domingo, 11 de fevereiro de 2018

Oscar 2018


(Haverá spoilers)

I, TONYA

Este ano me antecipei à Roberta e dou início à temporada de filmes indicados ao Oscar. Hoje assisti "I, Tonya". Para mim foi interessantíssimo ver o trabalho roteirizado por Steven Rogers e dirigido por Craig Gillespie porque me recordo de toda a polêmica de Tonya Harding como se fosse ontem. A TV a cabo chegara ao Brasil pouco antes e foi possível acompanhar o desenrolar dos fatos pelos noticiários norte-americanos. Esse, aliás, é o grande valor do filme. Ele põe, finalmente, o episódio todo em perspectiva, longe do incrível ódio que suscitou na época. Eu, mesmo, nunca soube que os mentores de toda aquela palhaçada tinham sido o marido idiota de Tonya e seu amigo gordo débil mental. Como o resto do mundo, não procurei conhecer a história a fundo e imaginava que o plano partira dela e do marido em conjunto, movidos por medo da competição e um certo ressentimento pela figura de Nancy Kerrigan, que - como é bem observado no filme - tinha uma beleza longilínea e classuda, o que lhe valia sempre uma simpatia extra dos juízes, enquanto Tonya - boazuda, gostosa e ordinária - era constantemente subestimada.

Tonya e Margot
Ao assistir o trailer pensei que me divertiria com "I, Tonya", pois me pareceu que o filme receberia um tratamento mais de comédia do que de drama, dado o fundamental e inevitável ridículo do atentado engendrado e realizado contra Nancy. Havia a figura barulhenta e vulgar de Tonya, exemplo quintessencial de white trash, a mãe asquerosa e canalha, o marido idiota e assim por diante. Um perfeito enredo de pastelão. Não foi o caso. Eu me diverti porque o filme é ótimo, mas no fim senti tristeza por verificar, mais de duas décadas depois, que Tonya não teve absolutamente nenhuma culpa e pagou sozinha por todo aquele absurdo; seu ex-marido e os imbecis que ele contratou pegaram penas leves e voltaram silenciosamente à inutilidade normal de suas vidas. Ela foi banida da associação de patinação no gelo, o que a impediu permanentemente de exercer seu único talento.

Lembro-me do quanto ela foi ridicularizada, vilipendiada, atacada e destruída. O filme não mostra, por exemplo, que tempos depois, sem um centavo no bolso, ela tentou formar um grupo de música com algumas amigas. A imprensa a trucidou. Depois surgiu um video caseiro de sexo entre ela e o ex-marido, que ele vendeu para a Penthouse. Mais uma onda de humilhação. Mais tarde veio o box. Enfim, Tonya podia ter todos os defeitos do mundo, mas certamente não mereceu a imolação pública e o linchamento moral que sofreu. O filme, não tivesse nenhum outro mérito, esclarece os fatos, coisa que a mídia norte-americana nunca se preocupou em fazer. Como diz o ditado, "a fama dura quinze minutos, a infâmia dura muito mais".  

Margot: brilhante

O filme foi indicado a três Oscars: atriz principal (Margot Robbie, Tonya), atriz coadjuvante (Allison Janney, a mãe de Tonya) e edição. Tanto Margot quanto Allison estão no páreo. Allison tem uma boa chance, embora eu considere o trabalho de Margot muito superior. Eu só a conhecia por sua interpretação de Harley Quinn, que não me deixou qualquer lembrança. No papel de Tonya ela está maravilhosa.

Recomendo.

THE DISASTER ARTIST

Embora a produção de "The Disaster Artist" espalhe com prazer que há grande mistério em torno da origem de seu personagem principal, Tommy Wiseau, sabe-se hoje que ele é polonês, tinha uma próspera confecção de roupas de couro em São Francisco e estava com quarenta e poucos anos quando se passa a história do filme. Excêntrico e esquisito, um perfeito weirdo, ele queria ser ator e freqüentava cursos de teatro até conhecer um garoto de 19 anos chamado Greg Sestero. Os dois se tornaram amigos e foram juntos para Los Angeles, tentar a sorte no cinema. Baldados os esforços de ambos, Tommy decidiu escrever, dirigir e estrelar seu próprio filme. Rico, ele bancou a produção, chamou Sestero para um dos papéis e produziu "The Room", em 2003. O filme - hilário de tão péssimo - é conhecido hoje como "o melhor pior filme de todos os tempos", ou "o moderno Plan 9 from Outer Space", em referência a outro maluco que desejava ser ator e cineasta, Ed Wood.

Em 2013 Sestero escreveu um livro documentando todo o processo de criação de "The Room". O ator James Franco se apaixonou pela história e tornou-se amigo de Tommy. Decidiu fazer um filme sobre o assunto e "The Disaster Artist" tem seu roteiro baseado no livro de Sestero e nos depoimentos do próprio Tommy. Franco dirige o filme e interpreta Tommy. Para o papel de Sestero, Franco chamou seu irmão menor, Dave.

Tommy e Franco

Franco: Wiseau
"The Disaster Artist" é surpreendentemente bom. Franco tem uma carreira no mínimo irregular, faz vários filmes por ano (só em 2017 está em quase vinte filmes, entre cinema, TV e curtas) e seus trabalhos como ator ou diretor variam de ótimo a horrendo. Neste caso o roteiro adaptado de Scott Neustadter e Michael H. Weber - indicado ao Oscar - a direção de James e, sobretudo, sua interpretação de Tommy, tornam "The Disaster Artist" diversão do início ao fim. Considerando que Tommy já é, de certa forma, uma caricatura de si mesmo, James poderia ter pego o atalho de transformar seu personagem em uma alegoria idiota e exagerada (caso de Johnny Depp, péssimo no papel de Ed Wood). Fez o contrário. Desenvolveu o personagem, aprofundou-o e transformou-o em uma entidade independente. Ele criou seu próprio Tommy e supera o original. Tem humor, tem dramaticidade e tem o ridículo fundamental de Tommy, mas sem recorrer ao fácil, ao raso. Cada maneirismo tem seu significado. É um belo trabalho de composição. Um absurdo que ele não tenha sido indicado.

O mesmo não se pode dizer de seu irmão, que é o elo mais fraco da produção. Embora esforçado, ele é artificial, não está no mesmo patamar de James e o bate-bola dos dois é torto. James está perfeito. Dave é apenas medíocre. No mais das vezes não consegue deixar de ser o que foi até agora: uma espécie mini-James Franco, só que meio creepy, com cara de duende. Mas não chega a comprometer.

Recomendo.

DARKEST HOUR

Conhecido por dirigir três bons filmes de época com Keira Knightley ("Pride and Prejudice", "Atonement" e "Anna Karenina"), o inglês Joe Wright se concentrou em Winston Churchill para seu mais recente trabalho, "Darkest Hour". O titulo faz referência à circunstância de que poucas vezes na história um primeiro ministro - ou governante de qualquer tipo - foi alçado ao poder tendo que descascar um abacaxi tão gigantesco. Churchill substituiu o velho e doente Neville Chamberlain, que já não tinha mais qualquer condição de saúde ou de cabeça para exercer seu cargo, e de cara teve que enfrentar a batalha de Dunquerque, na França, onde 300 mil soldados ingleses se encontravam em situasção desesperadora, cercados por tropas alemãs. O filme cobre esse período, que vai da posse de Churchill, no dia 10 de maio de 1940, até o fim do mês, quando entra em ação a chamada "Operação Dínamo", em que navios civis são cooptados para ajudar na evacuação de Dunquerque (tema de "Dunkirk", de Christopher Nolan).

Gary: Churchill
O grande (e talvez único) destaque do filme é, sem dúvida nenhuma, a atuação de Gary Oldman. Ele está com 36 anos de carreira e foi sempre reconhecido por seu extraordinário talento e uma inigualável qualidade camaleônica, que o permitiu interpretar um leque de personagens que vai do Conde Drácula a Lee Harvey Oswald, passando por Sirius Black, um vilão russo, Beethoven e o comissário Gordon, entre muitos outros. Só que Gary, inexplicavelmente, foi esquecido pelo Oscar. Não recebeu jamais a estatueta e foi indicado uma única vez, em 2012, por um filme de espionagem na Guerra Fria que não deixou maior recordação. Aparentemente, para nossa satisfação, o momento de Gary chegou.

Confesso que não fiquei contente quando soube que Gary interpretaria Churchill. Primeiro porque é papel que já foi feito dezenas de vezes por dezenas de atores, e só este ano há dois ou três filmes sobre o assunto; e, mais importante, porque temia que o efeito "Duvall/Stalin" acontecesse; refiro-me ao filme de 1992 no qual o ator norte-americano interpretou Joseph Stalin, mas estava com tanta maquiagem que mal se notavam suas expressões faciais e seu rosto parecia uma máscara de carnaval. Menos mal que as técnicas de maquiagem progrediram muito desde 1992 e Oldman não só ficou inacreditavelmente parecido com Churchill (não tendo, ambos, a rigor, a mais ínfima semelhança), como nem mesmo sua gordura é real. Tudo são próteses e maquiagem.

Gary Oldman
Ele tem uma performance brilhante, como sempre. Oldman pincela os estereótipos que circundam a figura de Churchill (o alcoolismo, o temperamento explosivo, etc.) mas dá envergadura emocional real ao líder inglês. Não se trata do eterno gordo com cara de bebê velho, fumando um charuto, apenas. É o político em carne e osso, enérgico e resoluto, mas também capaz de vergar diante das dificuldades. O filme vale por suas cenas, especialmente os embates com Hallifax e Chamberlain, os ótimos Stephen Dillane e Ronald Pickup. Ronald, por sinal, sem uma gota de maquiagem parece irmão gêmeo de Chamberlain.

"Darkest Hour" foi indicado a Melhor Filme, Melhor Ator, Direção de Arte, Figurinos, Maquiagem e Design de Produção/Cenário. Dou-me por satisfeito com Gary recebendo de uma vez o prêmio que já deveria ter recebido há muitos anos, e mais de uma vez.

THE POST

Em 1967 o então secretário da Defesa Robert Macnamara encomendou um alentado estudo sobre as razões e os desdobramentos da Guerra do Vietnã para fins historiográficos futuros. Daniel Elsberg, analista militar com conexões no Ministério da Defesa, tornou-se um militante contrário à guerra e deu um jeito de fazer uma cópia dos 47 volumes do estudo. Na essência, o estudo - cognominado "The pentagon papers" - mostrava que o grosso das atividades bélicas, a derrota eminente e as verdadeiras razões da guerra foram sempre metodicamente escondidas do público norte-americano. Elsberg sabia disso e de posse dos documentos, procurou o jornalista do The New York Times, Neil Sheehan, e entregou-lhe 43 dos 47 volumes. É a essa altura da história que começa o filme dirigido por Steven Spielberg, "The Post". Os roteiristas Liz Hannah e Josh Singer amarraram bem a história do roubo desses documentos com eventos ocorrendo concomitantemente no Washington Post, que na época estava sob a direção administrativa de Katharine Graham e a direção editorial de Ben Bradlee.

Kay Graham e Ben Bradlee, 1971

Elsberg (Matthew Rhys) entrega os documentos a Sheehan (Justin Swain) e o Times publica uma matéria explosiva revelando parte das informações no dia 13 de junho de 1971. Até o dia seguinte três artigos são publicados; o governo então consegue meter uma medida cautelar que impede o Times de continuar. Elsberg não se dá por vencido e entrega os documentos a Ben Bagdikian (Bob Odenkirk), do Post. Ele submete os documentos a Bradlee (Tom Hanks), que fica maravilhado com o material e quer publicá-lo o quanto antes, não importando as conseqüências jurídicas. Em sua mente o que importa é o furo e o fato de que os documentos mostram de maneira inconcussa que o governo mentiu sistematicamente sobre a guerra.

