de uma vida que percorreu 75 anos, 42 dos quais, dedicados exclusivamente à política. A dezenas delas recorri mais de uma vez, a outras tantas recorri mais de dez vezes e a um grupo mais limitado, venho recorrendo há mais de dez anos, sempre que preciso de informações.

Num primeiro momento posso citar a importância fundamental de pessoas como a prima-irmã de Jânio, Clotilde de Quadros Cravo, cuja memória perfeita para nomes e datas envolvendo sua família me ajudou sobremaneira nas lacunas inevitáveis de uma pesquisa que há muito deveria ter sido feita. Lícia, Maria de Lourdes e Maria do Carmo da Silva Vendas, três sobrinhas de Leonor, mãe de Jânio, da mesma forma, uniram esforços e me deram belíssimos depoimentos, no Rio de Janeiro, esclarecendo questões jamais levantadas sobre a desconhecida origem da família Silvano da Silva. E como não falar de meu querido e saudoso Glaucus Quadros, filho de Miguel – o tio querido e admirado por Jânio – que esteve, ainda criança, junto ao pai em momentos decisivos, inclusive instantes após o atentado covarde que o matou, no próprio dia em que eclodiu o golpe do Estado Novo?

Glaucus foi testemunha das brigas horríveis de Jânio e seu pai, viu os preventórios de Gabriel – popularmente conhecidos como “lava-pau” – no Bom Retiro, os porres homéricos de Jânio na casa dos amigos, o tratamento autoritário dele com Eloá e as preocupações que isso causava aos pais da moça. E, se isso não fosse suficiente, era irmão mais novo de Jacyr, filho primogênito de Miguel, e único primo a quem Jânio realmente estimava.

João Brasil Vita e seu irmão Fiore me levaram às peladas que a mocidade do Cambuci promovia no campinho da vizinhança; Ruth Prado me provou que Jânio amou e teve seu coração partido antes de conhecer Eloá; Anis Aidar e José Lourenço me transportaram, com seus depoimentos, ao bonde que os levava de suas casas até o Arquidiocesano, que na época ficava em frente à Estação da Luz; Francisco Ladeira chegou a conhecer a clínica de abortos de Herculano, irmão de Gabriel; Hilário Torloni por pouco não estagiou com o pai de Jânio na zona do meretrício, junto a outros estudantes de medicina; Sebastião Giraldes, Granadeiro Guimarães e Octavio Machado de Barros lembravam vivamente de seus tempos de “Sanfran”, da avareza de Jânio no jogo de cartas ao tapa-olho que foi obrigado a usar nos primeiros meses de curso; J. Pereira o viu professorar, Heloisa Selmi-Dei foi sua aluna e quem o apresentou a seu pai, Roberto Selmi-Dei; José Yamashiro foi seu colega de escritório e cabo eleitoral; a viúva de Afrânio de Oliveira, Vera, e a filha de Quintanilha Ribeiro, Maria Luiza, falaram com carinho e saudade da ligação umbilical de Jânio com esses, que foram dois dos maiores companheiros do “homem da vassoura” desde os bancos universitários; Nicolau Tuma e seu pai, José, contaram cédulas da eleição à Câmara com Jânio e Gabriel; Décio Grisi e Jânio se abraçaram em plena Praça Clóvis Bevilaqua quando descobriram que estavam eleitos... fatos extraordinários, lembranças ricas, esclarecimentos e correções.

Acima de tudo, o INEDITISMO. A vida de Jânio nunca havia sido pesquisada exaustiva e criteriosamente. Sua história começa a ser contada agora, com o lançamento desta biografia, 96 anos depois de seu nascimento e 21 anos depois de sua morte.


Jânio, presidente da República, visita o Arquidiocesano e conversa com um de seus velhos professores, o Irmão Amandino. Logo atrás do padre, sorrindo, está José Lourenço. (foto: Memorial Arquidiocesano)

O autor e a filha de Jânio

No mais, só posso agradecer a Oscar Pedroso Horta Filho pela fidalga gentileza, o bom humor e a paciência evangélica com que sempre me atendeu desde o início da pesquisa, e a Fernando Jorge, a quem Jânio disse, em carta, que “se vai ser o meu biógrafo asseguro-lhe que meus ossos dormirão em paz”. O grande escritor, o maior de nossos historiadores, cedeu-me essa tarefa e ainda me honrou com prefácio que me lisonjeia e enriquece meu trabalho.

Gratidão imensa e amizade fraterna me ligam à Ana Laura Quadros Gomes, sempre solícita, gentil e atenciosa nas diversas vezes em que recorri à sua ajuda. Foi elo valioso e indispensável no contato com sua mãe. Aproveito, assim, o ensejo para enviar meu melhor agradecimento à Dirce “Tutu” Quadros. A filha de Jânio foi de uma sinceridade constante e absoluta em seu depoimento – o único que deu até hoje, desde a morte de seu pai – e em momento algum se evadiu de qualquer pergunta minha, mesmo quando o assunto não fosse agradável. Tutu sempre soube da importância de seu depoimento e só concordou em me receber depois de muitas conversas, e a certeza de que meu trabalho primava pela imparcialidade, pelo bom senso e pela ambição única de contar, enfim, a história de Jânio, sem omissões e sem distorções.

Leia a PARTE 2
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Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia
Vol I: "Um Moço Bem Velhinho"
Bernardo Schmidt
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350 pgs ilustradas
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Ver também:
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Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia - Vol. 1 - "Um Moço Bem Velhinho"

A Biografia Definitiva de Jânio - Parte II
 
A biografia de Jânio era uma imposição da bibliografia política brasileira. Logo atrás de Getúlio, o mato-grossense foi o presidente sobre quem mais se escreveu, só que enquanto o primeiro tem sido objeto dos mais variados esboços biográficos, os livros acerca de Jânio carecem de valor documental e histórico. Poderíamos, aliás, passar horas analisando como são poucos os verdadeiros estudos de valor acerca de nossos presidentes, e as razões para que se cuide com tal desmazelo a vida desses grandes políticos. Desde aqueles que foram tema de apologias, como Wenceslau e JK, passando por outros pesquisados apenas por seus parentes – Hermes e Epitácio – recebendo, portanto, a absolvição sumária de seus pecados, até chegarmos ao aspecto mais doloroso: os presidentes que não têm até hoje suas vidas em letra de fôrma porque os autores não encontraram ressonância junto ao governo ou às editoras – comerciais e estatais – para o lançamento de seus projetos.

São célebres os casos de Dutra, que teve o primeiro volume de sua biografia (Marechal Eurico Gaspar Dutra – O Dever da Verdade. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983, organizado por dois genros de Dutra, Mauro Renault Leite e Novelli Jr., a partir de memórias deixadas pelo próprio ex-presidente) publicado com o patrocínio do Exército, e o volume conclusivo engavetado para sempre quando o Exército encerrou o patrocínio; e o de Washington Luís, cuja biografia (Washington Luís – 1869/1924. São Paulo, Imprensa Oficial, 1994 e Washington Luís – 1925/1930. São Paulo, Imprensa Oficial, 2002) não está completa porque a Imprensa Oficial de São Paulo não se digna a publicar de uma vez o terceiro e último volume do monumental esforço de Célio Debes, terminado há mais de dois anos. Nos Estados Unidos, praticamente todos os presidentes foram objeto de pelo menos quatro ou cinco biografias extensas, e isso quando não lançaram seus próprios livros de memórias, outro costume que não nos alcançou, infelizmente.


No Brasil é raro encontrar investigações biográficas sobre qualquer presidente, e não causa espécie que venham com atraso exemplar, caso de Afonso Pena, cuja vida só foi contada em detalhes no belo trabalho de Américo Lacombe (Afonso Pena e sua época. Rio de Janeiro, José Olympio, 1986), publicado quase 80 anos após a morte do velho Conselheiro.

Neste momento falemos somente de Jânio. Ao contrário do que se imagina, o ex-presidente até hoje não recebeu uma biografia. A pobreza de títulos referentes aos nossos presidentes (bem como a governadores e prefeitos) e os trabalhos de pesquisa meramente jornalística, sem aprofundamento histórico deram margem à confusão entre biografia e “perfil biográfico”. O primeiro gênero é de pesquisa metódica, criteriosa, técnica, longa, que vai da centena de depoentes até o exame de documentos, jornais e livros. Divide-se a vida do biografado nas diferentes etapas de sua existência e de suas atividades políticas e parte-se para o detalhamento de cada uma delas. Foi o que Raimundo Magalhães fez com Deodoro, o que Afonso Arinos fez com Rodrigues Alves e o que Silveira Peixoto e Barreto do Amaral fizeram com Prudente de Moraes, entre poucos outros.


O segundo gênero é um resumo da vida do biografado. É uma condensação de momentos marcantes, uma coleção de manchetes, um clipping. É o que Cyro Silva fez com Floriano, o que Celso Peçanha fez com Nilo Peçanha (primo de seu pai), o que Paulo Amora fez com Bernardes e o que três autores, especificamente, fizeram com Jânio. Vera Chaia (A Liderança Política de Jânio Quadros (1947-1990). Ibitinga, Humanidades, 1991) realizou um bom trabalho mas concentrou-se nos cargos políticos e não varejou a vida pessoal. Ricardo Arnt (Jânio Quadros – O Prometeu de Vila Maria. Rio de Janeiro, Ediouro, 2004) foi menos acadêmico mas manteve-se na superfície. E Gabriel Kwak (O Trevo e a Vassoura – Os destinos de Jânio Quadros e Adhemar de Barros. São Paulo, A Girafa, 2006) traçou os perfis de Jânio e Adhemar, contando com alguns depoimentos bastante valiosos. O que temos, além desses títulos, são dezenas de livros que se fixam na presidência, na renúncia, nos bilhetes, nas campanhas ou num leque que vai do encômio à objurgatória, ridicularizando, incensando, dando vazão a admirações incontidas ou às desforras pessoais. Alguns, malgrado a parcialidade, trazem fatos que elucidam uma ou outra passagem da vida de Jânio; outros são mera picaretagem. Em geral, nenhum deles acrescenta algo novo àquilo que já se cristalizou na mente do povo em relação ao “homem da vassoura”. Este é o primeiro grande problema:

1 – Todos os livros a respeito de Jânio utilizam a mesma fonte para sua gênese: os trabalhos pioneiros de Viriato de Castro (O Fenômeno Jânio Quadros. São Paulo, edição do autor, 1957/59), de José Yamashiro (Jânio – Vida e carreira política do presidente. Porto Alegre, Livraria Lima, 1961) e de Castilho Cabral (Tempos de Jânio e outros tempos. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1962). São favoráveis a Jânio, de uma forma ou de outra, mas abriram a picada. Yamashiro estudou a infância (no que contou com a ajuda do jornalista Milton Cavalcanti) e conhecia Jânio desde que trabalhou como tradutor juramentado em seu escritório de advocacia. Viriato resenhou a vida acadêmica e os cargos públicos da vereança à eleição presidencial, com o adendo valioso de ter entrevistado os pais de Jânio. E Castilho, por fim, faz um relato rico e envolvente de suas experiências no primeiro escalão janista de 54 a 62. Embora sejam bons trabalhos, cada um à sua maneira, estão completamente datados, desatualizados, e mesmo assim acabaram por estabelecer uma espécie de teto para o que se conta sobre os primeiros 45 anos do ex-presidente. Com efeito, os pesquisadores e jornalistas que vieram depois não se deram ao trabalho de verificar e expandir as fontes primárias – cuidadosamente deixadas no esquecimento por Viriato, Yamashiro e Castilho, para não descortinarem tragédias familiares e demais questões controversas que poderiam prejudicar Jânio – e não ultrapassaram jamais aquilo que foi originalmente pesquisado e divulgado pelos três, no período que vai de 1917 a 1962.

