quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Dirce "Tutu" Quadros (1943/2014)



Jânio e Tutu três dias depois da histórica
vitória do 22 de março de 1953
Mandei o primeiro volume a ela. Morrendo de medo. Sua opinião, sinceramente, era a única que me importava. Liguei dias depois. Perguntei o que ela achou.

"O livro é perfeito", disse ela.

Que bom que ela viveu para ler o volume no qual falo da juventude tão desconhecida de seu pai, e para saber que quem vai contar a história dele é alguém honesto, imparcial, isento, comprometido somente com a verdade, e não com o sensacionalismo.

Guardo só lembranças boas de Tutu. De seu saudoso marido Frank. Da semana que passei com eles na Califórnia. Dos passeios, dos jantares, das fotos, das gargalhadas, das conversas, das confidências, da intimidade fraterna, sobretudo da generosidade de Tutu. Falarei aos poucos. No momento peço licença à minha querida Ana Cláudia para transcrever sua linda mensagem de despedida.

É assim que lembrarei de Dona Dirce.

"Descanse em paz, nossa mãe, que amava a natureza, animais, alimentava pássaros, racoons, mimava o Amor, caprichava nos detalhes, e que acreditava que todos tinham direito à felicidade e a obrigação de procurá-la. Detestava os que se faziam de vítimas, os que julgavam os demais, e quem vivesse pra tentar agradar a todos menos a si mesmo.

Nossa mãe foi uma lutadora. Nessa madrugada venceu sua batalha final. Deixa saudade, exemplo de força, e memórias de momentos muito felizes".

Também transcrevo a mensagem de Ana Laura, citando com tanto acerto o poema "A Fond Kiss", do escocês Robert Burns:

"But to see her was to love her;
Love but her, and love forever."
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Muito obrigado, Dona Dirce, Por tudo!

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Jânio, Ben Gurion e as metamorfoses de Carlos Heitor Cony


Carlos Heitor Cony
Meus caros,não é exatamente uma raridade jornalistas requentarem suas melhores histórias, mas é curiosíssimo o processo pelo qual elas podem aumentar, criar pernas, braços, detalhes, adendos e se alterar completamente nas mãos de seu autor, ao longo dos anos. De vez em quando faz lembrar o proverbial "telefone sem fio", no qual uma história é contada tantas vezes que a última versão já não guarda qualquer semelhança com a primeira. Mesmo quando estamos falando de um dos nossos maiores jornalistas de todos os tempos: Carlos Heitor Cony. Na Manchete nº 1.271, de 28 de agosto de 1976, edição especial sobre os quinze anos da renúncia de Jânio, Cony escreveu um interessante artigo sobre o assunto, dizendo o seguinte:

Em 1962, em Telaviv, Adolpho Bloch foi visitar o seu amigo, o então premier Ben Gurion. O assunto da conversa passou a ser o Brasil, ainda traumatizado pela recente renúncia de Jânio Quadros. Ben Gurion quis saber de Adolpho Bloch os reais motivos do gesto, inesperado e dramático, do presidente que fora levado ao poder por mais de de cinco milhões de votos. As explicações de Adolpho, ao que parece, não satisfizeram Ben Gurion, que comentou: "Não, meu caro Bloch, o ato de Quadros não se justifica. Nunca poderei entender como pôde renunciar o presidente de um país com tanta água".

Em 1995, Cony requentou o artigo; Adolpho transformou-se em "amigo meu" e a impressão de Ben Gurion mudou, literalmente, da água para a terra:

Amigo meu estava em Israel quando Jânio Quadros renunciou. Foi chamado por Ben Gurion, que desejava entender o que estava se passando no Brasil. Recebeu a explicação óbvia: Jânio tinha problemas para governar e preferira ir embora. Ben Gurion arregalou os olhos: "Como ter problemas? O Brasil tem tanta terra!". Nada demais que Ben Gurion não entendesse as dificuldades de um presidente brasileiro. O problema de Israel era terra, terra que precisava ser disputada palmo a palmo contra o deserto, as pedras e os árabes em volta. Já o Brasil era o colosso verde no qual caberiam duas Europas e uns cem Estados de Israel.

Em 2007 Cony voltou ao assunto, só que desta vez a historinha ganhou corpo, cenário, o amigo virou um jornalista que estava em Israel mas não sabia da renúncia, e o grande problema de Israel volta, como por encanto, a ser a água:

Em 1961, um jornalista brasileiro estava em Israel fazendo reportagens quando recebeu, no hotel King David, onde se hospedava, o convite para um encontro com Ben Gurion, patriarca do novo Estado. A entrevista com o homem mais importante do país não estava no roteiro do profissional, mas não havia motivo para recusar o convite. Após os cumprimentos de praxe, cabia a Ben Gurion iniciar a palestra. Na realidade, ele queria entrevistar o jornalista. E começou com a pergunta: "Por que o senhor Jânio Quadros renunciou à Presidência da República?". Tendo saído do Brasil havia mais de 20 dias, o jornalista não sabia ainda que Jânio dera o fora em apenas sete meses de governo. Apelou para a generalidade: "Problemas, muitos problemas, o Brasil tem muitos problemas...". Ben Gurion interrompeu: "Como problemas?! O Brasil tem tanta água... os maiores rios do mundo...". Israel lutava, naquela época - e de certo modo luta até hoje - contra a escassez daquilo que os jornais antigamente chamavam de "precioso líquido", e o Antônio Houaiss, para evitar o lugar-comum, chamava de "ninfa potável".