Meryl: Kay Graham
É aí que temos a segunda trama do filme: Katharine "Kay" Graham (Meryl Streep) é a herdeira do jornal e CEO do Post. Ela era filha de Eugene Meyer, que comprou o jornal em 1933 e o reergueu. O pai deixou a direção do jornal para o marido de Kay, Philip Graham, e quando este se suicidou, em 1963, a bucha caiu nas mãos de Kay, que nunca tivera um único emprego na vida. Ela arregaçou as mangas e não apenas manteve o Post competitivo como o fez crescer. A polêmica de Elsberg e "The Pentagon Papers" ocorre exatamemnte no momento em que o Post vai vender suas ações na bolsa de NY e Kay está enfrentando o Conselho Administrativo do jornal. É uma pequena alusão ao fato de que ela foi a primeira mulher a ocupar um cargo dessa magnitude no jornalismo norte-americano e o quanto se destacou sempre pela coragem. Acresce o fato de que por conta de seus laços familiares, Kay era amiga pessoal de todos os grandes políticos de Washington, inclusive de Robert Macnamara. A publicação dos documentos secretos representava um problema triplo para Kay: 1) Os banqueiros que pretendiam comprar as ações do jornal poderiam ficar intimidados com o escândalo da publicação; 2) Macnamara e dezenas de políticos seriam certamente prejudicados pela revelação dos documentos; e 3) As conseqüências jurídicas e penais eram imprevisíveis. No pior dos casos ela e Bradlee poderiam ser presos.

Hanks: Ben Bradlee
O filme mostra como Bradlee e Kay vão tentar resolver a questão sem destruir suas carreiras.

É um bom filme mas não me furto de repetir o comentário que fiz sobre Spielberg quando ele lançou "Bridge of Spies": ele parece ter se suavizado com o tempo. Não sinto mais qualquer suspense em seus filmes. A certeza do final feliz vem nos primeiros quinze minutos. Eu admirei Spielberg minha vida toda mas faz muito tempo que não vejo um filme seu que me deixe eletrizado. No meio da história juro que esqueci completamente que era um filme de Spielberg. Senti, com "The Post", pouco mais do que senti com o fraco "LBJ", de Rob Reiner, ou com o desperdiçado "Mark Felt: The Man Who Brought Down the White House", de Peter Landesman, com Liam Neeson. Senti que quem quiser ver um verdadeiro suspense jornalístico, um filme de eletrizar e de arrepiar, deve assistir "All the President's Men", do saudoso Allan Pakula, sobre as reportagens do Post que derrubaram Nixon. Esse sim, é uma obra-prima.

Tom está ok, como Bradlee. Nem bom nem ruim. Está Tom Hanks. E Merryl mais uma vez foi indicada simplesmente porque acordou e respirou. Sem comentários.

DUNKIRK

Christopher Nolan escreveu e dirigiu este filme sobre a batalha de Dunquerque, cidade portuária no norte da França, onde os aliados foram encurralados pelos alemães em maio de 1940. Como praticamente todo o exército inglês estava lá e não sobraram navios ou soldados para fazer o resgate, Churchill utilizou o que lhe restou da força aérea e convocou civis que possuíssem embarcações de qualquer tipo, desde lanchas até barcos pesqueiros, para se dirigirem a Dunquerque e ajudar no resgate.

O filme de Nolan vai contar a história através de quatro núcleos: o dos oficiais que estão em Dunquerque organizando o resgate, liderados pelo comandante Bolton (Kenneth Branagh); o de dois soldados, um inglês (Fionn Whitehead) e outro francês (Damien Bonnard), que estão tentando encontrar lugar nos poucos navios que deixarão Dunquerque; o de dois pilotos da força aérea britânica, Farrier (Tom Hardy) e Collins (Jack Lowden), que se esforçam para defender Dunquerque dos bombardeios alemães; e dos tripulantes de uma das embarcações civis a caminho do porto, com o Sr. Dawson (Mark Rylance), seu filho Peter (Tom Glynn-Carney) e o amigo George (Barry Keoghan).

É um filme interessante, com boa narrativa, mas sem maiores atrativos. O que mais me impressionou neste trabalho de Nolan foi o quanto se parece a um filme de Spielberg. Linguagem, imagens, até interpretações. Morno, por sinal, como os filmes de Spielberg nos últimos dez anos. Recebeu oito indicações: Melhor Filme, Diretor, Edição, Edição de Som, Mixagem de Som, Trilha Sonora, Direção de Arte e Design de Produção.

ALL THE MONEY IN THE WORLD

O filme é baseado no livro Painfully Rich: The Outrageous Fortunes and Misfortunes of the Heirs of J. Paul Getty, de John Pearson, com roteiro de David Scarpa e direção de Ridley Scott. Trata do seqüestro de Paul Getty, neto do bilionário norte-americano Jean Paul Getty. Há dois comentários que devem ser feitos, preliminarmente:

1 - O papel do velho Jean Paul Getty foi feito por Kevin Spacey fortemente maquiado, já que o magnata estava com 80 anos na época em que se passa o filme e Spacey tem 58. Terminada a filmagem e já na fase de pós-produção, Spacey foi alvo de acusações de assédio sexual vindas de jovens atores que trabalharam com ele em diversas ocasiões. Ciente de que seu filme seria prejudicado pela presença desmoralizada do ator, Ridley Scott tomou uma medida corajosíssima: descartou o material filmado com Spacey e refilmou tudo com o grande Christopher Plummer no papel do velho Getty. Vi apenas fotos de Spacey como Getty e só o que posso dizer é que a mudança foi benéfica em todos os sentidos. Não só porque Plummer está com 88 anos e portanto muito mais próximo da idade do personagem, mas porque, sem qualquer pré-julgamento, ele é um ator muito mais versátil e experiente do que Spacey.

Spacey e Plummer: mudança benéfica
2 - O filme foi profundamente romantizado, para dizer o mínimo, em relação à história real; ao invés de "inspired by true events" os créditos iniciais deveriam dizer "VERY LOOSELY based on true events". Tal como é contada no filme, a história é de que o filho de Getty, John Paul (Andrew Buchan), e sua esposa Abigail (Michelle Williams) vão para Roma e John se torna diretor da divisão européia do império de Getty. Em pouco tempo, entretanto, ele não resiste às tentações trazidas pelo dinheiro e se entrega à esbórnia, destruindo sua própria saúde e virando um vegetal. A mulher se separa dele e leva os filhos. Anos depois, um deles (Charlie Plummer) é seqüestrado e a mulher é obrigada a coordenar sozinha o resgate do filho, tendo a ajuda única de um assessor do velho Getty (Mark Whalberg). Assim que o garoto é resgatado, o velho tem uma síncope e morre, deixando o império todo para ela.

Nada poderia estar mais distante da realidade. John Paul se separou de Abigail em 1964 e dois anos depois se casou com uma modelo, com que ficou casado até 1971. Na época do seqüestro de seu filho (1973) ele se envolveu em todo o processo do resgate, inclusive no infame "empréstimo" feito por seu pai, depois que a orelha do menino foi enviada a um jornal. Se caiu ou não na esbórnia (e deve ter caído) e se era ou não um filho da puta igual ao pai (e provavelmente era), não faço idéia, mas continuou o império da família, era amigo pessoal de Margaret Thatcher e inclusive virou "Sir" em 1987. Morreu aos 70 anos em 2003, como uma das figuras mais proeminentes da filantropia inglesa.

Michelle Williams e Mark Whalberg

Quanto ao velho Getty, era exatamente o escroto miserável retratado pelo filme, mas não morreu na época do resgate; conta a lenda, aliás, que Paul ligou para o avô para agradecer pelo dinheiro do resgate e ele se recusou a atender. Getty morreu três anos depois. Seu império passou a ser gerido pelos dois filhos. John Paul e Gordon. Toda a seqüência final do filme é ficção.

Williams: ótima como sempre
Dito isto, "All the money in the world" é um ótimo filme. Um thriller que traz o selo de qualidade de Ridley Scott, com uma narrativa dinâmica que prende do primeiro ao último minuto. Plummer está perfeito como Getty, em interpretação madura e equilibrada, transmitindo todo o cinismo, a insensibilidade e, em geral, o vazio anímico do bilionário com total naturalidade. Sua indicação para Melhor Ator Coadjuvante é merecida e sua vitória seria uma satisfação para todos nós. Mark Whalberg está ok como Chase, o assessor que ajuda Abigail, em papel quadrado e sem maiores vôos. Quem rouba o filme, como sempre, é Michelle Williams. Que atriz espetacular! Que densidade na voz, nos gestos, nas expressões. É incrível como ela vem melhorando a cada ano, e sua performance é modelar.

Recomendo.

MOLLY'S GAME

O que imaginei ser uma coincidência, é, de fato, uma tendência não só do Oscar deste ano, mas dos filmes feitos em Hollywood em 2017: cinebiografias ou histórias baseadas em fatos reais, e filmes escritos e dirigidos pela mesma pessoa. Neste caso temos a estréia diretorial do famoso roteirista Aaron Sorkin, e o personagem escolhido é a ex-esquiadora e ex-promotora de jogos de pôquer legais e (a partir de um certo momento) ilegais, Molly Bloom.

Molly (Jessica Chastain) era uma esquiadora profissional e pretendia disputar as Olimpíadas até que teve um acidente e foi obrigada a abandonar o esporte. Decidiu cursar Direito mas antes passou uma temporada em Los Angeles, onde começou a trabalhar como garçonete de uma danceteria de luxo. Lá conheceu e se tornou secretária de um sujeito, Dean Keith (Jeremy Strong) que promovia um jogo semanal de pôquer com entrada mínima de dez mil dólares. Ela ficou responsável pela organização do jogo e recebia largas gorjetas no fim de cada reunião. Inteligente, Molly observou cuidadosamente tudo o que acontecia, os assuntos que eram tratados, memorizou os macetes do negócio e fez amizade com os jogadores, que variavam de ricos perdulários a atores de Hollywood. Na primeira desavença com o sujeito com quem trabalhava, ela simplesmente mudou o jogo de local, os jogadores a acompanharam e ela e se tornou a promotora. Tempos depois ela se desentendeu com um dos atores que freqüentava o jogo - referido como "jogador X" (Michael Cera) - e que era o verdadeiro chamariz do negócio todo e ele fez o mesmo com ela; mudou o jogo de lugar e tirou Molly de circulação.

Jessica: Molly
Ela então foi para Nova York e, com todo o 'know how' obtido em LA, organizou um jogo extremamente mais caro e mais exclusivo. E é evidente que quanto mais ela foi subindo o preço de admissão - que chegou a 250 mil dólares - mais pessoas suspeitas foram aparecendo, desde bilionários entediados até a máfia russa. E a responsabilidade financeira sobre os milhões que eram jogados no pano verde a fez quebrar a lei em algumas ocasiões, tisnando a legalidade de seu jogo, que até aquele momento era indiscutível. Com efeito, o que Molly fazia não era diferente do que acontece em qualquer cassino de Las Vegas. É quando o FBI começa a monitorar seu jogo e as pessoas que o freqüentavam. O grande problema é que a essa altura a tensão era tanta que Molly começou a usar drogas e ficou viciada em várias, desde cocaína até vicodin e percocet. Sofreu um atentado da máfia russa e resolveu parar de vez. Só que o FBI continuou sua investigação e mesmo que já tivesse parado havia dois anos, ela acabou presa e todo o seu dinheiro foi confiscado.

Molly Bloom, Aaron Sorkin e Jessica Chastain

Molly e Jessica
O filme de Sorkin - baseado no livro de Molly, lançado em 2014: Molly's Game: From Hollywood's Elite, to Wall Street's Billionaire Boys Club, My High-Stakes Adventure in the World of Underground Poker - conta essa história e a batalha jurídica que se segue, na qual Molly é processada e intimada a entregar seus HDs, que não incluem apenas contatos mas trocas de emails e torpedos que invadem completamente a vida pessoal de todos os envolvidos no jogo. Ela e seu advogado Charlie (Idris Elba) terão esse desafio pela frente. Jessica Chastain está em seu elemento: interpreta uma mulher jovem, inteligente e voluntariosa, escondendo sob uma capa de independência a sua fragilidade emocional. Acima de tudo, contemporânea e sem grandes rasgos de sentimentalismo. É o que Jessica faz melhor. Suas performances em "Wilde Salome" e "Miss Julie" a meu ver naufragam porque falta à Chastain o estofo para a interpretação teatral e para descascar o texto de craques como Oscar Wilde e Strindberg. Já em trabalhos eminentemente cinematográficos como "Zero Dark Thirty", "Miss Sloane" (em papel até parecido a Molly) e "Molly's Game" ela brilha intensamente. Nunca a vi tão linda e tão bem.