2 – Como conseqüência, pode-se dizer com segurança que a vida de Jânio era – até agora – desconhecida. Tínhamos duas pesquisas relativamente pasteurizadas e feitas para enaltecer o ex-presidente, e as memórias de um correligionário devotado. Nada sobre a família Quadros, nada sobre a família Silvano da Silva (mãe de Jânio), nada sobre as múltiplas atividades acadêmicas e políticas de Gabriel Quadros (pai de Jânio) ou seu envolvimento com o MMDC, nada sobre o parentesco torto com o governador paranaense Affonso Camargo, nada sobre a irmã de Jânio, e – o que mais impressiona – nada sobre o assassinato de nada menos que três de seus tios, começando com Janguito em 1926, passando por Marcílio em 1932 e terminando com Miguel, em 1937, no mesmo dia em que foi decretado o Estado Novo. Ignorar o tio Miguel, como ocorreu até hoje, é ignorar a pessoa que incutiu em Jânio o gérmen da advocacia – Miguel foi um dos mais proeminentes e beneméritos advogados de Ponta Grossa e de todo o Paraná – e o gérmen da política – o tio de Jânio foi correligionário de Ruy Barbosa na campanha civilista e fazia parte do PR paranaense. Outra pessoa de importância fulcral e que não mereceu até hoje uma única linha de reconhecimento, na formação pública de Jânio, é José Adriano Marrey Jr. Tal se deve não só ao fato de que a extraordinária vida legislativa de Jânio não foi jamais perscrutada por quem quer que seja (e que será também finalmente contada em minúcias e centenas de fatos inéditos no segundo volume desta biografia), mas à triste constatação de que quem se debruçou sobre a vida do ex-presidente deixou passar pistas preciosas, como aquela dada por Miguel Reale em suas Memórias (São Paulo, Saraiva, 1986), quando fala sobre o fato de Jânio ter feito parte do Conselho Consultivo do Partido Popular Sindicalista – também citado por Aureliano Leite ainda na década de 60, em suas memórias (Páginas de uma longa vida. São Paulo, Martins, 1966) – ponta do fio de um novelo indispensável para que se historie todo esse período. Com isso entramos no terceiro grande problema:

3 – É notável a falta de atenção de alguns dos biógrafos de Jânio: há centenas de exemplos, a começar pelo que se viu acima, do PPS de Marrey e Miguel Reale. O mesmo, aliás, se pode dizer de todas as primeiras filiações partidárias de Jânio, sobre as quais reina a mais acachapante confusão. Seguindo a memória lamentavelmente embotada de Vianna de Moraes, Vera Chaia colocou em seu livro que Moraes “e outros companheiros, entre os quais Jânio Quadros, organizaram o diretório distrital da UDN no bairro de Vila Mariana”. Errado. Jânio e Vianna não organizaram coisa alguma, muito menos o diretório da UDN em Vila Mariana, seção das mais prestigiosas em todo o município, e reduto histórico e tradicional, desde a época do Partido Democrático, nos anos 20, do historiador e político Aureliano Leite. Ricardo Arnt elabora sobre o erro e declara que “embora fosse membro do diretório da UDN, Jânio procurou a legenda do Partido Democrata Cristão”. Errado três vezes. Jânio não era membro do diretório; sua filiação era informal e durou semanas; não foi da UDN para o PDC e sim para o PPS, acompanhando Marrey (rejeitado pela UDN) e também não “procurou” nada; foi cooptado por um membro do diretório paulista do PDC, que o convidou a concorrer à Câmara. Gabriel Kwak refunde o erro dos dois primeiros e inverte as datas. Diz, referindo-se a Jânio, que “o jovem professor começou a freqüentar as reuniões de um certo Partido Popular Sindicalista, de cujo Conselho Consultivo fez parte. A obscura organização, entretanto, teve vida curta. Depois se aproximou do diretório da UDN do bairro de Vila Mariana”. Errado duas vezes. O PPS não tinha nada de obscuro, foi fundado por dois dos políticos mais respeitados de São Paulo e elegeu um senador e quatro deputados federais nas eleições de dezembro de 1945, o melhor resultado entre as pequenas agremiações partidárias. E, como já se viu, Jânio não foi do PPS para a UDN, e sim o contrário.

Gabriel Quadros, o pai de Jânio
Basta dizer, relativamente aos erros, que o livro de José Yamashiro mapeia quase à perfeição a vida escolar do ex-presidente, no Paraná e em São Paulo, detalhando de forma concreta e didática a passagem dele e de sua família pelas cidades de Bauru, Garça, Cândido Mota e Lorena, que o autor visitou e onde fez inestimável levantamento de dados. Em livros posteriores, não obstante – inclusive aqueles que trazem a pesquisa de Yamashiro em suas bibliografias – esses interregnos no interior paulista são contados de forma completamente equivocada. Kwak diz que após a fuga do Paraná, Gabriel “transferiu-se com a família para Lorena, no interior do Estado. De lá, os Quadros foram para Bauru, Garça e Cândido Mota, até voltarem a São Paulo”, ignorando que tais mudanças não ocorreram nunca ao mesmo tempo e se espaçaram entre o fim de 1926 e meados de 1932. Arnt diz que “as mudanças profissionais do pai médico induziram-no a cursar o primário em Lorena, São Paulo, e a completá-lo em Curitiba, onde iniciou os estudos secundários com os maristas do Instituto Santa Maria”, absurdo total e completo, sem qualquer base documental e que equivale a dizer que Jânio teria iniciado seus estudos secundários aos 8 anos.

Autor mais antigo houve, em livrinho de ódio a Jânio, que afirmou não ter ele jamais se definido “claramente” em relação a Getúlio. Tal baboseira só se explicaria pela preguiça ostensiva de pesquisar com seriedade. O pai de Jânio não só era ligado profissional e pessoalmente à oligarquia política paranaense, como chegou a ser até preso quando estourou o golpe de 1930; a suspeita do assassinato de Miguel Quadros recaiu sobre Manoel Ribas, cupincha de Getúlio no Paraná durantes os 15 anos de ditadura; nos primeiros anos de sua carreira política, na Câmara, Jânio fez críticas duríssimas a Vargas e os ataques só terminaram quando o ditador convidou o jovem vereador para uma visita à São Borja, que ocorreu no início de 1950. A partir daí Jânio parou com as críticas que envolvessem o nome de Getúlio, por quem passou a ter simpatia, mas não poupou ou defendeu em nenhum momento as atrocidades do Estado Novo. E consumado o suicídio os comentários de Jânio, como de 90% dos maiores detratores de Getúlio, passaram a vir recheados de comiseração e piedade pelo gesto extremo. Eis uma análise rápida de Jânio, o homem, e de sua opinião a respeito do ditador. Mas o autor referido, em sua parcialidade e em sua perene superficialidade, baseou suas declarações nas conflitantes filiações partidárias de Jânio. Erro infantil. Uma coisa é analisar a incoerência, o oportunismo e o desprezo do mato-grossense pelos partidos, e outra bem diferente é analisar o que ele de fato pensava em relação a Vargas.

Outro caso emblemático é a idiotice de que Jânio só conseguiu uma suplência para vereador em sua primeira eleição, o que não é dito por nenhum dos três autores pioneiros. Viriato de Castro afirma textualmente que o mato-grossense “foi eleito vereador, obtendo 1.707 votos. Foi um dos últimos. Quase que não consegue votação necessária. Mais de 40 vereadores tiveram maior votação que ele”. Está absolutamente correto, essa foi a votação exata e Jânio realmente foi o 41° mais votado, numa Câmara de 45 vereadores. O erro, porém, é perpetrado pelos três autores contemporâneos que escreveram os perfis de Jânio. Ao invés de uma checagem corriqueira a qualquer jornal da época, ou, melhor ainda, às declarações do próprio Jânio sobre o assunto no Pasquim, em 1977 (leitura obrigatória para o mais diletante dos pesquisadores), os biógrafos posteriores preferiram confiar em um erro grosseiro disseminado por jornais na década de 70 e pela retentiva duvidosa de um ou outro entrevistado. Isso começa, por sinal, na incapacidade desses autores de compreender dois momentos específicos:

1 – Liquidada a ditadura getulista em outubro de 1945, houve uma eleição no dia 2 de dezembro desse mesmo ano, para a presidência e para as duas casas do legislativo federal. O ano seguinte foi tomado pela elaboração e promulgação da nova carta constitucional. Em 1947 houve duas eleições diferentes. A primeira, em 19 de janeiro, para governador e assembléia legislativa, na qual os paulistas elegeram Adhemar. A segunda, em 9 de novembro, para vice-governador, prefeitos e Câmaras Municipais, na qual Jânio assomou à Câmara. Ricardo Arnt ilustra bem essa desorientação quando afirma não apenas que Jânio não se elegeu, mas que se tornou vereador “na mesma eleição” que Adhemar.

2 – Há uma confusão tenebrosa entre: a) A cassação do registro do Partido Comunista (maio de 1947) – que impossibilitou o partidão de constituir uma chapa para as eleições municipais de novembro mas não impedia que os parlamentares comunistas eleitos continuassem a exercer os mandatos em suas respectivas casas legislativas; b) A anulação da diplomação dos vereadores e prefeitos comunistas eleitos pelo PST (31 de dezembro de 1947) – que deve ser a cassação a que os escritores querem se referir, embora nada saibam a respeito, e ela nada tenha a ver com Jânio – e c) A cassação efetiva do mandato dos comunistas eleitos em dezembro de 1945 e janeiro de 1947 (a chamada “Lei Ivo D’Aquino”, em 7 de janeiro de 1948), que só ocorreu uma semana depois dos vereadores tomarem posse oficialmente. Dizer, como certo autor, que “em 1947, eleito suplente de vereador pela legenda do Partido Democrata Cristão, assume o mandato devido à cassação dos candidatos do Partido Comunista, então colocados na ilegalidade” é cometer três erros crassos em uma única frase. Jânio não se elegeu para uma suplência, não assumiu seu mandato em 1947 e não chegou à Câmara pela cassação de quem quer que fosse. O que resulta desse tipo de incompetência é que biografar Jânio não consiste apenas em contar sua história, mas em corrigir os inúmeros erros cometidos por escritores desinformados ou desatentos.