Jânio e Ben Gurion em 1959

E por fim, em 2014, quase 40 anos depois de contada (até onde pude apurar) pela primeira vez, a história deixou de ser sobre um "amigo" ou "um jornalista" e Cony não apenas virou personagem da história, como ainda trouxe de volta o protagonista da primeira versão, Adolpho Bloch:

Na primeira vez que fui a Israel, em 1961, o grande assunto era a renúncia de Jânio Quadros. Fui com Adolpho Bloch. Ficamos hospedados no King David. A imprensa noticiou a presença de dois jornalistas brasileiros, Adolpho era bastante conhecido naquele país. Era nome de uma escola e do Observatório Nacional. O presidente de Israel era Ben Gurion, que proclamara a criação do Estado judeu em 1948. Ele nos convidou para uma conversa. Logo no início perguntou as razões da renúncia do nosso presidente que estava ainda no início de seu mandato. Com aquela voz inconfundível, Adolpho limitou-se a dizer que Jânio tinha muitos problemas. Ben Gurion ficou espantado, "como pode haver problemas para um país com tanta água". O problema de Israel era ainda - e por muito tempo foi - o do abastecimento da água para a população e para a agricultura - era então um deserto cheio de pedras - mas logo tornou-se uma potência na agricultura, vendendo seus produtos para vários países da Europa.

Fica a dúvida: O que terá dito, de fato, Ben Gurion, nesse encontro, e a quem?

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Guarnieri no SESC do Carmo, ou "Meu dia de Alberto Korda"


Meus caros,
no fim de 2004 a Companhia Teatral "Coisa Boa", fundada pela atriz Magali Biff e pela diretora Dedé Pacheco, firmou uma parceria com o SESC do Carmo para a realização de um evento semanal chamado "Dramáticos Paulistanos". O projeto consistia na leitura de obras famosas ou inéditas de grandes dramaturgos ligados a São Paulo de uma forma ou de outra, sendo que em determinado momento o público era convidado a participar. Segundo Magali, "a proposta é que todos os presentes interessados, sem uma divisão de papéis, leiam um pedaço da obra". Terminada a leitura, havia um bate-papo descontraído com o autor, sobre o texto.

Nas segundas-feiras de novembro e dezembro de 2004 estiveram presentes naquela unidade do SESC autores como Otávio Frias Filho, Fernando Bonassi e Luís Alberto de Abreu. Na segunda-feira, 13 de dezembro, a Folha anunciou que Gianfrancesco Guarnieri encerraria o evento, com a leitura de Eles Não Usam Black-Tie. A apresentação seria às 19 horas, horário complicado em se tratando de um SESC que fica ao lado da Praça da Sé, em pleno horário do rush. Mas o que mais me preocupou foi a lotação: trinta vagas. Cheguei ao SESC pouco depois das sete e a leitura já havia começado. Verifiquei que não se tratava de um teatro e sim de uma sala, e o pequeno público presente, que não excedeu a lotação, fez uma roda, encabeçada por Guarnieri, seu filho Fernando e o elenco da “Coisa Boa” que lia o texto.

O único que reconheci foi David Leroy, velho conhecido dos teatros da vida, interpretando Otávio. Sentei-me e acompanhei a leitura com o prazer inenarrável de ter o mestre ali na minha frente, reagindo com as expressões, ora de surpresa, prazer, tristeza e revolta, como se ouvisse ali, pela primeira vez, o texto que escrevera 50 anos antes.


Quando se aproximava o momento do acerto de contas entre Tião e seu pai, o famoso diálogo em que Otávio se refere a ele próprio em terceira pessoa, alguém da companhia rodou o público distribuindo um texto. Era essa cena, e ficou estipulado que as falas seriam dadas por cada um dos presentes, pela ordem em que estavam sentados. A mim — nunca esqueci — coube dizer: “E deixa ele acreditá nisso, senão ele vai sofrê muito mais! Vai achar que o filho dele caiu na merda sozinho. Vai achar que o filho dele é safado de nascença. Seu pai manda mais um recado. Diz que você não precisa aparecê mais. E deseja boa sorte pra você”.

Guarnieri
A idéia de fazer o público ler o texto é interessante, mas não teve qualquer efeito dramático. Alguns espectadores mal conseguiam ler, seja pela absoluta inexperiência, seja pelo nervosismo. Foi marcante porque lá estava o grande Guarnieri, brindando-nos com sua luminosa presença, infelizmente cada vez mais rara por conta de seus problemas de saúde.