Meme com a famosa fala escrita por Sorkin e
dita por Jack Nicholson em "A Few Good Men"
Sorkin é um gosto adquirido. Criador do hoje lendário You can't handle the truth, gritado por Jack Nicholson em "A Few Good Men", se tornou conhecido pela inteligência de seu texto e pela rapidez esquizofrênica de seus diálogos. Acertou em "West Wing", errou em "Studio 60 on the Sunset Strip" (que eu particularmente gostava, mas pelo jeito era só eu, mesmo), acertou em "The Social Network", errou em "Steve Jobs" (aquela chatice com Michael Fassbender) e acertou com "Molly's Game". Com exceção da cena ridícula e constrangedora de sua reconciliação com o pai (Kevin Costner), roteiro e direção estão muito bons. Sorkin começou com o pé direito. Recebeu uma indicação de roteiro mas merecia direção, filme e uma indicação para Chastain. A academia foi mesquinha com ele.

Recomendo.

ROMAN J. ISRAEL, ESQ.

Depois do triunfo de sua estréia diretorial com "Fences", no ano passado, Denzel Washington resolveu voltar com o despretensioso "Roman J. Israel, Esq.", roteirizado e dirigido por Dan Gilroy. Roman (Denzel) é um advogado extremamente talentoso e sua memória privilegiada toca as raias do super-dotado. Tímido e inadequado socialmente, ele se manteve durante anos à sombra de seu sócio; enquanto este brilhava nos tribunais era Roman quem lhe fornecia o estofo jurídico para seus casos mais importantes. O arranjo funcionava bem porque Roman era sincero demais, não conseguia se adaptar à mudança geral dos tempos e não tinha filtros na comunicação com as pessoas, o que não raro o colocava em situações complicadas. Os dois eram idealistas, praticavam o direito pelo prazer de fazer justiça e não pelo dinheiro, e tinham uma parceria redonda. Ou pelo menos é o que Roman pensava até que o sócio tem um enfarte e fica em coma. Ele descobre que as providências tomadas pelo sócio para o caso dessa eventualidade não o incluem e não o transformam em advogado titular da firma. Pelo contrário; ele é despedido pela filha do sócio e não recebe sequer uma rescisão.

A firma é entregue a George Pierce (Colin Farrell), um advogado jovem e ganancioso. Ao tomar conhecimento da extraordinária retentiva do velho advogado, Pierce julga que ele pode ter algum tipo de utilidade e lhe oferece a chance de continuar na firma. Idealista como sempre, Roman recusa a oferta e procura alucinadamente trabalho em uma área que o coloque em contato com pessoas menos favorecidas, lutando por uma causa com o máximo de envolvimento social. Deseja levar adiante, também, um ambicioso projeto de reforma do sistema judiciário, mas precisa de um grupo de pessoas para realizá-lo. Conhece Maya (Carmen Ejogo), que trabalha em uma dessas ONGs e descobre através dela, para sua decepção, que tais cargos até existem mas são de voluntariado e não pagam nada. Enfrentando dificuldades financeiras, ele não vê outra opção senão aceitar a oferta de Pierce.

Denzel: Roman
Como se pode imaginar, na nova firma Roman faz o que pode para não trair seus ideais, mesmo tendo que se curvar aos princípios mercantilistas e insensíveis de Pierce. E nesse processo ele vai mudar sua vida, mas não sem antes mudar a vida de Pierce e de Maya. Se essas mudanças serão para o bem ou para o mal, fica a critério de quem assistir o filme.

Depois de assisti-lo pensei em duas coisas: em primeiro lugar, é aquilo que em teatro antigamente se denominava morality play: Roman é a raça humana, seu sócio é a fraqueza, Pierce é a ganância e Maya é a inocência. O humano é tentado pela ganância e até sucumbe momentaneamente mas juntando sua bondade fundamental com a inocência ele reverte o processo e começa a inocular a ganância com o gérmen da bondade. A segunda coisa foi uma coincidência: estou neste momento pesquisando Eugene O'Neill para um artigo e seu último trabalho, inacabado, foi um ciclo de peças na qual ele levantava a questão bíblica, que é basicamente o cerne do filme de Denzel: “Em que um homem se beneficiará se ganhar o mundo inteiro mas perder a alma?”

Kim Bassinger e Al Pacino em
"People I Know", 2002
A premissa, como se vê, não é nada original e, embora maniqueísta, o filme é bom e a performance de Denzel é estupenda. Ele chegou, finalmente, à idade em que pode descartar com tranqüilidade a aparência e interpretar o papel de um homem absolutamente sem nenhum atrativo físico; pode se concentrar na grandeza libertária de ser patético. É claro que estando em um açougue como Hollywood, isso tem um preço: o público não estava preparado para ver Denzel tão humanizado e "Roman J. Israel, Esq" foi um fracasso retumbante nas bilheterias. Coisa semelhante ocorreu em 2002 com Al Pacino, que cometeu a temeridade de se desglamourizar completamente no ótimo "People I Know", que acabou trucidado pelo público que esperava o Pacino passado a ferro de "Heat". Seja como for, o Roman de Denzel (assim como seu antípoda moral Eli Wurman, de Pacino) representa muito bem a raça humana, em toda a sua grandeza mal-orientada e em todo o seu idealismo admirável e inútil. Nos identificamos com ele. 

Recomendo.

VICTORIA & ABDUL

Este artigo se divide em duas listas, uma com os indicados aos prêmios principais e outra, mais abaixo, com filmes que receberam indicações de prêmios técnicos ou menores, como Maquiagem, e etc. "Victoria & Abdul" se enquadra nessa segunda lista, mas como o erro da Academia em não indicá-lo para Melhor Atriz, e várias outras indicações merecidas, é tão flagrante, decidi inclui-lo na primeira lista.

Quando soube que Judi Dench reprisara o papel de Rainha Victoria em filme sobre o relacionamento da monarca com um indiano, fiquei desconfiado. Primeiro porque eu ignorava completamente a história desse indiano - Hafiz Mohammed Abdul Karim - na vida de Victoria, e segundo porque eu não via possibilidade de fazer algo tão bom ou melhor do que "Mrs. Brown", de 1997, a obra-prima de John Madden sobre o relacionamento de Victoria e John Brown, com Judi Dench e Billy Connoly. No fim das contas, "Victoria & Abdul", dirigido pelo competente Stephen Frears, pode não uma obra-prima como "Mrs. Brown" mas é um ótimo filme e muito melhor do que eu imaginava.

A relação da rainha com Abdul Karim, que começou com aulas de hindustâni e urdu e se transformou em uma grande amizade, era um embaraço para a embolorada e cretina família real e demais agregados; a Índia não passava de uma colônia britânica, seus nativos eram todos vistos como "vassalos" e como se não bastasse, eram quase todos de uma etnia que se aproximava muito mais do negro do que do branco, e isso era motivo de pânico racista entre o bando de puxa-sacos que circundava a rainha. Inteligente e sem paciência para a estreiteza mental de sua família, Victoria não deu a mínima e continuou prestigiando Karim até morrer, em 1901.

Karim e Victoria, circa 1894
Sendo o escroto ressentido, burro e mesquinho que sempre foi, Bertie, o príncipe de Gales - que passou a maior parte de sua inútil vida contando os minutos até a morte da rainha - detestava a amizade da mãe e e o indiano, e quando chegou ao poder finalmente, aos 60 anos, uma de suas primeiras medidas foi mandar queimar todos os pertences de Karim, sobretudo sua correspondência com Victoria, ao longo dos anos, e mandá-lo de volta à Índia. Karim morreu em 1909, Bertie morreu em 1910 e a verdadeira história de Victoria e Karim só começou a ser conhecida nos anos 50, quando surgiram as memórias de Frederick Ponsonby, o secretário particular de Victoria nos últimos anos. Era pouquíssimo. E como Karim não teve filhos, seus pertences se dissiparam entre sobrinhos e outros parentes, que foram para o Paquistão depois da independência, em 1947. Só em 2010 os diários de Karim apareceram, finalmente, contando a história pelo lado do indiano, com um determinado grau de detalhes.

Com base nesses diários foi lançado o livro Victoria and Abdul: The True Story of the Queen's Closest Confidant, de Shrabani Basu, e foi a partir desse livro que Lee Hall escreveu o roteiro do filme de Frears.

Judi Dench e Ali Fazal
Judi Dench dispensa comentários. É uma das melhores atrizes vivas e sua performance é irrepreensível. É um corolário perfeito para "Mrs. Brown". A rainha está agora com 70 anos e no luto permanente em que vive desde a morte de seu marido, quase três décadas antes, ela se deixa encantar (como deixara antes, com Brown) pela amizade do indiano, a oportunidade de aprender uma nova língua, de conhecer melhor a cultura de seus súditos e de valorizar um povo que estava sendo ignorado pelo império britânico. É, por sinal, onde reside uma das poucas falhas de "Victoria & Abdul": a maneira como é mostrada a passagem do tempo. Karim é enviado à Inglaterra para entregar uma comenda qualquer à rainha em 1887, e entre idas e vindas ele esteve próximo a ela até 1901. Essa elipse de quase quinze anos não é bem mostrada no filme. Ninguém envelhece, não há maior indicação de que os anos estão passando e só quando a rainha tem seu notável monólogo (para rechaçar a ameaça de destitui-la do cargo por insanidade, quando ela fala sobre dar o título de "Sir" a Karim) é que ficamos sabendo que ela já está com 80 anos.

Judi Dench e Ali Fazal
Outro problema que poderíamos aventar é o maniqueísmo do filme; Karim é retratado como uma figura sem quaisquer defeitos. Não duvido que fosse uma boa figura, mas também era humano e é inocência achar que durante quinze anos sua presença no reino foi absolutamente imaculada. De qualquer forma, o que fica é a ótima performance de Ali Fazal. O elenco todo, aliás, é brilhante.

O filme recebeu indicações para Figurino e Maquiagem. É deprimente. Mas nunca se esperaria mais de um prêmio tão poluído, política e moralmente, como o Oscar. A performance de Judi em "Mrs. Brown" é considerada um dos melhores trabalhos de uma atriz em todos os tempos, e ela perdeu o Oscar para uma atriz qualquer de sitcoms, cuja carreira evaporou, desde então. Coberta de vergonha, como sempre, a academia tentou se redimir dando a Judi um Oscar de consolação como Atriz Coadjuvante no ano seguinte, por "Shakespeare in Love". Desta vez ela sequer foi indicada. Lamentável. Não inesperado, mas lamentável. Bom saber que o Oscar não significa nada para a realeza teatral britânica, da qual Judi sempre foi uma das rainhas.

Recomendo. E recomendo que quem não viu "Mrs. Brown", veja o quanto antes. Há que ver os dois.


LADY BIRD

Depois de uma série de filmes que vai de bom a ótimo, temos a primeira baixa: "Lady Bird", escrito e dirigido por Greta Gerwig. Não tenho palavras para descrever minha decepção. Primeiro porque o cartaz mostra Saoirse Ronan de perfil, com um penteado estilizado, uma cor forte, o nome é escrito em letras góticas, me pareceu algo medieval e fiquei curiosíssimo. Quando fui ver, era uma bosta de um draminha adolescente!

Nem vou perder tempo: teenage crap com elenco acima da média, pura e simplesmente. Menina pobre e esquisita, começa a ficar popular, a melhor amiga gorda passa a ser ignorada, a mãe é megera e o pai é bonzinho, o irmão é um babaca, ela se decepciona com a nova amiga bonita e falsa, se decepciona com os namorados, todo mundo chora, fazem as pazes, ela vai estudar em outra cidade, blá blá blá, a mesmíssima merda de qualquer filme com a tag coming of age. Um sortido de clichês e pieguices da pior qualidade. E como se não fosse suficiente, Saoirse Ronan (de quem sou fã) tem 24 anos, está com cara de bem vivida, longe de parecer adolescente, e, embora seja excelente em tudo que faz, está passada demais para o papel de uma colegial novinha e boba.

Inacreditável que essa bosta tenha recebido CINCO indicações! Saoirse para Melhor Atriz, Laurie Metcalf, Melhor Coadjuvante, Greta para Roteiro e Direção, e ainda Melhor Filme! É o "La la Land" deste ano. Não merece NADA.

Argh.

CALL ME BY YOUR NAME

Família de americanos mora no norte da Itália. O filho, Elio (Timothée Chalamet), é sensível, toca piano, vive lendo e tem suas aventurinhas com as meninas locais. O pai (Michael Stuhlbarg) é arqueólogo e hospeda seu assistente, o também americano e cultíssimo Oliver (Armie Hammer). Oliver é mais velho, bonito, as meninas todas gostam dele mas pinta um clima inesperado entre ele e Elio. Os dois lutam contra isso no início mas eventualmente se rendem à paixão, que dura o período da hospedagem de Oliver e termina quando ele vai embora. Elio fica arrasado mas recebe inteiro apoio moral dos pais. Nada de novo. É mais um coming of age, só que gay, dentro de um espectro mais curto de tempo, sem sofrimentos ou dramas desnecessários e substituindo as americanices de classe média baixa por paisagens espetaculares e o adorável modus vivendi italiano.