Reconstruir a vida de Jânio desde sua “pré-história”, considerando que o próprio não demonstrou interesse maior em perpetuar o que quer que fosse, requeria aquilo que nenhum de seus biógrafos e exegetas fez, de fato: PESQUISA. Pesquisa em livros imparciais e de conteúdo, em jornais diferentes das mais variadas épocas, em arquivos e documentos até hoje ignorados ou relegados ao descaso pela dificuldade de acesso. Não a pesquisa em livros exaustivamente citados, não a pesquisa em jornais ou revistas atuais, que trazem resumos apinhados de equívocos e interpretações pessoais ou subjetivas, e não a pesquisa com teóricos que têm sempre na ponta da língua o script do materialismo histórico ou dialético para explicar qualquer coisa. Contar a história de Jânio é contar a história de um personagem e sua época, e não a história de uma época e seu personagem. Jânio não é produto sociológico de seu tempo; é produto da família disfuncional que o gerou e o educou. Sua formação intelectual e suas inclinações políticas não são fruto do período em que viveu, e sim da mentalidade individual de qualquer ser humano determinado e de personalidade forte. Ao contrário de Getúlio, frio e abúlico, que chegou ao governo do Rio Grande por indicação, liderou a Aliança Liberal por exclusão e assomou à presidência por uma quartelada que ele assistiu de camarote, Jânio fez seu destino sozinho, e o teria feito qualquer que fosse a época. Seu populismo é atemporal. Enfim, conhecer a vida de Jânio é pesquisar sua vida, as pessoas com quem ele conviveu dentro e fora da política e não as causas, conseqüências e implicações sociológicas do período em que viveu. É pesquisar as atitudes paradoxais, aparentemente inexplicáveis, mas, ainda mais, o que o levou a tais atitudes. É sua personalidade que precisava ser esquadrinhada. E sem pesquisa, e sem a palavra viva de seus contemporâneos, isso não teria sido possível. Diria mesmo que o trabalho teria ficado irremediavelmente incompleto sem uma série longa e significativa de depoimentos.
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Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia
Vol I: "Um Moço Bem Velhinho"
Bernardo Schmidt
Editora O Patativa
350 pgs ilustradas
R$ 30,00 (Frete incluso para todo o Brasil)

Compre através do e-mail editora.opatativa@gmail.com
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Ver também:
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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Bibi Ferreira, My Fair Lady e o Cinema...


Bernardo, você é um Amor! Obrigada por tudo! Um beijo, sua sempre, Bibi Ferreira, 2012


Felicidade pura. Depois de assistir novamente o maravilhoso BIBI, HISTÓRIAS E CANÇÕES, a prosa inestimável com a amada rainha Bibi. Recordações de My Fair Lady, Paulo Fortes, e um passeio por End of the River e os lendários Cidade-Mulher e Almas Adversas, lamentavelmente perdidos. "Como já te disse", suspirou Bibi, "não tive sorte no cinema". (25/08/2012)

domingo, 7 de outubro de 2012

Eu votarei em José Serra

Indagado por uma amiga sobre a melhor opção - ou a menos pior - entre os candidatos a prefeito de São Paulo, dou a resposta que tem sido recorrente nas eleições dos últimos dez anos: voto por eliminação. Voto útil. Não tenho, a rigor, simpatia ou identificação com nenhum dos candidatos concorrendo, atualmente, e minha escolha tem recaído inevitavelmente sobre aquele que tem menos defeitos.

Sou obrigado a pensar, a fazer uma pequena pausa quando respondo em quem vou votar. Já quando tenho que dizer em que não vou votar de jeito nenhum, as respostas são bem mais fáceis. Vamos a elas, em rápida análise:

1 - Fernando Haddad - Há inúmeras razões para não votar em Haddad, mas basta reunir as principais: foi um ministro da Educação medíocre e inoperante, responsável pela falência do ENEM, e portanto não tem experiência ou predicados para exercer a prefeitura. É candidato de algibeira, de bolso de colete, um ninguém, que Lula, nadando não mais em álcool, mas em megalomania, deseja de qualquer jeito aboletar na prefeitura para provar seu próprio prestígio. Além disso, pertence ao PT, partido que realizou as duas piores prefeituras de São Paulo: Luíza Erundina (na época uma petista agressiva e violenta) e Marta Suplicy. Como se isso não bastasse, Haddad ainda assistiu de braços cruzados a vexaminosa venda de sua candidatura a Paulo Maluf, por alguns minutos a mais no horário eleitoral. Nojo...

2 - Celso Russomano - Um reles oportunista. Apresentava na Gazeta o inefável "Circuito Night and Day", espécie de primo pobre do programa de Amaury Jr., e de lá virou repórter policial do sensacionalista "Aqui e Agora". Foi com esse tipo de prestígio que entrou na política e se manteve durante anos em cargos legislativos, elegendo, de cambulhada, uma série de parentes que se valeram simplesmente do sobrenome televisivo para alavancarem suas candidaturas em legislativos do interior de São Paulo. É um despreparado, não tem qualquer experiência no Executivo, é um falastrão idiota e inconseqüente, é homem de Maluf e hoje posa de independente.

Chalita, Soninha e os outros estão abaixo da crítica. Sem comentários. Vamos àquele no qual EU VOU VOTAR:

José Serra - Entramos de rijo no voto útil. Serra é, de fato, o menos pior. Dirão seus desafetos que ele usou a prefeitura como trampolim, da última vez. Minha resposta: usou mesmo. Não tenho como refutar, porque é exatamente o que ele fez. E mesmo assim é o menos pior. Foi um bom ministro da Saúde, foi um prefeito sem escândalos, nos dois anos em que permaneceu no cargo, e foi um bom governador. É mais do que se pode dizer sobre todos os outros juntos. Mais do que isso: não há indignidades que lhe possam ser imputadas. Haddad e Russomano, além de inexperientes e oportunistas, são figuras ligadas direta ou indiretamente ao malufismo. Chalita não era nada, depois virou tucano de corpo e alma, ano retrasado se passou de mala e cuia para a candidatura de Dilma e hoje é do corruptíssimo PMDB! Serra, ao menos, foi sempre de um único partido, professou basicamente os mesmos ideais e não deu voltas ideológicas de 180º como qualquer um de seus opositores.

E além disso, Serra foi o fundador do Instituto do Câncer de São Paulo. Bastaria esse instituto modelar, maravilhoso, para que ele tivesse meu voto.

Votarei, nesta eleição, em JOSÉ SERRA.

E espero que os paulistanos sigam uma linha de lucidez e façam o mesmo.
Bernardo

Serra, anunciando a inauguração do ICESP

Serra e o secretário da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, durante coletiva de imprensa

sábado, 23 de junho de 2012

Lulinha, Lulinha... Que vexame!


Reportagem da Veja

Não fiquei tão chocado quando vi Lula e Maluf se cumprimentando e se abraçando, porque nos últimos dez anos me acostumei às incoerências criminosas e ao fisiologismo crônico de Lula e do PT. Também não entendo essa revolta toda dos petistas. Por que isso agora? Eu vi a maneira que Lula e o PT se referiam a Sarney quando ele era presidente. Onde estava a revolta dos petistas quando Lula defendeu Sarney (tão corrupto ou mais do que Maluf) com unhas e dentes diante de uma verdadeira catarata de denúncias de corrupção? Também vi o afinco e a dedicação com que Lula e o PT se dedicaram a apear Fernando Collor do Planalto. Onde estava a revolta do PT quando Collor se candidatou a governador por uma coligação que dava apoio a Dilma em Alagoas? E a revolta do PT diante de Renan Calheiros? E a revolta dos petistas em relação a mensaleiros e quadrilheiros como Dirceu e Delúbio?

Se for politicamente lucrativo, Lula e o PT beijam hoje o rosto em que cuspiram ontem. Canonizam quem foi demonizado por eles mesmos. Rezam pela cartilha de que o passado deve ser esquecido. Assim como o bom Raulzito, querem ser uma metamorfose ambulante, e “dizer agora o oposto do que disseram antes”. Muito conveniente. Lula tem hoje 67 anos e os erros que comete não são mais fruto de sua perene ignorância ou do radicalismo de outras épocas, e sim de uma ambição sórdida e desprezível pelo poder. Hoje é uma questão de caráter. Ou da falta dele.




Pensei que o sofrimento melhoraria o ex-sindicalista. Julguei que o câncer seria um divisor de águas para Lula. Aquele momento em que ele, afeito apenas à adoração e à idolatria do povo, se daria conta de que é mortal e de que tanto o poder quanto o dinheiro não compram saúde, e que a glória dos políticos é vazia e transitória. Fui ingênuo.

Sobre a atitude de Luiza Erundina, concordo e a parabenizo. Mas sem santificá-la, como já querem alguns. Foi uma prefeita despreparada e vingativa, e devem-se à mediocridade e à ineficiência de sua administração a derrota de Plínio em 90 e a vitória de Maluf em 92. Merece permanecer no Congresso.

Isso nos traz à seguinte questão: até quando os petistas vão encontrar desculpas para as trampolinagens de Lula e do PT? Até quando serão acusados de "tucanos" e de "golpistas" aqueles que se limitarem a apontar os desmandos dessa turma? Há desculpa para tudo; mensalão, mensaleiros, dólares na cueca, Sarney, Renan, Dirceu, Delúbio, Genoíno, e assim por diante. De ontem para hoje já vi até petista indignada com o Maluf, por ele estar se aliando ao Lula, como se devêssemos condenar o bandido por tentar se aliar ao delegado, e não vice-versa. Se o assunto é mensalão, falam da reeleição de FHC; se o assunto é Dirceu, falam de Sérgio Motta. O PT não é mais paradigma de honestidade, e sim do “se eles podem, nós também podemos”. Que lixo...

"Thou shouldst not have been old till thou hadst been wise"... (King Lear, I, V)
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Esse texto foi originalmente publicado no Facebook, e quatro anos depois ele apareceu como lembrança em minha linha do tempo. Escrevi o seguinte comentário:

"NÃO VOS ESQUEÇAIS"...