O bate-papo começou morno. Perguntas genéricas sobre seu trabalho. Sentado em meu canto, lembrei-me de Zuza Homem de Melo na bancada do Roda-Viva que entrevistou Tom Jobim. Zuza fez uma declaração linda de admiração e carinho a Tom, falando sobre o privilégio de ser seu contemporâneo. Pedi a palavra. Não poderia reproduzir ipsis literis o que falei no momento, mas ressaltei o extraordinário mérito dele ter escrito a obra-prima que é o Black-Tie quando contava apenas 21 anos, e, inspirado em Zuza, disse a Guarnieri o quanto me sentia privilegiado e orgulhoso de viver na mesma época que ele. O público aplaudiu e estou vendo como se fosse hoje, dez anos depois, a expressão de desconserto de Guarnieri. O aceno de cabeça, em sinal de gratidão, com aquela humildade tão peculiar aos gênios.

Guarnieri, tendo à sua direita o filho Fernando e à esquerda a atriz Magali Biff

Guarnieri e David Leroy
Eu não via Guarnieri desde 1998, mais ou menos, e notei que ele envelhecera bastante. Parecia um pouco cansado mas respondeu todas as perguntas com perfeita lucidez e discorreu sobre os mais variados temas, inclusive comunismo, Brecht, dialética e demais assuntos jogados sobre ele a partir de então, pelo público compacto, mas altamente devotado a ele e a seu trabalho. Tempos depois, David Leroy me contou que não fazia parte da companhia: “Nesse dia eu fui apenas assistir porque vi na programação do SESC que o Guarnieri faria a leitura do seu texto”. O mestre estava escalado para ler o papel de Otávio, que já fizera na versão cinematográfica do Black-Tie, mas uma conversa de última hora com David mudou o elenco: “Ele estava fazendo hemodiálise e se sentiu sem condições físicas para fazer a leitura. Quando fui cumprimentá-lo ele me pediu que lesse por ele. Foi uma honra! Ler de primeira sem nenhum ensaio foi um risco para mim. Mas depois da leitura ele foi generoso e me disse uma frase que não vou esquecer nunca: O personagem está pronto. Vindo isso do Guarnieri, foi lindo! Eu ganhei o dia!”

Guarnieri e Magali Biff, idealizadora do "Dramáticos Paulistanos"

Lágrimas de emoção
ao abraçar o mestre
Com minha fiel câmera, que me acompanhava fazia quinze anos e já começava um processo irreversível de aposentadoria, fotografei a leitura e a interação de Guarnieri, sempre solícito e gentil, com o público. Consegui captar a emoção à flor da pele de uma menina que não segurou as lágrimas quando o abraçou. Tirei uma linda foto dele rindo e quando descobri a Wikipedia, na mesma época, resolvi ilustrar o verbete dedicado a ele com essa foto, deixando apenas o close de seu rosto. Os responsáveis pelo site entraram em contato comigo para perguntar se a foto tinha copyright. “A foto é minha, fui eu que tirei e autorizo reprodução” foi minha resposta. E qual não foi minha surpresa quando a foto passou a ser usada para ilustrar todo tipo de matéria sobre o autor. Divertindo-me horrores por ver minha foto por aí, me senti o próprio Alberto Korda, cuja foto histórica de Che Guevara, tirada em 1960, viralizou depois de publicada inadvertidamente pela Paris Match em 67. Até a Leica M2 usada por Korda era um modelo mais ou menos popular, como minha velha Canon. Só que ao contrário da imagem triste e grave de Che, captada no funeral de 136 pessoas mortas tragicamente na explosão criminosa de um navio que carregava armas para Havana, a imagem de Guarnieri eterniza seu sorriso franco e generoso. É um reflexo de sua bonomia e de seu prazer em estar com o público.


Em dezembro essa foto completará dez anos. Mas este post é minha singela contribuição aos 80 anos que o amado e saudoso Guarnieri completaria no dia 6 de agosto deste ano.

Saudade.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

"Nunca a vassoura foi tão necessária"...




Meus caros,
quando revejo propagandas como esta, da campanha de Jânio Quadros para a prefeitura, em 1985, lembro-me de Norma Desmond: We didn't need dialogue. We had faces! Eu adaptaria a frase para dizer que naquela época não precisávamos de horário eleitoral; nós tínhamos políticos!

Uma frase como "nunca a vassoura foi tão necessária" vale por uma campanha inteira. E embora traga como destaque a vassoura, símbolo utilizado por Jânio e até hoje associado a ele, é atemporal. Vale para 1985, quando a corrupção era localizada e estigmatizava o corrupto, e vale para hoje, quando a corrupção se tornou pedra angular do atual governo.

No mais, Jânio sempre personificou o combate à corrupção e uma autoridade draconiana no exercício do poder. Qualidades que podiam até assustar alguns, mas empolgavam a maioria, sedenta de um governo sério, honesto, disciplinado e disciplinador. Seu rosto grave, de semblante fechado, professoral e ranzinza não inspirava medo e sim confiança.