Achei fraquíssimo e insanamente longo. O romance surge do nada, não tem razão de ser, os dois não têm química e Army Hammer está desconfortável e artificial. Os dois atores estabeleceram limites para as cenas de sexo e proibiram contratualmente o nu frontal. Timothée Chalamet me faz lembrar Patrick Dempsey; um anti-galã adolescente de Sessão da Tarde. Sua cena transando com um pêssego é bizarra e é um exagero absurdo indicá-lo por este papel. Além de Melhor Ator, há mais três indicações. Não merece.

PHANTOM THREAD

Falei cedo demais que "Lady Bird" era o "La la Land" deste ano. Não é. O "La la Land" deste ano é pior que "La la Land". É "Phantom Thread". Paul Thomas Anderson é talentoso mas irregularíssimo. "Phantom Thread" é Anderson tentando ser Scorsese tentando ser James Ivory. É art-house pretentious crap em potência máxima. É um pedaço de isopor servido com caviar, salmão, damascos secos, queijo roquefort e vinho francês. São intermináveis, massacrantes duas horas e dez minutos (que eu evidentemente não assisti) de Daniel Day Lewis, o ator mais superestimado de todos os tempos, o pior dos sensaborões, a mais deslavada das farsas hollywoodianas, espalhando as mesmas caretas e a mesma inanição interpretativa de sempre.

Como de praxe, assisti trinta minutos e parei. A trama fantasma - o título já é uma piada pronta - é fantasma. Talvez seja conhecida em reuniões mediúnicas ou em mesas de tabuleiro ouija. Durante trinta minutos vemos Lewis vestindo uma mulher. Lamento pelos fãs, mas me faltou curiosidade para saber o que acontece nos 100 minutos seguintes. Foi indicado a seis Oscars. Meus pêsames.

GET OUT

É curioso ver as regras fundamentais do Oscar sendo quebradas, ao longo dos anos. Antigamente, para que um filme de terror chegasse ao Oscar tinha que ser no mínimo uma obra-prima, como "O Exorcista" (indicado a dez estatuetas, ganhou duas). Qualquer coisa a menos, não era menosprezado, mas não tinha lugar na celebração anual da academia. "Get Out" qualificaria como o "qualquer coisa a menos". Absolutamente não compreendo esse filme constar da lista de indicados, e muito menos receber quatro indicações.

Posso fazer dois comentários sobre o roteiro de Jordan Peele. O primeiro ficou claro para mim rapidamente: a influência que "Get Out" recebe de M. Night Shyamalan e Charlie Kauffman é tão óbvia que beira o pastiche. Há cenas no filme que são praticamente retiradas de filmes dos dois. Se não é homenagem, é plágio. A cena do velho explicando num filminho a coisa toda da "coágula" é calcada em "Being John Malkovitch". Até Catherine Keener está nos dois filmes.

O segundo comentário seria o subtexto racista, mas esse - juro - não me caiu a ficha enquanto eu via o filme. A premissa é de uma família de psicopatas que seqüestra negros e realiza procedimentos cirúrgicos a la Frankenstein para torná-los manipuláveis como fantoches (há que ver o filme para entender). Sinceramente, a coisa toda é tão bizarra que racismo foi a última coisa que pensei. Se há ou não esse subtexto, não sei. Eu não percebi.

O que sei é que o filme é medíocre. Boilerplate suspense. É interessante, é bom entretenimento, mas em circunstâncias normais, nunca seria indicado. Me parece a academia querendo ser etnicamente correta. Foi indicado a Melhor Filme, Direção e Roteiro, e Melhor Ator para Daniel Kaluuya. Não merece nenhum.

MUDBOUND

É baseado no livro de Hillary Jordan e tem roteiro de Virgil Williams e Dee Rees, sendo que esta última também dirige. O filme é sobre o relacionamento entre duas famílias do Mississipi - uma branca, de fazendeiros pobres, e uma negra, de trabalhadores dessa fazenda - que mandam filhos para a Segunda Guerra. Quando voltam, os dois formam uma amizade inusitada e perigosa, em uma região de racismo encarniçado e grande poder do KKK.

Bom elenco, Carey Mulligan está adorável como sempre, boa fotografia, e mais do mesmo. Já vimos dezenas de filmes sobre o racismo no Mississipi. Para os padrões da Netflix e de seu público, está ok. Foi indicado a quatro Oscars: Melhor Atriz Coadjuvante - a cantora Mary J. Blidge, boa - Roteiro Adaptado, Direção de Arte e Música Original, novamente com Mary.

É um filme loooongo... loooongo...

THE SHAPE OF WATER

Vejamos... junte "Amelie Poulain" e "Hugo Cabret" com "Beauty and the Beast" e "Little Mermaid" no mesmo liquidificador e temos os ingredientes para "The Shape of Water". A história se passa em Baltimore na década de 60. De dia Elisa (Sally Hawkins), uma jovem muda, trabalha como empregada de um artista (Richard Jenkins) cuja arte está em decadência, e de noite ela e sua colega Zelda (Octavia Spencer) são faxineiras de um laboratório militar secreto que abriga um ser anfíbio, capturado - onde mais? - na selva amazônica.

Elisa verifica a crueldade com que o ser é tratado pelo seu captor, Richard Strickland (Michael Shannon), e se compadece da criatura. Mais do que isso, quando não há ninguém por perto ela se aproxima da criatura e forma com ela uma relação estranha e íntima. Ela entra em desespero quando descobre que o plano dos militares é simplesmente matar e dissecar a criatura; sendo um ser anfíbio, mas bípede e tendo notáveis traços humanos, ele pode possuir a chave de uma respiração alternativa, o que seria de extrema utilidade dentro do plano para superar os russos na corrida espacial. Elisa fará tudo para impedir a morte da criatura e nisso entrarão em questão sua origem e as razões pelas quais está fazendo isso.

Sally Hawkins: Eliza
Assim como "Amelie Poulain" e "Hugo Cabret", que são influências decisivas nesse trabalho de Guillermo del Toro (roteirista e diretor), "The Shape of Water" é plasticamente bonito e tem uma trilha sonora lindíssima, de Alexandre Desplat. Mas como não é a primeira vez que vemos essa linguagem ser usada, não chegou a me provocar a catarse de Amelie ou a emoção de Cabret. Além do fato de que as tramas não são suficientemente desenvolvidas, então o enredo colateral do artista velho, por exemplo, que se apaixona por um moleque que vende tortas acaba ficando pela metade, sem razão de ser, assim como a paixão dele e de Eliza por musicais, ela saber sapatear, e etc. São coisas mostradas uma ou duas vezes, despertam interesse e desaparecem. A melhor coisa de todo o filme, no fim das contas, é a interpretação linda e delicada de Sally Hawkins. Não sei se chega a ser oscarizável, mas é natural e convence.

"The Shape of Water" recebeu treze indicações. Filme, Direção, Roteiro, Atrizes Principal e Coadjuvante, Ator Coadjuvante e uma pilha de prêmios técnicos. Estou torcendo para que Margot Robbie ("I, Tonya") leve a estatueta de Melhor Atriz, mas se ela não vencer, não me importaria que o prêmio fosse para Sally.

Recomendo. É bonitinho. Já assistimos várias vezes esse mesmo filme ao longo dos anos. Mais uma vez não fará diferença.

THREE BILBOARDS OUTSIDE EBBING, MISSOURI

Direção e roteiro de Martin McDonagh, o filme é sobre Mildred (Frances McDormand), moradora de uma pequena cidade do interior norte-americano, que tempos antes teve sua filha estuprada e assassinada. O crime permanece sem solução e, não suportando aquilo que considera ser indiferença da polícia local, ela resolve colocar três outdoors em que questiona a polícia por não prender nenhum suspeito, e cita o delegado Willoughby (Woody Harrelson) nominalmente. A população fica dividida; há um consenso de que o crime deve ser solucionado, mas Willoughby é bem-quisto; é um policial de bom caráter, um homem de família e, como se verá logo no início, ele está morrendo de câncer. Por outro lado, um dos colegas de Willoughby, Dixon (Sam Rockwell), é um sujeito considerado burro e de maus bofes, e envolvido em um episódio de tortura de um suspeito negro. As opiniões se dividem, o filho de Mildred sofre bullying, ela e sua amiga são ameaçadas por desordeiros mas ela não se deixa intimidar.

Mesmo sendo um drama, as cenas de comédia roubam o filme. Os diálogos entre Woody Harrelson e Sam Rockwell são absolutamente hilários, assim como as pérolas vertidas pela menina com quem o ex-marido de Mildred se casou, e até o cameo de Peter Dinklage. Estão todos sensacionais na comédia e também muito competentes no drama. McDormand tem a performance impecável de sempre. Harrelson passeia pelo papel. Rockwell se dá bem no papel de completos losers mas já provou em outras ocasiões ser um ator versátil.

O filme foi indicado a sete Oscars: Melhor Filme, Melhor Atriz e Melhor Ator Coadjuvante duas vezes (Rockwell e Harrelson), o que acho estranho, porque embora McDormand seja a única verdadeira protagonista, Rockwell é, efetivamente, o ator principal. Há também Trilha Sonora, Roteiro e Edição. McDormand e Rockwell já levaram o Globo de Ouro. É possível que repitam o feito na academia. Harrelson também está bem cotado. Os três merecem.

Recomendo.

THE FLORIDA PROJECT

Ainda não aprendi a lidar com essa mistura de cinema e pseudo-assistência social. "The Florida Project" ("project" no sentido habitacional, como o "Projeto Cingapura", significando um conjunto habitacional para pessoas menos favorecidas) é um filme sobre o dia-a-dia de inutilidade, vadiagem, vandalismo, maus exemplos e burrice de uma jovem (Bria Vinaite) que mora em um desses projetos, sua filha (a excelente Brooklynn Prince) e os amiguinhos. Ninguém trabalha, ninguém faz nada, a jovem é desocupada, rouba lojas para pagar o aluguel, vive falando palavrões, arranja confusão com todo mundo e a filha observa isso tranqüila e bem-humorada, e tem o desejo de conhecer a Disneylândia, que fica perto dali, com sua amiguinha (Valeria Cotto, também ótima). E no meio está o zelador (Willem Dafoe) para pôr panos quentes nas merdas que a jovem vive fazendo.

Moral da história: há pessoas que vivem nessa situação. Só. É a indicação mais fácil já recebida por um ator (Dafoe) em todos os tempos. Se o filme tem a pretensão de mostrar essa realidade, não precisava ter levado intermináveis duas horas para isso. Uma hora estaria de ótimo tamanho. Ou, melhor ainda, da próxima vez façam um documentário.

OUTROS


Beauty and the Beast - Versão cinematográfica do desenho clássico de 1991. É bom mas padece do mesmo defeito de 99% dos musicais hollywoodianos de hoje: os atores não são cantores. A trilha sonora de Alan Menken e Howard Ashman precisa de grandes cantores e tanto quanto eu amo Emma Watson, me dói na alma vê-la desperdiçar uma obra-prima como "Belle", já no início. O mesmo com Josh Gad desmunhecando demais e cantando de menos a linda e divertida "Gaston". Emma Thompson é um caso curioso: ela é atriz de teatro e tenho a trilha sonora de "Me and My Girl", que ela fez com Robert Lindsay, e Emma canta muito bem! No papel de Mrs. Potts, entretanto, ela derrapa. Sentimos muita saudade de Angela Lansbury. Enfim, o clima do desenho era bem mais light. O filme é bom, mas o desenho é melhor. Indicado a Melhor Figurino e Design de Produção.

Marshall - Thurgood Marshall foi o primeiro negro a fazer parte da Suprema Corte norte-americana, indicado por Lyndon Johnson. O filme em questão é sobre um caso defendido por ele no início de sua carreira, quando era destacado pela NAACP para defender negros em tribunais por todo o país. Neste caso trata-se de uma jovem socialite que acusa o empregado negro de seu marido de estupro e tentativa de assassinato. É razoável. Bastante raso. Chadwick Boseman não tem rios de carisma, o mesmo pode ser dito de Josh Gad e o filme acaba sendo agradável pela presença sempre deliciosa de Kate Hudson. Indicado peça canção "Stand up for something".