Interessantíssimo ler este texto que escrevi há quatro anos, quando Lula foi lamber as botas de Maluf a fim de conseguir eleger essa nulidade que hoje está na prefeitura. O episódio marcou - creio eu - o fim definitivo de qualquer esperança de redenção do Partido dos Trabalhadores, depois do mensalão. Pelo contrário. Foi uma demonstração de que o partido resolvera mergulhar de cabeça, sem rodeios, no fisiologismo e na mais abjeta política de conchavos que condenara desde sempre. Vê-se que já naquela época os petistas usavam e abusavam de epítetos ridículos como "golpistas" para definir qualquer tipo de oposição. Poderia dizer que é um texto clarividente, mas na verdade o PT se tornou previsível após o mensalão.

Com Lula, 1993
Conheci Lula pessoalmente em 1993 na gravação do programa "Vamos Sair da Crise", apresentado na Gazeta pelo jornalista Alexandre Machado. Eu tinha 21 anos e embora nunca tivesse votado nele ou no PT, desejava conhecê-lo, assim como conheci no mesmo período, ou um pouco antes, FHC, Montoro, Plínio, Mário Covas, Erundina, Fleury e todos os políticos proeminentes da redemocratização. Lula contava, em seu currículo, apenas com uma candidatura frustrada ao governo em 82, o mandato medíocre na constituinte de 88 e a célebre campanha presidencial de 89. Ainda mantinha sua mística de "candidato operário" e no trato pessoal era simpático e afável. Nem sombra do falastrão corrupto e inescrupuloso em que se transformou.

Leiam. (23/06/2016)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Breakfast at Tiffany's, de Truman Capote, com Anna Friel

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Eu quero longevidade. Ainda quero estar trabalhando quando eu tiver 70 anos. Então estou ansiosa para fazer várias coisas. Quanto mais velho, mais interessante você fica.
Anna Friel (2009)

Concluídas as filmagens de The Street e Land of the Lost, agendados para estrear em meados de 2009, Anna Friel recebeu uma proposta irrecusável: voltar ao West End londrino protagonizando uma adaptação teatral do conto Breakfast at Tiffany’s, do escritor norte-americano Truman Capote (1924/1984). A pré-produção começou em maio, a partir do convite feito pelo diretor galês Sean Mathias, que na época exercia o cargo de Diretor Artístico do Theatre Royal Haymarket e gozava o êxito de Esperando Godot, de Samuel Beckett, dirigido por ele e estrelado por Ian Mackellen e Patrick Stewart. Outras de suas direções incluíam remontagens de Bent, de Martin Sherman, Design for Living de Noel Coward e Les Parents Terribles de Jean Cocteau. Mathias convidou Anna, que aceitou imediatamente, e o australiano Samuel Adamson — responsável por transformar o filme Tudo sobre minha Mãe, de Pedro Almodóvar, em grande sucesso do Old Vic em 2007 — para adaptar o texto de Capote.

O Livro de Truman Capote

Breakfast at Tiffany’s conta a história de Holly Golightly, uma alpinista social de 19 anos que freqüenta diversas rodas de grã-finos e vive no limiar da prostituição. Tem uma vida fútil, está sempre em festas, em seu apartamento ou nas casas noturnas mais badaladas de Nova York, e se sustenta com as polpudas gorjetas que recebe cada vez que vai ao toalete (na época era praxe pagar alguma coisa aos funcionários dos banheiros de lugares elegantes, que seguravam toalhas, borrifavam perfumes, etc., e Holly simplesmente ficava com o dinheiro). Na concepção do próprio Truman, “Holly Golightly não era precisamente uma prostituta. Ela não tinha emprego, mas acompanhava homens aos melhores restaurantes e casas noturnas, com o acordo de que seu acompanhante estava obrigado a dar a ela algum tipo de presente, talvez jóias ou um cheque... Se ela quisesse poderia passar a noite com seu acompanhante. Então estas garotas são as autênticas gueixas americanas, e são muito mais prevalentes agora do que em 1943 ou 1944, que era a época de Holly”.

Truman Capote

É narrada em primeira pessoa pelo vizinho de Holly, um aspirante a escritor que não tem nome, mas que se torna amigo da moça e passa a ser chamado de “Fred” por ela, que o identifica com o seu irmão, que tem esse nome. O título faz referência à adoração da moça pela joalheria Tiffany’s de Nova York, não tanto pela paixão de Holly por jóias — o que ela não tem — mas pelo sonho de ser rica o suficiente para “wake up one fine morning and have breakfast at Tiffany’s”. Com o desenrolar da trama descobre-se que Holly não é apenas uma apaixonante dublê de socialite e gueixa nova-iorquina, amada e desejada por todos mas incapaz de se apegar a quem quer que seja. Ela tem um passado doloroso, vem de uma cidadezinha de caipiras no Texas, seus pais morreram tuberculosos e tanto ela quanto os irmãos, todos ainda crianças, foram distribuídos entre famílias que só fizeram maltratá-los. Holly — ou “Lulamae”, seu verdadeiro nome — e o irmão Fred fogem e em uma casa onde roubavam “leite e ovos de peru” acabam pêgos, mas ao invés de serem punidos são adotados pelo dono da casa, que há pouco perdera a esposa e ficara sozinho com os quatro filhos. O sujeito, Doc Golightly, se apaixona por Lulamae, de apenas 14 anos, e se casa com ela, desgraçadamente um costume dos mais comuns nesse ignorantíssimo interior do sul norte-americano.

Inteligente e esperta, embora endurecida e insensibilizada pelas desgraças de sua vida, Lulamae foge da casa que dividiu com Doc durante um ano e enquanto Fred vai para o exército (a trama se passa em plena guerra, no início dos anos 40), ela vai para a Califórnia, onde, com apenas 15 anos, freqüenta corridas de cavalos e namora um jockey. Lá é descoberta por um agente cinematográfico, O. J. Berman, que vê beleza e potencial na moça, consegue um teste para ela num filme de Cecil B. Demille (The Story of Dr. Wassel, num pequeno equívoco de Truman Capote, pois esses eventos remontariam a 40 ou 41, no livro, e o filme de Demille é de 1944), mas na hora H ela simplesmente desaparece e vai para Nova York.

Um dos inúmeros admiradores de Holly é o mafioso Salvatore “Sally” Tomato, que a observava nas festas mas que só resolve contatá-la e se apresentar quando já está na cadeia. Por intermédio de um capanga que se diz “advogado” de Sally, o mafioso propõe a Holly que lhe faça uma visita semanal, pela qual ganhará sempre 100 dólares e na qual não precisará fazer nada a não ser ouvir a “previsão do tempo” que lhe é ditada por Sally — na verdade instruções cifradas para continuar movimentando seu cartel de drogas do lado de fora — e transmiti-la, ipsis literis, ao “advogado”, de nome O’Shaughnessy. Holly, pensando nos cobres e na afeição que até certo ponto desenvolve pelo velho Sally, aceita a incumbência e passa a visitá-lo, na qualidade de sobrinha do mafioso, sem dar maior importância à possibilidade de estar sendo usada como mula de informações criminosas ou estar incidindo no crime de falsidade ideológica.

A Tiffany's de Nova York, nos dias de hoje
O escritor, como era de se esperar, aos poucos se apaixona por Holly, pela sua personalidade encantadora, sua índole inconseqüente e sua intangibilidade. O contraste entre a persona festeira e boêmia, a doçura contemplativa com que ela toca violão e canta melodias de seu passado, sentada na escada de incêndio do prédio enquanto espera seu cabelo secar depois do banho, e a forma descompromissada de encarar a vida, tudo contribui para atrair o escritor e tornar Holly, de fato, uma das mais maravilhosas personagens da literatura contemporânea. Só que é justamente esse contraste que acaba azedando a vida do escritor, ao mesmo tempo em que sua paixão pela moça aumenta. A graça e o encanto vão dando lugar ao ciúme e à amargura quando ele verifica que Holly pretende se casar com um playboy milionário homossexual, gordo e asqueroso chamado Rusty Trawler. Assim que esse plano naufraga (Rusty acaba casando-se com Mag Wildwood, modelo de passarela, também escorte e amiga de Holly), ela concentra sua atenção em um ex-flerte de Mag, o brasileiro José Ybarra-Jaegar. Não cabe aqui esmiuçar o ridículo do namorado brasileiro de Holly se chamar “José Ybarra”, nome hispânico de um ex-presidente do Equador, ou entrar em detalhes sobre a tenebrosa ignorância de Truman Capote a respeito do país de onde vinha o tal José (ignorância que, verdade seja dita, o escritor compartilhava com 99% dos norte-americanos). Basta dizer que em determinado momento, Holly pega o violão e, desfiando seu frondoso conhecimento sobre o Brasil, diz que vai cantar uma fada no mais perfeito português...

Os acontecimentos se precipitam; Doc Golightly, que longe de ser um caipira pedófilo é um homem simplório, calmo e de bom coração, vai atrás de Holly em Nova York, mas depois de um breve encontro ela o convence que as coisas mudaram, ela não é mais a Lulamae de 14 anos que ele conheceu e que o melhor é que os dois sigam suas vidas. Ele vai embora, pouco depois Holly tem um colapso nervoso ao receber telegrama comunicando que Fred, o irmão que ela venerava, foi morto em combate, e ela descobre que está grávida de José. Planos são finalizados para que eles viajem juntos ao Brasil e no dia anterior à partida ela vai cavalgar com o escritor. Sem qualquer experiência com equitação, ao contrário de Holly, montadora exímia, o escritor sofre um acidente e ela o leva para o apartamento dele, onde cuida de seus ferimentos. No momento em que o escritor estava em sua banheira, a polícia invade a casa e leva Holly. A princípio o escritor tem a impressão de que a vizinha Saphia Spanella, que vivia queixando-se do comportamento de Holly e já tentara inclusive despejá-la com um abaixo-assinado, conseguira finalmente convencer as autoridades da periculosidade das “festas imorais” da moça. Na verdade o problema era bem pior: o esquema de Sally Tomato para dirigir seus negócios de dentro do presídio de Sing Sing fora descoberto e Holly estava sendo presa como cúmplice. Seus planos caem como um castelo de cartas; ela perde o filho naquela noite e José, temeroso de que o escândalo pudesse prejudicar sua carreira política no Brasil, rompe relações com ela através de uma carinhosa carta que o escritor lê para a moça no leito do hospital onde ela ainda se recuperava do aborto.