Sem qualquer estrutura, com as propagandas mais quadradas e antiquadas, e um programa de TV tosco e de baixa qualidade, Jânio venceu FHC, que vinha com marketeiros, consultores, produtores, diretores, o elenco inteiro da Rede Globo, toda a classe artística e intelectual. Um lição de política.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Theda Bara


Enquanto Lilian Gish arrancava lágrimas de piedade
e misericórdia das mulheres, ELA excitava e provocava os homens.
Foi Carmen, Salomé, Cleópatra e dezenas de outras... e foi também
o primeiro símbolo sexual do cinema. Seu nome artístico era tão exótico
e marcante quanto sua beleza: THEDA BARA

Theda Bara, aliás "Theodosia Burr Goodman", foi o primeiro símbolo sexual da telona. Sua beleza robusta, seus figurinos (ou a falta deles), o personagem "The Vamp" no filme "A Fool There Was" (1915) e a nababesca e erótica "Cleópatra" de 1917 (infelizmente perdida) a transformaram em verdadeira divindade do cinema mudo.

Seu nome artístico era um anagrama de "arab death" (morte árabe), suas fotos, sobretudo os retratos promocionais de sua Cleópatra - mostrando seus olhos enormes, transbordando emoção, eloqüentes em sua tragicidade, onde podemos ler um oceano de experiências, vícios e tristezas - são obras-primas da realidade.

Só que nada disso é verdade. Ela era filha de imigrantes e seu nome nada tem a ver com "morte árabe" nenhuma. "Theda" é uma corruptela de "Theodosia" e "Bara" era diminutivo de "Baranger", sobrenome de solteira de sua mãe. Theda foi para o teatro na juventude e de lá para o cinema. E embora fosse a preferida de William Fox (fundador do Fox Films, mais tarde a 20th Century Fox), ela não era uma boneca ôca e manipulável, que o estúdio mastigou, deglutiu e cujo caroço cuspiu sem dó. Ela era inteligente, estudiosa e articulada; contratou sponte própria o curador do Museu Metropolitano de Nova York para ajudá-la na composição de sua Cleópatra, brilhou no cinema o quanto quis, casou-se em 1921, aposentou-se em 1926 e morreu em 1955. Estava esquecida, mas o futuro lhe fez justiça. Seu olhar melancólico e profundo é hoje tão conhecido quanto Chaplin, Valentino ou Garbo.

Theda nasceu há exatamente 129 anos, em 29 de julho de 1885.









Fritz Leiber e Theda

A maravilhosa nudez de Theda e os figurinos que levaram associações femininas
a boicotar "Cleópatra" por não ser "adequado" ao grande público


Theda em 1939, retratada pelo fotógrafo Carl Van Vechten
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terça-feira, 29 de julho de 2014

Entrevista ao BATE PAPO COM CRIS PINHO — 28/07/2014


Meus caros,
ontem participei do programa "Bate Papo com Cris Pinho", que vai ao ar pelo site TV Geração Z toda segunda-feira às 18h00. Esse telejornalismo internético, moderno e descolado está cada vez mais presente em nossas vidas, mas a paulistana Cristina Pinho não é nenhuma novata nesse meio; formou-se em Moda, passou pela Arquitetura de Interiores e pela Fisiologia do Exercício, até chegar à prestigiosa Escola Incenna, onde depurou e cultivou suas três grandes paixões, o Teatro, o Cinema e a Televisão. Com o mais novo diploma na mão, fez participações em debates na Gazeta, trabalhou como atriz e montou o projeto de um programa de entrevistas: "Fui convidada por amigos que conheci na época e como eu estava querendo desenvolver um projeto meu, achei interessante começar na webtv, uma vez que é tão burocrático entrar nas tv's abertas", diz ela.

"Bate Papo com Cris Pinho", toda segunda
às 18h00, na TVGZ

E de sua estréia na AllTV, passando em seguida pela JustTV e chegando, agora à TVGZ, lá se vão sete anos entrevistando artistas, escritores e toda uma gama de profissionais das mais variadas áreas. Seu programa é democrático, fala-se de tudo e só lamento que não seja mais longo, ou que não tenha mais edições durante a semana. É justamente essa abrangência de temas que faz do programa de Cristina, e de poucos outros, uma trincheira de resistência cultural na qual confraternizam atores, cantores, poetas, criadores e intelectuais que nem sempre vão encontrar guarida ou interesse na grande mídia.

Com Octavio Pinho e sua esposa Cristina Pinho 

Durante nossa conversa não falamos só de Jânio. Analisamos o processo de pesquisa, o dever do biógrafo, a invasão da privacidade do biografado, o binômio "bom senso/ bom gosto", a utilização criteriosa da informação, os blogs, o teatro e uma série de outras coisas. Foi um prazer bater esse papo com Cristina, e espero que este seja o primeiro de vários. Abaixo vai o release divulgado pela TVGZ:
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Biografia: Jânio “Vida e Morte
do Homem da Renúncia”


Cris Pinho conversa com Bernardo Schmidt que é historiador e jornalista, tendo artigos e ensaios publicados em diversos jornais de São Paulo. Pesquisador de Política e Teatro, a biografia de Jânio – "Vida e Morte do Homem da Renúncia" é seu primeiro livro. Nesta investigação inédita sobre a juventude de Jânio e o caminho trilhado por ele para se tornar um dos maiores fenômenos da política brasileira em todos os tempos (bem como os próximos volumes, que cobrirão detalhadamente a existência do mato-grossense até sua morte), mais de 600 livros foram consultados, milhares de edições de jornais de oito décadas diferentes, documentação até hoje desconhecida e entrevistas com mais de 130 pessoas.