Blade Runner 2049 - O que dizer deste filme... eu quero elogiar, mas... vejamos:
1 - O clássico de 1982 dirigido por Ridley Scott tem uma hora e cinqüenta e sete minutos. Esta continuação tem duas horas e quarenta e quatro. Já não é bom sinal.
2 - Philip K. Dick, o autor da história original, morreu antes mesmo do primeiro filme ser lançado e não escreveu esta segunda história. Ela ficou a cargo de um dos roteiristas do primeiro filme, Hampton Fancher. É outro problema.
3 - O filme de 1982 reuniu um dos melhores elencos de todos os tempos. Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young e Daryl Hannah. Cada um deles transformou seu personagem em um clássico; todos são únicos, todos são protagonistas. A performance de cada um está gravada a ouro na história do cinema. Está longe, muito longe, mas muuuuuuito longe de ser o caso, neste novo filme.
4 - Quem assiste esta continuação quer uma única coisa: rever os personagens originais, de um jeito ou de outro. E somos submetidos à tortura da inexpressividade de Ryan Gosling durante uma hora e quarenta e cinco minutos até que isso aconteça.
5 - Quando finalmente acontece, não é a catarse que imaginávamos.
6 - Para que não se diga que não elogiei, Ana de Armas (Joi) e Mackenzie Davis (Mariette) são a própria definição de eye candy.

Eu diria que vale por rever Ford como Deckard. Não adianta recomendar ou não; quem viu o filme de 1982 não vai agüentar de curiosidade. Foi indicado a cinco Oscars: Direção de Arte, Design de Produção, Edição de Som, Mixagem de Som e Efeitos Especiais.

Baby Driver - Garoto (Ansel Elgort) ouve música sem parar em um Ipod porque sofre de tinnitus (um zumbido permanente nos ouvidos). Tem uma dívida com um chefão do crime (Kevin Spacey), de quem roubou um automóvel, tempos antes, e como demonstrou habilidade ao volante, o chefão o deixa pagar a dívida trabalhando como motorista na fuga dos assaltos realizados por suas quadrilhas. A coisa funciona bem até que um dos bandidos (Jamie Foxx) resolve agir por conta própria e compromete o negócio todo. Assisti com a mais rematada má vontade e acabei gostando. A música constante dá nos nervos, em alguns momentos, e há cenas do garoto dançando, passeando e outras encheções de lingüiça, mas no cômputo geral é um ótimo filme de ação. Jon Hamm e Elza González fazem um divertido casal de criminosos e Lily James (Debora) é adorável. Recebeu três indicações: Edição, Edição de Som e Mixagem de Som.

Wonder - História de um menino, Auggie (Jacob Tremblay), que tem uma deformidade facial e depois de algum tempo recebendo aulas de sua mãe (Julia Roberts), vai à escola pela primeira vez. Durante o ano em que dura o filme, ele vai enfrentar bullying, terá bons amigos, sofrerá decepções, alegrias e etc. Sua irmã mais velha, Via (Izabela Vidovic), está passando por um momento difícil porque perdeu a avó (Sônia Braga, em cena única, num flashback) e sua melhor amiga (Danielle Rose Russell) agora anda com a turma cool da escola e não lhe dá mais atenção. O teatro e um namoradinho vão fazê-la melhorar. Feel good movie sobre a dificuldade de ser criança na escola e sobretudo se você tem uma deformidade. Embora já tenhamos visto dezenas de filmes iguais, "Wonder" se assiste com algum prazer. Foi indicado a Melhor Maquiagem.

Logan e Barnum: dobradinha de Hugh
The Greatest Showman - Musical sobre o empresário circense P. T. Barnum, criado por Jenny Bicks e roteirizado por ela e Bill Condon, com direção do estreante Michael Gracey. As músicas são de Justin Paul e Benj Pasek, de "La la Land". A história é completamente romanceada e não tem maior compromisso com a verdade, o que não é um defeito; o objetivo do filme é ser um musical agradável e não uma biografia definitiva de Barnum. As músicas são razoáveis, no nível infanto-juvenil de "La la Land", e nenhuma realmente memorável. O grande mérito de "The Greatest Showman" é trazer o carismático Hugh Jackman no papel de Barnum. Há também a presença sempre positiva de Michelle Williams e uma menina lindíssima chamada Zendaya. Pelo lado negativo, um papel de relevo foi dado ao lamentável canastrão Zac Efron. É um musical ok e será esquecido, assim como "La la Land". Indicado pela canção "This is Me".

Logan - Gostei, mas não entendo o carnaval em cima desse filme. Ok, há uma certa mística por ser o fim da saga de Wolverine, é tocante ver Logan e Charles velhos e decrépitos, mas daí a entrar em grandes discussões artísticas sobre o porquê de "Logan" ter recebido uma indicação e a "Mulher Maravilha" não ter recebido nada é uma piada! Nenhum dos dois merece indicação nenhuma! São filmes de super-herói, há dezenas todo ano, obedecem um formato, são basicamente a mesma coisa. Este último filme de Logan usa o artifício mais manjado de todos os tempos, em continuações, que é enfiar uma criança no meio, pra ver se muda a dinâmica desgastada dos personagens e apela para um público mais jovem. O filme é bom, só isso. Não vamos exagerar. Foi indicado por Roteiro Adaptado.

Coco - Animação da Disney que tem como tema o Dia de los muertos, que é o Dia de Finados tal qual se comemora no México, só que ao invés de ser uma data de tristeza e morbidez, é uma celebração com direito a homenagens e oferendas. A história gira em torno de um menino que quer ser músico mas sua família é contra porque seu tataravô era músico e abandonou a mulher e a filha por uma carreira de sucesso. No Dia de los muertos o menino acaba, por engano, indo parar no mundo dos mortos e tenta encontrar seu tataravô, cuja benção pode mandá-lo de volta para o mundo dos vivos. Muito bonitinho, como todas as animações da Disney, e há sempre uma lágrima de emoção no fim. As imagens e símbolos da celebração mexicana são um espetáculo visual do melhor gosto, que a um tempo mantém a leveza e respeita a seriedade do tema. Indicado para Melhor Longa de Animação e a canção "Remember Me".

The Breadwinner - Baseado no best-seller homônimo da escritora canadense Deborah Ellis. É a história de uma menina de onze anos, Parvana, que mora com seus pais, sua irmã e um irmão ainda bebê na conflagrada Cabul. Quando o pai é preso sem qualquer acusação, por pura crueldade dos talibãs, a família fica sem ter como se sustentar; pela lei local, as mulheres não tem direito nem de sair de casa se não estiverem acompanhadas do pai, do marido ou de um irmão. Parvana então corta o cabelo, se veste com as roupas de um irmão morto pouco antes (por uma mina terrestre) e se finge de menino. Começa a trabalhar para alimentar a família e divisa um plano para resgatar seu pai.

É uma linda história (Ellis passou meses em campos de refugiados paquistaneses fazendo pesquisa), muito emocionante, carregada de dramaticidade mas tratada com muita delicadeza pela diretora Nora Twomey. Foi indicado a Melhor Longa de Animação. É um páreo duro com "Coco". Por um lado temos uma comédia baseada em um assunto relativamente triste, e do outro um drama cheio de esperança sobre um assunto trágico. Os dois merecem o prêmio.

Guardians of the Galaxi Vol.2 - Legal mas não supera o primeiro, que foi diversão do início ao fim. Este conta com a presença de Kurt Russel e Sylvester Stallone, o que é bom, mas as palhaçadas estão ficando previsíveis e sinto que a franquia vai cansar, se o próximo não for excepcionalmente bom. Seguindo a chatíssima tendência cinematográfica e televisiva deste ano, os hits ininterruptos dos anos 70 e 80 dão nos nervos. Indicado por Efeitos Especiais.

Star Wars: The last Jedi - Ainda não vi mas verei em breve. Se bem que não preciso assistir para saber que a trilha sonora de John Williams deve ser mais um diamante na coroa desse gênio, que é o nosso Beethoven contemporâneo. Indicações para Trilha Sonora, Efeitos Especiais, Mixagem de Som e Edição de Som.

The Big Sick - Comecei a ver mas me deu sono. Talvez um dia. Indicado a Melhor Roteiro.

Kong: Skull Island - Efeitos Especiais. Não vi e não verei. Já assisti as versões de 1933, 1976 e 2005, e por causa de Charlize Theron ainda vi um genérico chamado "Mighty Joe Young", de 1998. Chega.

War for the planet of the apes - Efeitos Especiais. Não vi e não verei. Cresci com a versão de Charlton Heston e Roddy MacDowall, e é o suficiente.
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(Escrito entre 25/1 e 11/2/2018).
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domingo, 12 de novembro de 2017

Waack



Throwing in my two cents.

1 - Vazou na Internet um video da cobertura das eleições norte-americanas do ano passado, em que, fora do ar, William Waack se irrita com uma buzina próxima ao local da transmissão e diz "é preto, né? É coisa de preto. Com certeza", para um sujeito qualquer ao seu lado. O video provocou o afastamento imediato de Waack do Jornal da Globo e a justa revolta não só de movimentos negros mas de qualquer pessoa contrária ao racismo.

2 - Concomitante à revolta daqueles que condenam a declaração de Waack, surgiu, inesperado e surrealista, um cordão de indignados promovendo a DEFESA do âncora do Jornal da Globo. Segundo esse grupo, bastante vocal e nada discreto, formando por colegas, amigos e brancos de direita, Waack: a) foi pego "sem saber", "em um momento privado"; b) quem vazou o video o fez por oportunismo, porque esperou um ano; c) é uma vingança política da Globo contra seu próprio funcionário, porque Waack é um homem politicamente lúcido e não teve pejo de se pronunciar contra a desgraça promovida nacionalmente pelo PT nos últimos 14 anos; d) errar é humano. Quem nunca errou que atire a primeira pedra; e) não se deve promover o "linchamento" internético de uma pessoa.

3 - Vamos desmontar calmamente e sem gritaria os argumentos dessa inusitada defesa de Waack. Até porque eles são de um raquitismo absoluto.

a) "ele ter sido gravado fora do ar" — Sei. Incrível como a direita é capaz de usar as mesmas desculpas da esquerda que tanto condena. É precisamente essa a lógica esposada por reservas morais como Lula e Dilma no episódio das gravações do "Bessias" e do "tchau, querida". Foram gravados sem saber. Uma conversa íntima e pessoal, que não deveria ter ido a público. O crime, então, deve ser perdoado in limine. Ou seja, amanhã qualquer pessoa que estiver cometendo um crime poderá alegar que não pretendia que aquilo fosse a público, desde o político que delinqüe até o pedófilo que está em frente a seu computador, o empresário que está em um puteiro de luxo, o sujeito que faz bullying internético e assim por diante.

Não cola. Em primeiro lugar não havia nada de íntimo no ambiente em que o comentário foi feito. E mesmo que houvesse, as circunstâncias em que o comentário foi proferido não incidem no teor racista da declaração. É ridículo. É anacrônico. É a mesma defesa cretina que poderia ser utilizada para justificar o assédio sexual. “Estávamos entre quatro paredes”. O local não influi. O que importa é o que foi dito. Não é menos racista porque foi murmurado. Pelo contrário. É célebre o vídeo de João Figueiredo que apareceu, depois de sua morte, em que ele descreve, em uma festa, o abraço que recebeu de uma negra, e que mesmo depois de tomar banho, “ainda tinha o cheirinho de crioulo”. É menos racista porque ele estava em uma festa ou porque estava de pileque? No mesmo video ele fala mal de Roberto Marinho. É menos racista porque sabemos que essa cena só foi ao ar por retaliação da Globo? Bullshit.

b) “o vídeo foi vazado por oportunismo”  Dane-se. Não sei quem vazou. Não me importei em saber. Não quero saber. Não sei se foram pagos pelo PT, pelos Panteras Negras ou pela Congregação Mariana. Não sei as razões pelas quais o fizeram. O racismo é o mesmo. Novamente nos vemos diante de uma lógica completamente torta, criada para amoldar o mal-feito. Por esse raciocínio não aceitaremos mais delações premiadas porque são oportunistas. São mesmo. Não interessa. Como se diz em Direito, “não elide o crime”. Se amanhã descobrirmos que os sujeitos que vazaram o video eram canalhas e bandidos, que a justiça faça picadinho deles. Enquanto o vídeo for verdadeiro, não perdoará o racismo de Waack.

c) “é uma vingança política”  É um dos argumentos mais idiotas que já ouvi. A direita e a esquerda radicais vão ver conspiração até no Castelo Rá Tim Bum. O Waack está na Globo há séculos e nunca teve esse poder todo; a emissora pode ter todos os defeitos do mundo mas nunca contratou ou demitiu por ideologia, e se tudo isso não fosse suficiente, ficaria o absurdo de queimar um sujeito publicamente quando a situação já está clara e cristalina, as cartas já estão na mesa, o PT já foi pro vinagre, o Temer já está no vinagre e não haveria nada que o âncora do jornal da madrugada pudesse fazer ou desfazer para mudar isso. Querer politizar um crime de racismo é o mesmo que politizar ou ideologizar o movimento LGBT. Um dia o povo vai perceber que determinados movimentos tem a ver apenas com o ser humano, e não com ideologia e política.

d) “quem nunca errou que atire a primeira pedra”  Embora indevido, este argumento merece uma reflexão. Não sou nenhuma vestal de moralidade inatacável e sei muito bem que os tempos mudaram. Quando eu era criança essa era uma expressão comum. “Isso é coisa de preto”, “só podia ser preto” e inúmeras outras que o povo da minha geração lembra e não vem a pelo declinar. Eu, por exemplo, era beiçudo e muitas vezes disseram que eu tinha “boca de preto”. Jamais me ofendeu. Sempre achei graça. Dizer que algo ridículo e tosco era “uma baianada” ou “coisa de baiano” era corriqueiro. Dizia-se com tanta naturalidade que ninguém sequer pensava nos baianos. Era uma expressão que transcendia seu significado semântico. Era possível dizer para um homossexual coisas como “pára com essa viadagem” exatamente da mesma forma como isso seria dito a um hetero, sem que a referência tivesse qualquer coisa a ver com a sexualidade da pessoa. Eram expressões enraizadas em nossa língua, para o bem ou para o mal.