A 1ª edição de Breakfast at Tiffany's
Holly não se deixa desesperar. Ainda de posse da passagem aérea para o Brasil que lhe foi dada por José, ela pede ao escritor que descubra o nome dos 50 brasileiros mais ricos, e que dê um jeito de providenciar a mudança de seus principais pertences, do apartamento dela para um lugar menos conspícuo, o bar de Joe Bell (ponto de encontro obrigatório, por todo o livro), de onde ela seguirá para o aeroporto. Relutante, pelo perigo dela tentar se evadir do país quando se encontra em liberdade sob fiança, o escritor faz o que ela pede, levando a pé, debaixo de chuva torrencial, algumas roupas e o violão de Holly. A coisa talvez mais importante que o escritor leva consigo até o bar de Joe Bell é o gato de Holly, personagem inesperadamente marcante, referido simplesmente como “gato” ao longo da história, já que, segundo Holly, ela não teria o direito de dar-lhe um nome se não tivesse certeza absoluta de que pertencem um ao outro. Ele acaba simbolizando, a um tempo, o desapego quase esquizofrênico da moça com qualquer coisa e a falsidade desse desapego, que na verdade nada mais seria do que uma carapaça natural de insensibilidade para proteger uma menina profundamente sensível, mas apavorada com a possibilidade de se apegar a algo ou alguém e ser novamente decepcionada ou ferida, como deve ter acontecido incontáveis vezes em sua infância.

No caminho até o aeroporto ela expulsa o gato do carro em uma rua qualquer, dizendo-lhe que aquele será o lugar perfeito para ele, “rats galore, plenty of cat-bums to gang around with”. Seguem por algumas quadras e ela se arrepende do que fez; sai do carro, corre até a rua onde o deixou, grita por ele mas não o encontra mais. Exclama: “Oh Jesus God. We did belong to each other. He was mine”. De volta ao carro, conformada, ela confessa estar com medo: “Not knowing what’s yours until you’ve thrown it away”... e vai embora. O livro termina com o postal que o escritor recebe de Holly meses depois — primeira e última vez que ela se comunicou com ele depois de partir — e a informação dada por ele, de que voltou à rua onde Holly deixara o gato e o encontrara bem instalado em uma das casas. O escritor afirma estar seguro de que “he’d arrived somewhere he belonged”, e termina, com melancólica esperança: “I hope Holly has, too”.

George Axelrod
Como o histórico de adaptações de Breakfast at Tiffany’s é dos mais acidentados, a expectativa de crítica e público foi enorme assim que se anunciou a futura montagem do Haymarket. Vejamos:

Capote lançou Breakfast em 1958, o sucesso foi instantâneo e dois anos depois Hollywood comprou de Truman os direitos para a produção do filme. Segundo se conta por aí, o primeiro diretor envolvido com o projeto foi John Frankenheimer, que teria como roteirista George Axelrod e Marilyn Monroe no papel de Holly (escolha que trazia não apenas o beneplácito mas a preferência pessoal de Capote). Uma combinação excelente: Axelrod era o autor de The Seven Year Itch, sucesso na Broadway em 1952 e três anos depois um dos melhores filmes de Marilyn, roteirizado por ele mesmo e dirigido por Billy Wilder. Não bastasse isso, ele também roteirizou o triunfo seguinte da atriz, Bus Stop, do texto original de William Inge.

Marilyn

Marilyn Monroe

No mais, Marilyn era amiga de Capote e parecia haver em Holly traços inequívocos da própria atriz, como a infância infeliz, sua entrada no cinema e no high society e sobretudo no trecho em que Capote descreve Holly inteiramente deslocada na biblioteca pública de Nova York, procurando informações sobre o Brasil, já que está de caso com José: “She sped from one book to the next, intermittently lingering on a page, always with a frown, as if it were printed upside down. She had a pencil poised above paper — nothing seemed to catch her fancy, still now and then, as though for the hell of it, she made laborious scribblings”, em imagem que nos remete aos recém-nascidos interesses literários de Marilyn, que mergulhou nos livros quando se casou com Arthur Miller, em 1956, e foi obrigada a sair de sua roda social de banalidades hollywoodianas para o seleto e exclusivo círculo de intelectuais que rodeava Miller. A mudança de comportamento da atriz evidentemente foi visível e teve um preço. Como Capote analisa, pouco depois no mesmo trecho, Holly não poderia nunca mudar, porque desenvolvera sua personalidade muito cedo. Qualquer alteração na imagem já conhecida, “like sudden riches, leads to a lack of proportion”.

Marilyn e Truman
Marilyn pretendia aceitar o papel, mas na época se encontrava imersa na papagaiada do Actor’s Studio e inteiramente subjugada, intelectual e artisticamente, ao fundador da escola e guru do method acting, Lee Strasberg e sua filha Paula. Lee enfiou na cabeça de Marilyn que interpretar a socialite vazia e amoral poderia prejudicar sua carreira e ela acabou declinando o convite (curioso que Strasberg não moveu uma palha para impedi-la de filmar o péssimo Let’s make love, de George Cukor, que hoje só é lembrado pelo rumoroso affair de Marilyn com Yves Montand, o que seguramente não fez bem nenhum para suas pretensões de atriz séria), uma oportunidade magnífica que não mais se repetiria na vida da lendária estrela, que morreu em 1962. Para piorar, Frankenheimer caiu fora em seguida. Blake Edwards o substituiu, Axelrod foi mantido e depois de alguns testes, Audrey Hepburn ganhou o papel principal. A escolha do ator para interpretar o escritor também não foi sem percalços. Aparentemente os produtores queriam Steve Macqueen, mas o ator se encontrava sob contrato com a CBS gravando a série televisiva Wanted: Dead por Alive, e não teve como se livrar. O papel foi para o novato George Peppard. Ironicamente, tanto Macquen quanto Peppard também eram crias de Lee Strasberg e do Actor’s Studio, e nem por isso tiveram quaisquer reservas de ordem artística e criativa em relação ao filme.

Marilyn e Lee Strasberg
Desde o início da produção, ficou mais ou menos óbvio que o filme não seria fiel ao conto. Em primeiro lugar, por mais competente que fosse, George Axelrod dificilmente conseguiria transpor para um roteiro produzido no fim do governo conservador e moralista de Dwight Eisenhower — com o fantasma de Joseph Macarthy e do Código Hays ainda assombrando a indústria cinematográfica — a atmosfera sexualmente revolucionária e amplamente liberal de Holly Golightly e de praticamente todos os personagens de Breakfast at Tiffany’s. Na essência, o conto é o famoso paradoxo entre o estilo de vida vibrante e glamouroso de Holly em contraponto à sua infância miserável e trágica, as cicatrizes emocionais decorrentes dessa infância, o conseqüente vazio sentimental e a busca incessante por um amor verdadeiro que preencha esse vazio. Poderia ser apenas a história de amor entre um escritor bitolado e romântico e uma moça exuberante e interesseira, mas o diferencial de Truman Capote é rechear e decorar esse mote com todos os vícios, fraquezas e indiscrições de uma alta sociedade da qual Holly (assim como o próprio Truman) deseja tanto se servir quanto fazer parte.

Influências

Christopher Isherwood
Muito se fala sobre quem teria sido a musa de Capote para compor a protagonista de Breakfast at Tiffany’s; a espinha dorsal parece vir da personagem Sally Bowles, protagonista do romance que leva seu nome, lançado por Christopher Isherwood em 1937 (inspirado na atriz inglesa Jean Ross, e que mais tarde se tornaria base do musical Cabaret, com música e letra de John Kander e Fred Ebb), e há também as inspirações colhidas no círculo pessoal de relações do próprio Truman, como Oona O’Neill (filha de Eugene O’Neill e última esposa de Chaplin) e Gloria Vanderbilt (socialite e herdeira de uma das maiores fortunas dos Estados Unidos). A musa, entretanto, declarada por ela própria e pelo autor, foi a starlet Carol Grace Saroyan (1924/2003), então esposa do escritor William Saroyan — citado jocosamente por Holly, no livro — e mais tarde casada com o ator Walter Matthau. É inútil, porém, querer cavoucar a vida de Grace em busca de semelhanças entre ela e Golightly; talvez no humor, nos maneirismos, na forma extrovertida e desabrida de se comunicar e relacionar com a alta sociedade e em demais traços externos, Truman tenha se baseado em Carol. Mas em se tratando de comportamento, opiniões, máximas e julgamentos, é o próprio autor que fala pela boca de Holly Golightly.

Carol Grace
É nisso, aliás, que começam os problemas de roteirização do filme: como colocar, na boca delicada e classuda de Audrey Hepburn em 1961 (ano de lançamento do filme), os conceitos de Truman sobre o lesbianismo, quando Holly diz “of course I like dykes themselves”, “dykes are wonderful home-makers, they love to do all the work (...). I had a roomate in Hollywood, (...) she was better than a man round the house. Of course people couldn’t help but think I must be a bit of a dyke myself. And of course I am. Everyone is a bit. So what?” Como alcançar a proeza de fazer o público norte-americano se afeiçoar à Audrey Hepburn dizendo que fumou maconha, que assistiu um “blue movie” (como na época eram chamados os filmes pornográficos), na companhia do próprio sujeito que trabalhava no filme, ou que não conseguia ficar excitada com um homem que tivesse menos do que 42 anos? O que diria o público ao ver a diáfana Audrey declarando que, aos 19 anos, já teve onze amantes, e perguntando se isso faz dela uma puta? Fazendo a ressalva de que “I haven’t anything against whores”. E o que diria a temida Legião da Decência diante do trocadilho de Holly sobre suas amigas terem contraído gonorréia tantas vezes que chegava a ser digno de aplauso (“They’ve had the old clap-yo’-hands so many times it amounts to aplause”)?

Truman Capote
E isso sem mencionar a avalanche de referências homossexuais que Truman — o que se poderia chamar de um “flaming homosexual” — não economizou ao longo do livro, desde Holly afirmando que “a person ought to be able to marry men or women”, passando pela recomendação que ela faz a Rusty Trawler, “to grow up and face the issue, settle down and play house with a nice fatherly truck driver”, até a insinuação (desnecessária e bizarra) de que o próprio escritor teria certa vez se apaixonado por um carteiro. Produtores, diretor e roteirista chegaram a um consenso que livraria o filme da censura (e jogaria no lixo o conselho cretino de Lee Strasberg, muito mais uma ameaça do que um conselho, razão pela qual calou tão fundo no coração da suscetível e manipulável Marilyn): Tudo seria cortado. O roteiro de George Axelrod seria “loosely based” no livro de Capote e qualquer diferença poderia ser debitada à essa condição. Tornou-se, como bem observaria o Telegraph anos depois, “a travesty of the original”.