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Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia
Vol I: "Um Moço Bem Velhinho"
de Bernardo Schmidt
Editora O Patativa - 350 pgs ilustradas
R$ 30,00 (Frete incluso para todo o Brasil)

Compre através do e-mail editora.opatativa@gmail.com
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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Jânio Quadros, o vereador que virou presidente


Meus caros,
é com prazer que recomendo a vocês esta matéria da excelente Revista Apartes, "publicação jornalística da Câmara Municipal de São Paulo, sem fins lucrativos, cujo objetivo é levar ao público os temas em discussão no Parlamento". É sobre o primeiro cargo político de Jânio, a vereança, que ele exerceu entre 1948 e 1951.

Como o segundo volume da biografia de Jânio falará exatamente desse período, tive uma excelente prosa com o competente jornalista Fausto Salvadori Filho. Falamos sobre os mais variados aspectos da passagem de Jânio pela Edilidade: as polêmicas, as brigas, os discursos, e mais um punhado de assuntos que detalharei com absoluto ineditismo. O texto ficou ótimo! Rico e dinâmico. Obrigado Fausto e obrigado Rodrigo Garcia! NOTA DEZ!
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vereador que virou presidente

Das bandeiras curiosas às ameaças de renúnciaJânio Quadros anteci-pou na passagem pela CMSP marcas da sua carreira política
Fausto Salvadori Filho | fausto@camara.sp.gov.br

EM 1948 - Jânio concede entrevista no primeiro ano de mandato na CMSP

Dentro do carro, o olhar vesgo do jovem vereador Jânio Quadros se fixou numa quitanda da Rua Líbero Badaró, no centro de São Paulo. “Pare o carro, Chico”, pediu ao dono do automóvel, o também vereador Francisco Assumpção Ladeira. Os dois haviam acabado de almoçar juntos, na casa de Jânio, onde Chico se impressionara com a pobreza do colega, evidente na comida simplória e no sofá com molas saltando para fora do estofamento.

FISCAL - Com repórter do Diário da Noite, examina
pinguela na Vila Clementino, em 1949 (Iconographia)
Jânio desceu do carro e foi até a quitanda. Perguntou ao português dono do estabelecimento se poderia levar um abacaxi estragado que estava jogado em uma cesta. O proprietário estranhou o pedido, mas deixou que o vereador saísse de lá com a fruta podre enrolada em jornal. Jânio voltou ao veículo e foi com Chico até a Câmara Municipal de São Paulo (CMSP), que, nos anos 40, funcionava no Palacete Prates, no Vale do Anhangabaú.

No plenário, pediu a palavra. Diante do microfone, brandiu o abacaxi podre e disse que havia flagrado a fruta sendo vendida pelo comércio. Fez um discurso inflamado em que denunciou a baixa qualidade dos produtos oferecidos ao público paulistano. “Foi fazendo essas coisas que ele chegou a presidente da República”, concluiu Ladeira, ao contar a história em entrevista de 2008, três anos antes de morrer.

Entre janeiro de 1948 e março de 1951, período que marcou a estreia de Jânio Quadros na vida política, como vereador da primeira legislatura da CMSP após o fim da ditadura do Estado Novo, ele já adotava aquelas que seriam as principais marcas de toda a sua carreira.

ASCENÇÃO RÁPIDA

O vereador Jânio Quadros abraçou bandeiras que misturavam reivindicações típicas da esquerda e da direita. Ao mesmo tempo em que denunciava as condições de vida miseráveis do “proletário” e atacava as grandes corporações, pedia a intervenção do Estado para resolver todos os problemas do povo. Também lutava por causas curiosas que tivessem uma pegada moralista, incluindo o combate à exibição de seios nas telas de cinema e à venda de histórias em quadrinhos nas bancas de jornais.

CAMPANHA - Jânio durante comício de 1985, no Clube Esperia, ano em que se elegeu novamente prefeito de São Paulo (Acervo CMSP)

Após deixar a vereança, Jânio precisou de apenas dez anos para chegar à Presidência da República, passando pelos cargos de deputado estadual, prefeito e governador. Mas se a ascensão foi meteórica, o auge foi fugaz. No Palácio do Planalto, voltou a levantar bandeiras incomuns, com cores moralistas. Criou leis que proibiam as brigas de galo, os maiôs em concursos de misses e os biquínis nas praias. Também embaralhou direita e esquerda ao combinar uma política interna conservadora com uma política externa independente, que buscou a aproximação com países comunistas e condecorou o então ministro Ernesto Che Guevara, um dos líderes da Revolução Cubana. Em 25 de agosto de 1961, renunciou à Presidência, após sete meses no cargo.