Só que as coisas mudaram muito. Está longe, num passado remoto, o tempo em que eu podia classificar meu melhor amigo de adolescência, que é mulato, de “mulato”. O que ontem era a definição de uma pessoa gerada por um branco e uma negra ou uma branca e um negro tem hoje vinte definições pejorativas antes dessa. Um dos comediantes mais brilhantes, progressistas e dedicados à causa negra e a demais minorias, nos Estados Unidos, Bill Maher, entrevistava recentemente um senador de Nebraska, e em meio à conversa, descontraída e divertida, o senador o convidou para “trabalhar nos campos” do Estado. Mahr replicou, no mesmo tom de galhofa: “Senator, please, I’m a house nigger”, em referência aos escravos que trabalhavam dentro das casas, ao invés de trabalhar em plantações. Desagradou o público em geral e a comunidade negra em particular. Naquele momento ninguém parou para pensar que o termo nigger só se transformou em ofensa capital de algumas décadas para cá e que em um dos maiores clássicos da literatura norte-americana, Adventures of Huckleberry Finn há um personagem referido ocasionalmente como “Nigger Jim”. O que ficou foi a palavra sendo usada hoje.

Na semana seguinte Mahr se desculpou e levou vários negros para falar sobre o quanto expressões e brincadeiras que em outras épocas poderiam ser inofensivas, são, hoje, degradantes e prejudiciais à causa dos negros. O episódio foi superado. Por quê? Porque temos a diferença evidente entre uma brincadeira infeliz feita por um comediante que é, ao mesmo tempo, um humanista e um notório defensor da causa negra, e o comentário sub-reptício e racista de um apresentador que não sabia que estava sendo filmado.

e) o “linchamento” internético  Esse é um argumento curioso. Vi pessoas da melhor qualidade intelectual reconhecendo que o comentário é racista mas que os ataques na Internet são errados. Não sei bem como interpretar isso; então ele é culpado mas ser fritado pela Internet é punição severa demais? Ele é culpado mas deveria receber um tapa na mão e a Internet deveria permanecer calada? Como isso funciona em relação à política? Lula e Dilma combinaram a blindagem de Lula pelo telefone via Bessias, mas a Internet não pode fritar nenhum deles? Harvey Weinstein e Kevin Spacey assediaram homens e mulheres durante anos, mas vamos ficar quietos porque o “linchamento” internético é errado?

Não. “Linchamento” internético é o que sofreu a mulher do Temer, que virou piada e foi agredida durante dias por algo que não disse. O “linchamento” é errado quando a pessoa não cometeu o crime. Se cometeu, como evitar isso, considerando a força das redes sociais? Como evitar isso num país onde impera a impunidade? Como evitar isso, sendo um jornalista da maior emissora do país? Não há como evitar. Nos tempos de hoje, é questão de tempo até que todos nós tenhamos nossos quinze minutos de fama internética, e nossos quinze minutos de desgraça internética.

Enfim, sei que Waack — a quem continuo admirando como jornalista — não está queimando cruzes no quintal. Sei que não lava a mão cada vez que cumprimenta um negro e não está pedindo a volta da escravidão. E sei quanto é difícil termos que condenar o comportamento de alguém que até o momento estava acima de qualquer suspeita. Não estou dizendo que ele deve ser execrado eternamente. Pode pedir desculpas, se retratar e vida que segue. O que não posso concordar é com movimentos de desagravo, de solidariedade e não mais o quê, como se ele tivesse sido vítima de alguma coisa além de suas próprias declarações. Seu comentário foi racista, sua punição foi justa e defendê-lo é consentir com o que foi dito.

Bernardo 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Minestrone Cultural X


MIDSUMMER

1935 e 1968

As versões cinematográficas de "A Midsummer Night's Dream" de 1935 e de 1999 são conhecidas. A primeira é a pioneira mega-produção da Warner dirigida por William Dieterle, baseada na premiada montagem teatral de Max Reinhardt, com um elenco estelar que inclui Mickey Rooney (Puck), Olivia de Havilland (Hermia), Joe E. Brown (Flute) e outros. A versão de 1999 foi dirigida por Michael Hoffman, se passa na virada do século XIX para o XX e também traz grande elenco, com nomes como Michelle Pfeiffer (Titania), Christian Bale (Demetrius), Calista Flockhart (Helena) e Anna Friel (Hermia).

Perdida nos desvãos do tempo ficou uma versão de 1968, do grande diretor inglês Peter Hall com alunos e mestres da Royal Shakespeare Company. Nada haveria de especial nisso, considerando-se que se trata de filmagem sem grande apuro técnico, feita apenas para eternizar a montagem teatral da época. O que conta neste caso também é o elenco, que conta com figuras que iniciavam ali suas carreiras mas que brilhariam intensamente até hoje, como Ian Holm (Puck), Helen Mirren (Hermia), David Warner (Lysander) e Diane Rigg (Helena), entre outros.

Enquanto o Bottom de Kevin Kline, em 1999, recebeu apenas maquiagem e orelhas de burro, vemos (na foto) que a transformação do personagem foi basicamente idêntica em 1935 a 1968. Uma divertida máscara de burro, que permitia pequenos movimentos da boca, cobriu tanto James Cagney, em 1935, frente à maravilhada Titania de Anita Lousie, quanto Paul Rogers, em 68, junto à jovem e linda Titania de ninguém menos do que a hoje famosa e respeitada Dame Judi Dench.

Artigo em breve. (01/05/2017)

INCHON (1981)

Terence Young era um diretor eclético para dizer o mínimo; tinha em seu currículo nada menos do que três dos principais filmes de James Bond ("Dr. No", "Thunderball" e "From Russia with love"), além dos ótimos "Wait Until Dark", com Audrey Hepburn e "L'avventuriero", com Anthony Quinn e Rita Hayworth. Mas tinha também uma lista de filmes menores com Charles Bronson, idiotices como "Le guerriere dal seno nudo" (1973), meteu-se em uma fria com "Jackpot" (1975), estrelado por Richard Burton e Charlotte Rampling, interrompido por falta de dinheiro, e embora ainda contasse com o prestígio da classe artística, sua carreira entrou em decadência em meados dos anos 70. "Bloodline", baseado no livro de Sidney Sheldon e lançado em 1979, trazia Audrey Hepburn como protagonista e um elenco estelar que incluía James Mason, Irene Papas, Omar Sharif e Ben Gazarra. Foi um fracasso absoluto. Mas nada que se comparasse a seu projeto seguinte: um filme sobre a invasão anfíbia de Inchon, durante a guerra da Coréia.

A produção de "Inchon" já começa com inúmeros problemas. Os principais são três: o orçamento do filme - gravado em grande parte na Coréia do Sul - passou de 45 milhões de dólares, um verdadeiro oceano de dinheiro, em 1979; esse dinheiro veio da Igreja da Unificação, a célebre seita coreana fundada e chefiada pelo Reverendo Moon (o que não encontrou objeção de Terence, que certamente não queria repetir o fiasco de "Jackpot"); e por fim, o roteiro de Robin Moore e Laird Koenig é péssimo. O tema da guerra é tratado superficialmente e a história de amor é monótona e implausível. Ben Gazarra é um oficial americano lotado na Coréia do Sul. Ele é casado com Jacqueline Bisset, mas seu casamento naufraga e ele se junta com uma garota local. Quando a guerra da Coréia começa ele se sente obrigado a tirar a esposa do país. Eles se encontram, conversam por cinco minutos e se reconciliam. É ridículo, para não mencionar o fato de que Bisset e Gazarra tinham zero de química.

Terence Young e Olivier
Quanto ao resto do elenco, Olivier faz um bom trabalho no papel de Macarthur. Como já consignei em outros artigos, não sou fã de seu sotaque americano e ele estava visivelmente fragilizado por uma série de convalescenças, mas era um ator tão extraordinário que mesmo quando não estava em sua melhor forma ainda é um prazer assisti-lo. E ele não fazia qualquer segredo sobre o porquê de ter aceito o papel: dinheiro. Honesto o abnegado, não enriquecera com a profissão - mesmo sendo o maior ator shakespeariano do século XX e tendo sido diretor do National Theatre por quase dez anos - tinha filhos adolescentes e pressentindo que sua carreira se aproximava do fim, desejava deixar algum dinheiro para sua família, e sabia que esse dinheiro viria do cinema. Também é muito bom ver o grande Toshirô Mifune, mesmo que lhe tenham dado um papel mínimo que não lhe faz justiça. As garotas coreanas - as atrizes Karen Kahn (Lim) e Lydia Ley (Mila) - são muito boas. David Janssen e Richard Roundtree têm papéis pequenos e dispensáveis.

Cenas de batalha estão acima da média e a partitura de Jerry Goldsmith é boa. A edição é ruim; por conta de pré-estréias em que o público apedrejou a versão final de 140 minutos, o diretor reeditou o filme e quase trinta minutos foram para o lixo. O som também é estranho; tiros de metralhadora às vezes nos lembram o som de desenhos animados. Por essa e por outras, "Inchon" só foi lançado dois anos depois de filmado e recobrou apenas 1/9 de seu orçamento.

No geral, é uma produção defeituosa, mas muito longe de ser o desastre nuclear a que se referem os comentários apocalípticos do IMDB. O filme não foi lançado em VHS ou DVD, o que é uma pena. A pior coisa que eu poderia dizer sobre "Inchon" é que, em vez de um blockbuster (que é o mínimo que se poderia esperar de um filme com um orçamento desses), ele parece um filme feito para a TV. Ou um filme B. Mas quem tiver a chance de assisti-lo, deve fazê-lo. (21/05/2017)

A LOUCURA DO REI GEORGE



George III (1738/1820) foi rei da Inglaterra por mais de quarenta anos. No último quadrante de sua vida ele desenvolveu um transtorno mental que o tornava irascível, hiperativo, inconseqüente e o fazia falar sem parar, em uma blablação incontrolável. Séculos depois, médicos que se debruçaram sobre os registros de seu caso sugeriram que poderia ser uma doença nervosa chamada "porfíria", hoje conhecida e perfeitamente curável.

Na época, porém, depois de tratamentos medievais que em nada melhoraram seu estado, ele acabou sob os cuidados de um médico que tinha métodos nada ortodoxos para tratar a doença do rei.

É o tema do filme The Madness of King George", de 1994, dirigido Nicholas Hytner com Nigel Hawthorne, Helen Mirren e Ian Holm.