O filme de Blake Edwards, com Audrey Hepburn

Audrey Hepburn como Holly Golightly
Audrey Hepburn é uma Holly morena de cabelos compridos e olhos escuros, ao contrário da Holly de Capote, de cabelos loiros e curtos e olhos que oscilam entre o azul e o prata. Hepburn sempre foi a própria definição da gamine que caracteriza a personagem mas neste caso a qualidade não se encaixa e não funciona a seu favor. Ao invés do “tomboyish charm” de Holly — e malgrado o esforço e o talento da atriz — Hepburn transpira e emana classe e elegância. É impossível imaginá-la descalça, imunda, roubando ovos em um sítio em Tulip, nos confins do Texas, como também não se concebe a belga Audrey, com sua voz meiga e seu inglês doce e britânico, falando o detestável caipirês do sul dos Estados Unidos. Quando, em que mundo, um flamingo como Audrey, de beleza escultural e aristocrática, andaria por escadas de incêndio completamente nua cobrindo o corpo com um casaco de peles, ou seria desbocada e permissiva como Holly? A gamine de Truman é um produto de sua metamorfose, de criança abusada e mendiga até a socialite amoral, nova rica e sempre deslocada, assim como ocorre, mutatis mutandi, com a Eliza Dollittle de My Fair Lady (outro papel dado equivocadamente a Audrey Hepburn). O resultado é que a Holly de Audrey é doce, sensível e bondosa, exatamente o contrário da Holly de Truman, que é dura, insensível mas cativa e atrai por ser de todos e não ser, efetivamente, de ninguém.

Um erro fundamental do filme é mostrar Holly como alguém que se apaixona pelo escritor, o seduz, passa a noite com ele e depois some, sendo mais tarde obrigada a desiludi-lo com rispidez, o que lhe causa lágrimas e uma profunda crise de consciência. Nada mais distante da realidade. Em nenhum momento do livro Holly dá qualquer sinal de ter atração pelo escritor, ou corresponder seus sentimentos, e muito menos de ter um caso com ele. Da mesma forma, a índole interesseira e gananciosa de Holly não vê sentimentos, e mal tendo demonstrado um mínimo de consideração pelo escritor, é evidente que jamais verteria uma lágrima por ele.

George Peppard e Audrey Hepburn
A ausência dos innuendos homossexuais e libertinos dos personagens do livro é compensada jogando-se sobre o escritor (George Peppard) — que no filme chama-se Paul Varjak — a pecha de mixê, pelo fato dele ser sustentado em Nova York por uma mulher mais velha e casada, a Sra. Failenson (Patrícia Neal), até o meio do filme, quando se apaixona por Holly e rompe com a madame. Ambos estão muito bem. Doc Golightly é brilhantemente retratado por Buddy Ebsen, por cujos olhos azuis e expressivos passa toda sua paixão outonal devotada à jovem que ele sabe ter perdido. Martim Balsam dá uma caracterização equivocada de bon vivant indiferente e apalermado a um O. J. Berman que, a meu ver, é na verdade apenas um bronco e bem-intencionado agente de segunda. Deus é testemunha de que Blake Edwards e George Axelrod fizeram uma tentativa honesta de corrigir as abobrinhas de Truman Capote sobre o Brasil, mas infelizmente só o que conseguiram foi mudar o nome do sujeito, do inqualificável “José Ybarra-Jaegar” para José de Silva Pereira; o ator chamado foi o espanhol José Luis de Vilallonga, que tem perfil de italiano e fala com um inexplicável sotaque francês.

No mais, personagens queridos e divertidos como Joe Bell e Saphia Spanella são impiedosamente cortados; outros como Rusty Trawler (Stanley Adams) e Mag Wildwood (Dorothy Whitney) são relegados quase que à figuração, Sally Tomato (Alan Reed), que no livro é apenas referido, tem uma única e esquecível cena, e personagens inexistentes no conto de Capote são criados sem qualquer necessidade, como é o caso do vendedor da Tiffany’s e a funcionária da biblioteca. Por outro lado, algumas das falas e reclamações da Sra. Spanella são fundidas ao personagem do Sr. Yunioshi, coadjuvância de luxo para o então famosíssimo Mickey Rooney.

O fim do filme é um golpe final no livro; ao invés de expulsar o gato, ter a epifania da inevitabilidade de pertencer a alguém e a fuga melancólica para o Brasil, a Holly de Audrey Hepburn e George Axelrod expulsa o gato, leva uma carraspana do escritor, vai atrás dos dois, encontra o gato e o filme termina com o beijo de Holly e o escritor, sinalizando que ela resolveu ficar e casar-se com ele. Ou seja, um final plenamente hollywoodiano, oposto ao livro. O saldo positivo foi a beleza antológica e eterna de Audrey Hepburn — não importando que ela nada tivesse a ver com Holly — e a magnífica Moon River, composta por Henry Mancini e Johnny Mercer especialmente para Audrey cantar ao violão. No Oscar de 1962 o filme recebeu cinco indicações: melhor atriz (Audrey), roteiro (Axelrod), direção de arte (Hal Pereira, Roland Anderson e cenários de Sam Comer e Ray Moyer), música (Mancini e Mercer por Moon River) e trilha sonora (Mancini, pela orquestração de Moon River). Ganhou os dois últimos.

O jovem Norman Mailer

Há duas análises que podem ser feitas sobre o filme de Blake Edwards: aqueles que não leram o livro de Capote foram brindados com uma comédia romântica leve e meio piegas, no estilo dos filmes estrelados por Tom Hanks e Meg Ryan (com a inenarrável vantagem de trazer Audrey e não Meg). Quem leu o livro pode até ter gostado de ver Audrey Hepburn espalhando sua beleza e carisma ao som de Moon River, mas fica uma sensação incômoda de que a adaptação está a anos-luz do conto original e não fez jus à prosa de Truman, a quem Norman Mailer considerava “o mais perfeito escritor da minha geração”.

Truman Capote
Se o público em geral gostou do filme — que no Brasil recebeu o título de “Bonequinha de Luxo” — e ajudou a torná-lo o clássico que é hoje, o mesmo não se pode dizer de Truman, que desde antes da estréia até sua morte não perdeu vaza para criticá-lo acerbamente e expressar sua absoluta insatisfação com o produto final. Segundo o autor, “eu tinha várias ofertas para aquele livro, de praticamente todo mundo e eu o vendi para um grupo da Paramount, porque eles me fizeram promessas, fizeram uma lista com todas elas e não cumpriram nem uma, sequer”. Sobre o elenco e a atmosfera do filme o comentário é ainda mais ácido: “É o filme com o elenco mais mal-escalado que eu já vi. O livro realmente era bastante amargo, e Holly era real; uma personagem durona, nem de longe o tipo de Audrey Hepburn. O filme virou uma declaração melosa de amor à Nova York e à Holly, e como resultado, ficou magro e bonitinho quando deveria ter ficado substancioso e feio. Tinha tanta semelhança com o meu trabalho quanto as Roquettes [dançarinas do Radio City Music Hall] têm com [Galina] Ulanova”.

O Musical da Broadway, com Mary Tyler Moore

 Capote continuaria ganhando milhões em royalties pelas adaptações de sua obra, o que não significa que elas seriam melhores ou mais fiéis que a de George Axelrod. Em 1966, o excêntrico e competentíssimo produtor teatral David Merrick fechou uma parceria com o escritor Abe Burrows — libretista dos mega-sucessos Guys and Dolls e How to succeed in business without really trying — para transformar Breakfast at Tiffany’s em um musical da Broadway. A equipe envolvida parecia ser propositalmente à prova de fracassos: Burrows seria o libretista e o diretor; no papel de Holly, Mary Tyler Moore, no auge de seu sucesso televisivo no programa de Dick Van Dyke; músicas e letras seriam compostas por Bob Merril, ainda colhendo os louros da fama pelo sucesso que emplacara com Barbra Streisend em Funny Girl; na coreografia o grande Michael Kidd, ganhador de dezenas de Tonys, e o escritor seria feito por Richard Chamberlain, que assim como Mary, era figura das mais queridas dos Estados Unidos, pelo seu papel protagonista na série de TV Dr. Kildare.

Mary Tyler Moore e Richard Chamberlain
Não seria exagero dizer que na junção de pessoas tão competentes, trabalhando matéria-prima da melhor qualidade, absolutamente tudo deu errado. O espetáculo, que tinha quase quatro horas de duração, começou suas pré-estréias no segundo semestre de 66. A repercussão foi desastrosa. Ninguém gostou da música, do libreto, dos cenários, e o público ficou particularmente chocado ao ver a então namoradinha da América interpretando uma prostituta. Apavorado com a perspectiva de um flop milionário, Merrick dispensou Abe Burrows. Para substituí-lo na direção do musical chamou o experiente Joseph Anthony, e para reescrever o libreto de Burrows — que continha anacronismos patéticos como o fato de Holly ser uma prostituta virgem — entrou em cena ninguém menos do que o afamado dramaturgo Edward Albee. Não adiantou. O libreto foi reescrito, músicas foram trocadas, o elenco recebia alterações de manhã para incorporá-las à performance da noite, e a reação continuava sendo de total reprovação por parte do público, que, segundo Richard Chamberlain, por vezes chegou a xingar o elenco em cena.

Edward Albee
Depois de passar por Filadélfia e Boston, o espetáculo chegou a Nova York para uma mini-temporada de pré-estréias em dezembro daquele ano. Depois de apenas quatro apresentações, David Merrick cancelou a produção, antes mesmo da estréia. E, somando à fama que sempre teve (e que ele mesmo alimentava), de ser um produtor excêntrico e não muito equilibrado, fez publicar uma matéria paga no New York Times declarando, com terrível sinceridade, que “ao invés de submeter os críticos de teatro e o público a uma noite excruciantemente chata, decidi encerrar o espetáculo”. Embora indiscreta e desleal com seus próprios colegas, a matéria paga de Merrick era a expressão da verdade. Recentemente, perguntado sobre essa infeliz experiência, Edward Albee disse o seguinte: “Eles o fizeram totalmente previsível, pseudo-intelectual, medíocre e, no meu ponto de vista, um musical extremamente chato, que teria ficado provavelmente um ano em cartaz na Broadway. E eu consegui transformá-lo em um desastre que não chegou nem a estrear na Broadway”. Sobre aquilo que aprendeu com a malfadada montagem, a resposta foi peremptória: “Medo e ódio”.

O fracasso estrepitoso do musical não foi suficiente para desestimular a rede de televisão ABC, que em 1969 chegou a gravar o piloto de um futuro sitcom intitulado Holly Golightly, que mostraria Holly mudando-se para um novo apartamento onde viveria vida tão glamourosa quanto no livro, e seria baseado na relação de Holly com Joe Bell. No papel de Holly estaria a linda e jovem Stefanie Powers e o ator canadense Jack Kruschen interpretaria Bell. O piloto acabou engavetado para sempre.

A Montagem de Anna Friel e Sean Mathias



As primeiras fotos promocionais de Anna
como Holly, ainda em maio

Diante de tudo isso, era natural que tanto Anna quanto Mathias deixassem claro para a imprensa, no período de ensaios que antecedeu as pré-estréias, que a adaptação de Samuel Adamson viria do conto de Capote e nada teria a ver com o filme. Mathias foi taxativo: “Precisamos refazer no palco algo que teve tanto sucesso no cinema? Meu primeiro instinto foi ‘não, não precisamos!’ Por melhor que tenha sido o filme, porém, há muitos elementos do romance que são diferentes”. Dito isso, era hora da propaganda: “Tenho sido um ávido fã de Capote e espero que minha produção de seu deslumbrante conto Breakfast at Tiffany’s seja uma noite despudorada e glamourosa de inteligência, estilo, ternura e música, com a dinâmica de Nova York dos anos 40 como pano de fundo. E estou  maravilhado de trabalhar com a linda e talentosa Anna Friel em seu retorno aos palcos londrinos”.