“Jânio Quadros acreditava que o Congresso e os ministros militares não fossem aceitar a sua renúncia, afinal, no passado, todas as vezes em que havia exercido esse ato, tinha sido imediatamente reconduzido ao poder, conseguindo melhores posições políticas”, relata a cientista social Vera Chaia, no livro A Liderança Política de Jânio Quadros (1947-1990). O presidente sabia que os ministros militares, alinhados com os interesses norte-americanos, teriam dificuldade para engolir seu vice, João Goulart, com perfil ligado à esquerda. Afonso Arinos de Mello Franco, ministro de Jânio, e o amigo J. B. Vianna de Moraes, citados pela autora, afirmam que ele apostava que as Forças Armadas assumiriam o controle do País e o chamariam de volta à Presidência, politicamente fortalecido.

Mas o blefe foi levado a sério e Goulart tornou-se presidente, apenas para ser deposto três anos depois, em 31 de março de 1964, com um golpe de Estado. Era o começo de uma ditadura militar que só acabaria em 1985. Neste mesmo ano, Jânio comemorou sua última conquista política, ao ser eleito, pela segunda vez, prefeito de São Paulo (veja mais na linha do tempo).

DESMAZELO E CASPA

NA CÂMARA - Em 1985, durante evento em auditório
do Palácio Anchieta 
(Acervo CMSP)
O joguinho da renúncia era uma mania anterior à política. “Em uma das escolas onde trabalhou, chegou a demitir-se mais de uma vez, irritado com qualquer coisa, apenas para aparecer na mesma escola no dia seguinte pontualmente, na hora da aula, como se nada tivesse acontecido”, descreve o primeiro volume da obra Jânio: Vida e Morte do Homem da Renúncia, biografia com milhares de páginas que vem sendo escrita e editada por Bernardo Schmidt. A trajetória de Jânio como vereador é o tema do segundo volume da obra, que deve ser lançado neste ano.

Formado em Direito no Largo São Francisco da Universidade de São Paulo, Jânio trabalhou como advogado, mas o grosso da sua renda vinha das aulas de geografia e português que dava em colégios como Dante Alighieri e Vera Cruz. Orgulhava-se de ser “um professor muito austero”, que não permitia meninas de batom em suas aulas e obrigava os alunos atrasados a entrarem pela janela. Apesar da dureza, era um mestre querido, tanto que os alunos foram seus principais cabos eleitorais quando decidiu se lançar candidato pela primeira vez, em 1947, pelo pequeno Partido Democrata Cristão (PDC).

BIÓGRAFO - Bernardo Schmidt conta que o vereador Jânio
ameaçou renunciar três vezes (Fábio Lazzari/CMSP)

Logo na sua primeira campanha, ele tratou de se mostrar como um representante da classe trabalhadora que começava a encher as periferias de São Paulo. Apesar do português empolado de professor das antigas, mantinha uma aparência descuidada que passava a imagem de um homem simples. Durante a campanha e mesmo depois de eleito vereador, apresentava-se com “cabelos compridos, despenteados, barba até de 15 dias por fazer, roupa amarrotada, suja, gravata com laço feito há meses, enfim, um homem desleixado, com noites mal dormidas”, descreve J. Viriato de Castro em O Fenômeno Jânio Quadros.

O aspecto desleixado, consequência real de uma campanha pesada conduzida por um homem sem recursos, com o tempo se tornou um instrumento de marketing. Para continuar a pagar de homem do povo, Jânio adotou o desmazelo como uniforme pelo resto da vida política. Chegava a simular que havia caspa sobre os ombros do terno escuro para parecer mais humilde.

LIBERAL ATÉ CERTO PONTO

A campanha modesta do candidato desarrumado foi vitoriosa. Jânio elegeu-se vereador com 1.707 votos, suficientes para uma cadeira no Parlamento paulistano. Em 31 de dezembro de 1947, na véspera da posse da nova Câmara Municipal, uma decisão da Justiça Eleitoral cassou os mandatos de 15 vereadores comunistas do Partido Social Trabalhista (PST). Surgiu aí a lenda de que Jânio teria sido eleito como suplente e empossado graças a essas cassações. Uma mentira que ganhou pernas longas e foi repetida em quase todas as biografias do político, exceto a mais recente, de Schmidt.

Na Biblioteca da Câmara (Fábio Lazzari/CMSP)

Em comum com os comunistas, Jânio disputava o voto das classes trabalhadoras. Ia a diferentes bairros da cidade, de Perus à Mooca, além de visitar os locais de trabalho dos operários, para depois denunciar na tribuna e nos jornais como essas pessoas moravam e trabalhavam mal em São Paulo. “O proletário está condenado a nascer e morrer proletário, e na sua pobreza só consegue empobrecer mais”, afirmou em discurso na tribuna.

A atuação de Jânio teve características de parlamentar de esquerda, tanto que o seu principal parceiro de legislatura era o vereador Cid Franco, do Partido Socialista Brasileiro (PSB). Só que Jânio não queria saber de denunciar o sistema econômico ou propor revoluções. Ele se definia como “um liberal na concepção boa do vocábulo”, embora costumasse propor a ação do Estado como “agente político controlador, fiscalizador e educador da sociedade” para a resolução da maioria dos problemas, como afirma Vera Chaia. Um Estado que, para a população, apareceria encarnado na humilde figura de Jânio, o político moralizador. Surgia uma das bases do janismo: a crença, segundo a autora, num “líder que poderia resolver os problemas nacionais”.