A cena a seguir é a do momento em que o médico, Ian Holm, inicia seu tratamento com o rei, interpretado por Nigel Hawthorne. O embate desses dois gigantes, permeado pela música de Händel, cria uma das mais maravilhosas cenas da história do cinema. (06/06/2017)

ORLANDO VILLAS BÔAS
FBF 11/1992


Que bom que esse maravilhoso Orlando Villas Bôas, discípulo digno e admirável de Rondon, está sendo alvo de todos os tipos de homenagens, junto a seus irmãos. Será que alguém também lembrará que o Parque do Xingu foi fundado pelo decreto nº 50.455, de 14/04/1961, assinado por um tal de Jânio? (foto de novembro de 1992, com Orlando e seu filho Noel. Estou com esse boné lamentável porque acabara de entrar no Mackenzie e tinha vergonha de andar por aí com a cabeça raspada) (09/06/2017)

THOTH


(14/06/2017)

SYLVYA (2003)


Muito interessante. Um bom filme com uma ótima dupla de protagonistas - Gwyneth Paltrow e Daniel Craig - sobre uma das figuras mais intensas e mais trágicas da literatura norte-americana: Sylvia Plath. E é pouquíssimo conhecido, provavelmente porque a única filha viva de Ted Hughes e Plath não gostou nada da idéia e impediu a utilização de quaisquer poesias de seus pais no filme.

Um retrato da depressão em uma época pré-Prozac e demais anti-depressivos. (18/06/2017)

ESCAPE (1940)


Drama de um americano procurando sua mãe na Alemanha nazista, contando, para tanto, com a ajuda de uma relutante e bem relacionada americana naturalizada alemã. Elenco impecável encabeçado pelo grande galã Robert Taylor, a primeira dama de Hollywood, Norma Shearer, a magnífica e tão injustamente esquecida estrela de Valentino, Alla Nazimova e, como cereja do bolo, o vilão feito por ninguém menos do que - Dih - o gênio Conrad Veidt.

Recomendo. (28/06/2017)

MIFUNE - THE LAST SAMURAI (2015)

Esperei ansiosamente para poder assistir o documentário de Steven Okazaki sobre o maior dos atores japoneses do século XX, o grande Toshiro Mifune. Admirador de Mifune desde "Shogun" (que assisti quando passou na TV, em 1980) até sua parceria inigualável com Akira Kurosawa, estava louco para conhecer melhor o ator, sua vida e sua obra.

Elementos e recursos para que o documentário fosse excelente não faltaram. Okazaki teve o raro privilégio de entrevistar os filhos primogênitos tanto de Mifune quanto de Akira Kurosawa, além de atores e atrizes que trabalharam com Mifune. A seu dispor esteve todo o acervo da TOHO, do espólio de Kurosawa e o acervo particular da família de Mifune. De quebra, Spielberg e Scorsese deram depoimentos sobre a influência do ator no cinema norte-americano. E com tudo isso, o documentário me decepcionou.

Tem apenas 80 minutos para contar a vida de um ator que fez centenas de filmes e influenciou um século de gerações diferentes de atores do mundo inteiro. Os depoimentos foram superficiais, fontes preciosas foram desperdiçadas e longos minutos foram gastos em histórias colaterais que nada tinham a ver com Mifune. 

Dos dezoito filmes do ator com Kurosawa, Okazaki escolheu três ou quatro para esmiuçar e mesmo assim nada foi dito que já não tenha sido amplamente vergastado por qualquer cinéfilo. Até mesmo as cenas escolhidas foram equivocadas. Quando o assunto é Rashōmon ou Shichinin no Samurai, não são mostradas cenas faladas, de Mifune. Nenhuma. Quando chegamos a Kumonosu-jō, toda uma sequência é gasta para que um ator coadjuvante fale de sua própria cena, e outra é para contar que a cena das flechas foi filmada sem que Kurosawa tivesse feito um seguro de vida para os atores. Muito interessante. Como detalhe. Só que nada mais é dito sobre esse trabalho primoroso de Mifune e Isuzu Yamada. Atrizes como Kyôko Kagawa e Yôko Tsukasa, que contracenaram várias vezes com Mifune e poderiam ter contado detalhes fantásticos tanto de seu processo criativo quanto de suas idiossincrasias, mantiveram-se no raso, na anedota. Culpa do diretor.

É lembrado por Spielberg que "The Magnificent Seven" é remake de Shichinin no Samurai e que "A Fistful of Dollars" é remake de Yojimbo. Mas nem uma palavra é dita sobre "The Outrage", com Paul Newman e Claire Bloom, dirigido por Martin Ritt em 1964, ser remake de Rashōmon .

Spielberg e Mifune

Nenhuma novidade ou insight sobre o rompimento de Mifune e Kurosawa, um daqueles mistérios que há tempos está pedindo para ser resolvido de uma vez. E terminada a parceria, Okazaki parece engatar uma quinta para terminar o documentário, mesmo considerando que Mifune teve pelo menos vinte anos de vida ativa no cinema e na televisão, depois de seu último filme com Kurosawa.

Kurosawa e Mifune
Para o público nerd, George Lucas é ausência imperdoável (e inexplicável), pois é conhecida e confirmada a influência que Kakushi-toride no san-akunin, de 1958, teve sobre toda a concepção da saga Star Wars. Também conhecido é o convite feito por Lucas para que Mifune interpretasse Obi-Wan Kenobi, e a recusa de Mifune, por recomendação de seu empresário cretino. Diz-se por aí, em trivias do Star Wars, que até o capacete de Darth Vader foi desenhado em cima dos capacetes de Mifune em seus filmes de samurai. Lucas, portanto, faz grande falta no documentário.

No mais, nem uma única entrevista de Mifune. Nenhum programa de TV, nenhuma presença em prêmios ou eventos. Me pareceu preguiça do diretor. Mifune era um homem retraído e reservado. Teria sido de valor inestimável vê-lo falar de sua própria vida e de sua carreira. Desconstruir o mito e mostrar sua humanidade. O diretor deveria ter garimpado toda e qualquer cena em que Mifune oferecesse uma peça na qual ajudasse a desvendar o quebra-cabeças de sua personalidade. Tal como foi editado, o documentário é sobre uma figura do século XVIII. Não há registros de voz, não há citações e declarações do próprio.

Uma oportunidade perdida. (19/06/2017)

BIBI SINATRA (Ensaio Aberto, 18/9/2014)



Bibi durante a temporada
de "Bibi canta repertório Sinatra"
No dia 1º de junho o Brasil comemorou os 95 anos de sua estrela maior, Bibi Ferreira. Neste finzinho de mês deixo meu singelo presente a todos os admiradores de Bibi: o ensaio aberto de seu espetáculo cantando músicas que ficaram famosas na interpretação de de Frank Sinatra. Eis o que aconteceu:

A estréia de "Bibi canta Repertório Sinatra" no Teatro Renaissance de São Paulo estava marcada para o dia 19 de setembro de 2014. A fim de acabar com qualquer insegurança em relação ao espetáculo, Bibi resolveu realizar um ensaio aberto na véspera, dia 18, às 21h. As imagens deste video foram feitas por mim naquela noite.

Bibi estava tranqüila. Só desejava mesmo testar as músicas diante do público antes do espetáculo entrar em temporada. Economizou a voz, evitou os agudos, fez recomendações, pediu mudanças aqui e ali, mas sempre descontraída e de bom humor.


Divirtam-se.
Um beijo, minha amada Bibi.

Bernardo (26/06/2017)

MARINA


Simpatia habitual da querida Marina, nos shows do Acústico MTV. (10/07/2017)

TERM OF TRIAL (1962)

Olivier e Signoret em "Term of Trial"
Direção e roteiro do competente Peter Glenville, que embora bissexto já tinha em seu currículo a vitoriosíssima adaptação do "Summer and Smoke" de Tennessee Williams, e seu filme seguinte a "Term of Trial" seria a obra-prima "Beckett", adaptação da peça de Jean Anouilh com Peter O'Toole e Richard Burton. O elenco traz feras como Olivier, Simone Signoret e dois estreantes da maior qualidade: Sarah Miles e Terence Stamp. É a história de um modesto e retraído professor de língua inglesa (Olivier) que foge do alistamento para combater na segunda guerra, o que prejudica sua carreira, impedindo-o de dar aulas em prestigiosas escolas particulares. Restam-lhe apenas as escolas públicas com todos os seus maus-elementos (entre eles, Stamp).

Ele aceita dar aulas de reforço a uma aluna de quinze anos (Miles) e ela se apaixona perdidamente por ele, mesmo sabendo que ele é casado (com Signoret, cujo papel começa magro e sem graça mas ganha inesperado conteúdo com o desenrolar da história). É um filme despretensioso mas muito bem feito e extremamente valorizado pelo elenco. E no entanto é menos do que uma nota de roda-pé na filmografia de todos eles. Inexplicável.

Recomendo. É dificílimo de encontrar mas quem conseguir não deve perder a oportunidade. (21/07/2017)

GOD'S GIFT TO WOMEN (1931)


Caso comum no cinema do fim dos anos 20 e início dos anos 30: uma foto fala mais do que o próprio filme. Neste caso, trata-se de "God's Gift to Women", de 1931, comédia dirigida pelo húngaro Michael Curtiz (que dez anos depois se notabilizaria por dirigir "Casablanca").

Fay e Stanwick
Nesse elenco quem menos importava era a atriz principal, Laura La Plante, que iniciara sua carreira nos primórdios do cinema mudo mas não vingou com o som e se aposentou em 1935 (morreu em 1996, aos 91 anos, olimpicamente esquecida). O filme era veículo para o então galã Frank Fay e o extraordinário elenco coadjuvante feminino.

Fay (o homem da foto) fizera uma transição exitosa do cinema mudo para o falado e era uma grande aposta da Warner. Era talentoso e cantava bem, mas seu sucesso durou pouco. A razão: ele era um ser humano absolutamente desprezível. Era alcoólatra, convencido e sabia-se que batia em suas mulheres. Casou-se com Barbara Stanwick em 1928 e lançou-a no meio cinematográfico. Nos anos seguintes a carreira dela foi ao espaço e a dele foi para o buraco. Separaram-se em 1935. Comenta-se que o filme "Nasce uma estrela" é abertamente baseada na história dos dois.

Para piorar, Fay era anti-semita e a ascensão do nazismo e a conseqüente eclosão da segunda guerra tornaram-no persona non grata em múltiplos círculos de Hollywood. Fez apenas nove filmes nos 30 anos seguintes e morreu no mais completo ostracismo, em 1961.

Fay e Louise Brooks

Blondell e Fay
Na foto que encabeça o artigo vemos, da esquerda para a direita, a francesa Yola D'Avril, que vinha de grandes sucessos que iam do drama "All Quiet on the Western Front" à comédia "Those Three French Girls". A seu lado está ninguém menos do que a maravilhosa Lousie Brooks, sem sua antológica franja, tentando timidamente, na América, chegar ao estrelato que já alcançara na Europa pelas mãos de Georg Pabst. E por fim, a linda e encantadora Joan Blondell, a "It" girl do momento, uma mistura entre Clara Bow e Mae West, com lindos e imensos olhos azuis que o preto e branco omitia criminosamente.

A comédia tem seus momentos. Fay faz um personagem que é descendente de Don Juan e vivia uma vida desregrada e cheia de mulheres até que se apaixona de verdade e tenta mudar seus hábitos. Mas não consegue. Hoje a única coisa que as pessoas se lembram é evidentemente o "catfight" de Brooks, Blondell e D'Avril na cama do convalescente Fay. Um pastelão histórico.

Fay me faz lembrar Bradley Cooper. Poderia ter sido um dos maiores, em Hollywood. Foi um talento desperdiçado. Por ele mesmo. (28/07/2017)


ROGÉRIA


Que tristeza. Rogéria foi uma das pessoas mais inteligentes que já conheci. Ela pode até ter se notabilizado inicialmente como uma travesti no meio artístico, mas como acontece com todo ser humano evoluído, sua sexualidade acabou se tornando mero detalhe em uma existência extremamente mais rica e profunda.

Assim como Elke, que nos deixou igualmente cedo, não havia na vida de Rogéria lugar para ódios e ressentimentos. Ela pairou sobre o preconceito e deixa um legado imenso de talento, nobreza e bom humor. Vai fazer muita falta. (05/09/2017)

VANYA E VANJA


Finalizando o artigo sobre Vanya e analisando alguns filmes que não entraram no texto me deparo com uma curiosa semelhança física: Paul Giamatti, que interpreta um ator em meio a uma montagem de "Uncle Vanya" no filme "Cold Souls", de 2009, está a cara de Arne Lie, personagem título do norueguês "Onkel Vanja", de 1963, dirigido por Gerhard Knoop.