Anna foi igualmente cuidadosa, repisando o que já dissera Mathias sobre a admiração de todos pelo livro que, segundo ela, “foi sempre um dos meus romances favoritos”. Sobre o prazer de interpretar Holly, o curioso é que Anna não se refere a ela como uma personagem trágica, sofrida ou controversa; primeiramente definindo-a de maneira hilária como uma bad little good little girl (qualquer coisa como "menininha malvadinha boazinha") a atriz prefere ressaltar as qualidades da socialite — “ela é a mulher mais valente e corajosa que já vi escrita” — e pensar nela como uma “heroína”, parafraseando-a: “Holly é a heroína de todas as mulheres. Ela nunca tem pena de si mesma. Ela simplesmente diz, ‘uh, se você tem merde no seu sapato, é só limpá-lo’. Ela sabe exatamente o que quer e, o mais importante, sempre consegue tirar o melhor dos homens”. Lembrando, como sempre, que “a inspiração para a peça é o livro original, e não o filme”, ela acrescenta: “Creio que esta Holly será uma personagem muito mais dura e complexa do que a da versão cinematográfica. Ela é uma escorte que recebe 50 dólares por sua companhia. É o público que deverá imaginar até onde ela vai com esse dinheiro”. Anna teve medo da sombra de sua lendária antecessora: “Uma das coisas assustadoras para mim, no começo, foi pensar ‘meu Deus! As pessoas vão pensar que estão vindo assistir uma imitação de Audrey Hepburn’, e isso não vai acontecer”. Seus comentários sobre Hepburn vêm repassados em humildade e admiração: “Ninguém poderia fazê-la [Holly] como Hepburn. Ela interpretou aquele papel à perfeição. Ninguém pode copiar aquilo e eu jamais sequer pensaria em fazer tal coisa”. Anna conclui: “Ela era uma líder mundial em moda e beleza. Eu ficaria parecendo uma cópia mal-feita”.

Parte do elenco de Breakfast, em sentido horário: James Bradshaw (Rusty Trawler), Gwendoline Christie (Mag Wildwood),
Felix D’Alviella (José Ybarra-Jaegar), o adaptador Samuel Adamson, David Phelan (Sid Arbuck) e Nicholas Goh (Mr. Yunioshi)

Esgotado esse tópico e fazendo questão de não assistir novamente o filme para não se deixar influenciar por Audrey, Anna atirou-se nos ensaios, que incluíam não só o mergulho na profundeza psicológica de Holly, mas aulas de canto, violão, números de dança e toda a imensa estrutura de um espetáculo centralizado nela, e na qual está presente em 99,9% das cenas. Fiel ao livro, o diretor decidiu que Holly seria loira e alternaria o cabelo comprido do começo com o curto e discreto da segunda metade da peça, quando se junta com o brasileiro. Mas tudo seria feito através de perucas, para não prejudicar os compromissos cinematográficos de Anna, até porque muitos deles ocorreram ao mesmo tempo que os ensaios. “É um desafio massivo, massivo”, comentou Anna, “e estou trabalhando uma hora por dia para fortalecer minha voz e alcançar o sotaque correto. Holly é de Tulip, no Texas, mas quando chega a Nova York seu sotaque já se tornou meio-atlântico (“mid-atlantic”, referente às cidades costeiras do leste norte-americano). Junto à Anna estava Joseph Cross, ator jovem com carreira cinematográfica incipiente, no papel do escritor, que na adaptação de Adamson recebeu o nome de William Parsons. O resto do elenco era composto por Dermot Crowley (Joe Bell), James Dreyfus (O. J. Berman), Gwendoline Christie (Mag Wildwood), James Bradshaw (Rusty Trawler), John Ramm (Doc Golightly), Suzanne Bertish (Saphia Spanella), Felix D’Alviella (José Ybarra-Jaegar), Nicholas Goh (Mr. Yunioshi) e David Phelan (Sid Arbuck). Na figuração estavam também Paul Courtney Hyu, Annie Hemingway, Sam Hoare e Natalie Klamar.

As pré-estréias no Haymarket começaram no dia 9 de setembro de 2009, um burburinho correu Londres como uma corrente elétrica e na segunda semana o tablóide News of the World (que provavelmente jamais publicara uma notícia sobre teatro) publicou uma reportagem com direito a fotos, revelando que a montagem de Breakfast trazia uma cena de nu frontal com Anna. O furo foi noticiado em todos os jornais, expressões como “theatrical viagra” foram vistas aqui e ali, e a produção da peça começou a confiscar câmeras e celulares na entrada do teatro, apavorada com a possibilidade de se repetir o desastre de The Blue Room, peça de David Hare protagonizada por Nicole Kidman na Broadway, dez anos antes; havia erotismo por todo o espetáculo, e em uma das cenas Nicole ficava nua e o público via sua bunda por alguns segundos. Foi o suficiente para que os jornais em uníssono dissessem coisas como “não estou 100% certo, mas esta pode ser a primeira vez na história da Broadway em que os espectadores pagavam 60 dólares cada para ver a bunda de uma estrela de cinema” e “The Blue Room, uma peça cujo grande atrativo é uma olhada de relance no bumbum nu de Nicole Kidman”.

Anna e Joseph Cross, na polêmica cena que está há 50 anos no livro de Truman
Nicole Kidman em cena de The Blue Room
No meio de tudo havia até quem elogiasse a performance de Kidman, mas a coisa virou piada: “Se o teatro é um templo”, disse Frank Rich, do The New York Times, “não é surpresa que a religião mais popular da Broadway nesta temporada de festas [dezembro de 1998] seja The Blue Room, ao qual peregrinos têm vindo de todas as partes para idolatrar a bundinha de Nicole Kidman”. O artigo, intitulado “O Traseiro de Nicole Kidman”, observou que as razões que levavam atores de cinema ou TV ao teatro geralmente eram o fim de suas carreiras nas telinhas ou telonas, voltas triunfais depois de internações por vício em drogas ou álcool, a necessidade pura e simples do dinheiro da bilheteria ou, no caso de Nicole, a “gananciosa máquina promocional da Sra. Kidman e de seu marido Tom Cruise”, cujo objetivo seria dar uma turbinada na carreira de Kidman, cujos últimos dois filmes (The Peacemaker e Practical Magic) haviam sido fracassos. Não se poderia inquinar a nudez na montagem de Mathias com nenhuma dessas razões, primeiro porque a carreira de Anna passava pelo seu melhor momento em muitos anos, ainda no gozo pleno de sua fama por Pushing Daisies, e segundo, e mais importante, porque a nudez de Holly está descrita no livro. Não foi gratuita e não foi inventada. Mesmo assim a segurança do Haymarket triplicou sua atenção nos possíveis fotógrafos tentando se infiltrar nas apresentações.


Por sorte, o vazamento das fotos mostrando Anna nua na peça (uma única cena, assim como no livro) não provocou o “efeito The Blue Room”. No dia 29 de setembro, diante de uma casa lotada de amigos, artistas e celebridades, Anna estreou como Holly Golightly dando início a uma temporada de quatro meses, e desencadeando uma verdadeira catarata de elogios e críticas positivas. Kelly Pentland, do site Show and Stay UK admitiu que a experiência era inédita pois não lera o livro de Capote e não vira o filme com Audrey. Segundo ela, “a protagonista Friel teve uma performance impressionante como Golightly. Trazendo o estilo glamouroso da garota despreocupada e charmosa, Friel estava fabulosa. Adicionando um viés picante ao espetáculo, Friel até apareceu nua. Seus doces vocais acompanhados ao violão foram encantadores e entendia-se claramente porquê os homens se jogavam aos seus pés”. Michael Billington, do The Guardian, diz que Anna compõe Holly “com uma graça delicada e charme displicente. Ela dá duro, atua bem e até posa confortavelmente nua em pêlo, em uma espreguiçadeira. É um prazer assistir Friel”.

O adjetivo “elfin”, aliás — relativo a “pequeno e delicado” (como um elfo) ou “mignon” no Brasil — , parecia ser a palavra de ordem para caracterizar a beleza de Anna em Breakfast. Em comentário no qual criticou diversos aspectos do espetáculo, Henry Hitchings, do London Evening Standard diz que “a graça salvadora foi Friel. Brincalhona e cativante, ela lida muito bem com a contingência de ter que se vestir e despir continuamente. Ela traz aos atos mais comezinhos um charme delicado e travesso, e é honestamente poderosa quando o papel requer”. Alice Jones, do The Independent, também diz que Anna, “nossa delicada atriz”, “é uma gamine divinamente embrulhada, como um mimo da Tiffany’s, em um desfile cada vez mais extravagante de vestidos curtos. Ela tem uma presença de palco que enfeitiça, a um tempo perigosamente provocante e infantil”.

Charles Spencer, do The Telegraph, era o mais empolgado de todos. Começa perguntando “como poderia qualquer peça querer se igualar ao texto de Capote ou ao brilho de Hepburn?”, e responde, logo em seguida: “Ainda assim, contrariando as chances, esta provou ser uma noite explosiva”. E prosseguiu:

A performance de Anna Friel como Golightly vai capturar até os corações mais duros. Ela pode não ser tão linda quanto Hepburn, mas alcança maior profundidade dramática, capturando o medo e a solidão que jazem por trás da imagem cintilante de Holly, a mistura fascinante de calor e calculismo em seus relacionamentos, assim como o puro encanto da personagem. E apesar de seu sotaque ir do Texas até o subúrbio de Surrey, até isso parece se encaixar em uma personagem que essencialmente foi inventada por si mesma.

Esta também é a performance mais sexy que já vi num palco desde Nicole Kidman em The Blue Room. Com seu cabelo curto, franca sensualidade e um script que a obriga a passar grande parte da peça só de lingerie, e, em uma cena, sem nada, Friel cria um arrepiante frisson de erotismo.

Como que penitenciando-se pelo elogio anterior, que engrossa o coro da legião de onanistas que cultiva a atriz únicamente por cenas gratuitas de nudez em seus filmes mais esquecíveis, o jornalista retifica:

Mas a sua nudez emocional é ainda mais contagiante, no que ela permite ao público descobrir a grande dor das mágoas e a vulnerabilidade que se esconde por baixo da alegria cada vez mais desesperada de Holly. Não tenho vergonha de dizer que o coração partido de Friel em sua última cena me comoveu às lágrimas.