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O PERIGO DO POPEYE

Jânio não era nada liberal quando se tratava de pedir a ação do Estado contra os que considerava os inimigos da saúde física e moral do povo brasileiro. Esses adversários podiam assumir várias formas, de refrigerantes a marinheiros comedores de espinafre.

Ele denunciou em seus discursos a Coca-Cola, a qual chamava de “purgante”, e também o remédio Melhoral, que, na época, usava o slogan “É melhor e não faz mal”. Com base numa reportagem do Diário da Noite, o vereador rebateu dizendo que o remédio “é pior e faz positivamente mal”.

As histórias em quadrinhos receberam ataques ainda mais violentos. Para o parlamentar, personagens como o marinheiro Popeye ou o homem das cavernas Brucutu estimulavam a violência e faziam “um trabalho de desagregação lento, mas seguro”, que acabaria, depois, “na irreparável delinquência de reformatórios e penitenciárias”.

Cinemas, circos, teatros e bingos também entraram no alvo da metralhadora moralista de Jânio. O filme checo Êxtase, de 1933, em que a atriz Hedy Lamarr mostrava os seios, foi denunciado num pronunciamento em que criticou “as produções obscenas, que constrangem, envergonham e revoltam a assistência desprevenida do conteúdo dessas películas”. No caso dos bingos, tratava-se de um jogo que ameaçava “infeccionar o pouco que permanecia bom na sociedade”, enquanto os espetáculos de circo exibiam “imoralidades gritantes”.

Sobre uma peça de teatro de revista estrelada por Dercy Gonçalves, que considerava “pornográfica” e “imoralíssima”, Jânio lamentou que não sofresse repressão da polícia. “Ei-la aqui, sem nenhuma interferência da autoridade policial, que só existe para perseguir operários”, disse.


Outra marca dele era a teatralidade. Gostava de transformar suas falas na tribuna em performances, fosse com gestos grandiosos, palavras difíceis ou mesmo levando objetos. Além do abacaxi estragado, Jânio carregou para o Palacete Prates um paralelepípedo recolhido na rua para denunciar o descuido da administração com o calçamento e até um enorme pedaço de carne malcheirosa, que, segundo ele, estaria sendo vendida num mercadinho da Vila Maria.

JOGO DE CENA

Altimar Ribeiro de Lima
Jânio soube tirar proveito até de um murro que recebeu do vereador Altimar de Lima. O motivo da briga era o Projeto de Lei 234/1949, que previa uma série de incentivos para clubes esportivos e que despertou manifestações contrárias de estudantes nas ruas, parecidas com os protestos dos movimentos contra a Copa do Mundo deste ano. Contrário ao projeto, ele havia batido boca com o colega Carlos Fairbanks, a quem chamou de “fascista”.

Tomando as dores de Fairbanks, Altimar passou a discutir com Jânio e desferiu um murro no colega, que caiu para trás e bateu a cabeça, sofrendo um pequeno corte. Sangrando, Jânio não só continuou na tribuna, como aproveitou para anunciar: “Este projeto só passará com as marcas do meu sangue”.

Brigas como essa estavam longe de ser raridade naquela época. “Era comum os vereadores brigarem fisicamente no plenário. Muitos iam para o Palacete Prates armados”, aponta Schmidt. Ele lembra que o próprio Jânio, na mesma legislatura, trocou socos com Cantídio Sampaio e José Estefno.

Entre os jogos de cena que gostava de fazer estavam as ameaças de renúncia. Segundo Schmidt, a primeira ocorreu no início do mandato, quando foi criticado nos jornais por apoiar uma decisão que criava salário para os vereadores, que até então trabalhavam sem receber. Numa entrevista ao jornal Diário da Noite, afirmou que estava magoado com as críticas e pensava em deixar o cargo.

Em 23 de fevereiro de 1948, Jânio apresentou, na Comissão de Defesa da Saúde e Economia do Povo, dois requerimentos em que questionava os gastos da Prefeitura, que acabaram adiados. Diante disso, o vereador tomou a palavra para anunciar “a renúncia, em caráter irrevogável” do cargo de membro da comissão, decisão que revogou minutos depois. Em 16 de abril, Jânio anunciou que renunciaria a duas comissões especiais por estar “adoentado”, de novo em “caráter irrevogável”. Alguns vereadores pediram que reconsiderasse, em nome do “bem-estar geral da coletividade paulistana”. Novamente revogou o irrevogável, e manteve-se no cargo politicamente fortalecido.

As três ameaças eram puro jogo de cena. Jânio só renunciou de verdade à vereança em março de 1951, para assumir a cadeira de deputado estadual na Assembleia Legislativa de São Paulo, onde prosseguiu na sua trajetória política.

Em 1961, tentou aplicar o mesmo blefe da renúncia no Planalto. Do mesmo jeito que fez quando era professor, e quando foi vereador. O jogo de presidir um país durante a Guerra Fria, contudo, era mais complicado do que ele estava habituado. Sua manobra não deu certo. Só serviu para abrir caminho a uma crise que, três anos depois, desembocou numa sangrenta ditadura militar.