O filme de 63, feito para a televisão norueguesa, traz, entre outros nomes, a linda e jovem Liv Ullmann no papel de Sonya. Já "Cold Souls" teria sido um filme bem melhor se tivesse se concentrado nas cenas de "Uncle Vanya", que Giamatti realiza brilhantemente. (10/09/2017)

90 ANOS DE LAURA CARDOSO

Com Laura em 1990, nos bastidores do Sérgio Cardoso depois de uma apresentação de "Vem Buscar-Me Que Ainda Sou Teu" de Carlos Alberto Soffredini, direção de Gabriel Vilella

Muito está sendo dito por aí sobre Laura ter feito 80 e tantas novelas. Mas ela é um talento tão consumado, tão maiúsculo, que a TV não é suficientemente grande para comportá-lo. Tudo que vi de Laura foi perfeito: no cinema, na TV e no teatro.

E não bastasse ser essa atriz que nos orgulha como brasileiros, ela ainda é um ser humano como poucos. É inteligente, é articulada, é culta. E ao mesmo tempo é simples, é humilde, é acessível, é doce. Quando estudei no Mackenzie, quantas vezes não a vi andando pela Consolação, indo a pé para o SESC, onde encenava "Pedreira das Almas", com Luis Melo? Quantas vezes a abordei, com a mesma admiração, e quantas vezes ela me respondeu com a mesma bonomia e a mesma gentileza?

No ano passado encontrei-a na missa de sétimo dia de meu irmão Flávio Guarnieri. Chegou sozinha, andando tranqüila. Foi dar um beijo em sua amiga Cecilia. Espalhava nobreza e dignidade aos menores gestos. Uma rainha. (13/09/2017)

JERRY



Muito a falar. Muito a agradecer. Tantas "Sessão da Tarde". Tantas gargalhadas, tanta felicidade. Toda a minha infância e minha juventude. Mas ainda não consigo.

Deixo aqui por enquanto "When you pretend", do filme "Artistas e Modelos", que assisti um milhão de vezes. Era o entretenimento de nossas tardes. Uma coisa linda, doce, pura, divertida.

Obrigado, Jerry. (21/09/2017)

J. PEREIRA


Quando decidi criar um blog exclusivo para divulgar a coluna musical que J. Pereira mantinha no Diário da Noite, na década de 50 ("No Mundo dos Discos"), não pensava em outra coisa senão trazer a inteligência e a cultura musical de J. àqueles que não tiveram o prazer de conviver com ele. Disse, no primeiro artigo do blog, em 2013:

"O Brasil é um país sem memória". Frase sovada, cediça... Melhor que repeti-la pela milésima vez, é fazer algo a respeito. Trazer J. Pereira dos arquivos empoeirados e de difícil acesso, para a Internet, ao nosso lado e ao mesmo tempo para o mundo todo, como ele jamais sonhou que poderia, falando com tanta força, tanto vigor, sobre música, 63 anos depois, é fazer algo a respeito.

Hoje tive o supremo prazer de verificar que, embora ainda faltem centenas de artigos para transcrever (tarefa que preciso de tempo e sossego para realizar, e infelizmente ando sem ambos), os 150 artigos que já transcrevi alcançaram seu objetivo: pesquisadores de todo o Brasil o estão consultando e aprendendo com ele. Acabo de saber que um pesquisador da PUC do Rio citou um dos artigos em sua tese de doutorado sobre o compositor Marino Pinto.

Fico muito feliz de ter sido a ponte entre J. e os pesquisadores de hoje.

Tenho certeza de que J. teria adorado. (11/10/2017)

DEZ ANOS SEM PAULO

Com Paulo em 1994, no camarim de "O Céu tem que esperar", no Teatro Villalobos,
Rio de Janeiro. Paulo ainda estava à caráter

Quando Paulo morreu comentei que era cedo demais para falar de alguém que teve tanta influência sobre mim e meu aprendizado teatral. Verifico que passados dez anos, ainda é cedo. Talvez porque ele ainda está muito presente ou porque, com sua morte, não apareceu ninguém para carregar o pesado epíteto de "maior ator brasileiro". Quando Procópio morreu, Paulo declarou: "Evidentemente ninguém poderá substituí-lo". Só que Paulo era não só a substituição, mas a renovação e a ampliação de Procópio. E não ficamos órfãos de um maior ator. Nos anos que sucederam a morte de Procópio, Paulo encenou Molière, Marguerite Duras, Harold Pinter, Poiret, Bernard Slade e Ibsen. Uma versatilidade que Procópio  só viveu através de Bibi.

Na minha adolescência eu sonhava com o Lear de Paulo. Sonhava com seu James Tyrone (que nunca veio, infelizmente). Hoje penso no que teria sido seu Edgar, na "Dança da Morte" de Strindberg, com Marília, Irene Ravache ou qualquer grande atriz dessa geração. Não tenho esses devaneios com nenhum outro ator. Quem mais se aproxima a isso é o maravilhoso Othon Bastos, que embora transborde saúde, já está com 84 anos. Quando Tom Jobim morreu minha querida amiga Tatiana me disse de como era assustador esse processo de "perdermos nossas referências". É o que aconteceu com Paulo. Perdemos nossa maior referência de ator. Temos muitos atores excelentes, mas aquele que foi da tragédia ao musical, da comédia ao drama, do monólogo à novela, esse não existe mais. Sua morte, como disse Fernandona, à época, "é simbólica".

Penso em Paulo todos os dias. Com a mesma saudade. Repito o que disse na época:

E digo, sobretudo, que vou sentir sua falta. Porque Paulo era uma figura benéfica e benemérita. Presente a nossas casas, conhecido por todos. Sentirei falta de sua sinceridade cortante. De sua elegância. De sua risada asmática. Da tranqüilidade e da autoridade com que dizia que "Oriundi" foi uma porcaria. Que adorou Ivanov, do Tapa. Que detestou "Gata em teto de zinco quente" com Vera Fischer. Que considerava a performance de Gianfrancesco Guarnieri em "Ponto de Partida" o maior momento de um ator em todos os tempos. Que gostava muito de Simon Khoury e Alberto Guzik, mas sentia, fundamentalmente, que deu a mesma entrevista durante 50 anos. Que morrer era a coroação da vida. E lembrarei que quando fui falar-lhe, depois de "O Avarento", abracei-o, beijei-o, e disse: "Mesmo sabendo que você é ateu, DEUS TE ABENÇOE". E ele riu, com seus lábios finos, os olhos cheios de bonomia por trás dos óculos, e a personalidade magnífica, tão adorável e inesquecível. (12/10/2017)

88 ANOS DE FERNANDONA

Com Fernanda em 2009, no SESC Vila Nova, durante temporada do monólogo
"Viver sem Tempos Mortos", em que ela comemorou seus 80 anos

A primeira vez que vi Fernanda no teatro foi no Ruth Escobar, com "Dona Doida", em 1990. Na platéia, o amado e saudoso Gianfrancesco Guarnieri. Com 18 anos, eu me vi no meio desses dois titãs. Não posso dizer que foi amor à primeira vista porque eu já os amava há quase dez anos, desde que assisti "Eles não usam Black-Tie" no cinema, e "Cambalacho" na televisão. Guarnieri me marcou desde "Éramos Seis", com Nicete Bruno, mas Fernanda eu fui conhecer melhor e admirar com "Brilhante" e "Guerra dos Sexos". Vá lá o clichê geracional, mas na época os atores de TV  eram uma constelação trazida do teatro, e não das capas de revista ou dos desfiles de moda.

Assisti Fernanda várias vezes depois do espetáculo com poesias de Adélia Prado. O curioso é que ouvia dizer, por más línguas, que ela era estrelona. Pude comprovar, em diversos encontros, que ela é o oposto diametral da estrelona. Fernanda é simples, bem-humorada, divertida e foge de qualquer abordagem que a transforme em algum tipo de monstro sagrado. E assim como as grandes figuras de nosso teatro no século XX, ela é inteligente, culta, lida, e mesmo um dedo de prosa com ela é uma aula magna.

Sua vida até o momento é tão plural, tão rica, tão decente, tão maravilhosa que quase perdôo Fernanda por nunca ter montado um Shakespeare. Ela esteve presente, durante a segunda metade do século XX, em todas os momentos mais marcantes da arte teatral, e sempre do lado humanista, democrático e popular. Há um arrependimento, mas não é dela; é meu. Perdi sua Arkádina.

O aniversário é dela. O presente é nosso: sua vida. Sua carreira. Ela ser brasileira.

Parabéns, querida Fernanda! (16/10/2017)

90 ANOS DE GEORGE C. SCOTT 

George C. Scott, em cena de "A Christmas Carol"

Uma semana de efemérides. Mas eu seria relapso se deixasse passar em brancas nuvens o aniversário de 90 anos daquele que considero o maior ator norte-americano do século XX: George C. Scott. Brevemente escreverei um artigo sobre a filmografia completa de Scott, então aqui me limito a falar sobre meu primeiro contato com seu imenso talento.

O conto "A Christmas Carol", de Charles Dickens, é extremamente famoso nos Estados Unidos e já foi levado à telona e à telinha inúmeras vezes. Lá, o natal não é o natal se a TV não passar "It's a wondeful life", de Frank Capra, e algumas das várias versões de "A Christmas Carol". Ocorre que eu estava nos Estados Unidos em novembro de 1984, quando estreou a mais recente versão para o célebre conto de Dickens; uma produção anglo-americana para TV, dirigida por Clive Donner e protagonizada por George C. Scott, tendo à ilharga um elenco praticamente todo britânico. Sendo fã dos quadrinhos Disney desde tempos imemoriais, minha ansiedade por assistir o filme decuplicou depois de saber que o personagem "Scrooge McDuck" (Tio Patinhas) é diretamente baseado no protagonista de "A Christmas Carol", Ebenezer Scrooge.

Assistir esse filme é uma daquelas experiências que desejamos para os nosso filhos, sobrinhos e crianças em geral. Com apenas 12 anos, conheci Dickens através de um de seus contos mais inspirados, mais maravilhosos, e tendo como guia o gênio que era George C. Scott. Um filme para rir, chorar, refletir, pensar e não esquecer nunca. O conto fala de um homem rico e avarento, solteiro, sem amigos, sem esperança, dessensibilizado pelas decepções que ele próprio provocou, e o encontro sobrenatural que tem, na véspera de natal, com três espíritos: o dos natais passados, do natal presente e dos natais futuros.

Eles mostram a Ebenezer que ele cometeu grandes erros e é parcialmente culpado por sua desdita, mas que no fundo de toda sua teimosia, seu ressentimento e suas mágoas ainda havia uma pessoa boa, com tempo para corrigir os equívocos e recomeçar. Um verdadeiro primor. Hoje em dia, quando assisto esse filme, choro da primeira à última cena. O próprio Dickens se emocionaria em ver o oceano de emoção que a estupenda colaboração entre Donner e Scott (que haviam feito um "Oliver Twist" sem o mesmo sucesso, dois anos antes) produziu, com sua obra.

Nos anos seguintes, utilizando a televisão e o mercado crescente de aluguel de fitas VHS, me aprofundei na filmografia de Scott. Acompanhei sua carreira até o que considero uma morte prematura, em 1999, aos 72 anos.

É fartamente sabido que ele não achava certo o princípio pelo qual atores devem concorrer entre si por um prêmio, então não foi receber o Oscar de melhor ator ganho por "Patton", em 1970. Foi uma atitude corajosa, audaciosa e temerária, que prejudicou sua carreira. Ele tentou explicar mil vezes que não estava recusando o prêmio, e sim pedindo para ser retirado da competição, com a qual não concordava. Hollywood ficou magoada. Acresça-se a isso o fato de Scott ser orgulhoso, saber o talento que possuía, e temos a receita para um casamento dar errado. Scott e Hollywood eram incompatíveis. Ele seguiu trabalhando pelos 30 anos seguintes, mas o fim foi melancólico. Tirando dois ou três filmes, a última década de sua carreira é uma coleção de filmes esquecíveis. Pouquíssimo, pouquíssimo para quem tinha tanto talento.

No fim de sua vida a indústria cinematográfica o esnobou. Hoje é reverenciado como um Deus. Ainda me recordo do "In Memoriam" do Oscar no ano seguinte à sua morte. Quando a imagem de Scott apareceu em filmes espetaculares como "The Hustler" e "Dr. Strangelove", a salva de palmas foi ensurdecedora. Uma coisa linda e tocante. Como sempre, era Hollywood pedindo desculpas...

Too little, too late. (18/10/2017)
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