Anna e Joseph Cross no papel de William "Fred" Parsons, ela e Dermot Crowley, que interpretou o barman Joe Bell e abaixo com o marido Doc Golightly, feito por John Ramm

Mais moderado, Quentin Letts, do Daily Mail, analisa a personalidade de Holly para explicar seu elogio à atriz:

Anna friel está desconcertantemente adorável como Holly Golightly. Digo “desconcertantemente” porque Holly é uma tal cabeça de vento, com seu cérebro de borboleta e cílios. Ela personifica tudo o que não podemos ter, a provocação, a lasca quebradiça que penetra nossos corações. Se fôssemos sensatos, não teríamos nada com essa farsante com tendências criminais. A Srta. Friel, para seu crédito, torna isso impossível. Com suas noções mínimas de francês, despejadas aos sussurros, dando fragilmente de ombros, há um pouco de Audrey Hepburn nesta performance. Almas superficiais vão derivar excitação do fato de que a linda Sra. Friel aparece como veio ao mundo em uma cena, mas o trunfo de sua performance é a de que ela veste Holly com todas as camadas de ficção que a forçam a levar uma vida transitória.

Também houve críticas que não continham apenas elogios. Natasha Tripney, do site Theater Mania, por exemplo, considerou que na peça, Anna tinha “a língua afiada e era astuta, e ainda assim infantil e desavergonhadamente manipuladora. Por vezes ela também é visceralmente vulnerável, despedaçando-se convincentemente quando descobre que seu amado irmão morreu na Europa. Ela certamente é carismática e tem uma encantadora voz para cantar quando se senta em sua janela e dedilha o violão, mas também pode parecer que lhe falta confiança. Na tentativa de humanizar Holly, Friel quase parece se aninhar dentro da personagem”. Já Benedict Nightingale, do The Times, devia estar de particular mau humor na noite em que assistiu o espetáculo, porque não gostou nem um pouco: “A Holly de Anna Friel não tem o carisma de Hepburn ou a qualidade anárquica, selvagem, que levou Capote a compará-la a um pássaro ou animal que não consegue nem encontrar um lar e nem ser totalmente livre”. Dada a paulada inicial, vem um afagozinho para compensar: “Mas Friel tem seus momentos, sobretudo quando está guinchando de dor pela morte  de seu irmão soldado”. E mais uma paulada para concluir: “Mas ela não tem a qualidade emocionalmente perigosa, caprichosa, volátil que Holly precisa, então não é uma porta-voz convincente para a liberação sexual e a tolerância, que ela pode ser”.


A crítica em geral foi azeda com o trabalho de Samuel Adamson, que se manteve fiel a Capote mas teria falhado em reproduzir em dramaturgia o que o escritor imortalizou em romance. Ainda assim, sente-se, em várias ocasiões, que essa crítica se deve muito mais a um apego deste ou daquele jornalista pela Holly de Audrey do que propriamente por algum tropeço do adaptador. Na mesma linha, várias críticas foram feitas aos cenários econômicos de Anthony Ward, que consistiam em duas escadas de incêndio que se moviam conforme a mudança de locais, e a mesa e cadeira do bar de Joe Bell. A tônica é a de que não se transmitiu de maneira adequada “o exotismo picante” nova-iorquino dos anos 40, mais uma noção equivocada deixada pelo filme, que valorizou demais a cidade, quando no conto ela é coadjuvante, quase incidental. Joseph Cross não deixou maior impressão mas houve certo consenso de que, mesmo não tendo carisma ou força para contracenar com Anna, ele não chegou a prejudicar a produção. O resto do elenco foi muito elogiado, principalmente o Joe Bell de Dermot Crowley, a Saphia Spanella de Suzanne Bertish e o O. J. Berman de James Dreyfus.

Anna, acima com o O. J. Berman de James Dreyfus e abaixo com a Saphia Spanella de Suzanne Bertish

A temporada foi vitoriosa, a produção teve lucro e viagens à Nova York e Tóquio chegaram a ser cogitadas, quando a peça saísse do Haymarket, em 9 de janeiro de 2010. Infelizmente as temporadas internacionais não vingaram, o que não impediu que Anna e o elenco de Breakfast at Tiffany’s vivessem algumas experiências bizarras no velho teatro fundado em 1720 e funcionando exatamente no mesmo prédio desde 1821. E o mais cômico de tudo é a reação de total simplicidade da atriz, com os absurdos ocorrendo no meio do público ou nos bastidores. Em uma das apresentações, durante a cena em que ela está nua e o escritor lhe aplica bronzeador nas costas, um sujeito teve um colapso e caiu duro no meio do público. A peça continuou mas Anna percebeu o que estava acontecendo: “Foi durante a cena de nudez e eu não sabia se tinha feito algo muito errado ou apenas aconteceu do sujeito ter um colapso naquele momento. Me lembro dele sendo carregado para fora em uma maca, o que me distraiu um pouco”. Em outra ocasião Anna estava no meio de uma das três músicas que cantava ao violão quando um sujeito no mezanino do teatro se levantou e, sem tempo de chegar ao banheiro, acabou vomitando sobre vários pobres infelizes que assistiam o espetáculo nas poltronas mais caras, abaixo. “Achei que eram espectadores atrasados que não deveriam ter sido permitidos de entrar”, disse Anna, “mas pelo que se viu, alguém tinha vomitado, no mezanino, em cima de seis pessoas e estavam todos sendo levados para fora, para se limpar”. Anna não saiu da personagem: “Eu continuei cantando mas quase me perdi porque tinha muito barulho vindo das poltronas. Quase, mas fico feliz de ter mantido minha concentração”.

O velho Haymarket, de tantas lembranças
e tantas histórias

A melhor história de todas foi a suspeita do Haymarket ser assombrado por fantasmas do mundo artístico: “Todo mundo fica falando sobre esse fantasma”, contou Anna. “Supostamente, Capote está num canto ou Audrey Hepburn está lá assistindo, mas nunca a vi. Patrick Stewart, que estava antes em Godot, disse que o viu no palco e que ele saiu de uma caixa. Agora eu fico olhando!” Não se pode dizer que as provas da existência de um fantasma no Haymarket fossem conclusivas: “A música no meu camarim aumentou algumas vezes”, disse Anna, “mas acho que é só uma falha elétrica”.


Perguntada na ocasião qual o segredo de tanta energia para o trabalho, ela foi sincera: “Não é tanto trabalho quanto parece. Meu cabelo está todo preso em cachos com grampos por baixo da peruca então ele se solta em ondas perfeitas, e só deixo o esmalte e o batom de Holly. É isso que as atrizes costumavam fazer; o esforço para que você não pudesse ver por trás da máscara. Acho que combina com toda a atmosfera da peça. Eu poderia simplesmente tirar minha maquiagem e me enfiar num jeans, mas essa sensação de glamour dos anos 40 ajuda com o meu personagem”.

Na mesma entrevista declarou: “Talvez minhas escolhas tenham sido melhores com as peças que fiz do que com alguns dos filmes”. Não resta dúvida. E Breakfast at Tiffany’s foi um triunfo para ela. “Quando meu empresário me perguntou o que eu queria fazer depois disto”, contou Anna, “respondi: ‘Eu quero continuar fazendo teatro’. Nunca pensei que diria isso no meio de uma temporada tão difícil, mas eu estou amando isto. É quase chocante para mim que haja tantas facetas para Holly. Todas as noites pode haver performances completamente diferentes. Por vezes ela pode ser avoada, em outras ela é risonha ou mais frágil. Essa é a empolgação do teatro”.
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  • A maioria das fotos de Breakfast at Tiffany's no Haymarket vem do site oficial da montagem.
BIBLIOGRAFIA:

Todos os sites foram consultados entre julho e agosto de 2011
  1. http://www.dailymail.co.uk/tvshowbiz/article-1181770/BAZ-BAMIGBOYE-Anna-Friel-serves-sexy-treat-new-Breakfast-Tiffanys-stage-role.html
  2. http://www.dailymail.co.uk/tvshowbiz/reviews/article-1217034/Anna-Friel-pierces-heart-Breakfast-Tiffanys.html
  3. http://www.dailymail.co.uk/tvshowbiz/article-1225691/Anna-Friels-performance-interrupted-ill-spectator.html
  4. http://www.telegraph.co.uk/culture/theatre/theatre-reviews/6245887/Breakfast-at-Tiffanys-at-the-Theatre-Royal-Haymarket-review.html
  5. http://www.telegraph.co.uk/culture/theatre/theatre-features/6194609/Sean-Mathias-interview-for-Breakfast-at-Tiffanys.html
  6. http://www.independent.co.uk/arts-entertainment/theatre-dance/features/friel-the-force-anna-friels-stage-incarnation-as-holly-golightly-proves-to-be-a-high-point-in-her-career-1792123.html
  7. http://www.independent.co.uk/arts-entertainment/theatre-dance/reviews/first-night-breakfast-at-tiffanys-theatre-royal-haymarket-london-1795269.html
  8. http://en.wikipedia.org/wiki/Truman_Capote
  9. http://en.wikipedia.org/wiki/Breakfast_at_Tiffany%27s_%28musical%29
  10. http://www.dailyrecord.co.uk/showbiz/showbiz-news/showbiz-news/2009/09/06/anna-friel-to-go-blonde-for-breakfast-at-tiffany-s-78057-21651710/
  11. http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2009/09/was-holly-golightly-really-a-prostitute.html
  12. http://www.tcm.com/this-month/article/156635%7C0/Trivia.html
  13. http://www.tbd.com/blogs/tbd-arts/2011/03/edward-albee-s-breakfast-at-tiffany-s-was-the-spider-man-turn-off-the-dark-of-the-60s-9321.html
  14. http://www.trh.co.uk/press-releases.php?date=2009-05-15
  15. http://www.entertainmentwise.com/news/50075/anna-friel-im-not-
  16. http://www.thisislondon.co.uk/lifestyle/article-23779739-anna-friel-from-holly-to-hollywood.do
  17. http://www.thisislondon.co.uk/theatre/review-23750504-breakfast-goes-far-too-lightly-at-tiffanys.do
  18. http://www.contactmusic.com/news.nsf/story/man-collapses-over-naked-friel_1120525
  19. http://www.contactmusic.com/news.nsf/story/friels-backstage-ghost-hunt_1120432
  20. http://www.guardian.co.uk/stage/2009/sep/30/breakfast-at-tiffanys-review
  21. http://www.theatermania.com/london/reviews/09-2009/breakfast-at-tiffanys_21523.html
  22. http://entertainment.timesonline.co.uk/tol/arts_and_entertainment/stage/theatre/article6854691.ece
  23. http://www.leisuresuit.net/Webzine/articles/blue_room.shtml
  24. http://www.nytimes.com/keyword/blue-room
  25. http://www.show-and-stay.co.uk/theatre-news/review-breakfast-at-tiffanys-anna-friel-20606.html
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