Nome de medalha em homenagem aos GCMs

A Câmara promulgou, em 14 de maio deste ano, a Resolução nº 2, que cria a Medalha Jânio Quadros, com o objetivo de homenagear “guardas civis metropolitanos que se destacarem em ações benéficas aos munícipes da cidade de São Paulo”, além de “personalidades civis e militares da sociedade paulistana”.

A medalha, proposta pelos vereadores Coronel Telhada (PSDB) e José Américo (PT), leva o nome de Jânio por ele ter sido o prefeito que criou a Guarda Civil Metropolitana, em 1986. A entrega da medalha ocorrerá, anualmente, em 15 de setembro ou em data próxima.

Saiba mais:

Livros

O Fenômeno Jânio Quadros. J. Viriato de Castro. Edição do autor, 1956.
Jânio Quadros: O Prometeu de Vila Maria. Ricardo Arnt. Ediouro, 2004.
Jânio: Vida e Morte do Homem da Renúncia. Volume 1: Um Moço bem Velhinho. Bernardo Schmidt. O Patativa, 2011.
A Liderança Política de Jânio Quadros. Vera Chaia. Humanidades, 1991.
São Paulo na Tribuna: Primeira Legislatura (1948-1951). Luiz Casadei Manechini (organizador). Câmara Municipal de São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 2012

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Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia
Vol I: "Um Moço Bem Velhinho"
Bernardo Schmidt
Editora O Patativa
350 pgs ilustradas
R$ 30,00 (Frete incluso para todo o Brasil)

Compre através do e-mail editora.opatativa@gmail.com
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Ver também:
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terça-feira, 15 de julho de 2014

Jânio Quadros - "Revista da Semana", 23/5/1953

Capa da "Manchete" anunciando a vitória
 de Jânio no pleito de 22 de março de 53
Meus caros,
Jânio acabava de tomar posse na prefeitura de São Paulo depois de memorável campanha (a célebre campanha do "Tostão Contra o Milhão") e vinha demonstrando, a cada ato, total independência dos partidos e compromisso único com o povo. Isso significava romper a pauladas uma estrutura de corrupção montada por Adhemar de Barros desde 1947. Neste texto da "Revista da Semana", vemos que as medidas moralizadoras de Jânio, com apenas um mês de mandato, vinham sendo compreendidas pela população e agradando em cheio os paulistanos.

Curiosamente, a leitura desse belo elogio, honesto e desinteressado, pois realizado fora do período eleitoral, me remeteu a uma única pessoa: o Ministro Joaquim Barbosa. Trechos como este, explicando que "quando surge no cenário da administração brasileira, um homem que tem a coragem moral de enfrentar a desordem e se apresenta com fortaleza de espírito capaz de pôr fim a certos hábitos de licenciosidades já crônicas, toda a nação fica perplexa no primeiro choque, seguindo-se um sentimento de entusiasmo renovador", dão a impressão que o artigo foi escrito ontem, descrevendo a reação dos brasileiros - horrorizados com a corrupção do PT - no momento em que Barbosa começou a mandar um por um dos mensaleiros para a cadeia.

Leiam. É pena que o texto venha sem assinatura.
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A PERSONAGEM DA SEMANA

Nada mais dignificante para um administrador público, nem mais precioso para a comunidade, do que a firmeza de caráter, a probidade funcional dentro dos preceitos da lei. Todos sabemos como os nossos homens públicos cedem às injunções partidárias, a empenho de amigos, a influências superiores, infringindo dispositivos legais, esquecendo que a coisa pública não é propriedade de quem governa, mas sim, um direito do povo, em benefício da ordem geral. Se as leis são manejadas ao sabor de poderosos do dia, subordinadas ao arbítrio dos que estão na posse do poder, então a comunidade descamba, desastradamente, para a anarquia, desaparece a disciplina administrativa, e a política desce à degradação dos conventilhos entre compadres, com geral desmoralização pública.

Joaquim Barbosa
Quando surge no cenário da administração brasileira, um homem que tem a coragem moral de enfrentar a desordem e se apresenta com fortaleza de espírito capaz de pôr fim a certos hábitos de licenciosidades já crônicas, toda a nação fica perplexa no primeiro choque, seguindo-se um sentimento de entusiasmo renovador, restaurando-se nos horizontes de nossas esperanças, a fé no futuro do país, pelo saneamento de nossos costumes, a confiança na restauração moral do Brasil.

Pois esse homem é hoje o Sr. Jânio Quadros, cujas atitudes na prefeitura de São Paulo só merecem o apoio irrestrito de todos os brasileiros. O chefe do executivo do município de São Paulo, embora pertença a um partido político, como administrador, não compreende que sua função fique subordinada a interesses que não sejam os do povo de sua terra. Homem que se notabilizou pelas atitudes enérgicas, tem-se imposto à admiração do país, como um caráter inquebrantável, sobrepondo a tudo, a disciplina e a moral do seu governo.
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